sábado, 21 de Abril de 2012

A escrita da ruína de Dulce Maria Cardoso








Atração da Flip este ano, a portuguesa lança no Brasil o aclamado romance ‘O retorno’, sobre as perdas de uma família que, como a sua, foi obrigada a deixar Angola em 1975
 
O Rui da infância de Dulce Maria Cardoso teve os dois irmãos assassinados durante a guerra de independência de Angola, os nomes citados entre os desaparecidos que todas as noites a rádio listava antes da novela “Simplesmente Maria”. O Rui da literatura de Dulce Maria Cardoso imaginava se o pai, que ficara em Luanda e do qual não tinha notícias, estaria um dia naquela lista que sua irmã ouvia impacientemente todas as noites, antes de “Simplesmente Maria”, na sala de convívio de um hotel cinco estrelas em Estoril, Portugal. O Rui da literatura foi batizado em homenagem ao Rui da infância da escritora portuguesa, que, depois de viver dos 6 meses aos quase 11 anos em Angola, foi obrigada — ela e meio milhão de moradores das colônias de Portugal — a voltar para uma terra onde praticamente não havia estado. Era 1975, fim da guerra de independência de Angola, e uma nova guerra civil estava por vir. Foi nessa época que, a inventar histórias para fazer a vida mais suportável, Dulce decidiu que um dia seria escritora.

Seu Rui inventado tem 15 anos e é o narrador de “O retorno”. O romance, celebrado por jornais de Portugal como um dos melhores de 2011, chega ao Brasil no fim deste mês pela Tinta-da-china, editora portuguesa que acaba de aportar por aqui, e que em junho lançará “Os meus sentimentos”, também de Dulce. A autora, que no início de julho participará da décima edição da Festa Literária Internacional de Paraty (Flip), sempre soube que um dia escreveria sobre a experiência de “retornada”, mas não queria que seus leitores fossem como “aquelas pessoas que abrandam para verem um acidente e se emocionarem”. Após uma antologia de contos e três romances — o primeiro, “Campo de sangue”, foi publicado no Brasil pela Companhia das Letras — ela achou as palavras.

— Costumo dizer que me tornei escritora por causa dos acontecimentos que narro neste livro, mas não queria utilizar essa matéria sem mais. Demorei muito tempo até encontrar uma proposta de reflexão sobre o que ocorreu. E a proposta foi um livro sobre a perda e sobre todas as fases que uma perda tem — conta Dulce, por telefone, de Lisboa.


“Rui é o imperativo do verbo ruir”

Rui perde a casa com roseira, a cadela Pirata, as pitangas e o mar quente, as roupas coloridas, os amigos que vão para o Brasil e a África do Sul. E o pai, que não sabe se volta. Rui ganha o crepúsculo sem fim, um mar tão azul porém gelado, um casaco branco e largo para suportar o frio de sangrar os lábios e o estigma de retornado, compartilhado com outros que vivem um tanto amontoados, fazendo filas para comer, num hotel cinco estrelas pago pelo Instituto de Apoio ao Retorno dos Nacionais. Ali — “o império estava ali, naquela sala, um império cansado, a precisar de casa e de comida, um império derrotado e humilhado, um império de que ninguém queria saber” — fica à espera de outra vida por mais de um ano, dormindo com a irmã e a mãe e repetindo, para ver se acredita: “um quarto pode ser uma casa e este quarto e esta varanda de onde se vê o mar é a nossa casa”:

— Quando estava a escrever percebi que Rui é o imperativo do verbo ruir. Esse era o nome certo. Porque o que eu assisti foi o império ruir. Eu assisti ao monstro em seu movimento de queda final. 


Escritora vê seu país sem rumos e cria protagonista adolescente como alguém capaz de redefinir o futuro

Dulce Maria Cardoso nega que tenha escolhido um personagem masculino para fugir do tom autobiográfico. Sabia que de todo modo se procurariam as semelhanças entre o romance e sua própria história — como acontece mesmo quando não há relação alguma. Além de ter crescido “assombrada” pela história do Rui de sua infância — que reencontrou há pouco tempo, por conta de uma entrevista na televisão —, era para ela um desafio pensar na diferença de gênero, que é mais marcante na adolescência, sobretudo quase 40 anos atrás.

O narrador adolescente ainda lhe servia ao propósito de pensar na possibilidade de reconstrução do que ruiu. Rui vai buscando palavras para os silêncios a sua volta, como os da doença da mãe e da ausência do pai. Angola é “lá”, Portugal é “cá”, e a política e a guerra que estão por trás de todas as mudanças em sua vida são “isto”. “Desde que isto começou”, repete o narrador.

— Os países em crise ou em convulsões são como os adolescentes, podem redefinir o que querem para seu futuro. E portanto um país em crise como Portugal foi em 1975, e como infelizmente está a ser outra vez agora, é um país sempre adolescente, porque pode fazer escolhas, haja vontade e sabedoria suficientes, o que neste caso parece não ter havido — afirma Dulce, com uma amargura recorrente em relação à história de Portugal. — Nunca exorcizamos o império. Não pensamos sobre o que fomos, estamos quase sem referências, então dificilmente sabemos do nosso lugar no futuro.

Brasil como lugar mítico, na vida e no romance
Dulce passou muito tempo assim, sem saber de seu lugar no futuro. Saiu de Angola na ponte aérea que durou até 11 de novembro de 1975, dia da independência, para viver com os avós de que não tinha memória em Trás-os-Montes, região onde nascera, no Norte de Portugal. Depois viveu dois anos com os pais, a irmã e outros retornados num hotel em Estoril. Não tem como saber se teria se tornado uma escritora fosse outra sua história, mas acredita que não.

— A realidade foi se tornando insuportável, principalmente porque Trás-os-Montes em 1975 era uma coisa terrível em termos de isolamento. E para mim não foi só perder os amigos, o clima, todos os sabores que eu conhecia. Foi também perder a própria família nuclear — conta. — Eu tornei-me a minha primeira personagem, porque comecei a inventar histórias para meu dia a dia como se estivesse a viver aventuras. Era a única maneira de a realidade me ser suportável. Aprendi a construir personagens sendo eu a primeira, e depois percebi essa coisa maravilhosa de que as histórias iam comigo para todo lado.

Sem livros em casa, Dulce não sabia como dar forma àquelas histórias. Matriculou-se num curso de datilografia, ao lado de senhoras que queriam ser secretárias, e continuou sem saber. Então passou a frequentar bibliotecas, escolhia os livros mais grossos para não ter que ir e voltar a toda hora, e lendo “de forma caótica” descobriu Dostoiévski e estremeceu com “Madame Bovary”, imaginando se aquele enredo poderia acontecer com sua mãe e sua tia. Só depois de se formar em Direito e trabalhar cinco anos como advogada, porém, ela passou a se dedicar inteiramente à escrita.

— Sou uma improbabilidade — brinca.

Bolsas e prêmios aos poucos mudaram as probabilidades. Grande parte de “O retorno” foi escrito com uma bolsa na Alemanha. Quando voltou a Portugal, diz Dulce, o país já estava sob intervenções econômicas, e foi uma coincidência lançar um livro que fala do fim do império português justo no “fim do ciclo do sonho europeu”. Ao falar da descolonização, ela conta uma história que não costuma ser conhecida. Dulce volta e meia recebe mensagens de portugueses que nunca souberam das mais de meio milhão de pessoas que tiveram que sair das colônias de Portugal — de Moçambique, diz ela, houve retornados que já viviam lá havia três gerações.

Nem lá nem cá, os retornados eram vistos como exploradores pelos angolanos e como portugueses de segunda categoria pelos da metrópole. Alguns apoiavam a independência do “povo oprimido por cinco séculos”, como diz no livro o tio de Rui, outros consideravam os soldados portugueses traidores, mas todos, de forma geral, faziam de si mesmos uma brutal diferenciação com “os pretos”.

— Se há racismo em Lisboa em 2012, como se pode pensar que em 1975 não havia? Era uma colônia, e portanto havia uma situação desequilibrada de poder. E todos os racismos partem acima de tudo de um grande desequilíbrio. Não era ostensivo como na África do Sul, mas havia um racismo que ainda hoje há, e que talvez seja o mais difícil de combater, que é o racismo de oportunidades — diz Dulce, ressaltando que seu objetivo nunca foi prestar contas, até porque está muito mais preocupada com os racismos e exclusões de hoje do que com os de 1975, com os fins de hoje em Portugal do que com o fim do império.

Naquele tempo de infância, quando o frio de Portugal e as saudades de casa apertavam, Dulce sonhava que sua família poderia ir para o Brasil. No livro, o país aparece como esse espaço de sonho, que ela realizou ao vir ao Rio na Bienal de 2005. Volta em julho a Paraty, ainda com uma ideia mítica de país à sua frente, de um lugar onde “está tudo ainda a acontecer”, enquanto Portugal se mantém “no canto da Europa, sempre a empurrar o horizonte”.

— Toda gente achava que o Brasil era uma repetição do que tínhamos perdido, por causa do clima, da maneira de ser... Depois o Brasil veio a ter conosco através das novelas, por um tempo o Brasil tinha uma grande importância, era muito bem visto e popular por aqui. Infelizmente depois, quando começou a imigração brasileira... já não é tanto — observa.

A Angola, nunca mais voltou:

— Infelizmente, e isso é uma marca do nosso processo de descolonização, Angola ficou entregue a uma guerra civil terrível, que agora já acabou, mas ficou com um regime que não é confiável... O regime angolano faz com que eu não volte lá.  DAQUI

1 comentário:

Antº Rosinha disse...

Agora que estamos nas vésperas de 37º aniversário do 25 de Abril ainda há gente e até jornalistas que fazem perguntas se "devia haver outro 25 de Abril".

Quando o que deviamos todos perguntar porque não se faz "um 26 de Abril"

Porque o que correu mal não foi o 25, Salgueiro Maia foi impecável e digno, o que se seguiu já não é responsabilidade dele.

O 25 de Abril ainda foi um movimento integrado dentro da tal ordem "para Angola e em força".