quinta-feira, 12 de Setembro de 2013

Independência e fuga de Angola

Por entender que se enquadra neste tópico porque é histórico e muita gente deve ficar a conhecer não só fotos, mas momentos bons e maus, e sem qualquer conotação política, ideológica ou racista deixo aqui um texto de Aida Viegas, Abandonar Angola. Um olhar à distância. Aveiro, 2002, pp. 101-112. que tive conhecimento por Ruca in "Mazungue
Analisando um pouco a situação logo se chegava à conclusão do motivo pelo qual a maioria dos que agora regressavam das ex-colónias, tinham ido lá parar. “Rapidamente e em força para Angola” foi a voz de comando do primeiro ministro português em mil novecentos e sessenta e um, quando ocorreram os fatídicos acontecimentos perpetrados no norte de Angola e extensivos à capital da província. Foi porém demasiado tardia esta ordem.

Se em lugar de ser dificultada a ida dos portugueses do continente para o ultramar como foi durante muitos anos com processos demorados, chegando ao cúmulo de ser necessária uma carta de chamada enviada por um familiar que lá residisse há um certo tempo para que outro membro da família se lhe pudesse juntar, tivessem sido criadas condições de incentivo à ida e fixação de muitos mais portugueses para aquelas paragens, talvez as coisas tivessem sucedido dum outro modo. A política ultramarina portuguesa pecou muito por omissão e falta de actualização.

Apesar de tudo a maior parte dos jovens militares que partiram convocados pelo governo da nação seguiu, uns mais receosos que outros, alguns mesmo com uma certa revolta mas a maioria porém, com a noção de que iriam defender uma parte integrante do território nacional, em auxílio dos compatriotas ali nascidos ou radicados cuja integridade física estava a ser ameaçada, enfim, cumprir um dever patriótico ao qual ninguém se deveria eximir.


A noção de patriotismo e do cumprimento do dever acompanhou-os e fê-los lutar com valentia no momento da refrega, porém, o conhecimento daquele povo e daquelas terras aos quais, sem dar por isso, se vieram a afeiçoar e a estimar enfeitiçaram muitos deles a tal ponto de trocarem o seu torrão natal por aquelas paragens africanas, elegendo-as, para ali se radicarem e alguns até constituírem família.

Enquanto, até mil novecentos e sessenta e um, grande parte dos colonos que partiram para o ultramar eram gente ligada à terra, que dela viviam e nela trabalhavam, a partir desta data já não era bem assim; muitas pessoas formadas com cursos médios e superiores, quadros qualificados das mais diversas áreas, radicaram-se nos territórios portugueses ultramarinos, facto que deu origem a uma nova maneira de estar, novas formas de vida e um novo desenvolvimento sem precedentes na história daqueles povos.
Na história de Portugal ensinava-se que Angola bem como todas as outras províncias ultramarinas constituíam parte integrante do grande império português que nos fora legado pelos nossos corajosos e gloriosos antepassados que deram novos mundos ao mundo através dos descobrimentos e eram senhores de aquém e além mar.

A noção de patriotismo do cidadão português, pesava muito na formação dos jovens sendo, como é natural, mais arreigada nos militares, porém, o facto destes terem partido em defesa de um bem comum, começou a esbater-se ao longo dos anos bem como a ligação directa que estas circunstâncias tiveram com a deslocação maciça de muitas de suas famílias para o ultramar.

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Os valores da nossa sociedade, com a revolução de vinte e cinco de Abril, estavam a mudar vertiginosamente e nem todos para melhor. 


A dificuldade em transferir dinheiro de Angola para o Continente constituiu sempre um obstáculo difícil de contornar à maioria das pessoas que optaram fazer de Angola a sua terra.

A falta de liberdade na circulação de bens entre o ultramar e o continente embora fosse justificada, até determinada altura, com a intenção de reter o capital em solo africano para que aí fosse investido, a partir do momento em que se pensou na independência das províncias ultramarinas deveria ter sido de imediato modificada a fim de garantir os direitos dos cidadãos portugueses que lá residiam. Tal medida não tendo sido tomada, originou uma verdadeira catástrofe para quem foi forçado a abandonar África.

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Nesta altura dos acontecimentos, dadas as circunstâncias das mudanças políticas ocorridas em Portugal, é de todo incompreensível que a transferência de capitais não tenha sido permitida. É intolerável que as pessoas que voluntária ou involuntariamente quisessem abandonar Angola, Moçambique, Guiné ou outra qualquer província não pudessem trazer livremente os seus haveres; dinheiro, carros ou quaisquer outros bens materiais. Prédios, terrenos urbanos ou rústicos, fazendas, fábricas, estabelecimentos, imóveis de qualquer índole, estavam sentenciados a ficar; é mais que evidente que os seus possuidores todos os pretendiam vender mas, em face da situação, não havia quem se interessasse pela sua aquisição.

A maior parte dos bens pertencentes aos cidadãos portugueses foi pura e simplesmente abandonada pelo facto de seus donos não terem outra opção. Chegou-se ao cúmulo de se trocarem carros quase novos por simples volumes de maços de tabaco ou por pequenas porções de determinados alimentos, entre eles o pão, que raramente se encontrava à venda.

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Houve quem trocasse fazendas e casas por títulos de hipotéticas transferências bancárias para o continente as quais nunca chegaram às mãos dos seus destinatários. O depósito no banco nunca se concretizou e o paradeiro do burlão na maioria dos casos era desconhecido. Os lesados nunca poderiam reclamar sob pena de incorrerem em crime punido por lei, sendo acusados de transferência ilegal e fraude, se persistissem na queixa.

No mercado negro os escudos angolanos que em tempos, em momentos de alta, chegaram a trocar-se por escudos portugueses na base dos trinta por cento, o que era escandaloso, estavam agora no mesmo mercado nos setenta, oitenta por cento e nem mesmo assim era fácil conseguir a troca. Para além de todas estas vicissitudes, terem de entregar mil e oitocentos escudos angolanos para receberem mil portugueses, não era fácil de aceitar a pessoas que viviam do seu trabalho.

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O facto do Governo Português não acautelar ou, pior ainda, não autorizar a transferência dos bens dos portugueses na altura da descolonização foi uma das maiores injustiças, praticadas por quem mandava e a desgraça de tanta gente, que após longos anos de trabalho, caiu sem culpa nem pecado na mais odiosa das misérias, na pobreza extrema, no desespero, muitos na loucura e até na morte. Foi a situação mais injusta e catastrófica que imaginar se possa!

Dum momento para o outro perderem todos os seus haveres sem nada terem contribuído para essa perda. Serem forçados a abandonar o fruto do trabalho árduo no decorrer de longos anos, de canseiras, vigílias, economias feitas à custa de grandes sacrifícios. Deixarem empresas, fazendas, prédios, terrenos, carros, dinheiro, a própria casa com seu recheio, objectos pessoais, roupas, enfim... tudo, (houve pessoas que, se quiseram salvar a vida, regressaram apenas a roupa que traziam vestida).
Verem-se despojados de quanto haviam adquirido, custa muito a aceitar e, é impossível explicar por palavras a quem o não viveu.

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Porém a desventura não se ficou pelo roubo de que foram vítimas.
Para quem espoliado de África, ao chegar a Portugal se encontrava sem nada, sem trabalho e sem dinheiro para fazer face às despesas mínimas, com filhos, dois, três, quatro, que necessitavam de alimentação, casa, roupa, cuidados de saúde, de educação e os demais inerentes à vida. Bater de porta em porta à procura de trabalho, de alojamento e ver as portas fecharem-se-lhe sistematicamente. Tentar junto das instâncias oficiais encontrar soluções para minimizar as causas da tragédia que sobre si se abatera e não conseguir resposta. Ver passarem-se dias, semanas, meses sem vislumbrar a mais ténue luz ao fundo do túnel era duro e de uma imensa crueldade.

O calvário destas gentes no entanto, não se deteve por aqui, continuou no acolhimento de que foram alvo, nos títulos de honra com que foram rotulados: fascistas, colonizadores, desalojados, retornados. Retornados foi ponto assente. No fim de algum tempo ficariam os famigerados retornados.

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Foi com muita tristeza e enorme desespero que constataram a hostilidade com que os viam chegar em avalanche cada vez mais densa à medida que se ia aproximando a anunciada independência, melhor diria, a desgraça. Desgraça dos retornados, despojados de todos os seus haveres e reduzidos à pobreza, desgraça e condenação definitiva das gentes de Angola.

Para maior desgosto dos já destroçados retornados, muitas pessoas da nossa sociedade achando-se na posse do discernimento, da sabedoria, da justiça nem sequer se davam ao trabalho de camuflar os seus sentimentos de desagrado, passando muitas vezes de hostis a agressoras quer em palavras quer amiúde em actos rancorosos praticados contra irmãos, parentes, amigos, conterrâneos conhecidos ou desconhecidos que despojados de tudo regressavam de África.

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Estes ouviam com frequência dizerem-lhes que vinham sem nada porque queriam, ninguém os forçara a ficar por lá. Fora a ganância que os lá retivera. Porque não continuavam lá, se era uma terra tão boa? Claro, porque os pretos os corriam porque estava na cara que os maltratavam, os exploravam, os tinham subjugados na miséria. Toda a gente sabia que fulano, sicrano e beltrano chicoteava os pretos, os roubava, os obrigava a trabalhar como escravos
...

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Excelente texto que li com uma lágrima no canto do olho, apesar de ter nascido cá uma grande parte da minha familia veio (retornada) de Angola, inclusivé a minha Seat que felizmente conseguiu embarcar através do conhecimento que o meu tio/padrinho tinha no Porto do Lobito.

Mas mesmo assim não conseguiu salvar uma BMW (motociclo) sua propriedade também, que ao saber que iria ficar por lá e nas mãos de um qualquer, deito-a no chão, pegou numa marreta e....:gear_puke:

Enfim, uma de muitas histórias tristes do Ultramar!
Francisco Lemos Ferreira
 http://webcache.googleusercontent.com/search?q=cache:0wlLWxB7bxoJ:portugal.portalclassicos.com/topic/6644-classicos-do-ultramar/page-35+&cd=40&hl=en&ct=clnk&gl=pt&client=firefox-a

segunda-feira, 25 de Fevereiro de 2013

Nuno Bermudes, um dos melhores escritores, poetas e críticos moçambicanos

NUNO BERMUDES



Nuno Fernandes Santana Mesquita Adães Bermudes, nasceu em Moçambique no dia 30 de Dezembro de 1921, veio para Lisboa, onde fez os seus estudos, voltou para Moçambique em 1947 e voltou para Lisboa em 1975, e aqui faleceu em 1997.
Era filho de Félix Bermudes, escritor e desportista, fundador do Sport Lisboa e Benfica, várias vezes presidente do clube e considerado um dos seus símbolos e um dos melhores presidentes de sempre do SLB, que financiou por várias vezes.
Félix Bermudes foi o autor do primeiro hino do Benfica, "Avante, avante p'lo Benfica", (clicar para ouvir a música) que o Salazar proibiu por se confundir com o "Avante" do Partido Comunista.

Foi também o Félix Bermudes o autor do argumento do filme "O Leão da Estrela", interpretado, pelo António Silva e pelo Artur Agostinho. Eram alturas dos cinco violinos sportinguistas e concerteza que o Félix Bermudes, grande desportista, também seria um admirador dos bons atletas do Sporting.

Pois o Nuno Bermudes trabalhou comigo no Secretariado Operacional.
O Dr. Casanova, sabendo das suas qualidades literárias, deu-lhe o cargo de rever o português das cartas e circulares que nós fazíamos para as agências e para outros bancos. Penso que nunca o BNU terá tido tão bons escritos...

Nos intervalos das suas revisões de texto, o Nuno, sempre com um copo de whisky na gaveta semi-aberta, que ia bebericando, fazia as suas poesias e muitas vezes o vi a contar, com os dedos, as sílabas dos seus poemas.

O cantor Luís Cília fez uma canção com uma letra do Nuno. Lembro-me perfeitamente de o Nuno me ter dito que o Luís Cília, o poeta da revolução de Abril, o tinha contactado para poder usar a sua poesia.
A poesia era a seguinte:

Saborear-te a boca devagar,
como a um fruto raro e sumarento,
e cada rijo seio te apertar,
num misto de prazer e sofrimento.

Depois, beijar-te o ventre e deslizar
por ele, num tão macio movimento
que de ave mais parecesse um adejar
do que um afago húmido e lento.

E só então, te possuir, amor,
teu corpo penetrando ferozmente,
nos braços te apertando com ardor,

até, no estrebuchar do frenesi,
imaginares que, em fogo, uma torrente
de lava, em ondas, desaguara em ti.

Nuno Bermudes é considerado um dos melhores escritores, poetas e críticos moçambicanos.
O seu primeiro livro de poemas "O Poeta e o Tempo" foi publicado, em Lourenço Marques e foi galardoado com o prémio Rui de Noronha.
Em 1959, aparece a colectânea de contos, "Gandana", que obtem o prémio António Enes, tendo sido seleccionado o conto "Gandana", em 1980 para figurar na "Frankfurt Book Fare" de Frankfurt.
Foi redactor chefe do jornal "Notícias" de Lourenço Marques, no qual criou a página "Moçambique 58" na qual colaboraram, a seu convite, alguns dos nomes mais representativos da literatura e arte moçambicana.
Devido à intervenção do Nuno Bermudes o poeta José Craveirinha foi integrado como repórter do jornal, mas a sua enérgica acção em defesa do José Craveirinha, perseguido pela PIDE, e de outros colegas de redação, incompatibilizou-o com a administração do jornal e saiu.

Nuno Bermudes teve o seu percurso literário marcado pela poesia, por Moçambique e pelo Brasil. A sua primeira obra, O Poeta e o Tempo, foi publicada em 1951. No seu percurso poético seguiram-se, entre outras, Exílio Voluntário (1966), As Paisagens Perdidas e Outros Poemas (1980) e Brasil Redescoberto: Poesia Atlântica (1983).
Em prosa, publicou, entre outras obras, Gandana e Outros Contos (1959), Moisés (1981) Eu, Caçador, e Tu, Impala e Outras Histórias de Homens e Bichos (1983), Casa da Margem Esquerda e Outras Histórias (1985).

Tenho comigo dois livros, com dedicatória do Nuno, um deles o romance, "Moisés" com capa da sua amiga Maluda.


O outro livro que eu tenho do Bermudes é o livro de contos "Casa da Margem esquerda e outras histórias", com capa do amigo José Pádua.



O Pádua visitava muito o Bermudes no BNU e fez-nos vários desenhos como os que já aqui citamos com a poesia do Nuno "Natal com D. Quixote"http://banconacionalultramarino.blogspot.pt/2010/04/nuno-bermudes.html

sábado, 24 de Novembro de 2012

ESpoliados do Ultramar: É SEMPRE TEMPO DE FALAR DOS RETORNADOS É SEMPRE HORA DE FAZER JUSTIÇA


É SEMPRE TEMPO DE FALAR DOS RETORNADOS É SEMPRE HORA DE FAZER JUSTIÇA
Meus senhores, já há muito na qualidade de "emigrante" que queria dissertar sobre os retornados (titulo honorífico posto pelos revolucionários do 25 abril) e chegou a hora ! Impulsionado por uma grande senhora LEONOR FIGUEIREDO no seu Livro : FICHEIROS SECRETOS DA DESCOLONIZAÇÃO DE ANGOLA salientando do Livro : não me lembro, de alguma vez, algum representante do Estado português,me ter convidado como familiar de um cidadão desaparecido em Angola, para qualquer evento que lamentasse estas vítimas escondidas da desolonização em Angola .

Eu tambem não !  Num dos meus poemas de uma canção digo : ERA O TEMPO DA MAGIA ÀFRICA, ERA O TEMPO DA CARÍCIA MULATA ERA O TEMPO  SEM TEMPO PRA VIVER ERA O TEMPO QUE AGORA O TEMPO QUER ESQUECER... mas enquanto for vivo lembrarei o inferno da "exemplar descolonização" as suas consequências e deixarei aos meus filhos e netos para que se faça justiça ainda que seja a titulo póstumo sobre responsáveis e criminosos pelo ostracismo de um povo que defendeu Portugal na guerra e na prosperidade de um grande País que foi Angola e que era Portugal !

MARIA DE ANGOLA,
RETORNADA ME CHAMAM
MAS VENDIDA FUI.

De Angola, não tenho apenas o nome, tenho a alma. Não tenho do mar apenas a Baía de Luanda, a ilha do Mussulo, mas o respirar rubro da floresta, o fogo do dendém.

De Angola, não tenho apenas a cor da pele, tenho a fundura da raíz sádia e fecunda, da cornucópia da abundância, não tenho apenas a flor do algodão ou do cafeeiro, tenho o fogo da terra vermelha e a luz da barragem de Cambambe.

Maria de Angola, hoje, Maria das Dores de Angola, meu nome foi devorado pela poeira dos séculos e pela má memória dos homens, a Retornada de ombro altivo, viúva de nariz adunco, triste, às sopas dos amigos e dormindo na cama das gentes.

Maria de Angola, retornada me chamam, mas vendida fui. Com os meus filhos e minha casa.
Leiloada a minha cabeça, ofereceram minha cidade onde , dias depois, começou a pairar a desolação, a morte, a miséria e os escombros.

Maria de Angola, em hasta pública   (senhores, quem mais dá, é branca, é do puto ?!) comecei a chorar de raiva , não já por mim, pelo que iriam fazer do meu corpo e dos meus olhos, mas pelos meus filhos que, na minha fecundidade lusitana de séculos, fui gerando brancos, mestiços e negros. E foi aí que alguém,  sem pudor e rindo alto, sempre cada vez mais alto, vendo-me presa e perdida pelas malhas de um pacto à beria-mar feito , me cuspiu na cara, me mordeu barbaramente o peito e, como se assim não me curvasse à intempérie dos insultos e das bofetadas que, de seguida, começaram a surdir,  de muitos lados, fui amordaçada por mãos brancas como as minhas, mas negras de ódio , vermelhas de sede de sangue.

Maria de Angola, a retornada, cada filho meu tem uma nau catrineta de dor.

Uns fugiram, sob o sol violento de estoirar as pedras, palmilhando, a pé, distâncias incalculáveis; outros lançaram-se no deserto do Sudoeste Africano, sabendo mesmo que podiam sucumbir; uns tiveram de aguentar de pé, sem tugir ou mugir, ou amarrados na selva, o nojo da violação das mulheres e das filhas; outros, sem rosto e sem ânimo, arrastando-se séculos nos matos; uns passaram mesmo as filhas para porto de salvação em caixotes de mamdeira ; outros morreram ás balas ou à catana , cínicamente em nome da liberdade, cravados na pele rugosa dos imbondeiros ;uns morreram de medo, de vergonha, de nojo por tanta covardia ; outros arremassaram-se ao mar em carcaças frágeis, de nojo de tantas promessas falsas.

Isto que lhe digo, a si, repórter, é como que uma confidência que gostaria guardasse:  (continua)


publicado por animus às 21:19 in http://actio.blogs.sapo.pt/2011/08/

 
Foto: Os Retornados do ex-Ultramar na valorização da sociedade portuguesa ANTÓNIO PIRES

domingo, 11 de Novembro de 2012

1975, a descolonização exemplar: últimos dias no quartel de Malange...

1975: Ultimos dias no quartel de Malange...antes da partida para Nova Lisboa

sexta-feira, 2 de Novembro de 2012

Retornados, espoliados do ultramar: O tempo dos milagres e a fábula das rãs


O tempo dos milagres e a fábula das rãs
[Legenda: Manuela do distrito de Cabinda]
Por Manuela Gonzaga
30.04.2011

 
Em Novembro de 1974 o mundo, tal como o conhecera até então, ruiu. Totalmente e por todo o lado. Tinha vindo a Portugal pôr os meus filhos bebés a bom recato, quando descobri duas coisas terríveis. Não havia caminho de regresso a África e eu estava profundamente só. Porém, e apesar de não ter muito dinheiro comigo, trazia um tesouro que, pensava, me abriria caminhos de viver. Uma pasta com artigos assinados por mim ao longo de já quase quatro anos de jornalismo, em Lourenço Marques e em Luanda [1].

Armada com as ferramentas da palavra escrita e com provas dadas de que as sabia usar, dirigi-me a um grande jornal onde, graças à intervenção de amigos consegui uma entrevista com o director. Durou escassos minutos. Com a maior secura, esse homem de quem toda a gente elogiava a generosidade e a grandeza de espírito, pediu-me uns dias para analisar o meu trabalho. Quando voltei à sua presença, não me mandou sequer sentar. Quase sem olhar para mim, devolveu-me os meus artigos e disse: “Você é demasiado nova para escrever tão bem sobre assuntos tão diversos. Nem sequer pode ter a maturidade necessária para isso."

Fiquei sem palavras, assombrada diante dele. Tinha 24 anos e ainda hoje recordo a sensação da minha cara em chamas como se tivesse sido brutalmente esbofeteada. A dor, porém, era muito pior e doeu durante muito, muito tempo. Em segundos, aquele desconhecido desvalorizava totalmente o meu adorado trabalho e arrasava a minha identidade cultural. Por puro preconceito. Pior, ao fazê-lo nos termos em que o fazia, acusava-me implicitamente, de a troco de favores –obviamente sexuais –, ter conseguido em Moçambique e em Angola quem escrevesse por mim os textos que eu assinava.

Foi nessa altura que naufraguei. O medo, um medo avassalador e irracional, tomou conta de mim. A partir daí, senti-me rodeada de estranhos e de inimigos que falavam a mesma língua que eu, só para me confundir, porque este país, onde tinha nascido e vivido até aos doze anos, e de que tinha recordações tão maravilhosas, não era, afinal, a minha pátria, pois até os que me deveriam ter dado a mão e o colo me tinham desamparado.


[Legenda: Manuela no avião em Moçamedes]

Os meses seguintes, que culminaram no abandono de um emprego na televisão, numa errância disparatada e numa vida junto das praias mais perto do contingente africano –Algarve –, ainda hoje me parecem um sonho. Os meus filhos recordam essa época como umas férias no paraíso carregando dessa aventura ilógica uma alegria que ainda hoje os habita. De certa forma, eu sabia que só assumindo a loucura me conseguiria curar dela. Nunca o quotidiano foi tão irreal como nesse tempo em que, com a simplicidade dos loucos e das crianças, eu pedia a Deus todos os dias um milagre. E todos os dias recebia um.

Julgo que foi por esta altura que me veio à cabeça uma velha fábula da infância que desde então também me acompanha. Era uma vez duas rãs que viviam numa quinta e que, de salto em salto, caíram numa vasilha de leite. Ao fim de pouco tempo, a mais velha desistiu. “Conheço os meus limites. Nunca sairemos daqui.” A mais nova nem lhe respondeu. Nadava, procurando um apoio para saltar, que nunca mais aparecia. E nadando, nadando, nadando, atravessou a noite medonha, sem pensar em mais nada a não ser na urgência de nadar.

De madrugada, um esquivo ponto de apoio surgiu sob as suas patas exaustas. Num arranque, a rã continuou a mexer-se vigorosamente, usando as últimas forças. O ponto de apoio parecia crescer. E crescer. E crescer. A certa altura, conseguiu descansar um pouco sobre ele. Era escorregadio e ela ignorava tudo a seu respeito, mas sabia que dali já podia saltar. E saltou. O dia encontrou-a aos saltos bem longe daquele pesadelo, de volta ao lago.

A rã, de tanto o fustigar com os movimentos, transformara o leite em manteiga.

Eu adoro esta história. Na verdade, durante anos e anos e anos, quando tudo o mais parecia falhar, eu recordava o tempo dos milagres e a fábula das rãs. E mantinha a convicção de que, por mais preconceitos e obstáculos que me surgissem à frente, nada nem ninguém me roubaria jamais a alegria de viver e o direito de escrever.

Não foi preciso esperar pela madrugada para voltar ao jornalismo.
Publicar livros demorou um pouco mais. Felizmente.

[1] Trabalhei no Jornal de Notícias de Lourenço Marques e na Revista Notícia de Angola, em Luanda. Ambas as publicações são consultáveis, nomeadamente na Hemeroteca de Lisboa. O trabalho que desenvolvi por essa altura, durante os anos de 1971 a 1974, também.

[Manuela Gonzaga é escritora. Licenciada e mestre em História pela Universidade Nova de Lisboa, membro do Centro de História de Além-Mar (CHAM) da UNL, publicou, entre outros, a biografia de António Variações e a de Maria Adelaide Coelho da Cunha, e uma coleção juvenil, "O Mundo de André" com a chancela do Plano Nacional de Leitura que já vai no 3º titulo. Visite o blog de Manuela Gonzaga em http://www.gonzagamanuela.blogspot.com/]


http://www.boasnoticias.pt/noticias_O-tempo-dos-milagres-e-a-f%C3%A1bula-das-r%C3%A3s_6282.html

sexta-feira, 31 de Agosto de 2012

"Ainda hoje tenho pesadelos com este horror" - 27 de Maio de 1977 - Exclusivo com Dalila Mateus

"Ainda hoje tenho pesadelos com este horror" - 27 de Maio de 1977 - Exclusivo com Dalila Mateus
09 Maio 2012
Entrevistas

Alemanha - Há 35 anos, no dia 27 de maio de 1977, começou um dos períodos mais negros de Angola. Neste dia houve manifestações em Luanda a favor de Nito Alves. A seguir, milhares de angolanos são torturados e assassinados.

Fonte: DW

JES escapou porque se encontrava no Lubango

No dia 27 de maio de 1977 populares manifestaram-se em Luanda a favor de Nito Alves, na altura ministro da Administração Interna e membro do Comité Central do partido no governo MPLA. As manifestações das massas foram na altura classificadas pelo Presidente de Angola, Agostinho Neto, como uma tentativa de golpe de estado.

Nos dias e meses a seguir ao 27 de maio de 1977, os apoiantes de Nito Alves, o chamados "fraccionistas", são expulsos do MPLA. Dezenas de milhares são torturados e assassinados sem julgamento.

Falamos com a historiadora portuguesa Dalila Cabrita Mateus sobre este episódio da história angolana. Ela publicou com o seu marido Álvaro Mateus o livro “Purga em Angola”, lançado em 2007 (agora na sexta edição). Neste Contraste apresentamos a primeira parte da entrevista da pesquisadora à DW.

DW África: Qual foi o episódio que mais a marcou durante as pesquisas sobre os acontecimentos de maio de 1977?

Dalila Cabrita Mateus: As entrevistas a antigos presos políticos barbaramente torturados marcaram-me particularmente. Para a minha tese de doutoramento, já tinha ouvido presos angolanos, moçambicanos e guineenses, que me contaram as torturas infligidas pela PIDE. Depois, para o livro sobre o 27 de maio, ouvi presos angolanos narrar o que sofreram nas cadeias. Ainda hoje sonho, tenho pesadelos, com este horror.

Um dos últimos presos que ouvi, depois de narrar o que lhe tinham feito, encostou-se a uma porta e da sua boca saiu um suspiro enorme. Tinha desabafado. Disse-lhe: "O senhor conseguiu, enfim, desabafar." Mas eu, que ando há anos a ouvir o sofrimento de todos os presos políticos, com quem desabafo?

A gravação e a transcrição de todas estas entrevistas estão hoje depositadas na Torre do Tombo.

DW África: Consegue resumir num minuto o que aconteceu de facto no 27 de maio de 1977?

DM: Alguns pequenos grupos armados tomaram cadeias, com o propósito de libertar gente sua que estava presa. Por exemplo o Batalhão Feminino tomou a cadeia de São Paulo. Estavam presos dezenas de elementos do grupo de Nito Alves e José Van Dunem. Eles próprios, como se comprova pela gravação escutada das emissões da rádio em Angola e por alguns testemunhos, estavam detidos.

Um pequeno grupo tomou a Rádio, com o objectivo de apelar a uma manifestação em frente ao Palácio. Dos musseques [os bairros pobres de Luanda] afluíram centenas e centenas de manifestantes, que começaram por se dirigir ao Palácio. Tendo sido recebidos a tiro, começaram a concentrar-se em frente à Rádio. Não há, pois, qualquer golpe de Estado. O que há é uma manifestação e algumas acções militares para libertar presos e tomar a rádio. "Insurreição desarmada de massas", lhe chamou o historiador inglês David Birmingham.

O objectivo era provocar uma alteração radical da política, seguida de uma insurreição. Mas o meio era uma simples manifestação, e isso prova-se hoje através das imagens, na altura obtidas pela própria Televisão Popular de Angola.

DW África: Tomaram a Cadeia de São Paulo, a sede da polícia política DISA e a Rádio Nacional, mas não o Palácio Presidencial. Porquê uma estratégia tão mal concebida?

DM: Tomaram de facto a Cadeia de S. Paulo, mas nunca tomaram a sede da DISA. E não queriam tomar o Palácio Presidencial. "Plano louco e mal concebido", diz o historiador inglês Birmingham.

Mas não queriam realizar de facto um golpe de Estado. Confiavam na superioridade de forças que tinham, entre os militares da 9ª Brigada e na população. E nunca terão imaginado que os cubanos fossem intervir com tanques para dispersar a manifestação e tomar o quartel da 9ª Brigada.

DW África: O levantamento dos apoiantes de Nito Alves e José Van Dúnem pode ser considerado um golpe de Estado?

DM: Num golpe de Estado ou numa insurreição, toda a gente o sabe que se tomam locais, com militares e civis armados; tomam-se a Presidência e os ministérios, a polícia política, os correios e as telecomunicações, os quartéis, o aeroporto, entre outros.

Se não havia um plano para tomar nada disso e a grande acção é uma manifestação de gente desarmada, como é que se pode falar dum golpe de Estado?

DW África: Qual foi o papel dos soldados cubanos na repressão do "golpe"?

DM: Os cubanos foram mandados intervir por Fidel Castro, depois de este ter falado com Agostinho Neto. Fortemente armados e utilizando tanques, acompanharam a polícia política DISA e ocuparam a rádio, dispersaram os manifestantes e, depois, tomaram o quartel da 9ª Brigada. Quem o declara é o general cubano Rafael Moracen. Depois, os cubanos ainda colaboraram nos interrogatórios de presos.

DW África: O que aconteceu com os detidos do movimento do 27 de maio?

DM: Os participantes no 27 de Maio foram presos e torturados. Muitos foram sumariamente fuzilados, sem qualquer tipo de julgamento. Outros foram mandados para campos de concentração e ali morreram. Os que podem ser considerados os mais felizes, são aqueles que acabam ser libertados ao fim de dois anos de tantas torturas e de terem passado tão mal. Mas nem só os participantes foram presos. Foi também detida muita gente que pouco tinha a ver com os acontecimentos. Uns, porque possuíam bens que eram cobiçados. Outros, porque eram amigos ou familiares dos chamados "fraccionistas". Ainda outros, porque tinham criticado ou manifestado o seu descontentamento com a forma como as coisas corriam. Outros porque tinham tido azar e estavam na rua. Finalmente outros porque eram intelectuais ou estudantes, grupos sociais particularmente visados.

DW África: Qual foi o destino de Nito Alves e José Van Dúnem?

DM: Foram presos e sumariamente fuzilados, sem que tivessem sido acusados e julgados.

DW África: Como funcionava a Comissão das Lágrimas?
DM: A Comissão, a que o povo chamou das Lágrimas, foi criada pela Direcção do MPLA, com o objectivo de selecionar depoimentos sobretudo de intelectuais presos no 27 de Maio. E por isso era constituída por elementos considerados "intelectuais". Essa Comissão interrogava, provocava e decidia se o preso devia ou não ser entregue aos militares e às polícias; isto é, se ia ou não para a tortura.

DW África: Qual foi o papel dos escritores angolanos Pepetela e Luandino Vieira nessa Comissão das Lágrimas?

DM: De facto, na Comissão estiveram Pepetela e Luandino Vieira, mas também Manuel Rui Monteiro, Henrique Abranches, Costa Andrade e muitos outros. Aos presos que ouvimos e que passaram por aquela Comissão ouvimos referências às perguntas provocatórias de Pepetela e de Costa Andrade.

DW África: Até que ponto foi usada a tortura?

DM: Todos os presos, sem excepção, foram barbaramente torturados. Não foram só os presos que ouvimos que se referiram às torturas. A própria Amnistia Internacional, num documento de Dezembro de 1981 sobre os acontecimentos, faz alusão às muitas torturas usadas. Espancamentos com martelos e barras de ferro, chicotadas, queimaduras com cigarros, choques eléctricos execuções simuladas, e ainda algumas originalidades tradicionais, tudo isso foi usado para torturar os presos.

DW África: Quantas pessoas perderam a vida no total?

DM: Há cálculos diversos. A Fundação 27 de Maio, formada por antigos presos de 27 de Maio, fala de 80.000 mortos. O jornal Folha 8 de 60.000. Adolfo Maria, militante da chamada "Revolta Activa" e o juiz angolano José Neves, que participou numa Comissão de Inquérito aos acontecimentos, apontam para 30.000 mortes. A Amnistia Internacional avançou com uma estimativa que vai de 20.000 a 40.000. Um elemento da polícia política DISA, entrevistado por mim, dizia terem sido apenas 15.000 mortos. Eu e meu marido, no livro que escrevemos, ficamos pelo número mais vezes referido. Seriam, pois, uns 30.000.

DW África: Quem eram os responsáveis pela violência?

DM: Autores materiais houve muitos, entre militares e elementos da DISA, a polícia política. Mas a própria DISA era dirigida por uma Comissão Nacional de Segurança, cujos responsáveis máximos eram Agostinho Neto, Lúcio Lara, Iko Carreira, Rodrigues João Lopes (Ludy) e Henrique Santos (Onambwé).

Os mandantes são, pois, facilmente identificáveis. Além de Agostinho Neto (ele mesmo ou através do seu chefe de gabinete), Iko Carreira, Lúcio Lara, João Luís Neto (Xietu) e Henrique Santos (Onambwé). Mas também tiveram os seus conselheiros, designadamente alguns embaixadores que não tiveram tento com a língua.

DW África: Então está a dizer que o principal responsável é o primeiro presidente da República de Angola, Agostinho Neto?

DM: É evidente. Nós afirmamos que as principais responsabilidades recaem por inteiro sobre Agostinho Neto, o presidente de Angola. Aqui cabe a lembrar o que pensaria ou faria Nelson Mandela, se estivesse na mesma situação. Referindo-se à governação de Creonte, na Antígona de Sófocles, sua peça preferida, Nelson Mandela dizia que "não se pode julgar um homem completamente, o seu carácter, os seus princípios, o seu sentido de justiça, até ter mostrado o que vale no governo do seu povo". Ora, Neto não se preocupou com o apuramento da verdade. É este o grande problema. Dispensou os tribunais, declarando publicamente que não iria perder tempo com julgamentos. Está na televisão, qualquer pessoa pode ver isto. Admitiu que fizessem justiça sumária pelas próprias mãos.

Ora, se compararmos de novo com Nelson Mandela: o ANC [African National Congress, o movimento de libertação da África do Sul] tinha 36 grupos e fracções. Mandela queria que vissem uma grande tenda que podia acolher muitos e variados pontos de vista. E sabia que não se podiam cortar os laços com a juventude, por muito excessiva e simplista que fosse, pois não se constrói o futuro sem aqueles que o irão viver. Imaginemos, então, por momentos, que, em vez de Mandela, a África do Sul teria tido por presidente Agostinho Neto. Em que banho de sangue não se teria mergulhado?

"O MPLA sempre tratou os dissidentes da pior forma" - 2ª parte da entrevista com Dalila Mateus

De acordo com Dalila Mateus, muito da história de Angola e sobre o 27 de maio de 1977 ainda estará por contar, porque falar destes acontecimentos tornou-se um tabu, pelo clima de medo que se instalou naquele país. Toda a documentação que tem recolhido está depositada na Torre do Tombo em Lisboa e Dalila Mateus tem esperanças que, a seu tempo, o Tribunal Penal Internacional possa debruçar-se sobre estes atos para que seja feita justiça em nome das vítimas e dos seus familiares.

DW África: Muitas vítimas eram militantes do MPLA, considerados "heróis" da luta contra os portugueses. Como se explica tanta violência dentro de um movimento de libertação?

Dalila Cabrita Mateus: O MPLA era, de facto, uma frente, agrupando gente de diferentes quadrantes políticos e sociais: comunistas pró-soviéticos, pró-chineses, pró-titistas, nacionalistas negros, terceiro-mundistas e muitos outros, que estão dentro do MPLA. Mas Neto trata esta frente como um partido leninista, construído sobre o princípio do chamado centralismo-democrático, mas com muito centralismo e pouca democracia. Ele é presidente, é o secretário-geral e é o tesoureiro. E quem não pensa como ele é dissidente ou "fraccionista".

E estes dissidentes são tratados sempre da pior forma. A Assembleia que elege Neto para presidente, elege para vice-presidente Matias Miguéis, também negro. Matias Miguéis era adepto de Viriato da Cruz. Em 1965, foi levado para Dolisie [hoje Loubomo, uma cidade da República do Congo] e morto. A partir daqui, a partir desta data, a execução dentro do MPLA passa a ser a forma de resolver o problema das dissidências.

DW África: Muitos protagonistas do levantamento do 27 de maio eram militares da chamada 1ª Região Militar, que lutaram contra o colonialismo português? Porquê?

DM: De facto, perto da capital [Luanda], formou-se um grupo de guerrilha, cujos primeiros elementos foram participantes no 4 de Fevereiro de 1961. Praticamente não tinham ligações com o MPLA, que só uma vez, através de um destacamento comandado por Monstro Imortal [nome de guerra de Joãõ Jacob Caetano, comandante do MPLA], conseguiu chegar até eles, levando-lhes alguns alimentos e armas.

Quem são estes homens da 1ª Região Militar? Apoiavam-se nas redes clandestinas que se iam formando na cidade de Luanda. Resistiram13 anos aos ataques do exército português, da polícia política portuguesa, a PIDE, e até da FNLA [movimento de libertação concorrente]. E nunca foram aniquilados. No Congresso de Lusaka, foi o seu representante, Nito Alves, que salvou Agostinho Neto. O qual começou por lhe "pagar" promovendo-o. Mas, depois, expulsou-o, prendeu-o e, finalmente, mandou-o matar. Parece ter sido fuzilado. Depois, segundo as nossas informações, a sua cabeça andou decepada por Luanda, em cima duma carrinha. Finalmente, segundo dizem, terão atirado o corpo ao mar.

DW África: Muitos dos angolanos que estudaram na União Soviética foram chamados de volta e executados. Porquê tanto medo dos que tinham ligações com a União Soviética?

DM: Não só da União Soviética, mas de todos os países de Leste e mesmo de Cuba. E o problema não era o medo dos comunistas. Eram simples bolseiros que se formavam nas universidades. Na esmagadora maioria não eram comunistas, nem se interessavam pela política. O problema era outro.

Nas explicações oficiais sobre o 27 de Maio, uma das versões era que se tratava de um golpe dos comunistas, apoiado pela União Soviética e pelo PCP [Partido Comunista Português]. Essa versão destinava-se a facilitar o "namoro" aos Estados Unidos da América, que na altura apoiavam a FNLA e a UNITA [os dois movimentos angolanos de libertação concorrentes ao MPLA].

Ora como não havia comunistas suficientes para justificar esta atuação, então inventaram-nos. Mandaram, então, regressar os bolseiros nos países de Leste, que pensavam ir para o Congresso do MPLA. Estes homens são convencidos que vão a Luanda para participar no Congresso do MPLA. Mas, ao desembarcarem, foram presos. E, segundo um antigo dirigente do MPLA que eu entrevistei, acabaram por ser degolados. Da matança, só escapou o filho de Neto e um amigo que estudavam na Roménia.

DW África: José Eduardo dos Santos estudou na União Soviética, em Baku, licenciou-se em Engenharia de Petróleos. Mesmo assim escapou à repressão. Como explica isso?

DM: Quanto a Eduardo dos Santos, dirigente do MPLA, também esteve para ser preso. Mas não por ter estudado na União Soviética. Mas sim, pensamos nós, que correu este risco pelo facto de, sendo presidente de uma comissão de inquérito ao fraccionismo, ter assinado um relatório em que ele próprio que negava a existência desse fraccionismo. Pelo menos, na Cadeia de S. Paulo, um dos carrascos dizia muitas vezes que, para quem queria ouvir, só faltava prender Lopo de Nascimento (o primeiro-ministro) e o Eduardo dos Santos. Que só não foi preso, porque o governador do Lubango, onde se encontrava, não o deixou prender.

DW África: Qual era o modelo do "Poder Popular" que Nito Alves defendia?

DM: No nosso livro dizemos que Nito Alves padecia das limitações de quem vivera muitos anos isolado e acossado. Se pensamos como viveu esta gente na 1ª Região, eles estavam sistematicamente a ser acossados pelo exército português, pela PIDE e pela FNLA. Portanto, Nito Alves encontra um manual marxista e transforma este manual numa espécie duma nova Bíblia, onde ele encontra soluções para todos os problemas. Mas estas limitações vão levar a estas manifestações, que por vezes podem parecer – ou são – de radicalismo e de dogmatismo. As suas "Treze Teses" são de facto um texto insuportável, com dezenas de citações a propósito e, sobretudo, a despropósito. No entanto, quem aparecia a defender soluções radicais eram Neto e alguns dos seus homens, que, de vez em quando, falavam da "revolução proletária".

Não ouvimos isto de Nito Alves. Ele e os elementos mais esclarecidos do seu grupo retorquiam que era um disparate, pois em Angola não existia uma classe operária capaz de realizar tal revolução. E preferiam falar de uma democracia popular.

DW África: Era um modelo democrático ou comunista, inspirado na União Soviética?

DM: O modelo soviético não tinha qualquer sentido em Angola, até porque a maioria dos operários e técnicos qualificados eram portugueses. E é um erro pensar que eram ideológicos os problemas que preocupavam Neto e os seus próximos. O que os preocupava era, em primeiro lugar, a denuncia que os nitistas faziam da corrupção, que estava a acontecer. E davam exemplos concretos dessa corrupção.

Preocupava-os, em segundo lugar, a influência dos nitistas nas organizações populares eleitas nos musseques [os bairros pobres de Luanda]. Eram eleitas as organizações populares e essas organizações tinham um papel fundamental. E preocupava-os, em terceiro lugar e principalmente, a possibilidade real de os "nitistas" virem a conquistar a maioria dos delegados no próximo Congresso [do MPLA].

DW África: Além de fraccionismo, Nito Alves foi também acusado de racismo. Com razão?

DM: De facto, Nito Alves foi acusado de racismo por ter afirmado que "no dia em que, em Angola os cidadãos varredores de ruas forem não só negros, mas mestiços e brancos também, o racismo desaparecerá". Aí estava o "racismo das lagartixas", acusava o Jornal de Angola. Só que a citação estava incompleta. Nito Alves dissera também que o racismo teria desaparecido no dia em que "os camaradas angolanos de origem europeia" puderem ascender "aos mais altos órgãos do MPLA e às responsabilidades administrativas e outras no aparelho de Estado".

Admitir que brancos e mestiços, considerados "angolanos de facto e de direito", pudessem ocupar cargos de topo no MPLA ou no Estado não é uma posição racista.

DW África: Algumas vítimas do 27 de maio tinham tido ligações estreitas ao Partido Comunista Português (PCP), que, por sua vez, era um aliado do MPLA na luta anticolonial. Que papel teve o PCP nos acontecimentos?

DM: A única pessoa que foi directamente acusada pelo MPLA de ser do PCP era Sita Valles, que fora dirigente da UEC – União dos Estudantes Comunistas. Mas Sita Valles já não era membro do PCP. Um mês depois do 27 de Maio, Sérgio Vilarigues, membro do Secretariado e da Comissão Política do PCP vai a Luanda e dá uma entrevista ao oficioso Jornal de Angola. Em setembro, a editora comunista publica a versão dos dirigentes do MPLA sobre os acontecimentos. E nesse mesmo mês de setembro, o vice-director da DISA, ainda hoje conhecido em Angola pelo "assassino", encabeça uma delegação do MPLA presente na Festa do jornal comunista Avante! Assim, se houve participação do PCP foi ao lado do Presidente de Angola [Agostinho Neto] e dos "vencedores" do 27 de Maio.

DW África: Como se explica o facto de, fora de Angola, poucos conhecerem a repressão do 27 de maio quando, ao mesmo tempo, todo o mundo conhece as atrocidades cometidas pelo ditador chileno Augusto Pinochet, mais ou menos na mesma época, mas que "apenas" causaram a morte de aproximadamente 3.000 pessoas?

DM: Difícil seria que fosse doutro modo.Primeiro porque, mesmo em Portugal, o caso foi silenciado. Na imprensa portuguesa era surpreendente a ausência duma posição activa de denúncia das violações flagrantes dos mais elementares direitos do homem. Segundo, porque em regra e em relação à África, só quando as barbaridades atingem enormes proporções é que elas são notícia.Terceiro, porque a diplomacia dos interesses continua a ter muita força.

DW África: Será preciso uma Comissão da Verdade do 27 de maio de 1977 para chegar a uma verdadeira reconciliação em Angola?

DM: Tenho muitas dúvidas que assim possa acontecer 35 anos depois dos acontecimentos, quando muitos dos principais actores já faleceram ou abandonaram a vida política, uma tal comissão não me parece ser possível, nem importante. Nesta altura, afigura-se mais sensata e oportuna uma acção que envolva dois aspectos: Primeiro: o esclarecimento e o assumir de responsabilidades pelo próprio MPLA. Segundo e principalmente: que se faça uma busca e a entrega das ossadas dos mortos para que as famílias possam fazer o luto da sua dor.  ORIGEM

sábado, 2 de Junho de 2012

Dossier A revolução de Abril: ENTREVISTA António Gonçalves Ribeiro, general




General António Gonçalves Ribeiro




A história da ponte aérea por quem a tornou possível. O transporte de emergência que trouxe centenas de milhares de 'retornados' não estava previsto. Deve-se a este homem

No Verão de 1975 vem a Lisboa falar com o presidente Costa Gomes.
Com que estado de espírito?


Desesperado. Acompanhara todo o processo que, desde Abril de 74, tinha determinado a derrocada, a destruição do tecido económico e social de Angola. Via que se estava a preparar a desgraça.
É quando me apercebo de que a desgraça era completamente desgraçada, já com a guerra civil, que venho cá.

Como objectivo de preparar o êxodo...
Não queria tirar as pessoas de Angola, mas dar condições a quem queria vir. A partir do momento em que no dia 10 de Novembro saísse o último militar português não podia ficar o cais ou no aeroporto gente desesperada a rogar pragas a tudo o que eram militares portugueses, Portugal e o Estado português. Seria de todo inaceitável que lá ficasse um único cidadão que quisesse vir. Mas para isso tornava-se indispensável um incremento no transporte aéreo e marítimo.

Que acolhimento teve?
Muito fraco. Estava o célebre V Governo Provisório, o último a ser liderado por Vasco Gonçalves... Era difícil encontrar interlocutores credíveis, com capacidade de decisão política, de gizar soluções.

Diz no seu livro de memórias, A Vertigem da Descolonização, que o único interlocutor válido seria o presidente. Mas a descrição que faz do encontro com ele é no mínimo bizarra...
 Fui ter com Costa Gomes acompanhado de um administrador da TAP, o engenheiro Norton, que disse não ser possível aumentar a capacidade de transporte. O presidente e os que estavam com ele consideraram: «Pronto, foi feito tudo aquilo que podia ser feito, é impossível fazer mais.» Alguém até disse: «Não há aviões. Eles que comeram a carne que roam os ossos.» Não aceitei essa impossibilidade.
E recoloquei a questão: tem de haver uma via, seja qual for.

O engenheiro referiu a capacidade de transporte aéreo estratégico dos americanos. Aí, levantei-me, procurei numa lista telefónica o número da embaixada americana e liguei para lá.
Costa Gomes mantém-se «calado e imperturbável»... E o então tenente-coronel Gonçalves Ribeiro sai, direito aos americanos, sem mandato de ninguém.

Só num quadro político-militar como aquele é que se compreende o que se passou... Costa Gomes sabia onde eu ia. Houve um deferimento tácito, aderiu pelo silêncio. Como o embaixador Frank Carlucci não estava, falei com o número dois. Fui ter a casa dele, à hora do jantar ...
Ele diz que os EUA ajudarão, desde que haja uma carta do PR.

Que o senhor redige... Do ponto de vista da hierarquia militar e do Estado, nada faz sentido.
Tudo isso estava transponível e transpunha-se. Havia uma ausência de liderança, de referências... As referências que existem normalmente em qualquer sociedade organizada, incluindo a do bom senso, estavam pulverizadas. E eu, falando por mim, senti que, se fosse preciso, iria às últimas consequências.

Que acha que teria sucedido se não tivesse feito o que fez?
É-me difícil imaginar. Não sou de puxar os galões, mas está-me a perguntar, tenho de responder.
Houve em todo o caso civis deixados para trás: no Huambo, por exemplo.
Isso porque o dispositivo militar português foi contraindo e até muito tarde houve a preocupação de nunca incentivar a saída dos portugueses. Tentámos não dar sinais de alarme: as pessoas faziam o estudo da situação envolvente, e decidiam. Mas quando as coisas começam a aquecer, percebe-se que aquela gente tem de sair...

Não aqueceram de um tempo para o outro... Portugal não foi irrealista em manter a sua parte do Acordo de Alvor, a independência a 11 de Novembro?
Uma descolonização numa revolução é um casamento contranatura! Aqui havia a campanha «Nem mais um soldado para África», lá os movimentos tinham armas na mão. E ninguém queria adiar a descolonização, nem poderia fazê-lo se quisesse. As famílias queriam os soldados de volta, diziam: vão apertar o gatilho contra quem, porquê? Era uma pergunta sem resposta!
«Não gosto de palmadas nas costas»

Conta no livro que disse a um comandante de tropas: «Portugal, ao fim de séculos de permanência em Angola, não pode sair com as calças descidas até aos calcanhares. No mínimo, há que agarrá-las pelos joelhos.» Afinal, por onde estavam as calças?
Muito próximo dos calcanhares. Não foi uma saída bonita. Mas com as calças a arrastar pelo chão era se a certa altura batêssemos com a porta e disséssemos: «Fica quem fica, não temos nada com isso.»
Ofereceram-lhe o cargo de último alto- -comissário de Angola e a patente de general . Recusou... [Levaria 14 anos a chegar a general]
Porque estava concentrado na solução para aquelas gentes, na organização daquela saída. Foi só isso.
O cargo foi para o almirante Leonel Cardoso, que no discurso de 10 de Novembro diz: «Portugal parte sem sentimentos de culpa e sem ter de que se envergonhar..Não foi bem assim...
Creio que quando ele fala de sentimento de culpa não é em relação à forma como a descolonização foi feita, mas ao futuro de Angola.
Repare: foram pessoas, não instituições, que a certa altura tiveram de lidar com um problema de dimensão histórica. As coisas foram feitas conforme podiam ser feitas...

Mas sem vergonha?

[Silêncio] Estou a pôr-me naqueles últimos momentos lá. Já não havia gente nossa a berrar. Quem quisesse, e não só portugueses, também angolanos, tinha partido. O presente era o preparado pelos filhos de Angola, o futuro o que quisessem.
No seu livro, narra a cena de um casal de meia-idade, com um cão, que está para embarcar no último avião que sai do Huambo.

O homem diz que não vai, não quer deixar o cão. É um símbolo?

Sim. Aquele homem naquele momento simbolizou o que se passou com todos os portugueses que consideravam aquele país a sua terra.
Agarrou-se ao pretexto do cão para dizer «eu não vou». Porque a maior parte deles não queria vir: queriam lá ficar, disponíveis para ajudar a progredir Angola independente. Toda a gente saiu forçada.

Continuou ligado à questão, como alto--comissário para os Desalojados.
Que balanço faz, trinta anos depois?

Não foi preciso esperar tanto. O sentimento geral, cinco, dez anos depois, era de integração completa: já não se ouvia falar de retornados. Sabe, os que vieram eram diferentes dos de cá.
Vinham de um lugar onde não só havia mais espaço e mais silêncio como mais liberdade, onde a aventura ainda era possível. Eram mais dinâmicos. Foram capazes de dar a volta por cima ao seu drama pessoal. A sua tragédia acabou por ser, no colectivo, uma história de sucesso.

Crê que o seu papel nessa história foi suficientemente reconhecido?
Que se deve entender por ser reconhecido? Entendi que devia fazer algo e fi-lo. Nunca me passou pela cabeça cobrar dividendos de ordem social, económica ou política. A memória dos homens é curta...

Sente-se injustiçado?

[silêncio] Já me têm dito que o problema não teve a dimensão que podia ter tido. E um ou outro dá-me uma palmada nas costas.
Ficam-se por aí. Mas só se me apanharem desprevenido: não gosto de palmadas nas costas.

Perfil
António Gonçalves Ribeiro
General
Ele não quis deixar ninguém para trás
Colocado em Angola desde 1972, será secretário de Estado no governo provisório da (ainda) colónia e membro da delegação portuguesa às negociações que em Alvor reconhecem no MPLA, FNLA e UNITA «os únicos legítimos representantes do povo angolano», e acordam os termos da independência. É como secretário geral do Alto-Comissariado de Angola (declina a «honra» de ser o último comissário) que vem a Lisboa falar com Costa Gomes. Alto-Comissário para os Desalojados de 1976 a 79, termina a carreira, em 2002, como director-geral de Política de Defesa Nacional.

23 Abril 2004
Retirado DAQUI

sexta-feira, 1 de Junho de 2012

SOS Angola - Os dias da Ponte Aérea


Rita Garcia, jornalista: Mentes eram muito mais abertas em Angola do que cá
No livro SOS Angola - Os dias da Ponte Aérea, a jornalista Rita Garcia relata a história dos chamados "retornados" e a importância da designada Ponte Aérea que, em 1975, salvou a vida a milhares de portugueses.
Foram a memória e o espólio de António Gonçalves Ribeiro, o mentor da Ponte Aérea em 1975 e sem a qual milhares de portugueses não teriam escapado de Angola com vida, que permitiram a Rita Garcia escrever este livro. Apresentado de forma isenta e acessível, é um relato humano de um acontecimento que marcou a nossa História e a história de vida daqueles a quem chamaram de “retornados”


Porque se lembrou de escrever o livro S.O.S Angola – Os dias da Ponte Aérea, sobre os 200 mil portugueses que abandonaram Angola, entre Julho e Novembro de 1975?
Tudo começou quando escrevi para a revista Sábado um trabalho sobre a antiga Primeira Classe da TAP, feita em voos de longo curso e muito particularmente na linha de África. Uma linha muito requintada e chique, frequentada por muitos dos grandes empresários com interesses, sobretudo, em Angola. Quando falei com os antigos tripulantes da TAP, todos me referiram a Ponte Aérea de 1975 como uma coisa fora de série e com histórias que os marcaram para sempre.

Diz que sem António Gonçalves Ribeiro, mentor da Ponte Aérea, muitos portugueses não teriam escapado de Angola com vida. Quem foi este homem?
Na altura, ele era tenente-coronel e estava em comissão de serviço em África, como secretário do alto comissariado de Portugal em Angola, organismo criado para ajudar o governo de transição a fazer a passagem de poderes de Portugal para Angola. Foi ele que, no terreno, se foi apercebendo que havia muita, muita gente que se queria vir embora, depois dos primeiros voos da Ponte Aérea terem sido mantidos quase em segredo, para que não entrasse tudo em pânico. Quando António Gonçalves Ribeiro se apercebeu que as pessoas queriam mesmo vir embora, teve noção de que os voos comerciais da TAP não eram suficientes para trazer tantas pessoas. Veio então a Lisboa e disse ao FMA e ao Governo, na altura chefiado por Pinheiro de Azevedo, bem como ao Presidente da República, que era preciso fazer alguma coisa.


Foi fácil convencer o governo português?

Não, porque em pleno PREC (Processo revolucionário em Curso) as preocupações cá não eram com os que estavam em Angola. Ainda por cima, por parte da Esquerda, não havia muito boa impressão de quem tinha ido para Angola. Mas ele chegou cá e disse que era preciso agir. Pinheiro de Azevedo respondeu-lhe com esta frase horrível: “ó senhor tenente coronel não sei porque está tão preocupado. Se eles comeram a carne, agora que roam os ossos”. António Gonçalves Ribeiro enfrentou o seu superior hierárquico e respondeu-lhe para ir ele a Angola dizer isso às pessoas. Embora a muito custo, conseguiu deste modo convencer o Presidente da República a pedir ajuda diplomática aos Estados Unidos. Na época, o embaixador em Lisboa era Frank Carlucci, que entrou em contacto com a administração americana, conseguindo-se assim avançar com a Ponte Aérea. Até porque, do ponto de vista da política externa norte-americana, também interessava aos Estados Unidos ter alguma moeda de troca para tentar influenciar o regime português a não se encostar tanto à Esquerda e seguir mais o caminho do Grupo dos Nove (grupo de oficiais do MFA de tendência moderada, liderado por Melo Antunes). António Gonçalves Ribeiro conseguiu não só o apoio norte-americano, que embora tenha começado só em Setembro, foi fundamental para trazer as pessoas, mas de outros países como a Inglaterra, a França, as duas alemanhas e a União Soviética.

Portugal já homenageou António Gonçalves Ribeiro?

Que eu saiba não. Ainda está vivo, mora em Lisboa e foi fundamental para o meu livro. É um senhor extraordinário. Só um homem com coragem se presta a este esforço. Tenho os relatos das pessoas, mas do ponto de vista de fonte histórica solidificada, o seu arquivo com todos os documentos daquela época foi fundamental. Possui relações dos voos, dos navios que faziam a ponte marítima para trazer as pessoas para Luanda, dos apoios prestados por outros países e pela Cruz Vermelha, bem como das quantidades de leite e de roupas disponibilizadas. Curiosamente, António Gonçalves Ribeiro não chegou a Portugal de avião mas de navio. Veio no último navio que saiu com toda a comitiva portuguesa.

Luanda e Nova Lisboa eram, à época, campos de refugiados?
Sim, foram construídos autênticos campos de refugiados. Durante uma semana, antes da Ponte Aérea começar a fluir e os aviões a chegar com mais regularidade, as pessoas ficavam sempre dois ou três dias à espera, sobretudo quem vivia antes no interior ou a sul. Dormiam no Quartel de Velas, de para-quedistas, com capacidade para 600 homens e que se via a braços com milhares, ou então na Feira Internacional de Nova Lisboa, de onde partiam em autocarros para o aeroporto. Ficavam em gabinetes, no chão, em ginásios. Havia pessoas que tinham nascido em Angola, famílias que estavam lá radicadas há muitas gerações. E só muito em cima da hora aceitaram perder as suas vidas simpáticas e tranquilas, até do ponto de vista financeiro. Não quer dizer que todos fossem ricos mas houve quem lá deixasse fortunas enormes. Vieram todos apenas com os tais cinco mil escudos dados pelo Governo. O dinheiro de Angola cá não valia nada, chamava-se “dinheiro macaco”.

Quantos portugueses morreram neste processo de descolonização?

Não sei quantas pessoas morreram e julgo que é difícil haver uma noção exacta, porque os tempos eram tão conturbados e a situação tão caótica que havia muita gente que desaparecia. Havia gente que se deslocava de uma cidade para a outra e nunca mais aparecia. Só se via mais tarde o seu carro na posse de um dos movimentos da guerrilha, mas da pessoa nunca mais se sabia nada.

Há quem assemelhe a descolonização ao holocausto nazi...
Acho excessivo, com a minha distância em relação ao assunto, comparar esta descolonização com o holocausto nazi. É verdade que algumas pessoas morreram, é verdade que perderam tudo mas o holocausto fez seis milhões de mortos. Não se fala na mesma escala. Apesar de tudo, as pessoas que conseguiram fugir, chegaram cá e embora com dificuldades refizeram as suas vidas. Comparando com colonizações de outros países, na nossa não havia uma relação tão difícil e opressiva com a comunidade negra. Claro que a primazia era branca, os bons empregos eram dos brancos e não quer dizer que não houvessem maus tratos, aqui e ali, mas não era uma coisa concertada. Havia muita gente que tinha boas relações com os trabalhadores negros, relações até de amizade. Muitos negros ficaram a chorar e com imensas saudades dos patrões. Hoje, a verdade é que existe  uma nova diáspora portuguesa e que os portugueses não são mal recebidos em Angola. Se tivesse ficado uma clivagem muito grande, isso não acontecia. Pelo menos os portugueses que conheço, que têm estado em Angola, não me falam disso.

“Não tenho conhecimento de que em Angola se dividisse uma sardinha por três”
A reportagem Os anos dourados dos portugueses em África (praias, caçadas, luxo, vivendas com empregados, noitadas), publicada por si há um ano na Sábado, recebeu algumas críticas, nomeadamente no blogue Bravos “Retornados”, Espoliados, Deslocados, onde se alega que aquela era a vida de uma minoria. Estas pessoas continuam ainda muito ressentidas?
Não quisemos fazer na Sábado um trabalho sociológico sobre todos os habitantes de Angola. Efectivamente, grande parte das pessoas com quem falámos (claro que algumas pertenciam a uma elite) não eram só gente rica, também havia funcionários públicos. Era inegável que a vida das pessoas era, na altura, muito mais confortável que a de cá. Não quer dizer que tivessem todos muito dinheiro mas tinham uma mente muito mais aberta. Acredito que houvesse pessoas com vidas muito diferentes das retratadas nesse trabalho jornalístico, mas pobres, pobres e a dividirem uma sardinha por três, como cá na metrópole, não tenho conhecimento. O que não quer dizer que não houvesse.

A palavra “retornado” tornou-se estigmatizante. Qual a mais apropriada?
Nunca pensei nisso e não dou à palavra essa importância. É verdade que uma parte significativa dessas pessoas nasceu em África e portanto não estava a retornar. Mas isso é apenas um pormenor. Eles tinham tantas razões para ficar zangados com a forma como foram recebidos.... Não acho que a palavra seja o mais importante. Mas também acho outra coisa: quem veio das colónias tinha razões de queixa mas também percebo as razões de quem cá estava. O País estava a sair de 40 anos de ditadura, havia falta de emprego e de oportunidades. E quem veio das colónias, tendo deixado lá vidas inteiras e com a injustiça que isso significou, teve aqui acesso a coisas que os da metrópole não tinham, como empréstimos e alojamento. O que acho bem porque era preciso ressarcir as pessoas de alguma maneira. Mas para os de cá, que não tinham acesso a nada disso, também havia essa sensação de injustiça. Ou seja, os dois grupos tinham a sensação de desconforto.

Mas a sua reinserção acabou por ser pacífica...

Sim, face ao que podia ter acontecido, devido a esse mal estar entre os dois grupos, acho que as coisas acabaram por se orientar. Também porque quem vinha de Angola, onde havia um tecido empresarial muito forte, de um modo geral, trazia a escola comercial e industrial ou o liceu. Como disse, eram pessoas de espírito aberto porque não tinham estado sujeitas a um peso tão grande da censura como cá. Ouviam muito rádio e chegavam lá notícias de países livres. A Pide apenas actuava para tentar controlar a força pela libertação dos territórios. Isso permitiu-lhes uma outra vivência e outra descoberta das coisas em relação às pessoas de cá, onde a vida era muito mais controlada.

Mário Soares é para os “retornados” uma “persona non grata”? A descolonização poderia ter sido feita de outra forma?
Não sei responder. Claro que se o processo tivesse sido organizado com tempo, é possível alegar que a descolonização poderia ter sido feita como fizeram outras potencias colonizadoras em África, que preparam a saída dos seus colonos ao longo de vários anos. Agora, aquilo foi decidido de um momento para o outro, porque as coisas se precipitaram e ter de fazer sair aquelas pessoas todas... Não sei se era possível antecipar o que ia acontecer e se os movimentos angolanos estariam disponíveis para prolongar mais a saída. É muito difícil fazer esse tipo de avaliações, à posteriori.

Os que foram espoliados dos seus haveres, deveriam ser indemnizados?

Não vou falar sobre isso porque não tenho conhecimento ainda dessa realidade. É o que vou estudar a seguir, porque é uma investigação que quero continuar a fazer. Estas questões não têm sido muito estudadas e portanto nada está ainda sistematizado. Por isso há respostas por onde não quero ainda entrar, porque também não sei. Não gosto muito de falar daquilo que não conheço

José Eduardo Agualusa diz, também na Sábado, que Portugal tem medo do governo angolano. Como interpreta esta suposta posição subalterna de Portugal em relação a Angola?
Essa é a opinião do Agualusa. Não sei o suficiente sobre as relações dos governos de Portugal e Angola para poder fazer uma afirmação desse tipo. O que sei é que, do ponto de vista económico, Angola é neste momento uma grande oportunidade para os portugueses. Sobretudo, porque há cá muito desemprego e situações complicadas por causa da crise. O que acho também, e quanto a isso congratulo-me, é que tenha ficado uma relação entre dos dois países que permita esta reaproximação. Não quer dizer que seja perfeita mas já acho óptimo que ela se tenha conseguido fazer. Agora as palavras de Agulusa são dele. Ele é que é angolano e anda sempre a circular entre cá e lá e, portanto, conhece muito bem as duas realidades.


O carro que veio à procura do dono

Encontrou histórias pessoais marcantes ao escrever este livro?
Muitas. É muito difícil alguém pôr-se na pele de uma pessoa que saiu de casa para ir levar a mulher ao aeroporto (o marido tentava ficar lá mais tempo para ver se dava) e, de repente, porque irrompe um tiroteio na pista do aeroporto, acabar em Lisboa sem documentos, sem dinheiro, sem roupa, sem nada. O condutor do autocarro que transportava o casal assustou-se de tal maneira que mandou toda a gente para dentro do avião. Deu-se o ridículo deste funcionário do Banco de Angola não ter feito, sequer, a transferência dos tais cinco contos a que tinha direito. E cá já não tinha forma de o fazer. Mas a história curiosa vem depois. Um dia, quando viajava entre o Estoril (onde o tinham hospedado), e Lisboa para tratar de documentos e conseguir provar que era retornado, na zona de Santos, olha pela janela do comboio e vê o carro dele estacionado, o mesmo que tinha ficado em Luanda mas que um amigo tinha enfiado num navio. Por sorte, ainda tinha a chave no bolso. Saiu do comboio, abriu o carro e assim pode ir a Viseu reencontrar a filha e a mulher.

Depois, há as fugas massivas...
Sim, a fuga massiva da Gabela (cinco quilómetros de carros em peregrinação até Nova Lisboa) como de outras localidades, como por exemplo de Malange, em que toda a população teve de sair para não ser dizimada nos confrontos, depois de uma semana de negociações para conseguir que os movimentos angolanos os deixassem sair. É que os brancos, de alguma maneira, serviam de protecção para os negros não se matarem tão depressa uns aos outros. Há ainda a história de uma senhora que ficou de tal maneira apavorada que se escondeu numa cave, enquanto não houve luz verde para sair. Quando os militares a foram buscar não conseguia andar e tiveram que a trazer ao colo. Já em Nova Lisboa, um primo diz que os dentes dela batiam tanto que pareciam uma máquina de costura. À chegada a Lisboa foi directamente para a psiquiatria do Hospital Santa Maria.


“Ser jornalista não é o glamour da televisão”
Rita Garcia, 32 anos, lisboeta, mãe de dois filhos pequenos, é licenciada em Ciências da Comunicação, pela Universidade Nova de Lisboa. Repórter da revista Sábado desde 2005 e autora do livro de reportagens INEM 25 anos, recebeu o 2º prémio Henrique de Barros, atribuído pelo Parlamento Europeu em 2003, e o Prémio de Jornalismo Novartis Oncology, em 2008. Aos jovens que acalentam o sonho de ser jornalistas diz que é bom, ao escolherem esta profissão, que tenham noção que “isto não é o glamour da televisão”.  Em relação à crise, limita-se a dizer: “Nunca gasto mais do que aquilo que tenho. Nunca gastei. Os tempos que aí vêm vão ser complicadíssimos mas se se pensar que serão horríveis, é porque vão ser horripilantes. O que tento fazer é não ficar centrada nesta coisa da crise. Tenho o instinto de ir sempre para a frente”. Rita Garcia gosta de estar com os amigos, de cozinhar e de ler romances de Vargas Ilosa ou da escritora brasileira Patrícia Melo. Tem particular interesse na realidade brasileira do tráfico de droga. À pergunta se tem curiosidade em conhecer Angola, responde: “Tenho curiosidade em conhecer o mundo inteiro”. De África, conhece o Senegal, onde esteve uma semana, a convite da AMI, para participar no programa Aventura Solidária, para construir estruturas de apoio à população local.

Textos e fotos: Graça Menitra

2011-11-24

Poderá ver também AQUI 
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ORIGEM


















domingo, 20 de Maio de 2012

Comerciantes do Lubango : Travessia.


Travessia 
Na década de quarenta, mil e novecentos, das terras do Lubango, havia  comerciantes que saiam da cidade, levando  a lugares distantes, mostras dos seus produtos, para expandir negócio, fornecendo assim muitas povoações. E faziam-no com empenho e perseverança, por  caminhos  difíceis...
Associando-se, iam geralmente dois companheiros, para viagens longas. Juntos  escolhiam trajectos, planeavam tudo com antecedência, e carregavam na véspera, a carrinha Fargo.
Saiam na madrugada ainda fresca, pelo cedo da hora, rumo a Vila da Ponte, (Artur de Paiva) em estrada que era  de terra batida, naquele tempo, acidentada e muito poeirenta até as chuvas chegarem...
Procurava peles e cera, o Pereira, para a sua indústria de curtumes que crescia então, lá para os lados da Mucanca, em terras do Planalto. No mostruário levava sapatos e botas, de fabrico próprio, e anotava as encomendas dos mesmos, que mandaria entregar mais tarde, em carro pesado.
Ia com Martinho, companhia em muitas dessas jornadas, dono de Ourivesaria na cidade, que com ele  levava coisas valiosas para mostrar também; era investimento ou luxo de quem  podia.
PicadaConquistando os quilómetros lentamente, dava para apreciar um nascer de sol de vermelho intenso, e direito a paragem em cantina do caminho, com comida, e café para mata-bicho, que podia ser  na Capunda-Cavilongo (Olivença a Nova), em estabelecimento conhecido por bem servir.
Voltar ao carro logo logo, era imperioso para respeitar  horário que não deixava preguiçar muito, pois tinham  tempo calculado, com a prevenção para algum imprevisto... e tantos surgiam, por  aquelas paragens...
Dois eram os ajudantes que levavam, Paulino e Sabonete, rapazes novos, pois  naquele trajecto de mais braços e fortes se precisava, porque o carro enterrava, ou afundava na lama do leito do rio. Os pneus, que furavam muito, em terreno mole  deixavam de andar; com capim e ramos se dava consistência ao piso, debaixo das rodas. O esforço era grande, o desgaste também!
Enquanto progrediam, devagar, quando sem sobressaltos, em picada de trilho fundo, uma cantilena soava, compassada, para ajudar a chegar ao destino. Quipungo (Vila Paiva Couceiro), estava quase ali, mas como terra vizinha e familiar, carenciava de mais demora, até por que lá se podia fazer a compra de peles: de bovino, caprino e antílopes. E cera havia bastante também!
Capelongo (Vila Folgares) era passagem, contactos aí, havia-os, já de rotina, mas sempre algo de novo era motivo de  conversa e   tratavam-se assuntos de negócio...
Vila da Ponte, surgia só depois de  longo e agitado percurso, com calor de tarde Africana, muito mosquito do rio Cunene. Cansava e desesperavam-se, por vezes, passando chanas imensas, atravessando afluentes do rio Cubango, com margens difíceis de alcançar. Mas mais além, Vila Serpa Pinto era do roteiro, o ponto mais a Sul do percurso determinado, e ei-los chegados...
A  noite, passava-se em pensão  de proprietário amigo, que tinha a família toda a trabalhar ali. Recebiam com euforia quem chegava, e ouviam com avidez, notícias  de parentes e amigos espalhados, deixados  para trás, ao longo da viagem.
Fizera-se o trabalho que além os levara, melhor, pior negócio, era a procura devida e possível na época... E continuava, no regresso, subindo a Caconda, sede de concelho, onde o desenvolvimento prometia.  Na descida, zona já mais povoada, bem conhecidos das gentes do Lubango, eram os Postos administrativos de Caluquembe e Negola.   Chegar a Quilengues sabia a final de missão  e, quase na cidade, ainda no  Hoque, a temperatura agradável permitia um curto período de descanso.
Uma TRAVESSIA que acabava com a chegada a casa, e foi a história contada ao final do dia, recordando como aventura, um princípio de vida, que foi o seu... com saudade!

Travessia 

 


 
Publicado por Zory
 http://canais.sol.pt/blogs/zory/default.aspx?p=2

sexta-feira, 18 de Maio de 2012

Sarah Adamopoulos: História(s) do retorno


Voltar é feito de palavras que se adivinham entrecortadas pela emoção. Voltar conta memórias do colonialismo, da descolonização, na voz de quem viveu na pele a voracidade de um regresso forçado a Portugal. São testemunhos de quem voltou de Moçambique, Angola, Guiné, Timor, Cabo Verde, São Tomé, acompanhados, em jeito de grande reportagem, pela investigação histórica, política e sócio cultural feita pela jornalista e escritora Sarah Adamopoulos, 47 anos. Nascida em Roterdão, em 1964, é autora de, entre outros, A Vida Alcatifada, Os Implicados, Viver Mata, Fado Menor e Infância - quando eles eram pequeninos

Francisca Cunha Rêgo
14:45 Quinta feira, 17 de Mai de 2012
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Sarah Adamopoulos
Sarah Adamopoulos
Pedro Azevedo
JL: Voltar foca uma realidade pouco estudada - às vezes até escondida - da sociedade portuguesa. Porque quis escrever este livro?
Sarah Adamopoulos: Não tenho uma história pessoal com esta História. A convite do Ricardo Rodrigues comecei a escrever pequenas crónicas de jornalismo literário para a Notícias Magazine. Chamavam-se Histórias de África. Como denominador comum tinham o facto de se passarem todas naquele continente. Das múltiplas conversas que tive com pessoas que lá viveram, comecei a aperceber-me de que havia sempre uma outra história, nunca contada. E parecia-me que tinham muita vontade de o fazer. Isso tornou-se de tal forma evidente, que decidi parar de colaborar na revista para me dedicar a este tema. Pareceu-me necessário. Quis perceber quem eram e quantas eram estas pessoas. Oficialmente a contabilidade aponta para 500 mil, mas essa estatística não pode ser verdadeira. A memória do colonialismo e da descolonização é controversa e há muito que está por contar. Este livro é a minha pequeníssima contribuição e enquadra-se no estudo que tenho vindo a fazer sobre a sociedade portuguesa.
O que fundamentalmente viu refletido nas inúmeras conversas que compõem o livro?
Realidades muito diferentes. A das pessoas mais velhas, a maior parte bastante amarguradas, que não querem voltar. Talvez sejam estes aqueles cuja recusa melhor compreendo. Têm consciência de que não poderiam jamais reencontrar aquilo que deixaram. Além disso, há o trauma da partida. Não se tratou de voltar, mas de fugir... Muitos destes descendentes de colonos oitocentistas, nunca tinham vindo a Portugal até 1975. Essa realidade apaixonou-me. Por outro lado, quis falar também do que aconteceu cá. O meu 'assunto', e não tendo eu tido nenhuma experiência colonial, é a sociedade portuguesa. Do segundo grupo que refiro, dos que efetivamente voltaram a Portugal, tenho a representação de um vasto contingente. Uma espécie de armada ou exército de pessoas aventureiras e corajosas que tinham recusado esta miséria e partido para África.
Esses serão, se quisermos, os verdadeiros retornados. Nesse 'pacote' incluo todos os emigrantes (portugueses, brancos) e suas descendências, mas não esqueço os naturais desses lugares que Salazar dizia serem partes de Portugal, ou seja, todos os que voltaram e foram morar para barracas, que não tiveram apoios do IARN (Instituto de Apoio ao Retorno de Nacionais) nem direitos de cidadania, e ainda todos os que seguiram diretamente para o Brasil ou para a África do Sul, e vieram mais tarde, reencontrar destinos de miséria. Refiro ainda um terceiro grupo. Pessoas da minha geração, que eram crianças e jovens aquando da chegada a Portugal. Falam de alguns complexos identitários que eu já tinha compreendido e que quis aprofundar focando as questões da infância e do começo da juventude, do regresso forçado e de tudo o que se seguiu.
Voltar é quase uma grande reportagem...
Sim, uma grande e profunda reportagem, com várias reflexões no texto que corre em paralelo aos testemunhos, onde também procuro fazer uma contextualização histórica e política. Talvez seja também uma maneira de fazer jornalismo fora dos jornais. Um jornalismo cidadão, participativo e ativo onde haja espaço para pensar, longe da vertigem louca do dia-a-dia.
Disse que este trabalho é um contributo para a reflexão. O que poderá surgir a partir dele?
Gostaria sobretudo que se debatesse esta temática. Mesmo nas visões mais progressistas, a culpa histórica que ainda domina o pensamento pós-colonial, parece ser um problema inultrapassável. Mas é preciso falar sobre isto para que possamos ir tratar de outros aspetos interessantes e urgentes, como por exemplo, a questão da lusofonia.
E já tem novos planos de escrita?
Preparo um projeto sobre a memória das campanhas bacalhoeiras. Interessa-me a história social ainda por inscrever e que morre com os que vão morrendo. O tema foi-me desvendado pelo historiador Álvaro Garrido [autor do comentário da contracapa de Voltar] que pertence a uma corrente muito interessante da atual historiografia portuguesa.
Sarah Adamopoulos
VOLTAR - MEMÓRIA DO COLONIALISMO E DA DESCOLONIZAÇÃO
Planeta, 315 pp, 18,85 euros
http://sandularte.blogspot.pt/2012/05/voltar-memoria-do-colonialismo-e-da.html#links
http://visao.sapo.pt/sarah-adamopoulos-historias-do-retorno=f664891#ixzz1vGlauNG9