domingo, 20 de maio de 2012

Comerciantes do Lubango : Travessia.


Travessia 
Na década de quarenta, mil e novecentos, das terras do Lubango, havia  comerciantes que saiam da cidade, levando  a lugares distantes, mostras dos seus produtos, para expandir negócio, fornecendo assim muitas povoações. E faziam-no com empenho e perseverança, por  caminhos  difíceis...
Associando-se, iam geralmente dois companheiros, para viagens longas. Juntos  escolhiam trajectos, planeavam tudo com antecedência, e carregavam na véspera, a carrinha Fargo.
Saiam na madrugada ainda fresca, pelo cedo da hora, rumo a Vila da Ponte, (Artur de Paiva) em estrada que era  de terra batida, naquele tempo, acidentada e muito poeirenta até as chuvas chegarem...
Procurava peles e cera, o Pereira, para a sua indústria de curtumes que crescia então, lá para os lados da Mucanca, em terras do Planalto. No mostruário levava sapatos e botas, de fabrico próprio, e anotava as encomendas dos mesmos, que mandaria entregar mais tarde, em carro pesado.
Ia com Martinho, companhia em muitas dessas jornadas, dono de Ourivesaria na cidade, que com ele  levava coisas valiosas para mostrar também; era investimento ou luxo de quem  podia.
PicadaConquistando os quilómetros lentamente, dava para apreciar um nascer de sol de vermelho intenso, e direito a paragem em cantina do caminho, com comida, e café para mata-bicho, que podia ser  na Capunda-Cavilongo (Olivença a Nova), em estabelecimento conhecido por bem servir.
Voltar ao carro logo logo, era imperioso para respeitar  horário que não deixava preguiçar muito, pois tinham  tempo calculado, com a prevenção para algum imprevisto... e tantos surgiam, por  aquelas paragens...
Dois eram os ajudantes que levavam, Paulino e Sabonete, rapazes novos, pois  naquele trajecto de mais braços e fortes se precisava, porque o carro enterrava, ou afundava na lama do leito do rio. Os pneus, que furavam muito, em terreno mole  deixavam de andar; com capim e ramos se dava consistência ao piso, debaixo das rodas. O esforço era grande, o desgaste também!
Enquanto progrediam, devagar, quando sem sobressaltos, em picada de trilho fundo, uma cantilena soava, compassada, para ajudar a chegar ao destino. Quipungo (Vila Paiva Couceiro), estava quase ali, mas como terra vizinha e familiar, carenciava de mais demora, até por que lá se podia fazer a compra de peles: de bovino, caprino e antílopes. E cera havia bastante também!
Capelongo (Vila Folgares) era passagem, contactos aí, havia-os, já de rotina, mas sempre algo de novo era motivo de  conversa e   tratavam-se assuntos de negócio...
Vila da Ponte, surgia só depois de  longo e agitado percurso, com calor de tarde Africana, muito mosquito do rio Cunene. Cansava e desesperavam-se, por vezes, passando chanas imensas, atravessando afluentes do rio Cubango, com margens difíceis de alcançar. Mas mais além, Vila Serpa Pinto era do roteiro, o ponto mais a Sul do percurso determinado, e ei-los chegados...
A  noite, passava-se em pensão  de proprietário amigo, que tinha a família toda a trabalhar ali. Recebiam com euforia quem chegava, e ouviam com avidez, notícias  de parentes e amigos espalhados, deixados  para trás, ao longo da viagem.
Fizera-se o trabalho que além os levara, melhor, pior negócio, era a procura devida e possível na época... E continuava, no regresso, subindo a Caconda, sede de concelho, onde o desenvolvimento prometia.  Na descida, zona já mais povoada, bem conhecidos das gentes do Lubango, eram os Postos administrativos de Caluquembe e Negola.   Chegar a Quilengues sabia a final de missão  e, quase na cidade, ainda no  Hoque, a temperatura agradável permitia um curto período de descanso.
Uma TRAVESSIA que acabava com a chegada a casa, e foi a história contada ao final do dia, recordando como aventura, um princípio de vida, que foi o seu... com saudade!

Travessia 

 


 
Publicado por Zory
 http://canais.sol.pt/blogs/zory/default.aspx?p=2

sexta-feira, 18 de maio de 2012

Sarah Adamopoulos: História(s) do retorno


Voltar é feito de palavras que se adivinham entrecortadas pela emoção. Voltar conta memórias do colonialismo, da descolonização, na voz de quem viveu na pele a voracidade de um regresso forçado a Portugal. São testemunhos de quem voltou de Moçambique, Angola, Guiné, Timor, Cabo Verde, São Tomé, acompanhados, em jeito de grande reportagem, pela investigação histórica, política e sócio cultural feita pela jornalista e escritora Sarah Adamopoulos, 47 anos. Nascida em Roterdão, em 1964, é autora de, entre outros, A Vida Alcatifada, Os Implicados, Viver Mata, Fado Menor e Infância - quando eles eram pequeninos

Francisca Cunha Rêgo
14:45 Quinta feira, 17 de Mai de 2012
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Sarah Adamopoulos
Sarah Adamopoulos
Pedro Azevedo
JL: Voltar foca uma realidade pouco estudada - às vezes até escondida - da sociedade portuguesa. Porque quis escrever este livro?
Sarah Adamopoulos: Não tenho uma história pessoal com esta História. A convite do Ricardo Rodrigues comecei a escrever pequenas crónicas de jornalismo literário para a Notícias Magazine. Chamavam-se Histórias de África. Como denominador comum tinham o facto de se passarem todas naquele continente. Das múltiplas conversas que tive com pessoas que lá viveram, comecei a aperceber-me de que havia sempre uma outra história, nunca contada. E parecia-me que tinham muita vontade de o fazer. Isso tornou-se de tal forma evidente, que decidi parar de colaborar na revista para me dedicar a este tema. Pareceu-me necessário. Quis perceber quem eram e quantas eram estas pessoas. Oficialmente a contabilidade aponta para 500 mil, mas essa estatística não pode ser verdadeira. A memória do colonialismo e da descolonização é controversa e há muito que está por contar. Este livro é a minha pequeníssima contribuição e enquadra-se no estudo que tenho vindo a fazer sobre a sociedade portuguesa.
O que fundamentalmente viu refletido nas inúmeras conversas que compõem o livro?
Realidades muito diferentes. A das pessoas mais velhas, a maior parte bastante amarguradas, que não querem voltar. Talvez sejam estes aqueles cuja recusa melhor compreendo. Têm consciência de que não poderiam jamais reencontrar aquilo que deixaram. Além disso, há o trauma da partida. Não se tratou de voltar, mas de fugir... Muitos destes descendentes de colonos oitocentistas, nunca tinham vindo a Portugal até 1975. Essa realidade apaixonou-me. Por outro lado, quis falar também do que aconteceu cá. O meu 'assunto', e não tendo eu tido nenhuma experiência colonial, é a sociedade portuguesa. Do segundo grupo que refiro, dos que efetivamente voltaram a Portugal, tenho a representação de um vasto contingente. Uma espécie de armada ou exército de pessoas aventureiras e corajosas que tinham recusado esta miséria e partido para África.
Esses serão, se quisermos, os verdadeiros retornados. Nesse 'pacote' incluo todos os emigrantes (portugueses, brancos) e suas descendências, mas não esqueço os naturais desses lugares que Salazar dizia serem partes de Portugal, ou seja, todos os que voltaram e foram morar para barracas, que não tiveram apoios do IARN (Instituto de Apoio ao Retorno de Nacionais) nem direitos de cidadania, e ainda todos os que seguiram diretamente para o Brasil ou para a África do Sul, e vieram mais tarde, reencontrar destinos de miséria. Refiro ainda um terceiro grupo. Pessoas da minha geração, que eram crianças e jovens aquando da chegada a Portugal. Falam de alguns complexos identitários que eu já tinha compreendido e que quis aprofundar focando as questões da infância e do começo da juventude, do regresso forçado e de tudo o que se seguiu.
Voltar é quase uma grande reportagem...
Sim, uma grande e profunda reportagem, com várias reflexões no texto que corre em paralelo aos testemunhos, onde também procuro fazer uma contextualização histórica e política. Talvez seja também uma maneira de fazer jornalismo fora dos jornais. Um jornalismo cidadão, participativo e ativo onde haja espaço para pensar, longe da vertigem louca do dia-a-dia.
Disse que este trabalho é um contributo para a reflexão. O que poderá surgir a partir dele?
Gostaria sobretudo que se debatesse esta temática. Mesmo nas visões mais progressistas, a culpa histórica que ainda domina o pensamento pós-colonial, parece ser um problema inultrapassável. Mas é preciso falar sobre isto para que possamos ir tratar de outros aspetos interessantes e urgentes, como por exemplo, a questão da lusofonia.
E já tem novos planos de escrita?
Preparo um projeto sobre a memória das campanhas bacalhoeiras. Interessa-me a história social ainda por inscrever e que morre com os que vão morrendo. O tema foi-me desvendado pelo historiador Álvaro Garrido [autor do comentário da contracapa de Voltar] que pertence a uma corrente muito interessante da atual historiografia portuguesa.
Sarah Adamopoulos
VOLTAR - MEMÓRIA DO COLONIALISMO E DA DESCOLONIZAÇÃO
Planeta, 315 pp, 18,85 euros
http://sandularte.blogspot.pt/2012/05/voltar-memoria-do-colonialismo-e-da.html#links
http://visao.sapo.pt/sarah-adamopoulos-historias-do-retorno=f664891#ixzz1vGlauNG9

quinta-feira, 17 de maio de 2012

UM VIDEO DE QUANDO EM QUANDO: Compreenda o liberalismo selvagem que gerou a crise em que os países mergulhados...



O novo documentário da equipa responsável por Dividocracia chama-se Castastroika e faz um relato avassalador sobre o impacte da privatização massiva de bens públicos e sobre toda a ideologia neoliberal que está por detrás. Catastroika denuncia exemplos concretos na Rússia, Chile, Inglaterra, França, Estados Unidos e, obviamente, na Grécia, em sectores como os transportes, a água ou a energia. Produzido através de contribuições do público, conta com o testemunho de nomes como Slavoj Žižek, Naomi Klein, Luis Sepúlveda, Ken Loach, Dean Baker e Aditya Chakrabortyy.

De forma deliberada e com uma motivação ideológica clara, os governos daqueles países estrangulam ou estrangularam serviços públicos fundamentais, elegendo os funcionários públicos como bodes expiatórios, para apresentarem, em seguida, a privatização como solução óbvia e inevitável. Sacrifica-se a qualidade, a segurança e a sustentabilidade, provocando, invariavelmente, uma deterioração generalizada da qualidade de vida dos cidadãos.
As consequências mais devastadores registam-se nos países obrigados, por credores e instituições internacionais (como a Troika), a proceder a privatizações massivas, como contrapartida dos planos de «resgate». Catastroika evidencia, por exemplo, que o endividamento consiste numa estratégia para suspender a democracia e implementar medidas que nunca nenhum regime democrático ousou sequer propor antes de serem testadas nas ditaduras do Chile e da Turquia. O objectivo é a transferência para mãos privadas da riqueza gerada, ao longo dos tempos, pelos cidadãos. Nada disto seria possível, num país democrático, sem a implementação de medidas de austeridade que deixem a economia refém dos mecanismos da especulação e da chantagem — o que implica, como se está a ver na Grécia, o total aniquilamento das estruturas basilares da sociedade, nomeadamente as que garantem a sustentabilidade, a coesão social e níveis de vida condignos.

Se a Grécia é o melhor exemplo da relação entre a dividocracia e a catastroika, ela é também, nestes dias, a prova de que as pessoas não abdicaram da responsabilidade de exigir um futuro. Cá e lá, é importante saber o que está em jogo — e Catastroika rompe com o discurso hegemónico omnipresente nos media convencionais, tornando bem claro que o desafio que temos pela frente é optar entre a luta ou a barbárie.






 

Sporting Clube do Huambo: 1959


 
 
O Sporting Clube do Huambo é um clube angolano, que foi filial do Sporting Clube de Portugal, com número de filial 44, o que coloca a data de fundação provável no fim dos anos 1920 ou início dos anos 1930. Em 15 de Outubro de 1931 o Sporting do Huambo já existia e tinha uma sede onde funcionava uma biblioteca móvel pertencente ao Estado. Um dos fundadores foi o Sr. Edmundo da Silva Antunes, que também fundou a Associação Comercial do Huambo. Em meados dos anos 1940 o clube inaugurou uma nova sede na Rua do Comércio.
Com o passar dos anos, o Sporting Clube do Huambo tronou-se uma importante potência desportiva regional, com um complexo que incluía um campo de futebol relvado, duas piscinas incluindo uma para saltos, uma pista de atletismo, e um campo polivalente. Para além do futebol e natação, o Sporting de Huambo tinha outras modalidades, como o basquetebol, hóquei em patins, atletismo.

Foi no entanto no automobilismo que o Sporting do Huambo mais se notabilizou. Organizou a prova Seis Horas Internacionais de Nova Lisboa - Huambo, que teve lugar nos dias 5 e 6 de Agosto de 1972 e contou com a presença de diversos pilotos e escuderias internacionais e foi reconhecida pela FIA. Organizou também uma escuderia própria, que participava em todas as provas automobilísticas da zona.
 
O Sporting do Huambo também tinha um papel importante na vida social da então assim denominada Nova Lisboa, pertencendo-lhe o concorrido Cinema 404, e organizando bailes e outras festividades.

Depois da independência de Angola, o Sporting Clube de Huambo desligou-se da casa-mãe, não se conhecendo os motivos. O clube ainda existe, mas as suas instalações estão muito degradadas, não se adequando à prática deportiva. Cerca do ano 2010 foi anunciada a intenção por parte do governo Angolano de recuperar as instalações.
 
 
Aquele estádio poderá não ser do Sporting do Huambo, mas aqui está a sua equipe do ano de 1959, na qual visualizamos o nosso dileto Amigo neolisboeta António Borges Fernandes, entre os seus integrantes, bem como o resumo da sua história clubista, graças à entidade-mor.
Fonte:


Ler mais: http://www.forumscp.com/wiki/index.php?t…o#ixzz1u7qDkdGH

Vista de uma rua de Nova Lisboa (Huambo) na época colonial


Foto primeiramente exposta por Mael Manecas.

sexta-feira, 11 de maio de 2012

Os ossos da colonização (1)


“O que é importante é a história. Porque quando todos nós formos pó,- dentes e pedaços de pele- quando estivermos a dançar com os nossos próprios esqueletos- as nossas palavras poderão ser tudo o que restará de nós.” Alexandra Fuller em Scribbling the Cat-Travels with an african soldier.London 2005 Picador. (edição em inglês)
Em um ensaio anterior estabelecemos a diferença entre colonialismo e colonização. E exumámos os esqueletos do colonialismo. Agora vamos analisar os esqueletos da colonização: não estão em armários, como os do colonialismo, mas espalham-se por toda a Angola, sob o olhar desconsolado dos angolanos que sonharam sempre com uma melhoria que, infelizmente, tarda em aparecer.

Por que perdeu Angola, em três dezenas de anos, todo um património em que se empenharam milhares de pessoas?

Ressalvando alguns aspectos negativos dos colonos, abordados em anteriores artigo(Os ossos do colonialismo) (A utopia de um novo Brasil em África), a colonização dos portugueses foi positiva, decorridos mais de 30 anos sobre o seu fim, com a poeira histórica já muito assente. Sobre os colonos, em uma manobra hábil da descolonização feita pelos militares portugueses , foram descarregados todos os anátemas do colonialismo. Mas este foi idealizado, normatizado e dirigido, sempre, sem um minuto de descanso, por Lisboa. Para os colonos foi descarregado o fardo desse colonialismo oco e antiquado, totalmente gizado e dirigido por Lisboa, embora eles não saiam isentos de culpa, por terem mantido uma passividade colaborante e de se terem aproveitado de leis injustas, especialmente as referentes ao trabalho compelido. Infelizmente o hábito de injustiças acaba por legitimizá-las, mas só para os que delas usufruem. Os colonos construíam, os oligarcas obstruíam, estes mentiam, aqueles acreditavam.


Continua....

terça-feira, 8 de maio de 2012

VIDEO ANGOLA


OS “ESPOLIADOS” DO ULTRAMAR PORTUGUÊS

DESENTERRANDO...



Manuel Abrantes - Lisboa
Os portugueses, ex-residentes no antigo Ultramar Português, continuam à espera de indemnizações por bens perdidos, em particular os que em 1974 e 1975 foram entregues à guarda dos consulados e embaixadas portuguesas.

Uma situação vergonhosa para todos nós. Os consulados e embaixadas portuguesa nunca restituíram os bens que lhe foram confiados pelos ex-residente no Ultramar Português.

Os 'espoliados' do Ultramar entregaram em 1994 uma petição na AR, com mais de cinco mil assinaturas, que só foi debatida dez anos depois, na qual reivindicavam ao Estado português as indemnizações devidas pelo processo de descolonização ao Estado. Na altura, em 2004, no final do Governo de Durão Barroso, o então ministro dos Assuntos Parlamentares, Marques Mendes, anunciou a criação de um grupo de trabalho interministerial - que seria composto pelos ministérios das Finanças, Negócios Estrangeiros e Segurança Social e Trabalho- que, no prazo de um ano, iria "estudar e propor soluções" para os problemas dos portugueses que residiram no antigo Ultramar Português.

Contudo, e até ao momento, é o silêncio total.
A situação dos “espoliados” do nosso Ultramar é uma vergonha para todos nós. È uma autentica chaga na nossa História.

È uma vergonha!!!!

E mais: - Não sou “espoliado” nem sequer tenho ninguém na minha família que o fosse. Mas – como Português –, tenho vergonha desta situação.
De que estão à espera?      Eu sei!
Que acabem por morrer (fruto da idade) todos os que sentiram na pele a “exemplar” descolonização?
Tenham vergonha senhores da política.
Até os 55 portugueses residentes no antigo Zaire, no ano passado, já receberam compensação financeira da República Democrática do Congo por terem perdido património e outros bens na sequência das nacionalizações e expropriações promovidas pelo regime de Mobutu Sese Seko na década de 70.
Os milhares ( cerca de um milhão) de ex-residentes no Ultramar nada tem e , pelo andar da carruagem, nada irão ter.
Não há dúvida, até o ditador Mobutu tem mais consciência cívica e humana do que os políticos que mandam no nosso País.
Vergonha!!!!
E chamam a isto um regime democrático.
Manuel Abrantes
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2 — Os espoliados continuam a dizer que se sentem traídos pelos Governo. Acha que o actual Executivo também deveria fazer pressão junto do governo angolano para este ter a mesma atitude com os portugueses como teve com os alemães? Ou acha que o Governo prefere fazer elogios ao regime de Luanda.  Como comenta a gestão de todo este processo pelo Governo português? O que podera ser feito por Portugal?

Os espoliados dizem-se traídos e estão cheios de razão. Sou genro de um espoliado, pioneiro da colonização do norte de Angola, António Cordeiro de Oliveira. Com 13 anos rumou a Angola. Em 1921, com apenas 19 anos, fundou a povoação que é o concelho do Songo, distrito do Uíge. Grande empreendedor, criou um conglomerado de actividades de que faziam parte, entre outras coisas, quatro fazendas de café, casa comercial, farmácia, criação extensiva de gado, terrenos e habitações em Luanda. Tudo quanto ganhou foi investido em Angola, que considerava a sua terra, tendo também financiado a instalação de vários conterrâneos. Não transferiu um escudo para a metrópole, tal era a confiança e o amor por Angola. Abruptamente, em 1975, nas vésperas da independência, para salvar a vida, teve que fugir com a família: nem o dinheiro que tinha no banco conseguiu levantar. Chegou à metrópole tão pobre como tinha saído em 1913 e, até ao fim da vida, viveu de uma mísera pensão de velhice. Foi traído pelo governo de Angola, país a cujo desenvolvimento devotou uma vida inteira. Foi traído pelo governo português da época que, branqueando a história, quer fazer crer, aliás como os actuais, que foi feita uma “descolonização exemplar”. Foi traído por sucessivos governos portugueses de todas as cores políticas que, ignorando as suas responsabilidades, se alhearam do problema da indemnização aos espoliados. Alguns, como o governo do Senhor Professor Cavaco Silva, fingiram interessar-se pelo problema, tendo este criado um Gabinete de Apoio aos Espoliados, que nunca serviu para nada. Foi traído pela sociedade civil portuguesa que, depreciativamente rotulou de “retornados” os espoliados das províncias ultramarinas e, de alguma forma, até os segregou socialmente. Foi traído por uma fauna da “esquerda bem-falante” que, além de nunca nada ter feito por Portugal, não hesitou em afirmar que os espoliados tinham feito fortuna a roubar os pretos. Foi traído por uma Comunicação Social que é capaz de chorar lágrimas de crocodilo por Timor, mas que, genericamente, enterrou a cabeça na areia, como se o problema dos espoliados não existisse. Foi traído por pessoas como Joaquim Furtado que, na sua série televisiva sobre a guerra do Ultramar, não hesitou em diabolizar o regime político português e as nossas forças armadas e em, simultaneamente, glorificar os terroristas angolanos.
Como este colono exemplar, de quem ninguém de boa fé poderá dizer mal, muitos mais milhares de colonos foram igualmente traídos. Para eles nunca houve dinheiro para indemnizações, porque o dinheiro tem sido necessário para estádios de futebol, perdão de dívidas aos PALOP, subsídios à produção privada de filmes que ninguém vê (pelo menos um, sem imagem) e outros “negócios de Estado” que nada têm a ver com o interesse nacional: centenas de milhões de contos! E ninguém vai preso!
(Nota: esta segunda resposta foi publicada no jornal O Diabo em 26Ago2008)
Fernando Paula Vicente
Major-General da Força Aérea (Ref)

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Espoliados do Ultramar acusam: «Os políticos andam a trair-nos desde 1975»



 Roubaram o pão dos nosso filhos...

      O que foi prometido e não cumprido...

No despacho conjunto n°107/2005, publicado em Diário da República, a 3 de Fevereiro de 2005, assinado pelos ministros das Finanças (Bagão Félix), MNE (António Monteiro) e Segurança Social (Fernando Negrão) propunha-se a criação de um grupo de trabalho de âmbito governamental para tratar da questão das indemnizações devidas aos espoliados das ex-colónias destinado a «tentar reparar, tanto quanto possível, injustiças que foram consumadas».
«Não obstante terem decorrido trinta anos sobre a independência dos ex-territórios ultramarinos os sucessivos Governos não conseguiram ainda dar uma resposta suficiente aos problemas e injustiças que afectam um significativo número de portugueses que se viram forçados a regressar a Portugal durante e por causa do processo da descolonização. É certo que o Estado português tem feito algumas tentativas conducentes à avaliação e resolução desta situação de que se destaca a criação em 92 do gabinete de Apoio aos Espoliados aprovado pela resolução de Conselho de Ministro de 13/92 de 16 de Maio.
Porém esse gabinete constituído para exercer funções durante cinco anos foi extinto em 97, o que causou um grave prejuízo aos espoliados principalmente devido ao facto de não se ter esgotado nesse período o cumprimento da missão que lhe havido sido confiada na identificação e triagem das situações que lhe eram apresentadas. (.. ) Assim os ministros (...) determinam: 1) criar um grupo de trabalho que tem por objectivo estudar e propor soluções para as questões pendentes relativas aos cidadãos portugueses residentes nos antigos territórios ultramarinos, no período compreendido entre 25 Abril de 74 e a data da transferência plena de soberania para os novos governos dos Estados sucessores, cujo direitos ou interesses legítimos tenham sido directamente afectados pelos processos de descolonização (...)»

In O DIABO – 08.05.2007

CONTINUA... Espoliados do Ultramar acusam: