terça-feira, 3 de abril de 2012

MEMÓRIA(S) MALANJINA(S) : ( António Daniel Magdaleno Cochat)


 

A homenagem a um homem de bem…       as raízes       o pai inquieto       



A homenagem a um homem de bem…

Valladolid, Natal de 1990. Rodeados pelos filhos e netos, o casal Cochat, António e Josefina, celebrava alegremente e em paz aquela quadra. A dada altura, talvez sugestionado pelo frio que se fazia sentir lá fora, um dos netos perguntou ao avô:

- Avô, como foi que nasceste em Angola, numa terra tão longe daqui?

Foi com esta pergunta que o meu tio se decidiu a passar para o papel as muitas memórias da sua vida, para que os filhos e netos pudessem seguir aquele que foi um riquíssimo percurso intensamente vivido em terras angolanas.

Desses primeiro volume de escritos (o segundo estava em preparação), para além dos filhos e netos, fui um dos orgulhosos destinatários porque, entre mim e o meu tio, sempre existiu um profundo afecto. Para mim ele foi um segundo pai e estou certo que, para ele, fui mais um filho.

Foi dessas notas que extraí algumas passagens, nomeadamente as que dizem respeito a Malanje e às suas gentes, terra que adoptou como sua, terra onde nasceram e cresceram os seus filhos, terra que também o perfilhou.

Principio com alguns apontamentos sobre as suas raízes, sobre o seu início de vida e a sua meninice convivendo com a irrequietude dos pais, período que ajuda a perceber o homem em que depois se viria a tornar, passando depois para alguns episódios ocorridos já em terras malanjinas. Os títulos de cada episódio são de minha responsabilidade.

Ficam por transcrever as restantes memórias que vão para além de Malanje. E são imensas, como calcularão.

Esta é uma homenagem a um Homem de bem que, estou certo, será sempre recordado e respeitado pelos malanjinos: António Cochat.


Tomás Lima Coelho


António Daniel Magdaleno Cochat nasceu em Luanda no dia 3 de Janeiro do ano de 1920.
Chegou a Malanje, para ficar, em 19 de Agosto de 1942. Só de lá saiu, obrigado, triste e contrariado, trinta e três anos depois.

Casou em Moçâmedes, no ano de 1947, com Maria Josefina Cabral Pessoa Gavino Dias, nascida em Tomar em 1923, que partira com a família para Angola em 1929.

Do casamento há três filhos: José Daniel, Maria Adelaide e Ricardo, todos naturais de Malanje. Os três deram-lhe netos.

Faleceu em Valladolid, Espanha, no dia 19 de Outubro de 2009.

AS RAÍZES

Descendo de uma família há muito radicada em Angola, desde finais do século XIX: o meu avô paterno, Émile François Pierre Cavallier Cochat, marquês de La Tour d’Auvergne, natural de Bordéus, exerceu a partir de 1891 o cargo de cônsul da França em Luanda, onde viria a falecer em 1904. Está sepultado no cemitério do Alto das Cruzes. Para além de diplomata era pintor de reconhecido mérito: o tecto da antiga Sé de Luanda (Igreja dos Remédios) foi pintado por ele. A minha avó paterna, Elisa Garcia Jimenez, espanhola de Salamanca, viria a falecer em 1912, também em Luanda.

Deste casamento houve oito filhos (os dois mais novos já nascidos em Luanda), entre os quais o meu pai Joseph Victor Alexandre Cochat Garcia, o segundo dos irmãos, natural de Salamanca. Casou em Luanda com Oria Magdaleno Redondo, natural de Valladolid onde veio a falecer em 1982. Deste casamento houve cinco filhos sendo eu o terceiro. Dos restantes aqui fica um breve apontamento: José Ricardo, nascido em Luanda em 1915, faleceu no Lubango aos oito anos de idade, vítima da malária; Julian Ernesto, nascido em Luanda em 1917, foi morto em 1938, na batalha de Teruel, durante a guerra civil de Espanha; Manuel Virgílio, nascido em Luanda em 1921, faleceu com poucos meses de idade; por fim Maria Bernarda, nascida em Caconda em 1928, faleceu no dia 1 de Abril de 1962 num trágico acidente de viação perto de Cacuso, Malanje.

Também os meus avós maternos, Julian Magdaleno Del Barrio e Bernarda Redondo Herrero, chegaram a Angola em finais do século XIX, pois o meu avô Julian fora contratado para trabalhar na construção dos Caminhos de Ferro de Ambaca. Depois de terminada a obra seguiriam para o Lubango onde o meu avô trabalhou nos Caminhos de Ferro de Moçâmedes como chefe das oficinas. Em 1925 retornaram a Valladolid. Julian faleceu em 1946 e Bernarda em 1963. Deste casamento, para além da minha mãe Oria, houve um rapaz, o meu tio Ricardo.


O PAI INQUIETO

A minha vida, desde pequeno, foi sempre muito agitada, devido ao espírito inquieto e inconstante do meu Pai.

Desde que a minha memória me permite recordar, lembro-me de ter estado em Luanda (onde nasci), Cabinda, Lândana, Lobito, Lubango onde o meu Pai trabalhou com o meu tio Emílio no estudo e construção de uma ponte que muitos anos mais tarde ainda existia (…) e que era conhecida como a ponte dos Cochat’s.

Depois fomos para o Congo Francês e Congo Belga. Tenho uma vaga ideia de ter estado em Brazaville em casa do meu primo Júlio, filho do meu tio Júlio Cochat.

Daqui voltámos a Angola, mais propriamente para Benguela, onde os meus pais compraram uma pescaria na Caota. Não recordo o tempo que estivemos naquela pescaria, mas creio não ter sido muito.

Depois fomos para Caconda, uma vila nessa altura pequena, que ficava mais ou menos a meio caminho entre o Huambo e o Lubango. Nesta vila fui pela primeira vez a uma escola e aí estudei até iniciar a terceira classe de instrução primária.

De Caconda fomos viver para o Quipungo, uma povoação mais pequena que a anterior. Enquanto aqui estivemos não fui à escola, por não haver nessa vila. Porém pouco tempo aqui estivemos, trasladando-nos para o Lubango.

No Lubango também ficámos pouco tempo, indo novamente para Luanda, onde voltei a ir à escola, sendo esta da Câmara Municipal. Para se fazer uma ideia do que era Luanda em 1930, eu e os meus amigos sabíamos a quem pertenciam quase todos os automóveis existentes.

Nesta nova fase da nossa vida, por influências dos seus amigos Virgílio Monteiro e Dr. António Videira, o meu Pai arranjou um emprego como gerente da Casa Americana e pouco tempo depois transitou para a Robert Hudson, com o mesmo cargo.

Mas aqui em Luanda também estivemos pouco tempo, pois o meu Pai foi transferido para uma filial da Robert Hudson no Lucala. Também não havia escola, pelo que voltei a não poder estudar. Deste sítio poucas recordações tenho e as que ficaram são pouco agradáveis. Desde pequeno fui sempre muito sentimental e recordo que no Lucala me sentia triste e amargurado, de tal maneira que, quando se punha a funcionar um gramofone que tínhamos, ao ouvir música melodiosa, começava a chorar. Ainda hoje, quando oiço música desse género, bole-me qualquer coisa cá dentro.

Porém, também no Lucala não estivemos muito tempo, tendo-nos deslocado dali para o Lubango, mais uma vez. O meu Pai foi trabalhar, novamente, com o meu tio Emílio nuns levantamentos topográficos. Nesta cidade voltei a ir à escola, a da Dª Irene Portela. A minha Mãe, minha irmã e eu passámos, nessa altura, muitas dificuldades económicas e lembro-me de às vezes nos faltar o dinheiro para comprar pão. Os poucos meses que estivemos no Lubango (talvez meio ano), passei-os quase sempre doente com paludismo e andava muito cansado. Às vezes tinha que me sentar na borda dos passeios a tomar fôlego.

Mas, como já era habitual, deixámos o Lubango indo para Moçâmedes. Então, nesta cidade, já fiquei dez anos seguidos, os quais foram uns anos maravilhosos, embora com bons e maus momentos.

MALANJE, 1942

Um belo dia, ou melhor, uma bela noite, cheio de saudades da família e também da moça de quem estava enamorado (embora ainda sem nos namorarmos), embarquei no paquete “Angola” rumo a Luanda, para aí tomar um comboio que me levaria a Malanje, onde cheguei a 19 de Agosto de 1942.

À minha chegada a essa cidade sofri logo uma grande decepção ao ver o conjunto da urbe e, principalmente, o “estilo” da estação de caminho de ferro que mais parecia um simples e modesto apeadeiro (e que assim se mantém até hoje).

Fui recebido com muita amizade pela minha prima Branca e pelo marido, Augusto Beça. O casal tinha dois filhos, o Tito Eugénio e o Fernando Eugénio, ainda bastante pequenos.

O centro era constituído por bastantes casas e várias ruas, existindo um único bar, o do Barata, em frente ao qual estava o Hotel da Dª Margarida que, com mais dois, formava o complexo hoteleiro. Um era conhecido por “Hotel do 115” e o outro por “Hotel do Velho Serrão”.

Na rua principal do centro existia e funcionava ainda o primitivo hospital, num velho edifício baixo e comprido, coberto a zinco e cujo aspecto era de tudo menos da classificação que tinha.

Como cinema havia uma sala que já tinha sido uma capela, mais tarde utilizada como cavalariça e na altura usada como sala de espectáculos. Porém só se realizavam sessões cinematográficas quando calhava passar por Malanje um vendedor ambulante que se chamava Pratas.

Em Moçâmedes, de onde tinha vindo, todos os domingos à tarde se dançava um pouco e quando perguntei se em Malanje havia bailaricos, responderam-me que só se faziam festas quando vinham do mato os empregados da Cotonang, em Junho e Dezembro.

Existiam meia dúzia de automóveis de turismo, entre os quais o do Governador, o do Director da Cotonang e o do Xavier Rios, que o utilizava como táxi. Havia sim muitas carrinhas e camionetas, por ser muito intenso o transporte de géneros do interior do distrito para a capital, destacando o algodão, à volta do qual se movia quase toda a actividade comercial.

Nos arredores de Malanje existiam algumas povoações comerciais como Cangandala, Cambondo, Quéssua e Quissol, todas elas com meia dúzia de casas e cuja actividade consistia na compra de géneros aos nativos, com excepção do algodão, e venda aos mesmos de tecidos (“panos”, como chamavam), bugigangas várias e vinho.

Junto à linha do caminho de ferro também havia algumas destas povoações como Lombe, Cacuso e Lucala.

NA COTONANG

No dia 20 de Agosto de 1942, logo de manhã, apresentei-me ao serviço na Companhia Geral dos Algodões de Angola (Cotonang), uma empresa que gozava do monopólio da cultura algodoeira em toda a Baixa de Cassanje, ou melhor, em todo o distrito de Malanje. Este distrito, penso eu, é maior ou sensivelmente igual ao território de Portugal continental.

A Direcção da Companhia era composta por um Inspector, o Sr. Gustave Vitor Marin, de nacionalidade belga e por um Director que, por lei, teria que ser um cargo desempenhado por uma pessoa de nacionalidade portuguesa. Na altura estava vago e só uns dois anos depois foi nomeado o Sr. José Maria Pereira de Carvalho. Havia também um Secretário da Direcção, o Sr. Tito Augusto Ferro Beça.

O quadro do pessoal do escritório era composto por um Guarda-Livros, o Sr. Henrique Mena Abrantes, dois escriturários, os Srs. João Ferreira Martins e Adelino Silva e havia ainda um Sr. de nome Alípio dos Santos Mateus que nunca cheguei a saber qual a sua categoria, pois tanto servia de dactilógrafo, como encarregado de armazém, como pretendia ainda dar ordens a todos.

Os restantes empregados eram os chamados “pessoal do mato” e era composto pelos que se encontravam na Estação Experimental do Sunjinje, encarregados do melhoramento e pureza das sementes e outros trabalhos técnicos, e ainda os Agentes Principais e os Agentes de Sector, sendo os primeiros encarregados de fiscalização de vários sectores e os últimos da fiscalização e trabalhos nos próprios sectores. Os sectores eram constituídos, cada um, por uma certa zona onde se cultivava o algodoeiro.

Durante dez dias ia ao escritório trabalhar no que fosse, à espera de ser colocado num Sector, pois o cargo que teria de desempenhar era o de Agente, que era o Chefe de uma zona algodoeira, das várias em que a Companhia tinha dividido a Baixa de Cassanje.

Nunca me hei-de esquecer que, nos primeiros quatro ou cinco dias, me foi designado um trabalho que creio ter sido o mais aborrecido de toda a minha vida profissional. Consistia em contar e colocar vários grupos de cem sementes de algodoeiro, para serem analisadas e classificadas, num estudo de melhoramento das ditas que estava a ser feito por um técnico inglês, o Mr. Smith, contratado pela Cotonang para o efeito. Então, depois do almoço, dava-me tal sono que fazia um esforço enorme para o vencer pois não queria dar a ideia de ser mandrião.

Nos primeiros dias de Setembro recebi ordens para preparar as coisas pois iria ajudar um colega no Sector de Tala Mungongo que nesse ano tinha uma produção muito grande e o homem sozinho não dava conta, dizia ele, e digo isto porque nos vinte dias em que lá estive, como “caloiro” que era, esse colega de nome António Pereira de Carvalho Junior (de quem me fiz muito amigo depois), pôs-me a fazer compras de algodão dizendo-me que tinha de pôr em dia a contabilidade, fazer experiências de rendimento e outros trabalhos que tinha deixado em atraso por falta de tempo. Isto até me assustou um pouco ao pensar no que me iria acontecer quando estivesse também só no meu futuro Sector.

Porém, o Inspector Marin, quando ao fim desses vinte dias viu que as folhas de compra que se mandavam para os escritórios de Malanje iam todas com a minha letra, deu conta da marosca, meteu-se a caminho de Tala Mungongo e nesse mesmo dia levou-me para Malanje.

PARTIDA PARA O MATO

Quando me deram ordem de marcha, forneceram-me uma “cantina” que se compunha de duas malas de madeira, bastante grandes, que levavam um serviço de pratos, talheres, toalhas de mesa, guardanapos, tudo para duas pessoas e todos os acessórios de cozinha. Também uma tenda, uma cama de campanha com o respectivo colchão de algodão (naturalmente!), mosquiteiro e roupa de cama, como lençóis, travesseiro e cobertores.

Saí de Malanje, pelas onze da manhã, numa camioneta conduzida pelo seu dono, de nome José Luís Carvalho, com a ideia de se almoçar em Catala. Esta povoação compunha-se de umas cinco ou seis casas comerciais e numa delas ficámos a comer.

O dono, cujo nome não me recordo, era um homem gordo e grande, muito falador e que suava por todos os poros. O que não me esquece foi que, quando estávamos à mesa, no meio de animada conversa da sua parte, de vez em quando coçava a cabeça com o garfo que tinha na mão e limpava o suor da testa e das fontes com a faca de que se servia para continuar a comer.

Aproveitou ter um novo ouvinte para contar as suas aventuras cinegéticas, muito exageradas e sempre as mesmas, segundo me disseram depois. Contava-se até uma cena engraçada, passada com ele e com um Chefe de Posto: dizia ele que, numa caçada, lhe aparece uma manada de palancas, mete a arma à cara, dá um tiro e cai uma palanca, outro tiro e outra palanca, mais outro… e quando já ia na sexta ou na sétima o Chefe de Posto, já farto e irritado disse-lhe: “- Seu c…, se mata essa, não sei o que lhe faço!”, ao que ele, muito calmamente, respondeu: “- Por acaso essa falhei.” E acabou tudo numa risota geral.

Depois de comidos seguimos viagem, tendo chegado ao nosso destino ao anoitecer.

TALA MUNGONGO

Tala Mungongo era uma povoação pequena, que fica perto da falésia onde se podia descer à Baixa de Cassanje por uma caminho muito sinuoso e difícil. Os nativos puseram-lhe esse nome porque “Tala” significa “olha” e “Mungongo” significa “monte ou montanha”, o que quer dizer “Olha do monte” já que, na realidade, dali se divisa toda a grandiosidade da Baixa.

Fui recebido em casa do meu colega Carvalho e esposa Maria da Graça, com os quais jantei, e destinaram-me a casa de trânsito para dormir.

Como já era de noite não me apercebi do “estilo” da dita casa de trânsito e só dei conta disso no outro dia: era uma casa de pau-a-pique coberta a capim e chão de terra batida. Compunha-se de duas habitações, sendo uma destinada a dormitório e a outra a sala de jantar. Tinha só uma porta de entrada, que dava para a sala de jantar, e um janelo no quarto. A dita porta era apenas um caixilho de madeira revestido com uma chapa de zinco e a pequena janela era tapada com uma espécie de estore feito com pauzinhos finos ligados entre si com matebas. As paredes, tanto exteriores com interiores, não estavam caiadas e eram da cor do barro com que tinham sido revestidas. Assim, ao entrar, tinha de ficar um bocado parado para que os meus olhos se habituassem à escuridão do interior.

Passados uns dias da minha chegada a Tala Mungongo fui informado do meu novo destino: o Sector de Cahombo, distante 130 Km de Malanje.


CAHOMBO

Gastei um par de dias a preparar o necessário, como abastecimento de géneros alimentícios para três meses, visto o transporte para os Sectores não ser muito frequente. Valeu-me a minha prima Branca, já habituada a estas coisas, pois o Beça até havia pouco tempo tinha sido Agente Principal e por tal motivo deslocava-se a vários Sectores. Acompanhou-me aos Armazéns da Beira, que era a melhor mercearia da terra, e aí comprámos uma série de géneros em tão grandes quantidades que já estava a ficar apreensivo com o pagamento. Grande foi o meu espanto quando me disseram o total a pagar: à volta de 800 angolares.

Assim que, acompanhado pelo Beça, a quem a Direcção recomendara a sua deslocação comigo para me orientar nos primeiros dias num trabalho que desconhecia completamente, metemo-nos a caminho de Cahombo pela estrada que passa por Cambaxe, Brito Godins e Cambo Camana onde, a dita estrada, seguia para o Sunjinje. Dali tomámos outra para Cahombo e esta seguia para Marimba e Tembo Aluma, já perto da fronteira com o Congo Belga.

Cahombo, que na língua nativa quer dizer “terra de cabras ou cabritos”, na altura era uma pequena povoação com três casas comerciais e que ficava no cimo de uma pequena encosta que dava para um rio com o nome de Mola. No cimo da outra encosta que ficava em frente estavam as instalações do sector algodoeiro, mais conhecido por “Recinto da Cotonang”.

Nessas três casas comerciais era engraçado estarem representantes de três raças, pois havia um comerciante preto, de nome Manuel do Nascimento Pegado, outro mestiço, o Emílio Armando Fernandes (mais conhecido por Armando de Cahombo) e o terceiro um branco que se chamava qualquer coisa Silva (não me lembro do primeiro nome). O primeiro era um bom homem, o segundo uma excelente pessoa que logo que teve conhecimento da nossa chegada foi cumprimentar-nos e com ele convivi bastante; o último era o pior, muito dado a conflitos com toda a gente e com o qual pouco lidei.

Tanto a fábrica como o armazém, e um outro já construído no meu tempo, e duas novas casas (no tempo do meu sucessor, o Soares Borrego) sendo uma para o Agente e outra para um mecânico, eram de tijolo e cobertas de luzalite e telha.

Passados uns anos, já não estava lá eu, transferiram para Cahombo a sede de circunscrição do Cambo, situada em Marimba, e então foram construídas, além de mais dois ou três estabelecimentos comerciais, várias casas para os funcionários, centro sanitário e até uma pequena capela, sendo também instalada uma central eléctrica que fornecia luz para as casas e ruas.

Logo no dia da chegada tratei de me munir de pessoal serviçal e, tendo sabido da existência de um cozinheiro que tinha prestado serviços a um antigo colega, mandei-o chamar e com agrado aceitou trabalhar para mim. Chamava-se Domingos e além de excelente profissional, pois até doces sabia confeccionar, mostrou sempre dedicação e amizade. Preenchido já o posto principal, contratei um criado para o serviço doméstico, cujo nome era Zua, uma pessoa simples e não muito inteligente, mas também de uma dedicação e honestidade a toda a prova. Ficámos ambos famosos entre os meus colegas: ele pela sua pouca inteligência e eu pela minha paciência. O Zua era do género de eu mandar que trouxesse, por exemplo, um garfo e ele, todo rápido, ia à cantina e trazia uma colher ou qualquer outra coisa; eu ficava com o que ele trazia e explicava o que pretendia. Voltava à cantina e ia trazendo o que calhava, até acertar.


OS ENFERMEIROS DO MATO

Falando em curas e medicamentos não podia deixar de mencionar os “enfermeiros do mato”, pelo muito que contribuíram para a boa saúde de tantos, fossem brancos ou pretos, com o seu trabalho abnegado.

Com a falta de médicos que então havia, pois em muitas regiões o mais perto ficava a centenas de quilómetros, estes enfermeiros tinham de os substituir, tratando os doentes que se lhes apresentavam, em alguns casos fazendo pequenas intervenções cirúrgicas, assistindo a partos, extraindo dentes, enfim, fazendo de tudo. Quantas vidas salvaram, apesar dos poucos recursos de que dispunham.

Havia uns poucos que eram autênticos médicos, pois resolviam casos complicadíssimos graças à sua grande experiência e aperfeiçoamentos científicos que iam colhendo ao longo da sua atribulada vida profissional. Entre tantos estou a lembrar-me do “velho” Magalhães, enfermeiro durante muitos anos no Quela, que tantas vidas livrou das garras da morte.

Conto um caso que se passou com o meu colega e bom amigo Francisco António Pereira, conhecido por “Serapicos” (creio que esta alcunha lhe vem do nome da terra em que nasceu), a quem se declarou uma biliosa em pleno mato, a uns trinta ou quarenta quilómetros do Posto Sanitário e cuja deslocação era desaconselhada nestes casos. Pois este enfermeiro deslocou-se de tipóia ao local onde se encontrava o doente e esteve três ou quatro dias à sua cabeceira até o ver livre do perigo de uma doença quase sempre fatal.

No meu caso particular digo que, quando estive em Cahombo, o enfermeiro mais próximo encontrava-se em Marimba, uma povoação que dista oitenta quilómetros, e um médico só o encontraria em Malanje, a cento e trinta quilómetros em sentido contrário ao do enfermeiro, pelo que estavam separados por duzentos e dez quilómetros. Nos cinco anos que passei no mato só tive de recorrer ao clínico uma vez por causa de umas febres passageiras e ao enfermeiro uma só vez e por estar perto de Marimba, onde havia um, por causa de um furúnculo que me apareceu num tornozelo mas que resultou não o ser: tratava-se de uma pequena larva que se tinha introduzido na pele, proveniente de uns ovos depositados por uma certa espécie de mosca.


CASTIGO E ARREPENDIMENTO

A propósito de castigos confesso que castiguei alguns e enviei bastantes ao Posto para que lá fossem punidos. Fiz sempre os possíveis por ser justo embora reconheça que possa ter falhado alguma vez.

Houve porém um motivo que me levou a modificar este modo de proceder e era preciso depois uma causa muito forte para recorrer ao castigo corporal, preferindo o diálogo e o convencimento.

Foi uma conversa que tive com um mais-velho: Quando chegava ao acampamento e o cansaço não era muito, gostava de ouvir as pessoas idosas porque, por vezes, tirava ensinamentos das suas narrações e histórias que levavam a experiência de muitos anos vividos.

Disse-me então o tal velhote:

- Não sei para que vieram os brancos para a nossa terra. Antes, levávamos uma vida a nosso modo. Não trabalhávamos, quando era preciso caçávamos, pescávamos, comíamos os frutos que as nossas árvores nos davam, bebíamos o nosso marufo, fumávamos o nosso cachimbo e discutíamos as nossas makas sobre as nossas mulheres e o nosso gado. Vieram os brancos, passámos a ter de pagar imposto, construir e reparar estradas, cultivar algodão, comprar roupa, porque não nos deixam entrar nas povoações sem ela e, para tudo isto, temos de trabalhar.

O velhote não dizia isto zangado mas com uma certa tristeza.

Depois da conversa com o sekulo, tomei a decisão de não acrescentar mais um contra ao modo como levavam agora a vida. Passei a evitar os castigos. Mantive porém um, que empregava com êxito, que era não dar a carne dos animais que caçava, sabendo o grande apreço que tinham por ela.

Outro que também mantive foi o da xingadela. Xingar significa não só insultar, mas também zombar ou gozar, o que eles sentiam muito. Porém só ficava aliviado quando, depois de uma série de xingadelas, finalizava sempre com um palavrão.

Ora uma vez estava a xingar um, que escutava tudo muito calmo, e quando cheguei à última palavra “mimosa” sorriu e disse-me:

- Bom, antão até logo, Sr. Corochá (que era como me chamavam).
- Até logo, porquê?
- Bem, como já xingaste a minha mãe… é porque a maka já acabou.


EPISÓDIO MALANJINO

No dia 10 de Março de 1857 publica-se uma Portaria no Boletim Oficial de Angola que cria o Concelho de Malanje.
Em 1957, comemorando o primeiro centenário, realizaram-se vários actos que terminaram com um baile de gala no Palácio do Comércio.

Foram convidadas várias personalidades, tanto públicas como privadas, e a Fina e eu também fomos convidados.

A propósito deste baile contava-se o seguinte episódio: havia em Malanje um comerciante, meio analfabeto, que era muito vaidoso e por isso ninguém gostava dele. Meteu-se-lhe na cabeça que também devia ter sido convidado. Indagou quem fazia parte da Comissão Organizadora dos festejos e soube ser um deles o Sr Augusto Cerveira Baptista, que era o Director da Fazenda. Foi ter com ele e formulou o seu pedido e empenho ao que, muito diplomaticamente, este lhe disse ter muita pena mas o número de pessoas a convidar era muito restrito e já não havia vagas, mas que ficasse descansado porque para o outro centenário não seria esquecido. E assim o dito comerciante agradeceu e foi-se embora todo contente por ter sido convidado para os festejos do segundo centenário!

PESSOAL DA COTONANG, FINAIS DOS ANOS 40




A HISTÓRIA DE UM NASCIMENTO

Um certo dia, a Fina disse-me que estava grávida! Esta gravidez resultou para nós numa agradável e surpreendente surpresa uma vez que, ela com 43 e eu com 46 anos, não tínhamos nos planos a vinda de mais um filho.

A Fina passou a ser acompanhada por uma médica de Malanje (seria, talvez, a Dra. Hortense Cerveira Baptista). Quando lhe pareceu que chegava a hora do parto a médica confirmou-o, frisando no entanto que seria necessária uma cesariana e que não havia condições para isso em Malanje, de uma forma segura.

Malanje, nessa altura, estava ligada a Luanda por avião uma vez por semana, só que o dito avião já tinha passado. Não tivemos outra alternativa senão alugar uma avioneta do Aeroclube de Malanje que nos levaria à capital.

Foi assim que, numa pequena aeronave, só com dois lugares, fomos três: o piloto, Leonel Gomes Pinto, a Fina e eu num pequeno espaço todo encolhido. Foi o início de uma aventura: era a primeira vez que o Leonel fazia um voo tão longo e o aparelho não tinha nem rádio nem os instrumentos de que hoje estão dotados.

O Leonel levava um mapa sobre os joelhos e orientava-se seguindo a linha do caminho-de-ferro que passava debaixo. Às tantas esta desapareceu encoberta por uma densa floresta de árvores frondosas, desorientando por completo o bom do Leonel. Eu, que nessa época tinha um grande sentido de orientação, ao ver a sua dúvida, disse que, se nos dirigíssemos para Oeste, de certeza que iríamos ter ao mar. Assim se fez e com tanta sorte que fomos parar ao Cacuaco, a cerca de cinquenta quilómetros de Luanda, e daí rumámos então para lá.

Chegados à Casa de Saúde uma enfermeira-parteira examinou a parturiente e afirmou que, no seu entender, a criança só nasceria dali a um mês! Estávamos a 6 de Março e, de facto, o parto só aconteceu a 7 de Abril.

Foi assim, algo atribulado, que aconteceu o nascimento do meu filho mais novo, o António Ricardo, perfeito e são, quando corria o ano de 1966.


6 comentários:

Anónimo disse...

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Unknown disse...

Olá
Li o seu depoimento e achei o máximo quando li o nome do meu tio Leonel Gomes Pinto de Malange. Fez-me recordar com saudade momentos da minha infância, quando vivia em Luanda. Quando o meu tio ía até Luanda a forma de nos avisar da sua chegada era sobrevoar baixinho a nossa casa. Chamo-me Alexandra e sou filha do irmão mais novo do Leonel (Jorge Costa Gomes PInto) infelizmente ambos falecidos. Beijinhos

Unknown disse...

Olá
Li o seu depoimento e achei o máximo quando li o nome do meu tio Leonel Gomes Pinto de Malange. Fez-me recordar com saudade momentos da minha infância, quando vivia em Luanda. Quando o meu tio ía até Luanda a forma de nos avisar da sua chegada era sobrevoar baixinho a nossa casa. Chamo-me Alexandra e sou filha do irmão mais novo do Leonel (Jorge Costa Gomes PInto) infelizmente ambos falecidos. Beijinhos

Unknown disse...

Olá
Li o seu depoimento e achei o máximo quando li o nome do meu tio Leonel Gomes Pinto de Malange. Fez-me recordar com saudade momentos da minha infância, quando vivia em Luanda. Quando o meu tio ía até Luanda a forma de nos avisar da sua chegada era sobrevoar baixinho a nossa casa. Chamo-me Alexandra e sou filha do irmão mais novo do Leonel (Jorge Costa Gomes PInto) infelizmente ambos falecidos. Beijinhos

Felismina Amaro disse...

eu nasci em Caombo,nao sei do paradeiro do meu pai, João Gaspar Fernandes, adorava conhece-lo.A minha mae chamava-se Susana Jaime Nunes Gaspar.

Felismina Amaro disse...

Sou a Felismina Gaspar, procuro meu pai João Gaspar Fernandes, era Enfermeiro em Malange, eu nasci em Cahombo.