quinta-feira, 8 de dezembro de 2011

25 de Abril de 1974 em Luanda


Tão linda e o que fizeram com ela!...


Passei por muito em Luanda, principalmente por viver num regime de vida muito diferente daquele em que tinha vivido até então. Além disso, a maneira de ser dos meus parentes em nada se assemelhava aos de cá, da "Metrópole". Tinham uma forma de estar na vida totalmente diferente e esse diferença afectou muito a minha vida e alterou bastante a minha estabilidade emocional, ainda hoje não superei totalmente. Deixei de ser uma rapariga sonhadora, frontal e espontânea, para dar lugar a uma mulher sossegada,perdi muita da minha inocência apercebi-me que o mundo era cruel. Na prática, passei a obedecer apenas e perdi a vontade própria.Eu apenas queria viver sem que me torturassem. A rapariga faladora calou-se, a rapariga sem segredos passou a tê-los, a rapariga que contava tudo da sua vida "morreu" para dar lugar a uma pessoa calada que só falava quando lhe perguntavam, era uma pessoa mogoada com a vida, pois compreendi que fui enganada e não tinha solução, por isso nada melhor que aceitar as ordens e as regras. Deixei de ser espontânea para ser apenas aquilo que os outros queriam que eu fosse, o sorriso dos meus lábios fugiu para não voltar. Passei a viver em função da preocupação de não errar e não desagradar.
Numa das manhãs de Luanda, cheguei ao escritório para um dia que prometia ser igual a tantos outros, pensava eu. Mas não foi… A certa altura apareceu esposa do Sr. Aragão, o meu patrão, com um rádio na mão. Seriam entre as 9 e 9,30 da manhã, em Luanda, por isso menos uma hora em Lisboa. Entrou como um vulcão e dirigiu-se ao gabinete do marido. Pelo que pudemos perceber, a rádio estava a noticiar que as comunicações com Portugal estavam cortadas, porque se tinha dado uma revolução. Confesso que nem percebi o que isso significava, na altura, eu não percebia o que significava a revolução, nunca ouvira falar e tal coisa a não ser nas minhas aulas de História. Terminado o dia de trabalho, quando voltei para casa, perguntei ao meu tio o que significava, e ele lá me contou.Logo me lembrei do meu irmão e fiquei super aflita pois ele era um tropa em Lisboa nessa altura, chorava por todos os cantos,o meu querido irmão numa guerra!... Segundo o meu tio os militares tinham-se revoltado e a Pide estava a resistir, pelo que podia haver mortes. Fiquei convencida que havia guerra em Lisboa, logo em Lisboa, onde se encontrava o meu adorado irmão, e ainda com as saudades que tinha dele, ainda me fazia sofrer mais, que dor eu tinha no meu peito. Logo nós que ficaramos felizes por ele não ter ido para a guerra, e foi a guerra ter com ele, era injusto, pelo que fiquei apavorada. Mal sabia eu que o pior estava para acontecer e reservado para nós ,os que vivíamos fora da Metrópole. Acho que ninguém que não tenha passado pelo que nos estava reservado, pode sequer imaginar o terror dos tempos que se seguiram á bendita revolução.
Nós que, até então, trabalhávamos, estudávamos, vivíamos uma vida simples, sem sobressaltos, e em paz, vimos tudo alterado num ápice. Um mês, nem tanto passado sobre o dia da revolução e o medo passou a estar sempre presente, para nós, os de pele branca. De todo o tempo que tinha passado em Luanda, desde a minha chegada, já me tinha sido possível ter uma ideia aproximada da vida naquela cidade. Não era muito diferente do que se passava na metrópole, embora me parecesse que se vivia melhor em Luanda. Claro que havia gente pobre, claro que havia gente que vivia mal, mas no geral parecia-me que as coisas lá eram bem melhores que por cá. Haverá quem diga que havia mais negros que brancos a viver mal, o que é verdade, porque em Angola os negros eram em muito maior número. Mas o país era rico e isso permitia que todos vivessem de modo mais ou menos aceitável. A verdade é que eu nunca tinha feito mal a negro algum, nem nunca tinha visto ninguém a fazer mal, também. Trabalhava rodeada de negros e estudava rodeada de negras, e pelo que podia ver, tinham mais ou menos o mesmo nível de vida que eu tinha, vestiam o que eu vestia, comiam o que eu comia, a única diferênça era a cor da pele.
Nunca ninguém cá contou o que passou a quem estava em Angola, depois o 25 de Abril, até à hora de conseguir lugar num avião, ou num barco, para voltar ao nosso querido Portugal. Eu, não tive grandes problemas em arranjar lugar num avião assim como para toda a minha família, eu trabalhava ligada com as companhias de navegação, quer marítima quer via aéria, foi com facilidade que compramos bilhetes, escolhemos a data de 9 de Agosto de 1975 para embarcar, e viemos num voo da Tap um 747 e saimos de lá ás 22 horas com destino a Lisboa . Mas o desfazer de projectos que tinha em mente para o futuro isso foi tudo gorado, para que sofri eu tanto. Mas chegada cá a verdade é que tinha a minha família desesperada á minha espera. Pior foi para aqueles que lá tinham nascido há gerações e gerações, que só por serem brancos tiveram de perder tudo e vir para um país que lhe era estranho e hostil. Foram de lá corridos sobre a pena de serem mortos se não o fizessem. Quando cá chegaram foram maltratados e intitulados de “retornados”, exploradores de pretos. Não houve forma mais cruel de tratar os espoliados, expulsos da sua terra natal por serem brancos, indesejados na metrópole por serem retornados . Quem era rico lá, conseguiu não deixar muita coisa e passar para a África do Sul ou Brasil e outros países vizinhos, mas quem vivia do seu salário, sem posses para fugir, suportou toda a malvadez de vingança que se lá passou . Os senhores do capital trouxeram para cá milhões em ouro e diamantes e cá continuaram com as suas fortunas, mas o povo, como sempre, foi o sofredor. Os senhores do 25 de Abril condenaram um povo que, por opção dos seus antepassados, vivia naquela terra. Não houve condescendência ou tolerância, apenas vingança e mais vingança contra todos os que tinham a pele branca.

Com a revolução em Lisboa, as tropas portuguesas em Angola, perderam a autoridade total assim lhes foi ordenado e eles assim cumpriam, era como nós não fossemos Portugueses nada faziam para nos proteger. Era como se a atitude anti-guerra, motivação originária da rebelião militar, tivesse assumido a preponderância sobre tudo o resto, deixando quem estava em Angola, à mercê de toda a espécie de malfeitorias. Não havia quem nos protegesse. Cada saída era um imponderável. Foram incontáveis os ataques, os roubos, as agressões, as violações, as mortes, sem que militares ou polícias fizessem alguma coisa. Assisti a coisas que davam um filme de terror, noites e noites de bombardeamentos sem fim…
Ao que se constava, as ordens que os militares e a polícia tinham, a mando de Rosas Coutinhos e similares, eram apenas para virem embora e o mais depressa possível, deixar tudo e regressar a Lisboa. Ainda lembro, como eu cheia de angústia via as nossas tropas a passar á nossa porta na marginal, em direção ao local de embarque.Era tão aterrador assistir a essa situação, pareciam uns covardes a fugir e a abandonar o povo o seu povo, que até então defenderam. Deveriam ficar até o último Português estar a salvo, deviam defender-nos protegendo-nos e tentar impedir que nada de mal nos acontecesse, tenho a certeza que seria assim num país civilizado, e que tivesse respeito e patriotismo, mas sabem lá o que é isso os homens do 25 de Abril, só ódio e revolta e raiva. Não tenho qualquer respeito pelos que ordenaram essa creldade.Não consegui trazer nada a não ser, trazer 5.000$00 ,trocado por 5.000 Angolares, tudo o resto, que tinha economizado para puder vir cá passar férias, teve de lá ficar,com uma ordem de transferência para um banco aqui na minha cidade, mas ainda hoje não apareceu.E já lá vão trinta e uns anos.
Irei em breve postar um texto com o terror que lá passamos e que eu sou uma testemunha ocular.


Dois dos Nossos Carrascos
 
 
25 de Abril em Luanda
 
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