Mostrar mensagens com a etiqueta a descolonização e o movimento de Retornados. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta a descolonização e o movimento de Retornados. Mostrar todas as mensagens

sexta-feira, 1 de junho de 2012

SOS Angola - Os dias da Ponte Aérea


Rita Garcia, jornalista: Mentes eram muito mais abertas em Angola do que cá
No livro SOS Angola - Os dias da Ponte Aérea, a jornalista Rita Garcia relata a história dos chamados "retornados" e a importância da designada Ponte Aérea que, em 1975, salvou a vida a milhares de portugueses.
Foram a memória e o espólio de António Gonçalves Ribeiro, o mentor da Ponte Aérea em 1975 e sem a qual milhares de portugueses não teriam escapado de Angola com vida, que permitiram a Rita Garcia escrever este livro. Apresentado de forma isenta e acessível, é um relato humano de um acontecimento que marcou a nossa História e a história de vida daqueles a quem chamaram de “retornados”


Porque se lembrou de escrever o livro S.O.S Angola – Os dias da Ponte Aérea, sobre os 200 mil portugueses que abandonaram Angola, entre Julho e Novembro de 1975?
Tudo começou quando escrevi para a revista Sábado um trabalho sobre a antiga Primeira Classe da TAP, feita em voos de longo curso e muito particularmente na linha de África. Uma linha muito requintada e chique, frequentada por muitos dos grandes empresários com interesses, sobretudo, em Angola. Quando falei com os antigos tripulantes da TAP, todos me referiram a Ponte Aérea de 1975 como uma coisa fora de série e com histórias que os marcaram para sempre.

Diz que sem António Gonçalves Ribeiro, mentor da Ponte Aérea, muitos portugueses não teriam escapado de Angola com vida. Quem foi este homem?
Na altura, ele era tenente-coronel e estava em comissão de serviço em África, como secretário do alto comissariado de Portugal em Angola, organismo criado para ajudar o governo de transição a fazer a passagem de poderes de Portugal para Angola. Foi ele que, no terreno, se foi apercebendo que havia muita, muita gente que se queria vir embora, depois dos primeiros voos da Ponte Aérea terem sido mantidos quase em segredo, para que não entrasse tudo em pânico. Quando António Gonçalves Ribeiro se apercebeu que as pessoas queriam mesmo vir embora, teve noção de que os voos comerciais da TAP não eram suficientes para trazer tantas pessoas. Veio então a Lisboa e disse ao FMA e ao Governo, na altura chefiado por Pinheiro de Azevedo, bem como ao Presidente da República, que era preciso fazer alguma coisa.


Foi fácil convencer o governo português?

Não, porque em pleno PREC (Processo revolucionário em Curso) as preocupações cá não eram com os que estavam em Angola. Ainda por cima, por parte da Esquerda, não havia muito boa impressão de quem tinha ido para Angola. Mas ele chegou cá e disse que era preciso agir. Pinheiro de Azevedo respondeu-lhe com esta frase horrível: “ó senhor tenente coronel não sei porque está tão preocupado. Se eles comeram a carne, agora que roam os ossos”. António Gonçalves Ribeiro enfrentou o seu superior hierárquico e respondeu-lhe para ir ele a Angola dizer isso às pessoas. Embora a muito custo, conseguiu deste modo convencer o Presidente da República a pedir ajuda diplomática aos Estados Unidos. Na época, o embaixador em Lisboa era Frank Carlucci, que entrou em contacto com a administração americana, conseguindo-se assim avançar com a Ponte Aérea. Até porque, do ponto de vista da política externa norte-americana, também interessava aos Estados Unidos ter alguma moeda de troca para tentar influenciar o regime português a não se encostar tanto à Esquerda e seguir mais o caminho do Grupo dos Nove (grupo de oficiais do MFA de tendência moderada, liderado por Melo Antunes). António Gonçalves Ribeiro conseguiu não só o apoio norte-americano, que embora tenha começado só em Setembro, foi fundamental para trazer as pessoas, mas de outros países como a Inglaterra, a França, as duas alemanhas e a União Soviética.

Portugal já homenageou António Gonçalves Ribeiro?

Que eu saiba não. Ainda está vivo, mora em Lisboa e foi fundamental para o meu livro. É um senhor extraordinário. Só um homem com coragem se presta a este esforço. Tenho os relatos das pessoas, mas do ponto de vista de fonte histórica solidificada, o seu arquivo com todos os documentos daquela época foi fundamental. Possui relações dos voos, dos navios que faziam a ponte marítima para trazer as pessoas para Luanda, dos apoios prestados por outros países e pela Cruz Vermelha, bem como das quantidades de leite e de roupas disponibilizadas. Curiosamente, António Gonçalves Ribeiro não chegou a Portugal de avião mas de navio. Veio no último navio que saiu com toda a comitiva portuguesa.

Luanda e Nova Lisboa eram, à época, campos de refugiados?
Sim, foram construídos autênticos campos de refugiados. Durante uma semana, antes da Ponte Aérea começar a fluir e os aviões a chegar com mais regularidade, as pessoas ficavam sempre dois ou três dias à espera, sobretudo quem vivia antes no interior ou a sul. Dormiam no Quartel de Velas, de para-quedistas, com capacidade para 600 homens e que se via a braços com milhares, ou então na Feira Internacional de Nova Lisboa, de onde partiam em autocarros para o aeroporto. Ficavam em gabinetes, no chão, em ginásios. Havia pessoas que tinham nascido em Angola, famílias que estavam lá radicadas há muitas gerações. E só muito em cima da hora aceitaram perder as suas vidas simpáticas e tranquilas, até do ponto de vista financeiro. Não quer dizer que todos fossem ricos mas houve quem lá deixasse fortunas enormes. Vieram todos apenas com os tais cinco mil escudos dados pelo Governo. O dinheiro de Angola cá não valia nada, chamava-se “dinheiro macaco”.

Quantos portugueses morreram neste processo de descolonização?

Não sei quantas pessoas morreram e julgo que é difícil haver uma noção exacta, porque os tempos eram tão conturbados e a situação tão caótica que havia muita gente que desaparecia. Havia gente que se deslocava de uma cidade para a outra e nunca mais aparecia. Só se via mais tarde o seu carro na posse de um dos movimentos da guerrilha, mas da pessoa nunca mais se sabia nada.

Há quem assemelhe a descolonização ao holocausto nazi...
Acho excessivo, com a minha distância em relação ao assunto, comparar esta descolonização com o holocausto nazi. É verdade que algumas pessoas morreram, é verdade que perderam tudo mas o holocausto fez seis milhões de mortos. Não se fala na mesma escala. Apesar de tudo, as pessoas que conseguiram fugir, chegaram cá e embora com dificuldades refizeram as suas vidas. Comparando com colonizações de outros países, na nossa não havia uma relação tão difícil e opressiva com a comunidade negra. Claro que a primazia era branca, os bons empregos eram dos brancos e não quer dizer que não houvessem maus tratos, aqui e ali, mas não era uma coisa concertada. Havia muita gente que tinha boas relações com os trabalhadores negros, relações até de amizade. Muitos negros ficaram a chorar e com imensas saudades dos patrões. Hoje, a verdade é que existe  uma nova diáspora portuguesa e que os portugueses não são mal recebidos em Angola. Se tivesse ficado uma clivagem muito grande, isso não acontecia. Pelo menos os portugueses que conheço, que têm estado em Angola, não me falam disso.

“Não tenho conhecimento de que em Angola se dividisse uma sardinha por três”
A reportagem Os anos dourados dos portugueses em África (praias, caçadas, luxo, vivendas com empregados, noitadas), publicada por si há um ano na Sábado, recebeu algumas críticas, nomeadamente no blogue Bravos “Retornados”, Espoliados, Deslocados, onde se alega que aquela era a vida de uma minoria. Estas pessoas continuam ainda muito ressentidas?
Não quisemos fazer na Sábado um trabalho sociológico sobre todos os habitantes de Angola. Efectivamente, grande parte das pessoas com quem falámos (claro que algumas pertenciam a uma elite) não eram só gente rica, também havia funcionários públicos. Era inegável que a vida das pessoas era, na altura, muito mais confortável que a de cá. Não quer dizer que tivessem todos muito dinheiro mas tinham uma mente muito mais aberta. Acredito que houvesse pessoas com vidas muito diferentes das retratadas nesse trabalho jornalístico, mas pobres, pobres e a dividirem uma sardinha por três, como cá na metrópole, não tenho conhecimento. O que não quer dizer que não houvesse.

A palavra “retornado” tornou-se estigmatizante. Qual a mais apropriada?
Nunca pensei nisso e não dou à palavra essa importância. É verdade que uma parte significativa dessas pessoas nasceu em África e portanto não estava a retornar. Mas isso é apenas um pormenor. Eles tinham tantas razões para ficar zangados com a forma como foram recebidos.... Não acho que a palavra seja o mais importante. Mas também acho outra coisa: quem veio das colónias tinha razões de queixa mas também percebo as razões de quem cá estava. O País estava a sair de 40 anos de ditadura, havia falta de emprego e de oportunidades. E quem veio das colónias, tendo deixado lá vidas inteiras e com a injustiça que isso significou, teve aqui acesso a coisas que os da metrópole não tinham, como empréstimos e alojamento. O que acho bem porque era preciso ressarcir as pessoas de alguma maneira. Mas para os de cá, que não tinham acesso a nada disso, também havia essa sensação de injustiça. Ou seja, os dois grupos tinham a sensação de desconforto.

Mas a sua reinserção acabou por ser pacífica...

Sim, face ao que podia ter acontecido, devido a esse mal estar entre os dois grupos, acho que as coisas acabaram por se orientar. Também porque quem vinha de Angola, onde havia um tecido empresarial muito forte, de um modo geral, trazia a escola comercial e industrial ou o liceu. Como disse, eram pessoas de espírito aberto porque não tinham estado sujeitas a um peso tão grande da censura como cá. Ouviam muito rádio e chegavam lá notícias de países livres. A Pide apenas actuava para tentar controlar a força pela libertação dos territórios. Isso permitiu-lhes uma outra vivência e outra descoberta das coisas em relação às pessoas de cá, onde a vida era muito mais controlada.

Mário Soares é para os “retornados” uma “persona non grata”? A descolonização poderia ter sido feita de outra forma?
Não sei responder. Claro que se o processo tivesse sido organizado com tempo, é possível alegar que a descolonização poderia ter sido feita como fizeram outras potencias colonizadoras em África, que preparam a saída dos seus colonos ao longo de vários anos. Agora, aquilo foi decidido de um momento para o outro, porque as coisas se precipitaram e ter de fazer sair aquelas pessoas todas... Não sei se era possível antecipar o que ia acontecer e se os movimentos angolanos estariam disponíveis para prolongar mais a saída. É muito difícil fazer esse tipo de avaliações, à posteriori.

Os que foram espoliados dos seus haveres, deveriam ser indemnizados?

Não vou falar sobre isso porque não tenho conhecimento ainda dessa realidade. É o que vou estudar a seguir, porque é uma investigação que quero continuar a fazer. Estas questões não têm sido muito estudadas e portanto nada está ainda sistematizado. Por isso há respostas por onde não quero ainda entrar, porque também não sei. Não gosto muito de falar daquilo que não conheço

José Eduardo Agualusa diz, também na Sábado, que Portugal tem medo do governo angolano. Como interpreta esta suposta posição subalterna de Portugal em relação a Angola?
Essa é a opinião do Agualusa. Não sei o suficiente sobre as relações dos governos de Portugal e Angola para poder fazer uma afirmação desse tipo. O que sei é que, do ponto de vista económico, Angola é neste momento uma grande oportunidade para os portugueses. Sobretudo, porque há cá muito desemprego e situações complicadas por causa da crise. O que acho também, e quanto a isso congratulo-me, é que tenha ficado uma relação entre dos dois países que permita esta reaproximação. Não quer dizer que seja perfeita mas já acho óptimo que ela se tenha conseguido fazer. Agora as palavras de Agulusa são dele. Ele é que é angolano e anda sempre a circular entre cá e lá e, portanto, conhece muito bem as duas realidades.


O carro que veio à procura do dono

Encontrou histórias pessoais marcantes ao escrever este livro?
Muitas. É muito difícil alguém pôr-se na pele de uma pessoa que saiu de casa para ir levar a mulher ao aeroporto (o marido tentava ficar lá mais tempo para ver se dava) e, de repente, porque irrompe um tiroteio na pista do aeroporto, acabar em Lisboa sem documentos, sem dinheiro, sem roupa, sem nada. O condutor do autocarro que transportava o casal assustou-se de tal maneira que mandou toda a gente para dentro do avião. Deu-se o ridículo deste funcionário do Banco de Angola não ter feito, sequer, a transferência dos tais cinco contos a que tinha direito. E cá já não tinha forma de o fazer. Mas a história curiosa vem depois. Um dia, quando viajava entre o Estoril (onde o tinham hospedado), e Lisboa para tratar de documentos e conseguir provar que era retornado, na zona de Santos, olha pela janela do comboio e vê o carro dele estacionado, o mesmo que tinha ficado em Luanda mas que um amigo tinha enfiado num navio. Por sorte, ainda tinha a chave no bolso. Saiu do comboio, abriu o carro e assim pode ir a Viseu reencontrar a filha e a mulher.

Depois, há as fugas massivas...
Sim, a fuga massiva da Gabela (cinco quilómetros de carros em peregrinação até Nova Lisboa) como de outras localidades, como por exemplo de Malange, em que toda a população teve de sair para não ser dizimada nos confrontos, depois de uma semana de negociações para conseguir que os movimentos angolanos os deixassem sair. É que os brancos, de alguma maneira, serviam de protecção para os negros não se matarem tão depressa uns aos outros. Há ainda a história de uma senhora que ficou de tal maneira apavorada que se escondeu numa cave, enquanto não houve luz verde para sair. Quando os militares a foram buscar não conseguia andar e tiveram que a trazer ao colo. Já em Nova Lisboa, um primo diz que os dentes dela batiam tanto que pareciam uma máquina de costura. À chegada a Lisboa foi directamente para a psiquiatria do Hospital Santa Maria.


“Ser jornalista não é o glamour da televisão”
Rita Garcia, 32 anos, lisboeta, mãe de dois filhos pequenos, é licenciada em Ciências da Comunicação, pela Universidade Nova de Lisboa. Repórter da revista Sábado desde 2005 e autora do livro de reportagens INEM 25 anos, recebeu o 2º prémio Henrique de Barros, atribuído pelo Parlamento Europeu em 2003, e o Prémio de Jornalismo Novartis Oncology, em 2008. Aos jovens que acalentam o sonho de ser jornalistas diz que é bom, ao escolherem esta profissão, que tenham noção que “isto não é o glamour da televisão”.  Em relação à crise, limita-se a dizer: “Nunca gasto mais do que aquilo que tenho. Nunca gastei. Os tempos que aí vêm vão ser complicadíssimos mas se se pensar que serão horríveis, é porque vão ser horripilantes. O que tento fazer é não ficar centrada nesta coisa da crise. Tenho o instinto de ir sempre para a frente”. Rita Garcia gosta de estar com os amigos, de cozinhar e de ler romances de Vargas Ilosa ou da escritora brasileira Patrícia Melo. Tem particular interesse na realidade brasileira do tráfico de droga. À pergunta se tem curiosidade em conhecer Angola, responde: “Tenho curiosidade em conhecer o mundo inteiro”. De África, conhece o Senegal, onde esteve uma semana, a convite da AMI, para participar no programa Aventura Solidária, para construir estruturas de apoio à população local.

Textos e fotos: Graça Menitra

2011-11-24

Poderá ver também AQUI 
e AQUI











ORIGEM


















domingo, 29 de abril de 2012

Angola/32 anos: Roberto de Almeida esclarece razões da fuga massiva de quadros portugueses em 1975


 


Luanda, 2/12 - A grande divergência política entre os movimentos nacionais e a potência colonizadora em Angola, assim como a incerteza em relação ao futuro do país, levaram à fuga em massa de quadros portugueses na véspera da proclamação da independência de Angola em 1975.

Este ponto de vista foi manifestado sábado, pelo presidente da Assembleia Nacional, Roberto de Almeida, em entrevista exclusiva à Angop, em Luanda, destinada a fazer o balanço dos 32 anos de independência do país, assinalados a 11 de Novembro último.

Segundo Roberto de Almeida, naquela altura os quadros portugueses decidiram abandonar o país "porque não havia convivência política possível entre, por um lado, os movimentos nacionais e, por outro, a potência colonizadora - Portugal".

O presidente da Assembleia Nacional explicou que a potência colonizadora via nos movimentos nacionais "grupos de terroristas, negros drogados e munidos de catanas com o objectivo de matar os brancos".

Essa posição de hostilidade do colonizador, adiantou, levou ao abandono em massa dos quadros portugueses, porque instaurou-se um clima de incerteza em relação ao futuro do país com a ascensão ao poder de qualquer um dos três movimentos, nomeadamente o MPLA - que proclamou a independência - a Unita e a FNLA.

Roberto de Almeida, que procurou com esse argumento rebater a opinião segundo a qual após a independência correu-se deliberadamente com os quadros portugueses, não deixou contudo de admitir essa possibilidade em algumas situações isoladas.

Quanto ao significado histórico da independência, o presidente da Assembleia Nacional disse ser o nascimento de um novo país e soberano.

"Esse nascimento assumiu ainda maior relevo devido às circunstâncias que antecederam a independência", disse, referindo-se às várias tentativas de bloqueio da proclamação da independência.

O líder parlamentar apontou a esse propósito a grande invasão sul africana, em 14 de Outubro de 1975, e o avanço, pela fronteira norte, das tropas mistas do exército do ex-presidente do antigo Zaíre, Mobutu, e dos guerrilheiros da FNLA.

"Isso é histórico, ninguém pode desmentir e não temos razões para esconder, embora reconheça que estamos num momento de reconciliação nacional, mas a história é história e tem de ser mencionada", disse.

Adiantou ainda que houve igualmente uma grande pressão dos EUA - que também se opôs à independência - e a prova disso é que o reconhecimento do país, pela potência americana, aconteceu cerca de duas décadas depois, nos anos 90.

"Isso explica-se porque os EUA tinham uma aliança com Portugal na OTAN e não viam com muito bons olhos, dentro também do princípio da guerra fria, que esses territórios (dominados por Portugal) ascendessem à independência com direcções que não eram viradas para o ocidente", frisou.

De acordo com o presidente da Assembleia Nacional, países como Angola, Moçambique e Guiné-Bissau conduziram uma luta de libertação que, salvo honrosas excepções, não contou com o apoio da maior parte dos países e governos ocidentais.

Esse facto determinou que os mesmos procurassem aliança com os países da comunidade socialista, que apoiaram a sua luta de libertação.

Outro grande feito dos 32 anos destacado por Roberto de Almeida foi "conseguir manter a independência, através da salvaguarda da integridade territorial do novo Estado, já que após a sua proclamação os adversários procuraram derrubar o governo instalado contra a sua vontade".

"O primeiro dever era, portanto, a nossa própria defesa, a salvaguarda da integridade territorial do país, a defesa contra as invasões estrangeiras e contra os ataques internos das forças aliadas a esses exércitos estrangeiros e, depois, procurar reorganizar o país", sublinhou.

Roberto de Almeida disse que a reorganização do país, após a proclamação da independência, ressentiu-se profundamente com a falta de quadros em quase todos os sectores da vida, devido ao abandono de grande parte dos profissionais portugueses.

"Garantir administrativamente a marcha de um país novo nas circunstâncias em que ascendeu à independência foi um grande desafio", referiu.

O parlamentar reconheceu entretanto que em alguns casos a marcha do país conheceu uma tendência de anarquia por parte de alguns angolanos, mas as circunstâncias do momento levaram a tolerar o comportamento.

Roberto de Almeida disse que naquela altura não era aconselhável que, após o abandono dos colonialistas, o Governo aplicasse uma política de repressão, porque isso viria a ser a continuação da política colonial.

O presidente da Assembleia Nacional destacou também as grandes opções que se fizeram no campo político, económico e social, sublinhando a missão de formação de quadros, por forma a suprir o vazio deixado e garantir a continuação do país independente.

"O reconhecimento internacional de Angola que se seguiu à independência foi igualmente outro feito importante, graças ao empenho das missões diplomáticas criadas para o efeito", disse.

"Posso orgulhar-me de ter feito parte de algumas dessas missões, em que fomos contactar governos para reconhecer a independência de Angola, tivemos de argumentar razões e a importância do nosso reconhecimento, sobretudo num clima em que a própria potência colonizadora não nos tinha reconhecido", enfatizou.

No campo parlamentar, destacou o papel fundamental levado a cabo pelo Conselho da Revolução, criado com a independência, e a Assembleia do Povo, instaurada em 1980, que asseguraram a continuidade da função legislativa do novo Estado, bem como, já mais recentemente, a Assembleia Nacional, num quadro multipartidário.

"Qualquer desses órgãos teve grande importância, fizeram-se definições importantes no plano legislativo do que devia ser o nosso país", disse, apontando a título de exemplo a primeira Constituição do país.

Roberto de Almeida destacou ainda uma importante reunião realizada em 1976, onde foram definidas as linhas económicas do país - tendo sido decidido a política de economia centralizada como uma opção daquele contexto.

Com alguma nostalgia, recordou também o grande espírito de união das populações na defesa do país, destacando a Organização de Defesa Popular (ODP) e as Brigadas Populares de Vigilância (BPV), criadas com o repto do primeiro presidente de Angola, Agostinho, para uma "Resistência Popular Generalizada".

"Havia uma consciência nacional que passava em primeira linha pela defesa das fronteiras do país, por isso tenho dito que, por muito que possamos divergir no campo das ideias, como angolanos, devíamos convergir nessa questão da defesa do país, não permitindo que um país estrangeiro invada o nosso território", concluiu.

Entrevista conduzida por: David Mário e Rafael Casseca
Comentário do editor do site: O Sr. Presidente da Assembleia Nacional de Angola no seu discurso não diz a verdade dos factos como se pode constatar nos diversos textos que estão neste site. Por desconhecimento? Creio que não mas talvez por motivos políticos. A fuga massiva dos "colonos" de Angola não se deveu ao facto de os brancos considerarem os pretos terroristas. A nossa convivência tal como é actualmente aqui em Portugal era pacífica e cordial salvo algumas antigas excepções como a revolta da Baixa do Cassange que não foi um bom exemplo dos portugueses e que foi instigada propositadamente do exterior. O Sr. Presidente esqueceu-se da barbárie da UPA que, como o Sr. diz, mas noutro sentido, estavam efectivamente drogados com marufo e makonha e incitados pelo "feiticeiro" do kimbo clamavam que as balas dos brancos eram "água" (massa) chacinando à catanada milhares de brancos e os seus trabalhadores bailundos bem como crianças inocentes no Norte de Angola em 15 de Março de 1961 como mostram as fotos tiradas pelo reporter.
Os "colonos" queriam uma independência para TODOS tal como foi feita na África do Sul. A fuga massiva dos quadros e da restante população branca deveu-se principalmente ao facto de o MPLA com a ajuda do PCP português e a complacência do almirante vermelho Rosa Coutinho ultra-esquerdista do 25 de Abril, permitir que em Agosto de 1975 entrasse em Angola armamento moderno proveniente da URSS e a desmobilização antecipada das tropas portuguesas para que o MPLA pudesse assumir o poder com a ajuda das tropas cubanas que entraram em Angola na mesma data com material de guerra russo. Felizmente para o MPLA que os sul-africanos foram obrigados a retirar por ordem dos americanos e à FNLA foram-lhe retiradas pelos sul-africanos por ordem dos americanos as culatras dos super-canhões G-5 que já estavm no morro da cal perto de Luanda. Com esses canhões activos não havia "monocaxitos" (orgãos de Estaline) nem cubanos que lhe valessem.
O resultado da guerrilha urbana como não podia deixar de ser, foi para expulsar os outros partidos das cidades e tornar a vida impossível à população, principalmente aos brancos mesmo os nascidos em Angola que, por isso, tiveram de abandonar a sua querida terra deixando para trás tudo quanto tinham que foi o trabalho de uma vida. Uma nação que em 1975 era a mais próspera da África ocidental ficou completamente arruinada pelas guerras subsequentes das quais ainda hoje não se recompôs. Não culpe os "colonos" Sr. Presidente culpe sim o MPLA por se armar nas costas dos outros partidos como se poderá ver neste site nos jornais da época e mais tarde a UNITA que, por causa da ambição do poder do "muata" Savimbi não se entenderam prolongando uma guerra fraticida por cerca de 28 anos só inrrompida com a morte do "mais velho". Sr. Presidente, Angola foi arruinada pelos próprios angolanos. Esta é a verdade nua e crua que vos custa a aceitar ! 

 2 de Dezembro de 2007

sexta-feira, 20 de abril de 2012

Retornados, Espoliados: Uma ferida com 35 anos ...



Ouvir com webReader

Sol 26.02.2010a Sol 26.02.2010c




O drama dos portugueses espoliados em Moçambique será lembrado a José Sócrates quando chegar a Maputo, na 4ª feira Será recebido por um grupo que só pede o cumprimento de uma lei de l977: o direito à indemnização


Sol 26.02.2010b








JOSÉ Sócrates visita Mo­çambique de 3 a 5 de Mar­ço. O gabinete do primeiro-ministro adiantou que o programa ainda está a ser preparado, mas terá uma grande componente económica. O que não está na agenda é o encontro, à chegada, com um grupo de portugueses. Ângela Ser­ras Pires e Luís Oliveira são duas das pessoas que pedirão para ser ouvidas por Sócrates, reabrindo uma ferida com 35 anos: as perdas dos portugueses aquando da independência de Moçambique (em 25 de Junho de 1975).

JOSÉ Sócrates visita Mo­çambique de 3 a 5 de Mar­ço. O gabinete do primeiro-ministro adiantou que o programa ainda está a ser preparado, mas terá uma grande componente económica. O que não está na agenda é o encontro, à chegada, com um grupo de portugueses. Ângela Ser­ras Pires e Luís Oliveira são duas das pessoas que pedirão para ser ouvidas por Sócrates, reabrindo uma ferida com 35 anos: as perdas dos portugueses aquando da independência de Moçambique (em 25 de Junho de 1975)

No aeroporto, erguerão um cartaz e tentarão pedir ao embaixador português, Mário Godinho de Matos, uma audiência com o primeiro-ministro. Ao SOL, poucos quiseram falar. O segredo é a estratégia para não perder tudo, de novo.
«As pessoas ainda têm muito medo, sofreram e perderam muito na in­dependência. Toda a gen­te tentou reaver o que ti­nha, e ninguém conse­guiu», explica Ângela.
«Eu quero que ele dê 50 ou 100 milhões de dóla­res a quem perdeu tudo. Portugal já investiu tan­to aqui, já deu tanto a Moçambique em doa­ções, que, pelo menos, podia dar alguma coisa a quem também construiu este país e perdeu tudo. Já que não fizeram nada, que mostrem alguma di­gnidade e dêem algum di­nheiro a essas pessoas». Ângela não teme dar a cara. Foi a única da família a não ver uma Moçambique, e deve-lhes a coerência de dizer a verda­de até ao fim. Lucinda Fei­jão, sua tia, foi uma das fun­dadoras da Renamo e os Serras Pires têm o pior ca­rimbo para a Frelimo, sem­pre no poder desde a inde­pendência.

Lei impõe indemnização
Ângela chegou a Portugal com 13 anos, em 1975, entre 170 mil oriundos de Mo­çambique na altura da des­colonização. Da cidade da Beira, onde nascera, viu-se num país estranho. Para trás, a família deixava um enorme espólio. Entre em­presas e casas, havia a Quinta do Guro, ao pé da cidade de Tete, com uma estalagem, uma bomba de gasolina, plantações, uma escola. «Nós tínhamos consciência de que iam ficar com tudo, mas achávamos que seriam os criados. As pessoas es­tavam em pânico, dizia-se que os portugueses eram todos uns fascis­tas». Foi tudo nacionaliza­do, menos as cantinas, uma espécie de pequenas lojas que vendiam de tudo no meio do mato. Essas, Ângela viu serem nacio­nalizadas em 1996, quan­do passava férias em Mo­çambique, antes de aqui se radicar em definitivo. «Há uns dez anos, o meu pai foi à quinta do Guro, e estavam lá a viver 60 mil pessoas. As pes­soas fizeram-lhe uma grande festa, pediram-lhe para voltar, mas es­tava tudo destruído. E pensar que tudo come­çara com uma palhota que o meu avô fez». Em 1977, as indemnizações aos ex-titulares de direitos sobre bens na­cionalizados ou expro­priados foram salvaguar­dadas na lei n.° 80/77. Diz que «do direito à pro­priedade privada, re­conhecido pela Consti­tuição, decorre que, fora dos casos expres­samente previstos na Constituição, toda a na­cionalização ou expro­priação apenas poderá ser efectuada mediante o pagamento de justa indemnização».

É aqui que reside a espe­rança de Luís Oliveira, de 39 anos. Numa lei que nun­ca foi posta em prática.

A viver em Moçambi­que há dois anos, está a concretizar um sonho de menino. Já em Portugal, onde chegara com qua­tro anos, passara a in­fância a ouvir histórias deste país, de como era a vida aqui, do que aqui fora deixado. Hoje traba­lha em Maputo como informático.
A sua história começa no século XIX, com a vinda dos bisavós. Oliveira, que trou­xe consigo toda a papelada do que seria seu, mostra a casa da Rua Tchamba que pertencia aos avós mater­nos, a residência da Aveni­da Salvador Allende, dos avós paternos. Pelo cami­nho, conta que a família saiu do país a medo, num tempo em que havia pres­são sobre os brancos para se irem embora. O pai, à pressa, seguiu os conselhos do Governo português e de­positou dinheiro no consu­lado português. «Chamavam-lhes os depósitos consulares. Deixava-se aqui e levantava-se em Portugal. O meu avô aca­bou por receber esse di­nheiro, quase 20 anos mais tarde, através do Mi­nistério dos Negócios Es­trangeiros, mas sem a ac­tualização da moeda. Uma ninharia».
Em Portugal, sem di­nheiro, nem bens, os avós de Luís foram obrigados a viver no lar de Santa Joana, no Lumiar.
«Ainda não tentei rea­ver o que era da minha família, mas essas casas já são de outras pessoas e tenho medo de arranjar problemas com os no­vos donos». Embora já te­nha pedido nacionalidade moçambicana, Luís ainda espera pelos papéis, e, en­quanto estrangeiro, prefe­re não levantar pó. Admi­te que houve quem voltas­se a comprar o que era seu antes da independência, outros que ameaçaram os actuais donos a largarem as casas, mas não tem di­nheiro, nem feitio para isso. «Não espero nada da vinda de Sócrates cá, mas acho isto tudo mui­to injusto, porque nós éramos portugueses e ninguém nos protegeu. Tudo o que o meu avô fez, deixou aqui, foi uma vida inteira...»

Não há lágrimas ou se­quer nostalgia nas palavras de Luís. Mas sentimento de revolta. «A culpa disto tudo é do Governo portu­guês, não temos de pedir seja o que for ao Gover­no moçambicano. Se na altura Portugal negociou Cahora Bassa, podia ter negociado também as propriedades dos portu­gueses. E temos a lei de 1977, Portugal comprometeu-se!». Já antes desta, o decreto-lei n.° 203/74 di­zia que os bens dos repa­triados portugueses se­riam acautelados. Mas os acordos de Lusaca, que marcaram a independên­cia de Moçambique, assi­nados entre o Governo português e a Frelimo, em Setembro de 1974, não pas­saram pela defesa dos inte­resses dos portugueses. Passaram-se 36 anos e a As­sociação de Espoliados de Moçambique já entregou várias petições à Assem­bleia da República portu­guesa, além de ter recorri­do aos tribunais para fazer cumprir a lei. Sem sucesso. Eduardo nasceu na Bei­ra há 51 anos. «Quando eu cheguei a Portugal, tinha 18 anos, estávamos em Novembro de 75. A me­trópole, para mim, não era nada, nunca lá tinha ido, nem um pullover ti­nha». Eduardo conta tudo como se a ferida ainda não tivesse sarado, como se ain­da tivesse 18 anos e sentisse na pele a injustiça cega, e muda. «Tínhamos de sair daqui, não havia condi­ções para criar os filhos. Tínhamos consciência de que tudo tinha acabado».
Em Portugal, Eduardo e os seus irmãos foram obri­gados a largar os estudos e começar a trabalhar. Pela primeira vez, contavam o dinheiro e temiam o futu­ro. «Nostálgico, o meu pai? Não podia, nem ti­nha tempo, havia quatro filhos para criar. Não ar­ranjou um emprego, mas um trabalho. Claro que fica uma enorme mágoa, mas a vida tem de andar para a frente quando te­mos uma família».

O pai de Eduardo, com 45 anos aquando da chegada a Portugal, não quis pedir apoio ao Instituto de Apoio ao Retornado. Também nunca pensou em escolher outra nacionalidade que não a portuguesa, embora, se tivesse optado pelo ale­mã, pudesse ter direito a uma indemnização.
Manter a história viva
Eduardo herdou o carácter do pai. «Nem quero ver Sócrates. Para quê? Vai dizer que está muito preocupado com a si­tuação e que temos ra­zão, e depois não vai fa­zer nada. Eu só quero manter a história viva, para as pessoas não se esquecerem».

Amílcar Dias tem mais de 80 anos, mas anda direi­to como se tivesse 40. É edu­cado e delicado, denun­ciando o carácter galanteador dos homens do seu tempo. Foi administrador das melhores empresas do país, e ao contrário dos ou­tros, nunca saiu de Mo­çambique. Trabalhou an­tes e depois da independência, reconheciam-lhe o saber e não o puseram de lado. Mesmo assim, ainda esteve 18 meses preso na Machava, em 1975. Quando saiu, de tudo o que a famí­lia conseguira construir ao longo da vida, restava-lhe um apartamento. «Há três meses desenvolvi uma teoria: há afro-tribalistas - africanos com um modo de vida tribalista - e há afro-europeus, que são africanos, com uma cultura europeia, que é o meu caso».
Há um ano, assistiu ao leilão dos cinemas que o pai tinha na Beira, o Olím­pia e o Palácio, que ha­viam sido nacionalizados após a independência. «Não há nostalgias, só causam lágrimas e não mudam nada». Amílcar Dias não se vai prestar a encontros com o primeiro-ministro. Diz que Só­crates, como os políticos antes dele, nunca entende­ram as colónias. «Geriam, combatiam, mandavam como se soubessem o que se passava aqui. Se tivessem desenvolvido uma classe média-alta cá, não haveria Frelimo que vencesse. E os polí­ticos do 25 de Abril fize­ram tudo mal». Dias não tem esperança de voltar a ver o que era seu, e do seu pai. O que lá vai, lá vai. È que, apesar de ter nascido e vivido sempre aqui, em Moçambique um branco é sempre estrangeiro. Mulungo é a palavra no dia­lecto changana, usado em Maputo, para branco. Quer dizer branco, patrão, pessoa erudita, uma espé­cie de deus. E mulungo não é moçambicano.

A questão da indemniza­ção não é fácil, já que, des­de Samora Machel, Mo­çambique também pede uma compensação a Por­tugal pelos 500 anos de co­lonização. Se o Governo português indemnizar os espoliados, a presidência moçambicana sentir-se-á, provavelmente, na obriga­ção de pedir satisfações. E não convém a nenhum dos lados voltar ao passado. «Sabe, a politica são ne­gócios. Não são ideais», sentencia.

quarta-feira, 18 de abril de 2012

A Odisseia dos espoliados




O DIA DA PARTIDA

24 de Setembro de 1974. Consegui mandar para o Lobito o meu carro e alguns caixotes com os nossos parcos haveres de valor sentimental e os meus livros, reunidos na nossa vida de trabalho, para serem embarcados para Portugal. Encarregou-se do transporte um camionista mestiço de Nova Lisboa que não quis ir para Portugal porque não tinha lá ninguém.

O ponto de reunião de alguns gabelenses e meus irmãos que estavam na FIL, era a minha casa, para tomarem banho de água quente. Os meus pais estavam comigo, bem como a minha irmã, a cassula da família.

Três dias antes fora levá-los ao aeroporto para apanharem a ponte aérea. Fiquei com uma carrinha Peugeout de um gabelense que também frequentava a minha casa e levei-os também para o aeroporto.

Era cada vez mais difícil passar pelas barreiras da UNITA que, famintos, mandavam parar toda a gente para "roubar" qualquer coisa, nem que fossem só cigarros. Os meus conhecidos do FNLA que, talvez por eu ser natural do Zaire, me protegiam por solidariedade valeram-me muitas vezes contra aqueles energúmenos da UNITA que eram racistas, diga-se o que se disser. Eles é que semearam o medo nos portugueses, pelas ameaças constantes, invasão das casas e barreiras em todos os locais de Nova Lisboa. As situações, por vezes, eram altamente perigosas. O campo de execuções era no Sacaála.

E o exército português, para agravar ainda mais, é que fomentava a nossa fuga "porque não se responsabilizava com o que nos pudesse acontecer".

A "facção Chipenda" é que prestou assinalável serviço de protecção aos portugueses apesar de ter por lá alguns elementos, de última hora, brancos portugueses, que criaram alguns conflitos com outros portugueses. Eram mais papistas do que o papa. Mas também vieram cá parar

Chegou o dia de embarcarmos. Depois do almoço (Tivemos carne até ao último dia e acabamos com a garrafeira do meu irmão Néné), dirigi-me para o aeroporto com as nossas maletas na traseira da carrinha. Consegui passar sem incidentes, mas no aeroporto os populares atropelavam-se para descarregar a carrinha e quando dei por mim já não sabia das maletas. O que vale é que eles queriam apenas uma gorjeta por transportá-las até o barracão onde estavam amontoados os refugiados à espera de transporte para longe daquele pesadelo. A carrinha ficou abandonada na rua. Alguém ficou com ela.

Colchões espalhados pelo chão, muito sujo, pois ninguém se preocupava em limpar, centenas de pessoas à espera, as casas de banho, noutro edifício ao lado, cheias de dejectos, papel e água a correr pelo chão. Estava tudo entupido e os refugiados é que tinham de as desentupir se quisessem ter um pouco de higiene.

Crianças a chorar, algumas de fome, pois a espera era longa para os que foram antes de serem chamados. Tumultos à porta quando a UNITA queria impedir alguém de embarcar, principalmente negros e algumas mestiças que cobiçavam, sobre o olhar dos nossos militares (que por vezes esboçavam umas arremetidas "moles"contra os guerrilheiros) todos desalinhados, fralda de fora, barba por fazer, sem boina na cabeça.

O que valeu a muita gente foi a acção da FLNA que afastava os da UNITA.

Tratei das formalidades e por azar calhou-me um avião da TAP, os "burocratas". Só podia levar 30 quilos e a mala mais pesada que transportava os meus apontamentos, livros técnicos, manuais, relatórios e provas de âmbito profissional que me iriam ajudar em Portugal, tiveram que ficar à espera de uma vaga noutro avião.

Enquanto que nos outros aviões estrangeiros, mandavam entrar todo o mundo com a bagagem que traziam e mandavam parar a um dado momento, na TAP era tudo lentamente e com burocracia e sem um sorriso ou mostra de simpatia por parte dos profissionais daquela companhia. Vim a saber que os aviões têm um dispositivo que vai pesando a carga e quando chegava ao limite seguro o comandante mandava parar. Simples e rápido.

Sentia-me num mundo irreal. Não me saía da cabeça aquelas filas enormes, onduladas, de gente cabisbaixa, olhar receoso, silenciosa, a caminharem pastoreadas pelos controladores para o bojo do avião. Impressionou-me a visão do meu pai, um homem de 1,85 m, com 120 Kg, uma força da natureza, com os ombros caídos a olhar para trás como que a despedir-se da terra que nunca quis abandonar.

Chegou a minha vez.

Ruca

CONTINUAM AS CRÓNICAS AQUI

Os politicos não estão interessados… Nunca é demais RECORDAR...



“A nossa actual classe política não está interessada em resolver o problema das indemnizações aos espoliados do ex-Ultramar. Todos os que governaram  nos últimos vinte anos, inclusive o Prof.Dr. Aníbal Cavaco Silva. Este até promulgou em tempo recorde o D.L. aprovado no Conselho de Ministros, num fim-de-semana, para salvar o BPN. Tem faltado a todos vontade poítica. Agora desculpam-se com a crise...


DAQUI
 

quarta-feira, 4 de abril de 2012

A GRANDE DEBANDADA: RETORNADOS E ADIDOS




Mas, logo após a tomada de posse do Governo de Transição, em 31 de Janeiro
de 1975, as coisas começaram a complicar-se para os funcionários do Quadro
Administrativo.
Os administradores da Ganda, Cubal, Balombo, Chongoroi, Bocoio e Baía Farta
que me tinham dado um apoio leal e que tinham, quase todos uma boa aceitação por
parte das populações negras dos seus territórios, quando começaram a aparecer os
ministros e delegações dos movimentos emancipalistas fazendo exigências
despropositadas e ameaças veladas de prisão e despedimento, começaram a vacilar nas
suas intenções de ficar depois da independência.
E quando o Governo Português inventou o Quadro de Adidos para nele integrar
os funcionários do Q.A das colónias, garantindo-lhes em Portugal emprego e reforma,
aumentaram as hesitações que, depois de ter sido propalado que o “MPLA iria julgar
todos os funcionários do Q.A depois da independência” se transformaram em desejo
ansioso de partir o mais depressa possível.
Além do Q. Adidos o governo português também criou o Instituto de Auxílio
aos Retornados Nacionais (IARN) e como na altura os naturais de Angola brancos,
mestiços e assimilados eram considerados portugueses, este Instituto alargou ou
restringiu a sua acção como muito bem entendeu, dando ou negando auxílio de acordo
com os interesses dos dirigentes.
Em consequência criou-se em Angola um ambiente de tal ordem que até o
branco mais pobre que no interior do país ou na periferia das cidades tinha sempre
vivido e convivido com a comunidade negra, se deixou contaminar pela histeria do
medo sem razões válidas que o justificassem, excepto em Luanda e no Huambo onde as
refregas armadas entre movimentos eram aproveitadas para molestar e até, às vezes,
vitimar elementos brancos e não brancos, perante .a passividade das forças armadas
portugueses que, dizendo-se neutras, deixavam-se influenciar quando se tratava de
combater os “comunistas angolanos” ou seja os amigos, simpatizantes e militantes do
MPLA.
No seio da comunidade branca gerou-se uma histeria de fuga a qualquer preço
que o estabelecimento de pontes aéreas e de carreiras marítimas levou ao paroxismo.
Esta histeria deu origem a uma “música” jamais ouvida nesta terra: a “música” das
marteladas nos caixotes ouvia-se noite e dia, monótona e enervante. Nos caixotes metiase
tudo o que era possível, até as garrafas de gás e os panos de cozinha! No porto do
Lobito, extensas bichas de viaturas esperavam longas horas aguardando embarque.
Esta ânsia de partir, em Benguela, contrastava com a atitude de alguns
portugueses e angolanos que se preocupavam mais em resolver os problemas do
quotidiano do que pensar nos problemas futuros. São prova disso os episódios que vou
contar.
Vindos da Ganda, apresentaram-se no meu gabinete dois casais de portugueses
acompanhados de cinco meninos e de uma senhora ainda nova. As senhoras e meninos
estavam lacrimejantes e os dois homens faziam cara de mártir olhando fixamente para
baixo.
Quando lhes pedi para explicar a razão que os trouxera até mim, falaram as duas
senhoras com ar de queixume dizendo que os maridos tinham sido maltratados pelos
pretos até ao ponto de terem levado uma carga de porrada. Pediam a minha protecção e
a correcção dos atrevidos.
Como eu não percebera a causa da maka e como os dois homens se
conservassem calados, perguntei-lhes como é que explicavam a razão das cargas de
porrada que tinham levado. Então um deles começou; “sabe, eu tinha um camião de
fuba para vender e como o não conseguisse, fiz constar que, se me comprassem toda a
fuba, então cairia a chuva que não vinha há muito tempo. Eles compraram a fuba toda, a
chuva não veio e eles deram-me uma carga de porrada”.
E o senhor? - perguntei ao outro português.
“Eu tinha fuba na loja que nunca mais vendia porque a seca continuava e o povo
estava com falta de lombongo (dinheiro). Para conseguir vendê-la resolvi fazer um
feitiço: arranjei uma panela velha, ossos, pêlos e rabos de boi e uns pauzinhos e fui para
o quintal consultar os cazumbis (almas do outro mundo). Cercado de muito povo, fiz as
minhas consultas com os ritos convenientes e anunciei que os cazumbis mandariam a
chuva dois dias depois de eu ter vendido a fuba toda. A fuba foi vendida, passaram dois
dias, a chuva não veio e eu levei uma grande carga de porrada...ainda tenho aqui
algumas manchas...”.
Eu fiquei perplexo, quase que não continha o riso e tive que recorrer ao Camões
dos varões assinalados que conquistaram mundos ao mundo sem um tostão na algibeira
para poder responder condignamente a estes lusíadas perdidos nas matas da Ganda. e
com ar convicto e um tanto protector garanti-lhes que podiam regressar à Ganda sem
receio algum. E eles regressaram ao som da música dos caixotes.
Um outro exemplo revelador do clima em que se vivia foi o que descrevo
adiante.
Uma manhã, quando saía do palácio para o meu gabinete, encontrei no jardim
em frente deste, cerca de cinco dezenas de mucubais, homens e mulheres, que logo se
acercaram de mim com atitudes decididas mas não agressivas e um deles explicou-me
que queriam apresentar-me uma reclamação. Vinham todos tradicionalmente meio
vestidos, as mulheres exibindo anéis, argolas e cabeleiras que eram pouco vulgares em
pleno centro da cidade.
Disse ao emissário que não podia receber tanta gente e que escolhesse um grupo
de dez para falar comigo.
Depois de estarem todos sentados à volta da mesa do comissariado, verifiquei
que alguns deles estavam de cócoras em cima da cadeira.(Não estranhei nem tive
vontade de rir porque me lembrei de uma velhota portuguesa que eu vira há bem pouco
tempo lá na terra civilizada dos portugas, “sentar-se”, também de cócoras, no assento de
um automóvel)
Percebi que o grupo estava satisfeito mas um tanto constrangido. Explicaram-me
a razão da sua vinda: “lá para as bandas do Dombe Grande, um comerciante tinha-lhes
comprado algumas cabeças de gado para pagar, em parte, com mercadorias. O prazo já
tinha passado e ele não pagava. Pediam a minha intervenção para resolver a maka.
Antes de lhes dar uma resposta consultei os meus funcionários e um deles disseme
que conhecia o assunto e que podia ser facilmente resolvido. Assim pude assegurar
aos reclamantes que o assunto estaria resolvido dentro de um prazo de oito dias e que
podiam regressar às suas terras.
Mas os amigos mucubais, em vez de retirarem, preferiram acampar ali mesmo e
esperar pela solução da maka. Ali ficaram os oito dias, durante os quais todas as manhãs
eu correspondia aos seus cumprimentos com o “V” da vitória que se reflectia nos seus
alvos e largos sorrisos
À medida que se aproximava a data da independência crescia a azáfama dos
caixotes e o número dos transportes, aviões e barcos, para a debandada que tomava cada
vez mais o aspecto de uma fuga desenfreada.
Em Julho e Agosto, aviões da TAP e da Suisse Air, transportavam diariamente
cerca de mil passageiros para Lisboa. Mas o afluxo a Luanda de refugiados vindos das
terras do interior em aviões da Força Aérea e de outros vindos via marítima das
províncias do litoral era de tal ordem que tiveram que ser utilizados transportes cedidos
pelos Estados Unidos da América e pela União Soviética.
No início de Setembro participaram na ponte aérea aviões da França, Alemanha
Federal, RDA, Grã Bretanha e URSS. Chegou a haver 15 voos diários para Lisboa.
Só entre 1 de Agosto a 31 de Outubro calcula-se que foram transportados pela
ponte aérea cerca de 230.000 pessoas das quais cerca de 54.000 foram transportadas por
aviões estrangeiros, com os E.U.A à cabeça.
Esta fuga dos portugueses de Angola começou em Maio e terminou em 9 de
Novembro, dois dias antes da proclamação da independência.
A partir de Maio de 1975 a população branca do Huambo viu-se entre dois
fogos, MPLA e UNITA, esta procurando assanhadamente os comunistas, isto é, todos
os que cheiravam a MPLA. Os homens armados da UNITA entravam nos aviões à
busca de comunistas ante o olhar pasmado das sentinelas portuguesas que não sabiam
ou não queriam intervir face à tácita aceitação dos seus oficiais que colaboravam assim
na caça aos comunistas.
Os dirigentes do EME, Machado e Kapango foram arrancados da aeronave
pronta a arrancar para Luanda, nas referidas condições, isto é, diante da passividade dos
oficiais portugueses que preferiram “lavar as mãos” como Pilatos, em vez de usarem da
sua autoridade.
Naquela altura estavam em Angola cerca de 30 mil militares portugueses,
número mais que suficiente para manter a ordem e a disciplina evitando que as
populações, os habitantes civis, fossem molestados pelos militares dos movimentos
rivais.
Do Magazine n.º 277 de 2 de Julho de 1995, de cuja publicação é responsável o
jornal português “O Público”, extraímos do artigo aí publicado sob o título “Há vinte
anos, de Angola a Lisboa - A maior ponte aérea do História” os elementos que
comprovam a tese que sempre defendi de que “esta fuga massiva de residentes de
Angola, poucos meses antes da proclamação da sua independência, se não foi
preparada, foi pelo menos habilmente aproveitada pelas potências interessadas em fazer
de Angola mais um país africano independente, mas obrigado a obedecer aos seus
protectores para manter essa independência”, ou melhor utilizando uma linguagem
política em vias de ser esquecida, “pelas potências interessadas em substituir o
colonialismo português pelo neocolonialismo”.
Assim, extraímos do referido artigo as seguintes passagens:
“Houve brancos que foram mortos, outros que foram alvo de sevícias, afirma
Vasco Vieira de Almeida (ministro da economia do governo de transição) e contínua:
“não se pode dizer que a guerra era dirigida contra a população branca. Só que, numa
cidade ocupada por homens armados, todos se sentiam alvos potenciais. Mesmo em
casa, tínhamos medo. Havia sempre o perigo de balas perdidas.”
São ainda de Vieira de Almeida, cidadão português, com raízes afectivas e
familiares ligadas a Angola, com grande simpatia por Angola mas sem ligações
partidárias, as seguintes afirmações: “A desmotivação era total no seio das forças
armadas portuguesas. O governo de transição não passava de uma farsa trágica. Os
efectivos das forças armadas portuguesas e os meios de que dispunham eram mais que
suficientes para impedir a escalada da guerra civil” “faltava contudo vontade par tal e
faltavam também orientações inequívocas de Lisboa”... .
Não são de espantar estas afirmações de Vieira de Almeida. São verdadeiras,
reflectem a realidade, o que não sucede com as afirmações que no mesmo artigo são
feitas por grandes responsáveis pela descolonização, que decidiram então muita coisa
mas que não tiveram até agora a honestidade de reconhecerem os erros que cometeram.
Assim, o que era nesse tempo ministro da administração do território depois de
ter transferido a sua fortuna de Moçambique para Lisboa, afirma: “Os civis tinham
deixado de encarar a presença dos 30 mil militares portugueses como uma
protecção...Havia alguma, diz Almeida Santos. “Mas as tropas portuguesas estavam
desmotivadas. Muitos dos militares iam já na terceira, quarta e até quinta comissão de
serviço, o significava que estavam a abeirar-se de uma situação de exaustão. Com o “25
de Abril” gerou-se a convicção de que a guerra acabara, de que já tinham cumprido a
sua missão O atraso nas negociações com os movimentos de libertação levou a que se
continuasse a lutar e a morrer tanto ou mais, nos tempos seguintes ao “25 de Abril”, do
que antes. E era incompreensível para as tropas, chegando mesmo a gerar uma situação
de indisciplina militar”.
Mas vinte anos passados, Almeida Santos, um dos responsáveis pela
descolonização, não tem a certeza das causas que originaram a ponte aérea pois afirma:
“a ponte aérea resultou de uma decisão conjunta do Governo e da Presidência da
República”, mas acrescentou: ”eu diria que o Conselho da Revolução também teve
alguma coisa a ver com isso...”. E para cúmulo ainda acrescentou:” Este era um capítulo
que o governo procurava evitar: escaldava e já havia problemas de sobra a nível
interno!”.
E para prova do desencontro de opiniões dos políticos portugueses, oiçamos Melo
Antunes, uma das cabeças da descolonização: “a perspectiva do governo português não
era estimular o regresso da população branca, e sim, ajudá-la a continuar no território.
Mas era tarde demais...” (porquê, pergunto eu). “Por essa altura, em Julho, a população
branca de Angola só pensava em rotas de fuga, deixara de acreditar nos bons ofícios de
Lisboa; mais de 2.500 veículos partiram, por terra até Marrocos e, em meados de
Agosto, 2 mil portugueses tinham cruzado a fronteira a caminho da África do Sul”.
Face a tantas opiniões desencontradas e da consequente falta de coordenação e
de decisão é fácil compreender porque é que Vieira de Almeida acabou por afirmar:
“Nunca mais vi as pessoas do mesmo modo. Nem este país (Angola) Foi absolutamente
incrível a cobardia colectiva de que então se deu provas”.
Face ao que atrás se disse torna-se fácil compreender porque é que a tal
“comissão de descolonização” de que fiz parte tivesse sido completamente inoperante e
inútil.
Mas no artigo em referência, “A maior ponte da história ”citam-se duas
conclusões “históricas” que parecem querer interpretar para a posteridade o que foi a
descolonização de Angola.
Lê-se no artigo em referência: Hoje, no último volume da colecção de História
coordenada pelo professor José Matoso pode ler-se: A atitude das autoridades
portuguesas acabou por favorecer objectivamente a estratégia do MPLA (...) mesmo o
fenómeno do retorno da população branca através de uma ponte aérea cujo terminal era
Luanda favoreceu essa coexistência”
E ainda no mesmo artigo: ”Numa outra colecção de história dirigida pelo
professor João Medina, Melo Antunes escreve: em Agosto de 1975, face à situação
crítica que se vivia em Luanda, já ameaçada a Norte pelas forças da FNLA, dei
instruções precisas, logo em seguida confirmadas pelo Presidente da República para que
as forças portuguesas defendessem a todo o custo a cidade (...)!!! (os pontos de
admiração são do autor). As decisões foram tomadas com inteira consciência de que,
objectivamente, naquele momento, se fazia o jogo da MPLA.
Ora os factos demonstraram que a atitude portuguesa nunca favoreceu a
estratégia do MPLA mesmo com as “instruções precisas” dadas por Melo Antunes,
simplesmente porque essas instruções não chegaram cá ou não foram cumpridas, nem
tão pouco podiam favorecer a estratégia do MPLA porque grande parte dos oficiais do
exército português era furiosamente anti comunista, assim como alguns comandos a alto
nível...que para cumprir essas ordens, nas vésperas da independência, deitaram ao mar
milhares e milhares de culatras das armas que eles não queriam que caísse nas mãos do
MPLA e que pouco antes das zero horas do dia 11 de Novembro convocara os
jornalistas para fazer a entrega de Angola ao Povo Angolano, ali representado
por...ninguém!
E falta acrescentar nessas duas referências históricas que, às zero horas do dia 11
de Novembro, o Presidente da República Popular de Angola não permitiu que a
bandeira portuguesa fosse queimada pelos exaltados que não aceitavam a maneira
inqualificável de proceder...entregando Angola ao Povo Angolano...sem um
representante daqueles que dizem ter favorecido!
Não restam dúvidas de que alguns dos adeptos do MPLA, com as suas atitudes
extremistas e por vezes racistas, também contribuíram para a fuga dos portugueses,
muitos deles já indecisos face às ameaças de nacionalizações sem compensação.
Mas também não restam dúvidas de que, apesar da propalada ajuda portuguesa,
se não fora a presença, embora tardia, dos cubanos e soviéticos, o MPLA não teria saído
triunfante do caos dos últimos dias do colonialismo e dos primeiros dias da
independência apesar das “decisões do governo português tomadas com plena
consciência de que, objectivamente, naquele momento se fazia o jogo do MPLA”.
Outra opinião que ainda persiste e é afirmada por muitos dos que tudo perderam,
é de que “as forças armadas portuguesas deram um importante e significativo apoio ao
MPLA”. É uma opinião redondamente errada pois a grande maioria dos oficiais e
soldados das FAP eram figadais inimigos do comunismo para eles representado em
Angola pelos, como já disse, militantes, simpatizantes e amigos do MPLA.
Alguns dos acontecimentos a seguir relatados são prova disso.
RETIRADO DE : Sócrates Dáskalos_UM TESTEMUNHO PARA A HISTÓRIA DE ANGOLA.pdf