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domingo, 29 de abril de 2012

Angola/32 anos: Roberto de Almeida esclarece razões da fuga massiva de quadros portugueses em 1975


 


Luanda, 2/12 - A grande divergência política entre os movimentos nacionais e a potência colonizadora em Angola, assim como a incerteza em relação ao futuro do país, levaram à fuga em massa de quadros portugueses na véspera da proclamação da independência de Angola em 1975.

Este ponto de vista foi manifestado sábado, pelo presidente da Assembleia Nacional, Roberto de Almeida, em entrevista exclusiva à Angop, em Luanda, destinada a fazer o balanço dos 32 anos de independência do país, assinalados a 11 de Novembro último.

Segundo Roberto de Almeida, naquela altura os quadros portugueses decidiram abandonar o país "porque não havia convivência política possível entre, por um lado, os movimentos nacionais e, por outro, a potência colonizadora - Portugal".

O presidente da Assembleia Nacional explicou que a potência colonizadora via nos movimentos nacionais "grupos de terroristas, negros drogados e munidos de catanas com o objectivo de matar os brancos".

Essa posição de hostilidade do colonizador, adiantou, levou ao abandono em massa dos quadros portugueses, porque instaurou-se um clima de incerteza em relação ao futuro do país com a ascensão ao poder de qualquer um dos três movimentos, nomeadamente o MPLA - que proclamou a independência - a Unita e a FNLA.

Roberto de Almeida, que procurou com esse argumento rebater a opinião segundo a qual após a independência correu-se deliberadamente com os quadros portugueses, não deixou contudo de admitir essa possibilidade em algumas situações isoladas.

Quanto ao significado histórico da independência, o presidente da Assembleia Nacional disse ser o nascimento de um novo país e soberano.

"Esse nascimento assumiu ainda maior relevo devido às circunstâncias que antecederam a independência", disse, referindo-se às várias tentativas de bloqueio da proclamação da independência.

O líder parlamentar apontou a esse propósito a grande invasão sul africana, em 14 de Outubro de 1975, e o avanço, pela fronteira norte, das tropas mistas do exército do ex-presidente do antigo Zaíre, Mobutu, e dos guerrilheiros da FNLA.

"Isso é histórico, ninguém pode desmentir e não temos razões para esconder, embora reconheça que estamos num momento de reconciliação nacional, mas a história é história e tem de ser mencionada", disse.

Adiantou ainda que houve igualmente uma grande pressão dos EUA - que também se opôs à independência - e a prova disso é que o reconhecimento do país, pela potência americana, aconteceu cerca de duas décadas depois, nos anos 90.

"Isso explica-se porque os EUA tinham uma aliança com Portugal na OTAN e não viam com muito bons olhos, dentro também do princípio da guerra fria, que esses territórios (dominados por Portugal) ascendessem à independência com direcções que não eram viradas para o ocidente", frisou.

De acordo com o presidente da Assembleia Nacional, países como Angola, Moçambique e Guiné-Bissau conduziram uma luta de libertação que, salvo honrosas excepções, não contou com o apoio da maior parte dos países e governos ocidentais.

Esse facto determinou que os mesmos procurassem aliança com os países da comunidade socialista, que apoiaram a sua luta de libertação.

Outro grande feito dos 32 anos destacado por Roberto de Almeida foi "conseguir manter a independência, através da salvaguarda da integridade territorial do novo Estado, já que após a sua proclamação os adversários procuraram derrubar o governo instalado contra a sua vontade".

"O primeiro dever era, portanto, a nossa própria defesa, a salvaguarda da integridade territorial do país, a defesa contra as invasões estrangeiras e contra os ataques internos das forças aliadas a esses exércitos estrangeiros e, depois, procurar reorganizar o país", sublinhou.

Roberto de Almeida disse que a reorganização do país, após a proclamação da independência, ressentiu-se profundamente com a falta de quadros em quase todos os sectores da vida, devido ao abandono de grande parte dos profissionais portugueses.

"Garantir administrativamente a marcha de um país novo nas circunstâncias em que ascendeu à independência foi um grande desafio", referiu.

O parlamentar reconheceu entretanto que em alguns casos a marcha do país conheceu uma tendência de anarquia por parte de alguns angolanos, mas as circunstâncias do momento levaram a tolerar o comportamento.

Roberto de Almeida disse que naquela altura não era aconselhável que, após o abandono dos colonialistas, o Governo aplicasse uma política de repressão, porque isso viria a ser a continuação da política colonial.

O presidente da Assembleia Nacional destacou também as grandes opções que se fizeram no campo político, económico e social, sublinhando a missão de formação de quadros, por forma a suprir o vazio deixado e garantir a continuação do país independente.

"O reconhecimento internacional de Angola que se seguiu à independência foi igualmente outro feito importante, graças ao empenho das missões diplomáticas criadas para o efeito", disse.

"Posso orgulhar-me de ter feito parte de algumas dessas missões, em que fomos contactar governos para reconhecer a independência de Angola, tivemos de argumentar razões e a importância do nosso reconhecimento, sobretudo num clima em que a própria potência colonizadora não nos tinha reconhecido", enfatizou.

No campo parlamentar, destacou o papel fundamental levado a cabo pelo Conselho da Revolução, criado com a independência, e a Assembleia do Povo, instaurada em 1980, que asseguraram a continuidade da função legislativa do novo Estado, bem como, já mais recentemente, a Assembleia Nacional, num quadro multipartidário.

"Qualquer desses órgãos teve grande importância, fizeram-se definições importantes no plano legislativo do que devia ser o nosso país", disse, apontando a título de exemplo a primeira Constituição do país.

Roberto de Almeida destacou ainda uma importante reunião realizada em 1976, onde foram definidas as linhas económicas do país - tendo sido decidido a política de economia centralizada como uma opção daquele contexto.

Com alguma nostalgia, recordou também o grande espírito de união das populações na defesa do país, destacando a Organização de Defesa Popular (ODP) e as Brigadas Populares de Vigilância (BPV), criadas com o repto do primeiro presidente de Angola, Agostinho, para uma "Resistência Popular Generalizada".

"Havia uma consciência nacional que passava em primeira linha pela defesa das fronteiras do país, por isso tenho dito que, por muito que possamos divergir no campo das ideias, como angolanos, devíamos convergir nessa questão da defesa do país, não permitindo que um país estrangeiro invada o nosso território", concluiu.

Entrevista conduzida por: David Mário e Rafael Casseca
Comentário do editor do site: O Sr. Presidente da Assembleia Nacional de Angola no seu discurso não diz a verdade dos factos como se pode constatar nos diversos textos que estão neste site. Por desconhecimento? Creio que não mas talvez por motivos políticos. A fuga massiva dos "colonos" de Angola não se deveu ao facto de os brancos considerarem os pretos terroristas. A nossa convivência tal como é actualmente aqui em Portugal era pacífica e cordial salvo algumas antigas excepções como a revolta da Baixa do Cassange que não foi um bom exemplo dos portugueses e que foi instigada propositadamente do exterior. O Sr. Presidente esqueceu-se da barbárie da UPA que, como o Sr. diz, mas noutro sentido, estavam efectivamente drogados com marufo e makonha e incitados pelo "feiticeiro" do kimbo clamavam que as balas dos brancos eram "água" (massa) chacinando à catanada milhares de brancos e os seus trabalhadores bailundos bem como crianças inocentes no Norte de Angola em 15 de Março de 1961 como mostram as fotos tiradas pelo reporter.
Os "colonos" queriam uma independência para TODOS tal como foi feita na África do Sul. A fuga massiva dos quadros e da restante população branca deveu-se principalmente ao facto de o MPLA com a ajuda do PCP português e a complacência do almirante vermelho Rosa Coutinho ultra-esquerdista do 25 de Abril, permitir que em Agosto de 1975 entrasse em Angola armamento moderno proveniente da URSS e a desmobilização antecipada das tropas portuguesas para que o MPLA pudesse assumir o poder com a ajuda das tropas cubanas que entraram em Angola na mesma data com material de guerra russo. Felizmente para o MPLA que os sul-africanos foram obrigados a retirar por ordem dos americanos e à FNLA foram-lhe retiradas pelos sul-africanos por ordem dos americanos as culatras dos super-canhões G-5 que já estavm no morro da cal perto de Luanda. Com esses canhões activos não havia "monocaxitos" (orgãos de Estaline) nem cubanos que lhe valessem.
O resultado da guerrilha urbana como não podia deixar de ser, foi para expulsar os outros partidos das cidades e tornar a vida impossível à população, principalmente aos brancos mesmo os nascidos em Angola que, por isso, tiveram de abandonar a sua querida terra deixando para trás tudo quanto tinham que foi o trabalho de uma vida. Uma nação que em 1975 era a mais próspera da África ocidental ficou completamente arruinada pelas guerras subsequentes das quais ainda hoje não se recompôs. Não culpe os "colonos" Sr. Presidente culpe sim o MPLA por se armar nas costas dos outros partidos como se poderá ver neste site nos jornais da época e mais tarde a UNITA que, por causa da ambição do poder do "muata" Savimbi não se entenderam prolongando uma guerra fraticida por cerca de 28 anos só inrrompida com a morte do "mais velho". Sr. Presidente, Angola foi arruinada pelos próprios angolanos. Esta é a verdade nua e crua que vos custa a aceitar ! 

 2 de Dezembro de 2007

sábado, 28 de abril de 2012

ADEUS ANGOLA NOSSA


Outro testemunho:
 
Esta página tem por finalidade, transmitir às novas gerações,  momentos vividos por mim e familiares para que o que passamos, não caia no esquecimento.

Adeus Angola nossa
Às seis horas do dia seis de Setembro – sábado – em caravana de umas 300 viaturas, escoltada por 30 militares, arrancamos do Lubango rumo à África do Sul. Percorridos 380 km, sem problemas, às 17 horas atravessamos a fronteira de Santa Clara. Aguardava-nos um grupo de militares sul-africanos com colchões, cobertores, alimentos em conserva, água, refrigerantes e, até, uns cubos combustíveis para amornar os enlatados. Pernoitamos ao relento. Não fazia frio.
Às onze horas do dia seguinte – com feijão ao lume para o almoço – chega uma ordem de partida para Oshakati. Todas as viaturas foram reabastecidas (de graça) até à boca. A deslocação durou umas duas horas. Em Oshakati fomos “instalados” num campo próximo do hospital missionário, preparado para a situação, com algumas tendas, água encanada, latrinas e balneários. Com lenha à mão, o feijão volta ao lume. Cozido e apurado, foi servido como almoço/jantar.
No dia seguinte, de manhã, as autoridades, por altifalante, ordenam a formação em fila para registo dos refugiados e vacinação. Terminadas estas formalidades as autoridades solicitam – sob aviso de inspeção – a entrega de armas, drogas e literatura pornográfica; e diamantes a enviarem para classificação em Pretória e posterior pagamento de oitenta por cento do seu valor. Aos portadores de café, se desejassem vendê-lo, ser-lhes-ia passado um salvo-conduto para todo território sul-africano. Por fim foi-nos dada liberdade para exposição e venda (sem encargos) dos artigos que conseguimos transportar (salvados!).
Ali vendemos duas viaturas, uma moto, frigoríficos, máquinas de costura, fogões, louças, porcelanas, talheres e mais artigos. Tudo por um quinto dos justos valores.
Na tarde do dia nove somos avisados da partida no dia seguinte para o campo de Grootfontein, a 300 km.
A nosso pedido, por conveniência – em troca de umas garrafas de whisky – foi-nos permitido permanecer mais um dia no campo. Assim, o nosso grupo, agora em quatro viaturas, partiu isolado. Eram onze horas – onze de Setembro de 1975. Percorridos uns 100 km parte-se o veio da bomba de injecção da Bedford, sendo levada a reboque. Obrigados a marcha vagarosa passamos a noite, ao relento, em Tsumeb. Alcançamos o campo de Grootfontein às catorze horas do dia doze.
Ficamos todos alojados em tendas militares, com colchões e cobertores de sobra. Existiam balneários e latrinas suficientes, apesar dos estragos causados, por malvadez, pela leva – mais numerosa – que nos antecedeu.
Campo de refugiados em Groodfontein
Funcionava um serviço de pequeno-almoço e almoço. Porque era sempre a mesma “ementa” (carne de vaca com ervilhas) e mal confeccionada, passamos à cozinha própria, até para consumir a grande quantidade de provisões levadas de Angola.
Em tenda própria funcionava um serviço de assistência médica prestada pelo Dr. David Parson, filho do já referido Dr. Parson do hospital do Bongo.
Cerca de uma semana após a nossa chegada ao campo, o nosso grupo divide-se: Camilo, Adelaide, sete filhos com idades entre um e treze anos, em transporte rodoviário ocasional, partem para Windhoek; e dali, de comboio, até Johanesburgo munidos das passagens de avião, compradas em Angola, com destino ao Brasil.
Nos finais de Setembro o Dr. David anuncia a possibilidade de emigração dos refugiados no campo para os E.U.A., com transporte aéreo gratuito, através de uma instituição americana. Só seriam aceites inscrições de pessoas com os passaportes válidos.
A notícia despertou certa euforia. Como nem todos possuíam passaporte, por solicitação dirigida ao Cônsul de Portugal em Windhoek, este fez deslocar um funcionário ao campo a fim de formalizar a emissão dos passaportes. O meu, tem o número 278/75; o da Lucília, 282/75, emitidos em 3 de Outubro de 1975, assinados pelo Cônsul Carlos E. de Sousa Aragão.
Tantas voltas para nada. Efectuou-se apenas um voo. Explicações: insuficiência de fundos!...
  Grootfontein. – Sítio árido, sol escaldante. Foi ali, numa tarde da primeira quinzena de Outubro, por carta de Maria Andrade para a Amélia, por intermédio duma prima em Lisboa, chegou a dolorosa notícia do falecimento do Pai, Avô, Bisavô, Irmão, Sogro aos que, uns dias atrás, o haviam visitado em sinal de despedida, agora tão distantes!
Campo de refugiados em Groodfontein
Os dias foram passando. Monótonos. Tórridos de sol a sol; frios durante a noite. No exterior da vedação mais de uma centena de vários tipos de viaturas estacionadas. Umas com as cargas de origem; outras vazias. No campo de Windhoek a situação era idêntica. Os seus proprietários – alguns já em Portugal – a vende-las por valores humilhantes preferiram abandona-las.
As autoridades sul-africanas não prometiam o embarque destas para Portugal; e da parte do governo português, nem sinais. Assim, a aproximar-se a hora da nossa “repatriação”, acabamos por “vender” as quatro viaturas por cerca de 50 contos. E, por muito favor, l000 litros de combustível e 500 de óleo por 5 contos.
De pasmar: nas vésperas da devolução do campo todas as viaturas abandonadas foram recolhidas para um recinto vedado; e no decorrer de 1976, tal como haviam sido abandonadas, despachadas para Portugal e entregues aos seus donos.
No dia 22 de Outubro é anunciada a nossa partida. Nessa noite, militares e alguns residentes da cidade, honraram-nos com uma festa de despedida, no recinto de jogos desportivos, com grupo musical.
No dia 23, os nossos pertences, devidamente rotulados, são transportados para a estação do comboio; e, de seguida, as pessoas: acomodadas, por agregado, em cabines com beliches de acordo com o número de indivíduos. Coube-nos a cabina 21, onde encontramos latas de conservas, fruta natural e bebidas. Ao meio-dia em ponto, ouve-se o silvar do comboio. Em toda a sua extensão, o acenar de muita gente, entre esta um Padre a dar-nos a sua bênção. Bem – hajam! Adeus Grootfontein!
Partida do campo de refugiados de Groodfontein para a estação de comboios.
 
Os poucos que ficaram no campo – entre estes o Zeca, Amélia e filhas – foram enviados para Johanesburgo, e dali, de avião, para Portugal.
Cerca das l7 horas o comboio pára na estação de Otchivarongo, para atrelagem doutras carruagens com mais gente proveniente do campo de Windhoek. Retomada a marcha, sem paragens, às 8 horas do dia 24, ouve-se o chiar dos travões a anunciar o fim da viagem e da linha-férrea. Estávamos no porto de Walvis Bay.
Sob denso nevoeiro, 1500 (?) desafortunados, em fila, vão sendo transferidos para bordo dum navio de cruzeiro, fretado pela África do Sul. A operação, cuidadosamente controlada pelas duas partes – autoridade sul-africana e tripulação do navio –, demorou umas duas horas. Foi respeitada a atribuição de camarotes e beliches de acordo com a praticada no comboio. Calhou-nos o camarote 21. Foi servido almoço e jantar no navio, ainda ancorado.
Dormimos bem. Seriam seis horas, dia 25, quando nos apercebemos que o “Oceanic”, de Taiwan, já havia levantado ferro. Cumpria a sua terceira e última viagem: numa missão sem nome.
ADEUS ÁFRICA!
barco copy
Oceanic Independence, o navio que nos trouxe para Portugal.
A bordo, em gabinete adequado ao seu trabalho, encontrava-se uma funcionária do Instituto de Apoio ao Retorno de Nacionais – IARN, de nome Lígia. A sua missão consistia no contacto com as famílias nucleares e indivíduos solitários – constantes da relação em sua posse – para efeitos, se necessário, de alojamento em Portugal.
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Às 8 horas da manhã do dia 7 de Novembro o majestoso transatlântico “Oceanic” entra na barra do Tejo. Às l0 horas atraca no Cais da Rocha, Lisboa. É colocada a escada para o desembarque. Mas tal não acontece. A “mando”duma comissão, previamente constituída – apoiada por todos –, o desembarque só teria lugar mediante a troca dos escudos “coloniais” por escudos portugueses. O refeitório, servido o pequeno-almoço, foi encerrado. Mesmo num entra e sai da funcionária do IARN para atender à situação, manteve-se o impasse. Ante tal momento, foram distribuídas latas de feijão, fruta e leite.
Às 22 horas é anunciada a troca da moeda, no aeroporto. As deslocações seriam de autocarro, em grupos de 30: cabeças dos agregados familiares e solitários. Em qualquer das situações, a troca era de 5.000$00 apenas! Atendidos os dois primeiros grupos – dos quais fiz parte – as operações foram suspensas.
No aeroporto, pelo mesmo motivo, assistia-se a uma situação confrangedora: na zona das chegadas, gente deitada no chão, enquanto os mais fortes, revoltados, mantinham-se firmes.
No dia 8 foram distribuídas pelo IARN senhas individuais de almoço, servidos pelos restaurantes próximos do cais.
Com a tripulação do navio a dar sinais de impaciência, a meio da tarde os passageiros espalham-se pelas varandas e convés com gestos de manifesto protesto. Depois dum constante sobe e desce, é retomada a troca de moeda no aeroporto. A comissão recusa mais deslocações. Exige que a operação fosse efectuada no navio. Quase de imediato entram dois “bancários”, com suas maletas, acompanhados por funcionários do IARN. Terminadas as transações, o pessoal abandona o navio. E, de seguida, descarregadas as bagagens, atiradas brutalmente para o chão pelos malvados estivadores.
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De rol nas mãos, os funcionários do IARN fazem a chamada e em simultâneo a separação em grupos – de antemão selecionados – para diversos locais de alojamento. Calhou-nos o Grande Hotel da Figueira da Foz. Onde, acompanhados pela S.ª Lígia, chegamos já próximo da meia-noite. Distribuídos os quartos – coube-nos o 421 –, mesmo àquela hora tardia, foi-nos servida, nos aposentos, uma merenda.
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Desgraça nossa: estávamos em Portugal; num Portugal sem rei nem roque… Em Angola, éramos cidadãos portugueses; da fronteira de Santa Clara ao porto de Walvis Bay, refugiados portugueses; em Portugal, apátridas! Os Bilhetes de Identidade de Cidadão Nacional, encimados com a distinção “R E P Ú B L I C A   P O R T U G U E S A” passaram a imprestáveis; nem sequer aceites para transcrição e posterior emissão dum novo B.I. de Cidadão Nacional. Para o efeito, era exigida a certidão de nascimento e a dum ascendente português constante na certidão. Em certos casos difícil e noutros impossíveis de satisfazer: daí o arrastar dos processos durante muitos anos e, até, esquecidos!
Do execrável e enganoso Instituto de Apoio ao Retorno de Nacionais – covil de ladrões – só a palavra retorno produziu efeito: enriqueceu o vocabulário com o douto adjetivo:
RETORNADO!... 
Texto de Jorge da Conceição Rodrigues
 
«A incompreensão do presente nasce fatalmente
da ignorância do passado".

Marc Bloch
Retirado DAQUI: http://sandularte.blogspot.pt/2010/11/adeus-angola-nossa_20.html