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terça-feira, 1 de maio de 2012

O êxodo de Angola em 1975



O ÊXODO
O medo da derrocada, melhor, das consequências da derrocada, pôs em fuga as populações.
Desde logo, os menos afoitos, os menos corajosos, os mais interesseiros, os mais calculistas que, em apressado e egoísta balanço, avaliaram as vantagens e desvantagens de esperar pêlos acontecimentos, escaparam-se do território. À formiga, disfarçadamente, contentes por salvar os bens.
A seguir, à medida que a instabilidade crescia, que a esperança se dissipava, maior foi o caudal dos que parti­ram. Luanda tinha, perante os olhos pávidos, a trágica re­petição de Março de 1961: refugiados que vinham, franga­lhos de seres humanos, despojados de tudo, até do vestuá­rio. Esfomeados e feridos na carne e no espírito. "Sanea­dos" dos locais onde trabalhavam, onde muitos tinham nascido.
O êxodo principiou em Junho. Mas a grande avalan­cha verificar-se-ia em Agosto, Setembro e Outubro. O Go­verno de transição, com pouca eficácia, aliás, adoptou pro­vidências para facilitar a saída a quantos o desejassem, agrupados, nomeadamente, em Luanda, no Lobito e em Moça medes.
Numa insegurança sem fronteiras, a morte espreitava casas e artérias das povoações. Um minuto, um segundo de sobrevivência, desgraçadamente era dádiva de Deus. Até os mais animosos, os que teimavam em ficar, desistiam.
Horas e horas — infindáveis — as pessoas aguardavam a misericórdia de um lugar num avião ou num barco. Com­panhias nacionais e estrangeiras lhes valeram. Mas não a to­das.
Dos que partiram, bastantes davam o salto para o desconhecido: nunca tinham pisado outras terras que não fossem as angolanas. Alguns convenciam-se de que seriam acolhidos com humanidade em Portugal, como sucedia em férias endinheiradas. À chegada, aos que assim julgavam, a desilusão somou-se ao desgosto e à amargura de uma nova espécie de traição. Agora, não traziam dinheiro, nem pren­das para familiares".e'amigos. Agora vinham rotos, sujos, es­tonteados de pavor, a febre nos olhos, as faces cavadas, resseguida a alma. Receberam-nos como indesejáveis con­trapesos.
Se houve pessoas que, embora saindo precipitada­mente, salvaram pequena parte dos bens, a esmagadora maioria deixou propriedades, depósitos bancários, viaturas, instrumentos de trabalho. Ainda menor foi o número dos que se furtaram a dias e dias de aflitiva espera no aeropor­to, dormindo no chão, sem higiene, sem comer, numa hor­rorosa promiscuidade. Milhares de pessoas pejaram os aces­sos à salvação, rebanhos imundos e ansiosos, espreitando, insones, cada avião que chegava ou descolava.
As comissões de trabalhadores do porto de Luanda, os sindicatos, o poder popular, sob qualquer pretexto opunham-se à saída de caixotes e viaturas. Roubaram auto­móveis, arrombaram malas, escolhendo, a seu bel-prazer, o que mais cobiçavam. Felizes os que embarcaram na base aérea, onde a correcção dos militares foi notável. Os res­tantes, porém, assistiram, impotentes, ao saque sistemático das suas bagagens, ante a passividade das Forças Armadas Portuguesas.
Luanda encheu-se do ruído dos caixotes, martelados dia e noite. Camionetas aguardaram, três e quatro dias, em filas de quilómetros, a oportunidade de descarregarem, no cais, toda a espécie de coisas, às vezes nem sequer embruIhadas. Subiram, a níveis inauditos, os preços da madeira e dos fretes.
Em Outubro, o MPLA proibiu a saída de camiões e de carrinhas ou jipes de caixa fechada. Aflitos e acossados, os proprietários serram metais, desfizeram bancos, desman­telaram armações, no intuito de salvaram o que pudessem.
Na loucura que se apoderou de todos, a imaginação fervilhava. Os aviões e os navios não escoavam a torrente dos fugitivos. Organizou-se, por isso, uma caravana, de África para Portugal. Muita gente se entusiasmou. Tanta, que depressa tiveram de ser canceladas as inscrições. Cerca de dois mil veículos pesados e seiscentos ligeiros transpor­tariam cerca de cinco mil pessoas. Tudo fora preparado: comunicações-rádio, assistência médica, cozinhas, alimen­tos, serviço de desempanagem. Estudaram um percurso que atravessava a Zâmbia, contornando a região de Brazaville, prosseguida pelo Gabão e entrava em países mais hospita­leiros. Recorreram ao alto-comissário, à Cruz Vermelha, ao Governo de Lisboa, ao qual mandaram emissários. Foi ani­mador o acolhimento e a compreensão que lhes dispensa­ram. No entanto, quebraram-se os elos da cadeia, porque o MPLA não os deixou passar pelas zonas sob o seu contro­lo.
Com a independência, o MPLA tornou-se ainda mais intransigente. Mais cruel. Mais desonesto... Impediu a saída de viaturas e haveres que considerava não pertencerem aos seus legítimos donos, mas a Angola. Máquinas de costura, tornos portáteis, pneus, ferramentas, um ferro eléctrico, passaram a ser do Estado angolano (ou de qualquer dos seus maiorais, como é o meu caso: o recheio da minha ha­bitação conforta, hoje, um dos líderes do MPLA).
           Durante este período, principalmente depois da che­gada dos cubanos e das confrontações dos movimentos de libertação, quase toda a gente foi dominada pela psicose do medo, a par da obsessão da fuga, desordenada e sem atender às condições em que era empreendida. Das águas de Luanda, do Lobito, de Benguela e, principalmente, de Moçâmedes e Porto Alexandre, traineiras superlotadas le­vantaram ferro para a África do Sul, na maior parte para Walvis Bay. Houve naufrágios, nos quais muitos pereceram. Outros, arrojadamente, aventuraram-se a cruzar o Oceano, para Portugal e para o Brasil.
De Silva Porto, de Nova Lisboa, do Luso, grupos mais ou menos numerosos embrenharam-se na mata e cal­correaram a distância que os separava de África do Sul, on­de os alojaram em campos de concentração e os trataram com humanidade. Para o Norte foram os que queriam atin­gir Kinshasa. A etnia negra preferiu, em regra, acolher-se à Zâmbia e ao Zaire, pedindo às autoridades transporte para Lisboa, porque não queriam perder a cidadania portuguesa. Caminhadas dramáticas, sem alimentos e sob a intempérie. Em média, morreram oito crianças por dia.
É difícil calcular o tal dos fugitivos, até porque há que contar com o número indeterminado dos desapareci­dos. Contudo, no Zaire, estiveram mais de vinte mil ne­gros; na África do Sul, cinquenta mil pessoas, entre bran­cos, negros e mulatos, incluindo os que vieram de Moçam­bique; na Zâmbia, vinte mil.
Falei, em capítulo anterior, nos mortos causados pe­la descolonização: trezentas mil pessoas. Acrescento agora que, ou foram pura e simplesmente assassinadas, nos centros populacionais; ou tombaram, durante a fuga, às balas dos movimentos "libertadores" e das tropas estrangeiras (leia-se cubanas e russas); ou por doença e inanição; ou porque a má-sorte os colocou no meio dos combates que o MPLA, a F N LA e a UNITA travavam.
           Um exemplo, ao acaso, do genocídio angolano. Em Moçâmedes, quando homens, mulheres e crianças procura­vam ir para bordo de rebocadores, de traineiras, de peque­nos barcos a remos ou à vela, foram atacados por forças da UNITA, que se deram ao luxo de incendiar tudo o que estava no cais, viaturas e caixotes. Se alguns se salvaram, devem-no à intervenção dos guerrilheiros da FNLA.
Antes da independência, como é óbvio, constituiram-se comissões de apoio, separando os desalojados que se ocupavam em actividades privadas, dos que eram funcioná­rios do Estado, reformados ou não.
Essas comissões exauriam-se num afã de fraca rendi­bilidade, porque, organizadas à pressa, não dispunham das infraestruturas para atender bichas de impetrantes que se alongavam por quilómetros. Elementos seus, perfeitamente conscientes de que o País estava a braços com uma respon­sabilidade incomportável, deslocaram-se a Lisboa, para aler­tar o Governo. Lançavam-se, nessa altura, os caboucos do IARN. Responderam-lhes que tudo fora previsto e que não faltariam alojamento e alimentação para quem viesse em busca da paz.
Apenas, os cálculos erraram, em muito, por defeito. E o IARN "estoirou pelas costuras"... Verificaram-se, en­tão, atropelos aos direitos de cada um e houve necessidade de internar (não de hospedar) os refugiados que chegavam, em vagas existentes nos hotéis. Do problema me ocuparei adiante, mais pormenorizadamente.
Em Angola, os voos de transporte por conta do Es­tado terminaram nos primeiros dias de Outubro. Depois, os refugiados teriam de viajar pagando o bilhete. Como pode­riam pagar, se tinham sido roubados?
Não se percebe o motivo do corte da ponte-aérea, dificilmente conseguida ao cabo de inúmeras diligências das comissões de refugiados, de conferências de Imprensa, de memorandos e telegramas ao Presidente da República, ao Conselho da Revolução, à Cruz Vermelha Internacional, de apelos a Embaixadas estrangeiras. Miseráveis, descalços, apenas com a roupa do corpo, famintos, onde iam buscar o dinheiro para uma passagem de avião? Felizes, apesar de tudo, os que foram repatriados pêlos governos da África do Sul e do Zaire.
Um milhão e quatrocentos mil refugiados é o cômputo que faço do êxodo dos angolanos. Em Portugal, um milhão e duzentos mil. Os restantes distribuídos pela Áfri­ca do Sul, pela Rodésia, pela Zâmbia, pelo Zaire, pela Aus­trália, pelo Brasil, por vários países mais.
Em Angola, quedaram-se no máximo, vinte mil pes­soas da etnia: aderiram ao MPLA, por oportunismo ou convicção. Quase todas, no entanto, por oportunismo. Há cidades despovoadas de brancos. Outras têm dois ou três. De qualquer maneira, a etnia branca em Angola dispersa-se, principalmente, por Luanda, Benguela e Lobito.
Esses, os que ficaram, aceitaram um quotidiano de subserviências e enxovalhes. As raparigas (por informa­ções dignas de confiança) sujeitam-se às maiores indignida­des, para captarem a simpatia dos aderentes do MPLA.
No que me toca, fui, repetidamente, ameaçado de morte. Resisti, enquanto pude, às angustiadas súplicas de minha mulher. Acabei por ceder, receando que ela enlou­quecesse.
Tomada a decisão, procurei um amigo da Revolta Activa e pedi-lhe para dizer ao Helder Neto que eu não fugia. Que voltaria depressa.
No aeroporto, as bagagens já entregues, aguardava a chamada para o embarque, quando as FAPLA e um grupo do poder popular me prenderam. Uma data inesquecível: 12 de Novembro, à noite
Insultaram-me e agrediram-me, à coronhada e a mur­ro. Acusaram-me de reacionário, de imperialista, de tudo o que lhes veio à cabeça. Que eu queria ir para o Brasil, que eu queria ir visitar o meu amigo Holden Roberto e, para cúmulo, que eu queria juntar-me ao coronel Santos e Cas­tro. Digo, para cúmulo, porque, na conversa que tivera com Helder Neto, acerca do Toni, o chefe da Segurança do MPLA perguntara-me:
— Então o senhor engenheiro vai a Kinshasa? Surpreendi-me:
— Porquê a Kinshasa?
Helder Neto sorriu:
— O senhor engenheiro nem pensa no que lhe acon­teceria se fosse a Kinshasa.
Folheando um processo, continuou:
— Vou ler-lhe uma parte das declarações do Carlos Lãs Heras.
Leu. E fiquei atónito.
Carlos Lãs Heras revelava que Santos e Castro, des­confiando do Toni Rodrigues e do Cardoso da Silva, lhes congelara os depósitos bancários de três mil rands que cada um deles fizera na África do Sul, para cobrir as despesas da fuga da Angola; que aquele oficial português o tinha in­cumbido de formar um núcleo revolucionário no Sul de Angola, com particular incidência em Moçâmedes; e, por outro lado, aquando do seu último encontro, no Ambriz, com ele, declarante, e o Toni Rodrigues, o encarregara de me abater. Santos e Castro pretendia ser meu algoz, quan­do eu fora sempre a vítima...
Do aeroporto, conduziram-me para o antigo quartel da Polícia Militar, na avenida Norton de Matos. Interrogaram-me sumariamente, revistaram-me a pasta, repetiram os insultos e as ameaças e encerraram-me numa cela exígua, sujíssima e com um colchão nojento. A luz vinha por uma fresta de alguns centímetros.
Dias horrorosos, em que dormitava sentado, quase sem comer, porque as refeições, irregulares, eram intragá­veis. Amenizaram-me as agruras alguns soldados das FA-PLA, presos como eu, que odiavam o MPLA. Quando os guardas se afastavam, abriam a porta da cela e eu podia ver a luz do dia directamente. Pude, numa das vezes, trocar umas palavras com dois brancos mercenários da FNLA que se tinham rendido nas proximidades de Quinfangongo.
Dias volvidos, transferiram-me para o Morro da Luz, uma antiga escola inglesa, com instalações próprias para crianças, mas insuficientes para adultos.
No pavilhão superior, estávamos 42 presos, dos quais seis estrangeiros: um espanhol e cinco sul-africanos (um de­les, jornalista). Exceptuando um guineense, éramos todos brancos. Além de pessoas que eu conhecia, deparei, à che­gada, com o tenente-coronel Sousa Teles e um amigo e an­tigo condiscípulo, Boaventura Martins.
Tão deprimido me sentia que teria sucumbido, não fossem os desvelos do espanhol Gabriel que me obrigava a comer; de Sousa Teles que não me deixava nem lavar a loiça; de todos os restantes que me dispensaram atenções que nunca poderei compensar.
Dispúnhamos, apenas, de 18 colchões, pelo que dor­míamos por turnos. Melhor de dia, porque não havia mos­quitos.
No dia 21, à tarde, soltaram-me, com os tenentes-coroneis Sousa Teles e Ermida. Sem me ser dada uma expli­cação porque fora preso.
No dia seguinte, logo de manhã, dirigi-me à Polícia de Segurança Pública, a fim de me ser passado um salvo--conduto para sair de Angola. Ainda estava a arrumar o carro, um garoto do poder popular e uma força das FA-PLA, armada até aos dentes, identificaram-me e tornaram a prender-me, porque não tinha a guia de soltura. Lá me le­varam para a Fortaleza de São Miguel. Dali para o Morro da Luz. Em ambas as cadeias confirmaram a minha liberta­ção, mas esquivavam-se a passar a guia. Por fim, convenci os meus captores a levarem-me ao palácio. O director da Segurança Nacional, Onambua, conhecia-me, mandou que me entregassem a guia e... "safei-me".
Fui para casa e não saí mais, até à hora do avião. Mas só respirei fundo quando já estava no ar.
E, no dia 23 de Novembro de 1975, cheguei a Lis­boa. No bolso, uma nota de dez francos, que minha filha me dera. Ao câmbio, 61 escudos.
Não se pode afirmar que voltei rico, depois de qua­tro décadas a "explorar os negros".



domingo, 29 de abril de 2012

Angola/32 anos: Roberto de Almeida esclarece razões da fuga massiva de quadros portugueses em 1975


 


Luanda, 2/12 - A grande divergência política entre os movimentos nacionais e a potência colonizadora em Angola, assim como a incerteza em relação ao futuro do país, levaram à fuga em massa de quadros portugueses na véspera da proclamação da independência de Angola em 1975.

Este ponto de vista foi manifestado sábado, pelo presidente da Assembleia Nacional, Roberto de Almeida, em entrevista exclusiva à Angop, em Luanda, destinada a fazer o balanço dos 32 anos de independência do país, assinalados a 11 de Novembro último.

Segundo Roberto de Almeida, naquela altura os quadros portugueses decidiram abandonar o país "porque não havia convivência política possível entre, por um lado, os movimentos nacionais e, por outro, a potência colonizadora - Portugal".

O presidente da Assembleia Nacional explicou que a potência colonizadora via nos movimentos nacionais "grupos de terroristas, negros drogados e munidos de catanas com o objectivo de matar os brancos".

Essa posição de hostilidade do colonizador, adiantou, levou ao abandono em massa dos quadros portugueses, porque instaurou-se um clima de incerteza em relação ao futuro do país com a ascensão ao poder de qualquer um dos três movimentos, nomeadamente o MPLA - que proclamou a independência - a Unita e a FNLA.

Roberto de Almeida, que procurou com esse argumento rebater a opinião segundo a qual após a independência correu-se deliberadamente com os quadros portugueses, não deixou contudo de admitir essa possibilidade em algumas situações isoladas.

Quanto ao significado histórico da independência, o presidente da Assembleia Nacional disse ser o nascimento de um novo país e soberano.

"Esse nascimento assumiu ainda maior relevo devido às circunstâncias que antecederam a independência", disse, referindo-se às várias tentativas de bloqueio da proclamação da independência.

O líder parlamentar apontou a esse propósito a grande invasão sul africana, em 14 de Outubro de 1975, e o avanço, pela fronteira norte, das tropas mistas do exército do ex-presidente do antigo Zaíre, Mobutu, e dos guerrilheiros da FNLA.

"Isso é histórico, ninguém pode desmentir e não temos razões para esconder, embora reconheça que estamos num momento de reconciliação nacional, mas a história é história e tem de ser mencionada", disse.

Adiantou ainda que houve igualmente uma grande pressão dos EUA - que também se opôs à independência - e a prova disso é que o reconhecimento do país, pela potência americana, aconteceu cerca de duas décadas depois, nos anos 90.

"Isso explica-se porque os EUA tinham uma aliança com Portugal na OTAN e não viam com muito bons olhos, dentro também do princípio da guerra fria, que esses territórios (dominados por Portugal) ascendessem à independência com direcções que não eram viradas para o ocidente", frisou.

De acordo com o presidente da Assembleia Nacional, países como Angola, Moçambique e Guiné-Bissau conduziram uma luta de libertação que, salvo honrosas excepções, não contou com o apoio da maior parte dos países e governos ocidentais.

Esse facto determinou que os mesmos procurassem aliança com os países da comunidade socialista, que apoiaram a sua luta de libertação.

Outro grande feito dos 32 anos destacado por Roberto de Almeida foi "conseguir manter a independência, através da salvaguarda da integridade territorial do novo Estado, já que após a sua proclamação os adversários procuraram derrubar o governo instalado contra a sua vontade".

"O primeiro dever era, portanto, a nossa própria defesa, a salvaguarda da integridade territorial do país, a defesa contra as invasões estrangeiras e contra os ataques internos das forças aliadas a esses exércitos estrangeiros e, depois, procurar reorganizar o país", sublinhou.

Roberto de Almeida disse que a reorganização do país, após a proclamação da independência, ressentiu-se profundamente com a falta de quadros em quase todos os sectores da vida, devido ao abandono de grande parte dos profissionais portugueses.

"Garantir administrativamente a marcha de um país novo nas circunstâncias em que ascendeu à independência foi um grande desafio", referiu.

O parlamentar reconheceu entretanto que em alguns casos a marcha do país conheceu uma tendência de anarquia por parte de alguns angolanos, mas as circunstâncias do momento levaram a tolerar o comportamento.

Roberto de Almeida disse que naquela altura não era aconselhável que, após o abandono dos colonialistas, o Governo aplicasse uma política de repressão, porque isso viria a ser a continuação da política colonial.

O presidente da Assembleia Nacional destacou também as grandes opções que se fizeram no campo político, económico e social, sublinhando a missão de formação de quadros, por forma a suprir o vazio deixado e garantir a continuação do país independente.

"O reconhecimento internacional de Angola que se seguiu à independência foi igualmente outro feito importante, graças ao empenho das missões diplomáticas criadas para o efeito", disse.

"Posso orgulhar-me de ter feito parte de algumas dessas missões, em que fomos contactar governos para reconhecer a independência de Angola, tivemos de argumentar razões e a importância do nosso reconhecimento, sobretudo num clima em que a própria potência colonizadora não nos tinha reconhecido", enfatizou.

No campo parlamentar, destacou o papel fundamental levado a cabo pelo Conselho da Revolução, criado com a independência, e a Assembleia do Povo, instaurada em 1980, que asseguraram a continuidade da função legislativa do novo Estado, bem como, já mais recentemente, a Assembleia Nacional, num quadro multipartidário.

"Qualquer desses órgãos teve grande importância, fizeram-se definições importantes no plano legislativo do que devia ser o nosso país", disse, apontando a título de exemplo a primeira Constituição do país.

Roberto de Almeida destacou ainda uma importante reunião realizada em 1976, onde foram definidas as linhas económicas do país - tendo sido decidido a política de economia centralizada como uma opção daquele contexto.

Com alguma nostalgia, recordou também o grande espírito de união das populações na defesa do país, destacando a Organização de Defesa Popular (ODP) e as Brigadas Populares de Vigilância (BPV), criadas com o repto do primeiro presidente de Angola, Agostinho, para uma "Resistência Popular Generalizada".

"Havia uma consciência nacional que passava em primeira linha pela defesa das fronteiras do país, por isso tenho dito que, por muito que possamos divergir no campo das ideias, como angolanos, devíamos convergir nessa questão da defesa do país, não permitindo que um país estrangeiro invada o nosso território", concluiu.

Entrevista conduzida por: David Mário e Rafael Casseca
Comentário do editor do site: O Sr. Presidente da Assembleia Nacional de Angola no seu discurso não diz a verdade dos factos como se pode constatar nos diversos textos que estão neste site. Por desconhecimento? Creio que não mas talvez por motivos políticos. A fuga massiva dos "colonos" de Angola não se deveu ao facto de os brancos considerarem os pretos terroristas. A nossa convivência tal como é actualmente aqui em Portugal era pacífica e cordial salvo algumas antigas excepções como a revolta da Baixa do Cassange que não foi um bom exemplo dos portugueses e que foi instigada propositadamente do exterior. O Sr. Presidente esqueceu-se da barbárie da UPA que, como o Sr. diz, mas noutro sentido, estavam efectivamente drogados com marufo e makonha e incitados pelo "feiticeiro" do kimbo clamavam que as balas dos brancos eram "água" (massa) chacinando à catanada milhares de brancos e os seus trabalhadores bailundos bem como crianças inocentes no Norte de Angola em 15 de Março de 1961 como mostram as fotos tiradas pelo reporter.
Os "colonos" queriam uma independência para TODOS tal como foi feita na África do Sul. A fuga massiva dos quadros e da restante população branca deveu-se principalmente ao facto de o MPLA com a ajuda do PCP português e a complacência do almirante vermelho Rosa Coutinho ultra-esquerdista do 25 de Abril, permitir que em Agosto de 1975 entrasse em Angola armamento moderno proveniente da URSS e a desmobilização antecipada das tropas portuguesas para que o MPLA pudesse assumir o poder com a ajuda das tropas cubanas que entraram em Angola na mesma data com material de guerra russo. Felizmente para o MPLA que os sul-africanos foram obrigados a retirar por ordem dos americanos e à FNLA foram-lhe retiradas pelos sul-africanos por ordem dos americanos as culatras dos super-canhões G-5 que já estavm no morro da cal perto de Luanda. Com esses canhões activos não havia "monocaxitos" (orgãos de Estaline) nem cubanos que lhe valessem.
O resultado da guerrilha urbana como não podia deixar de ser, foi para expulsar os outros partidos das cidades e tornar a vida impossível à população, principalmente aos brancos mesmo os nascidos em Angola que, por isso, tiveram de abandonar a sua querida terra deixando para trás tudo quanto tinham que foi o trabalho de uma vida. Uma nação que em 1975 era a mais próspera da África ocidental ficou completamente arruinada pelas guerras subsequentes das quais ainda hoje não se recompôs. Não culpe os "colonos" Sr. Presidente culpe sim o MPLA por se armar nas costas dos outros partidos como se poderá ver neste site nos jornais da época e mais tarde a UNITA que, por causa da ambição do poder do "muata" Savimbi não se entenderam prolongando uma guerra fraticida por cerca de 28 anos só inrrompida com a morte do "mais velho". Sr. Presidente, Angola foi arruinada pelos próprios angolanos. Esta é a verdade nua e crua que vos custa a aceitar ! 

 2 de Dezembro de 2007

A Fuga do Huambo


 

A queda do muro de Berlim, a transformação que houve no bloco soviético pressagiou uma nova era de esperança que se tem dissipado ano após ano.

O Mundo respirou uma paz que não seria duradoira. Aos nossos dias chegou idade do terrorismo, do fundamentalismo, do tribalismo, da globalização e do capitalismo selvagem em que tudo se justifica pelo dinheiro.

Chegaram novas guerras e, de vez em quando, apercebemo-nos, através da televisão de ondas de refugiados que fogem da guerra. Faço parte duma geração que esteve na chamada guerra colonial. Fui combatente em Angola entre 1967 e 1969. Mais tarde, conheci e vivi, também em Angola, a guerra entre os movimentos de libertação, que provocou uma fuga desordenada duma grande parte da população Angolana.

Há muito que tenho na memória uma época de terror, anotei e guardei recordações para que fique um documento de parte da minha história e das pessoas que me acompanharam.

A revolução de 25 de Abril de 1974, trouxe para a cena política de Angola três movimentos, que até então, combatiam contra o exército Português na clandestinidade: - MPLA, FNLA e UNITA.

Após a revolução, estes três movimentos, com o patrocínio do governo Português, em Alvor, no Algarve, acordaram entre si respeitarem os bens dos Portugueses. Também acordaram apresentar ao povo Angolano as suas ideias, a fim de serem sufragadas em voto secreto. “ Acordo de Alvor a 15 de janeiro de 1975 “.

Como todos sabem nada disso aconteceu. Angola entrou numa longa guerra civil que se prolongou até à morte de Jonas Savimbi em Fevereiro de 2002. Mesmo antes da revolução de Abril, os três movimentos, sempre lutaram uns contra outros, no entanto, a partir de finais de 1974 envolveram-se numa luta sangrenta, com algumas tréguas precárias.

Como consequência dessa guerra, gerou-se uma grande insegurança na população civil, que deu origem à fuga desordenada de grande parte da população. Os combates entre eles, começaram no norte de Angola e em Luanda, mais tarde estenderam-se por todo o território.

Chegavam então ondas de refugiados a Luanda e a Nova Lisboa. Estiveram de passagem na nossa casa o Francisco Meneses, já falecido e o seu genro Rézio com o Pai, também falecido. Eram refugiados do norte de Angola, de Malange.

Através de pontes aéreas dos dois aeroportos internacionais de Luanda e de Nova Lisboa, os refugiados foram transferidos para Portugal. Outros foram por terra até ao Sudoeste Africano e depois África do Sul. Os que estavam ligados à pesca e aos transportes marítimos fugiram de barco, uns também para à África do Sul, outros até ao Brasil.

Muitos morreram ao tentar a fuga, dentro e fora do território de Angola. Assim, de Janeiro de 1975 até Outubro do mesmo ano, pouco tempo antes da independência, Angola foi abandonada por muitos brancos, mestiços, e negros. Ao referir aqui, negros, brancos e mestiços, faço-o sem qualquer intenção de racismo. Não uso a palavra africano, porque a mesma é sempre, ou quase sempre, indicada para referir gente de cor.

Jorge Bem, conhecido cantor Brasileiro, mestiço, diz numa sua canção que nasceu no Brasil por acidente geográfico. Jorge Bem é mestiço mas ninguém diz que o Brasil não é terra de negros. Sem querer fazer história, sabe-se que os autóctones do Brasil são os chamados Índios. Parece-me que o nome de Índios, se deve ao facto de Pedro Álvares Cabral ter pensado que tinha chegado à Índia, quando tinha aportado a Porto Seguro, no Estado da Bahia, no ano de 1498. Ao contrário das Américas, do continente Australiano, da Nova Zelândia, nunca foi ponto assente que os brancos também fazem parte de África. Angola tinha gente branca de várias gerações. Meu filho, Luís Achega, nasceu em Angola, em Nova Lisboa, hoje Huambo.

Antes de 1974, Angola estava com grande crescimento, vou no entanto fazer um pequeno retrato da cidade de Nova Lisboa, que Norton de Matos quis fazer capital do Império Colonial Português. Alguns leitores deste jornal, conheceram a cidade de Nova Lisboa, que era em 1975 a segunda cidade de Angola. Uma cidade nova e moderna com alguns habitantes mais velhos que a própria cidade. A cidade do Huambo foi fundada em 21 de Setembro de 1912. Era uma cidade de grande extensão com avenidas e ruas largas.

Tinha uma grande zona industrial onde, anualmente, havia uma feira internacional, agrícola e industrial, tinha um jardim zoológico, aeroporto internacional, quatro salas de cinema, sede episcopal, muitas igrejas incluindo a igreja de Nossa Senhora de Fátima, três grupos de futebol, um deles o Ferrovia que estava agregado ao caminho-de-ferro de Benguela. Sem ser porto de mar, passavam por Nova Lisboa muitas mercadorias pela citada linha ferroviária, que fornecia e escoava produtos de Angola, da Zâmbia e de uma parte do Zaire.

Nova Lisboa era e ainda é um local estratégico: - A 600 Km de Luanda, a 300 km do importante porto do Lobito, a 400 quilómetros de Sá da Bandeira hoje, Lubango, era passagem obrigatória para o leste de Angola, era ao tempo, um importantíssimo eixo rodoviário e ferroviário. Certamente que em futuro próximo, a capital do Huambo, voltará a ter a importância que teve no passado. O caminho da paz e da esperança está aberto.

Por causa da guerra, da insegurança e da estagnação económica, no final de Julho de 1975 encerrámos a nossa unidade têxtil. Não havia condições para trabalhar. A comida escasseava e a situação piorava dia após dia. Encostado à nossa unidade industrial, estava um destacamento da Unita e os soldados chegaram a passear com as suas armas no interior da nossa fábrica. Não havia ordem nem Lei que mudava conforme a posição de força dos três movimentos. De vez em quando haviam combates entre eles aos quais chegámos a assistir. Pensámos em abandonar Angola, mas por avião havia muita gente em lista de espera, a opção foi ir de carro até à África do Sul e apanhar avião para Portugal.

Também em finais de Julho de 1975, tinha ido pôr meu filho Luís a Luanda para que viesse para Portugal com uma família amiga. Tinha quatro meses o Luís. Vimos, eu e sua mãe, o avião levantar voo e ficámos sem saber se voltaríamos a ver o nosso filho. Correu tudo bem. Passado pouco mais de um mês estávamos de novo juntos em Portugal.

Escolhemos 15 de Agosto para abandonar Nova Lisboa. Eu, Isabel Sana e o João Martins. Tínhamos dois carros com depósitos cheios de gasolina e ainda alguma de reserva, além de mantimentos para a viagem. Haviam ainda mais quatro ou cinco carros de outros fugitivos. De madrugada começámos a nossa fuga e na saída de Nova Lisboa encontrámos uma barreira de militares da Unita. Perguntaram-nos por documentos e pelo salvo-conduto do partido. Demos dinheiro e vinho e passámos sem problema.

Andámos mais 50 quilómetros até Caala onde nova patrulha nos perguntou pelo mesmo. O militar que nos interpelou estava bêbado, no entanto com duas garrafas de vinho e cinco notas de 20$00 não levantou objecções. Passámos depois por Caconda onde tivemos de parar e pagar a portagem como antes e tudo bem. Caconda era uma bela vila agora abandonada, parecia uma cidade fantasma onde somente se viam cães e gatos abandonados. À medida que avançávamos, íamos atestando os depósitos com as nossas próprias reservas para não sermos roubados do precioso líquido.

Passámos a Caluquembe, Cacula, Hoque e sempre a mesma paisagem: - povoações abandonadas com alguns destroços da guerra. Chegámos a Sá da Bandeira sem qualquer problema nos 400 quilómetros percorridos. Foi bom termos escolhido viajar pela manhã. Ao meio-dia, certamente que a maior parte dos militares estaria com uns copos a mais e poderia ser mais complicado o controle. Através dum nosso amigo conseguimos hotel em Sá-da-Bandeira, onde planeámos a partida para a fronteira da Namíbia.

Eram mais 600 quilómetros e já tínhamos resolvido o problema do combustível para a viagem que se adivinhava perigosa. Ouvíamos falar de massacres para os lados de Pereira de Eça que hoje tem o nome de Ondjiva e estávamos com receio. Planeámos de novo a partida agora com um grupo muito mais numeroso. Talvez trinta viaturas. Mais uma vez, bem cedo, ainda noite, abandonámos Sá-da-Bandeira e confiámos na sorte. Não tínhamos armas, a viagem era perigosa, mais para o sul havia guerra, a aventura para o desconhecido estava bem perto, a angústia que seca a boca começou a tomar conta de nós.

Foi num dia frio de Agosto, que partimos de Sá da Bandeira. O caminho afinal estava livre e foi um ver se te avias até ao Sudoeste Africano, hoje Namíbia. Não houve paragens na PICADA de terra batida, na estrada de pó. Penso termos percorrido grande parte da famosa Picada de Calueque. Ao fim da manhã, já tínhamos passado o Chitado. Atravessarmos a ponte sobre o rio Cunene e chegámos à fronteira onde contactámos com os soldados Sul-Africanos. Fomos revistados e seguimos viagem. Passámos por Ombulantu, Ogongo e chegámos a um campo de refugiados em Oshakati. Penso que Oshakati, era ao tempo, território Ovambo que se situava entre a fronteira da Namíbia norte e a fronteira sul de Angola.

Ao chegarmos ao campo de refugiados, fomos desinfectados, mostrámos as vacinas, passaportes e dissemos que poderíamos prosseguir sem auxílio dado que tínhamos dinheiro para a viagem.

A África do Sul tinha uma logística muito bem organizada para dar apoio às vagas sucessivas de refugiados Angolanos. Hoje, através da informação, os Media dão grande destaque aos refugiados da guerra. Nós, portugueses, quando da descolonização, passamos por situações muito graves. Muita gente morreu, muitas famílias foram separadas, muita gente ficou sem os seus haveres. Em campos de refugiados, nasceram crianças e foram sepultadas pessoas. Ao longo do percurso, entre a Namíbia e Johannesburg, haviam campos de acolhimento para os refugiados de Angola. Por interesses da Revolução de Abril, nada ou pouco foi mostrado em Portugal sobre esses campos de refugiados.

Junto à saída do campo de Oshakati, casualmente contactámos um professor de história Sul-Africano que nos levou para um Hotel. Tirámos o pó que era muito, jantámos uma deliciosa carne de vaca grelhada e dormimos tranquilamente. Pela manhã partimos e passámos por Otjiveto, Operet, e chegamos a Tshumed, pequena cidade mineira, onde perguntámos num mini mercado de Portugueses, por um carro nosso que tinha sido utilizado pelo António Farinha, pelo Victor Carvalho e família. O António Farinha e o Victor Carvalho eram funcionários da nossa empresa em Nova Lisboa.

O Carro era um Datsun 1200 que estava num campo de refugiados em Grootfontein. Os utilizadores já tinham vindo para Portugal de avião. Tinha uma chave da viatura, apresentei-me no campo e deram-me o carro. Partimos de novo, agora com três carros. O João Martins com um BMW 1600, a Isabel com um Fiat 124 Sport Coupé e eu com o Datsun 1200. A jornada era longa e metemo-nos a caminho para Windhoek. Passámos por Otavi e fomos dormir num Hotel em Ochivarango. No outro dia passámos por Sukses, Osona e chegamos a Windhoek onde nos instalámos num Hotel. Windhoek era e ainda é a capital da Namíbia. Queríamos enviar o BMW e o FIAT para Portugal. Fomos a um despachante Português, mas o preço que nos deram para o despacho dos dois carros, era tão elevado que não decidimos logo.

Nesse escritório enviámos um telex para Portugal, para Luís Nascimento Silva. Do lado de Portugal, o triquitar do telex respondeu que andavam há quinze dias a tentar saber notícias de nós. As notícias deixaram a família descansada, mas a jornada ainda tinha muito pela frente. De nova Lisboa até Windhoek tínhamos feito cerca de 1.800Km.

Ao passarmos por uma rua de Windhoek vimos uma pequena empresa de exportação de peles de caraculo que tinha as portas abertas para arejar as bonitas peles estendidas em tabuleiros de madeira. Entrámos, conversámos e perguntámos qual seria a maneira mais económica de despacharmos as viaturas para Portugal. A informação dada com simpatia, sugeriu que fossemos procurar um despachante a Walvis Bay.

Assim com os três carros subimos de novo a Osona onde tomámos a direcção de Karib, Arandis, Swakopmund e Walvis Bay. Atravessámos uma zona contígua ao deserto da Namíbia e não posso deixar de salientar a beleza da vegetação, dos animais que vimos. De vez em quando lá estava a Welvitchia-Mirabilis, planta do deserto da Namíbia, a encher com a sua beleza uma terra vermelha e seca como é a terra Africana.

Lembro-me, sobretudo das pequenas vilas onde, apesar da escassez de água, haviam sempre bonitos jardins, das grandes salinas em Walvis Bay e de muitas gaivotas voando junto ao mar. Walvis Bay está situada a cerca de 500km a norte da fronteira da África do Sul. Walvis Bay, (do Afrikaans Walvisbaai, ou seja, Baía das Baleias), é uma importante cidade portuária da Namíbia.

Descoberta em 1487 por Bartolomeu Dias que a denominou "Golfo de Santa Maria da Conceição". A região não foi reclamada para a coroa portuguesa. Walvis Bay, é um porto de águas profundas e comercialmente muito importante, é também um paraíso onde habitam cerca de 100 mil aves marinhas: - gaivotas, flamingos e saracuras.
Ficámos num hotel em Walvis Bay nesse fim-de-semana, e, na segunda-feira despachámos o BMW e o FIAT para Valência no Sul de Espanha.
Em Outubro de 1975 fomos buscar os dois carros a Espanha, eu e o João Martins (Jota).

Regressámos de novo a Windhoek, agora num só carro cheio de bagagem. Contactámos a Luftanza a fim de arranjarmos voo para Portugal. Tínhamos bilhetes da T.A.P. mas fomos informados que não davam para viajar na Luftanza. Assim, com o pequeno e velho Datsun 1200, resolvemos fazer mais 1971 Km para Johannesburg.

Estávamos já na Zona Temperada do Sul, tínhamos atravessado o trópico de Capricórnio um pouco a sul da fronteira do BOTSWAMA e, embora os dias fossem quentes, as noites eram frias e com temperaturas negativas. Ao tempo havia uma crise energética e as gasolineiras somente vendiam combustível das 07H00 até às 18H00. Eram proibidos depósitos suplementares e assim não podíamos caminhar dia e noite. O carro gastava pouco, mas o caminho era longo. Passámos por Mariental, Asab, Keetmanshoop, Marubis, Grunau, Karasburg, Upington, e, finalmente Johannesburg.

No primeiro dia desta caminhada chegámos à noite, penso que a Karasburg e todos os Hotéis estavam repletos. Ficámos no carro, não havia gasolina e fazia muito frio. A meio da noite entrei no Hotel e serviram-nos café quente. Estivemos lá até às 07H00 altura em que abriram as gasolineiras. Foi muito simpático o funcionário de cor do turno da noite daquele Hotel.

A paisagem da extensa caminhada de cerca de 1971 Km era diversa e havia pouco trânsito. Estávamos na época seca. Lembro-me de muita vedação de arame farpado à beira da estrada e muito gado bovino em regime de pastorícia. Aquele país transpirava riqueza e fartura, era realmente um espanto ver tanta comida à solta.

Ao chegarmos a Johannesburg, hospedámo-nos num Hotel de Portugueses na parte alta da cidade. Aproveitámos para conhecer um pouco da cidade com as ruas numeradas como New York. Por ali estivemos alguns dias até embarcarmos para Portugal na TAP com escala em Luanda. O aeroporto de Luanda estava muito degradado, uma tristeza, mas chegámos a Portugal sem problemas.

De Janeiro de 1975 a fins de Agosto do mesmo ano, analisando tudo a uma grande distância, tivemos todos muita sorte. Penso que Deus e o Anjo da Guarda estiveram sempre connosco. Obrigado. Estou a corrigir este documento na data de 2008-10-30. Nas notícias desta manhã, ouvi sobre mais uma crise humanitária no Congo. Milhares de refugiados fogem da guerra.

Regressei com o João Martins a Angola em 1990. Estivemos em Luanda e no Huambo onde visitámos as casas onde vivemos e a Fábrica que construímos. O que vimos ficará para mais tarde.

Passaram mais de trinta anos. Tudo ou quase tudo ficou na memória. Para um melhor rigor sobre a distância percorrida, pedi auxílio à Universidade da Namíbia que gentilmente me forneceu tudo o que necessitei. Para uma maior precisão consultei os mapas do GOOGLE que reconfirmaram as minhas anotações.

Não quero deixar de prestar uma homenagem à Namíbia que é um País maravilhoso. Tem uma costa Atlântica de mar perigoso com muitos recursos pesqueiros, onde, também tem fama pela negativa a Costa dos Esqueletos, (Skeleton Coast). Tem ainda muitos minerais, sendo a maior riqueza os diamantes, existem alguns parques naturais para a vida Selvagem que, felizmente, hoje vimos através de programas televisivos. Tem uma área de 824.790,00 Km2, quase 10 vezes maior que Portugal. Não obstante a sua dimensão, a capital Windhoek, tem cerca de 161.000 habitantes e a sua população é de cerca de 1.648.270 habitantes.

Muito pouca gente para tão grande espaço. Windhoek era na data uma cidade com muitas características Alemãs. Windhoek, era, e ainda é, a capital administrativa do Sudoeste Africano, hoje Namíbia. É uma cidade do interior a cerca de 300km da costa Atlântica. Situada num bonito vale, foi fundada em 1890 e foi quartel-general do exército Alemão na primeira guerra Mundial.

Luís Alberto Fernandes Achega
[30-11-2008]

DAQUI

sexta-feira, 13 de janeiro de 2012

A Fuga do Huambo


Luís Alberto Fernandes Achega
[30-11-2008] [17182 caracteres]

A queda do muro de Berlim, a transformação que houve no bloco soviético pressagiou uma nova era de esperança que se tem dissipado ano após ano.

O Mundo respirou uma paz que não seria duradoira. Aos nossos dias chegou idade do terrorismo, do fundamentalismo, do tribalismo, da globalização e do capitalismo selvagem em que tudo se justifica pelo dinheiro.

Chegaram novas guerras e, de vez em quando, apercebemo-nos, através da televisão de ondas de refugiados que fogem da guerra. Faço parte duma geração que esteve na chamada guerra colonial. Fui combatente em Angola entre 1967 e 1969. Mais tarde, conheci e vivi, também em Angola, a guerra entre os movimentos de libertação, que provocou uma fuga desordenada duma grande parte da população Angolana.

Há muito que tenho na memória uma época de terror, anotei e guardei recordações para que fique um documento de parte da minha história e das pessoas que me acompanharam.

A revolução de 25 de Abril de 1974, trouxe para a cena política de Angola três movimentos, que até então, combatiam contra o exército Português na clandestinidade: - MPLA, FNLA e UNITA.

Após a revolução, estes três movimentos, com o patrocínio do governo Português, em Alvor, no Algarve, acordaram entre si respeitarem os bens dos Portugueses. Também acordaram apresentar ao povo Angolano as suas ideias, a fim de serem sufragadas em voto secreto. “ Acordo de Alvor a 15 de janeiro de 1975 “.

Como todos sabem nada disso aconteceu. Angola entrou numa longa guerra civil que se prolongou até à morte de Jonas Savimbi em Fevereiro de 2002. Mesmo antes da revolução de Abril, os três movimentos, sempre lutaram uns contra outros, no entanto, a partir de finais de 1974 envolveram-se numa luta sangrenta, com algumas tréguas precárias.

Como consequência dessa guerra, gerou-se uma grande insegurança na população civil, que deu origem à fuga desordenada de grande parte da população. Os combates entre eles, começaram no norte de Angola e em Luanda, mais tarde estenderam-se por todo o território.

Chegavam então ondas de refugiados a Luanda e a Nova Lisboa. Estiveram de passagem na nossa casa o Francisco Meneses, já falecido e o seu genro Rézio com o Pai, também falecido. Eram refugiados do norte de Angola, de Malange.

Através de pontes aéreas dos dois aeroportos internacionais de Luanda e de Nova Lisboa, os refugiados foram transferidos para Portugal. Outros foram por terra até ao Sudoeste Africano e depois África do Sul. Os que estavam ligados à pesca e aos transportes marítimos fugiram de barco, uns também para à África do Sul, outros até ao Brasil.

Muitos morreram ao tentar a fuga, dentro e fora do território de Angola. Assim, de Janeiro de 1975 até Outubro do mesmo ano, pouco tempo antes da independência, Angola foi abandonada por muitos brancos, mestiços, e negros. Ao referir aqui, negros, brancos e mestiços, faço-o sem qualquer intenção de racismo. Não uso a palavra africano, porque a mesma é sempre, ou quase sempre, indicada para referir gente de cor.

Jorge Bem, conhecido cantor Brasileiro, mestiço, diz numa sua canção que nasceu no Brasil por acidente geográfico. Jorge Bem é mestiço mas ninguém diz que o Brasil não é terra de negros. Sem querer fazer história, sabe-se que os autóctones do Brasil são os chamados Índios. Parece-me que o nome de Índios, se deve ao facto de Pedro Álvares Cabral ter pensado que tinha chegado à Índia, quando tinha aportado a Porto Seguro, no Estado da Bahia, no ano de 1498. Ao contrário das Américas, do continente Australiano, da Nova Zelândia, nunca foi ponto assente que os brancos também fazem parte de África. Angola tinha gente branca de várias gerações. Meu filho, Luís Achega, nasceu em Angola, em Nova Lisboa, hoje Huambo.

Antes de 1974, Angola estava com grande crescimento, vou no entanto fazer um pequeno retrato da cidade de Nova Lisboa, que Norton de Matos quis fazer capital do Império Colonial Português. Alguns leitores deste jornal, conheceram a cidade de Nova Lisboa, que era em 1975 a segunda cidade de Angola. Uma cidade nova e moderna com alguns habitantes mais velhos que a própria cidade. A cidade do Huambo foi fundada em 21 de Setembro de 1912. Era uma cidade de grande extensão com avenidas e ruas largas.

Tinha uma grande zona industrial onde, anualmente, havia uma feira internacional, agrícola e industrial, tinha um jardim zoológico, aeroporto internacional, quatro salas de cinema, sede episcopal, muitas igrejas incluindo a igreja de Nossa Senhora de Fátima, três grupos de futebol, um deles o Ferrovia que estava agregado ao caminho-de-ferro de Benguela. Sem ser porto de mar, passavam por Nova Lisboa muitas mercadorias pela citada linha ferroviária, que fornecia e escoava produtos de Angola, da Zâmbia e de uma parte do Zaire.

Nova Lisboa era e ainda é um local estratégico: - A 600 Km de Luanda, a 300 km do importante porto do Lobito, a 400 quilómetros de Sá da Bandeira hoje, Lubango, era passagem obrigatória para o leste de Angola, era ao tempo, um importantíssimo eixo rodoviário e ferroviário. Certamente que em futuro próximo, a capital do Huambo, voltará a ter a importância que teve no passado. O caminho da paz e da esperança está aberto.

Por causa da guerra, da insegurança e da estagnação económica, no final de Julho de 1975 encerrámos a nossa unidade têxtil. Não havia condições para trabalhar. A comida escasseava e a situação piorava dia após dia. Encostado à nossa unidade industrial, estava um destacamento da Unita e os soldados chegaram a passear com as suas armas no interior da nossa fábrica. Não havia ordem nem Lei que mudava conforme a posição de força dos três movimentos. De vez em quando haviam combates entre eles aos quais chegámos a assistir. Pensámos em abandonar Angola, mas por avião havia muita gente em lista de espera, a opção foi ir de carro até à África do Sul e apanhar avião para Portugal.

Também em finais de Julho de 1975, tinha ido pôr meu filho Luís a Luanda para que viesse para Portugal com uma família amiga. Tinha quatro meses o Luís. Vimos, eu e sua mãe, o avião levantar voo e ficámos sem saber se voltaríamos a ver o nosso filho. Correu tudo bem. Passado pouco mais de um mês estávamos de novo juntos em Portugal.

Escolhemos 15 de Agosto para abandonar Nova Lisboa. Eu, Isabel Sana e o João Martins. Tínhamos dois carros com depósitos cheios de gasolina e ainda alguma de reserva, além de mantimentos para a viagem. Haviam ainda mais quatro ou cinco carros de outros fugitivos. De madrugada começámos a nossa fuga e na saída de Nova Lisboa encontrámos uma barreira de militares da Unita. Perguntaram-nos por documentos e pelo salvo-conduto do partido. Demos dinheiro e vinho e passámos sem problema.

Andámos mais 50 quilómetros até Caala onde nova patrulha nos perguntou pelo mesmo. O militar que nos interpelou estava bêbado, no entanto com duas garrafas de vinho e cinco notas de 20$00 não levantou objecções. Passámos depois por Caconda onde tivemos de parar e pagar a portagem como antes e tudo bem. Caconda era uma bela vila agora abandonada, parecia uma cidade fantasma onde somente se viam cães e gatos abandonados. À medida que avançávamos, íamos atestando os depósitos com as nossas próprias reservas para não sermos roubados do precioso líquido.

Passámos a Caluquembe, Cacula, Hoque e sempre a mesma paisagem: - povoações abandonadas com alguns destroços da guerra. Chegámos a Sá da Bandeira sem qualquer problema nos 400 quilómetros percorridos. Foi bom termos escolhido viajar pela manhã. Ao meio-dia, certamente que a maior parte dos militares estaria com uns copos a mais e poderia ser mais complicado o controle. Através dum nosso amigo conseguimos hotel em Sá-da-Bandeira, onde planeámos a partida para a fronteira da Namíbia.

Eram mais 600 quilómetros e já tínhamos resolvido o problema do combustível para a viagem que se adivinhava perigosa. Ouvíamos falar de massacres para os lados de Pereira de Eça que hoje tem o nome de Ondjiva e estávamos com receio. Planeámos de novo a partida agora com um grupo muito mais numeroso. Talvez trinta viaturas. Mais uma vez, bem cedo, ainda noite, abandonámos Sá-da-Bandeira e confiámos na sorte. Não tínhamos armas, a viagem era perigosa, mais para o sul havia guerra, a aventura para o desconhecido estava bem perto, a angústia que seca a boca começou a tomar conta de nós.

Foi num dia frio de Agosto, que partimos de Sá da Bandeira. O caminho afinal estava livre e foi um ver se te avias até ao Sudoeste Africano, hoje Namíbia. Não houve paragens na PICADA de terra batida, na estrada de pó. Penso termos percorrido grande parte da famosa Picada de Calueque. Ao fim da manhã, já tínhamos passado o Chitado. Atravessarmos a ponte sobre o rio Cunene e chegámos à fronteira onde contactámos com os soldados Sul-Africanos. Fomos revistados e seguimos viagem. Passámos por Ombulantu, Ogongo e chegámos a um campo de refugiados em Oshakati. Penso que Oshakati, era ao tempo, território Ovambo que se situava entre a fronteira da Namíbia norte e a fronteira sul de Angola.

Ao chegarmos ao campo de refugiados, fomos desinfectados, mostrámos as vacinas, passaportes e dissemos que poderíamos prosseguir sem auxílio dado que tínhamos dinheiro para a viagem.

A África do Sul tinha uma logística muito bem organizada para dar apoio às vagas sucessivas de refugiados Angolanos. Hoje, através da informação, os Media dão grande destaque aos refugiados da guerra. Nós, portugueses, quando da descolonização, passamos por situações muito graves. Muita gente morreu, muitas famílias foram separadas, muita gente ficou sem os seus haveres. Em campos de refugiados, nasceram crianças e foram sepultadas pessoas. Ao longo do percurso, entre a Namíbia e Johannesburg, haviam campos de acolhimento para os refugiados de Angola. Por interesses da Revolução de Abril, nada ou pouco foi mostrado em Portugal sobre esses campos de refugiados.

Junto à saída do campo de Oshakati, casualmente contactámos um professor de história Sul-Africano que nos levou para um Hotel. Tirámos o pó que era muito, jantámos uma deliciosa carne de vaca grelhada e dormimos tranquilamente. Pela manhã partimos e passámos por Otjiveto, Operet, e chegamos a Tshumed, pequena cidade mineira, onde perguntámos num mini mercado de Portugueses, por um carro nosso que tinha sido utilizado pelo António Farinha, pelo Victor Carvalho e família. O António Farinha e o Victor Carvalho eram funcionários da nossa empresa em Nova Lisboa.

O Carro era um Datsun 1200 que estava num campo de refugiados em Grootfontein. Os utilizadores já tinham vindo para Portugal de avião. Tinha uma chave da viatura, apresentei-me no campo e deram-me o carro. Partimos de novo, agora com três carros. O João Martins com um BMW 1600, a Isabel com um Fiat 124 Sport Coupé e eu com o Datsun 1200. A jornada era longa e metemo-nos a caminho para Windhoek. Passámos por Otavi e fomos dormir num Hotel em Ochivarango. No outro dia passámos por Sukses, Osona e chegamos a Windhoek onde nos instalámos num Hotel. Windhoek era e ainda é a capital da Namíbia. Queríamos enviar o BMW e o FIAT para Portugal. Fomos a um despachante Português, mas o preço que nos deram para o despacho dos dois carros, era tão elevado que não decidimos logo.

Nesse escritório enviámos um telex para Portugal, para Luís Nascimento Silva. Do lado de Portugal, o triquitar do telex respondeu que andavam há quinze dias a tentar saber notícias de nós. As notícias deixaram a família descansada, mas a jornada ainda tinha muito pela frente. De nova Lisboa até Windhoek tínhamos feito cerca de 1.800Km.

Ao passarmos por uma rua de Windhoek vimos uma pequena empresa de exportação de peles de caraculo que tinha as portas abertas para arejar as bonitas peles estendidas em tabuleiros de madeira. Entrámos, conversámos e perguntámos qual seria a maneira mais económica de despacharmos as viaturas para Portugal. A informação dada com simpatia, sugeriu que fossemos procurar um despachante a Walvis Bay.

Assim com os três carros subimos de novo a Osona onde tomámos a direcção de Karib, Arandis, Swakopmund e Walvis Bay. Atravessámos uma zona contígua ao deserto da Namíbia e não posso deixar de salientar a beleza da vegetação, dos animais que vimos. De vez em quando lá estava a Welvitchia-Mirabilis, planta do deserto da Namíbia, a encher com a sua beleza uma terra vermelha e seca como é a terra Africana.

Lembro-me, sobretudo das pequenas vilas onde, apesar da escassez de água, haviam sempre bonitos jardins, das grandes salinas em Walvis Bay e de muitas gaivotas voando junto ao mar. Walvis Bay está situada a cerca de 500km a norte da fronteira da África do Sul. Walvis Bay, (do Afrikaans Walvisbaai, ou seja, Baía das Baleias), é uma importante cidade portuária da Namíbia.

Descoberta em 1487 por Bartolomeu Dias que a denominou "Golfo de Santa Maria da Conceição". A região não foi reclamada para a coroa portuguesa. Walvis Bay, é um porto de águas profundas e comercialmente muito importante, é também um paraíso onde habitam cerca de 100 mil aves marinhas: - gaivotas, flamingos e saracuras.
Ficámos num hotel em Walvis Bay nesse fim-de-semana, e, na segunda-feira despachámos o BMW e o FIAT para Valência no Sul de Espanha.
Em Outubro de 1975 fomos buscar os dois carros a Espanha, eu e o João Martins (Jota).

Regressámos de novo a Windhoek, agora num só carro cheio de bagagem. Contactámos a Luftanza a fim de arranjarmos voo para Portugal. Tínhamos bilhetes da T.A.P. mas fomos informados que não davam para viajar na Luftanza. Assim, com o pequeno e velho Datsun 1200, resolvemos fazer mais 1971 Km para Johannesburg.

Estávamos já na Zona Temperada do Sul, tínhamos atravessado o trópico de Capricórnio um pouco a sul da fronteira do BOTSWAMA e, embora os dias fossem quentes, as noites eram frias e com temperaturas negativas. Ao tempo havia uma crise energética e as gasolineiras somente vendiam combustível das 07H00 até às 18H00. Eram proibidos depósitos suplementares e assim não podíamos caminhar dia e noite. O carro gastava pouco, mas o caminho era longo. Passámos por Mariental, Asab, Keetmanshoop, Marubis, Grunau, Karasburg, Upington, e, finalmente Johannesburg.

No primeiro dia desta caminhada chegámos à noite, penso que a Karasburg e todos os Hotéis estavam repletos. Ficámos no carro, não havia gasolina e fazia muito frio. A meio da noite entrei no Hotel e serviram-nos café quente. Estivemos lá até às 07H00 altura em que abriram as gasolineiras. Foi muito simpático o funcionário de cor do turno da noite daquele Hotel.

A paisagem da extensa caminhada de cerca de 1971 Km era diversa e havia pouco trânsito. Estávamos na época seca. Lembro-me de muita vedação de arame farpado à beira da estrada e muito gado bovino em regime de pastorícia. Aquele país transpirava riqueza e fartura, era realmente um espanto ver tanta comida à solta.

Ao chegarmos a Johannesburg, hospedámo-nos num Hotel de Portugueses na parte alta da cidade. Aproveitámos para conhecer um pouco da cidade com as ruas numeradas como New York. Por ali estivemos alguns dias até embarcarmos para Portugal na TAP com escala em Luanda. O aeroporto de Luanda estava muito degradado, uma tristeza, mas chegámos a Portugal sem problemas.

De Janeiro de 1975 a fins de Agosto do mesmo ano, analisando tudo a uma grande distância, tivemos todos muita sorte. Penso que Deus e o Anjo da Guarda estiveram sempre connosco. Obrigado. Estou a corrigir este documento na data de 2008-10-30. Nas notícias desta manhã, ouvi sobre mais uma crise humanitária no Congo. Milhares de refugiados fogem da guerra.

Regressei com o João Martins a Angola em 1990. Estivemos em Luanda e no Huambo onde visitámos as casas onde vivemos e a Fábrica que construímos. O que vimos ficará para mais tarde.

Passaram mais de trinta anos. Tudo ou quase tudo ficou na memória. Para um melhor rigor sobre a distância percorrida, pedi auxílio à Universidade da Namíbia que gentilmente me forneceu tudo o que necessitei. Para uma maior precisão consultei os mapas do GOOGLE que reconfirmaram as minhas anotações.

Não quero deixar de prestar uma homenagem à Namíbia que é um País maravilhoso. Tem uma costa Atlântica de mar perigoso com muitos recursos pesqueiros, onde, também tem fama pela negativa a Costa dos Esqueletos, (Skeleton Coast). Tem ainda muitos minerais, sendo a maior riqueza os diamantes, existem alguns parques naturais para a vida Selvagem que, felizmente, hoje vimos através de programas televisivos. Tem uma área de 824.790,00 Km2, quase 10 vezes maior que Portugal. Não obstante a sua dimensão, a capital Windhoek, tem cerca de 161.000 habitantes e a sua população é de cerca de 1.648.270 habitantes.

Muito pouca gente para tão grande espaço. Windhoek era na data uma cidade com muitas características Alemãs. Windhoek, era, e ainda é, a capital administrativa do Sudoeste Africano, hoje Namíbia. É uma cidade do interior a cerca de 300km da costa Atlântica. Situada num bonito vale, foi fundada em 1890 e foi quartel-general do exército Alemão na primeira guerra Mundial.

Luís Alberto F. Achega
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