quinta-feira, 28 de abril de 2011

Petição Homenagem aos Retornados. Para a Assembleia da República



Homengem aos Retornados

Esta petição nasce da forte convicção de não se querer perder uma fatia da história contemporânea portuguesa e que tem um significado impar em muitos milhares de portugueses. Como forma de homenagear todos os retornados quero propôr esta petição para que não continue no esquecimento esta larga fatia da população portuguesa. Proponho que seja criado um dia nacional em homenagem aos retornados. O tratamento tem sido completamente diferente em relação aos emigrantes, pois em qualquer aldeia ou vila existe sempre uma monumento, rua, etc, etc em homenagem esta comunidade lusa. E os retornados? Por que são tão esquecidos? Que gente é esta...? Gente que trouxe muito a este país atrasado e completamente fechado ao mundo. Os retornados deram muito não só aos países onde nasceram, viveram e onde muitos morreram, como também ao seu pais de acolhimento - Portugal. Não deixe cair no esquecimento quem muito deu por este país.

quarta-feira, 6 de abril de 2011

REQUIEM NOS CAIS DE LISBOA!

Foto de Alfredo da Cunha

Desde Belém ao Beato,
Descarregados de botes,
Empilham-se ao desbarato
Muitos milhares de caixotes.
Numa larga, extensa linha,
Ocupam lados e centro
Do cais; mas não se adivinha
O que contêm lá dentro.
— O que será? — perguntei
A dois ou três empregados.
Respondeu um: — P`lo que sei,
É tudo dos retornados.
Exclamei: - Senhor! Senhor!
(E comecei aos pinotes)
Tanta coisa de valor
Metida à força em caixotes!
Onde estão, que descaminho
Levaram (sabe-se lá!)
As estátuas de Mouzinho
E de Correia de Sá?
Quantas camas, quanto berço
Transformado num caixão?
E não há quem reze o terço,
Quem murmure uma oração?...
Desceu a noite. No escuro,
Perguntei, sem ver mais nada:
— E qual será o futuro
Dessa gente atraiçoada?...
Sem consultar um oráculo,
Eu contemplei, indignado,
O pavoroso espectáculo
Dum império encaixotado.

Poema de, António Lopes Ribeiro
In «Resistência», nº 128, 15.06.1976, pág. 6.

terça-feira, 5 de abril de 2011

Da angústia da chegada ao sucesso da integração

https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEgO0yOvrPObx0vJtSsbO8qA5u70nfwgKyHfMDTkk_w36ayMAYHvz320PgqQPX0nbIjxr-ld0UetPzw5CFdCdeZmZPVsCh29jm1EjtGwHrsEavl0GbtP2Bb0r-l2utqW-sYquy817-hiqfQ/s1600/AY1723914.jpg

por
LUÍS MIGUEL VIANA 14 Agosto 2005
Vivem-se vidas inteiras sem conhecer o desespero. Mas esse sentimento rude, amargo, foi partilhado em 1975 por centenas de milhares de portugueses em Angola sobretudo, em Moçambique, na Guiné (até em Cabo Verde, São Tomé e Príncipe e Timor), cidades inteiras de pessoas felizes, prósperas, esperançosas, com uma absurda confiança no futuro, viram-se de repente sem vida social, sem emprego, sem casa, com o dinheiro congelado nos bancos e um terrível sentimento de perigo em relação às suas vidas e às da sua família.
O desespero tem espinhos, alguns aguçados, e os seus bicos empurram as pessoas para o abismo. Em 30 de Junho, em Luanda, um grupo de 2500 residentes em Angola anunciou que, não conseguindo obter passagens aéreas ou marítimas para Lisboa, tencionava fazer a viagem até Portugal por via rodoviária, atravessando oito mil quilómetros de países africanos no sentido sul-norte ao longo de 90 dias. A caravana motorizada esteve organizada para ser constituída por 200 camiões e 500 automóveis particulares, sendo os suprimentos destinados a 15 camiões-frigoríficos com capacidade para transportar 30 toneladas de alimentos cada um. Alguns veículos foram transformados em oficinas móveis para fazer face à inclemência do trajecto e um dos organizadores, Guilherme dos Santos, fez contactos formais com a Cruz Vermelha Internacional e com a Comissão das Nações Unidas para os Refugiados para, na medida do possível, ajudarem essa travessia das selvas, savanas e desertos do continente africano.
Acabaram por não avançar para esse louco caminho para a morte. Mais a sul, porém, houve trainei- ras a largar de Porto Alexandre, cheias de gente, em direcção a Portugal, onde chegaram, com muita sorte, sem males de maior. Outros barcos de pesca artesanais cruzaram o Atlântico para despejarem no Brasil "retornados" que, afinal, não retornaram a Portugal. E quase todos os que puderam escaparam por terra em direcção à África do Sul, e a outros países limítrofes, em alguns casos viajando com máquinas de obras públicas que iam aplainando os acidentes do caminho.
"O que dominou o primeiro tempo da chegada foi uma grande confusão na cabeça das pessoas", recorda Rui Pena Pires, sociólogo das migrações e, também ele, retornado de África (ver texto ao lado). "Mais do que a revolta, as pessoas tentavam perceber como é que se poderiam instalar em Portugal. A fase da revolta veio depois". Na quantidade tremenda de gente que desaguou em Portugal aconteceu de tudo. Uma pequena minoria tinha acautelado o seu património e preparado o seu regresso a Portugal. Outra minoria - precisamente aquela que mais tinha a perder com a independência das colónias uma vez que perdera os laços com a metrópole - nunca acreditou no pior desfecho, não preparou coisa nenhuma e veio sem nada, absolutamente nada para além da roupa que trouxe no corpo. A larga maioria, essa, conseguiu trazer alguma coisa, pouca, mas suficiente para o espectáculo dos caixotes que inundou o cais e o aeroporto de Lisboa,
Jovens, portugueses. Com a descolonização, em 1975, abre-se em Portugal o ciclo da imigração, não só com o repatriamento de meio milhão de portugueses radicados nas colónias, mas também com o início de uma migração africana que, ao contrário do repatriamento, teve continuidade até aos dias de hoje. Do número de retornados recenseados pelo INE em 1981 61% são oriundos de Angola, 34% de Moçambique e apenas 5% das restantes colónias. Quase dois terços desses retornados nasceram em Portugal (63%), embora esta proporção se inverta nas camadas mais jovens - 75% dos menores de 20 anos eram naturais das colónias.  Cont...

sexta-feira, 11 de março de 2011

DESCOLONIZAÇÃO EXEMPLAR ou GAIVOTAS QUE VOAM [RETORNADOS DAS EX-COLÓNIAS]

 


ADRIANO DE ALMEIDA
GOMINHO
[narrativa 1975-2005]
Jubilado da Aviação Civil, em Portugal
Ex-administrador em Timor,
Estudante do IV ano de Direito, em Lisboa


 
PRÓLOGO

É voz corrente que a integração dos chamados “Retornados/Refugiados” das ex-colónias portuguesas foi pacífica, e que Portugal até conseguiu superar a poderosa França nessa matéria! Há alguma verdade nessa afirmação, mas terá sido assim tão linear? O autor, na qualidade de funcionário-retornado, expulso de Timor, vai tentar pôr o leitor em contacto com pessoas, famílias e funcionários públicos que tiveram de recomeçar a vida em Portugal, debaixo de dificuldades mil e privações várias, após terem deixado para trás – TUDO - [quiçá, a própria alma), em nome de uma Descolonização a que chamaram, imagine-se, de “Exemplar”, e que, ainda hoje, em 1999, exibe as suas feridas crónicas - casos de Timor, Guiné e Angola - como é do conhecimento de todos. Pretendo, assim, com este modesto trabalho, prestar a minha justa homenagem a todos os “Retornados/Refugiados” que souberam engrandecer este Portugal, (nas artes, letras, ciências, ensino, funcionalismo público, construção civil,comércio, etc) na altura mais crítica das suas vidas e da sobrevivência deste país, recém saído do 25 de Abril de1974.

O autor
EDIÇÃO DIGITAL DO AUTOR
Lisboa, Maio de 2005
Agosto de 2006
adriano.gominho@sapo.pt


-I-
A FUGA



- Fujam, fujam... era a voz que se ouvia no cais de Lobito, naquela manhã de sol de 1975...
Ao longe, o matraquear das metralhadoras e o estoiro dos morteiros de sessenta milímetros. Era a guerra que chegara do mato e invadia a cidade. Malaquias tinha saído da casa para o seu emprego de contínuo no porto e só teve tempo para saltar para o bojo de uma traineira, ainda agarrada ao molhe por um cabo de aço, rangendo e pingando ferrugem amarelada. O motor foi ligado a todo o gás e a embarcação despreendera-se do cais, deixando um pedaço do cabo de aço ainda agarrado ao molhe. Malaquias, só com a roupa que levara no corpo para o serviço, um fato azul, gravata vermelha e camisa branca, foi atirado para o convés da traineira, ficando quase a lamber as tábuas cheirando a peixe seco e que forravam o castelo da proa. O mar estava grosso; as nuvens de fumo das morteiradas ainda toldavam a bela cidade de Lobito, com a restinga ao fundo, ladeada de coqueiros e de belas vivendas.
Malaquias teve medo de levantar a cabeça e olhar a sua cidade, através do buraco da âncora da traineira, por onde a água do mar entrava aos jorros...
Adeus Lobito, adeus minha terra de Angola!
Já recomposto do susto, o seu amigo Danny agarrado a uma boia com o nome da embarcação, o Bengo, ainda nem queria acreditar que estava a caminho de um porto mais seguro. A máquina fazia trepidar a estrutura da traineira, com a sua proa altaneira, cortando o oceano em direcção ao porto de Luanda, um pouco mais a Norte. O destino final seria Lisboa ou outro porto, depois de atestarem os depósitos para a longa viagem... A noite caíra e o Sol-posto manchava o mar com pinceladas alaranjadas e de um encarnado intenso. Algumas gaivotas seguiam a marcha do Bengo, à cata de restos da comida que não faltava a bordo. O rumo era Walwis Bay, na Namíbia, onde poderiam efectuar algumas reparações urgentes de que a traineira carecia. O Malaquias, ainda estupefacto, contemplava a costa angolana, pensando na família que ficara escondida no mato, esperando que a guerra acabasse, para se juntar a ele na cidade de Lobito. Relembrava-se de uma Angola em paz, com o porto cheio de barcos carregando ou descarregando mercadorias e traineiras despejando caixas de peixes apanhados ao largo de Moçâmedes e Baía dos Tigres. A traineira, já com a noite sobre o mar, após uma estadia breve em Walwis Bay, voltou a rumar para o Norte de Angola, passando por Novo Redondo e Porto Amboim...
Após alguns dias de mar, enfim, a cidade de São Paulo de Luanda, onde o Bengo iria fazer escala, para se reabastecer de combustível e víveres para uma longa viagem. Na memória do Malaquias, a saída inesperada da cidade de Lobito e o futuro incerto para a sua família. Deitando contas à vida com o seu amigo Danny, natural da bela cidade de Benguela, assim falava, perturbado pelo tantan do motor da traineira:
Espero chegar a Portugal e ver como vão as coisas por lá, após o 25 de Abril, e só depois mando ir a mulher e os meus dois filhos, ainda escondidos na mata em casa do meu sogro...
Danny, muito pensativo, limpando as unhas com um canivete e sentado sobre uma caixa de madeira ainda com as marcas da empresa de pesca (N & Silva), deitava contas à vida. Falou em voz alta:
É a guerra, amigo Malaquias? Enquanto Angola tiver esses malditos diamantes e o negro petróleo não vamos ter sossego...
A traineira branca de nome Bengo, após alguns dias de viagem, aportara Luanda para se reabastecer, não obstante o clima de guerra civil já aí reinante.
Numa tarde cinzenta, a traineira rumou mar alto, a caminho de S.Tomé a próxima escala - tendo na sua rota as ilhas de Cabo Verde, as Canárias, a Costa de Marrocos e, por fim, Portugal desejado. Bengo, donde vinham o Malaquias e Danny, chegou à costa portuguesa, mais precisamente ao porto de Lagos, no Algarve, após uma escala forçada em Las Palmas e em EL Jadida, em Marrocos. Pensavam ter encontrado a Terra Prometida Portugal - o país donde partiram os navegadores, séculos antes, à descoberta do Mundo.
(Não vou narrar a viagem, que só ela daria para mais cinco capítulos) mas, adiante:

-II-

A CHEGADA


Foi num 10 de Junho do ano de 1975 (Dia da Raça ou de Camões, como queiram), data em que pisaram, pela primeira vez, a terra portuguesa, ficando a traineira Bengo abandonada e triste, apodrecendo num cais de Lagos. A Capitania recolheu os refugiados. Foi então que ouviram a nova palavra Retornado, escrita numa guia, passada pelas autoridades, para se apresentarem em Lisboa no IARN [Instituto de Apoio aos Retornados Nacionais] recém-criado pelo governo português de então, para Apoio aos refugiados que chegavam, diariamente, das Ex-colónias portuguesas de África.
Danny chamaram-nos de Retornados?
Quem?
Aquele marinheiro da Capitania, o de boné sebento, barba por fazer e cravo encarnado no peito da farda!
Esse mesmo!
Sou refugiado e não Retornado dizia-lhe o Malaquias, bastante aborrecido! Nem sou de cá! Não nasci em Portugal! Sou de Angola, de Lobito! Refugiado e funcionário de Portugal, SIM...
Uma velha camioneta, estacionada debaixo de uma frondosa árvore, ia partir para Lisboa. Entraram. A viatura ainda tinha lugares vagos e iria parar, sucessivamente, na Vila do Bispo, Aljezur, Sines e Alcácer do Sal, antes de rumar para o IARN. Danny observava a cidade através da janela da velha camioneta, que largava para o ar uma densa fumarada negra. Todos os passageiros estavam calados e espantados com o que viam.
Passaram por uma das ruas de Lagos, onde decorria uma manifestação do PC, no meio de bandeiras encarnadas e cartazes:

Mais nenhum soldado mais para África,
Portugal para os portugueses,
África para os africanos

O Malaquias assim falou ao companheiro:
Isto está mau, caro amigo, penso que pior que Angola donde saímos, há já algumas semanas...
O motorista da fumegante e velha camioneta, rangendo os dentes, abrandou a marcha e viu-se engolido e forçado a parar junto a uma esplanada, para deixar avançar o desfile, cujos manifestantes entoavam, cedenciadamente, as tais palavras de ordem.: o povo unido jamais será vencido... Ao verem a camioneta com as letras do IARN, os manifestantes e os circunstantes tomaram mais ânimo e desataram aos berros:
Seus colonialistas vão mas é para as vossas terras! Correram connosco de lá e agora vêm tirar os poucos empregos que temos para os nossos filhos...
O motorista, de barba de vários dias, camisa bem suada nos sovacos e boné descaído sobre a testa, animado pelo ruído da rua, foi comentando, enquanto palitava os dentes ainda com bocados do pastel de bacalhau comido na tasca do tio Zé:
Pois é verdade! Já éramos poucos aqui e agora passo os dias a levar esses malandros dos retornados para o IARN, em Lisboa. Para os nossos filhos, os desta terra, nem uma camioneta para irem para as escolas, aqui a dois passos...
Malaquias, mesmo sem querer, entrou na conversa:
Olha, senhor motorista, se vocês tivessem feito uma descolonização “exemplar” e não um simples abandono das colónias ao bicho-homem, nós não estaríamos aqui, agora, entende!
O motorista desviou-se de um caixote de tomates, caído no pavimento, e não deu resposta ao seu interlocutor com a face queimada pelo mar, para bem de todos os passageiros já inquietos com o tom da conversa...
Entretanto, a manifestação política deixara a rua livre e concentrava-se, agora, na Praceta da Revolução, previamente preparada com altifalantes, tribuna de tábuas pregadas e bidons. A camioneta conseguiu seguir viagem pela marginal, com o mar à esquerda e as praias cheias de veraneantes, pois decorria o mês de Junho do ano de 1975.


CONTINUA...


http://retornados.home.sapo.pt/

terça-feira, 8 de março de 2011

DESCOLONIZAÇÃO: MELO ANTUNES ROMPE O SILÊNCIO “ AS ACUSAÇÕES QUE SPÍNOLA ME FAZ CONSTITUEM MONTAGEM GROSSEIRA


          Ernesto Augusto Melo Antunes, tenente-coronel e conselheiro da Revolução, é, ao mesmo tempo, um dos homens mais conhecidos e um dos mais desconhecidos. Porque Melo Antunes foi elevado à categoria de símbolo. E de bode expiatório para os inimigos do processo da independência das ex-colónias e para os anticomunistas de vários matizes que não lhe perdoam ter vindo à Televisão em 25 de Novembro dizer, no fundo, que em nome da democracia o PC não podia ser eliminado. Foi Melo Antunes o teórico do “Grupo dos Nove”, opondo-se ao projecto inegemónico do PCP e tentando, depois contrariar, no plano internacional, a sua estratégia política. A direita colou-se-lhe, então, por razões de ocasião, uma parte da mesma direita que agora o ataca enquanto símbolo. E o PCP deixou de o atacar por razões opostas.            António de Spínola critica-o duramente no “País Sem Rumo” e diversos órgãos de Comunicação Social não cessam também de o atacar. Sem conhecimento de causa. Emocionalmente. A história do processo da descolonização não foi, porém, feita até agora. Por isso mesmo o EXPRESSO resolveu ouvir os intervenientes mais responsáveis por ela ao nível das cúpulas políticas de então. E não podia de deixar de ouvir Melo Antunes que continua a assumir toda a sua actuação. Como parece não assumir, por exemplo, Mário Soares que quisemos ouvir, mas não teve tempo para nos receber. Esperamos, entretanto, a oportunidade prometida.
Pedimos, por isso, a Melo Antunes que nos desse a sua versão de como correram as coisas, que se pronunciasse sobre o livro do general António Spínola, que pensa do comportamento de Mário Soares, de então e de agora e quais as suas relações com o PCP.
          Melo Antunes falou longamente da sua experiência e revelou alguns episódios até agora pouco conhecidos e alguns mesmo inéditos, entre eles, o encontro em Amesterdão entre ele próprio, Almeida Santos e Óscar Monteiro da FRLIMO. Situa, também, o célebre texto dactilografado que tanta admiração causaria no major Casanova Ferreira, se entendermos ao que sobre o assunto disse o general Spínola. E muito mais. A entrevista aí fica. Entrevista de um político-militar que continua a gozar de vasta audiência em diversos sectores do mundo africano. Uma entrevista que o EXPRESSO pensa fará história. A que outrAs certamente se seguirão – A. de C.   

CONTINUA....http://www.espoliadosultramar.com/n8.html

AINDA OS ESPOLIADOS DE ÁFRICA

In  “Correio da Manhã” de 8 Maio 1996

As delegações das Associações dos Espoliados de MoçambiqueAEMO) e de Angola (AEANG), sempre atentos aos problemas dos portugueses que regressaram de África, solicitaram há pouco uma audiência ao Primeiro-Ministro. 
 Nesta reunião deram-lhe conhecimento dos inúmeros problemas que, apesar de passadas mais de duas décadas, continuam a atormentar os brancos e negros que, pela força das circunstâncias, tiveram de voltar à mãe-Pátria de mãos a abanar, como é do conhecimento geral, para salvarem as suas vidas. 
 E, naturalmente, a conversa debateu-se sobre a petição que está “enterrada” na Assembleia da República há já alguns anos, a solicitar a revogação do art.º 40 da Lei 80/77. 
 Com efeito, mau grado os esforços levados a cabo por aquelas duas Associações – nunca será demais afirmá-lo – os sucessivos Governos, que até hoje se instalaram no poder desde o 25 de Abril, estiveram-se nas “tintas”, falando bem e depressa, para que os espoliados/retornados pudessem reaver ou não os bens ali deixados, aliás, produto de muitos anos de trabalho, canseiras e sacrifícios de toda a ordem.
 Quer dizer, o artigo 40 viola o art.º 62 da Constituição da República Portuguesa onde se pode ler que a expropriação de bens só pode ser feita mediante pagamento de justa indemnização o que, infelizmente, não foi o caso que se passou.
 Todavia, se bem que haja uma semelhança entre os cidadãos portugueses vítimas das nacionalizações no ultramar e aqui em Portugal, constata-se que a chamada Lei das Indemnizações (Lei 80, de 26/10/1977) não os trata por igual, em virtude do disposto no art.º 40, na medida em que não contempla o direito dos portugueses espoliados de África à justa indemnização que lhes é devida. 
 Deste modo verifica-se, não só a inconstitucionalidade como a iniquidade do art.º 40, uma vez que já foram indemnizados ao abrigo da Lei 80/77, acima referida, os accionistas das Empresas com alicerces em Portugal e nacionalizadas pelos bens que tinham do Ultramar Português.
 E, como é óbvio, não estamos contra esta tomada de posição mas, isso sim, com o invés do que sucede com os portugueses e portuguesas espoliados de África porquanto, esta situação de não consideração das suas justas indemnizações, contraria a orientação unívoca do nosso ordenamento jurídico, para além do que se processou, no que se refere às indemnizações, com as demais nações da Europa que sofreram o mesmo revés como, por exemplo, a Inglaterra, a França, a Bélgica e a Itália.
 Neste contexto, o Estado descolonizado, ou seja, o Português tem a obrigação de indemnizar os espoliados de África, uma vez que a mudança do Poder Político, de que foi um dos intervenientes, foi a causa dos danos materiais verificados.
 E isto porque os retornados/espoliados são e serão sempre portugueses, quer queiram, quer não, os políticos, vivendo sob a mesma bandeira e ao som do mesmo hino, motivo por que será de toda a justiça as indemnizações pelos bens e direitos de que foram espoliados em África onde muitos nasceram e labutaram em prol duma terra, então portuguesa, que deixou de o ser, para desgraça de todos, com o 25 de Abril, etc., etc. No entanto, parece-nos oportuno realçar, para aqueles que na altura eram crianças e hoje são já homens responsáveis, que nós não perdemos o Ultramar porque este teve a sua independência, mas não o deveríamos ter abandonado como o fizeram, deixando milhares de portugueses e portuguesas entregues à “bicharada” que mataram muitos com os maiores requintes de selvajaria e barbaridade, o que jamais podemos esquecer – refiro-me aos retornados/espoliados. E, mercê dessa situação, aqueles países ainda estão mergulhados num banho de sangue e lágrimas e tudo devido ao facto das suas independências se terem feito sobre o joelho e de ânimo leve para mal dos nossos pecados, como é do conhecimento geral. Enfim, para esquecer mas, como é natural, para os retornados/espoliados jamais será possível, depois de tanta desgraça por que a grande maioria passou, por terem perdido todos os seus bens e muitos continuarem ainda, passados tantos anos, a vegetarem neste País que é Portugal.
 Por isso, o Governo actual, já que os anteriores nada fizeram neste sentido, deverá proceder à revogação do art.º 40 da Lei 80/77, por oportuno, que afronta os ex-residentes ultramarinos contra o será justo e de direito para que as indemnizações se processem, sem perda de tempo. Basta de tanto sofrer! 
  Artigo de Mário Silveira Costa
In  “Correio da Manhã” de 8 Maio 1996

quarta-feira, 23 de fevereiro de 2011

Os Retornados do ex-Ultramar na valorização da sociedade portuguesa

Um artigo que encontrei na net

ANTÓNIO PIRES

Uma das ideias feitas que ainda hoje subsiste no nosso País, é a de que os «retornados do Ultramar» constituíam uma legião de indivíduos que vieram agravar de várias formas o já de si deplorável estado da sociedade portuguesa à data da Descolonização.

Sociedade que estava sofrendo o inevitável depauperamento causado pela emigração maciça dos seus braços mais válidos em busca de melhores condições de vida, sangria que começara muito antes das chamadas «guerra colonial» e que esta veio inevitavelmente acentuar.

Disse-se, escreveu-se, e ficou gravado no entendimento comum dos portugueses, que a maioria dos retornados era uma legião de pessoas rudes, na maioria já de idades avançadas, que tinham queimado as suas energias pelas terras de África, pouco produtivas para a tarefa da reconstrução nacional, e sobretudo escassamente preparados do ponto de vista profissional.

A ideia geral que se fazia — e intencionalmente se propalou!... acerca dos retornados do ex-Ultramar, era a de uma maioria de rudes capatazes agrícolas, broncos e violentos, de astutos comerciantes do mato, e de uns tantos «endinheirados» que exploravam negócios altamente chorudos!

Acontece que os sucessivos contingentes que os aviões despejavam diariamente no Aeroporto de Lisboa, nos dois ou três meses que se seguiram ao êxodo maciço dos portugueses de Angola e de Moçambique, bem como as imagens fotográficas ou da Televisão, davam uma aparência de realidade a tão deploráveis e errados juízos.

São hoje suficientemente conhecidas as deploráveis condições em que os retornados de Angola e Moçambique regressaram a Portugal - nove em cada dez, apenas com as roupas que tinham vestidas no momento do embarque, por não terem tido tempo nem possibilidade de voltar aos lares de onde tinham sido expulsos a ferro e fogo para salvar as vidas.

Todavia, serenada a tempestade ou calamidade que se abateu sobre os retornados do Ultramar, acalmadas as inevitáveis paixões políticas e serenados os juízos precipitados — as estatísticas encarregaram-se de rectificar as asneiras insidiosas e intencionais, e de dar ao País um retrato real dos retornados, sob mais diversos aspectos.

Paralelamente, as manipulações da opinião pública foram cessando, e estudiosos atentos e imparciais debruçaram-se sobre a realidade - e os retornados do ex-Ultramar surgem aos olhos da opinião pública e dos seus concidadãos em geral, como aquilo que na realidade são.

Para esboçar esse retrato do retornado socorremo-nos de um valioso e insuspeito estudo realizado por um grupo de universitários, prefaciado por uma brilhante Secretária de Estado de um dos Governos pós 25 de Abril, editado pelo Instituto de Estudos para o Desenvolvimento, para neste momento e neste local, traçarmos um RETRATO DE CORPO INTEIRO dos retornados, e da sua contribuição para a revitalização da sociedade portuguesa.

*
O apuramento realizado pelo Instituto Nacional de Estatística em 1978, citado pelo referido grupo de universitários no estudo que consultámos, referia a existência de 505.078 indivíduos entrados no País e inscritos como «retornados do Ultramar». Em termos percentuais esses 505 mil retornados representavam pouco mais de 5% do total da população nacional.

Este número é discutível e muitas fontes insistem em números mais elevados, entre 700 a 800 mil. Mas trata-se de números oficiais, registados pela estatística oficial, e é em presença deles que temos de raciocinar.
Ora, segundo os números do Instituto Nacional de Estatística, daqueles 505.078 retornados, um pouco mais de metade - exactamente 298.968 - eram nascidos ou oriundos de Portugal, e portanto os restantes 206.110 eram portugueses já nascidos nas então províncias ultramarinas.

Por enquanto trata-se apenas de distinguir entre portugueses oriundos de Portugal que regressavam ao país de origem, e portugueses nascidos noutras terras e aos quais, só por isso, parecia querer negar-se a qualidade de portugueses também...

Porém, o que é realmente importante, e mostra insofismavelmente que os retornados vieram rejuvenescer a sociedade portuguesa, é a observação desses dados estatísticos quando entra na discriminação etária, cultural e profissional dos retornados. Assim, sob tais aspectos, verifica-se que: daqueles 505.078 retornados, 65,5% tinham menos de 40 anos e constituíam portanto uma parcela válida. Mas acima dos 40 e até aos 64 anos a percentagem de retornados era de 29,8% - todos sabem como no Ultramar os homens até aos 60 anos eram uma das parcelas mais válidas das populações, senão em energias físicas pelo menos em saber e experiência acumulada.

Além disso, do total de retornados, 52,74% eram homens e apenas 47,26% mulheres — o que pressupõe uma maioria de braços válidos para o trabalho.

Porém, um dos aspectos mais importantes desta notação estatística, é aquele que refere que a população retornada era em regra profissional e intelectualmente mais bem preparada do que a da metrópole, pois que do recenseamento efectuado, resultava que: 48,4% tinha instrução primária (numa época em que na metrópole havia mais de 20% de analfabetos); e dos restantes 51,6%, descontando apenas 6,5% de não-alfabetizados constituídos quase exclusivamente por crianças com menos de 10 anos de idade, havia 8,5% de possuidores de cursos superiores incluindo médicos, professores universitários, investigadores, advogados, etc., e mais de 30% possuíam cursos médios, secundários e profissionais.

Com a entrada dos retornados, a sociedade portuguesa foi subitamente enriquecida com mais de 5.000 mil engenheiros, arquitectos e técnicos dos mais elevados graus e ramos da engenharia civil e de minas, de industrias transformadoras e outras; cerca de 1.800 biólogos, agrónomos, investigadores dos ramos fisico-químicos e similares; quase 13.000 professores e outros docentes de todos os ramos do ensino, desde o primário ao universitário; 325 navegadores, pilotos e outro pessoal especializado da navegação aérea e marítima; cerca de 16.000 quadros de serviços administrativos e outros, desde estenógrafas a operadores de informática.

No sector da produção, a força do trabalho metropolitana foi enriquecida com mais 13.000 mecânicos especializados; cerca de 7.000 serralheiros civis, montadores de estruturas metálicas, caldeireiros e profissões similares.

A construção civil, cuja maior força de trabalho tinha emigrado para os países da Europa, foi enriquecida com 13.000 pedreiros, carpinteiros e outros profissionais dos mais diversos ramos.

As indústrias transformadoras foram enriquecidas com mais 12.000 operários especializados, desde os ramos têxtil ao da alimentação e bebidas, da mecânica fina ao mobiliário.

O sector dos transportes viu-se repentinamente valorizado com a entrada de mais 13.000 condutores de veículos pesados e de transportes públicos.
No sector agro-pecuário surgiram mais 16.000 capatazes e condutores de trabalhos agrícolas, de maneio e tratamento de gados ou de exploração florestal, em escalas que, em muitos casos, não eram conhecidas neste país.

Mas vieram ainda cerca de dez mil trabalhadores dos ramos de hotelaria, restaurantes e similares, cozinheiros, ecónomos e outros.

Porém, e talvez mais importante ainda que as suas especializações profissionais, os retornados trouxeram à força de trabalho do País a contribuição valiosíssima da disciplina, da produtividade, da assiduidade, que rapidamente os distinguiram (e não raro os tornaram detestados...) num ambiente em que apenas se falava de postos de trabalho... mas não se trabalhava; em que o absentismo ascendeu a taxas inconcebíveis, em que os locais de trabalho se transformaram em centros de organização de manifestações a propósito de tudo e de nada.

Cremos que estes números, extraídos de fontes absolutamente insuspeitas, serão suficientes para desfazer certas ideias que, infelizmente, ainda de tempos a tempos afloram em certos meios e em determinadas ocasiões, acerca dos Retornados do ex-Ultramar.

Na realidade, e a despeito das desgraçadas condições em que se desenrolou o seu regresso à Pátria de origem ou de opção - o fluxo dos retornados constituiu na realidade um indiscutível e precioso factor de valorização da sociedade portuguesa, em praticamente todos os sectores da vida nacional.

Quando dos meus textos sobre a diferença de mentalidades e diferença de instrução entre Luso-Angolanos e Metropolitanos fui desmentido e contestado. Estaria enganado?
Ruca

Descolonização de Angola: a Odisseia dos espoliados

O DIA DA PARTIDA

24 de Setembro de 1974. Consegui mandar para o Lobito o meu carro e alguns caixotes com os nossos parcos haveres de valor sentimental e os meus livros, reunidos na nossa vida de trabalho, para serem embarcados para Portugal. Encarregou-se do transporte um camionista mestiço de Nova Lisboa que não quis ir para Portugal porque não tinha lá ninguém.

O ponto de reunião de alguns gabelenses e meus irmãos que estavam na FIL, era a minha casa, para tomarem banho de água quente. Os meus pais estavam comigo, bem como a minha irmã, a cassula da família.

Três dias antes fora levá-los ao aeroporto para apanharem a ponte aérea. Fiquei com uma carrinha Peugeout de um gabelense que também frequentava a minha casa e levei-os também para o aeroporto.

Era cada vez mais difícil passar pelas barreiras da UNITA que, famintos, mandavam parar toda a gente para "roubar" qualquer coisa, nem que fossem só cigarros. Os meus conhecidos do FNLA que, talvez por eu ser natural do Zaire, me protegiam por solidariedade valeram-me muitas vezes contra aqueles energúmenos da UNITA que eram racistas, diga-se o que se disser. Eles é que semearam o medo nos portugueses, pelas ameaças constantes, invasão das casas e barreiras em todos os locais de Nova Lisboa. As situações, por vezes, eram altamente perigosas. O campo de execuções era no Sacaála.

E o exército português, para agravar ainda mais, é que fomentava a nossa fuga "porque não se responsabilizava com o que nos pudesse acontecer".

A "facção Chipenda" é que prestou assinalável serviço de protecção aos portugueses apesar de ter por lá alguns elementos, de última hora, brancos portugueses, que criaram alguns conflitos com outros portugueses. Eram mais papistas do que o papa. Mas também vieram cá parar

Chegou o dia de embarcarmos. Depois do almoço (Tivemos carne até ao último dia e acabamos com a garrafeira do meu irmão Néné), dirigi-me para o aeroporto com as nossas maletas na traseira da carrinha. Consegui passar sem incidentes, mas no aeroporto os populares atropelavam-se para descarregar a carrinha e quando dei por mim já não sabia das maletas. O que vale é que eles queriam apenas uma gorjeta por transportá-las até o barracão onde estavam amontoados os refugiados à espera de transporte para longe daquele pesadelo. A carrinha ficou abandonada na rua. Alguém ficou com ela.

Colchões espalhados pelo chão, muito sujo, pois ninguém se preocupava em limpar, centenas de pessoas à espera, as casas de banho, noutro edifício ao lado, cheias de dejectos, papel e água a correr pelo chão. Estava tudo entupido e os refugiados é que tinham de as desentupir se quisessem ter um pouco de higiene.

Crianças a chorar, algumas de fome, pois a espera era longa para os que foram antes de serem chamados. Tumultos à porta quando a UNITA queria impedir alguém de embarcar, principalmente negros e algumas mestiças que cobiçavam, sobre o olhar dos nossos militares (que por vezes esboçavam umas arremetidas "moles"contra os guerrilheiros) todos desalinhados, fralda de fora, barba por fazer, sem boina na cabeça.

O que valeu a muita gente foi a acção da FLNA que afastava os da UNITA.

Tratei das formalidades e por azar calhou-me um avião da TAP, os "burocratas". Só podia levar 30 quilos e a mala mais pesada que transportava os meus apontamentos, livros técnicos, manuais, relatórios e provas de âmbito profissional que me iriam ajudar em Portugal, tiveram que ficar à espera de uma vaga noutro avião.

Enquanto que nos outros aviões estrangeiros, mandavam entrar todo o mundo com a bagagem que traziam e mandavam parar a um dado momento, na TAP era tudo lentamente e com burocracia e sem um sorriso ou mostra de simpatia por parte dos profissionais daquela companhia. Vim a saber que os aviões têm um dispositivo que vai pesando a carga e quando chegava ao limite seguro o comandante mandava parar. Simples e rápido.

Sentia-me num mundo irreal. Não me saía da cabeça aquelas filas enormes, onduladas, de gente cabisbaixa, olhar receoso, silenciosa, a caminharem pastoreadas pelos controladores para o bojo do avião. Impressionou-me a visão do meu pai, um homem de 1,85 m, com 120 Kg, uma força da natureza, com os ombros caídos a olhar para trás como que a despedir-se da terra que nunca quis abandonar.

Chegou a minha vez.


A CHEGADA A PORTUGAL

25 de Setembro de 1975. Chegamos a Lisboa ao amanhecer. Procurar as malas e carregá-las para um canto. Enquanto a minha mulher e filha ficaram a tomar conta da bagagem fui tratar das formalidades. Entregas de guias, senhas para refeições no aeroporto e câmbio de dinheiro para as nossas primeiras necessidades. Só cinco mil escudos por pessoa, a um câmbio impossível de descrever.

O aeroporto cheio de gente amontoada em grupos familiares, caixas, malas, sacos, mantas, etc, muitos deitados pelo chão com o cheiro característico, abafado, de tanta gente a respirar em espaço fechado.

Ao fim de muitas voltas, sempre sem parar, só pelas 23h00 é que nos meteram numa camioneta coberta com uma lona e bancos de correr de madeira, e nos levaram para a Costa da Caparica, uma pequena pensão, de nome "Colibri", já cheia de retornados e onde não havia lugar para todos. Enquanto esperávamos entabulei uma conversação com a dona da pensão, uma arquitecta muito educada, que simpatizou connosco e por não haver lugares disponíveis dispensou-nos uma moradia particular, dela, perto dali.

A providência veio novamente a nosso favor. Era um apartamento com duas divisões e uma casa de banho só para nós.

Ao levantarmo-nos no dia seguinte de manhã, um dia lindo, sol radioso, espreito para a rua e não noto diferença nenhuma de Angola, ou seja, as ruas com areia da praia e, surpresa, pretos a varrerem a rua e a circularem. Parecia estar em Novo Redondo. Só um pouco depois é que entrei na realidade. Já estava em Portugal.

Até meados de Outubro andei praticamente sempre a caminho do aeroporto, à procura da tal mala que ficou, e por sorte chegou cá noutro avião. A pensão era agradável, boa comida, cozinheira e pessoal de serviço todos negros cabo-verdeanos e o ambiente até nem era mau, não fossem as crianças endiabradas que fizeram alguns estragos na decoração das paredes e corrimões das escadas. As paredes do salão tinham frescos de árvores com a folhagem pelo tecto e conchas decorativas, que foram arrancadas até à altura a que as crianças chegavam. Os corrimões, estilo antigo, com dourados e franjas nos forros de veludo, bem como os tapetes e alcatifas, também não resistiram.

A pensão distribuia senhas de ida e volta, por conta do IARN, de transportes públicos para irmos a Lisboa.

Tornava-se difícil procurar um modo de vida, um emprego, porque o tempo era totalmente gasto nas deslocações e nas filas de espera para tratar do assunto mais simples ou para pedir uma informação.

O pior eram as filas na Junqueira, onde estava o IARN, para tratar dos assuntos referentes à estadia. Entrávamos na fila às seis ou sete da manhã e só conseguíamos ser atendidos lá para o meio da tarde. O que valia eram os vendedores ambulantes que providenciavam umas sandes e uma bebida para aguentarmos aquela canseira.

A situação na função pública estava longe de se resolver, pois eu era assalariado e os assalariados ainda não eram considerados funcionários públicos pelo Quadro Geral de Adidos, apesar de terem aceite a inscrição de todos os assalariados em Angola. Burocracias.

Resolvemos deixar a pensão e sair daquele inferno quase diário para conseguir autorização para ir continuando na pensão, para organizarmos a nossa vida o mais depressa possível.

Portugal recebeu imensas ajudas para os "retornados" e acho que teria sido mais útil dar um subsídio substancial a cada um para iniciarem nova vida, do que manterem aquela burocracia sem controlo em que muitos encheram os bolsos e outros nada receberam. Enquanto os mais espertos enriqueceram com a desgraça de todos, e outros permaneceram indefinidamente nos hotéis e pensões pagos pelo IARN sem iniciativa para organizarem a sua vida, a grande maioria foi à luta e venceu.

Eu resolvi ir à vida.

Chegamos à Beira Alta em 18 de Outubro de 1975, sempre a cair uma chuva miudinha e a preparar-se um Inverno rigoroso. Nunca tive tanto frio na minha vida. Ficamos na casa dos meus sogros que tinham vindo mais cedo para Portugal. O meu sogro era reformado dos CFB.

Eu, com 29 anos de idade, com mulher e filha, tinha de começar tudo do ponto zero, pois tudo o que tínhamos ficou em Angola. Ainda consegui embarcar, por um intermédio de um amigo camionista que transportou os caixotes e o meu carro para o Lobito, os meus livros e alguma loiça e roupa em três malas de porão. O carro ficou por lá. Os caixotes chegaram bem. Fui despachá-los na gare ferroviária de Alcântara para a Beira Alta. Por precaução envolvi as malas de porão com cintas metálicas. Mas isso despertou a cobiça dos portugueses que detestavam os retornados. As malas chegaram ao destino todas rebentadas, sem as cintas e as tampas fora dos gonzos e os pratos e copos todos partidos. Quer dizer: as malas aguentaram perfeitamente o embarque no Lobito e viagem de barco e descarga em Lisboa, em péssimas condições, como devem saber. Ali, no porto de Lisboa, largavam os caixotes dos retornados muito antes de chegarem ao solo para se estilhaçarem com o embate no solo. Pois, os meus chegaram bem. Assisti à carga das malas na carruagem do comboio e se chegaram todas rebentadas à Guarda é porque alguém as arrombou pelo caminho e como não havia nada de valor partiram tudo.

Ia periodicamente a Lisboa, ao IARN, mandavam-me para o QGA e ia ao QGA que me mandavam para o IARN. Valeu-me uma assistente social (do IARN) que compreendeu a situação e me foi assegurando o subsídio que davam aos retornados trimestralmente, porque se desse de frente com outro qualquer funcionário do IARN já não tinha a mesma sorte. Mandavam-me para o Adidos. Era o Portugal daquele tempo. Mantinha também os contactos com os colegas e técnicos superiores da Chianga que já estavam colocados, na maioria, na Estação Agronómica de Oeiras e procuravam montar mais algumas estruturas de apoio, contando com os profissionais desocupados. Portanto a minha situação mantinha-se suspensa.

Enquanto esperava que o governo decidisse que os funcionários assalariados ingressassem no QGA (e acabassem com aquela situação equívoca em que andávamos dos IARN para o QGA e vice-versa, sem ninguém querer responsabilizar-se pela distribuição da ajuda a que tínhamos direito, como todos os retornados e muitos não retornados que passaram por retornados para receberem essa ajuda) completei um ensaio filosófico que escrevi em Nova Lisboa, cuja edição achei demasiado incompleta, e acabei o Curso de Psicologia. Fui a Lisboa fazer o exame final e o seminário (aulas práticas em dois dias) para receber o respectivo Diploma e, consequentemente, poder optar por outra via profissional se necessário. Ainda fui Delegado do Centro Médico de Psicologia e Orientação Profissional de Lisboa, mas naquele tempo a Psicologia não rendia o suficiente, nem o país estava habituado a recorrer a exames psicotécnicos e de orientação profissional.

Fiz alguns exames de Orientação Profissional a particulares, para praticar (género estágio assistido) sempre com o apoio e interpretação final do Centro Médico, até ser lançado por conta própria, mas essa actividade não era nada rentável neste país tão atrasado na altura. Também entrei em contacto com a prática da agricultura, pois de Novembro de 1975 a Setembro de 1976 não me furtei a ajudar na lida do campo, desde a apanha da azeitona, seu retalho para consumo interno e acompanhamento no lagar ao fazer o azeite até à vindima e feitura do primeiro vinho e aguardente com a minha ajuda directa. O corte da lenha para a lareira ficou inteiramente por minha conta. Fiquei exímio no machado, cunha e marreta, pois não dispunha de serras eléctricas ou motorizadas. Era tudo à "unha". Além disso, como o meu sogro era o Presidente da Junta de Freguesia, ajudei-o no expediente. Como tinha máquina de escrever, todos os documentos passaram a ser dactilografados e com um aspecto mais "burocrático" e funcional.

Só ao fim de oito meses, ainda sem terem resolvido a situação dos funcionários assalariados, é que, por intermédio do Sindicato dos Profissionais de Artes Gráficas, onde me inscrevi quando estive em Lisboa, consegui emprego à experiência.

Consegui emprego como Oficial Montador de Offset numa empresa Gráfica de Lisboa, à experiência por uma semana, para exercer as funções do antigo Chefe de Secção que estava agora a trabalhar no Sindicato.

Como era necessário experiência numa profissão qualquer para conseguir emprego, precisava de conseguir, muito rapidamente, a Carteira Profissional de Artes Gráficas, documento necessário para progredir na profissão e conseguir emprego no país. Funcionário público não dava condições para conseguir emprego na actividade particular. Tinha de ter uma profissão concreta. Mediante as provas apresentadas, certificado de habilitações literárias e requisição de uma empresa de Artes Gráficas para exercer funções como Oficial Montador de Offset, foi-me facultada a referida Carteira Profissional.

Ao fim da semana de experiência fiquei com contrato a seis meses. Depois de dois meses ofereceram-me o lugar de Chefe da Secção de Fotolito e Montagem, que eu neguei. O ambiente revolucionário naquele tempo, 1976, não era propício para assumir aquele lugar de grande responsabilidade sem poder nenhum, nem autonomia.

Ao fim de quatro meses fui chamado à administração e informaram-me que ficaria no Quadro definitivo da empresa e ofereceram-me o lugar de Director Técnico, tendo em conta o meu curriculum, que tinha apresentado, as habilitações académicas e a postura que observaram no meu comportamento profissional e social. Naquele tempo, era raro encontrar um profissional de artes gráficas com o antigo 7º ano dos Liceus e um Curso técnico de psicologia. Normalmente eram profissionais que aprenderam observando os operários mais antigos, e só com a antiga quarta classe como habilitações.

O problema, de início, foi encontrar um local para viver. Graças a um familiar da minha mulher, emprestaram-nos uma casa até eu conseguir arranjar habitação. O dono dessa casa, fê-lo por consideração a esse familiar da minha mulher que tinha, e tem, uma alta posição na sociedade portuguesa, mas, talvez por desconfiança e medo que desviássemos alguma coisa, apareciam de improviso e a qualquer hora do dia apenas para dar "uma vista de olhos".

Era difícil conseguir casa (havia casas vagas) e só o consegui porque quem passou a contactar os possíveis senhorios passou a ser a secretária da direcção onde eu prestava serviço e a alugou, em meu nome, com o aval da administração que serviu como fiador.

Mais tarde, o procurador da vivenda (o senhorio é um emigrante), numa conversa connosco, vangloriava-se que tinha feito uma selecção muito rigorosa na escolha dos inquilinos, impedindo, principalmente, o aluguer a "retornados".

Mal sabia ele que eu era um retornado. Mais tarde disse-lho na cara, mas não se desmanchou.

Essa Litografia, onde trabalhei, pertencia a uma holding que, além de uma empresa de material industrial pesado geria mais cinco empresas, todas de Artes gráficas, sendo uma especializada em impressão em chapa e quatro em papel, duas no Porto, uma em Setúbal, uma em Santa Iria de Azóia e uma em Lisboa.

Só esta Litografia tinha cerca de 40 operários distribuídos pelas três Secções principais, Fotolito, Impressão e Acabamentos, mais cerca de 20 empregados distribuídos pela portaria, secretaria, armazéns, cozinha e refeitório, limpeza e vendedores. Ficariam todos sob a minha alçada directa, bem como os orçamentos e estabelecimento dos preços dos trabalhos a executar.

A Administração (a da holding, que tinha a sede precisamente na Litografia onde eu prestava serviço) providenciava apenas os recursos que eu solicitasse para a produção.

Como era um cargo executivo e com autonomia suficiente para desenvolver algum trabalho meu, com ideias minhas e coordenação livre de intromissões, aceitei o lugar.

Para terem uma ideia das dificuldades daquele tempo. Aquela empresa, quando foi o 25 de Abril entrou em grandes convulsões e os operários mais politizados, resolveram "correr" com a administração e ficaram a funcionar em colectivo. Resultado: não conseguiram ganhar para os ordenados e afundavam-se cada vez mais, sem ninguém com capacidade para a gerir. Quando "descobriram" que a política não era uma forma de sustento, pois tinham família para sustentar e contas para pagar, acabaram por "aceitar" o regresso dos patrões, pois é mais cómodo chegar ao fim do mês e receber um ordenado sem terem responsabilidades. O problema, agora, eram as dívidas acumuladas. E como seria de prever, a administração não estava nada interessada em sustentar parasitas que tempos atrás os puseram na rua, havendo sempre aquele clima de desconfiança por um lado e de vingança pelo outro, estando eu no meio do "fogo cruzado".

Portanto, a recomendação que recebi logo no primeiro dia na Direcção foi que teríamos de produzir para pagar as despesas fixas e ordenados, porque senão corríamos o risco de ter que fechar as portas. Quanto às dívidas antigas, era problema deles (dentro da holding até calhava bem ter uma empresa deficitária. Os economistas sabem porquê). E assim foi. Enquanto lá estive ganhamos para esse objectivo.

Mas a Comissão de Trabalhadores foi sempre um espinho que não deixava introduzir algumas melhorias nos métodos de trabalho, pois estavam sempre de pé atrás e não havia aquele à vontade e confiança a que estávamos habituados em Angola.

Nem quero contar aqui os problemas, o stress constante, as dores de cabeça e costas, e tudo o mais porque passei com aquele "peso" encima. Nunca, na minha vida julguei encontrar pessoas daquele calibre e tão pouco amigos de trabalhar. Tinha de me impôr pelo conhecimento técnico e prático das coisas, mostrando, sem sombra de dúvidas, que sabia executar o trabalho que lhes estava a exigir. Se assim não fosse, surgiam toda a espécie de motivos e desculpas para a não execução, em tempo, de qualquer encomenda.

Queriam um "emprego" e não "trabalho". Eu era um "retornado", aquele "intruso" que caiu ali de pára-quedas e para mais a "mandar". Encontrei-me no meio do fogo cruzado entre empregados e administração. Por cada ordem de serviço que emitia, tinha a Comissão de Trabalhadores no meu gabinete a protestar, pois não conseguiam compreender que, para terem o salário ao fim do mês, tínhamos de ter o mínimo de disciplina laboral e trabalharmos. Nunca me esqueci que, apesar de deter um lugar de direcção, era um empregado como eles e procurei sempre defender os nossos direitos. Não podíamos estar constantemente em reuniões políticas que a nada levavam. Mas levei o barco a bom porto.

Depois de me despedir, a Administração ainda me propôs continuar com uma avença, indo lá apenas uma hora ao fim do dia para fazer os orçamentos e dar assistência técnica.

Aceitei por um ano apenas, pois surgiram outras oportunidades mais tentadoras e menos setressantes, apesar de tudo.

Soube, depois, que o Director técnico que me substituíu, mais exigente e mais burocrata e amigo de puxar pelos "galões", acabou por ser agredido na secção de impressão.

Há uma grande diferença entre o Chefe e o líder. O Chefe manda fazer, o Líder mostra como se faz.
Depois de ingressar novamente na Função Pública, por me terem indeferido o pedido de continuar a trabalhar na actividade privada enquanto aguardava colocação, fui chamado apressadamente para vários serviços. Devido ao Curso de Psicologia, e componente de Psicopedagogia, já no meu Curriculum, ainda fui chamado para um reformatório em Caxias em que um técnico de Artes Gráficas com as minhas habilitações e conhecimentos psicopedagógicos seriam o ideal para o ensino profissional naquele reformatório. Só que queriam trabalho especializado a ser remunerado pela categoria de operário que me "impuseram" no QGA, em que me baixaram cinco letras e, como seria lógico, não aceitei, assim como não aceitei outra colocação no Ministério da Educação que, na altura, estavam a formar equipas de psicologia encabeçadas por licenciados, auxiliados por técnicos de psicologia, como era o meu caso, mas a ser remunerado pela categoria que me atribuíram no QGA e não pelo trabalho que iria executar.

Enquanto não fosse reclassificado para uma carreira adequada às minhas habilitações e valia profissional recusei trabalhar naquelas condições.

Se os funcionários oriundos do ultramar tinham uma dada carreira, porque razão não os mantiveram na mesma categoria de origem (ou equiparada, se não houvesse tal categoria nos quadros do continente) mas atribuíam-lhes sim outra normalmente com letra mais baixa?

A confusão era tanta que muitos baixaram de categoria (e de letra consequentemente), mas continuaram a ganhar pela letra de origem, o que os prejudicou mais tarde quando foram feitas subidas de escalão nas categorias. Como ganhavam pela letra de origem, todos os funcionários de categoria inferior, ao serem beneficiados com a subida de letra, ficaram equiparados a eles, o que na prática só os prejudicou porque deveriam também subir o seu escalão remuneratório e isso não aconteceu. Ficaram pura e simplesmente "congelados" naquela posição até que a categoria que lhes foi atribuída chegou a ter a mesma remuneração da sua letra de origem. Uma autêntica vigarice.

Finalmente fui requisitado para a nova Direcção-Geral de Extensão Rural, que não existia em Portugal, sendo a experiência da Missão de Extensão Rural de Angola aproveitada para incrementar em Portugal a mesma filosofia. E os quadros e profissionais de Angola foram captados para aquele projecto, eu incluído para erguer o parque gráfico, ferramenta indispensável da Direcção de Serviços de Informação Agrária. Como era conhecido e antigo colaborador do recém-nomeado Director-Geral e confiando que seria reclassificado, aceitei o lugar.

Como sucedeu com a maioria dos funcionários "retornados", fui altamente prejudicado na minha carreira, em termos monetários e promoções, em que só ao fim de dez anos fui reclassificado para uma carreira técnica em função das habilitações e cargo exercido. A partir daí a progressão até foi rápida, mas com as mudanças recentes que o Estado português introduziu, numa clara má fé e desrespeito pelos contratos que fez com os seus funcionários, tirando-lhes as regalias que tornaram mais atraente o ingresso de profissionais na função pública, vi-me (com 42 anos de serviço, contando o serviço militar a dobrar) na necessidade de pedir a aposentação numa altura que ainda teria muito para dar, só para não ser mais penalizado do que fui.

Quando larguei a actividade particular, onde gozava de uma boa posição de chefia e possibilidades de singrar em qualquer das empresas daquela holding (que ainda laboram hoje), para ingressar novamente na função pública, indo ganhar menos, era porque as condições que o Estado Português, como entidade empregadora, oferecia para o futuro eram melhores, só que nunca pensei que esse mesmo Estado, ao fim de 25 anos, mudasse unilateralmente por completo essas condições contratadas, sem o mínimo de respeito e consideração.

Quer dizer: O Estado ofereceu determinadas condições de carreira para admitir empregados e quando esses empregados estão à beira da reforma, veio dizer-lhes "agora as condições oferecidas foram suprimidas. Vocês vão-se reformar com muito menos do que lhes prometemos, bem como já não terão as outras regalias e incentivos prometidos".

Estes empregados, estando eu incluído, nada puderam fazer a não ser aceitar passivamente esta imposição de força, porque se passou uma vida de trabalho e não há hipóteses de mudar ou iniciar por outro lado.

O Estado governado por estes novos políticos portugueses mostrou não ser uma pessoa de bem.




Ruca

______________________________________
NOTA – Este fio pretende deixar um documento singelo, agrupando todos os textos de interesse para se ter uma ideia aproximada do que foi o pós 25 de Abril e a verdadeira odisseia dos portugueses em fuga e toda a sua luta para começarem tudo de novo neste país que, no princípio, os recebeu como verdadeiros malfeitores. Todos podem dar a sua comparticipação, sem revelar nomes comprometedores, ou entrar em pormenores demasiadamente íntimos, porque o que interessa é saber o que se passou e não os nomes dos locais exactos, das pessoas ou das entidades envolvidas.

segunda-feira, 14 de fevereiro de 2011

Retorno a Portugal dos restos mortais de militar falecido em Angola



Pobre Portugal de meia dúzia de senhores... que sequer foi capaz de ajudar as familias na transladação dos corpos abandonados dos seus soldados mortos em Angola! E no entanto quando se quer, consegue-se e a prova aí está :dinheiro para salvar Bancos...
Para mais infotmação, clicar AQUI

Retornados numa aldeia do norte de Portugal: 1976

Retornados do Ultramar: trecho de video

Retornados do Ultramar: entrevista com Maria Elisa

Integração não apaga memória dos retornados de África



Com a descolonização, meio milhão de portugueses retornaram de África. Passadas mais de três décadas, a ligação ao continente africano, a sua " terra", continua forte como veremos...

Espoliados do Ultramar


Portugal está em dívida para com os espoliados do Ultramar


Portugal está em dívida para com os espoliados do Ultramar. Portugal tem o dever moral de pagar essa dívida, indemnizando as familias a quem, através de intensa propaganda na Metrópole, fez deslocar para as «colónias ou «províncias ultramarinas» como lhe queiram chamar, no primeiro caso, paulatinamente, e mais propriamente a partir da Conferência de Berlim (1885/1885) , depois, e com maior intensidade a partir de 1950 e sobretudo a partir de 1961.

Portugal está em dívida para com os espoliados do Ultramar. Portugal tem o dever moral de pagar essa dívida, indemnizando as familias , na sua maioria gente trabalhadora e despolitizada, que trabalhou duro e investiu na terra quanto ganhou, transformados que foram nos «bodes expiatórios» das experiências da colonização.

«Todos os países que tiveram colónias, indemnizaram os seus cidadãos, os portugueses investiram em Angola, venderam o que tinha no seu País para rumar para Africa e continuam a pedir que se faça justiça», destaca ao acrescentar: «O governo português, infelizmente, o que faz ainda é anti-pressão e elogio, procura por todos os meios passar para a opinião pública que não temos quaisquer direitos, ou que tudo tinha sido roubado e adquirido ilicitamente.... é precisamente porque estão vivas as figuras gradas que fizeram a descolonização que se pensa assim», lamenta Lucas Martins.

«Por que motivo os alemães vêem as suas fazendas devolvidas por Angola e nós portugueses continuamos a aguardar justiça há mais de 33 anos, senhor Primeiro-Ministro ?» É esta a pergunta que as duas associações de espoliados do Ultramar deixam ao Governo de Sócrates
Isabel Guerreiro

NOTÍCIAS vindas de Luanda dão conta de que o Governo angolano está a devolver dezenas de fazendas a cidadãos alemães que abandonaram o território africano por altura da independência, em 1975.
Segundo o jornal «Africa Monitor» «o incremento por que estão a passar as relações angolano-alemães é devido a uma política condescendente de Angola face a exigências da Alemanha, tendo em vista a devolução de fazendas de que cidadãos alemães foram desapropriados a seguir à independência do território»
.
A notícia acrescenta ainda: «os processos de reclamação das fazendas, movidos pelos antigos proprietários alemães (ou herdeiros), vinham deparando com a dificuldade acrescida de algumas delas, em especial as situadas na província Cuanza-Sul, estarem ocupadas ou serem usufruto de personalidades da elite. A Alemanha alegou que os seus nacionais residentes no território à época de independência abandonaram Angola por razões de força maior desordem violenta, que inclusive provocou mortes».
«Por que motivo os alemães vêem as suas fazendas devolvidas e nós portugueses não, senhor Pri-meiro-Ministro ?»

É esta a pergunta que as duas associações de espoliados gostavam de ver respondida pelo Governo de Sócrates.
Ou será que Portugal está interdito de alegar motivos identicos aos que a Alemanhã alegou? Má consciência perante os que deixou abandonados a uma guerra fraticida? Má consciência perante os que tiveram que partir e abandonar tudo?

Só sente e continua a sentir o problema quem o realmente viveu, porque os que vieram a seguir ao 25 de Abril, os instalados no poder, estão todos bem, estão todos ricos e perderam a sensibilidade.

Conclusão pura e simples: o tempo vai passando, muitos dos espoliados já faleceram, outros vão falecendo... Já faltou mais do que falta para que os «donos» de Portugal possam definitivamente lavar as mãos, não a consciência, sobre este assunto!

Leia em:
Download angola_devolve_propriedades_aos_alemes.doc
Poderá também gostar de: Saiba mais em:
- http://www.aemo.org/index.html
- http://www.aeang.com/
-http://macua.blogs.com/25_de_abril_o_antes_e_o_a/2008/09/conhecido-o-pre.html

AS OPORTUNIDADES DOS "COLONOS"


Tenho lido com alguma frequencia que Angola era uma terra cheia de oportunidades, o que realmente é verdade, não deixa contudo de ser puro engano dizer-se que bastava alguém ser bom trabalhador para enriquecer.

Li recentemente um livro cujo autor diz ter vivido alguns anos em Angola e espanta-me que também ele ajude a passar esta idéia enganadora. Embora seja um romance e por isso à partida classificado de pura ficção, não deixa contudo de cair neste erro. Lê-se ali que um casal chegado a Luanda, em pouco tempo já tinha negócios espalhados por toda a cidade e logo a seguir pelas principais cidades de Angola, isto sem falar da compra de uma "casa" na Vila Alice.
Não espantava se esse casal fosse endinheirado e procurasse Angola para investir, o que não é o caso. Por vezes parece que existem duas Angolas diferentes, aquela que eu e a maioria conhecemos e uma outra, onde se chegava e se encontrava prontamente uma "àrvore das patacas" e se enriquecia duma hora para a outra. Eu nasci em Angola e embora houvesse diferenças de classes como na maioria dos países, a verdade é que era necessário muito trabalho para se viver com algum desafogo e a maioria pode atestar que também não dava para se fazerem muitas "avarias".
Assim, das duas uma, ou eu e muitos outros fomos pouco inteligentes e nunca soubemos ver os "grandes negócios", ou simplesmente nunca encontramos a tal " árvore das paracas".
É bom que se diga a verdade, era uma linda terra, um povo hospitaleiro e humilde, mas quem começasse do nada como o meu pai e muitos outros que ali chegaram na década de 50, mesmo com muito trabalho, nunca chegaram a ter essa tal vida faustosa que se encontram ilustradas nalguns romances.
Lá como cá, se houvesse respeito pelo "próximo", creio que as oportunidades eram iguais!

Fracra Rone in Cubatangola

domingo, 2 de janeiro de 2011

OS ANOS DOURADOS DOS PORTUGUESES EM AFRICA: O QUE FAZ CORRER A JORNALISTA RITA GARCIA?





"MEMÓRIAS COMO ERA O DIA-A-DIA DOS  PORTUGUESES"
"A VIDA EM ÁFRICA...ERA ASSIM"

A propósito dum artigo e da capa, assim intitulado,na  Revista "SÁBADO",nº 339,de 28/10 a 3 de Novembro de 2010, diremos o  seguinte :

1) - Assim como a maioria dos meus familiares e dos milhares de  conhecidos, colegas e amigos, nascemos em ANGOLA,onde antes de 11/11/1975  (antes da revolução), éramos "TODOS PORTUGUESES" (além de  verdadeiros "ANGOLANOS", fruto de algumas gerações de três Continentes  (EUROPA - AMÉRICA DO SUL(BRASIL) -- ÁFRICA).

2) - Muitos outros milhares de residentes então em ANGOLA (não me  vou referir aos outros territórios ex-ultramarinos,onde nunca  vivi), eram PORTUGUESES CONTINENTAIS, que, em pouco tempo,se tornavam como  verdadeiros Angolanos !

3) - Não eram,então, também "PORTUGUESES" apenas os "BRANCOS" nascidos em ANGOLA !

4) - Não sei, não faço ideia,onde nasceu ou viveu a jornalista  RITA GARCIA,  autora do artigo (reportagem/Destaque)acima referido. Até  gostava de saber...

5) - Como "ANGOLANO / PORTUGUÊS",descendente de algumas gerações  nascidas e vividas em ANGOLA, assim como muitos dos meus diversos  familiares,dos amigos e dos conhecidos,NÃO DEVO, NEM POSSO, deixar de  manifestar a minha parcial discordância com o conteúdo e espírito do  mencionado artigo (reportagem, que nem sabemos como foi efectuada !).

6)  ANGOLA,embora com uma faixa marítima bastante extensa,  apenas tinha (e tem ainda) poucas cidades e poucas vilas ou povoações  importantes junto desta. Assim,alguns milhões dos seus habitantes  naturais,algumas centenas de milhares dos "PORTUGUESES" até então ali  residentes,viviam no seu imenso interior(várias vezes superior ao  território português na Europa),instalados até a muitos quilómetros da  costa marítima. Residiam e viviam no "SERTÃO",no "MATO". Muitos deles  permaneceram anos a fio sem ...irem à cidade"...! Estavam mesmo muito  longe das praias ! Praias,só conheciam as dos rios e tinham jacarés !...  Nem andavam ..."em caçadas de elefantes e leões"...! Tudo isso era  então muito bem controlado e vigiado por fiscais próprios e pelas leis  em vigor. A sua conservação era respeitada. Não eram então dizimados por  armas de guerras ("coloniais ou civis"),ou de ricos turistas de  ocasião,como aconteceu depois de 1974/75 !

7) - Poucos locais "adequados" existiam e nem todos os  PORTUGUESES andavam em paródias ou noitadas de fins-de-semana  em..."clubes exclusivos e festas na praia"...! Era uma população  trabalhadora (não havia desempregados permanentes,nem subsidiados  profissionais). Também essas leis eram respeitadas.

8 ) - Quanto ...às "boas casas, com espaço, jardim e criados para  os servir"...nem só alguns dos ditos PORTUGUESES (ULTRAMARINOS) eram  seus exclusivos possuidores ou utilizadores legais. Isso era  comum, necessário, conveniente até para os próprios trabalhadores.
Esses PORTUGUESES não tinham, na sua grande maioria, automóveis de  luxo, nem motoristas privativos...como alguns dos grandes senhores e os  "Continentais" (cá por estas bandas)!

9) - Tudo isso também já se verificava no CONTINENTE e com  proventos bastante semelhantes ! Muitos anos antes,as construções (as  residências) dos PORTUGUESES em ANGOLA tinham,obrigatoriamente, uns  anexos com quarto(s) e sanitários para o(s) criado(s),mesmo dentro das  cidades ! As tais..."boas casas com espaço,jardim (até com piscina  privativa) também se encontram hoje em muitas zonas deste "pobre"  país,pertencentes aos Continentais,(I) Emigrantes ou não,bastante  valiosas e, em muitas delas,se realizam as tais ..."FESTAS"... e nem  precisam de outras praias em fins-de-semana (em especial nos prolongados  por modernas "pontes horárias",ou até mesmo sem serem de "surpresa",dos  amigos (de ocasião ou à espreita de certas oportunidades ou favores,nem  que sejam "inimigos disfarçados de outras mais adequadas cores"...e  numa mais do que conivente ..."ERA DOURADA" !

10) - Por lá, ANGOLA desses tempos "dourados",muito boa gente, já  com certa idade,nunca tinha visto uma "PRAIA",tal a imensidão do  território.E muito menos tinha  sido beneficiado com..."um pires de  marisco (de camarão ou outro) à borla,nem mesmo duma cerveja fresca em  zonas em que ainda nem havia electricidade, nem "geleiras" domésticas !  Normalmente nem eram pires de "camarões" à borla mas sim, de tremoços ou  ginguba. Pelo contrário,viviam quase isolados,carentes,passando  privações,sem qualquer "assistência social". Eram terras de trabalho  duro e de boas produções e não de "farras",regabofes, festivais,etc.  Eram trabalhadores sérios,honestos,patrióticos, que acabaram sendo  traídos e nunca recompensados !

11) - ANGOLA, na sua maior parte, a grande ANGOLA,era a "ÁFRICA  MISTERIOSA", a verdadeira ÁFRICA,não só de "Elefantes e Leões",que nos  velhos tempos desciam aos povoados, ás cidades (até à LAGOA DE KINAXIXE,  então nos arredores de LUANDA).sendo conveniente caçá-los.

12 ) - Os outros "caçadores",amigos ou familiares dos "VINHAS",  dos "MELOS" e doutros ilustres "continentais",eram abastados  turistas,fazendo esquecer os esfarrapados "pumbeiros" do sertão ou os  caçadores furtivos de marfim,associados aos grandes chefes locais !

13) - O imenso título "MOÇAMBIQUE" aplicado por cima duma enorme  foto de alguns veraneantes na ILHA DE LUANDA (pág. 48 da citada  Revista),está mesmo... "a matar" ! Diremos então que... ANTES NÃO ERA  ASSIM"...!

14) - CONCLUINDO : - RITA GARCIA,... "A VIDA EM ÁFRICA...(NÃO)  ERA ASSIM"...como descreve ! Seja humilde,peça desculpas aos muitos  milhares de PORTUGUESES ULTRAMARINOS que ofendeu !... 

By Roberto Correia
blogue http://angola-brasil.blogspot.com

sábado, 27 de novembro de 2010

O último Ano em Luanda de Tiago Rebelo


A minha sobrinha ofereceu-me este livro que tem a chancela da Editorial Presença. Interesso-me por tudo que se relaciona com África e em especial, por Angola, a minha Pátria.
Posso dizer-vos que o estou a "devorar", com um misto de saudade, angústia e ao mesmo tempo uma "raiva" incontrolada que muitas vezes se transforma em lágrimas nos olhos...
Mesmo assim, gostaria de partilhar e aconselhar-vos a leitura deste livro, onde Tiago Rebelo, tão bem, soube transmitir a angústia de todos nós, que nos anos 74/75 fomos abandonados pelo poder político vigente em Portugal...
Aqui vos deixo a sinopse do mesmo:
Em 1974, uma revolução em Lisboa apanha de surpresa centenas de milhares de portugueses que vivem em Angola. A partir desse dia inicia-se a derrocada imparável de uma sociedade inteira que, tal como um navio a afundar-se, está condenada à destruição e à ruína. Em escassos meses, trezentos mil portugueses são obrigados a largar tudo e a fugir, embarcando numa ponte aérea e marítima que marca o maior êxodo da história deste povo. Para trás ficam as suas casas, os carros e até os animais de estimação. Empresas, fábricas, comércio e fazendas são abandonados enquanto Luanda, a capital da jóia da coroa do império português, é abalada por uma guerra civil que alastra ao resto do território angolano. Três movimentos de libertação, cujos exércitos estavam derrotados a 25 de Abril de 1974, estão novamente activos e combatem entre eles pelo poder deixado vazio pelas Forças Armadas portuguesas. É neste cenário de total desorientação social e de insegurança generalizada que Nuno, um aventureiro que há anos atravessa os céus do sertão angolano no seu avião, Regina e o filho de ambos se movem, numa extraordinária luta para sobreviverem à violência diária, às perseguições políticas, às intrigas e traições que fazem de Luanda uma cidade desesperada. Esta é a história de coragem e abnegação de um casal surpreendido, tal como milhares de outros, num processo de degradação que se deve à recusa do Exército em defender os seus próprios compatriotas a favor de um movimento até há pouco inimigo, ao desinteresse dos políticos, à total incapacidade do governo de Lisboa para impor os termos de um acordo assinado no Alvor e constantemente violado em Angola e à intervenção militar das duas potências mundiais envolvidas numa guerra fria que é combatida por intermédio dos exércitos regionais.
Críticas de Imprensa:
«Um romance fácil de ler e em cujo ambiente é fácil entrar.»
Os Meus Livros

«...O Último Ano em Luanda, onde revela não só um perfeito conhecimento da época em que se desenrola a acção, como descreve com muita clareza um dos mais trágicos e mais silenciados processos da recente história portuguesa.»
«Jornalista e escritor, Tiago Rebelo nasceu em Lisboa há 43 anos. Dos dois aos 11, viveu em Angola, experiência que serviu de base ao mais recente livro, "O Último ano em Luanda", já em lugar cimeiro nas tabelas de vendas.»
Jornal Notícias

sexta-feira, 19 de novembro de 2010

ADEUS ANGOLA : fuga do Lubango


Esta página tem por finalidade, transmitir às novas gerações,  momentos vividos por mim e familiares para que o que passamos, não caia no esquecimento.

Às seis horas do dia seis de Setembro – sábado – em caravana de umas 300 viaturas, escoltada por 30 militares, arrancamos do Lubango rumo à África do Sul. Percorridos 380 km, sem problemas, às 17 horas atravessamos a fronteira de Santa Clara. Aguardava-nos um grupo de militares sul-africanos com colchões, cobertores, alimentos em conserva, água, refrigerantes e, até, uns cubos combustíveis para amornar os enlatados. Pernoitamos ao relento. Não fazia frio.


Imagem_008

Às onze horas do dia seguinte – com feijão ao lume para o almoço – chega uma ordem de partida para Oshakati. Todas as viaturas foram reabastecidas (de graça) até à boca. A deslocação durou umas duas horas. Em Oshakati fomos “instalados” num campo próximo do hospital missionário, preparado para a situação, com algumas tendas, água encanada, latrinas e balneários. Com lenha à mão, o feijão volta ao lume. Cozido e apurado, foi servido como almoço/jantar.

No dia seguinte, de manhã, as autoridades, por altifalante, ordenam a formação em fila para registo dos refugiados e vacinação. Terminadas estas formalidades as autoridades solicitam – sob aviso de inspeção – a entrega de armas, drogas e literatura pornográfica; e diamantes a enviarem para classificação em Pretória e posterior pagamento de oitenta por cento do seu valor. Aos portadores de café, se desejassem vendê-lo, ser-lhes-ia passado um salvo-conduto para todo território sul-africano. Por fim foi-nos dada liberdade para exposição e venda (sem encargos) dos artigos que conseguimos transportar (salvados!).

Ali vendemos duas viaturas, uma moto, frigoríficos, máquinas de costura, fogões, louças, porcelanas, talheres e mais artigos. Tudo por um quinto dos justos valores.

Na tarde do dia nove somos avisados da partida no dia seguinte para o campo de Grootfontein, a 300 km.

A nosso pedido, por conveniência – em troca de umas garrafas de whisky – foi-nos permitido permanecer mais um dia no campo. Assim, o nosso grupo, agora em quatro viaturas, partiu isolado. Eram onze horas – onze de Setembro de 1975. Percorridos uns 100 km parte-se o veio da bomba de injecção da Bedford, sendo levada a reboque. Obrigados a marcha vagarosa passamos a noite, ao relento, em Tsumeb. Alcançamos o campo de Grootfontein às catorze horas do dia doze.

Ficamos todos alojados em tendas militares, com colchões e cobertores de sobra. Existiam balneários e latrinas suficientes, apesar dos estragos causados, por malvadez, pela leva – mais numerosa – que nos antecedeu.

PC080095

Campo de refugiados em Groodfontein


Funcionava um serviço de pequeno-almoço e almoço. Porque era sempre a mesma “ementa” (carne de vaca com ervilhas) e mal confeccionada, passamos à cozinha própria, até para consumir a grande quantidade de provisões levadas de Angola.

Em tenda própria funcionava um serviço de assistência médica prestada pelo Dr. David Parson, filho do já referido Dr. Parson do hospital do Bongo.

Cerca de uma semana após a nossa chegada ao campo, o nosso grupo divide-se: Camilo, Adelaide, sete filhos com idades entre um e treze anos, em transporte rodoviário ocasional, partem para Windhoek; e dali, de comboio, até Johanesburgo munidos das passagens de avião, compradas em Angola, com destino ao Brasil.

Nos finais de Setembro o Dr. David anuncia a possibilidade de emigração dos refugiados no campo para os E.U.A., com transporte aéreo gratuito, através de uma instituição americana. Só seriam aceites inscrições de pessoas com os passaportes válidos.

A notícia despertou certa euforia. Como nem todos possuíam passaporte, por solicitação dirigida ao Cônsul de Portugal em Windhoek, este fez deslocar um funcionário ao campo a fim de formalizar a emissão dos passaportes. O meu, tem o número 278/75; o da Lucília, 282/75, emitidos em 3 de Outubro de 1975, assinados pelo Cônsul Carlos E. de Sousa Aragão.

Tantas voltas para nada. Efectuou-se apenas um voo. Explicações: insuficiência de fundos!...


19265_104380019585915_100000417535884_111396_6362379_n

Grootfontein. – Sítio árido, sol escaldante. Foi ali, numa tarde da primeira quinzena de Outubro, por carta de Maria Andrade para a Amélia, por intermédio duma prima em Lisboa, chegou a dolorosa notícia do falecimento do Pai, Avô, Bisavô, Irmão, Sogro aos que, uns dias atrás, o haviam visitado em sinal de despedida, agora tão distantes!

campo namibia copy
Campo de refugiados em Groodfontein

Os dias foram passando. Monótonos. Tórridos de sol a sol; frios durante a noite. No exterior da vedação mais de uma centena de vários tipos de viaturas estacionadas. Umas com as cargas de origem; outras vazias. No campo de Windhoek a situação era idêntica. Os seus proprietários – alguns já em Portugal – a vende-las por valores humilhantes preferiram abandona-las.

As autoridades sul-africanas não prometiam o embarque destas para Portugal; e da parte do governo português, nem sinais. Assim, a aproximar-se a hora da nossa “repatriação”, acabamos por “vender” as quatro viaturas por cerca de 50 contos. E, por muito favor, l000 litros de combustível e 500 de óleo por 5 contos.

De pasmar: nas vésperas da devolução do campo todas as viaturas abandonadas foram recolhidas para um recinto vedado; e no decorrer de 1976, tal como haviam sido abandonadas, despachadas para Portugal e entregues aos seus donos.

No dia 22 de Outubro é anunciada a nossa partida. Nessa noite, militares e alguns residentes da cidade, honraram-nos com uma festa de despedida, no recinto de jogos desportivos, com grupo musical.

No dia 23, os nossos pertences, devidamente rotulados, são transportados para a estação do comboio; e, de seguida, as pessoas: acomodadas, por agregado, em cabines com beliches de acordo com o número de indivíduos. Coube-nos a cabina 21, onde encontramos latas de conservas, fruta natural e bebidas. Ao meio-dia em ponto, ouve-se o silvar do comboio. Em toda a sua extensão, o acenar de muita gente, entre esta um Padre a dar-nos a sua bênção. Bem – hajam! Adeus Grootfontein!

NAMIBIA
Partida do campo de refugiados de Groodfontein para a estação de comboios.

foto_ferrovia11

Os poucos que ficaram no campo – entre estes o Zeca, Amélia e filhas – foram enviados para Johanesburgo, e dali, de avião, para Portugal.

Cerca das l7 horas o comboio pára na estação de Otchivarongo, para atrelagem doutras carruagens com mais gente proveniente do campo de Windhoek. Retomada a marcha, sem paragens, às 8 horas do dia 24, ouve-se o chiar dos travões a anunciar o fim da viagem e da linha-férrea. Estávamos no porto de Walvis Bay.

Sob denso nevoeiro, 1500 (?) desafortunados, em fila, vão sendo transferidos para bordo dum navio de cruzeiro, fretado pela África do Sul. A operação, cuidadosamente controlada pelas duas partes – autoridade sul-africana e tripulação do navio –, demorou umas duas horas. Foi respeitada a atribuição de camarotes e beliches de acordo com a praticada no comboio. Calhou-nos o camarote 21. Foi servido almoço e jantar no navio, ainda ancorado.

RETORNADOS- REVENANTS

Dormimos bem. Seriam seis horas, dia 25, quando nos apercebemos que o “Oceanic”, de Taiwan, já havia levantado ferro. Cumpria a sua terceira e última viagem: numa missão sem nome.

 ADEUS ÁFRICA!

BARCO

Oceanic Independence, o navio que nos trouxe para Portugal.


A bordo, em gabinete adequado ao seu trabalho, encontrava-se uma funcionária do Instituto de Apoio ao Retorno de Nacionais – IARN, de nome Lígia. A sua missão consistia no contacto com as famílias nucleares e indivíduos solitários – constantes da relação em sua posse – para efeitos, se necessário, de alojamento em Portugal.

Às 8 horas da manhã do dia 7 de Novembro o majestoso transatlântico “Oceanic” entra na barra do Tejo. Às l0 horas atraca no Cais da Rocha, Lisboa. É colocada a escada para o desembarque. Mas tal não acontece. A “mando”duma comissão, previamente constituída – apoiada por todos –, o desembarque só teria lugar mediante a troca dos escudos “coloniais” por escudos portugueses. O refeitório, servido o pequeno-almoço, foi encerrado. Mesmo num entra e sai da funcionária do IARN para atender à situação, manteve-se o impasse. Ante tal momento, foram distribuídas latas de feijão, fruta e leite.

manoel-de-andrade-um-homem-no-caisno-cais-lisboa-preview

Às 22 horas é anunciada a troca da moeda, no aeroporto. As deslocações seriam de autocarro, em grupos de 30: cabeças dos agregados familiares e solitários. Em qualquer das situações, a troca era de 5.000$00 apenas! Atendidos os dois primeiros grupos – dos quais fiz parte – as operações foram suspensas.

No aeroporto, pelo mesmo motivo, assistia-se a uma situação confrangedora: na zona das chegadas, gente deitada no chão, enquanto os mais fortes, revoltados, mantinham-se firmes.

Retornados

No dia 8 foram distribuídas pelo IARN senhas individuais de almoço, servidos pelos restaurantes próximos do cais.

Com a tripulação do navio a dar sinais de impaciência, a meio da tarde os passageiros espalham-se pelas varandas e convés com gestos de manifesto protesto. Depois dum constante sobe e desce, é retomada a troca de moeda no aeroporto. A comissão recusa mais deslocações. Exige que a operação fosse efectuada no navio. Quase de imediato entram dois “bancários”, com suas maletas, acompanhados por funcionários do IARN. Terminadas as transações, o pessoal abandona o navio. E, de seguida, descarregadas as bagagens, atiradas brutalmente para o chão pelos malvados estivadores.

Imagem_011

De rol nas mãos, os funcionários do IARN fazem a chamada e em simultâneo a separação em grupos – de antemão selecionados – para diversos locais de alojamento. Calhou-nos o Grande Hotel da Figueira da Foz. Onde, acompanhados pela S.ª Lígia, chegamos já próximo da meia-noite. Distribuídos os quartos – coube-nos o 421 –, mesmo àquela hora tardia, foi-nos servida, nos aposentos, uma merenda.

BXK38638_436-lisboa-ponte-27-de-abril800

Desgraça nossa: estávamos em Portugal; num Portugal sem rei nem roque… Em Angola, éramos cidadãos portugueses; da fronteira de Santa Clara ao porto de Walvis Bay, refugiados portugueses; em Portugal, apátridas! Os Bilhetes de Identidade de Cidadão Nacional, encimados com a distinção

 “R E P Ú B L I C A P O R T U G U E S A”

passaram a imprestáveis; nem sequer aceites para transcrição e posterior emissão dum novo B.I. de Cidadão Nacional. Para o efeito, era exigida a certidão de nascimento e a dum ascendente português constante na certidão. Em certos casos difícil e noutros impossíveis de satisfazer: daí o arrastar dos processos durante muitos anos e, até, esquecidos!

Do execrável e enganoso Instituto de Apoio ao Retorno de Nacionais – covil de ladrões – só a palavra retorno produziu efeito: enriqueceu o vocabulário com o douto adjetivo:

RETORNADO!...

Texto de Jorge da Conceição Rodrigues



«A incompreensão do presente nasce fatalmente

da ignorância do passado".

Marc Bloch