Um artigo que encontrei na net
ANTÓNIO PIRES
Uma das ideias feitas que ainda hoje subsiste no nosso País, é a de que os «retornados do Ultramar» constituíam uma legião de indivíduos que vieram agravar de várias formas o já de si deplorável estado da sociedade portuguesa à data da Descolonização.
Sociedade que estava sofrendo o inevitável depauperamento causado pela emigração maciça dos seus braços mais válidos em busca de melhores condições de vida, sangria que começara muito antes das chamadas «guerra colonial» e que esta veio inevitavelmente acentuar.
Disse-se, escreveu-se, e ficou gravado no entendimento comum dos portugueses, que a maioria dos retornados era uma legião de pessoas rudes, na maioria já de idades avançadas, que tinham queimado as suas energias pelas terras de África, pouco produtivas para a tarefa da reconstrução nacional, e sobretudo escassamente preparados do ponto de vista profissional.
A ideia geral que se fazia — e intencionalmente se propalou!... acerca dos retornados do ex-Ultramar, era a de uma maioria de rudes capatazes agrícolas, broncos e violentos, de astutos comerciantes do mato, e de uns tantos «endinheirados» que exploravam negócios altamente chorudos!
Acontece que os sucessivos contingentes que os aviões despejavam diariamente no Aeroporto de Lisboa, nos dois ou três meses que se seguiram ao êxodo maciço dos portugueses de Angola e de Moçambique, bem como as imagens fotográficas ou da Televisão, davam uma aparência de realidade a tão deploráveis e errados juízos.
São hoje suficientemente conhecidas as deploráveis condições em que os retornados de Angola e Moçambique regressaram a Portugal - nove em cada dez, apenas com as roupas que tinham vestidas no momento do embarque, por não terem tido tempo nem possibilidade de voltar aos lares de onde tinham sido expulsos a ferro e fogo para salvar as vidas.
Todavia, serenada a tempestade ou calamidade que se abateu sobre os retornados do Ultramar, acalmadas as inevitáveis paixões políticas e serenados os juízos precipitados — as estatísticas encarregaram-se de rectificar as asneiras insidiosas e intencionais, e de dar ao País um retrato real dos retornados, sob mais diversos aspectos.
Paralelamente, as manipulações da opinião pública foram cessando, e estudiosos atentos e imparciais debruçaram-se sobre a realidade - e os retornados do ex-Ultramar surgem aos olhos da opinião pública e dos seus concidadãos em geral, como aquilo que na realidade são.
Para esboçar esse retrato do retornado socorremo-nos de um valioso e insuspeito estudo realizado por um grupo de universitários, prefaciado por uma brilhante Secretária de Estado de um dos Governos pós 25 de Abril, editado pelo Instituto de Estudos para o Desenvolvimento, para neste momento e neste local, traçarmos um RETRATO DE CORPO INTEIRO dos retornados, e da sua contribuição para a revitalização da sociedade portuguesa.
*
O apuramento realizado pelo Instituto Nacional de Estatística em 1978, citado pelo referido grupo de universitários no estudo que consultámos, referia a existência de 505.078 indivíduos entrados no País e inscritos como «retornados do Ultramar». Em termos percentuais esses 505 mil retornados representavam pouco mais de 5% do total da população nacional.
Este número é discutível e muitas fontes insistem em números mais elevados, entre 700 a 800 mil. Mas trata-se de números oficiais, registados pela estatística oficial, e é em presença deles que temos de raciocinar.
Ora, segundo os números do Instituto Nacional de Estatística, daqueles 505.078 retornados, um pouco mais de metade - exactamente 298.968 - eram nascidos ou oriundos de Portugal, e portanto os restantes 206.110 eram portugueses já nascidos nas então províncias ultramarinas.
Por enquanto trata-se apenas de distinguir entre portugueses oriundos de Portugal que regressavam ao país de origem, e portugueses nascidos noutras terras e aos quais, só por isso, parecia querer negar-se a qualidade de portugueses também...
Porém, o que é realmente importante, e mostra insofismavelmente que os retornados vieram rejuvenescer a sociedade portuguesa, é a observação desses dados estatísticos quando entra na discriminação etária, cultural e profissional dos retornados. Assim, sob tais aspectos, verifica-se que: daqueles 505.078 retornados, 65,5% tinham menos de 40 anos e constituíam portanto uma parcela válida. Mas acima dos 40 e até aos 64 anos a percentagem de retornados era de 29,8% - todos sabem como no Ultramar os homens até aos 60 anos eram uma das parcelas mais válidas das populações, senão em energias físicas pelo menos em saber e experiência acumulada.
Além disso, do total de retornados, 52,74% eram homens e apenas 47,26% mulheres — o que pressupõe uma maioria de braços válidos para o trabalho.
Porém, um dos aspectos mais importantes desta notação estatística, é aquele que refere que a população retornada era em regra profissional e intelectualmente mais bem preparada do que a da metrópole, pois que do recenseamento efectuado, resultava que: 48,4% tinha instrução primária (numa época em que na metrópole havia mais de 20% de analfabetos); e dos restantes 51,6%, descontando apenas 6,5% de não-alfabetizados constituídos quase exclusivamente por crianças com menos de 10 anos de idade, havia 8,5% de possuidores de cursos superiores incluindo médicos, professores universitários, investigadores, advogados, etc., e mais de 30% possuíam cursos médios, secundários e profissionais.
Com a entrada dos retornados, a sociedade portuguesa foi subitamente enriquecida com mais de 5.000 mil engenheiros, arquitectos e técnicos dos mais elevados graus e ramos da engenharia civil e de minas, de industrias transformadoras e outras; cerca de 1.800 biólogos, agrónomos, investigadores dos ramos fisico-químicos e similares; quase 13.000 professores e outros docentes de todos os ramos do ensino, desde o primário ao universitário; 325 navegadores, pilotos e outro pessoal especializado da navegação aérea e marítima; cerca de 16.000 quadros de serviços administrativos e outros, desde estenógrafas a operadores de informática.
No sector da produção, a força do trabalho metropolitana foi enriquecida com mais 13.000 mecânicos especializados; cerca de 7.000 serralheiros civis, montadores de estruturas metálicas, caldeireiros e profissões similares.
A construção civil, cuja maior força de trabalho tinha emigrado para os países da Europa, foi enriquecida com 13.000 pedreiros, carpinteiros e outros profissionais dos mais diversos ramos.
As indústrias transformadoras foram enriquecidas com mais 12.000 operários especializados, desde os ramos têxtil ao da alimentação e bebidas, da mecânica fina ao mobiliário.
O sector dos transportes viu-se repentinamente valorizado com a entrada de mais 13.000 condutores de veículos pesados e de transportes públicos.
No sector agro-pecuário surgiram mais 16.000 capatazes e condutores de trabalhos agrícolas, de maneio e tratamento de gados ou de exploração florestal, em escalas que, em muitos casos, não eram conhecidas neste país.
Mas vieram ainda cerca de dez mil trabalhadores dos ramos de hotelaria, restaurantes e similares, cozinheiros, ecónomos e outros.
Porém, e talvez mais importante ainda que as suas especializações profissionais, os retornados trouxeram à força de trabalho do País a contribuição valiosíssima da disciplina, da produtividade, da assiduidade, que rapidamente os distinguiram (e não raro os tornaram detestados...) num ambiente em que apenas se falava de postos de trabalho... mas não se trabalhava; em que o absentismo ascendeu a taxas inconcebíveis, em que os locais de trabalho se transformaram em centros de organização de manifestações a propósito de tudo e de nada.
Cremos que estes números, extraídos de fontes absolutamente insuspeitas, serão suficientes para desfazer certas ideias que, infelizmente, ainda de tempos a tempos afloram em certos meios e em determinadas ocasiões, acerca dos Retornados do ex-Ultramar.
Na realidade, e a despeito das desgraçadas condições em que se desenrolou o seu regresso à Pátria de origem ou de opção - o fluxo dos retornados constituiu na realidade um indiscutível e precioso factor de valorização da sociedade portuguesa, em praticamente todos os sectores da vida nacional.
Quando dos meus textos sobre a diferença de mentalidades e diferença de instrução entre Luso-Angolanos e Metropolitanos fui desmentido e contestado. Estaria enganado?
Ruca
CUMPRIU-SE O MAR E O IMPÉRIO SE DESFEZ... A História magoa. A independência das colónias forçou meio milhão de portugueses a tomarem parte numa ponte aérea que os desembarcou em Lisboa trazendo a amargura na bagagem e tendo de se adaptar a uma terra que, em muitos casos, não conheciam. Este blog fala de retornados, espoliados, de gente que perdeu as suas casas e os seus bens, e que, sem receber quaisquer indemnizações do Estado português, continuam nos seus sonhos a revisitar África.
quarta-feira, 23 de fevereiro de 2011
Descolonização de Angola: a Odisseia dos espoliados
O DIA DA PARTIDA
24 de Setembro de 1974. Consegui mandar para o Lobito o meu carro e alguns caixotes com os nossos parcos haveres de valor sentimental e os meus livros, reunidos na nossa vida de trabalho, para serem embarcados para Portugal. Encarregou-se do transporte um camionista mestiço de Nova Lisboa que não quis ir para Portugal porque não tinha lá ninguém.
O ponto de reunião de alguns gabelenses e meus irmãos que estavam na FIL, era a minha casa, para tomarem banho de água quente. Os meus pais estavam comigo, bem como a minha irmã, a cassula da família.
Três dias antes fora levá-los ao aeroporto para apanharem a ponte aérea. Fiquei com uma carrinha Peugeout de um gabelense que também frequentava a minha casa e levei-os também para o aeroporto.
Era cada vez mais difícil passar pelas barreiras da UNITA que, famintos, mandavam parar toda a gente para "roubar" qualquer coisa, nem que fossem só cigarros. Os meus conhecidos do FNLA que, talvez por eu ser natural do Zaire, me protegiam por solidariedade valeram-me muitas vezes contra aqueles energúmenos da UNITA que eram racistas, diga-se o que se disser. Eles é que semearam o medo nos portugueses, pelas ameaças constantes, invasão das casas e barreiras em todos os locais de Nova Lisboa. As situações, por vezes, eram altamente perigosas. O campo de execuções era no Sacaála.
E o exército português, para agravar ainda mais, é que fomentava a nossa fuga "porque não se responsabilizava com o que nos pudesse acontecer".
A "facção Chipenda" é que prestou assinalável serviço de protecção aos portugueses apesar de ter por lá alguns elementos, de última hora, brancos portugueses, que criaram alguns conflitos com outros portugueses. Eram mais papistas do que o papa. Mas também vieram cá parar
Chegou o dia de embarcarmos. Depois do almoço (Tivemos carne até ao último dia e acabamos com a garrafeira do meu irmão Néné), dirigi-me para o aeroporto com as nossas maletas na traseira da carrinha. Consegui passar sem incidentes, mas no aeroporto os populares atropelavam-se para descarregar a carrinha e quando dei por mim já não sabia das maletas. O que vale é que eles queriam apenas uma gorjeta por transportá-las até o barracão onde estavam amontoados os refugiados à espera de transporte para longe daquele pesadelo. A carrinha ficou abandonada na rua. Alguém ficou com ela.
Colchões espalhados pelo chão, muito sujo, pois ninguém se preocupava em limpar, centenas de pessoas à espera, as casas de banho, noutro edifício ao lado, cheias de dejectos, papel e água a correr pelo chão. Estava tudo entupido e os refugiados é que tinham de as desentupir se quisessem ter um pouco de higiene.
Crianças a chorar, algumas de fome, pois a espera era longa para os que foram antes de serem chamados. Tumultos à porta quando a UNITA queria impedir alguém de embarcar, principalmente negros e algumas mestiças que cobiçavam, sobre o olhar dos nossos militares (que por vezes esboçavam umas arremetidas "moles"contra os guerrilheiros) todos desalinhados, fralda de fora, barba por fazer, sem boina na cabeça.
O que valeu a muita gente foi a acção da FLNA que afastava os da UNITA.
Tratei das formalidades e por azar calhou-me um avião da TAP, os "burocratas". Só podia levar 30 quilos e a mala mais pesada que transportava os meus apontamentos, livros técnicos, manuais, relatórios e provas de âmbito profissional que me iriam ajudar em Portugal, tiveram que ficar à espera de uma vaga noutro avião.
Enquanto que nos outros aviões estrangeiros, mandavam entrar todo o mundo com a bagagem que traziam e mandavam parar a um dado momento, na TAP era tudo lentamente e com burocracia e sem um sorriso ou mostra de simpatia por parte dos profissionais daquela companhia. Vim a saber que os aviões têm um dispositivo que vai pesando a carga e quando chegava ao limite seguro o comandante mandava parar. Simples e rápido.
Sentia-me num mundo irreal. Não me saía da cabeça aquelas filas enormes, onduladas, de gente cabisbaixa, olhar receoso, silenciosa, a caminharem pastoreadas pelos controladores para o bojo do avião. Impressionou-me a visão do meu pai, um homem de 1,85 m, com 120 Kg, uma força da natureza, com os ombros caídos a olhar para trás como que a despedir-se da terra que nunca quis abandonar.
Chegou a minha vez.
A CHEGADA A PORTUGAL
25 de Setembro de 1975. Chegamos a Lisboa ao amanhecer. Procurar as malas e carregá-las para um canto. Enquanto a minha mulher e filha ficaram a tomar conta da bagagem fui tratar das formalidades. Entregas de guias, senhas para refeições no aeroporto e câmbio de dinheiro para as nossas primeiras necessidades. Só cinco mil escudos por pessoa, a um câmbio impossível de descrever.
O aeroporto cheio de gente amontoada em grupos familiares, caixas, malas, sacos, mantas, etc, muitos deitados pelo chão com o cheiro característico, abafado, de tanta gente a respirar em espaço fechado.
Ao fim de muitas voltas, sempre sem parar, só pelas 23h00 é que nos meteram numa camioneta coberta com uma lona e bancos de correr de madeira, e nos levaram para a Costa da Caparica, uma pequena pensão, de nome "Colibri", já cheia de retornados e onde não havia lugar para todos. Enquanto esperávamos entabulei uma conversação com a dona da pensão, uma arquitecta muito educada, que simpatizou connosco e por não haver lugares disponíveis dispensou-nos uma moradia particular, dela, perto dali.
A providência veio novamente a nosso favor. Era um apartamento com duas divisões e uma casa de banho só para nós.
Ao levantarmo-nos no dia seguinte de manhã, um dia lindo, sol radioso, espreito para a rua e não noto diferença nenhuma de Angola, ou seja, as ruas com areia da praia e, surpresa, pretos a varrerem a rua e a circularem. Parecia estar em Novo Redondo. Só um pouco depois é que entrei na realidade. Já estava em Portugal.
Até meados de Outubro andei praticamente sempre a caminho do aeroporto, à procura da tal mala que ficou, e por sorte chegou cá noutro avião. A pensão era agradável, boa comida, cozinheira e pessoal de serviço todos negros cabo-verdeanos e o ambiente até nem era mau, não fossem as crianças endiabradas que fizeram alguns estragos na decoração das paredes e corrimões das escadas. As paredes do salão tinham frescos de árvores com a folhagem pelo tecto e conchas decorativas, que foram arrancadas até à altura a que as crianças chegavam. Os corrimões, estilo antigo, com dourados e franjas nos forros de veludo, bem como os tapetes e alcatifas, também não resistiram.
A pensão distribuia senhas de ida e volta, por conta do IARN, de transportes públicos para irmos a Lisboa.
Tornava-se difícil procurar um modo de vida, um emprego, porque o tempo era totalmente gasto nas deslocações e nas filas de espera para tratar do assunto mais simples ou para pedir uma informação.
O pior eram as filas na Junqueira, onde estava o IARN, para tratar dos assuntos referentes à estadia. Entrávamos na fila às seis ou sete da manhã e só conseguíamos ser atendidos lá para o meio da tarde. O que valia eram os vendedores ambulantes que providenciavam umas sandes e uma bebida para aguentarmos aquela canseira.
A situação na função pública estava longe de se resolver, pois eu era assalariado e os assalariados ainda não eram considerados funcionários públicos pelo Quadro Geral de Adidos, apesar de terem aceite a inscrição de todos os assalariados em Angola. Burocracias.
Resolvemos deixar a pensão e sair daquele inferno quase diário para conseguir autorização para ir continuando na pensão, para organizarmos a nossa vida o mais depressa possível.
Portugal recebeu imensas ajudas para os "retornados" e acho que teria sido mais útil dar um subsídio substancial a cada um para iniciarem nova vida, do que manterem aquela burocracia sem controlo em que muitos encheram os bolsos e outros nada receberam. Enquanto os mais espertos enriqueceram com a desgraça de todos, e outros permaneceram indefinidamente nos hotéis e pensões pagos pelo IARN sem iniciativa para organizarem a sua vida, a grande maioria foi à luta e venceu.
Eu resolvi ir à vida.
Chegamos à Beira Alta em 18 de Outubro de 1975, sempre a cair uma chuva miudinha e a preparar-se um Inverno rigoroso. Nunca tive tanto frio na minha vida. Ficamos na casa dos meus sogros que tinham vindo mais cedo para Portugal. O meu sogro era reformado dos CFB.
Eu, com 29 anos de idade, com mulher e filha, tinha de começar tudo do ponto zero, pois tudo o que tínhamos ficou em Angola. Ainda consegui embarcar, por um intermédio de um amigo camionista que transportou os caixotes e o meu carro para o Lobito, os meus livros e alguma loiça e roupa em três malas de porão. O carro ficou por lá. Os caixotes chegaram bem. Fui despachá-los na gare ferroviária de Alcântara para a Beira Alta. Por precaução envolvi as malas de porão com cintas metálicas. Mas isso despertou a cobiça dos portugueses que detestavam os retornados. As malas chegaram ao destino todas rebentadas, sem as cintas e as tampas fora dos gonzos e os pratos e copos todos partidos. Quer dizer: as malas aguentaram perfeitamente o embarque no Lobito e viagem de barco e descarga em Lisboa, em péssimas condições, como devem saber. Ali, no porto de Lisboa, largavam os caixotes dos retornados muito antes de chegarem ao solo para se estilhaçarem com o embate no solo. Pois, os meus chegaram bem. Assisti à carga das malas na carruagem do comboio e se chegaram todas rebentadas à Guarda é porque alguém as arrombou pelo caminho e como não havia nada de valor partiram tudo.
Ia periodicamente a Lisboa, ao IARN, mandavam-me para o QGA e ia ao QGA que me mandavam para o IARN. Valeu-me uma assistente social (do IARN) que compreendeu a situação e me foi assegurando o subsídio que davam aos retornados trimestralmente, porque se desse de frente com outro qualquer funcionário do IARN já não tinha a mesma sorte. Mandavam-me para o Adidos. Era o Portugal daquele tempo. Mantinha também os contactos com os colegas e técnicos superiores da Chianga que já estavam colocados, na maioria, na Estação Agronómica de Oeiras e procuravam montar mais algumas estruturas de apoio, contando com os profissionais desocupados. Portanto a minha situação mantinha-se suspensa.
Enquanto esperava que o governo decidisse que os funcionários assalariados ingressassem no QGA (e acabassem com aquela situação equívoca em que andávamos dos IARN para o QGA e vice-versa, sem ninguém querer responsabilizar-se pela distribuição da ajuda a que tínhamos direito, como todos os retornados e muitos não retornados que passaram por retornados para receberem essa ajuda) completei um ensaio filosófico que escrevi em Nova Lisboa, cuja edição achei demasiado incompleta, e acabei o Curso de Psicologia. Fui a Lisboa fazer o exame final e o seminário (aulas práticas em dois dias) para receber o respectivo Diploma e, consequentemente, poder optar por outra via profissional se necessário. Ainda fui Delegado do Centro Médico de Psicologia e Orientação Profissional de Lisboa, mas naquele tempo a Psicologia não rendia o suficiente, nem o país estava habituado a recorrer a exames psicotécnicos e de orientação profissional.
Fiz alguns exames de Orientação Profissional a particulares, para praticar (género estágio assistido) sempre com o apoio e interpretação final do Centro Médico, até ser lançado por conta própria, mas essa actividade não era nada rentável neste país tão atrasado na altura. Também entrei em contacto com a prática da agricultura, pois de Novembro de 1975 a Setembro de 1976 não me furtei a ajudar na lida do campo, desde a apanha da azeitona, seu retalho para consumo interno e acompanhamento no lagar ao fazer o azeite até à vindima e feitura do primeiro vinho e aguardente com a minha ajuda directa. O corte da lenha para a lareira ficou inteiramente por minha conta. Fiquei exímio no machado, cunha e marreta, pois não dispunha de serras eléctricas ou motorizadas. Era tudo à "unha". Além disso, como o meu sogro era o Presidente da Junta de Freguesia, ajudei-o no expediente. Como tinha máquina de escrever, todos os documentos passaram a ser dactilografados e com um aspecto mais "burocrático" e funcional.
Só ao fim de oito meses, ainda sem terem resolvido a situação dos funcionários assalariados, é que, por intermédio do Sindicato dos Profissionais de Artes Gráficas, onde me inscrevi quando estive em Lisboa, consegui emprego à experiência.
Consegui emprego como Oficial Montador de Offset numa empresa Gráfica de Lisboa, à experiência por uma semana, para exercer as funções do antigo Chefe de Secção que estava agora a trabalhar no Sindicato.
Como era necessário experiência numa profissão qualquer para conseguir emprego, precisava de conseguir, muito rapidamente, a Carteira Profissional de Artes Gráficas, documento necessário para progredir na profissão e conseguir emprego no país. Funcionário público não dava condições para conseguir emprego na actividade particular. Tinha de ter uma profissão concreta. Mediante as provas apresentadas, certificado de habilitações literárias e requisição de uma empresa de Artes Gráficas para exercer funções como Oficial Montador de Offset, foi-me facultada a referida Carteira Profissional.
Ao fim da semana de experiência fiquei com contrato a seis meses. Depois de dois meses ofereceram-me o lugar de Chefe da Secção de Fotolito e Montagem, que eu neguei. O ambiente revolucionário naquele tempo, 1976, não era propício para assumir aquele lugar de grande responsabilidade sem poder nenhum, nem autonomia.
Ao fim de quatro meses fui chamado à administração e informaram-me que ficaria no Quadro definitivo da empresa e ofereceram-me o lugar de Director Técnico, tendo em conta o meu curriculum, que tinha apresentado, as habilitações académicas e a postura que observaram no meu comportamento profissional e social. Naquele tempo, era raro encontrar um profissional de artes gráficas com o antigo 7º ano dos Liceus e um Curso técnico de psicologia. Normalmente eram profissionais que aprenderam observando os operários mais antigos, e só com a antiga quarta classe como habilitações.
O problema, de início, foi encontrar um local para viver. Graças a um familiar da minha mulher, emprestaram-nos uma casa até eu conseguir arranjar habitação. O dono dessa casa, fê-lo por consideração a esse familiar da minha mulher que tinha, e tem, uma alta posição na sociedade portuguesa, mas, talvez por desconfiança e medo que desviássemos alguma coisa, apareciam de improviso e a qualquer hora do dia apenas para dar "uma vista de olhos".
Era difícil conseguir casa (havia casas vagas) e só o consegui porque quem passou a contactar os possíveis senhorios passou a ser a secretária da direcção onde eu prestava serviço e a alugou, em meu nome, com o aval da administração que serviu como fiador.
Mais tarde, o procurador da vivenda (o senhorio é um emigrante), numa conversa connosco, vangloriava-se que tinha feito uma selecção muito rigorosa na escolha dos inquilinos, impedindo, principalmente, o aluguer a "retornados".
Mal sabia ele que eu era um retornado. Mais tarde disse-lho na cara, mas não se desmanchou.
Essa Litografia, onde trabalhei, pertencia a uma holding que, além de uma empresa de material industrial pesado geria mais cinco empresas, todas de Artes gráficas, sendo uma especializada em impressão em chapa e quatro em papel, duas no Porto, uma em Setúbal, uma em Santa Iria de Azóia e uma em Lisboa.
Só esta Litografia tinha cerca de 40 operários distribuídos pelas três Secções principais, Fotolito, Impressão e Acabamentos, mais cerca de 20 empregados distribuídos pela portaria, secretaria, armazéns, cozinha e refeitório, limpeza e vendedores. Ficariam todos sob a minha alçada directa, bem como os orçamentos e estabelecimento dos preços dos trabalhos a executar.
A Administração (a da holding, que tinha a sede precisamente na Litografia onde eu prestava serviço) providenciava apenas os recursos que eu solicitasse para a produção.
Como era um cargo executivo e com autonomia suficiente para desenvolver algum trabalho meu, com ideias minhas e coordenação livre de intromissões, aceitei o lugar.
Para terem uma ideia das dificuldades daquele tempo. Aquela empresa, quando foi o 25 de Abril entrou em grandes convulsões e os operários mais politizados, resolveram "correr" com a administração e ficaram a funcionar em colectivo. Resultado: não conseguiram ganhar para os ordenados e afundavam-se cada vez mais, sem ninguém com capacidade para a gerir. Quando "descobriram" que a política não era uma forma de sustento, pois tinham família para sustentar e contas para pagar, acabaram por "aceitar" o regresso dos patrões, pois é mais cómodo chegar ao fim do mês e receber um ordenado sem terem responsabilidades. O problema, agora, eram as dívidas acumuladas. E como seria de prever, a administração não estava nada interessada em sustentar parasitas que tempos atrás os puseram na rua, havendo sempre aquele clima de desconfiança por um lado e de vingança pelo outro, estando eu no meio do "fogo cruzado".
Portanto, a recomendação que recebi logo no primeiro dia na Direcção foi que teríamos de produzir para pagar as despesas fixas e ordenados, porque senão corríamos o risco de ter que fechar as portas. Quanto às dívidas antigas, era problema deles (dentro da holding até calhava bem ter uma empresa deficitária. Os economistas sabem porquê). E assim foi. Enquanto lá estive ganhamos para esse objectivo.
Mas a Comissão de Trabalhadores foi sempre um espinho que não deixava introduzir algumas melhorias nos métodos de trabalho, pois estavam sempre de pé atrás e não havia aquele à vontade e confiança a que estávamos habituados em Angola.
Nem quero contar aqui os problemas, o stress constante, as dores de cabeça e costas, e tudo o mais porque passei com aquele "peso" encima. Nunca, na minha vida julguei encontrar pessoas daquele calibre e tão pouco amigos de trabalhar. Tinha de me impôr pelo conhecimento técnico e prático das coisas, mostrando, sem sombra de dúvidas, que sabia executar o trabalho que lhes estava a exigir. Se assim não fosse, surgiam toda a espécie de motivos e desculpas para a não execução, em tempo, de qualquer encomenda.
Queriam um "emprego" e não "trabalho". Eu era um "retornado", aquele "intruso" que caiu ali de pára-quedas e para mais a "mandar". Encontrei-me no meio do fogo cruzado entre empregados e administração. Por cada ordem de serviço que emitia, tinha a Comissão de Trabalhadores no meu gabinete a protestar, pois não conseguiam compreender que, para terem o salário ao fim do mês, tínhamos de ter o mínimo de disciplina laboral e trabalharmos. Nunca me esqueci que, apesar de deter um lugar de direcção, era um empregado como eles e procurei sempre defender os nossos direitos. Não podíamos estar constantemente em reuniões políticas que a nada levavam. Mas levei o barco a bom porto.
Depois de me despedir, a Administração ainda me propôs continuar com uma avença, indo lá apenas uma hora ao fim do dia para fazer os orçamentos e dar assistência técnica.
Aceitei por um ano apenas, pois surgiram outras oportunidades mais tentadoras e menos setressantes, apesar de tudo.
Soube, depois, que o Director técnico que me substituíu, mais exigente e mais burocrata e amigo de puxar pelos "galões", acabou por ser agredido na secção de impressão.
Há uma grande diferença entre o Chefe e o líder. O Chefe manda fazer, o Líder mostra como se faz.
Depois de ingressar novamente na Função Pública, por me terem indeferido o pedido de continuar a trabalhar na actividade privada enquanto aguardava colocação, fui chamado apressadamente para vários serviços. Devido ao Curso de Psicologia, e componente de Psicopedagogia, já no meu Curriculum, ainda fui chamado para um reformatório em Caxias em que um técnico de Artes Gráficas com as minhas habilitações e conhecimentos psicopedagógicos seriam o ideal para o ensino profissional naquele reformatório. Só que queriam trabalho especializado a ser remunerado pela categoria de operário que me "impuseram" no QGA, em que me baixaram cinco letras e, como seria lógico, não aceitei, assim como não aceitei outra colocação no Ministério da Educação que, na altura, estavam a formar equipas de psicologia encabeçadas por licenciados, auxiliados por técnicos de psicologia, como era o meu caso, mas a ser remunerado pela categoria que me atribuíram no QGA e não pelo trabalho que iria executar.
Enquanto não fosse reclassificado para uma carreira adequada às minhas habilitações e valia profissional recusei trabalhar naquelas condições.
Se os funcionários oriundos do ultramar tinham uma dada carreira, porque razão não os mantiveram na mesma categoria de origem (ou equiparada, se não houvesse tal categoria nos quadros do continente) mas atribuíam-lhes sim outra normalmente com letra mais baixa?
A confusão era tanta que muitos baixaram de categoria (e de letra consequentemente), mas continuaram a ganhar pela letra de origem, o que os prejudicou mais tarde quando foram feitas subidas de escalão nas categorias. Como ganhavam pela letra de origem, todos os funcionários de categoria inferior, ao serem beneficiados com a subida de letra, ficaram equiparados a eles, o que na prática só os prejudicou porque deveriam também subir o seu escalão remuneratório e isso não aconteceu. Ficaram pura e simplesmente "congelados" naquela posição até que a categoria que lhes foi atribuída chegou a ter a mesma remuneração da sua letra de origem. Uma autêntica vigarice.
Finalmente fui requisitado para a nova Direcção-Geral de Extensão Rural, que não existia em Portugal, sendo a experiência da Missão de Extensão Rural de Angola aproveitada para incrementar em Portugal a mesma filosofia. E os quadros e profissionais de Angola foram captados para aquele projecto, eu incluído para erguer o parque gráfico, ferramenta indispensável da Direcção de Serviços de Informação Agrária. Como era conhecido e antigo colaborador do recém-nomeado Director-Geral e confiando que seria reclassificado, aceitei o lugar.
Como sucedeu com a maioria dos funcionários "retornados", fui altamente prejudicado na minha carreira, em termos monetários e promoções, em que só ao fim de dez anos fui reclassificado para uma carreira técnica em função das habilitações e cargo exercido. A partir daí a progressão até foi rápida, mas com as mudanças recentes que o Estado português introduziu, numa clara má fé e desrespeito pelos contratos que fez com os seus funcionários, tirando-lhes as regalias que tornaram mais atraente o ingresso de profissionais na função pública, vi-me (com 42 anos de serviço, contando o serviço militar a dobrar) na necessidade de pedir a aposentação numa altura que ainda teria muito para dar, só para não ser mais penalizado do que fui.
Quando larguei a actividade particular, onde gozava de uma boa posição de chefia e possibilidades de singrar em qualquer das empresas daquela holding (que ainda laboram hoje), para ingressar novamente na função pública, indo ganhar menos, era porque as condições que o Estado Português, como entidade empregadora, oferecia para o futuro eram melhores, só que nunca pensei que esse mesmo Estado, ao fim de 25 anos, mudasse unilateralmente por completo essas condições contratadas, sem o mínimo de respeito e consideração.
Quer dizer: O Estado ofereceu determinadas condições de carreira para admitir empregados e quando esses empregados estão à beira da reforma, veio dizer-lhes "agora as condições oferecidas foram suprimidas. Vocês vão-se reformar com muito menos do que lhes prometemos, bem como já não terão as outras regalias e incentivos prometidos".
Estes empregados, estando eu incluído, nada puderam fazer a não ser aceitar passivamente esta imposição de força, porque se passou uma vida de trabalho e não há hipóteses de mudar ou iniciar por outro lado.
O Estado governado por estes novos políticos portugueses mostrou não ser uma pessoa de bem.
Ruca
______________________________________
NOTA – Este fio pretende deixar um documento singelo, agrupando todos os textos de interesse para se ter uma ideia aproximada do que foi o pós 25 de Abril e a verdadeira odisseia dos portugueses em fuga e toda a sua luta para começarem tudo de novo neste país que, no princípio, os recebeu como verdadeiros malfeitores. Todos podem dar a sua comparticipação, sem revelar nomes comprometedores, ou entrar em pormenores demasiadamente íntimos, porque o que interessa é saber o que se passou e não os nomes dos locais exactos, das pessoas ou das entidades envolvidas.
24 de Setembro de 1974. Consegui mandar para o Lobito o meu carro e alguns caixotes com os nossos parcos haveres de valor sentimental e os meus livros, reunidos na nossa vida de trabalho, para serem embarcados para Portugal. Encarregou-se do transporte um camionista mestiço de Nova Lisboa que não quis ir para Portugal porque não tinha lá ninguém.
O ponto de reunião de alguns gabelenses e meus irmãos que estavam na FIL, era a minha casa, para tomarem banho de água quente. Os meus pais estavam comigo, bem como a minha irmã, a cassula da família.
Três dias antes fora levá-los ao aeroporto para apanharem a ponte aérea. Fiquei com uma carrinha Peugeout de um gabelense que também frequentava a minha casa e levei-os também para o aeroporto.
Era cada vez mais difícil passar pelas barreiras da UNITA que, famintos, mandavam parar toda a gente para "roubar" qualquer coisa, nem que fossem só cigarros. Os meus conhecidos do FNLA que, talvez por eu ser natural do Zaire, me protegiam por solidariedade valeram-me muitas vezes contra aqueles energúmenos da UNITA que eram racistas, diga-se o que se disser. Eles é que semearam o medo nos portugueses, pelas ameaças constantes, invasão das casas e barreiras em todos os locais de Nova Lisboa. As situações, por vezes, eram altamente perigosas. O campo de execuções era no Sacaála.
E o exército português, para agravar ainda mais, é que fomentava a nossa fuga "porque não se responsabilizava com o que nos pudesse acontecer".
A "facção Chipenda" é que prestou assinalável serviço de protecção aos portugueses apesar de ter por lá alguns elementos, de última hora, brancos portugueses, que criaram alguns conflitos com outros portugueses. Eram mais papistas do que o papa. Mas também vieram cá parar
Chegou o dia de embarcarmos. Depois do almoço (Tivemos carne até ao último dia e acabamos com a garrafeira do meu irmão Néné), dirigi-me para o aeroporto com as nossas maletas na traseira da carrinha. Consegui passar sem incidentes, mas no aeroporto os populares atropelavam-se para descarregar a carrinha e quando dei por mim já não sabia das maletas. O que vale é que eles queriam apenas uma gorjeta por transportá-las até o barracão onde estavam amontoados os refugiados à espera de transporte para longe daquele pesadelo. A carrinha ficou abandonada na rua. Alguém ficou com ela.
Colchões espalhados pelo chão, muito sujo, pois ninguém se preocupava em limpar, centenas de pessoas à espera, as casas de banho, noutro edifício ao lado, cheias de dejectos, papel e água a correr pelo chão. Estava tudo entupido e os refugiados é que tinham de as desentupir se quisessem ter um pouco de higiene.
Crianças a chorar, algumas de fome, pois a espera era longa para os que foram antes de serem chamados. Tumultos à porta quando a UNITA queria impedir alguém de embarcar, principalmente negros e algumas mestiças que cobiçavam, sobre o olhar dos nossos militares (que por vezes esboçavam umas arremetidas "moles"contra os guerrilheiros) todos desalinhados, fralda de fora, barba por fazer, sem boina na cabeça.
O que valeu a muita gente foi a acção da FLNA que afastava os da UNITA.
Tratei das formalidades e por azar calhou-me um avião da TAP, os "burocratas". Só podia levar 30 quilos e a mala mais pesada que transportava os meus apontamentos, livros técnicos, manuais, relatórios e provas de âmbito profissional que me iriam ajudar em Portugal, tiveram que ficar à espera de uma vaga noutro avião.
Enquanto que nos outros aviões estrangeiros, mandavam entrar todo o mundo com a bagagem que traziam e mandavam parar a um dado momento, na TAP era tudo lentamente e com burocracia e sem um sorriso ou mostra de simpatia por parte dos profissionais daquela companhia. Vim a saber que os aviões têm um dispositivo que vai pesando a carga e quando chegava ao limite seguro o comandante mandava parar. Simples e rápido.
Sentia-me num mundo irreal. Não me saía da cabeça aquelas filas enormes, onduladas, de gente cabisbaixa, olhar receoso, silenciosa, a caminharem pastoreadas pelos controladores para o bojo do avião. Impressionou-me a visão do meu pai, um homem de 1,85 m, com 120 Kg, uma força da natureza, com os ombros caídos a olhar para trás como que a despedir-se da terra que nunca quis abandonar.
Chegou a minha vez.
A CHEGADA A PORTUGAL
25 de Setembro de 1975. Chegamos a Lisboa ao amanhecer. Procurar as malas e carregá-las para um canto. Enquanto a minha mulher e filha ficaram a tomar conta da bagagem fui tratar das formalidades. Entregas de guias, senhas para refeições no aeroporto e câmbio de dinheiro para as nossas primeiras necessidades. Só cinco mil escudos por pessoa, a um câmbio impossível de descrever.
O aeroporto cheio de gente amontoada em grupos familiares, caixas, malas, sacos, mantas, etc, muitos deitados pelo chão com o cheiro característico, abafado, de tanta gente a respirar em espaço fechado.
Ao fim de muitas voltas, sempre sem parar, só pelas 23h00 é que nos meteram numa camioneta coberta com uma lona e bancos de correr de madeira, e nos levaram para a Costa da Caparica, uma pequena pensão, de nome "Colibri", já cheia de retornados e onde não havia lugar para todos. Enquanto esperávamos entabulei uma conversação com a dona da pensão, uma arquitecta muito educada, que simpatizou connosco e por não haver lugares disponíveis dispensou-nos uma moradia particular, dela, perto dali.
A providência veio novamente a nosso favor. Era um apartamento com duas divisões e uma casa de banho só para nós.
Ao levantarmo-nos no dia seguinte de manhã, um dia lindo, sol radioso, espreito para a rua e não noto diferença nenhuma de Angola, ou seja, as ruas com areia da praia e, surpresa, pretos a varrerem a rua e a circularem. Parecia estar em Novo Redondo. Só um pouco depois é que entrei na realidade. Já estava em Portugal.
Até meados de Outubro andei praticamente sempre a caminho do aeroporto, à procura da tal mala que ficou, e por sorte chegou cá noutro avião. A pensão era agradável, boa comida, cozinheira e pessoal de serviço todos negros cabo-verdeanos e o ambiente até nem era mau, não fossem as crianças endiabradas que fizeram alguns estragos na decoração das paredes e corrimões das escadas. As paredes do salão tinham frescos de árvores com a folhagem pelo tecto e conchas decorativas, que foram arrancadas até à altura a que as crianças chegavam. Os corrimões, estilo antigo, com dourados e franjas nos forros de veludo, bem como os tapetes e alcatifas, também não resistiram.
A pensão distribuia senhas de ida e volta, por conta do IARN, de transportes públicos para irmos a Lisboa.
Tornava-se difícil procurar um modo de vida, um emprego, porque o tempo era totalmente gasto nas deslocações e nas filas de espera para tratar do assunto mais simples ou para pedir uma informação.
O pior eram as filas na Junqueira, onde estava o IARN, para tratar dos assuntos referentes à estadia. Entrávamos na fila às seis ou sete da manhã e só conseguíamos ser atendidos lá para o meio da tarde. O que valia eram os vendedores ambulantes que providenciavam umas sandes e uma bebida para aguentarmos aquela canseira.
A situação na função pública estava longe de se resolver, pois eu era assalariado e os assalariados ainda não eram considerados funcionários públicos pelo Quadro Geral de Adidos, apesar de terem aceite a inscrição de todos os assalariados em Angola. Burocracias.
Resolvemos deixar a pensão e sair daquele inferno quase diário para conseguir autorização para ir continuando na pensão, para organizarmos a nossa vida o mais depressa possível.
Portugal recebeu imensas ajudas para os "retornados" e acho que teria sido mais útil dar um subsídio substancial a cada um para iniciarem nova vida, do que manterem aquela burocracia sem controlo em que muitos encheram os bolsos e outros nada receberam. Enquanto os mais espertos enriqueceram com a desgraça de todos, e outros permaneceram indefinidamente nos hotéis e pensões pagos pelo IARN sem iniciativa para organizarem a sua vida, a grande maioria foi à luta e venceu.
Eu resolvi ir à vida.
Chegamos à Beira Alta em 18 de Outubro de 1975, sempre a cair uma chuva miudinha e a preparar-se um Inverno rigoroso. Nunca tive tanto frio na minha vida. Ficamos na casa dos meus sogros que tinham vindo mais cedo para Portugal. O meu sogro era reformado dos CFB.
Eu, com 29 anos de idade, com mulher e filha, tinha de começar tudo do ponto zero, pois tudo o que tínhamos ficou em Angola. Ainda consegui embarcar, por um intermédio de um amigo camionista que transportou os caixotes e o meu carro para o Lobito, os meus livros e alguma loiça e roupa em três malas de porão. O carro ficou por lá. Os caixotes chegaram bem. Fui despachá-los na gare ferroviária de Alcântara para a Beira Alta. Por precaução envolvi as malas de porão com cintas metálicas. Mas isso despertou a cobiça dos portugueses que detestavam os retornados. As malas chegaram ao destino todas rebentadas, sem as cintas e as tampas fora dos gonzos e os pratos e copos todos partidos. Quer dizer: as malas aguentaram perfeitamente o embarque no Lobito e viagem de barco e descarga em Lisboa, em péssimas condições, como devem saber. Ali, no porto de Lisboa, largavam os caixotes dos retornados muito antes de chegarem ao solo para se estilhaçarem com o embate no solo. Pois, os meus chegaram bem. Assisti à carga das malas na carruagem do comboio e se chegaram todas rebentadas à Guarda é porque alguém as arrombou pelo caminho e como não havia nada de valor partiram tudo.
Ia periodicamente a Lisboa, ao IARN, mandavam-me para o QGA e ia ao QGA que me mandavam para o IARN. Valeu-me uma assistente social (do IARN) que compreendeu a situação e me foi assegurando o subsídio que davam aos retornados trimestralmente, porque se desse de frente com outro qualquer funcionário do IARN já não tinha a mesma sorte. Mandavam-me para o Adidos. Era o Portugal daquele tempo. Mantinha também os contactos com os colegas e técnicos superiores da Chianga que já estavam colocados, na maioria, na Estação Agronómica de Oeiras e procuravam montar mais algumas estruturas de apoio, contando com os profissionais desocupados. Portanto a minha situação mantinha-se suspensa.
Enquanto esperava que o governo decidisse que os funcionários assalariados ingressassem no QGA (e acabassem com aquela situação equívoca em que andávamos dos IARN para o QGA e vice-versa, sem ninguém querer responsabilizar-se pela distribuição da ajuda a que tínhamos direito, como todos os retornados e muitos não retornados que passaram por retornados para receberem essa ajuda) completei um ensaio filosófico que escrevi em Nova Lisboa, cuja edição achei demasiado incompleta, e acabei o Curso de Psicologia. Fui a Lisboa fazer o exame final e o seminário (aulas práticas em dois dias) para receber o respectivo Diploma e, consequentemente, poder optar por outra via profissional se necessário. Ainda fui Delegado do Centro Médico de Psicologia e Orientação Profissional de Lisboa, mas naquele tempo a Psicologia não rendia o suficiente, nem o país estava habituado a recorrer a exames psicotécnicos e de orientação profissional.
Fiz alguns exames de Orientação Profissional a particulares, para praticar (género estágio assistido) sempre com o apoio e interpretação final do Centro Médico, até ser lançado por conta própria, mas essa actividade não era nada rentável neste país tão atrasado na altura. Também entrei em contacto com a prática da agricultura, pois de Novembro de 1975 a Setembro de 1976 não me furtei a ajudar na lida do campo, desde a apanha da azeitona, seu retalho para consumo interno e acompanhamento no lagar ao fazer o azeite até à vindima e feitura do primeiro vinho e aguardente com a minha ajuda directa. O corte da lenha para a lareira ficou inteiramente por minha conta. Fiquei exímio no machado, cunha e marreta, pois não dispunha de serras eléctricas ou motorizadas. Era tudo à "unha". Além disso, como o meu sogro era o Presidente da Junta de Freguesia, ajudei-o no expediente. Como tinha máquina de escrever, todos os documentos passaram a ser dactilografados e com um aspecto mais "burocrático" e funcional.
Só ao fim de oito meses, ainda sem terem resolvido a situação dos funcionários assalariados, é que, por intermédio do Sindicato dos Profissionais de Artes Gráficas, onde me inscrevi quando estive em Lisboa, consegui emprego à experiência.
Consegui emprego como Oficial Montador de Offset numa empresa Gráfica de Lisboa, à experiência por uma semana, para exercer as funções do antigo Chefe de Secção que estava agora a trabalhar no Sindicato.
Como era necessário experiência numa profissão qualquer para conseguir emprego, precisava de conseguir, muito rapidamente, a Carteira Profissional de Artes Gráficas, documento necessário para progredir na profissão e conseguir emprego no país. Funcionário público não dava condições para conseguir emprego na actividade particular. Tinha de ter uma profissão concreta. Mediante as provas apresentadas, certificado de habilitações literárias e requisição de uma empresa de Artes Gráficas para exercer funções como Oficial Montador de Offset, foi-me facultada a referida Carteira Profissional.
Ao fim da semana de experiência fiquei com contrato a seis meses. Depois de dois meses ofereceram-me o lugar de Chefe da Secção de Fotolito e Montagem, que eu neguei. O ambiente revolucionário naquele tempo, 1976, não era propício para assumir aquele lugar de grande responsabilidade sem poder nenhum, nem autonomia.
Ao fim de quatro meses fui chamado à administração e informaram-me que ficaria no Quadro definitivo da empresa e ofereceram-me o lugar de Director Técnico, tendo em conta o meu curriculum, que tinha apresentado, as habilitações académicas e a postura que observaram no meu comportamento profissional e social. Naquele tempo, era raro encontrar um profissional de artes gráficas com o antigo 7º ano dos Liceus e um Curso técnico de psicologia. Normalmente eram profissionais que aprenderam observando os operários mais antigos, e só com a antiga quarta classe como habilitações.
O problema, de início, foi encontrar um local para viver. Graças a um familiar da minha mulher, emprestaram-nos uma casa até eu conseguir arranjar habitação. O dono dessa casa, fê-lo por consideração a esse familiar da minha mulher que tinha, e tem, uma alta posição na sociedade portuguesa, mas, talvez por desconfiança e medo que desviássemos alguma coisa, apareciam de improviso e a qualquer hora do dia apenas para dar "uma vista de olhos".
Era difícil conseguir casa (havia casas vagas) e só o consegui porque quem passou a contactar os possíveis senhorios passou a ser a secretária da direcção onde eu prestava serviço e a alugou, em meu nome, com o aval da administração que serviu como fiador.
Mais tarde, o procurador da vivenda (o senhorio é um emigrante), numa conversa connosco, vangloriava-se que tinha feito uma selecção muito rigorosa na escolha dos inquilinos, impedindo, principalmente, o aluguer a "retornados".
Mal sabia ele que eu era um retornado. Mais tarde disse-lho na cara, mas não se desmanchou.
Essa Litografia, onde trabalhei, pertencia a uma holding que, além de uma empresa de material industrial pesado geria mais cinco empresas, todas de Artes gráficas, sendo uma especializada em impressão em chapa e quatro em papel, duas no Porto, uma em Setúbal, uma em Santa Iria de Azóia e uma em Lisboa.
Só esta Litografia tinha cerca de 40 operários distribuídos pelas três Secções principais, Fotolito, Impressão e Acabamentos, mais cerca de 20 empregados distribuídos pela portaria, secretaria, armazéns, cozinha e refeitório, limpeza e vendedores. Ficariam todos sob a minha alçada directa, bem como os orçamentos e estabelecimento dos preços dos trabalhos a executar.
A Administração (a da holding, que tinha a sede precisamente na Litografia onde eu prestava serviço) providenciava apenas os recursos que eu solicitasse para a produção.
Como era um cargo executivo e com autonomia suficiente para desenvolver algum trabalho meu, com ideias minhas e coordenação livre de intromissões, aceitei o lugar.
Para terem uma ideia das dificuldades daquele tempo. Aquela empresa, quando foi o 25 de Abril entrou em grandes convulsões e os operários mais politizados, resolveram "correr" com a administração e ficaram a funcionar em colectivo. Resultado: não conseguiram ganhar para os ordenados e afundavam-se cada vez mais, sem ninguém com capacidade para a gerir. Quando "descobriram" que a política não era uma forma de sustento, pois tinham família para sustentar e contas para pagar, acabaram por "aceitar" o regresso dos patrões, pois é mais cómodo chegar ao fim do mês e receber um ordenado sem terem responsabilidades. O problema, agora, eram as dívidas acumuladas. E como seria de prever, a administração não estava nada interessada em sustentar parasitas que tempos atrás os puseram na rua, havendo sempre aquele clima de desconfiança por um lado e de vingança pelo outro, estando eu no meio do "fogo cruzado".
Portanto, a recomendação que recebi logo no primeiro dia na Direcção foi que teríamos de produzir para pagar as despesas fixas e ordenados, porque senão corríamos o risco de ter que fechar as portas. Quanto às dívidas antigas, era problema deles (dentro da holding até calhava bem ter uma empresa deficitária. Os economistas sabem porquê). E assim foi. Enquanto lá estive ganhamos para esse objectivo.
Mas a Comissão de Trabalhadores foi sempre um espinho que não deixava introduzir algumas melhorias nos métodos de trabalho, pois estavam sempre de pé atrás e não havia aquele à vontade e confiança a que estávamos habituados em Angola.
Nem quero contar aqui os problemas, o stress constante, as dores de cabeça e costas, e tudo o mais porque passei com aquele "peso" encima. Nunca, na minha vida julguei encontrar pessoas daquele calibre e tão pouco amigos de trabalhar. Tinha de me impôr pelo conhecimento técnico e prático das coisas, mostrando, sem sombra de dúvidas, que sabia executar o trabalho que lhes estava a exigir. Se assim não fosse, surgiam toda a espécie de motivos e desculpas para a não execução, em tempo, de qualquer encomenda.
Queriam um "emprego" e não "trabalho". Eu era um "retornado", aquele "intruso" que caiu ali de pára-quedas e para mais a "mandar". Encontrei-me no meio do fogo cruzado entre empregados e administração. Por cada ordem de serviço que emitia, tinha a Comissão de Trabalhadores no meu gabinete a protestar, pois não conseguiam compreender que, para terem o salário ao fim do mês, tínhamos de ter o mínimo de disciplina laboral e trabalharmos. Nunca me esqueci que, apesar de deter um lugar de direcção, era um empregado como eles e procurei sempre defender os nossos direitos. Não podíamos estar constantemente em reuniões políticas que a nada levavam. Mas levei o barco a bom porto.
Depois de me despedir, a Administração ainda me propôs continuar com uma avença, indo lá apenas uma hora ao fim do dia para fazer os orçamentos e dar assistência técnica.
Aceitei por um ano apenas, pois surgiram outras oportunidades mais tentadoras e menos setressantes, apesar de tudo.
Soube, depois, que o Director técnico que me substituíu, mais exigente e mais burocrata e amigo de puxar pelos "galões", acabou por ser agredido na secção de impressão.
Há uma grande diferença entre o Chefe e o líder. O Chefe manda fazer, o Líder mostra como se faz.
Depois de ingressar novamente na Função Pública, por me terem indeferido o pedido de continuar a trabalhar na actividade privada enquanto aguardava colocação, fui chamado apressadamente para vários serviços. Devido ao Curso de Psicologia, e componente de Psicopedagogia, já no meu Curriculum, ainda fui chamado para um reformatório em Caxias em que um técnico de Artes Gráficas com as minhas habilitações e conhecimentos psicopedagógicos seriam o ideal para o ensino profissional naquele reformatório. Só que queriam trabalho especializado a ser remunerado pela categoria de operário que me "impuseram" no QGA, em que me baixaram cinco letras e, como seria lógico, não aceitei, assim como não aceitei outra colocação no Ministério da Educação que, na altura, estavam a formar equipas de psicologia encabeçadas por licenciados, auxiliados por técnicos de psicologia, como era o meu caso, mas a ser remunerado pela categoria que me atribuíram no QGA e não pelo trabalho que iria executar.
Enquanto não fosse reclassificado para uma carreira adequada às minhas habilitações e valia profissional recusei trabalhar naquelas condições.
Se os funcionários oriundos do ultramar tinham uma dada carreira, porque razão não os mantiveram na mesma categoria de origem (ou equiparada, se não houvesse tal categoria nos quadros do continente) mas atribuíam-lhes sim outra normalmente com letra mais baixa?
A confusão era tanta que muitos baixaram de categoria (e de letra consequentemente), mas continuaram a ganhar pela letra de origem, o que os prejudicou mais tarde quando foram feitas subidas de escalão nas categorias. Como ganhavam pela letra de origem, todos os funcionários de categoria inferior, ao serem beneficiados com a subida de letra, ficaram equiparados a eles, o que na prática só os prejudicou porque deveriam também subir o seu escalão remuneratório e isso não aconteceu. Ficaram pura e simplesmente "congelados" naquela posição até que a categoria que lhes foi atribuída chegou a ter a mesma remuneração da sua letra de origem. Uma autêntica vigarice.
Finalmente fui requisitado para a nova Direcção-Geral de Extensão Rural, que não existia em Portugal, sendo a experiência da Missão de Extensão Rural de Angola aproveitada para incrementar em Portugal a mesma filosofia. E os quadros e profissionais de Angola foram captados para aquele projecto, eu incluído para erguer o parque gráfico, ferramenta indispensável da Direcção de Serviços de Informação Agrária. Como era conhecido e antigo colaborador do recém-nomeado Director-Geral e confiando que seria reclassificado, aceitei o lugar.
Como sucedeu com a maioria dos funcionários "retornados", fui altamente prejudicado na minha carreira, em termos monetários e promoções, em que só ao fim de dez anos fui reclassificado para uma carreira técnica em função das habilitações e cargo exercido. A partir daí a progressão até foi rápida, mas com as mudanças recentes que o Estado português introduziu, numa clara má fé e desrespeito pelos contratos que fez com os seus funcionários, tirando-lhes as regalias que tornaram mais atraente o ingresso de profissionais na função pública, vi-me (com 42 anos de serviço, contando o serviço militar a dobrar) na necessidade de pedir a aposentação numa altura que ainda teria muito para dar, só para não ser mais penalizado do que fui.
Quando larguei a actividade particular, onde gozava de uma boa posição de chefia e possibilidades de singrar em qualquer das empresas daquela holding (que ainda laboram hoje), para ingressar novamente na função pública, indo ganhar menos, era porque as condições que o Estado Português, como entidade empregadora, oferecia para o futuro eram melhores, só que nunca pensei que esse mesmo Estado, ao fim de 25 anos, mudasse unilateralmente por completo essas condições contratadas, sem o mínimo de respeito e consideração.
Quer dizer: O Estado ofereceu determinadas condições de carreira para admitir empregados e quando esses empregados estão à beira da reforma, veio dizer-lhes "agora as condições oferecidas foram suprimidas. Vocês vão-se reformar com muito menos do que lhes prometemos, bem como já não terão as outras regalias e incentivos prometidos".
Estes empregados, estando eu incluído, nada puderam fazer a não ser aceitar passivamente esta imposição de força, porque se passou uma vida de trabalho e não há hipóteses de mudar ou iniciar por outro lado.
O Estado governado por estes novos políticos portugueses mostrou não ser uma pessoa de bem.
Ruca
______________________________________
NOTA – Este fio pretende deixar um documento singelo, agrupando todos os textos de interesse para se ter uma ideia aproximada do que foi o pós 25 de Abril e a verdadeira odisseia dos portugueses em fuga e toda a sua luta para começarem tudo de novo neste país que, no princípio, os recebeu como verdadeiros malfeitores. Todos podem dar a sua comparticipação, sem revelar nomes comprometedores, ou entrar em pormenores demasiadamente íntimos, porque o que interessa é saber o que se passou e não os nomes dos locais exactos, das pessoas ou das entidades envolvidas.
segunda-feira, 14 de fevereiro de 2011
Retorno a Portugal dos restos mortais de militar falecido em Angola
Pobre Portugal de meia dúzia de senhores... que sequer foi capaz de ajudar as familias na transladação dos corpos abandonados dos seus soldados mortos em Angola! E no entanto quando se quer, consegue-se e a prova aí está :dinheiro para salvar Bancos...
Para mais infotmação, clicar AQUI
Etiquetas:
guerra de ultramar,
guerra ultramar,
retorno de soldados mortos
Integração não apaga memória dos retornados de África
Com a descolonização, meio milhão de portugueses retornaram de África. Passadas mais de três décadas, a ligação ao continente africano, a sua " terra", continua forte como veremos...
Portugal está em dívida para com os espoliados do Ultramar
Portugal está em dívida para com os espoliados do Ultramar. Portugal tem o dever moral de pagar essa dívida, indemnizando as familias a quem, através de intensa propaganda na Metrópole, fez deslocar para as «colónias ou «províncias ultramarinas» como lhe queiram chamar, no primeiro caso, paulatinamente, e mais propriamente a partir da Conferência de Berlim (1885/1885) , depois, e com maior intensidade a partir de 1950 e sobretudo a partir de 1961.
Portugal está em dívida para com os espoliados do Ultramar. Portugal tem o dever moral de pagar essa dívida, indemnizando as familias , na sua maioria gente trabalhadora e despolitizada, que trabalhou duro e investiu na terra quanto ganhou, transformados que foram nos «bodes expiatórios» das experiências da colonização.
«Todos os países que tiveram colónias, indemnizaram os seus cidadãos, os portugueses investiram em Angola, venderam o que tinha no seu País para rumar para Africa e continuam a pedir que se faça justiça», destaca ao acrescentar: «O governo português, infelizmente, o que faz ainda é anti-pressão e elogio, procura por todos os meios passar para a opinião pública que não temos quaisquer direitos, ou que tudo tinha sido roubado e adquirido ilicitamente.... é precisamente porque estão vivas as figuras gradas que fizeram a descolonização que se pensa assim», lamenta Lucas Martins.
«Por que motivo os alemães vêem as suas fazendas devolvidas por Angola e nós portugueses continuamos a aguardar justiça há mais de 33 anos, senhor Primeiro-Ministro ?» É esta a pergunta que as duas associações de espoliados do Ultramar deixam ao Governo de Sócrates
Isabel Guerreiro
NOTÍCIAS vindas de Luanda dão conta de que o Governo angolano está a devolver dezenas de fazendas a cidadãos alemães que abandonaram o território africano por altura da independência, em 1975.
Segundo o jornal «Africa Monitor» «o incremento por que estão a passar as relações angolano-alemães é devido a uma política condescendente de Angola face a exigências da Alemanha, tendo em vista a devolução de fazendas de que cidadãos alemães foram desapropriados a seguir à independência do território»
.
.
A notícia acrescenta ainda: «os processos de reclamação das fazendas, movidos pelos antigos proprietários alemães (ou herdeiros), vinham deparando com a dificuldade acrescida de algumas delas, em especial as situadas na província Cuanza-Sul, estarem ocupadas ou serem usufruto de personalidades da elite. A Alemanha alegou que os seus nacionais residentes no território à época de independência abandonaram Angola por razões de força maior —desordem violenta, que inclusive provocou mortes».
«Por que motivo os alemães vêem as suas fazendas devolvidas e nós portugueses não, senhor Pri-meiro-Ministro ?»
É esta a pergunta que as duas associações de espoliados gostavam de ver respondida pelo Governo de Sócrates.
Ou será que Portugal está interdito de alegar motivos identicos aos que a Alemanhã alegou? Má consciência perante os que deixou abandonados a uma guerra fraticida? Má consciência perante os que tiveram que partir e abandonar tudo?
É esta a pergunta que as duas associações de espoliados gostavam de ver respondida pelo Governo de Sócrates.
Ou será que Portugal está interdito de alegar motivos identicos aos que a Alemanhã alegou? Má consciência perante os que deixou abandonados a uma guerra fraticida? Má consciência perante os que tiveram que partir e abandonar tudo?
Só sente e continua a sentir o problema quem o realmente viveu, porque os que vieram a seguir ao 25 de Abril, os instalados no poder, estão todos bem, estão todos ricos e perderam a sensibilidade.
Conclusão pura e simples: o tempo vai passando, muitos dos espoliados já faleceram, outros vão falecendo... Já faltou mais do que falta para que os «donos» de Portugal possam definitivamente lavar as mãos, não a consciência, sobre este assunto!
-http://macua.blogs.com/25_de_abril_o_antes_e_o_a/2008/09/conhecido-o-pre.html
AS OPORTUNIDADES DOS "COLONOS"
Tenho lido com alguma frequencia que Angola era uma terra cheia de oportunidades, o que realmente é verdade, não deixa contudo de ser puro engano dizer-se que bastava alguém ser bom trabalhador para enriquecer.
Li recentemente um livro cujo autor diz ter vivido alguns anos em Angola e espanta-me que também ele ajude a passar esta idéia enganadora. Embora seja um romance e por isso à partida classificado de pura ficção, não deixa contudo de cair neste erro. Lê-se ali que um casal chegado a Luanda, em pouco tempo já tinha negócios espalhados por toda a cidade e logo a seguir pelas principais cidades de Angola, isto sem falar da compra de uma "casa" na Vila Alice.
Não espantava se esse casal fosse endinheirado e procurasse Angola para investir, o que não é o caso. Por vezes parece que existem duas Angolas diferentes, aquela que eu e a maioria conhecemos e uma outra, onde se chegava e se encontrava prontamente uma "àrvore das patacas" e se enriquecia duma hora para a outra. Eu nasci em Angola e embora houvesse diferenças de classes como na maioria dos países, a verdade é que era necessário muito trabalho para se viver com algum desafogo e a maioria pode atestar que também não dava para se fazerem muitas "avarias".
Assim, das duas uma, ou eu e muitos outros fomos pouco inteligentes e nunca soubemos ver os "grandes negócios", ou simplesmente nunca encontramos a tal " árvore das paracas".
É bom que se diga a verdade, era uma linda terra, um povo hospitaleiro e humilde, mas quem começasse do nada como o meu pai e muitos outros que ali chegaram na década de 50, mesmo com muito trabalho, nunca chegaram a ter essa tal vida faustosa que se encontram ilustradas nalguns romances.
Lá como cá, se houvesse respeito pelo "próximo", creio que as oportunidades eram iguais!Fracra Rone in Cubatangola
domingo, 2 de janeiro de 2011
OS ANOS DOURADOS DOS PORTUGUESES EM AFRICA: O QUE FAZ CORRER A JORNALISTA RITA GARCIA?

"A VIDA EM ÁFRICA...ERA ASSIM"
1) - Assim como a maioria dos meus familiares e dos milhares de conhecidos, colegas e amigos, nascemos em ANGOLA,onde antes de 11/11/1975 (antes da revolução), éramos "TODOS PORTUGUESES" (além de verdadeiros "ANGOLANOS", fruto de algumas gerações de três Continentes (EUROPA - AMÉRICA DO SUL(BRASIL) -- ÁFRICA).
2) - Muitos outros milhares de residentes então em ANGOLA (não me vou referir aos outros territórios ex-ultramarinos,onde nunca vivi), eram PORTUGUESES CONTINENTAIS, que, em pouco tempo,se tornavam como verdadeiros Angolanos !
3) - Não eram,então, também "PORTUGUESES" apenas os "BRANCOS" nascidos em ANGOLA !
4) - Não sei, não faço ideia,onde nasceu ou viveu a jornalista RITA GARCIA, autora do artigo (reportagem/Destaque)acima referido. Até gostava de saber...
5) - Como "ANGOLANO / PORTUGUÊS",descendente de algumas gerações nascidas e vividas em ANGOLA, assim como muitos dos meus diversos familiares,dos amigos e dos conhecidos,NÃO DEVO, NEM POSSO, deixar de manifestar a minha parcial discordância com o conteúdo e espírito do mencionado artigo (reportagem, que nem sabemos como foi efectuada !).
6) ANGOLA,embora com uma faixa marítima bastante extensa, apenas tinha (e tem ainda) poucas cidades e poucas vilas ou povoações importantes junto desta. Assim,alguns milhões dos seus habitantes naturais,algumas centenas de milhares dos "PORTUGUESES" até então ali residentes,viviam no seu imenso interior(várias vezes superior ao território português na Europa),instalados até a muitos quilómetros da costa marítima. Residiam e viviam no "SERTÃO",no "MATO". Muitos deles permaneceram anos a fio sem ...irem à cidade"...! Estavam mesmo muito longe das praias ! Praias,só conheciam as dos rios e tinham jacarés !... Nem andavam ..."em caçadas de elefantes e leões"...! Tudo isso era então muito bem controlado e vigiado por fiscais próprios e pelas leis em vigor. A sua conservação era respeitada. Não eram então dizimados por armas de guerras ("coloniais ou civis"),ou de ricos turistas de ocasião,como aconteceu depois de 1974/75 !
7) - Poucos locais "adequados" existiam e nem todos os PORTUGUESES andavam em paródias ou noitadas de fins-de-semana em..."clubes exclusivos e festas na praia"...! Era uma população trabalhadora (não havia desempregados permanentes,nem subsidiados profissionais). Também essas leis eram respeitadas.
8 ) - Quanto ...às "boas casas, com espaço, jardim e criados para os servir"...nem só alguns dos ditos PORTUGUESES (ULTRAMARINOS) eram seus exclusivos possuidores ou utilizadores legais. Isso era comum, necessário, conveniente até para os próprios trabalhadores.
Esses PORTUGUESES não tinham, na sua grande maioria, automóveis de luxo, nem motoristas privativos...como alguns dos grandes senhores e os "Continentais" (cá por estas bandas)!
9) - Tudo isso também já se verificava no CONTINENTE e com proventos bastante semelhantes ! Muitos anos antes,as construções (as residências) dos PORTUGUESES em ANGOLA tinham,obrigatoriamente, uns anexos com quarto(s) e sanitários para o(s) criado(s),mesmo dentro das cidades ! As tais..."boas casas com espaço,jardim (até com piscina privativa) também se encontram hoje em muitas zonas deste "pobre" país,pertencentes aos Continentais,(I) Emigrantes ou não,bastante valiosas e, em muitas delas,se realizam as tais ..."FESTAS"... e nem precisam de outras praias em fins-de-semana (em especial nos prolongados por modernas "pontes horárias",ou até mesmo sem serem de "surpresa",dos amigos (de ocasião ou à espreita de certas oportunidades ou favores,nem que sejam "inimigos disfarçados de outras mais adequadas cores"...e numa mais do que conivente ..."ERA DOURADA" !
10) - Por lá, ANGOLA desses tempos "dourados",muito boa gente, já com certa idade,nunca tinha visto uma "PRAIA",tal a imensidão do território.E muito menos tinha sido beneficiado com..."um pires de marisco (de camarão ou outro) à borla,nem mesmo duma cerveja fresca em zonas em que ainda nem havia electricidade, nem "geleiras" domésticas ! Normalmente nem eram pires de "camarões" à borla mas sim, de tremoços ou ginguba. Pelo contrário,viviam quase isolados,carentes,passando privações,sem qualquer "assistência social". Eram terras de trabalho duro e de boas produções e não de "farras",regabofes, festivais,etc. Eram trabalhadores sérios,honestos,patrióticos, que acabaram sendo traídos e nunca recompensados !
11) - ANGOLA, na sua maior parte, a grande ANGOLA,era a "ÁFRICA MISTERIOSA", a verdadeira ÁFRICA,não só de "Elefantes e Leões",que nos velhos tempos desciam aos povoados, ás cidades (até à LAGOA DE KINAXIXE, então nos arredores de LUANDA).sendo conveniente caçá-los.
12 ) - Os outros "caçadores",amigos ou familiares dos "VINHAS", dos "MELOS" e doutros ilustres "continentais",eram abastados turistas,fazendo esquecer os esfarrapados "pumbeiros" do sertão ou os caçadores furtivos de marfim,associados aos grandes chefes locais !
13) - O imenso título "MOÇAMBIQUE" aplicado por cima duma enorme foto de alguns veraneantes na ILHA DE LUANDA (pág. 48 da citada Revista),está mesmo... "a matar" ! Diremos então que... ANTES NÃO ERA ASSIM"...!
14) - CONCLUINDO : - RITA GARCIA,... "A VIDA EM ÁFRICA...(NÃO) ERA ASSIM"...como descreve ! Seja humilde,peça desculpas aos muitos milhares de PORTUGUESES ULTRAMARINOS que ofendeu !...
By Roberto Correia
blogue http://angola-brasil.blogspot.com
sábado, 27 de novembro de 2010
O último Ano em Luanda de Tiago Rebelo

A minha sobrinha ofereceu-me este livro que tem a chancela da Editorial Presença. Interesso-me por tudo que se relaciona com África e em especial, por Angola, a minha Pátria.
Posso dizer-vos que o estou a "devorar", com um misto de saudade, angústia e ao mesmo tempo uma "raiva" incontrolada que muitas vezes se transforma em lágrimas nos olhos...
Mesmo assim, gostaria de partilhar e aconselhar-vos a leitura deste livro, onde Tiago Rebelo, tão bem, soube transmitir a angústia de todos nós, que nos anos 74/75 fomos abandonados pelo poder político vigente em Portugal...
Aqui vos deixo a sinopse do mesmo:
Em 1974, uma revolução em Lisboa apanha de surpresa centenas de milhares de portugueses que vivem em Angola. A partir desse dia inicia-se a derrocada imparável de uma sociedade inteira que, tal como um navio a afundar-se, está condenada à destruição e à ruína. Em escassos meses, trezentos mil portugueses são obrigados a largar tudo e a fugir, embarcando numa ponte aérea e marítima que marca o maior êxodo da história deste povo. Para trás ficam as suas casas, os carros e até os animais de estimação. Empresas, fábricas, comércio e fazendas são abandonados enquanto Luanda, a capital da jóia da coroa do império português, é abalada por uma guerra civil que alastra ao resto do território angolano. Três movimentos de libertação, cujos exércitos estavam derrotados a 25 de Abril de 1974, estão novamente activos e combatem entre eles pelo poder deixado vazio pelas Forças Armadas portuguesas. É neste cenário de total desorientação social e de insegurança generalizada que Nuno, um aventureiro que há anos atravessa os céus do sertão angolano no seu avião, Regina e o filho de ambos se movem, numa extraordinária luta para sobreviverem à violência diária, às perseguições políticas, às intrigas e traições que fazem de Luanda uma cidade desesperada. Esta é a história de coragem e abnegação de um casal surpreendido, tal como milhares de outros, num processo de degradação que se deve à recusa do Exército em defender os seus próprios compatriotas a favor de um movimento até há pouco inimigo, ao desinteresse dos políticos, à total incapacidade do governo de Lisboa para impor os termos de um acordo assinado no Alvor e constantemente violado em Angola e à intervenção militar das duas potências mundiais envolvidas numa guerra fria que é combatida por intermédio dos exércitos regionais.
Os Meus Livros
«...O Último Ano em Luanda, onde revela não só um perfeito conhecimento da época em que se desenrola a acção, como descreve com muita clareza um dos mais trágicos e mais silenciados processos da recente história portuguesa.»
«Jornalista e escritor, Tiago Rebelo nasceu em Lisboa há 43 anos. Dos dois aos 11, viveu em Angola, experiência que serviu de base ao mais recente livro, "O Último ano em Luanda", já em lugar cimeiro nas tabelas de vendas.»
Jornal Notícias
sexta-feira, 19 de novembro de 2010
ADEUS ANGOLA : fuga do Lubango
Esta página tem por finalidade, transmitir às novas gerações, momentos vividos por mim e familiares para que o que passamos, não caia no esquecimento.
Às seis horas do dia seis de Setembro – sábado – em caravana de umas 300 viaturas, escoltada por 30 militares, arrancamos do Lubango rumo à África do Sul. Percorridos 380 km, sem problemas, às 17 horas atravessamos a fronteira de Santa Clara. Aguardava-nos um grupo de militares sul-africanos com colchões, cobertores, alimentos em conserva, água, refrigerantes e, até, uns cubos combustíveis para amornar os enlatados. Pernoitamos ao relento. Não fazia frio.
Às onze horas do dia seguinte – com feijão ao lume para o almoço – chega uma ordem de partida para Oshakati. Todas as viaturas foram reabastecidas (de graça) até à boca. A deslocação durou umas duas horas. Em Oshakati fomos “instalados” num campo próximo do hospital missionário, preparado para a situação, com algumas tendas, água encanada, latrinas e balneários. Com lenha à mão, o feijão volta ao lume. Cozido e apurado, foi servido como almoço/jantar.
No dia seguinte, de manhã, as autoridades, por altifalante, ordenam a formação em fila para registo dos refugiados e vacinação. Terminadas estas formalidades as autoridades solicitam – sob aviso de inspeção – a entrega de armas, drogas e literatura pornográfica; e diamantes a enviarem para classificação em Pretória e posterior pagamento de oitenta por cento do seu valor. Aos portadores de café, se desejassem vendê-lo, ser-lhes-ia passado um salvo-conduto para todo território sul-africano. Por fim foi-nos dada liberdade para exposição e venda (sem encargos) dos artigos que conseguimos transportar (salvados!).
Ali vendemos duas viaturas, uma moto, frigoríficos, máquinas de costura, fogões, louças, porcelanas, talheres e mais artigos. Tudo por um quinto dos justos valores.
Na tarde do dia nove somos avisados da partida no dia seguinte para o campo de Grootfontein, a 300 km.
A nosso pedido, por conveniência – em troca de umas garrafas de whisky – foi-nos permitido permanecer mais um dia no campo. Assim, o nosso grupo, agora em quatro viaturas, partiu isolado. Eram onze horas – onze de Setembro de 1975. Percorridos uns 100 km parte-se o veio da bomba de injecção da Bedford, sendo levada a reboque. Obrigados a marcha vagarosa passamos a noite, ao relento, em Tsumeb. Alcançamos o campo de Grootfontein às catorze horas do dia doze.
Ficamos todos alojados em tendas militares, com colchões e cobertores de sobra. Existiam balneários e latrinas suficientes, apesar dos estragos causados, por malvadez, pela leva – mais numerosa – que nos antecedeu.
Campo de refugiados em Groodfontein
Funcionava um serviço de pequeno-almoço e almoço. Porque era sempre a mesma “ementa” (carne de vaca com ervilhas) e mal confeccionada, passamos à cozinha própria, até para consumir a grande quantidade de provisões levadas de Angola.
Em tenda própria funcionava um serviço de assistência médica prestada pelo Dr. David Parson, filho do já referido Dr. Parson do hospital do Bongo.
Cerca de uma semana após a nossa chegada ao campo, o nosso grupo divide-se: Camilo, Adelaide, sete filhos com idades entre um e treze anos, em transporte rodoviário ocasional, partem para Windhoek; e dali, de comboio, até Johanesburgo munidos das passagens de avião, compradas em Angola, com destino ao Brasil.
Nos finais de Setembro o Dr. David anuncia a possibilidade de emigração dos refugiados no campo para os E.U.A., com transporte aéreo gratuito, através de uma instituição americana. Só seriam aceites inscrições de pessoas com os passaportes válidos.
A notícia despertou certa euforia. Como nem todos possuíam passaporte, por solicitação dirigida ao Cônsul de Portugal em Windhoek, este fez deslocar um funcionário ao campo a fim de formalizar a emissão dos passaportes. O meu, tem o número 278/75; o da Lucília, 282/75, emitidos em 3 de Outubro de 1975, assinados pelo Cônsul Carlos E. de Sousa Aragão.
Tantas voltas para nada. Efectuou-se apenas um voo. Explicações: insuficiência de fundos!...

Grootfontein. – Sítio árido, sol escaldante. Foi ali, numa tarde da primeira quinzena de Outubro, por carta de Maria Andrade para a Amélia, por intermédio duma prima em Lisboa, chegou a dolorosa notícia do falecimento do Pai, Avô, Bisavô, Irmão, Sogro aos que, uns dias atrás, o haviam visitado em sinal de despedida, agora tão distantes!
Campo de refugiados em Groodfontein
Os dias foram passando. Monótonos. Tórridos de sol a sol; frios durante a noite. No exterior da vedação mais de uma centena de vários tipos de viaturas estacionadas. Umas com as cargas de origem; outras vazias. No campo de Windhoek a situação era idêntica. Os seus proprietários – alguns já em Portugal – a vende-las por valores humilhantes preferiram abandona-las.
As autoridades sul-africanas não prometiam o embarque destas para Portugal; e da parte do governo português, nem sinais. Assim, a aproximar-se a hora da nossa “repatriação”, acabamos por “vender” as quatro viaturas por cerca de 50 contos. E, por muito favor, l000 litros de combustível e 500 de óleo por 5 contos.
De pasmar: nas vésperas da devolução do campo todas as viaturas abandonadas foram recolhidas para um recinto vedado; e no decorrer de 1976, tal como haviam sido abandonadas, despachadas para Portugal e entregues aos seus donos.
No dia 22 de Outubro é anunciada a nossa partida. Nessa noite, militares e alguns residentes da cidade, honraram-nos com uma festa de despedida, no recinto de jogos desportivos, com grupo musical.
No dia 23, os nossos pertences, devidamente rotulados, são transportados para a estação do comboio; e, de seguida, as pessoas: acomodadas, por agregado, em cabines com beliches de acordo com o número de indivíduos. Coube-nos a cabina 21, onde encontramos latas de conservas, fruta natural e bebidas. Ao meio-dia em ponto, ouve-se o silvar do comboio. Em toda a sua extensão, o acenar de muita gente, entre esta um Padre a dar-nos a sua bênção. Bem – hajam! Adeus Grootfontein!
Partida do campo de refugiados de Groodfontein para a estação de comboios.
Os poucos que ficaram no campo – entre estes o Zeca, Amélia e filhas – foram enviados para Johanesburgo, e dali, de avião, para Portugal.
Cerca das l7 horas o comboio pára na estação de Otchivarongo, para atrelagem doutras carruagens com mais gente proveniente do campo de Windhoek. Retomada a marcha, sem paragens, às 8 horas do dia 24, ouve-se o chiar dos travões a anunciar o fim da viagem e da linha-férrea. Estávamos no porto de Walvis Bay.
Sob denso nevoeiro, 1500 (?) desafortunados, em fila, vão sendo transferidos para bordo dum navio de cruzeiro, fretado pela África do Sul. A operação, cuidadosamente controlada pelas duas partes – autoridade sul-africana e tripulação do navio –, demorou umas duas horas. Foi respeitada a atribuição de camarotes e beliches de acordo com a praticada no comboio. Calhou-nos o camarote 21. Foi servido almoço e jantar no navio, ainda ancorado.
Dormimos bem. Seriam seis horas, dia 25, quando nos apercebemos que o “Oceanic”, de Taiwan, já havia levantado ferro. Cumpria a sua terceira e última viagem: numa missão sem nome.
ADEUS ÁFRICA!
Oceanic Independence, o navio que nos trouxe para Portugal.
A bordo, em gabinete adequado ao seu trabalho, encontrava-se uma funcionária do Instituto de Apoio ao Retorno de Nacionais – IARN, de nome Lígia. A sua missão consistia no contacto com as famílias nucleares e indivíduos solitários – constantes da relação em sua posse – para efeitos, se necessário, de alojamento em Portugal.
Às 8 horas da manhã do dia 7 de Novembro o majestoso transatlântico “Oceanic” entra na barra do Tejo. Às l0 horas atraca no Cais da Rocha, Lisboa. É colocada a escada para o desembarque. Mas tal não acontece. A “mando”duma comissão, previamente constituída – apoiada por todos –, o desembarque só teria lugar mediante a troca dos escudos “coloniais” por escudos portugueses. O refeitório, servido o pequeno-almoço, foi encerrado. Mesmo num entra e sai da funcionária do IARN para atender à situação, manteve-se o impasse. Ante tal momento, foram distribuídas latas de feijão, fruta e leite.
Às 22 horas é anunciada a troca da moeda, no aeroporto. As deslocações seriam de autocarro, em grupos de 30: cabeças dos agregados familiares e solitários. Em qualquer das situações, a troca era de 5.000$00 apenas! Atendidos os dois primeiros grupos – dos quais fiz parte – as operações foram suspensas.
No aeroporto, pelo mesmo motivo, assistia-se a uma situação confrangedora: na zona das chegadas, gente deitada no chão, enquanto os mais fortes, revoltados, mantinham-se firmes.
No dia 8 foram distribuídas pelo IARN senhas individuais de almoço, servidos pelos restaurantes próximos do cais.
Com a tripulação do navio a dar sinais de impaciência, a meio da tarde os passageiros espalham-se pelas varandas e convés com gestos de manifesto protesto. Depois dum constante sobe e desce, é retomada a troca de moeda no aeroporto. A comissão recusa mais deslocações. Exige que a operação fosse efectuada no navio. Quase de imediato entram dois “bancários”, com suas maletas, acompanhados por funcionários do IARN. Terminadas as transações, o pessoal abandona o navio. E, de seguida, descarregadas as bagagens, atiradas brutalmente para o chão pelos malvados estivadores.
De rol nas mãos, os funcionários do IARN fazem a chamada e em simultâneo a separação em grupos – de antemão selecionados – para diversos locais de alojamento. Calhou-nos o Grande Hotel da Figueira da Foz. Onde, acompanhados pela S.ª Lígia, chegamos já próximo da meia-noite. Distribuídos os quartos – coube-nos o 421 –, mesmo àquela hora tardia, foi-nos servida, nos aposentos, uma merenda.
Desgraça nossa: estávamos em Portugal; num Portugal sem rei nem roque… Em Angola, éramos cidadãos portugueses; da fronteira de Santa Clara ao porto de Walvis Bay, refugiados portugueses; em Portugal, apátridas! Os Bilhetes de Identidade de Cidadão Nacional, encimados com a distinção
“R E P Ú B L I C A P O R T U G U E S A”
passaram a imprestáveis; nem sequer aceites para transcrição e posterior emissão dum novo B.I. de Cidadão Nacional. Para o efeito, era exigida a certidão de nascimento e a dum ascendente português constante na certidão. Em certos casos difícil e noutros impossíveis de satisfazer: daí o arrastar dos processos durante muitos anos e, até, esquecidos!
Do execrável e enganoso Instituto de Apoio ao Retorno de Nacionais – covil de ladrões – só a palavra retorno produziu efeito: enriqueceu o vocabulário com o douto adjetivo:
RETORNADO!...
Texto de Jorge da Conceição Rodrigues
«A incompreensão do presente nasce fatalmente
da ignorância do passado".
Marc Bloch
A integração dos “retornados” no interior de Portugal: o caso do distrito da Guarda
[PDF]
Formato do ficheiro: PDF/Adobe Acrobat - Visualização rápida
de NCSD OLIVEIRA - Artigos relacionados
Formato do ficheiro: PDF/Adobe Acrobat - Visualização rápida
de NCSD OLIVEIRA - Artigos relacionados
quinta-feira, 11 de novembro de 2010
Angola, a terra prometida
Há uma nova geração a querer partir para aquela que foi a jóia do colonialismo português. Mas existem também os outros, os que nunca voltarão a África e continuarão aqui, alimentados pela nostalgia de um espaço. Ou será antes de um tempo?
Luís Palmeirim poderia dizer o mesmo que o herói de Apocalipse Now: «Pedi uma missão e deram-ma.» Mas, no seu caso, o objectivo era mais do que pacífico, apesar de, nesse ano de 1997, Angola estar ainda a ferro e fogo. Teria de medir e pesar crianças de duas aldeias perdidas no Kwanza Sul. E, ao contrário do protagonista do filme, não ficou com razões para se arrepender da aventura em que se metera. A Angola real estava muito longe de corresponder à que idealizara, mas nem por isso o fez menos feliz.
«Os olhos com que vejo Angola não são os do português médio», diz Luís Palmeirim, hoje com 31 anos. E tem todas as razões para o que afirma. Aos 25 anos despediu-se da multinacional onde era gestor de marketing para correr mundo e acabou a trabalhar dez meses em Angola, como voluntário. Sempre tivera curiosidade de ver a terra onde chegara com 3 meses e de onde toda a família partira tinha ele 3 anos. O pai foi o último presidente da Câmara da Luanda colonial.
Afinal, as crianças estavam óptimas. É verdade que algumas choravam quando ele aparecia, porque nunca tinham visto um branco, um pula. Mas a ONU não tinha razões para se preocupar com a situação nutricional dos miúdos de Porto Amboim e Sumbe, por onde andou durante dez dias. A ele, que é gestor e tem hoje a sua própria empresa, a situação só lhe confirmou que estava certa a teoria de Keynes, o pai da economia de mercado pura e dura: «Há uma mão invisível que faz com que, se ninguém intervier, as coisas funcionem bem por si próprias.» Traduzido para Angola, o princípio deve entender-se assim: «Se ninguém intervier, os angolanos sabem tratar deles muito bem. O problema é que toda gente lá quer mexer, porque aquilo é riquíssimo.»
Luís cresceu a fantasiar com uma África que conhecia pelas memórias da família. Como o dia em que o irmão Jorge, hoje biólogo, queria levar para casa uns jacarés recém-nascidos que estavam mal instalados no zoo. Ou a noite em que os pais atravessaram uma savana a arder. E ouvia histórias de rituais de tribos, de quando viviam no interior.
Foi numa Luanda idealizada que Luís aterrou, em Agosto de 1997: «Imaginava uma marginal fascinante, com as palmeiras direitinhas e calçadas à portuguesa com as pedras ainda no sítio.» A Oikos, uma organização não-governamental, escolhera-o para o seu escritório na capital angolana.
A realidade não podia ser mais contrastante. Não tanto pela pobreza, até porque já estivera na Índia e, «para isso, estava vacinado». Mas encontrou uma cidade degradada, para onde a guerra levou mais de três milhões de refugiados. Tinha de saltar por cima de um esgoto para entrar no seu prédio, onde era, aliás, o único branco. E o Governo mandara selar a caixa do elevador, para que não continuasse a ser utilizada como lixeira. Depois da independência, os técnicos partiram e muitos elevadores continuam estragados, sem funcionar.
Visitou a casa onde começou a andar e ali encontrou instalada a Texaco, uma petrolífera americana. Esteve em oito províncias, apesar da guerra. Lidou com «coisas frustrantes», como a burocracia e a corrupção. Aprendeu a palavra gasosa, o pequeno suborno que se paga em situações de aperto, por exemplo no trânsito, e viu até que podia sobreviver sem o pagar.
A imagem da cidade não correspondia à sua expectativa, mas do ponto de vista humano era «muito intensa». E imprevisível. Quando saía de casa, sabia que ia sempre acontecer-lhe «algo com que não contava» Ele gostava desse sentimento.
E construiu até a sua própria teoria sobre aquela ex-colónia: «Acho muito relativo que aquilo seja perigosíssimo. Não é verdade que os angolanos nos tenham raiva, por essa ideia de que andámos lá a explorar o preto. Se o colonialismo pecou por alguma coisa, foi por paternalismo. As pessoas são até um pouco ingénuas.»
Hoje, Luís tem uma ligação profissional com a Oikos, enquanto ambiciona vir a levar a sua empresa para Angola e Moçambique. E dividir a vida entre dois continentes, mas «viver mais lá do que aqui».
Luanda a dois tempos
Precisamente no dia 25 de Abril de 1974, Marques Palmeirim demitiu-se de presidente da Câmara de Luanda, percebendo que aquela deixara de ser a «sua» cidade. Mas nem por isso menos pacífica: «Ninguém me fez mal nenhum.» Já em Lisboa, os desajustes com o novo poder, devido aos cargos que ocupara na administração ultramarina, valeram-lhe três meses de suspensão.
Palmeirim nunca voltou a Angola. A seguir ao 25 de Abril não tinha vontade: «Eu vivi aquilo. E parte das coisas tinham sido destruídas.» O tempo, porém, deu-lhe outra dimensão da perda. Agora, gostava de «ir matar saudades, ver a marginal, a baía, e tomar um grande banho na ilha». Tem hoje 71 anos, e a forma de regressar foi entusiasmar o filho à experiência africana: «Ele encontrou o calor humano de que me lembro. Talvez eu também encontrasse. E gostava de ver o que eles fizeram, talvez coisas, quem sabe?, que nós não conseguimos realizar.»
Marques Palmeirim não esteve sequer um ano na câmara, mas conhecia o terreno em que se movimentava: «Luanda não tinha o passo certo com o que se vivia na metrópole. Havia um largo percurso a fazer na Educação, na Saúde ou na rede de esgotos.» Recorda que queria transformar em bairros sociais os musseques, as cubatas da periferia, que acabaram por ficar no centro da cidade, quando Luanda cresceu. Só deixou pronto o Musseque Rangel.
A sua visão da sociedade angolana de então, que dificilmente aceita classificar de colonial, era de convivência racial e promoção das elites locais: «Quando havia um angolano para um lugar, não o dava a um branco. Por isso demorei a encontrar dois vices para a câmara.»
O arquitecto angolano André Mingas, actualmente a ensinar em Lisboa, acredita que a geração dos colonos não voltará mais para Angola, porque não irá «reencontrar o mesmo espaço». Com os filhos deles será diferente: «Os jovens já foram à escola com negros e são os que vão em Lisboa a discotecas como a Luanda ou o Mussulo, para se reencontrarem com angolanos. Esses poderão regressar.»
André Mingas descreve assim a Luanda colonial: «Era uma cidade fundamentalmente branca, com alguns negros, funcionários ou intelectuais, que formavam uma elite que se ia afirmando. Mas a generalidade dos negros vivia nos musseques.»
Os grandes pontos de encontro dos europeus eram os cinemas ao ar livre, como o Restauração, que se tornou no parlamento, o Miramar ou o Aviz, agora Karl Marx. Ainda têm alguns espectáculos, mas o cinema passou para os vídeos domésticos, devido à insegurança na cidade. E a cervejaria Biker outro must da capital, está hoje muito degradada. Os fins-de-semana eram passados no Mussulo, perto de Luanda, então uma ilha quase virgem e hoje já com algumas construções.
André Mingas fala sobre o dia típico na Luanda da sua juventude: «As pessoas vestiam-se às 5 da tarde, para irem para a zona da Mutamba, perto da marginal. Começava, então, a passagem de modelos. Ia comer-se um camarão, mas aproveitava-se para ver as lojas, com as calças de terylene ou as Lacostes e também as raparigas que saíam do cabeleireiro, na Stendhal. Todo esse centro morreu. Hoje, fica vazio ao fim da tarde.»
Já os angolanos reuniam-se nos musseques, no Centro Social de São Paulo ou em clubes como o Maxinde. Mas não era mal visto pelos negros se alguns deles frequentassem clubes de brancos: «Havia gente ligada aos movimentos de libertação que lá ia.»
Recentemente, surgiu perto do Futungo de Belas, onde funcionava a Presidência da República, a Luanda-Sul, uma zona de condomínios fechados, onde vivem os quadros das grandes empresas e ministros ou deputados. «Foi construída para ser a grande cidade moderna, alternativa à Luanda colonial, que ficaria como o centro histórico.»
Mas este arquitecto discorda da forma como o projecto foi concretizado: «Foi um erro fazer condomínios fechados, pois, à volta, já há pessoas a viver em cubatas. Sem planeamento, corre-se o risco de criar musseques de luxo.»
A hora dos negócios
André Mingas retrata a cidade actual como uma «Luanda de transição». Mas acredita que, dentro de poucas décadas, ela se tornará numa das mais importantes capitais africanas, que a geração de angolanos que tem estado espalhada pelo exterior «marcará definitivamente».
A telenovela da TVI A Jóia de África bem pode ter sido rodada em Moçambique, mas a verdadeira jóia da coroa, a menina dos olhos do colonialismo português, era Angola. Havia petróleo, diamantes, ferro, manganês, ouro. Era o maior criador de gado de África, o segundo produtor mundial de café. Como diz um diplomata português, «Angola tinha tudo».
E tem. Só que, após mais de duas décadas de guerra civi, 60% da população vive abaixo do limiar da pobreza. Mas todas as suas riquezas continuam lá, à espera. Com o cessar-fogo ainda fresquíssimo, assinado apenas em Abril, começam, lentamente, a chegar alguns portugueses e sobretudo angolanos que viviam no exterior, percebendo que esta é a hora.
«Estão a vir alguns portugueses que nunca cá estiveram. São amigos ou filhos dos que aqui viveram e lhes pegaram o bichinho de África», diz Francisco Viana, um empresário que, logo em Maio, regressou a Luanda. Filho de um fundador do MPLA, Gentil Viana, que seria preso depois da independência, Francisco vivia em Lisboa desde 1980. Hoje tem um projecto de parques industriais para Luanda, Benguela e Cabinda.
Os portugueses vão trabalhar para o Estado ou estão a abrir os seus negócios, desde funerárias, à informática ou hotelaria. Aliás, possuem grande parte dos restaurantes. «Portugal só perde nos grandes negócios», esclarece Viana. Excepto na construção civil, onde se destaca a Soares da Costa ou a Teixeira Duarte. A África do Sul meteu-se nas minas e diamantes, a França e os EUA nos petróleos, o Brasil nas obras públicas. Existe depois uma comunidade de paquistaneses e libaneses, que se fixou nos abastecimentos.
Mesmo assim, Viana acha que os quadros angolanos do exterior, que, como ele, estão a regressar são «uma força incontornável». Viveram em Portugal, EUA, Zaire, Canadá ou Inglaterra. «Há quadros nossos em todo o lado, até na NASA. E, no Governo português, temos sempre gente», diz ele, referindo-se aos políticos de vários partidos com ascendência angolana, como João Cravinho (PS), Nascimento Rodrigues ou os falecidos Sá Machado (CDS) e Luís Sá (PCP).
Francisco Viana explica que esta é «uma hora importante para marcar terreno». Por ele, dá-se por satisfeito com o regresso. «Em Angola, havendo dinheiro, corre tudo bem. Trabalho e negócios não faltam.»
Oficiais e cooperantes
Um caso específico de regresso a África é o dos ex-militares que lá estiveram em serviço. Como Rui Teixeira, hoje professor universitário, a quem o 25 de Abril apanhou como comando em Angola. Filho de um militar, oferecera-se para a tropa em tempo de guerra. Saiu de Luanda em 1975. Regressou quatro anos mais tarde, já como cooperante, para ensinar Língua e Literatura Portuguesas.
«Após o 25 de Abril, os primeiros sentimentos dos militares, quando voltavam, eram de confusão e culpa. Com o passar do tempo vieram as saudades, uma nostalgia agridoce, de uma época em que havia a guerra, mas éramos jovens», recorda Rui Teixeira. Acha que poucos voltaram, pelo menos de início. Também entre os retornados de África refere que não tem encontrado grande entusiasmo pelo regresso: «Muitos, sobretudo as mulheres, não querem voltar ao local onde foram felizes.»
Para ele, a saudade relaciona-se com o mato: «Tem a ver com dois tipos de absoluto, o infinito do espaço e a eternidade do tempo.» Mas compreende quem recorda com gosto as cidades: «As esplanadas estavam cheias de gente a beber cerveja e a comer camarão. A vida era farta. Até os soldados viviam bem. E o sexo era fácil.»
Hoje, tem o projecto de organizar um curso na Universidade Agostinho Neto, em Luanda. Conta que desenvolveu «uma relação física» com Angola, a sua segunda pátria, diferente da que tem com a primeira. Talvez porque percorria todo o país de helicóptero, quando fecha os olhos é o verde – escuro das selvas e o quase ocre das chanas, as grandes planícies do Leste angolano, que ele vê. E tem, claro, com Angola, «os laços de sangue» que uma guerra sempre deixa.
Alguns militares fixaram-se em África mesmo antes da independência. Pezarat Correia recorda que, desde o início da guerra colonial, o Governo entusiasmava os militares a passarem lá à disponibilidade, como forma de reforçar a presença portuguesa. Fazendo hoje as contas, imagina que uns 2% dos homens que comandou terão lá ficado.
Pezarat Correia foi consultor num projecto de cooperação com Angola. E as relações que muitos dos «militares de Abril» tinham com os dirigentes dos novos países africanos permitiram-lhes trabalhar em projectos de cooperação com aquele país, ou criando as suas próprias empresas, em áreas como o import-export. Foram os casos de Rosa Coutinho ou Vasco Lourenço.
Alguns dos réus do processo FUP-25 de Abril, como Otelo Saraiva de Carvalho e Mouta Liz, refizeram a vida abrindo em Luanda a Rotliz, uma empresa de import-export.
O que é a nostalgia?
A advogada Manuela Cunha cresceu em Camabatela, um planalto agro-pecuário, e sempre achou uma fantasia a tão falada nostalgia de África. Foi preciso vir para Lisboa para acreditar que isso existe. Mas de que falamos quando falamos de nostalgia?
Manuela fez parte do governo de transição após a independência, em 1975. Depois voltou a Portugal, onde estudara, e ficou, por razões pessoais, durante quase 20 anos. Hoje, dá aulas na Universidade Agostinho Neto, tem um escritório em Luanda e tenciona dividir a sua existência entre lá e cá.
Voltou ainda em tempo de guerra, em 1994, quase acidentalmente. Foi numa missão à África do Sul e passou por Luanda. Quando deu por isso, estava lá. Os amigos tinham-lhe criado todas as condições para regressar. Mas acha que ainda pouca gente está de volta: a nostalgia choca com a dificuldade em arranjar casa ou transportes. Deixou Luanda com 600 mil pessoas, reencontrou-a com 4 milhões: «Uma noite contei no átrio do meu prédio 60 crianças que lá moravam.» Luanda rebenta.
Mas, voltando à nostalgia, ficou a saber que, em Lisboa e Luanda, são, de facto, dramaticamente diferentes «os extremos», como o clima, o barulho e a cor. Só que a saudade permitiu-lhe também esclarecer um equívoco: «As pessoas, quando falam na nostalgia do espaço, querem dizer tempo.» Os dois continentes vivem a ritmos distintos.
«Em África, a bitola do tempo é o dobro da da Europa. Não conheço ninguém que não vá a casa almoçar, descansar e depois volte para o emprego, e ainda tenha tempo para ir a casa dos outros, para a conversinha de fim de tarde.»
Manuela pensa que a nostalgia tende também a confundir-se com a diferença de estatuto que muitos portugueses tiveram em Portugal e em África. Não é que todos os brancos fossem ricos: «Muitos eram remediados e alguns até pobres.» Mesmo assim, a condição era diferente. No entanto, a grande razão da saudade tem antes a ver com a forma como partiram: «As pessoas sentiram–se compelidas a sair. Nunca encontrei um exilado sem a nostalgia do regresso, mesmo quando está a viver melhor. Isso também confunde sentimentos.»
Os dias da debandada
Houve também os portugueses que nunca saíram de Angola, como Grandão Ramos, professor da Faculdade de Direito de Luanda, que fora colocado como magistrado do Ministério Público na antiga Nova Lisboa, hoje Huambo. Depois da independência, assistiu à partida dos retornados, mas resolveu ficar com a família.
Foi o terror entre os portugueses, depois de assassínios, como o do director do Observatório Astronómico ou o de um conhecido barbeiro na cidade, «sobretudo na tentativa de ficarem com as casas». Só quando o Governo considerou estes crimes políticos, com direito a fuzilamento, eles terminaram. Depois do êxodo, sobrou na capital um único juiz-desembargador. Em todo o país ficaram 20 mil dos 600 mil portugueses que lá viviam.
Como os angolanos, Grandão Ramos viveu o período das senhas de racionamento após a independência. Mas, em Luanda, o pior foi a «guerra dos três dias», depois das eleições, em 1992. Ninguém lhe fez mal, mas viveu um tempo de susto: «Só que as dificuldades também ajudaram a agarrar-nos a esta terra.»
Em 1980, este magistrado criou a Associação 25 de Abril, que já teve mais de mil sócios e hoje se fica pelas centenas, pois muitos deles entretanto partiram. Organizam conferências, uma feira popular anual e campanhas de sangue. Actualmente, estão a ultimar a Biblioteca José Saramago.
Também Fernando Rodrigues, dono dos Armazéns do Minho, nunca partiu. Ou quase. Nasceu em Luanda em 1944 e tem, aliás, as duas nacionalidades. O 25 de Abril apanhou-o no estrangeiro, em negócios. Chegou a Lisboa no mesmo comboio em que Mário Soares regressava do exílio.
Quando regressou a Luanda, encontrou a cidade em polvorosa. Na altura da independência, em Novembro de 1975, tinha nas suas empresas «sete comissões de trabalhadores e 1 200 empregados». Resolveu ficar, mas assistiu à partida de todos os seus colegas da direcção do Automóvel Club e Touring de Angola e também à dos seus sócios numa empresa de construção, que acabou por entregar ao Governo, quando deixou de ter condições para continuar.
Porém, as suas duas fábricas, uma de tintas e outra de móveis, ainda funcionaram até aos anos 90. E, no banco, não passou sustos de maior: «As contas de quem ficou nunca foram congeladas.»
O êxodo foi também precipitado pela morte de alguns comerciantes portugueses nos musseques. E muitos assustaram-se com um discurso que Fernando Rodrigues atribui a Agostinho Neto, em que terá dito que «o que era dos brancos será dos negros». Mas existem diferentes versões sobreas palavras que terão assustado os colonos. Há mesmo quem as atribua a Savimbi, que, num comício, terá dito isso em umbundo.
«Muita gente decidiu ir passar a independência a Lisboa e, depois, já não pôde voltar», lembra Fernando Rodrigues. Em 1976, surgiu a célebre lei dos 45 dias: quem se tivesse ausentado por mais tempo, teria os bens congelados.
Fernando ficou até 1977. Veio então para Lisboa, devido aos rumores de que os angolanos só iriam passar a poder sair de dois em dois anos. E, entretanto, ele mandara a mulher e os filhos pequenos para Portugal. Voltou a Luanda em 1983, mas mudou de hábitos: «Passei a estar mais confinado a casa. Não estou para ser incomodado por um polícia.»
Alfredo de Jesus, conhecido por Manguxi, vai fazer 41 anos de Angola. Nascido em Gouveia, na Serra da Estrela, foi em adolescente juntar-se à família, que tinha uma grande fazenda no Pango Aluquem, a 170 quilómetros de Luanda, na região dos Dembos. Fala hoje três dialectos.
De toda a família foi o único que ficou após a independência: «Queria segurar o que era nosso e confiava na população.» Aliás, tinha um motivo acrescido para lá continuar. Casara com uma angolana e tinha a primeira filha para nascer: «Com uma mulher negra e filhos mulatos, não sabia como seriam as coisas em Portugal.»
No Pango continuou a ser feliz, apesar da guerra: «Não tive problema nenhum. Acho até que fui protegido, por ser um branco que ficou.» Até que a UNITA tomou a zona, em 1986, e teve de fugir para Luanda. Era, então, o único português que restava no Pango Aluquem.
Manguxi, que comercializava café e óleo de palma, abriu na capital um negócio de cimentos. As propriedades foram confiscadas, mas o Governo já lhas devolveu por um bom preço. As estradas do Pango ainda não estão totalmente desminadas, mas ele voltou lá, recentemente. E mostra as fotografias que fez: «Aquilo era só mato, mas senti-me em casa.» E está a preparar o regresso.
Hoje, não só os seus irmãos querem voltar, como muitos portugueses se aproximam dele, para saber como param as modas: «Têm saudades da vida que levavam cá. Andam-se quilómetros e quilómetros para almoçar com um amigo. Muitos querem vir ver como estão as coisas que deixaram. E outros dizem que não querem morrer sem vir a Angola comer uma funjada», um prato com farinha de milho ou mandioca amassada.
O ano da esperança
«Grande parte dos portugueses que estão a voltar não são os que lá viveram», frisa Humberto Baptista da Costa, primeiro-secretário da Casa de Angola em Lisboa. Pelo que ele conhece através desta instituição, acha mesmo que a geração que foi vindo para Portugal depois da independência nem sequer ali voltará: «Passaram muitos anos, as pessoas mudaram de hábitos e aquele mundo já não é o que conhecemos.» Não se pode regressar ao que já não existe.
Constituem, de certa forma, uma geração perdida, que não voltará lá, mas que também não se sente totalmente parte daqui, apesar de se ter integrado económica e socialmente. Como diz Baptista da Costa, «vivemos no paquete». E, no entanto, houve um momento…
Durou apenas entre 25 de Abril de 1974 e o início da guerra civil, em Maio de 1975. «Foi um ano excepcional e que está muito mal estudado. É um momento em que ainda estamos todos presentes, cada um com a sua ideia de Angola, mas todos a pensar na independência. Foi o ano de todas as esperanças, de todos os projectos», explica Maria Alexandre Dáskalos, casada com o historiador Arlindo Barbeitos e ela própria a preparar o mestrado em História.
Lembra que, ao contrário da África do Sul, não houve em Angola uma organização de direita formada por brancos: «Isso teve que ver com a política do marcelismo, que foi de maior convivialidade racial e mais distensão. Mesmo os brancos aceitaram que a independência era para os negros. A Angola colonial tinha sido de separação entre o mundo dos brancos e o dos negros, com algumas pessoas que faziam a ponte entre ambos.»
Hoje, diz Maria Alexandre, «cada um tem na cabeça a sua Angola, ou mesmo várias, consoante o tempo que lá esteve». Ela, que nasceu em Nova Lisboa, teve de fugir para Luanda logo no início da guerra. Voltou seis meses depois, para encontrar a cidade com outro nome e vazia: «Em Luanda, depois da independência, assistira às filas de caixotes com destino a Lisboa. Mas ali era diferente. O merceeiro, o padeiro, toda a gente partira.»
Maria Alexandre pertence a uma família que estava há várias gerações em Angola e com ligações ao MPLA. Depois, os caminhos descruzaram-se. No seu caso, há 18 anos que se afastou daquele partido. Fixou-se em Lisboa há dez e, desde então, já voltou ao Huambo. Está, aliás, para lá regressar agora. Mas dificilmente chama a isso ir à terra: «Voltar ao paraíso da infância é, por exemplo, visitar o porteiro da escola. Nós não podemos fazer isso. Muita gente que conhecia está hoje morta. A guerra foi tão prolongada que nos tirou as referências.»
Emília Caetano / VISÃO nº 510 / 12 Dez. 2002
Luís Palmeirim poderia dizer o mesmo que o herói de Apocalipse Now: «Pedi uma missão e deram-ma.» Mas, no seu caso, o objectivo era mais do que pacífico, apesar de, nesse ano de 1997, Angola estar ainda a ferro e fogo. Teria de medir e pesar crianças de duas aldeias perdidas no Kwanza Sul. E, ao contrário do protagonista do filme, não ficou com razões para se arrepender da aventura em que se metera. A Angola real estava muito longe de corresponder à que idealizara, mas nem por isso o fez menos feliz.
«Os olhos com que vejo Angola não são os do português médio», diz Luís Palmeirim, hoje com 31 anos. E tem todas as razões para o que afirma. Aos 25 anos despediu-se da multinacional onde era gestor de marketing para correr mundo e acabou a trabalhar dez meses em Angola, como voluntário. Sempre tivera curiosidade de ver a terra onde chegara com 3 meses e de onde toda a família partira tinha ele 3 anos. O pai foi o último presidente da Câmara da Luanda colonial.
Afinal, as crianças estavam óptimas. É verdade que algumas choravam quando ele aparecia, porque nunca tinham visto um branco, um pula. Mas a ONU não tinha razões para se preocupar com a situação nutricional dos miúdos de Porto Amboim e Sumbe, por onde andou durante dez dias. A ele, que é gestor e tem hoje a sua própria empresa, a situação só lhe confirmou que estava certa a teoria de Keynes, o pai da economia de mercado pura e dura: «Há uma mão invisível que faz com que, se ninguém intervier, as coisas funcionem bem por si próprias.» Traduzido para Angola, o princípio deve entender-se assim: «Se ninguém intervier, os angolanos sabem tratar deles muito bem. O problema é que toda gente lá quer mexer, porque aquilo é riquíssimo.»
Luís cresceu a fantasiar com uma África que conhecia pelas memórias da família. Como o dia em que o irmão Jorge, hoje biólogo, queria levar para casa uns jacarés recém-nascidos que estavam mal instalados no zoo. Ou a noite em que os pais atravessaram uma savana a arder. E ouvia histórias de rituais de tribos, de quando viviam no interior.
Foi numa Luanda idealizada que Luís aterrou, em Agosto de 1997: «Imaginava uma marginal fascinante, com as palmeiras direitinhas e calçadas à portuguesa com as pedras ainda no sítio.» A Oikos, uma organização não-governamental, escolhera-o para o seu escritório na capital angolana.
A realidade não podia ser mais contrastante. Não tanto pela pobreza, até porque já estivera na Índia e, «para isso, estava vacinado». Mas encontrou uma cidade degradada, para onde a guerra levou mais de três milhões de refugiados. Tinha de saltar por cima de um esgoto para entrar no seu prédio, onde era, aliás, o único branco. E o Governo mandara selar a caixa do elevador, para que não continuasse a ser utilizada como lixeira. Depois da independência, os técnicos partiram e muitos elevadores continuam estragados, sem funcionar.
Visitou a casa onde começou a andar e ali encontrou instalada a Texaco, uma petrolífera americana. Esteve em oito províncias, apesar da guerra. Lidou com «coisas frustrantes», como a burocracia e a corrupção. Aprendeu a palavra gasosa, o pequeno suborno que se paga em situações de aperto, por exemplo no trânsito, e viu até que podia sobreviver sem o pagar.
A imagem da cidade não correspondia à sua expectativa, mas do ponto de vista humano era «muito intensa». E imprevisível. Quando saía de casa, sabia que ia sempre acontecer-lhe «algo com que não contava» Ele gostava desse sentimento.
E construiu até a sua própria teoria sobre aquela ex-colónia: «Acho muito relativo que aquilo seja perigosíssimo. Não é verdade que os angolanos nos tenham raiva, por essa ideia de que andámos lá a explorar o preto. Se o colonialismo pecou por alguma coisa, foi por paternalismo. As pessoas são até um pouco ingénuas.»
Hoje, Luís tem uma ligação profissional com a Oikos, enquanto ambiciona vir a levar a sua empresa para Angola e Moçambique. E dividir a vida entre dois continentes, mas «viver mais lá do que aqui».
Luanda a dois tempos
Precisamente no dia 25 de Abril de 1974, Marques Palmeirim demitiu-se de presidente da Câmara de Luanda, percebendo que aquela deixara de ser a «sua» cidade. Mas nem por isso menos pacífica: «Ninguém me fez mal nenhum.» Já em Lisboa, os desajustes com o novo poder, devido aos cargos que ocupara na administração ultramarina, valeram-lhe três meses de suspensão.
Palmeirim nunca voltou a Angola. A seguir ao 25 de Abril não tinha vontade: «Eu vivi aquilo. E parte das coisas tinham sido destruídas.» O tempo, porém, deu-lhe outra dimensão da perda. Agora, gostava de «ir matar saudades, ver a marginal, a baía, e tomar um grande banho na ilha». Tem hoje 71 anos, e a forma de regressar foi entusiasmar o filho à experiência africana: «Ele encontrou o calor humano de que me lembro. Talvez eu também encontrasse. E gostava de ver o que eles fizeram, talvez coisas, quem sabe?, que nós não conseguimos realizar.»
Marques Palmeirim não esteve sequer um ano na câmara, mas conhecia o terreno em que se movimentava: «Luanda não tinha o passo certo com o que se vivia na metrópole. Havia um largo percurso a fazer na Educação, na Saúde ou na rede de esgotos.» Recorda que queria transformar em bairros sociais os musseques, as cubatas da periferia, que acabaram por ficar no centro da cidade, quando Luanda cresceu. Só deixou pronto o Musseque Rangel.
A sua visão da sociedade angolana de então, que dificilmente aceita classificar de colonial, era de convivência racial e promoção das elites locais: «Quando havia um angolano para um lugar, não o dava a um branco. Por isso demorei a encontrar dois vices para a câmara.»
O arquitecto angolano André Mingas, actualmente a ensinar em Lisboa, acredita que a geração dos colonos não voltará mais para Angola, porque não irá «reencontrar o mesmo espaço». Com os filhos deles será diferente: «Os jovens já foram à escola com negros e são os que vão em Lisboa a discotecas como a Luanda ou o Mussulo, para se reencontrarem com angolanos. Esses poderão regressar.»
André Mingas descreve assim a Luanda colonial: «Era uma cidade fundamentalmente branca, com alguns negros, funcionários ou intelectuais, que formavam uma elite que se ia afirmando. Mas a generalidade dos negros vivia nos musseques.»
Os grandes pontos de encontro dos europeus eram os cinemas ao ar livre, como o Restauração, que se tornou no parlamento, o Miramar ou o Aviz, agora Karl Marx. Ainda têm alguns espectáculos, mas o cinema passou para os vídeos domésticos, devido à insegurança na cidade. E a cervejaria Biker outro must da capital, está hoje muito degradada. Os fins-de-semana eram passados no Mussulo, perto de Luanda, então uma ilha quase virgem e hoje já com algumas construções.
André Mingas fala sobre o dia típico na Luanda da sua juventude: «As pessoas vestiam-se às 5 da tarde, para irem para a zona da Mutamba, perto da marginal. Começava, então, a passagem de modelos. Ia comer-se um camarão, mas aproveitava-se para ver as lojas, com as calças de terylene ou as Lacostes e também as raparigas que saíam do cabeleireiro, na Stendhal. Todo esse centro morreu. Hoje, fica vazio ao fim da tarde.»
Já os angolanos reuniam-se nos musseques, no Centro Social de São Paulo ou em clubes como o Maxinde. Mas não era mal visto pelos negros se alguns deles frequentassem clubes de brancos: «Havia gente ligada aos movimentos de libertação que lá ia.»
Recentemente, surgiu perto do Futungo de Belas, onde funcionava a Presidência da República, a Luanda-Sul, uma zona de condomínios fechados, onde vivem os quadros das grandes empresas e ministros ou deputados. «Foi construída para ser a grande cidade moderna, alternativa à Luanda colonial, que ficaria como o centro histórico.»
Mas este arquitecto discorda da forma como o projecto foi concretizado: «Foi um erro fazer condomínios fechados, pois, à volta, já há pessoas a viver em cubatas. Sem planeamento, corre-se o risco de criar musseques de luxo.»
A hora dos negócios
André Mingas retrata a cidade actual como uma «Luanda de transição». Mas acredita que, dentro de poucas décadas, ela se tornará numa das mais importantes capitais africanas, que a geração de angolanos que tem estado espalhada pelo exterior «marcará definitivamente».
A telenovela da TVI A Jóia de África bem pode ter sido rodada em Moçambique, mas a verdadeira jóia da coroa, a menina dos olhos do colonialismo português, era Angola. Havia petróleo, diamantes, ferro, manganês, ouro. Era o maior criador de gado de África, o segundo produtor mundial de café. Como diz um diplomata português, «Angola tinha tudo».
E tem. Só que, após mais de duas décadas de guerra civi, 60% da população vive abaixo do limiar da pobreza. Mas todas as suas riquezas continuam lá, à espera. Com o cessar-fogo ainda fresquíssimo, assinado apenas em Abril, começam, lentamente, a chegar alguns portugueses e sobretudo angolanos que viviam no exterior, percebendo que esta é a hora.
«Estão a vir alguns portugueses que nunca cá estiveram. São amigos ou filhos dos que aqui viveram e lhes pegaram o bichinho de África», diz Francisco Viana, um empresário que, logo em Maio, regressou a Luanda. Filho de um fundador do MPLA, Gentil Viana, que seria preso depois da independência, Francisco vivia em Lisboa desde 1980. Hoje tem um projecto de parques industriais para Luanda, Benguela e Cabinda.
Os portugueses vão trabalhar para o Estado ou estão a abrir os seus negócios, desde funerárias, à informática ou hotelaria. Aliás, possuem grande parte dos restaurantes. «Portugal só perde nos grandes negócios», esclarece Viana. Excepto na construção civil, onde se destaca a Soares da Costa ou a Teixeira Duarte. A África do Sul meteu-se nas minas e diamantes, a França e os EUA nos petróleos, o Brasil nas obras públicas. Existe depois uma comunidade de paquistaneses e libaneses, que se fixou nos abastecimentos.
Mesmo assim, Viana acha que os quadros angolanos do exterior, que, como ele, estão a regressar são «uma força incontornável». Viveram em Portugal, EUA, Zaire, Canadá ou Inglaterra. «Há quadros nossos em todo o lado, até na NASA. E, no Governo português, temos sempre gente», diz ele, referindo-se aos políticos de vários partidos com ascendência angolana, como João Cravinho (PS), Nascimento Rodrigues ou os falecidos Sá Machado (CDS) e Luís Sá (PCP).
Francisco Viana explica que esta é «uma hora importante para marcar terreno». Por ele, dá-se por satisfeito com o regresso. «Em Angola, havendo dinheiro, corre tudo bem. Trabalho e negócios não faltam.»
Oficiais e cooperantes
Um caso específico de regresso a África é o dos ex-militares que lá estiveram em serviço. Como Rui Teixeira, hoje professor universitário, a quem o 25 de Abril apanhou como comando em Angola. Filho de um militar, oferecera-se para a tropa em tempo de guerra. Saiu de Luanda em 1975. Regressou quatro anos mais tarde, já como cooperante, para ensinar Língua e Literatura Portuguesas.
«Após o 25 de Abril, os primeiros sentimentos dos militares, quando voltavam, eram de confusão e culpa. Com o passar do tempo vieram as saudades, uma nostalgia agridoce, de uma época em que havia a guerra, mas éramos jovens», recorda Rui Teixeira. Acha que poucos voltaram, pelo menos de início. Também entre os retornados de África refere que não tem encontrado grande entusiasmo pelo regresso: «Muitos, sobretudo as mulheres, não querem voltar ao local onde foram felizes.»
Para ele, a saudade relaciona-se com o mato: «Tem a ver com dois tipos de absoluto, o infinito do espaço e a eternidade do tempo.» Mas compreende quem recorda com gosto as cidades: «As esplanadas estavam cheias de gente a beber cerveja e a comer camarão. A vida era farta. Até os soldados viviam bem. E o sexo era fácil.»
Hoje, tem o projecto de organizar um curso na Universidade Agostinho Neto, em Luanda. Conta que desenvolveu «uma relação física» com Angola, a sua segunda pátria, diferente da que tem com a primeira. Talvez porque percorria todo o país de helicóptero, quando fecha os olhos é o verde – escuro das selvas e o quase ocre das chanas, as grandes planícies do Leste angolano, que ele vê. E tem, claro, com Angola, «os laços de sangue» que uma guerra sempre deixa.
Alguns militares fixaram-se em África mesmo antes da independência. Pezarat Correia recorda que, desde o início da guerra colonial, o Governo entusiasmava os militares a passarem lá à disponibilidade, como forma de reforçar a presença portuguesa. Fazendo hoje as contas, imagina que uns 2% dos homens que comandou terão lá ficado.
Pezarat Correia foi consultor num projecto de cooperação com Angola. E as relações que muitos dos «militares de Abril» tinham com os dirigentes dos novos países africanos permitiram-lhes trabalhar em projectos de cooperação com aquele país, ou criando as suas próprias empresas, em áreas como o import-export. Foram os casos de Rosa Coutinho ou Vasco Lourenço.
Alguns dos réus do processo FUP-25 de Abril, como Otelo Saraiva de Carvalho e Mouta Liz, refizeram a vida abrindo em Luanda a Rotliz, uma empresa de import-export.
O que é a nostalgia?
A advogada Manuela Cunha cresceu em Camabatela, um planalto agro-pecuário, e sempre achou uma fantasia a tão falada nostalgia de África. Foi preciso vir para Lisboa para acreditar que isso existe. Mas de que falamos quando falamos de nostalgia?
Manuela fez parte do governo de transição após a independência, em 1975. Depois voltou a Portugal, onde estudara, e ficou, por razões pessoais, durante quase 20 anos. Hoje, dá aulas na Universidade Agostinho Neto, tem um escritório em Luanda e tenciona dividir a sua existência entre lá e cá.
Voltou ainda em tempo de guerra, em 1994, quase acidentalmente. Foi numa missão à África do Sul e passou por Luanda. Quando deu por isso, estava lá. Os amigos tinham-lhe criado todas as condições para regressar. Mas acha que ainda pouca gente está de volta: a nostalgia choca com a dificuldade em arranjar casa ou transportes. Deixou Luanda com 600 mil pessoas, reencontrou-a com 4 milhões: «Uma noite contei no átrio do meu prédio 60 crianças que lá moravam.» Luanda rebenta.
Mas, voltando à nostalgia, ficou a saber que, em Lisboa e Luanda, são, de facto, dramaticamente diferentes «os extremos», como o clima, o barulho e a cor. Só que a saudade permitiu-lhe também esclarecer um equívoco: «As pessoas, quando falam na nostalgia do espaço, querem dizer tempo.» Os dois continentes vivem a ritmos distintos.
«Em África, a bitola do tempo é o dobro da da Europa. Não conheço ninguém que não vá a casa almoçar, descansar e depois volte para o emprego, e ainda tenha tempo para ir a casa dos outros, para a conversinha de fim de tarde.»
Manuela pensa que a nostalgia tende também a confundir-se com a diferença de estatuto que muitos portugueses tiveram em Portugal e em África. Não é que todos os brancos fossem ricos: «Muitos eram remediados e alguns até pobres.» Mesmo assim, a condição era diferente. No entanto, a grande razão da saudade tem antes a ver com a forma como partiram: «As pessoas sentiram–se compelidas a sair. Nunca encontrei um exilado sem a nostalgia do regresso, mesmo quando está a viver melhor. Isso também confunde sentimentos.»
Os dias da debandada
Houve também os portugueses que nunca saíram de Angola, como Grandão Ramos, professor da Faculdade de Direito de Luanda, que fora colocado como magistrado do Ministério Público na antiga Nova Lisboa, hoje Huambo. Depois da independência, assistiu à partida dos retornados, mas resolveu ficar com a família.
Foi o terror entre os portugueses, depois de assassínios, como o do director do Observatório Astronómico ou o de um conhecido barbeiro na cidade, «sobretudo na tentativa de ficarem com as casas». Só quando o Governo considerou estes crimes políticos, com direito a fuzilamento, eles terminaram. Depois do êxodo, sobrou na capital um único juiz-desembargador. Em todo o país ficaram 20 mil dos 600 mil portugueses que lá viviam.
Como os angolanos, Grandão Ramos viveu o período das senhas de racionamento após a independência. Mas, em Luanda, o pior foi a «guerra dos três dias», depois das eleições, em 1992. Ninguém lhe fez mal, mas viveu um tempo de susto: «Só que as dificuldades também ajudaram a agarrar-nos a esta terra.»
Em 1980, este magistrado criou a Associação 25 de Abril, que já teve mais de mil sócios e hoje se fica pelas centenas, pois muitos deles entretanto partiram. Organizam conferências, uma feira popular anual e campanhas de sangue. Actualmente, estão a ultimar a Biblioteca José Saramago.
Também Fernando Rodrigues, dono dos Armazéns do Minho, nunca partiu. Ou quase. Nasceu em Luanda em 1944 e tem, aliás, as duas nacionalidades. O 25 de Abril apanhou-o no estrangeiro, em negócios. Chegou a Lisboa no mesmo comboio em que Mário Soares regressava do exílio.
Quando regressou a Luanda, encontrou a cidade em polvorosa. Na altura da independência, em Novembro de 1975, tinha nas suas empresas «sete comissões de trabalhadores e 1 200 empregados». Resolveu ficar, mas assistiu à partida de todos os seus colegas da direcção do Automóvel Club e Touring de Angola e também à dos seus sócios numa empresa de construção, que acabou por entregar ao Governo, quando deixou de ter condições para continuar.
Porém, as suas duas fábricas, uma de tintas e outra de móveis, ainda funcionaram até aos anos 90. E, no banco, não passou sustos de maior: «As contas de quem ficou nunca foram congeladas.»
O êxodo foi também precipitado pela morte de alguns comerciantes portugueses nos musseques. E muitos assustaram-se com um discurso que Fernando Rodrigues atribui a Agostinho Neto, em que terá dito que «o que era dos brancos será dos negros». Mas existem diferentes versões sobreas palavras que terão assustado os colonos. Há mesmo quem as atribua a Savimbi, que, num comício, terá dito isso em umbundo.
«Muita gente decidiu ir passar a independência a Lisboa e, depois, já não pôde voltar», lembra Fernando Rodrigues. Em 1976, surgiu a célebre lei dos 45 dias: quem se tivesse ausentado por mais tempo, teria os bens congelados.
Fernando ficou até 1977. Veio então para Lisboa, devido aos rumores de que os angolanos só iriam passar a poder sair de dois em dois anos. E, entretanto, ele mandara a mulher e os filhos pequenos para Portugal. Voltou a Luanda em 1983, mas mudou de hábitos: «Passei a estar mais confinado a casa. Não estou para ser incomodado por um polícia.»
Alfredo de Jesus, conhecido por Manguxi, vai fazer 41 anos de Angola. Nascido em Gouveia, na Serra da Estrela, foi em adolescente juntar-se à família, que tinha uma grande fazenda no Pango Aluquem, a 170 quilómetros de Luanda, na região dos Dembos. Fala hoje três dialectos.
De toda a família foi o único que ficou após a independência: «Queria segurar o que era nosso e confiava na população.» Aliás, tinha um motivo acrescido para lá continuar. Casara com uma angolana e tinha a primeira filha para nascer: «Com uma mulher negra e filhos mulatos, não sabia como seriam as coisas em Portugal.»
No Pango continuou a ser feliz, apesar da guerra: «Não tive problema nenhum. Acho até que fui protegido, por ser um branco que ficou.» Até que a UNITA tomou a zona, em 1986, e teve de fugir para Luanda. Era, então, o único português que restava no Pango Aluquem.
Manguxi, que comercializava café e óleo de palma, abriu na capital um negócio de cimentos. As propriedades foram confiscadas, mas o Governo já lhas devolveu por um bom preço. As estradas do Pango ainda não estão totalmente desminadas, mas ele voltou lá, recentemente. E mostra as fotografias que fez: «Aquilo era só mato, mas senti-me em casa.» E está a preparar o regresso.
Hoje, não só os seus irmãos querem voltar, como muitos portugueses se aproximam dele, para saber como param as modas: «Têm saudades da vida que levavam cá. Andam-se quilómetros e quilómetros para almoçar com um amigo. Muitos querem vir ver como estão as coisas que deixaram. E outros dizem que não querem morrer sem vir a Angola comer uma funjada», um prato com farinha de milho ou mandioca amassada.
O ano da esperança
«Grande parte dos portugueses que estão a voltar não são os que lá viveram», frisa Humberto Baptista da Costa, primeiro-secretário da Casa de Angola em Lisboa. Pelo que ele conhece através desta instituição, acha mesmo que a geração que foi vindo para Portugal depois da independência nem sequer ali voltará: «Passaram muitos anos, as pessoas mudaram de hábitos e aquele mundo já não é o que conhecemos.» Não se pode regressar ao que já não existe.
Constituem, de certa forma, uma geração perdida, que não voltará lá, mas que também não se sente totalmente parte daqui, apesar de se ter integrado económica e socialmente. Como diz Baptista da Costa, «vivemos no paquete». E, no entanto, houve um momento…
Durou apenas entre 25 de Abril de 1974 e o início da guerra civil, em Maio de 1975. «Foi um ano excepcional e que está muito mal estudado. É um momento em que ainda estamos todos presentes, cada um com a sua ideia de Angola, mas todos a pensar na independência. Foi o ano de todas as esperanças, de todos os projectos», explica Maria Alexandre Dáskalos, casada com o historiador Arlindo Barbeitos e ela própria a preparar o mestrado em História.
Lembra que, ao contrário da África do Sul, não houve em Angola uma organização de direita formada por brancos: «Isso teve que ver com a política do marcelismo, que foi de maior convivialidade racial e mais distensão. Mesmo os brancos aceitaram que a independência era para os negros. A Angola colonial tinha sido de separação entre o mundo dos brancos e o dos negros, com algumas pessoas que faziam a ponte entre ambos.»
Hoje, diz Maria Alexandre, «cada um tem na cabeça a sua Angola, ou mesmo várias, consoante o tempo que lá esteve». Ela, que nasceu em Nova Lisboa, teve de fugir para Luanda logo no início da guerra. Voltou seis meses depois, para encontrar a cidade com outro nome e vazia: «Em Luanda, depois da independência, assistira às filas de caixotes com destino a Lisboa. Mas ali era diferente. O merceeiro, o padeiro, toda a gente partira.»
Maria Alexandre pertence a uma família que estava há várias gerações em Angola e com ligações ao MPLA. Depois, os caminhos descruzaram-se. No seu caso, há 18 anos que se afastou daquele partido. Fixou-se em Lisboa há dez e, desde então, já voltou ao Huambo. Está, aliás, para lá regressar agora. Mas dificilmente chama a isso ir à terra: «Voltar ao paraíso da infância é, por exemplo, visitar o porteiro da escola. Nós não podemos fazer isso. Muita gente que conhecia está hoje morta. A guerra foi tão prolongada que nos tirou as referências.»
Emília Caetano / VISÃO nº 510 / 12 Dez. 2002
Subscrever:
Mensagens (Atom)

