domingo, 7 de março de 2010

Espoliados do Ultramar : NÃO HÁ VONTADE POLÍTICA

  NÃO HÁ VONTADE POLÍTICA


Os espoliados de Angola e Moçambique, pelas vozes das suas Associações fazem saber aos seus governantes que não estão dispostos a serem enteados, preparando-se para mover um processo ao Estado Português, que poderá vir a ter repercussões internacionais imprevisíveis. 0 Estado tem de assumir como pessoa de bem, e não o será enquanto não liquidar as indemnizações devidas por uma descolonização feita de «olhos fechados», sem ter em conta, na prática, a defesa de pessoas e bens que no Ultramar lutavam e dignificavam Portugal.
A Confederação Europeia dos Espoliados do Ultramar (CESOM) apoia a decisão.
II Congresso dos Espoliados do Ultramar Não há vontade política
ADULCINO SILVA
 Não foram os políticos que fizeram Angola e Moçambique. Foram todos vós, que estais aqui, mais os que não lhes foi possível estar presentes, que fizésteis aqueles países - disso o Prof. Dr. Adriano Moreira no encerramento do 2º Congresso dos Espoliados do Ultramar, que decorreu em Lisboa. «Os retornados, espoliados do Ultramar, são um valor, um bom exemplo de dignidade, do trabalho honrado o do patriotismo, constituindo um testemunho de uma situação calamitosa» - acrescentou o político e prof. Universitário Adriano Moreira que concluiu a sua intervenção, afirmando: «É necessário fazer-se o julgamento do processo político português», incitando os espoliados da «descolonização exemplar» a prosseguirem na sua justa luta reivindicando até que o Estado cumpra o seu dever.
  As 12 comunicações apresentadas focaram aspectos relevantes das reivindicações dos nossos compatriotas esbulhados pelos descolonizadores, responsáveis por um acto ignóbil sem precedentes na História de Portugal, e elas, bem como as conclusões, vão ser editadas em livro.
  Ficou perspectivado um processo judicial contra o Estado português para a obtenção das indemnizações, danos sofridos com a descolonização, patrocinada pelas Associações dos Espoliados de Angola e Moçambique, que se lamentam da falta de resposta aos ofícios enviados ao Governo, incluindo o Primeiro-Ministro, que se escudam no silêncio, denotando menos lisura neste processo. «0 Governo não se dá sequer ao incómodo de os receber, não obstante as diversas solicitações que nesse sentido têm sido feitas pela AEMO e AEAMG, nem tão pouco responder aos nossos telegramas, cartas ou desafios lançados na imprensa» - referiu, com exaltação, a Dra. Leonor Correia de Matos na sua intervenção. Por seu turno, o jornalista António Pires afirmou: «Ao coro imenso dos portugueses espoliados do Ultramar, abafado ao longo destes 15 anos pelas conveniências das camarilhas políticas, ou pelas ameaças dos Copcons e dos grupos bombistas a soldo de certos partidos, tem vindo a juntar-se os clamores dos milhões de angolanos, moçambicanos e outros povos das ex-províncias ultramarinas de Portugal, sem esquecer os bravos timorenses que ainda hoje continuam a lutar, na clandestinidade mas de armas nas mãos, contra a traiçoeira entrega que deles quis fazer o governo sediado em Lisboa, à odiosa opressão da Indonésia». Definindo a descolonização como «dolorosa realidade é que esse simples e cobarde abandono, por Portugal, das suas províncias ultramarinas e respectivas populações, longe de ter sido exemplar, na realidade foi criminoso à luz dos mais elementares princípios jurídicos internacionais», António Pires acusou o Estado, nas pessoas dos governantes de então, de «voluntária demissão das suas responsabilidades, apesar de dispor dos necessários meios e recursos».
0 Prof. José Martins Lopes abordou, com inteligência e com precisão, a situação dos funcionários portugueses em Angola após a independência, sua contagem de tempo para a aposentação, considerando os graves prejuízos criados por uma situação injusta, que o Governo tem de rever. Por seu turno, Angelo Soares, que teve duas intervenções, focou o escandaloso caso dos depósitos de dinheiro nos Consulados da Beira e Maputo, e apresentou um trabalho de afirmações contraditórios de alguns políticos sobre o abandono do Ultramar, comentando com alguma ironia essas afirmações, que não podem ser esquecidas, ainda que possam ser perdoadas.
Sempre que os nomes de Mário Soares, Almeida Santos ou Rosa Coutinho e Costa Gomes eram proferidos, a assistência irrompia em assobiadelas e protestos. Fonte de apupos foram Melo Antunes e Otelo Saraiva de Carvalho.
CREDORES DO ESTADO HA 16 ANOS
Cora Pena, num brilhante improviso, afirmou: «Fornos vítimas de um vergonhoso abandono conluio com a internacional comunista e a internacional socialista». A presidente da AEANG adiantou: «Há 16 anos credores do Estado português que não sabe honrar os seus compromissos», tendo salientado «a descolonização levou ao exílio os melhores filhos de Angola e Moçambique, e arrastou as populações nativas para a guerra, fome e tortura». A terminar a Core Pena, que foi aplaudida de pé, demoradamente, alertou para as eleições presidenciais e legislativas que se aproximam: «0 voto é a arma que os políticos mais temem e mais desejam. Vamos saber utilizar esses votos (cerca de 870 mil)». A presidente da AEANG salientou ainda: «Os Direitos do Homem e um sentimento debochado por parte da maioria dos políticos portugueses, e a descolonização foi uma traição ao Povo português».
Usou da palavra o presidente da Confederação Europeia dos Espoliados do Ultramar (CESOM), sediada em Paris, que se insurgiu contra a recusa do Conselho da Europa de aceitar a filiação daquela organização. Julien-Noel Lenaspre criticou o facto das «nações europeias, incluindo Portugal, com territórios em África, ter «esbanjado dinheiro com apoios ao Terceiro Mundo e não terem indemnizado os espoliados». 0 presidente da CESON acusou: «A ajuda da Europa ao Terceiro Mundo tem servido para alimentar a fraude e a corrupção dos dirigentes políticos africanos».
Para além das indemnizações foram debatidos os temas das pensões e reformas para os retornados a Portugal Continental com a descolonização, bem como a estranheza pelo não aproveitamento pela experiência dos largos milhares de «retornados» de África no actual relacionamento com os Palop's.
Para além de Adriano Moreira, que presidiu ao Congresso, estiveram presentes os generais Silvino Silvério Marques, Kaulza de Arriaga, Altino de Magalhães e o Prof. Marcelo Rebelo de Sousa. A sessão foi aberta pelo presidente da AEMO, dr. Costa Borges, que revelou estar a ser estudada por juristas a forma de intentar uma acção judicial, que possa ir até às instâncias internacionais, contra o Estado português pela falta grave e pelo sistemático silêncio à volta das justas petições dos ofendidos e vítimas da descolonização.
NOTA FINAL
A imagem que os espoliados do Ultramar português têm dos governantes, e de uma maneira geral da classe política, não é abonatória, nem cristalina. Os espoliados do Ultramar não acreditam nas promessas eleitoralistas dos políticos, tendo em conta o esquecimento a que foram votados, após a morte do Dr. Francisco Sá Carneiro, que se mostrou defensor dos espoliados. Compreende-se, pois, a excitação que domina os largos milhares de compatriotas vindos da além-mar, humilhados, traídos e ofendidos por um grupo de párias, para quem a Pátria é apenas e tão-só o lugar onde dormem. 
(In Jornal "O DIA" – 09/12/1990)

Convocar fantasmas para abrir feridas

Convocar fantasmas para abrir feridas


A Assembleia da República chumbou o projecto de lei do CDS/PP que previa a atribuição de avultadas indemnizações para «reparar» os prejuízos sofridos pelos cidadãos provenientes das ex-colónias após o 25 de Abril.
O diploma foi inviabilizado com os votos contra do PS, PCP, PEV e BE, recebendo apenas os votos favoráveis dos proponentes e do PSD. Sentidos de voto que traduziram a linha de fractura estabelecida no hemiciclo, com as bancadas dos partidos de direita a considerarem tal reparação um acto de justiça e as restantes bancadas a acusarem os populares de pretenderem reabrir uma «ferida já sanada» na sociedade portuguesa.
João Amaral, em nome do PCP, considerou mesmo que o CDS/PP pretendeu «convocar fantasmas para abrir feridas» ao prometer aquilo que sabe de antemão não pode ser cumprido. «Isto é manipulação de sentimentos para efeitos meramente partidários; é uma atitude intolerável na vida democrática», sublinhou o parlamentar comunista, antes de recordar que a estes mesmos portugueses a quem os populares agora se dirigem já o regime fascista encabeçado por Salazar semeara ilusões e fizera promessas que «não poderia cumprir».
João Amaral aludia à manutenção das colónias como território português, algo que do seu ponto de vista o ditador «sabia perfeitamente não ser possível». Sabia-o desde o final da II Grande Guerra, «quando se fortaleceu o movimento anti-colonial e quando este teve a expressão que teve no quadro das Nações Unidas e das suas resoluções». Soube-o ainda, recordou, com as lutas desenvolvidas nos anos 60 nos territórios das ex-colónias, com a formação dos movimentos nacionalistas, com o detonar da guerra, ou ainda com a declaração unilateral da independência da Guiné pelo PAIGC.
Ao trazer estes elementos à colação João Amaral fê-lo na convicção de que qualquer abordagem ao tema implica que se fale não apenas do problema mas também das suas causas. Uma perspectiva que por não agradar ao CDS/PP, que não escondeu o seu incómodo, levaria ainda o deputado do PCP a afirmar que se a iniciativa «queria agitar fantasmas», então, «estes são os fantasmas de um processo colonial que envergonhou o País e de que nos libertámos com a Revolução do 25 de Abril».
E se o regresso dos portugueses assumiu efectivamente aspectos dramáticos, como reconheceu João Amaral, não é menos verdade que o processo ulterior de reinserção produziu resultados extraordinários. «O País foi capaz de uma obra que muitos não pensaram que fosse possível. Foi uma obra notável. Foi uma obra de múltiplas solidariedades. Foi também uma obra da administração pública», salientou.
Partindo desta questão central, João Amaral desmontou de seguida os argumentos do CDS/PP para justificar a necessidade de indemnizações aos chamados espoliados das ex-colónias. A única reacção possível face aos direitos em causa - reportando-se a bens que os portugueses detinham, e que foram expropriados ou nacionalizados - seria, no entender da bancada comunista, intentar acções, se a elas houver lugar, «contra os novos Estados africanos, nunca contra o Estado português, e de acordo com a lei desses Estados».
Qualquer outra solução, como a que está subjacente ao diploma dos populares, seria uma «loucura financeira», como a classificou João Amaral. É que, fala-se – apesar de ninguém saber em rigor nem o universo das pessoas abrangidas nem o montante, o que é em si mesmo uma fragilidade insolúvel do diploma – em verbas que podem atingir mais de seis mil milhões de contos, o que levou João Amaral a chamar a atenção para a necessidade de não esquecer o «País que somos», um «País que ainda paga pensões pouco mais acima de 20 contos».
Separadas por João Amaral deste «jogo de enganos» dos populares foram, entretanto, algumas questões que apelidou de «sérias» e que merecem uma efectiva análise. É o caso, exemplificou, da contagem do tempo de serviço de funcionários do Estado e de empresas particulares, bem como da devolução de bens que estão em instituições portuguesas, consulados e outras, que são da responsabilidade do Estado português.

«Avante!» Nº 1366 - 3.Fevereiro.2000

Espoliados & Retornados !

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Da AEMO:

Artigo de opinião publicado no Jornal de Matosinhos, em 26.08.2005, pela pena de Francisco Junqueira:

Marcelo, os judeus de Gaza e os retornados do Ultramar.

Na habitual conversa com Ana de Sousa Dias, na RTP, no último sábado, Marcelo Rebelo de Sousa, que apostou, de novo, forte, na candidatura de Cavaco Silva, vaticinando-lhe uma vitória que nem Manuel Alegre nem Mário Soares, a candidatarem-se, serão capazes de evitar, criticou algumas das afirmações do fundador do Partido Socialista, ao responder ao entrevistador António José Teixeira, relativamente à displicência com que aquele encara a necessidade de o futuro presidente da República possuir vastos e bem alicerçados conhecimentos de economia, lembran­do, a propósito, Marcelo, ter dito, Soares, que não tinha culpa de estar com 81 anos, retorquindo-lhe que também, os portugueses, nomeadamente os eleitores, desse facto muito menos culpa têm -ressaltando as condições exigidas para que alguém possa ser proposto à mais elevada magistratura da Nação - exíguas, na verdade, e até ridículas, diremos nós.
Tempo, ainda, para comparar a saída, à força, dos judeus, pelas tropas israelitas, dos colonatos onde viviam desde há 38 anos, aí fixados, estimulados, incentivados e ajudados pelos diversos governos que sempre acreditaram na construção de um Grande Israel bíblico, e consideravam, os territórios, historicamente parcelas que cumpria anexar em definitivo - contra evidências, violências, ventos, e marés - tal qual aconteceu aos pejorativamente acoimados de "retornados" das antigas Províncias Ultramarinas Portuguesas.
Esqueceu-se, Marcelo Rebelo de Sousa, que, jovem estudante, visitou o Ultramar, era, seu pai, governador-geral de Moçambique - e o general Kaúlza de Arriaga, comandante-chefe das Forças Armadas - de explicar em que é que é comparável a situação e a odisseia de uns e de outros.
Há diferenças abissais.
Ainda ninguém se dispôs a fazer uma digressão histórica comprovatória de que os territórios, ditos lusos, eram, antes da chegada dos navegadores, países organizados, com língua, com fronteiras, com um vínculo que unisse regulados, sobados, clãs, e muito mais, sem falar em estruturas básicas, inclusive invocando-se, amiúde, a escravatura -foram os portugueses a acabar com ela, em primeiro lugar, em todo o mundo (e o Padre António Vieira, nisso, foi pioneiro), assim como com a pena de morte, nessa análise, avultando a factualidade da época, a gesta protagonizada à sombra da Dilatação da Fé e do Império, sendo, os portugueses, os mais benignos, os mais humanos, os mais solidários, os mais respeitadores, os menos rapaces, dando, aqui, lições à Inglaterra, à Itália, à Alemanha, à Holanda, à França, à Espanha, aos Estados Unidos da América.
Na comparação ao episódio da expulsão dos hebreus de Gaza, há, na realidade, similitude, até na intervenção das forças judias contra compatriotas seus, no respeitante ao comportamento dos militares portugueses, que em nada ficaram desfavorecidos na brutalidade, na desumanidade, na obediência cega a chefes que ora, anchos, com o país a arder, alcandorados a principescas mordomias e reformas chorudas, vêm crescer as panças, num culto vesgo a Epicuro, a Sade, a Dionísio, ao Ventre, morada, oirescente, do seu Deus, segundo os moralistas do velho Lácio.
Os judeus, extraditados, não regressaram de mãos a abanar.
Os portugueses vieram com uma mão à frente e outra atrás - não ao cabo de 38 anos, mas de mais de 5 séculos! -, e continuam, vítimas inocentes da cupidez, à margem do que lhes é devido, entregues ao Deus-Dará, ostracizados na página mais negra da História de Portugal -à espera que, um dia, já no outro mundo, se faça justiça.
A História, às vezes, repete-se.
Vergonhosamente.
Tristemente.
Soando lugubremente, o aviso de Camões, saciado, à míngua, pelo escravo Jau, a ferretear os protagonistas desse crime:
- "Entre portugueses, traidores houve (há) algumas vezes."
AEMO - ASSOCIAÇÃO DOS ESPOLIADOS DE MOÇAMBIQUE
Tel./Fax: 351.218809996

O que foi feito dos fundos enviados para Portugal para auxílio aos retornados?




Pergunta-se a Mário Soares, ex-primeiro Ministro do Governo provisório instalado em Portugal, após a revolução de Abril, onde foi parar o dinheiro com que vários países contribuíram para os espoliados do ultramar, portugueses que vieram de Angola sem um tostão de dezenas de anos de trabalho e sacrifícios, sem o que o Estado Português tivesse assegurado os seus direitos, tal como um verdadeiro estado de direito democrático o devia ter feito...

Segundo os dados na altura divulgados em nota para as câmaras municipais do país, estes foram os valores que os espoliados como eu nunca chegaram a ver...

E.U.A.

Concedeu, primeiramente, 35 milhões de dólares destinados a auxiliar os «retornados», a fim de serem integrados na sociedade portuguesa.

Posteriormente ofereceram mais de 13 milhões de dólares além de mais 2 milhões de dólares, destinados a outros auxílios atinentes.

ALEMANHA (e organizações humanitárias)

A Caritas Alemã pôs à disposição 1 450 000 marcos, dos quais 400 000 destinados à compra local de bens imprescindíveis à vida e 200 000 destinados ao fornecimento de 18000 cobertores e 23.4 toneladas métricas de géneros alimentícios e medicamentos.

A Cruz Vermelha Alemã entregou para apoio aos deslocados em Angola 500 000 marcos ao Comité Internacional da Cruz Vermelha.
400 000 marcos, roupas, etc, e 1milhão de marcos para o primeiro programa de auxílio, no valor de 4 milhões, elaborado pela Caritas Portuguesa.
100 000 marcos em dinheiro e 400 000 em géneros alimentícios e medicamentos.
A Cruz Vermelha Alemã ofereceu, ainda, 50 000 marcos ao Comité Internacional da Cruz Vermelha, para despesas correntes, enviou para Portugal 50 tendas, uma ambulância volkswagen,  macas, 2100 cobertores de lã, 20 equipamentos para primeiros socorros, vestuário para homem e criança, artigos de higiene, sapatos, tudo no valor de 202 950 marcos. 5 toneladas métricas de alimentos para crianças no valor de 37 440 marcos.

HOLANDA

Pôs à disposição de Portugal 55 000 contos para auxílio ao retornados.

AÚSTRIA E HOLANDA

Ofereceram para apoio aos retornados mais 412 000 dólares.

SUÉCIA
Deu como primeira ajuda a quantia de 50 milhões de coroas suecas, cerca de 30 500 contos.

SUIÇA

Ofereceu para auxílio aos retornados mais de 20 000 contos, posteriormente ofereceu mais 100 000 dólares.

SUÉCIA
Este Governo em 06/11/75 decidiu dar assistência aos retornados, oferecendo 4500 toneladas de farinha de trigo,cujo valor se estimava em cinco milhões de coroas suecas.


DINAMARCA
Ofereceu para apoio aos retornados  milhão de dólares em géneros.

ITÁLIA

Concedeu para auxílio aos retornados 14 000 dólares em dinheiro.

NORUEGA

Para auxílio aos retornados ofereceu 182 000 dólares

GRÃ BRETANHA

Destinados aos retornados ofereceu auxílio sob diversas forma, num valor total de 250 mil dólares

CÁRITAS DA AUSTRIA, DINAMARCA, BELGICA E FRANÇA

Para auxilio aos retornados ofereceram 1 milhão e meio de dólares

RÚSSIA

Ofereceu grande quantidade de açúcar, cobertores, peixe, além de outros produtos alimentares, medicamentos.


Onde está tudo isto? Será que Portugal recusou tão precioso e amigável auxílio, ou será que efectivamente esse dinheiro e esses géneros ainda não chegaram a Portugal? Lá chegar chegaram. O destino de tudo isto é que desconhecemos. E ainda dizem que estamos a ser pesados ao orçamento e a fazer a vida cara. Ora tais bacoradas só podem ser afirmadas por... gente estúpida ou mal intencionada.


 De resto, quem salvou a indústria nacional de hotelaria? Quem evitou que certas fábricas de lanifícios tivessem falido... etc.

publicado por deviamossertodosiguais

Fernando Inácio Gil e a luta indemnização dos bens que tiveram de abandonar em África.

[retornados.jpg]Na sua edição de 30º. aniversário em suplemento deste domingo, o "Correio da Manhã" lisboeta, entre o que foi notícia de destaque ao longo dos últimos trinta anos, coloca em relevo o trabalho do 'macua' Fernando Inácio Gil e sua entrega desde 1975 à causa dos apelidados "retornados" que, até hoje, aguardam o pagamento por parte do governo português da indemnização dos bens que tiveram de abandonar em África.

Transcrevo: ""1979 - Meio milhão de portugueses tinha regressado das ex-colónias ultramarinas.

Não foi fácil encontrar trabalho e condições de vida digna.

Natural de Moçambique e a prestar serviço no Instituto de Apoio ao Retorno de Nacionais, Fernando Inácio Gil – que, em 1975, coordenara a ponte aérea entre Lisboa e Luanda – sustentava, em 1979, ser 'falsa a afirmação de integração total'.

Trinta anos depois, 'o que mais dói' a Fernando Gil, septuagenário, é 'o não pagamento da indemnização dos bens'. Não é sequer uma dor pessoal pois, sendo militar e requisitado para o serviço público, entretanto reformado, a vida não lhe correu mal. 'É pelos outros, os que em África construíram uma casa e a arrendaram para garantirem a reforma numa altura em que não havia Segurança Social.'...""

  • O texto integral em formato "pdf" - Aqui!
  • Retornados de África: A mancha que não se apaga... - Aqui!
  • Retornados: Drama ou epopéia inacabada? - Aqui!
  • Espoliados & Retornados - Aqui!

Angola : La tristesse et la joie d'être un “retornado”

Angola : La tristesse et la joie d'être un “retornado”Vidéo post
Petite photo du traducteur Traduit par PREPA ECT2 · 02:13 · Angola


Cet article a été traduit par les élèves de la classe préparatoire ECS4 du Lycée Ozenne de Toulouse, sous la supervision de leur professeur Audrey Lambert, dans le cadre du projet pédagogique “Initiation à la traduction d'actualités”. L'article original est paru sur Global Voices en anglais le 12 novembre 2008.

Quand l'Angola devint indépendant en 1975, les anciens colons portugais furent forcés de retourner au Portugal. Mais ils ne furent pas les seuls. D'ascendance portugaise ou pas, certains Angolais laissèrent aussi derrière eux leur vie entière. Ils abandonnèrent leur maison avec tous leurs biens, leurs voitures, leur travail et la plupart d'entre eux voyagèrent avec uniquement des vêtements de rechange. Ils n'eurent pas le temps de dire au revoir, de déposer un préavis auprès de leurs employeurs, de garantir que les maisons qu'ils laissaient grandes ouvertes leur appartenaient. Plusieurs années plus tard, les propriétaires des maisons revinrent afin de recouvrer leurs biens. Rien ne leur revînt. Les maisons avaient été occupées, dans la plupart des cas, par des gens de la campagne, ou données à d'autres personnes par l'Etat angolais, qui les avait déclarées abandonnées par les occupants précédents.

Ils arrivèrent au Portugal sans aucun espoir, ils paraissaient perdus, tenaient leurs enfants par la main et n'avaient en eux que la certitude d'un présent instable et d'un avenir gris. Au Portugal, ils étaient surnommés les retornados (revenants), terme péjoratif qui a perdu son sens avec le temps, mais qui marque toujours les âmes de ceux qui ont fui leur propre pays.

L'auteur du blog 25 de Abril O antes e o agora (25 avril - Avant et après, en portugais) narre l'histoire d'un homme qui laissa tout derrière lui pour fuir l'Angola :

Entre essa massa anónima de pessoas de destino incerto encontrava-se Ribeiro Cristovão, a sua mulher e os três filhos menores. “Mantive-me em Angola quase até à independência. Acreditava que apesar das alterações radicais haveria lugar para todos. Enganei-me.” No final de 1975 abandona o seu emprego na cervejaria Cuca e a sua casa em Nova Lisboa. O homem do desporto da Rádio Renascença confessa que os primeiros três meses passados em Lisboa foram os mais difíceis da sua vida. E sem o abrigo na casa da irmã em Alcochete, a sua história estaria hoje pintada em tons ainda mais negros. “Recordo-me de calcorrear a cidade à procura de emprego, sem sorte nenhuma. Estava mesmo desesperado. No primeiro Natal na capital, Ribeiro Cristovão afundou-se numa tristeza profunda. Ali estava ele rodeado com a sua família mas com a árvore despida de presentes. O rótulo de retornado teimava em fechar-lhe as portas”.

Parmi la foule d'anonymes dont le destin restait incertain, il y avait Ribeiro Cristovao, sa femme et ses trois petits enfants. ”Je suis resté en Angola jusqu'à ce que ce pays soit proche de l'indépendance. Je croyais que malgré les changements radicaux, il y aurait une place pour tout le monde. Je me trompais.” A la fin de l'année 1975, il quitta son travail à la brasserie Cuca et sa maison de Nova Lisboa. Le commentateur sportif de Radio Renascença confie que les trois premiers mois qu'il a vécu à Lisbonne furent les plus durs de sa vie. Et si ce n'était pour le refuge qu'a été la maison de sa soeur, à Alcochete, son histoire serait beaucoup plus sombre. “Je me souviens avoir marché à travers toute la ville à la recherche d'un travail, en vain. J'étais alors désesperé”. Lors du premier Noël dans la capitale portugaise, Ribeiro Cristovao sombra dans une profonde dépression. Il était là, entouré par sa famille, mais avec un sapin de Noël sans cadeau. L'étiquette de “revenant”, après une longue absence, lui avait fermé toutes les portes.

JPF, du blog Fado Falado voit les choses différemment :

Tenho contudo a ideia – e a convicção – de que por cá, os retornados foram na generalidade bem acolhidos. Pelo Estado e pelas pessoas em geral. Aliás a maioria e a sua descendência está por aí em situação identica à dos casos dos que já cá estavam e nas respectivas descendencias. Dir-me-ão que conhecem um caso X e outro Y diferentes. Provavelmente, há casos desses. Como os há de retornados que, não necessitando de nada, se fizeram e beneficiaram de toda a prebenda”.

J'ai cependant l'idée -et la conviction- qu'ici, de retour au pays, les colons ont été plutôt bien accueillis par l'Etat et par les gens en général. Soit dit en passant, la plupart d'entre eux, et leurs descendants, vivent actuellement ici dans la même situation que ceux qui vivaient déjà au Portugal et leurs descendants. Certains vont me dire qu'ils connaissent un cas X ou Y, et il y a probablement des histoires comme celle-ci, tout comme des histoires de “revenants” qui, alors qu'ils ne manquaient de rien, bénéficiaient de toutes les aides.

L'auteur du blog Cubatangola nous rapporte un fait curieux :

Ontem tive a certeza que uma grande maioria dos antigos habitantes de Agola, não enjeita serem chamados de “retornados”. Tenho um familiar que devido a graves problemas de saúde, ACV já por mais de quatro anos se encontra internado num lar para idosos. Recentemente conseguimos arranjar um novo lar com umas condições bastante melhores e uma assistência mais completa, para o mudamos ontem. Quando umas das empregadas soube que este novo utente tinha vivido bastantes anos em Angola e tinha regressado na leva de 75, chegou-se a ela e disse simplesmente, EU TAMBÉM SOU RETORNADA! Uma frase simples, mas tão cheia de significado que foi suficiente para acalmar esta pessoa idosa, arrancando-lhe um sorriso, aqueles sorrisos de cumplicidade que trocamos com as pessoas que já conhecemos há muitos anos. Sim, mais do que nunca continuo a acreditar que esta palavra “RETORNADOS”, identifica um povo, povo esse que não se deve envergonhar de assim ser chamado, mesmo que alguns o achem pejorativo”.


Hier, j'ai eu la certitude que la plupart des anciens résidents angolais se fichent d'être qualifiés de “revenants”. J'ai un proche qui, suite à de graves problèmes de santé -il a eu une attaque cardiaque il y a quatre ans - vit dans une maison de repos. Récemment, nous sommes parvenus à lui trouver une nouvelle place dans un établissement où les conditions d'hébergement sont bien meilleures et les soins plus nombreux, nous l'avons transféré hier.” Quand une des infirmières apprit que son nouveau patient avait vécu plusieurs années en Angola et était revenu en 1975, elle vint vers lui et lui dit simplement : « JE SUIS UNE EXPATRIÉE EGALEMENT ! ». Une phrase simple, mais tellement pleine de sens que c'était suffisant pour calmer cette personne âgée and amener un sourire sur son visage, un de ces sourires de complicité qu'on échange avec des personnes que l'on connait depuis des années. En effet, plus que jamais, je pense que ce mot «retornado» identifie une personne qui ne devrait pas avoir honte d'être appelée ainsi, même si certains pensent que c'est un mot péjoratif.

En vérité, ni l'Etat portugais ni ses citoyens n'ont rendu la vie facile à ceux qui sont revenus au pays. Un fait confirmé par JPF :

Tenho família que fugiu de Angola em 75. Foi terrível para muita gente, para muitas famílias. Pelo que apreendi na altura e sei hoje, o Estado português, na época, não lhes prestou lá o apoio que deveria. Abandonou-os, mesmo. Mas isso é uma questão que têm de colocar aos responsavéis políticos de então. Basicamente, militares barbudos, alguns comunistas, muitos revolucionários e oficiais-generais, como Rosa Coutinho, Vasco Gonçalves e Costa Gomes. E outros de quem não conhecemos os nomes”.

“J'ai de la famille qui a fui l'Angola en 1975. Ce fut terrible pour de nombreuses personnes, de multiples familles. D'après ce que j'ai appris à l'époque, et ce que je sais aujourd'hui, l'Etat portugais ne leur a pas fourni l'aide dont ils avaient besoin à ce moment-là. Ils furent en effet délaissés. Mais c'est là une question qui devrait être adressée aux politiciens concernés de l'époque. En gros, des militaires barbus, certains d'entre eux communistes, d'autres révolutionnaires, et des officiers haut gradés, tels que Rosa Coutinho, Vasco Gonçalves et Costa Gomes, ainsi que d'autres dont nous ne connaissons pas les noms.”

Il est vrai que la majorité des retornados ont décidé de rejoindre la vieille métropole, mais certains ont choisi de rester en Angola. Il s'agissait, après tout, de l'endroit où ils avaient fondé une famille, d'un pays où les rêves et un avenir prometteur ne faisaient qu'un. Sur son blog, JPF publie une histoire de courage et d'attachement à la terre natale :

“Há uns anos, li na revista Pública, uma excelente reportagem com “o mais velho português de Angola”. Era um tipo com quase 90 anos. Tinha nascido lá, por volta de 1910. O seu avô tinha ido para Angola na primeira metade do século XIX.
O homem relatava a história da sua vida. Em 74 ou 75, quando rebentaram a sério as hostilidades em Angola, desfez a casa, carregou carros e camionetas e rumou, da cidade onde vivia, a caminho de Luanda, para se pirar com a família. Chegado a meio do percurso, de muitas centenas de quilómetros e milhares de perigos, parou o carro e pensou: vou fugir para onde? Porquê? Esta é a minha terra! Esta é a terra que eu gosto!
Voltou para trás com a família e ficou. Hoje terá perto de cem anos. Ou já morreu - na terra onde nasceu e que sempre amou. E onde foi enterrado pelos seus familiares.
Não tenho dúvidas de que este velhote amava mesmo de Angola”.

“Il y a quelques années, j'ai lu une histoire formidable sur le “plus vieux Portugais en Angola”, dans le magazine Publica. C'était un vieil homme de près de 90 ans, né là-bas autour de 1910. Son grand-père était arrivé en Angola durant la première moitié du XIXème siècle. Cet homme racontait son histoire. En 1974 ou 75, quand de vives tensions éclatèrent en Angola, il fit ses valises, chargea les voitures, et quitta la ville où il vivait pour Luanda, la capitale, afin de fuir avec sa famille. Approchant la moitié de son périple, après des centaines de kilomètres et des milliers de dangers, il arrêta sa voiture et se demanda : “Où suis-je en train de fuir ? Pourquoi ? C'est ma terre ! La terre que j'aime”. Il retourna auprès de sa famille et y resta. Aujourd'hui, il approche des 100 ans. Ou, s'il est décédé depuis, ce fut sur la terre où il était né et avait toujours vécu. C'est là qu'il fut enterré par ses proches. Je n'ai aucun doute sur le fait que ce vieil homme aimait vraiment l'Angola.

Pour finir, Carlos Pereira de meus escapes (en portugais) met en ligne une vidéo prise à Luanda en 1975, un témoignage de ce qu'il appelle “des moments dramatiques pour les victimes d'une décolonisation désastreuse”.

GREAT EVASION POPULATION LUENA EAST ANGOLA 1975
par kutemba

Les très belles photos qui illustrent cette revue de blogs sont des captures d'écran de la vidéo ci-dessus, de kutemba sur Dailymotion.
DAQUI

quarta-feira, 10 de fevereiro de 2010

A Ponte Aérea da Vergonha.Esquecer??? NUNCA.

Começou em Julho de 75 e acabou a 3 de Novembro, desse mesmo ano. Quatro meses para evacuar meio milhão de pessoas e dizer adeus a Angola. Centenas de aviões, milhares de voos. Aos números imprecisos soma-se a crónica dos ressentimentos. O que aconteceu e quem teve a culpa?
Os nomes baralham-se, calam-se os dramas. O ódio é sempre mais espesso que o sangue, mas há um momento em que nem isso adianta. É quando Portugal e traição já não se distinguem e os arautos do tempo repetem o veredicto. Ventos da História, descolonização possível. Desresponsabilização, descontracção e água benta. Cobardia. Pois claro.

A 17 de Julho, a ponte aérea começa.

Gonçalves Ribeiro, mais tarde alto-comissário para os refugiados, afirma o seu pudor em abordar a matéria em causa, que define como “a experiência da sua vida”. Mal ou bem, é ele o nome que todos apontam como coordenador do air-lift-ponte aérea-que em três meses e meio transportou quase meio milhão de pessoas de Nova Lisboa e Luanda para o aeroporto da Portela.

“Houve necessidade de um certo voluntarismo, por uma questão de dignidade nacional. Era uma da últimas coisas que Portugal tinha de fazer. Ter a certeza de que quem quisesse vir não ficava. Usávamos o rádio para chegar aos sítios mais isolados, à mata, para tentar saber onde é que havia gente a precisar de transporte. Mandávamos lá a Força Aérea para as trazer aos dois grandes aeroportos. Chegavam de todo o lado, exaustos, traumatizados, sem nada. Chegou a uma altura em que a tropa portuguesa já se tinha vindo quase toda embora e mesmo em Luanda as pessoas só se sentiam seguras no aeroporto. Chegámos a ter lá 5000, numa caserna para 500 homens.”

A comida era a da base, quando havia, as instalações inexistentes. As possíveis.
O homem da ponte aérea suspira.

“Para ser diferente era preciso que houvesse aqui uma situação estável. A pergunta principal é porque é que se levou tanto tempo a descolonizar. Toda a gente fala dos militares, mas não fomos nós que começámos a guerra. E aguentámos-la catorze anos. Chegava para encontrar uma solução política, não? Até porque a situação em Angola estava perfeitamente controlada do ponto de vista militar: com a UNITA não tínhamos qualquer confronto e a Leste e a Norte, as forças que se nos opunham estavam, respectivamente, na Zâmbia e no Zaire. Mas assim, desta forma, tudo tinha de correr mal.”

O desespero era tal para entrar num avião que as pessoas ofereciam tudo. Aos funcionários de check in, aos pilotos, a quem encontrassem. Termos de café, comida, álcool, casas, carros, barcos, dinheiro, diamantes, favores variados. E quando não era para entrar num avião era para meter lá dentro mais qualquer coisa. Nem toda a gente podia ou tinha tempo de despachar os pertences por mar.

Mais ou menos rigoroso no seu trabalho de check in, mais quilo menos quilo e um recorde de 26 horas seguidas ao balcão, João F., nascido em Luanda, funcionário da Tap, viu acontecer muita coisa. O tráfico de influências corria à desfilada, e para quem fosse habilidoso havia sempre um expediente para mandar tudo para Lisboa. Os mais modestos iam todos os dias ao aeroporto despachar pequenos embrulhos, os mais ambiciosos certificavam-se de ter tudo do outro lado do mar antes de dizer adeus a Angola.

Coisa que não deixava de ser arriscada: a João F., que despachou o frigorífico e o fogão, desapareceram-lhe os dois no aeroporto da Portela.

“Mais tarde descobri que tinha sido um colega e recuperei as coisas. Houve muita desonestidade. As pessoas traziam o que era delas e o que não era, aproveitavam-se da situação. Gente que nunca tinha estado em Angola chegava ao sítio do aeroporto onde as coisas se iam amontoando e escolhia o que queria. Houve nitidamente um abandono daquela gente.”

Regressado a 1 de Novembro, de 1975, com um pedido de transferência, teve de procurar outro emprego: só foi readmitido na TAP dois anos depois e para cúmulo retiraram-lhe o tempo da ponte aérea.
“Os registos perderam-se e ninguém se lembra”, conclui com um encolher de ombros.
“Dizem eles.”

Em Nova Lisboa a situação era tremenda. Havia uma espécie de grande hangar e as pessoas chegavam das mais variadas formas, carregadas de malas. Como não as podiam levar — havia um limite de 30 kg por passageiro — havia uma montanha incrível de bagagem deixada para trás. Não havia condições nenhumas, a sanita era um antigo avião de campanha completamente recuperado que um oficial qualquer tinha resolvido pôr ali como monumento. Imagine-se, um avião que tinha andado na guerra!

"Quem controlava eram os guerrilheiros da Unita, que tinham um aspecto inacreditável. A tropa já se tinha vindo embora. Assim tínhamos de discutir horas com os UNITAS que queriam entrar nos aviões para ir lá buscar pessoas, e assegurar que eles não inutilizassem o avião. Era essa a minha maior preocupação quando estava no solo.”

José Nico, brigadeiro da Força Aérea, na época capitão, não esconde a amargura que lhe ficou.

“O que andei a fazer sobretudo, foi evacuar os militares e suas famílias. Naqueles tempos era tudo ao contrário. Evacuava-se a tropa antes dos civis. A situação era tal que um dia, quando me pediram para ir complementar a acção dos aviões civis — porque o grosso da ponte propriamente dita foi feita por eles — e embarcar aquela gente que estava no aeroporto de Luanda à espera em vez de uma companhia de militares, os soldados se revoltaram. Armaram uma situação tão crítica que obrigou a uma intervenção.”

Cala-se, pensativo. Viveu a juventude em Luanda, foi estudar para a metrópole. O resto da família regressou antes da independência. À excepção do pai, que só voltou em 79.

“Era empregado numa companhia que não fechou. Teve de se mudar para um quarto ao lado do escritório para não andar na rua, mas mesmo assim iam lá visita-lo muitas vezes para o revistar. O que quer dizer roubar. Ele não se abre muito.”
O silêncio quebra-se uma última vez.
“Foi um abandono de todo o povo português. Vivi muitos anos revoltado até me habituar à ideia de que tinham sido os ventos da História."

É a 11 de Novembro de 1975, que tudo é suposto acabar. A ponte aérea acaba só a 3 de Dezembro desse ano. A esposa de Vitor B. regressa no dia anterior, num avião regular da TAP. Agora e durante algum tempo, os funcionários da imigração ainda apõem nos passaportes o carimbo Luanda-Portugal — saída.

Resta na cidade o alto-comissário, almirante Leonel Cardoso, e os seus colaboradores mais próximos, além de uma companhia de pára-quedistas, dois helicópteros e dois navios.

No palácio do governo, contra um painel do mapa-mundi com caravelas, o almirante lê a declaração de entrega da soberania do território. Ao povo de Angola.Já que não há mais ninguém na sala além dos portugueses e de um batalhão de jornalistas.
Ninguém para cantar o hino.
....Levantai hoje de novo o esplendor de Portugal,...
Logo de seguida, Leonel Cardoso, séquito e bandeiras partem nos navios, pela calada da noite, escondidos da vergonha, e da cobardia dos políticos e militares, que atraiçoaram séculos de História, entregando de mão beijada, o futuro de milhões de seres humanos, á crueldade do abandono e da incerteza do futuro. Esquecer? NUNCA.
17 de Abril de 2008 por Fernanda Câncio

FONTE

quinta-feira, 21 de janeiro de 2010

Filme fuga à guerra da descolonização

A FUGA DE ANGOLA EM 1975

A “OBSTINADA ARMADA”
Ou como os portugueses, que partiram em caravelas à descoberta do mundo, regressaram das terras africanas em traineiras
… Decorria o mês de Agosto de 1975. O Governo Provisório de Angola estava em funções. O Processo Revolucionário Em Curso (PREC) funcionava bem, tanto na Metrópole como em Angola. Os Movimentos Políticos Angolanos estavam instalados em Luanda e, tal como na Mãe Pátria, os revolucionários aproveitavam-se do que havia à mão, mesmo que os espoliados fossem trabalhadores que tivessem adquirido os bens que possuíam com o esforço do seu trabalho, e com os tostões contados até ao último centavo.
O som mais audível em Luanda era o pregar de caixotes, em que os chamados ‘retornados’ guardavam as suas parcas fazendas, e o fuzilar das armas dos movimentos políticos angolanos, que se bombardeavam de delegação para delegação. A conjuntura era dissuasora para os portugueses, de cultura europeia, continuarem em Angola.

Tinha adquirido um arrastão costeiro chamado ‘Preia-Mar’, poucos meses antes do 25 de Abril, com outros sócios. Face ao PREC, resolvemos pôr a salvo os nossos bens móveis, porque os imóveis obviamente eram impossíveis de deslocar. Começámos a congeminar a nossa fuga para Portugal numa traineira, e iniciámos a aquisição na Manutenção Militar de vários bidões de óleo alimentar vazios, que depois de bem lavados começaram a ser introduzidos no porão do ‘Preia-Mar’, de 55 m3. A intenção era servirem de lastro e, simultaneamente, de reserva de combustível, porque os tanques próprios só comportavam 15 mil litros, claramente insuficientes para uma viagem sem escala até Portugal, como estava previsto.
Tudo foi feito em sigilo, o mais rapidamente possível, para nada constar. O abastecimento era feito nos locais próprios, nessa altura já guardados por soldados do Movimento Popular para a Libertação de Angola (MPLA). Seria eu o comandante da expedição, e o único que sabia navegar em alto mar.
    A frota da aventura
No dia aprazado para a fuga, pedi para gozar o meu mês de licença anual em Portugal, com o pretexto de ir em tratamento. Tirei bilhete de ida e volta com OK, num avião da TAP que partia cerca da meia-noite. Em vez de embarcar no avião, à mesma hora estava a embarcar no ‘Preia-Mar’. Tudo tinha sido previsto, e o arrastão já tinha tirado licença na Capitania do Porto de Luanda para ir a Benguela comprar apetrechos marítimos, para justificar a sua partida caso fosse interceptado por um barco patrulha, à saída do porto.
O nosso destino, de luzes apagadas depois de sairmos a barra, foi 15 milhas a NW do Ambriz, zona então controlada pela Frente Nacional de Libertação de Angola (FNLA). Era ali que devíamos encontrar-nos de manhã cedo, com outras embarcações que também tinham planeado a fuga. A frota prevista era de quatro embarcações, mas à última hora juntaram-se mais duas, que tinham projectado a sua viagem para Portugal com base numas poucas lições de navegação ministradas por um comandante de um navio da Companhia de Transportes Marítimos (CTM), na época fundeado na baía de Luanda. Estas lições consistiam em navegar a determinado rumo até encontrar terra (a Costa do Marfim), depois, através da sonda e segundo rumos que tinham sido previamente marcados numa carta, seguiriam para Portugal contornando o continente Africano.
No dia da partida, a frota era composta pelo “Preia- Mar”, de 24 m Lpp, tripulada por mim, pelo mestre Nunes, já falecido, e os motoristas Manuel e Carlos, este último também já falecido; pela “Vilamoura”, de15 m Lpp, tripulada pelo seu proprietário, mestre Manuel Rocheta, também sócio do “Preia-Mar”, e por Manuel; pela “Gavião dos Mares”, de16 m Lpp, tripulada pelo seu proprietário, mestre Luís Rocha, também sócio do “Preia-Mar”, e os seus muito jovens filhos Tony e Luís Manuel; pela “Quatro Irmãs”, de 22 m Lpp, tripulada pelo mestre Sebastião, José Fuzeta e Vítor; pela “Mártir S. Sebastião”, de 15 m Lpp, tripulada pelo mestre Manuel das Caixas e Fazenda; e pela “Henrique Eduardo”, de 15 m Lpp, tripulada pelo mestre Vítor e Domingos. Estas duas últimas embarcações juntaram-se a nós à última hora.
    Rumo à Metrópole
Quando partimos de Luanda por volta das 02:00, ainda o mestre Luís e os seus dois filhos estavam a carregar os últimos apetrechos para bordo da “Gavião dos Mares”, além dos mantimentos que iriam ser distribuídos pelo “Preia-Mar”. Chegámos ao local do encontro por volta das 07:30, e passadas duas horas o “Gavião dos Mares” não havia maneira de chegar. Foi o tempo suficiente para que o mestre Nunes tivesse retirado da sua embarcação, de 9 metros de comprimento, os apetrechos de pesca, desmontasse o seu motor de 80 h.p. e os embarcasse no “Preia-Mar”, para em seguida abrir a vávula de fundo e deixar afundar a sua forma de ganhar a vida. E aquele era o fruto de uma vida de trabalho, em Moçambique e ultimamente também em Angola, no Cacuaco, onde a pesca do camarão era o seu sustento e o da sua família.
Nunca mais esqueci aquela cena, com mestre Nunes a deixar rolar, pela sua face tisnada pelo sol e pelo sal, uma lágrima de adeus a um sonho e a um ser. Nos seus olhos vi todo o mar salgado que acompanhou o seu mister de pescador desde a infância. Afundaram-se ali muitos anos, muito esforço e muitos sonhos.
Aproveitei o tempo de espera para fixar a bitácula da agulha padrão, na boca do porão do “Preia-Mar”, com patarrazes e esticadores. Era o local mais adequado e desimpedido, para ter acesso ao sol ou a outros astros. E aproveitei ainda para dar umas voltas, por BB e EB, para uma compensação expedita através de marcações ao sol.

    ‘Gavião dos Mares’ à vista
O atraso do “Gavião dos Mares” começou a gerar alguma inquietação e o pânico prometia instalar-se. A "Mártir S. Sebastião” e a “Henrique Eduardo”, com receio de serem interceptadas, tomaram a decisão de prosseguir viagem, confiados na sua ciência náutica, bebida a bordo do tal navio da CTM, fundeado em Luanda. Como nunca acreditei que aquele expediente os levasse a bom porto, recomendei-lhes que sempre que alterassem o rumo registassem o dia e a hora, para uma eventual ajuda que eu pudesse vir a dispensar. Entretanto, eu próprio anotei o rumo deles, a hora de partida e o momento em que desapareceram no horizonte. Tinha, assim, alguns elementos que podiam ajudar na determinação do chamado ponto de fantasia – o ponto estimado dos nossos primeiros navegadores. Muitas vezes, nos idos do século passado (e estou a reportar-me a quatro décadas atrás, recordando que estamos já no século XXI), este ponto de fantasia era usado como a única maneira de determinar a posição quando o céu se apresentava encoberto. Mais, era usado tanto a bordo dos melhores paquetes da época, como em navios de carga geral, onde embarquei; era usado ao largo da Sierra Leoa até ao Cabo Palmas, acompanhado de azimutes radiogoniométricos que se cruzavam às vezes em polígnos de tamanho da palma de uma mão. Ainda estava para chegar o GPS e os RADARES desse tempo eram de ouvir.
Cerca das 11:00, quando já estávamos decididos a partir sem o mestre Luís, aparece no horizonte a silhueta de uma traineira que viria a ser a “Gavião dos Mares”. Mesmo com o atraso, o mestre tinha partido da praia sem a sua carga principal: os mantimentos. Ficaram em terra por desconfiança de um africano, que os abordou a pedir peixe. Quando lhe responderam que não tinham, porque estavam a preparar-se para ir para o mar, logo o africano puxou de um walkie-talkie e começou a comunicar. O receio de se tratar de um informador foi razão suficiente para saltarem para a traineira e toca a andar que se faz tarde, deixando na areia alguns mantimentos que muita falta nos fariam uns dias depois.
    Traineiras perdidas
Iniciámos a nossa viagem rumo ao Cabo Palmas. Passados dois dias, as duas traineiras que tinham partido por sua conta e risco estavam a entrar em contacto via rádio, dizendo que só viam céu e mar. Não sabiam onde estavam e a única indicação que deram foi a de que tinha passado por eles um navio tanque de chaminé vermelha, que seguia a determinado rumo.
Reconstituí a rota deles, através do tal ponto de fantasia. Corrigi os seus rumos e aproei-os ao farol de Kablake. Deixei-os navegar até avistarem o clarão do farol, em cuja direcção tinha soltado os seus rumos, recomendando que me avisassem logo que o clarão aparecesse. Entretanto, com o auxílio de um lápis que colocavam no centro da agulha de governo, para servir de mira, iam-me dizendo por quanto estava o sol ou a lua: era a maneira para determinar os desvios das suas agulhas.
Finalmente, apareceu a luz de um farol. Pela contagem dos flashes, verifiquei que era realmente o farol pretendido. Estava determinada a posição deles, com alguma precisão. Foram, então, seguindo as minhas instruções quanto a rumos e marcações de TRAUB. E eu corrigi a minha velocidade, de modo a fazer a devida cinemática para o encontro no Cabo Palmas.
O encontro deu-se à noite, pelas 02:00 do dia 19 de Setembro de 1975, ao largo do Cabo Palmas, no meio de muito tráfego marítimo. Quando verifiquei que estavam no meu horizonte, disse-lhes que acendessem e apagassem as luzes, marquei-os com a minha agulha e recomendei que navegassem ao rumo oposto. Estava outra vez reunida a “obstinada armada”, constituída pelas seis traineiras.
    Num mar de fome, e ‘alfaiates’
Ao largo do Cabo Palmas, de provisões de boca (designação pomposa e dialética) só havia atum em conserva, massa e arroz. O bacalhau já tinha sido devorado. As galinhas tinham morrido dois dias depois de partirmos, e os nossos mantimentos tinham sido deixados na praia da Ilha de Luanda. Pedimos a uma embarcação, que pescava nas imediações, comandada por um europeu e com restante tripulação africana, que nos desse algum peixe. Dois baldes de peixinhos muito pequenos foram distribuídos por todas as traineiras. Ao sul da bóia de St. Ann, frente à ilha de Sherbro, na Sierra Leoa, a 15 milhas de terra e em 32 bb, lançámos à água uma pequena rede de arrasto, arrastando furtivamente. Tivemos pouca sorte e conseguimos somente meia dúzia de peixes, o que não deu para nada. Com receio de sermos apanhados resolvemos prosseguir viagem. Aproveitámos para ceder gasóleo, que já começava a escassear, ao ‘Gavião dos Mares’. Atirámos para o mar dezasseis bidões, lingados um a um, que depois foram içados para bordo daquela traineira por cabo vaivém. Não pude permitir que encostassem, apesar do mar estar raso, com receio de uma colisão e consequente àgua aberta, que seria uma fatalidade. Um dos bidões escapou-se do estropo, e o filho mais velho do mestre Luís Rocha, o jovem Tony que ainda não tinha 20 anos, atirou-se à água para voltar a lingá-lo, sem pensar que aquela zona era habitat de ‘alfaiates’ (tubarões). Tratei de avisá-lo imediatamente, mas para ele o bidão de gasóleo era mais importante.
Continua no próximo número...
Joaquim Bertrão Saltão
Capitão da Marinha Mercante

sexta-feira, 15 de janeiro de 2010

«Bravos» Retornados: Álvaro Faustino


Álvaro Faustino

da «Cozinha» homenageado pelo Município de Portimão
 Sábado, 16 de Janeiro de 2009 (in ALGARVE MAIS)

Nascido e criado em Angola, esta é a história de um homem que cedo dominou o ofício do comércio. Com um supermercado aberto mal conheceu a idade adulta, Álvaro Faustino viveu o período da guerra colonial e da independência de Angola.

Veio para Portugal como refugiado com uma mão à frente e outra atrás das costas e assentou arraiais em Portimão, onde construiu uma carreira de sucesso e continua, aos 71 anos, cheio de força ao leme dos negócios.

Álvaro Gomes Faustino nasceu em Porto Alexandre, no sul de Angola, já lá vão 71 primaveras, no seio de uma família maravilhosa em que o pai era marítimo. Concluída a quarta classe, começa de imediato a trabalhar, juntamente com o irmão gémeo, Eduardo, enquanto o irmão mais velho (tem mais dois anos) prosseguiu os estudos. Ainda chegaram a fazer os exames de admissão ao liceu, no entanto, depressa se aperceberam da vocação para o comércio, pois já ajudavam no negócio do tio, Joaquim Ferreira. Muito mexido e irrequieto, Álvaro arranjou um emprego perto de casa, com Emelino Abano, e o seu primeiro vencimento, há 58 anos, eram 800 angolares, a moeda angolana na época. Volvidos dois anos, abre um novo estabelecimento mesmo em frente e é convidado para ali trabalhar, indo ganhar o dobro do ordenado. “Nunca fiz nada sem o apoio do meu pai. Conversávamos muito durante o almoço e o jantar e sempre trabalhámos para o monte, para o bem comum e nunca por imposição”, recorda os tempos de adolescência. “Na loja do Sr. Adérito vendíamos desde a agulha ao avião. Hoje, as grandes superfícies não são mais do que os estabelecimentos que existiam antigamente em Angola. Tínhamos o vinho, mercearias, brindes, ouro, frigoríficos a petróleo, máquinas de costura, confecção, tudo importado”.

Mais anos se passam e o pai e o tio decidem modernizar o negócio, com as diversas secções separadas, chamando Álvaro para a actividade, onde já se encontrava o irmão gémeo. “Quando me fui despedir do senhor Adérito, foi comigo um empregado que também já lá estava há muito tempo e ele começou logo a mandar vir com o Catraio. Não me senti bem com a situação, pedi para me dispensarem mas deixei uma porta aberta e fui então para a empresa do meu tio, mas as coisas não resultaram como esperado e acabámos por montar a «Casa Gémeos». No entanto, como éramos bons rapazes e fiávamos bastante, tivemos uma crise financeira e lá veio o Sr. Adérito oferecer-me emprego”, relata o entrevistado, com todos estes acontecimentos bem frescos na memória.
É por esta altura que Álvaro Faustino conhece a sua esposa (Elisabete Faustino), mas o tempo para namorar era quase nulo. “Quantas vezes lhe fui bater à porta às 11 da noite só para lhe dar um beijinho”, conta os primórdios de um relacionamento que ainda hoje se mantém, tendo o casal vindo para Portugal depois da independência de Angola. “O meu irmão gémeo é que trouxe as minhas filhas e os meus pais em Outubro de 1975”. Mas a vida na antiga colónia deixa inúmeras saudades no empresário de Portimão, uma época onde trabalhava, dançava e brincava. “Praticamente aquilo que faço hoje aqui”, diz com uma sonora risada, garantindo que sempre foi feliz e acarinhado. “Os gémeos eram sempre vistos com bons olhos e toda a gente aceitava as nossas brincadeiras. Temos a felicidade e a bênção de Deus de termos nascido gémeos e nunca soubemos viver um sem o outro. Aliás, há ocasiões em que estou aborrecido e a minha esposa pergunta logo se não será qualquer coisa com o Eduardo”.

De entre as muitas histórias e aventuras que normalmente acontecem com os gémeos, Álvaro lembra-se perfeitamente de uma sucedida em tribunal. “Quando montámos o supermercado, há 38 anos, apareceu-nos lá uma brigada e tínhamos uma diferença de 20 cêntimos num artigo. Como eu estava mais perto do tribunal, disse ao advogado que não era preciso o Eduardo vir de tão longe, que eu iria no lugar dele, mas aquilo deu confusão porque o dr. Juiz perguntou-me se eu não trabalhava ali no armazém”, relata. “Passado um mês ou dois de estar naquela terra, eu lidava com as pessoas todas, mexia com elas, pela minha maneira de ser, a minha dança, as minhas maneiras e houve logo quem se apercebesse da troca de identidades no tribunal”.
Com 19 anos, Álvaro Faustino vai falar com o governador do distrito para que não fossem os dois irmãos em simultâneo cumprir o serviço militar obrigatório, uma vez que já eram estabelecidos e o certo é que nenhum foi à tropa. Segue-se o melhor período da economia angolana, mas também conheceu o momento mais conturbado da guerra pela independência e vem parar a Portimão mais uma vez pela bênção de Deus, na sua opinião. “Dizia-se que a UNITA tinha entrado em Moçâmedes e que nós teríamos que ir embora e eu pedi a um dos meus funcionários para encher uma carrinha com coisas e disse-lhe que, se não voltasse na segunda-feira, que abrisse a loja e fizesse dela o que quisesse”, relata, antes de avançar com outra história dos tempos da guerra. “Eu era para ser padrinho de um indivíduo e fiquei com o fato dele em Moçâmedes para ir para Porto Alexandre, mas não nos deixaram passar, daí que casou sem a roupa”.

A bordo de um barco foram para «Alves Bay», onde Álvaro e Beta permanecem uns dias num campo de refugiados e ai conhece um dos momentos mais tristes da sua história, antes de embarcar num voo para Lisboa “Chorei um dia inteiro porque precisava de uma mala e depois lá apareceu alguém que me arranjou uma”. Chegados a Portugal, enfrentou mais algumas peripécias: “Como saímos depois da independência de Angola, éramos considerados refugiados e não retornados e, quando cá chegámos, queriam mandar-nos para Manteigas. Eu expliquei-lhes que o meu irmão gémeo e os meus filhos estavam em Portimão e, passada uma hora, lá nos deixaram vir para o Algarve”, refere com uma pequena pausa e as emoções à flor da pele. Quando entra no Hotel Globo, o director indica-lhes que não havia quarto para o casal, mas Álvaro recusa-se a entrar na camioneta e partir de novo, chegando ao ponto de dizer que preferia dormir nas escadas até lhe arranjarem um quarto no hotel. “Dois ou três dias depois, fui dar uma volta pelas lojas e vi que tinha uma hipótese. Eu nunca tinha vindo a Portugal, mas toda a gente afirmava que uma pessoa, para ser empregado de balcão, tinha que passar por marçano. Dizia «Bom Dia» e «Boa Tarde» e ninguém me respondia, observava a atitude dos empregados, para venderem 10 camisas não tiravam uma. Como trouxera umas panelas e abre-latas de Angola e a Beta tinha uma tia na praça, perguntei-lhe se não podia ir para lá também. Como dava muitas gargalhadas e brincava imenso, parecia que isto já era meu e a verdade é que comecei a vender bem”.

A vontade de vencer e inovar

Com 39 anos, Álvaro Faustino dá os primeiros passos no comércio de Portimão, daí defender a pés juntos que nunca é tarde para se começar. Uma rápida pesquisa pelos armazéns abastecedores reforçam a ideia de que poderia abrir o seu próprio negócio, até porque tinha trazido um carro de Angola que poderia vender. “Aparece-me o Zé Alexandre, a contar-me que o sobrinho possuía uma casa que não dava nada e que pretendia trespassá-la. Fui lá falar com ele, mais o meu irmão mais velho, expliquei logo que não tinha dinheiro, o banco também não queria descontar as letras e o Zé Alexandre acabou por ficar como nosso fiador”, retoma a história o nosso entrevistado, que rapidamente fez um mini mercado com a mercadoria que já se encontrava na loja. “Devo tudo à minha mulher, vou ser sincero. Pegamos naquilo e tentávamos conservar as pessoas que entravam o máximo de tempo no interior, para assim atrair outras que andavam na rua, mas foi um período difícil”, admite.

Num domingo de Junho, um armazenista pergunta se o casal não teria um petisco qualquer no estabelecimento, ao que a esposa Beta responde prontamente que sim e junta-se de repente uma série de pessoas que tinham ido ver o jogo do Portimonense. “A vizinhança arranjou-me o carvão e as grelhas e nós fizemos o primeiro churrasco angolano. No dia seguinte, pensei que aquela seria a nossa fonte e mandei logo fazer um fogareiro. Deitava-me à uma e tal da noite e, de madrugada, ia a pé comprar o pão fresco para os clientes, mas era uma aventura maravilhosa”, frisa, acrescentando que, nessa altura, ainda estava a viver no Hotel Globo. “O IARN soube que eu já estava a trabalhar e mandaram-nos embora do hotel e, como o meu irmão e as minhas filhas já se encontravam na Fuzeta, eu e a Beta ainda dormimos uns tempos na loja.

Não nos custou muito, mas tive de ir a Sines, num domingo, pedir dinheiro emprestado a um indivíduo para pagar a primeira letra que se vencia na segunda-feira”.
O terraço do estabelecimento começa a funcionar como restaurante e até turistas estrangeiros eram chamados pelo churrasco à angolana mas, três anos depois, morre o proprietário da casa e os herdeiros, que, segundo Álvaro Faustino, não se davam muito bem uns com os outros, propuseram-lhe a sua aquisição. A situação financeira ainda não permitia tais aventuras e, com a saída à vista, o empresário encontra outro espaço em trespasse, na Rua Direita. “Nunca tive experiência de restaurante mas a vontade de vencer na vida ajudou-me e avançamos para a «Cozinha», logo a vender comida para fora. O problema dos outros restaurantes é que, se precisássemos de uma sopa quente para um filho que estivesse doente, tínhamos que levá-lo lá para comer. Não havia nenhum take-away”, explica, sublinhando que o seu alvará é, há 30 anos, de comida a peso. “Era impensável, naquela época, equacionar-se um negócio semelhante. Hoje, estou desactualizado, mas a casa não dá para mais”.

O êxito foi imediato e Álvaro e Eduardo não tinham um minuto de descanso, suportados pela esposa, Beta e pela afilhada Augusta, mas ainda arranjava tempo para dançar, mesmo trabalhando horas e dias a fio. “Chorava e perguntava como é que Deus me dava tanta força para continuar”, reconhece. “Já aconteceu algumas vezes chegar a casa e a Beta perceber que eu não estava bem e sairmos para dançar, porque a música transforma-me. No dia seguinte, já não me doem as pernas, os braços ou a cabeça e parece que as preocupações desapareceram, mas já lhe disse que não quero ter mais problemas. Quero ser daqueles que sobe na vida, não me interessa se há crise, não posso é adormecer”, dispara.
A alegria de viver é, sem dúvida, uma das imagens de marca do Álvaro da «Cozinha», assim como as suas risadas contagiantes, que aquecem o coração daqueles que as ouvem. Mesmo com 71 anos de trabalho intenso, não baixa os braços e garante que quer seguir em frente enquanto tiver lucidez e força. “Neste fim-de-ano, levantei-me às sete da manhã, fui trabalhar, cheguei às 10 e tal da noite, fui mais a Beta dançar, voltámos para casa às seis da manhã, levantei-me às 10 e fui outra vez para a loja. Não sei onde vou buscar esta força”, questiona-se, com a esposa ali mesmo ao lado, a acenar positivamente com a cabeça a confirmar a história. “Querem ser felizes? Façam como nós: brinquem mas respeitem. Tenho a felicidade de estar com a Beta e outros casais perguntarem se eu não posso ir dançar com a mulher deles”.

A fé em Deus e a alegria de dançar

Se a esposa Beta tem estado sempre ao seu lado, Álvaro Faustino enaltece igualmente a força que Deus lhe tem dado ao longo dos anos, confessando-se um homem muito crente e feliz por receber tanto carinho dos outros. “Ainda no outro dia estava a brincar no correio e um senhor perguntou-me como é que consigo transmitir toda esta alegria. Respondi-lhe que me agarro bastante a Deus e à minha mulher, mas que preciso do carinho deles”. Pessoa afável e sobejamente conhecida dos portimonenses, como antes se verificava em Angola, diz ser incapaz de não cumprimentar os indivíduos com quem se cruza, ao ponto da esposa lhe dizer que tem que arranjar mais um braço. “É um dom. Tenho que dar sempre o «Bom dia» ou «Boa tarde» e não procuro com isso salientar-me, é algo que está dentro de mim. Não estou a fazer uma má acção, a outra pessoa é que pode incorrer nela ao não responder”, salienta.
Depois dos anos abundantes que teve em Angola, Álvaro não esquece os cinco anos em que viveu num quarto com mais quatro pessoas (ele, a esposa, as duas filhas e a afilhada) quando primeiro chegou a Portugal e nem isso impedia que soltasse umas valentes gargalhadas. “O que tenho de mal fica na mesa-de-cabeceira, para fora deito a felicidade”, descreve, adiantando que a única diferença entre ele e Eduardo é que o irmão é menos sonoro nas risadas. “Dança bem na vertente clássica, eu e a Beta somos mais espalhafatosos e expansivos. Ainda há dias estava no Hotel Júpiter e dei uma volta à minha mulher. Quando vou a agarrá-la, já estava ela nos braças de outro homem, com uma pinta que não queira saber. Fui dançar com uma senhora que se encontrava ao meu lado e que, no final, vim a saber que era a esposa do outro senhor”, relata. Para trás ficaram, todavia, as idas aos dancings Nakofino, Esteval, Flor do Lis, Top 60, preferindo agora ficar mais perto de casa. “Vamos sempre os dois sozinhos porque não quero compromissos com mais ninguém e uma noite, ao regressarmos do Nakofino, veio um carro directo a mim, às tantas da manhã, na EN 125. Eu não sabia se parava ou andava, já transpirava, vá lá que ele mudou de direcção. Desde então, decidimos evitar as viagens à noite, pois nunca sabemos como se comportam os outros”.
Álvaro Faustino viu recentemente reconhecido tudo aquilo que tem dado a Portimão, tendo sido homenageado pela autarquia local nas comemorações do Dia da Cidade, facto que o comoveu profundamente. No entanto, mesmo sendo uma terra que evoluiu bastante no pós-25 de Abril, há situações que não colhem a sua aprovação, designadamente a diminuição de estacionamento gratuito e da circulação automóvel nas principais artérias. “Qualquer dia, Portimão está denegrido na zona da baixa e é uma tristeza ver os estabelecimentos fechados. Deviam criar alternativas antes de encerrarem as ruas”, defende o empresário, considerando ainda que existem grandes superfícies em excesso no concelho. “Mas isso não serve de desculpa para o mau desempenho do comércio tradicional. Eu precisava ter as mesmas condições que eles, sobretudo em termos de estacionamento, e foi por isso que lancei a «Cozinha 2». E olhe que aquilo não são só rosas. Eles vão-se digladiar a eles próprios e nós morremos”, desabafa. Qualidade, profissionalismo e simpatia são factores fundamentais para o sucesso, contudo, Álvaro Faustino sublinha que os empresários não podem ficar cabisbaixos com a crise dos concorrentes ou dos outros estabelecimentos. “Não podemos fechar portas só porque não aparece gente”. defende.
Seja como for, e apesar da idade, o entrevistado está confiante que os dois restaurantes «Cozinha» têm futuro garantido, pela mão das duas filhas, mas também não pensa em reforma. “O que desejava era ser senhor de mim próprio e poder estar mais afastado do negócio”, afiança, reconhecendo, no entanto, que os clientes querem continuar a conviver com ele, quanto mais não seja para ouvir a sua risada característica. “Há dias esteve cá um senhor que não nos visitava há 20 anos e ficou super contente quando disparei uma gargalhada. Eu e a Beta deixamos a nossa marca, por aquilo que somos e mesmo no estrangeiro gostam de nós, como verifiquei em Marbella há pouco tempo. Uma senhora, já com duas filhas ao lado, lembrava-se de quando eu lhe dava chupetas, aos anos que isto já foi. Depois, aparece outro casal com histórias semelhantes dos sítios onde dançamos, no Brasil, México e Cuba, nos cruzeiros que fazemos”. Em final de conversa, e sem esconder a emoção, Álvaro da Cozinha reforça a honra por ter sido homenageado pela autarquia portimonense, como já antes acontecera pelo Rottary Clube de Portimão e por outras entidades.
Álvaro Gomes Faustino homengeado

Ao longo da vida, Álvaro Gomes Faustino tem sido variadísimas vezes homenageado, aliás, no amplo escritório da sua residência vêem-se medalhas e placas um pouco por todo o lado. “Estes são os meus pequenos troféus, gestos de muito carinho e amizade que tenho recebido das pessoas”, explica. Na parede, encontram-se diplomas, certificados e, nos móveis, taças e troféus. “São alguns prémios de concursos que ganhamos nos cruzeiros, ou a dançar ou em dias de Carnaval”, argumenta Álvaro Faustino.
Diga-se de passagem que, no seu currículo oficial arquivado na Câmara Municipal de Portimão, constam os seguintes galardões:
A Cozinha foi fundada a 10 de Março de 1979, com estabelecimento na Rua Direita, em Portimão, de forma modesta mas com condições higiénicas e funcionais.
Em 1986, receberam em Itália, pela CIPEM Gastronomia, a Taça de Ouro. Com o aparecimento das grandes áreas e o progresso da cidade, decidiram expandir o seu negócio, com a abertura de mais um estabeleciemento, a Cozinha II, na Urbanização da Quintinha, em Portimão.

No ano de 2000, tiveram a honra de fazer o jantar de Ordenação do Bispo do Algarve, D. Manuel Quintas, que contou com a presença de 300 pessoas.
Foram homenageados, em 2004, pelo Rotary Clube de Portimão.
Desde 1997 até ao ano de 2005, forneceram almoços de Natal para os idosos do concelho de Portimão.


terça-feira, 12 de janeiro de 2010

Retornados (Aida Viegas)r

Retornados
Há momentos na vida em que tudo se depara negro e a esperança parece irremediavelmente perdida. Se em Angola não poderia continuar, por sua vez em Portugal, quem regressava de África era recebido do pior modo possível; com hostilidade, desdém e mesmo agressividade.
Analisando um pouco a situação logo se chegava à conclusão do motivo pelo qual a maioria dos que agora re­gressavam das ex-colónias, tinham ido lá parar. “Rapidamente e em força para Angola” foi a voz de comando do primeiro ministro português em mil novecentos e sessenta e um, quando ocorreram os fatídicos acontecimentos perpetrados no norte de Angola e extensivos à capital da província. Foi porém demasiado tardia esta ordem.
Se em lugar de ser dificultada a ida dos portugueses do continente para o ultramar como foi durante muitos anos com processos demorados, chegando ao cúmulo de ser necessária uma carta de chamada enviada por um familiar que lá residisse há um certo tempo para que outro membro da família se lhe pudesse juntar, tivessem sido criadas condições de incentivo à ida e fixação de muitos mais portu­gueses para aquelas paragens, talvez as coisas tivessem sucedido dum outro modo. A política ultramarina portuguesa pecou muito por omissão e falta de actualização.
Apesar de tudo a maior parte dos jovens militares que partiram convocados pelo governo da nação seguiu, uns mais receosos que outros, alguns mesmo com uma certa revolta mas a maioria porém, com a noção de que iriam defender uma parte integrante do território nacional, em auxílio dos compatriotas ali nascidos ou radicados cuja integridade física estava a ser ameaçada, enfim, cumprir um dever patriótico ao qual ninguém se deveria eximir. A noção de patriotismo e do cumprimento do dever acompanhou-os e fê-los lutar com valentia no momento da refrega, porém, o conhecimento daquele povo e daquelas terras aos quais, sem dar por isso, se vieram a afeiçoar e a estimar enfeitiçaram muitos deles a tal ponto de trocarem o seu torrão natal por aquelas paragens africanas, elegendo-as, para ali se radicarem e alguns até constituírem família.
Enquanto, até mil novecentos e sessenta e um, grande parte dos colonos que partiram para o ultramar eram gente ligada à terra, que dela viviam e nela trabalhavam, a partir desta data já não era bem assim; muitas pessoas formadas com cursos médios e superiores, quadros qualificados das mais diversas áreas, radicaram-se nos territórios portugueses ultramarinos, facto que deu origem a uma nova maneira de estar, novas formas de vida e um novo desenvolvimento sem precedentes na história daqueles povos.
Matilde chegou a Angola, chamada por seu marido, um dos muitos militares que se deixou enfeitiçar irremediavelmente por África logo após a sua convocatória para a guerra colonial, no ano de mil novecentos e sessenta e um. Ela partiu da metrópole, curiosamente no último voo feito pela TAP num dos antigos aviões de quatro motores a hélice com escala em Bissau, capital da Guiné portuguesa.
Nessa época era costume cantar-se, em todas as escolas de Angola antes do início das aulas pela manhã, o hino “Angola é Nossa”, muito divulgado através de todas as estações de rádio. Angola é nossa gritarei / é carne é sangue da nossa grei / para libertar, para defender, / para lutar até morrer...
Na história de Portugal ensinava-se que Angola bem como todas as outras províncias ultramarinas constituíam parte integrante do grande império português que nos fora legado pelos nossos corajosos e gloriosos antepassados que deram novos mundos ao mundo através dos descobrimentos e eram senhores de aquém e além mar.
A noção de patriotismo do cidadão português, pesava muito na formação dos jovens sendo, como é natural, mais arreigada nos militares, porém, o facto destes terem partido em defesa de um bem comum, começou a esbater-se ao longo dos anos bem como a ligação directa que estas circunstâncias tiveram com a deslocação maciça de muitas de suas famílias para o ultramar.
Os valores da nossa sociedade, com a revolução de vinte e cinco de Abril, estavam a mudar vertiginosamente e nem todos para melhor.
A dificuldade em transferir dinheiro de Angola para o Continente constituiu sempre um obstáculo difícil de contornar à maioria das pessoas que optaram fazer de Angola a sua terra.
A falta de liberdade na circulação de bens entre o ultra­mar e o continente embora fosse justificada, até determinada altura, com a intenção de reter o capital em solo africano para que aí fosse investido, a partir do momento em que se pensou na independência das províncias ultramarinas deveria ter sido de imediato modificada a fim de garantir os direitos dos cidadãos portugueses que lá residiam. Tal medida não tendo sido tomada, originou uma verdadeira catástrofe para quem foi forçado a abandonar África.
Nesta altura dos acontecimentos, dadas as circuns­tâncias das mudanças políticas ocorridas em Portugal, é de todo incompreensível que a transferência de capitais não tenha sido permitida. É intolerável que as pessoas que voluntária ou involuntariamente quisessem abandonar Angola, Moçambique, Guiné ou outra qualquer província não pudessem trazer livremente os seus haveres; dinheiro, carros ou quaisquer outros bens materiais. Prédios, terrenos urbanos ou rústicos, fazendas, fábricas, estabelecimentos, imóveis de qualquer índole, estavam sentenciados a ficar; é mais que evidente que os seus possuidores todos os pretendiam vender mas, em face da situação, não havia quem se interessasse pela sua aquisição.
 
A maior parte dos bens pertencentes aos cidadãos portugueses foi pura e simplesmente abandonada pelo facto de seus donos não terem outra opção. Chegou-se ao cúmulo de se trocarem carros quase novos por simples volumes de maços de tabaco ou por pequenas porções de determinados alimentos, entre eles o pão, que raramente se encontrava à venda.
Houve quem trocasse fazendas e casas por títulos de hipotéticas transferências bancárias para o continente as quais nunca chegaram às mãos dos seus destinatários. O depósito no banco nunca se concretizou e o paradeiro do burlão na maioria dos casos era desconhecido. Os lesados nunca pode­riam reclamar sob pena de incorrerem em crime punido por lei, sendo acusados de transferência ilegal e fraude, se persistissem na queixa.
No mercado negro os escudos angolanos que em tempos, em momentos de alta, chegaram a trocar-se por escudos portugueses na base dos trinta por cento, o que era escandaloso, estavam agora no mesmo mercado nos setenta, oitenta por cento e nem mesmo assim era fácil conseguir a troca. Para além de todas estas vicissitudes, terem de entregar mil e oitocentos escudos angolanos para receberem mil portugueses, não era fácil de aceitar a pessoas que viviam do seu trabalho.
O facto do Governo Português não acautelar ou, pior ainda, não autorizar a transferência dos bens dos portugueses na altura da descolonização foi uma das maiores injustiças, praticadas por quem mandava e a desgraça de tanta gente, que após longos anos de trabalho, caiu sem culpa nem pecado na mais odiosa das misérias, na pobreza extrema, no desespero, muitos na loucura e até na morte. Foi a situação mais injusta e catastrófica que imaginar se possa!
Dum momento para o outro perderem todos os seus haveres sem nada terem contribuído para essa perda. Serem forçados a abandonar o fruto do trabalho árduo no decorrei de longos anos, de canseiras, vigílias, economias feitas à custa de grandes sacrifícios. Deixarem empresas, fazendas, prédios, terrenos, carros, dinheiro, a própria casa com seu recheio, objectos pessoais, roupas, enfim... tudo, (houve pessoas que, se quiseram salvar a vida, regressaram apenas a roupa que traziam vestida).
Verem-se despojados de quanto haviam adquirido, custa muito a aceitar e, é impossível explicar por palavras a quem o não viveu.
Porém a desventura não se ficou pelo roubo de que foram vítimas.
Para quem espoliado de África, ao chegar a Portugal se encontrava sem nada, sem trabalho e sem dinheiro para fazer face às despesas mínimas, com filhos, dois, três, quatro, que necessitavam de alimentação, casa, roupa, cuidados de saúde, de educação e os demais inerentes à vida. Bater de porta em porta à procura de trabalho, de alojamento e ver as portas fecharem-se-lhe sistematicamente. Tentar junto das instâncias oficiais encontrar soluções para minimizar as causas da tragédia que sobre si se abatera e não conseguir resposta. Ver passarem-se dias, semanas, meses sem vislum­brar a mais ténue luz ao fundo do túnel era duro e de uma imensa crueldade.
O calvário destas gentes no entanto, não se deteve por aqui, continuou no acolhimento de que foram alvo, nos títulos de honra com que foram rotulados: fascistas, colonizadores, desalojados, retornados. Retornados foi ponto assente. No fim de algum tempo ficariam os famigerados retornados.
Foi com muita tristeza e enorme desespero que constataram a hostilidade com que os viam chegar em ava­lanche cada vez mais densa à medida que se ia aproximando a anunciada independência, melhor diria, a desgraça. Desgraça dos retornados, despojados de todos os seus haveres e reduzidos à pobreza, desgraça e condenação definitiva das gentes de Angola.
Para maior desgosto dos já destroçados retornados, muitas pessoas da nossa sociedade achando-se na posse do discernimento, da sabedoria, da justiça nem sequer se davam ao trabalho de camuflar os seus sentimentos de desagrado, passando muitas vezes de hostis a agressoras quer em palavras quer amiúde em actos rancorosos praticados contra irmãos, parentes, amigos, conterrâneos conhecidos ou desconhecidos que despojados de tudo regressavam de África.
Estes ouviam com frequência dizerem-lhes que vinham sem nada porque queriam, ninguém os forçara a ficar por lá. Fora a ganância que os lá retivera. Porque não continuavam lá, se era uma terra tão boa? Claro, porque os pretos os corriam porque estava na cara que os maltratavam, os exploravam, os tinham subjugados na miséria. Toda a gente sabia que fulano, sicrano e beltrano chicoteava os pretos, os roubava, os obrigava a trabalhar como escravos...
Queixavam-se de quê? Só tinham o que mereciam. Aquilo era deles, que queriam os brancos trazer? A África é dos pretos, os portugueses é que estavam lá a mais.
Ainda por cima agora queriam vir tirar o lugar aos que cá estavam, que nunca de cá saíram, porque não eram ambiciosos como eles. Quiseram tudo, tudo haviam perdido. Agora nada tinham que se lastimar.
Chegavam ao cúmulo de lhes dizerem que o que haviam ganhado lá tinha sido à custa dos pretos, portanto era justo que lá ficasse.
Agora virem para cá e querem que o estado (eles, que no fim de contas eram eles) os sustentassem à boa vida! Isso era o que mais faltava! Lá tinham vivido à custa dos pretos, cá queriam viver à custa dos brancos.
Cambada de usurpadores e parasitas, era o que eles eram, acrescentavam quando a discussão subia de tom.
Este clima de acolhimento que nunca esperaram encon­trar, deixava os retornados tristes e exasperados. No entanto, apesar de todo o infortúnio por que estavam a passar, alguns dos que chegavam, mais desprendidos ou com um espírito de humor mais apurado, constituindo uma honrosa excepção, ainda tinham ânimo que, por vezes, lhes permitia brincar com a situação.
Foi o caso duma interessante conversa que Matilde ouviu uma tarde ao entrar num pequeno bar duma vila do centro do país onde, como é habitual, um grupo de homens, costumava juntar-se em amena cavaqueira. No momento a conversa estava animada. Os temas, como as cerejas, iam-se encadeando uns nos outros passando, inexoravelmente na altura, pelos retornados.
Uns queixavam-se disto, outros acusavam-nos daquilo, sendo, porém, todos unânimes na ideia de que os regressados de África estavam a constituir uma praga, tal era o número dos que afluíam dia após dia ao Velho Continente.
— Na realidade, disse um dos presentes à laia de con­clusão, daqui a pouco, não se vê mais nada nesta terra senão retornados e cães!
— É verdade, é verdade...
— Você é que tem razão - aplaudiram quase em uníssono todos os presentes.
De repente, alguém reflectiu e, uma voz se levantou do meio do grupo:
— O senhor por acaso não é retornado? Ou é?
— Claro que sou, homem!
— Eu também, exclamou quem falara e, ambos desa­taram a rir com vontade perante o espanto dos demais que de repente não se haviam apercebido onde estava a piada.
Mas estes momentos eram raros. O discurso normal era o que vínhamos descrevendo.
Os retornados eram cada vez mais, queriam era vir tirar os lugares, os postos de trabalho, passar à frente, dos que cá estavam mas isso não iria acontecer porque eles não deixariam. Que pouca vergonha, andaram lá a ganhar muito mais do que os que cá estavam, a trabalhar muito menos, e o tempo a contar a dobrar!
Era com ditos desta estirpe que os mimoseavam.
Parece impossível, mas estas ideias andavam na cabeça de colegas, amigos e até familiares e eram apresentadas sem a menor deferência.
Tentar chamar à razão essas pessoas, que se insurgiam contra quem forçado regressava à sua terra, argumentando de mil maneiras, era tarefa vã. Dizer-lhes que afinal com a ida de muitas pessoas para o ultramar todos haviam ganhado, que as terras africanas foram alvo de um desenvolvimento sem precedentes na história, que as relações entre brancos e negros eram boas, que isso de tratar os negros como escravos, chicoteá-los, acontecera em tempos muito remotos e não na nossa geração (tempos nos quais os próprios brancos eram assim tratados, por outros brancos). Lembrar-lhes quantas mulheres na actualidade recebiam aqui maus tratos, quantas eram exploradas no seu trabalho, já não falando na prática corrente da exploração do trabalho das crianças, dos des­protegidos, dos humildes... de nada valia.
Pareciam desconhecer ou pretenderem ignorar que todas estas questões e procedimentos, embora incorrectos, eram fruto da época e aceites como normais pela sociedade então vigente. Em Angola não acontecera mais que o reflexo do que se passara cá e por esse mundo além, apenas com uma pequena mas significativa diferença; entre os portu­gueses e os nativos aconteceu o que não aconteceu com nenhum outro povo colonizador, a mestiçagem seguida ou antecedida de muitos casamentos entre brancos e negros; não era por acaso que se dizia que, Deus criara os brancos e os negros e os portugueses os mestiços.
Tentar afirmar que os portugueses na generalidade eram tolerantes amigos e respeitavam os africanos tal como os naturais do continente, pagando-lhes bem se trabalhavam bem, era tempo perdido pois tais argumentos pura e simplesmente não lhes interessavam. Era ponto assente:
quem não tinha ido ou ficado em África era honesto, quem lá permanecera era explorador.
No seu entender existiriam algumas excepções... talvez! Davam-lhes por vezes o beneficio da dúvida.
Tentar fazer com que reflectissem, lembrando-lhes que quase toda aquela gente havida perdido tudo sem culpa, pedindo-lhes que se colocassem no lugar de quem voltava de mãos vazias, tal como se um fogo ou uma catástrofe na­tural, um terramoto por exemplo, lhes destruísse todo o seu património, deixando-os dum momento para o outro sem nada, era tempo perdido pois recusavam-se a estabelecer semelhante comparação, por inverosímil.
Caricato seria perguntar-lhes se os emigrantes portugueses, na França, enriqueceram à custa de explorarem os franceses, os da Venezuela, os venezuelanos.., e se os negros não deveriam permanecer na Europa porque não é a sua terra, mas os retornados nunca poderiam colocar tais questões porque jamais pensariam desse modo.
Só passados muitos anos, grande parte dos membros da nossa sociedade viria a admitir que os retornados, na sua maioria, eram gente honesta e empreendedora. Muitos deles conseguiram refazer a sua vida em tempo recorde e, de uma forma exemplar, o que deixou admirados todos os que tiveram conhecimento do modo, talvez único, como se ajudaram mutuamente. O que por certo talvez nunca conseguirão avaliar é o sofrimento pelo qual passaram durante todo esse período de recuperação e as feridas que apesar de todos os esforços, não conseguiram jamais sanar.
Deveria, no mínimo, ter ocorrido, a seu tempo um processo de indemnização aos lesados, por parte do Governo Português, porém, até ao momento actual, por estranho e incrível que pareça, tal facto ainda não aconteceu, a justiça ainda não foi reposta.
A realidade do mau acolhimento de que estavam a ser vítimas todos os que retornavam a Portugal já Matilde a conhecia penosamente martelando-lhe o cérebro sem parar, e quanto doía! Porém era preferível enfrentar a hostilidade na sua terra, a permanecer em Angola onde a vida se havia transformado num enorme pesadelo.
Afinal ela era uma optimista nata e não perdera a es­perança de que, após ter a família reunida, iria conseguir contornar os obstáculos e vencer as dificuldades que se lhe deparassem, por maiores que fossem.


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