quarta-feira, 10 de novembro de 2010

RITA GARCIA: novos escritos especulativos sobre a vida de portugueses no Ultramar, publicados na Revista "SÁBADO",nº 339,de 28/10 a 3 de Novembro de 2010



Uma capa de revista bastante sugestiva mas nada condicente com a "realidade" que pretende fazer passar. Assim se faz jornalismo em Portugal...Análise extremamente redutora daquilo que foi a vida em África, daqueles que "retornaram"de África... Por ignorância ou má fé, a vida de todos é aqui  reduzida aos modos de ser e estar de uns poucos...






"OS ANOS DOURADOS DOS PORTUGUESES EM ÁFRICA"... "MEMÓRIAS DE COMO ERA O DIA A DIA DOS PORTUGUESES"...  "A VIDA EM ÁFRICA  ERA ASSIM"...

 
Segue a tomada de posição de Roberto Correia,  pessoa esclarecida na matéria,   conhecedor de cidades e sertões, que na época colonial foi colaborador dos jornais “A HUÍLA” (e mesmo redactor), dos “NOTÍCIAS da HUILA”, “O NAMIBE”, “A VOZ DO PLANALTO”, “A PROVÍNCIA DE ANGOLA” e do “JORNAL DE ANGOLA”, da ASSOCIAÇÃO AFRICANA (em Luanda, de que foi ainda membro da direcção e colaborador da Liga Nacional Africana), usando sempre o  pseudónimo “Sourreia”;  publicou diversas obras literárias sobre a História de Angola:


A propósito de um artigo e da capa, assim intitulado, na Revista "Sábado", n.339, de 28/10 a 3 de Novembro de 2010, diremos o seguinte:


1) - Assim como a maioria dos meus familiares e dos milhares de conhecidos, colegas e amigos, nascemos em ANGOLA,onde antes de 11/11/1975 (antes da revolução), éramos "TODOS PORTUGUESES" (além de verdadeiros "ANGOLANOS", fruto de algumas gerações de três Continentes (EUROPA - AMÉRICA DO SUL(BRASIL) -- ÁFRICA).

2) - Muitos outros milhares de residentes então em ANGOLA (não me vou referir aos outros territórios ex-ultramarinos, onde nunca vivi), eram PORTUGUESES CONTINENTAIS, que, em pouco tempo,se tornavam como verdadeiros Angolanos !

3) - Não eram, então, também "PORTUGUESES" apenas os "BRANCOS" nascidos em ANGOLA !

4) - Não sei, não faço ideia,onde nasceu ou viveu a jornalista RITA GARCIA, autora do artigo (reportagem/Destaque)acima referido. Até gostava de saber...

5) - Como "ANGOLANO / PORTUGUÊS", descendente de algumas gerações nascidas e vividas em ANGOLA, assim como muitos dos meus diversos familiares, dos amigos e dos conhecidos, NÃO DEVO, NEM POSSO, deixar de manifestar a minha parcial discordância com o conteúdo e espírito do mencionado artigo (reportagem, que nem sabemos como foi efectuada! ).

6)  ANGOLA,embora com uma faixa marítima bastante extensa, apenas tinha (e tem ainda) poucas cidades e poucas vilas ou povoações importantes junto desta. Assim,alguns milhões dos seus habitantes naturais,algumas centenas de milhares dos "PORTUGUESES" até então ali residentes, viviam no seu imenso interior (várias vezes superior ao território português na Europa), 
instalados até a muitos quilómetros da costa marítima. Residiam e viviam no "SERTÃO", no "MATO". Muitos deles permaneceram anos a fio sem ...irem à cidade"...! Estavam mesmo muito longe das praias ! Praias, só conheciam as dos rios e tinham jacarés !... Nem andavam ..."em caçadas de elefantes e leões"...! Tudo isso era então muito bem controlado e vigiado por fiscais próprios e pelas leis em vigor. A sua conservação era respeitada. Não eram então dizimados por armas de guerras ("coloniais ou civis"), ou de ricos turistas de ocasião, como aconteceu depois de 1974/75 !

7) - Poucos locais "adequados" existiam e nem todos os PORTUGUESES andavam em paródias ou noitadas de fins-de-semana em..."clubes exclusivos e festas na praia"...! Era uma população trabalhadora (não havia desempregados permanentes, nem subsidiados profissionais). Também essas leis eram respeitadas.

8 ) - Quanto ...às "boas casas, com espaço, jardim e criados para os servir"...nem só alguns dos ditos PORTUGUESES (ULTRAMARINOS) eram seus exclusivos possuidores ou utilizadores legais. Isso era comum, necessário, conveniente até para os próprios trabalhadores. Esses PORTUGUESES não tinham, na sua grande maioria, automóveis de luxo, nem motoristas privativos...como alguns dos grandes senhores e os "Continentais" (cá por estas bandas)!

9) - Tudo isso também já se verificava no CONTINENTE e com proventos bastante semelhantes ! Muitos anos antes, as construções (as residências) dos PORTUGUESES em ANGOLA tinham,obrigatoriamente, uns anexos com quarto(s) e sanitários para o(s) criado(s), mesmo dentro das cidades ! As tais..."boas casas com espaço, jardim (até com piscina privativa) também se encontram hoje em muitas zonas deste "pobre" país, pertencentes aos Continentais,(I) Emigrantes ou não, bastante valiosas e, em muitas delas,se realizam as tais ..."FESTAS"... e nem precisam de outras praias em fins-de-semana (em especial nos prolongados por modernas "pontes horárias",ou até mesmo sem serem de "surpresa",dos amigos (de ocasião ou à espreita de certas oportunidades ou favores,nem que sejam "inimigos disfarçados de outras mais adequadas cores"...e numa mais do que conivente ..."ERA DOURADA" !

10) - Por lá, ANGOLA desses tempos "dourados", muito boa gente, já com certa idade, nunca tinha visto uma "PRAIA", tal a imensidão do território. E muito menos tinha sido beneficiado com..."um pires de marisco (de camarão ou outro) à borla, nem mesmo duma cerveja fresca em zonas em que ainda nem havia electricidade, nem "geleiras" domésticas ! Normalmente nem eram pires de "camarões" à borla mas sim, de tremoços ou ginguba. Pelo contrário, viviam quase isolados, carentes, passando privações, sem qualquer "assistência social". Eram terras de trabalho duro e de boas produções e não de "farras", regabofes, festivais, etc. Eram trabalhadores sérios, honestos, patrióticos, que acabaram sendo traídos e nunca recompensados !

11) - ANGOLA, na sua maior parte, a grande ANGOLA, era a "ÁFRICA MISTERIOSA", a verdadeira ÁFRICA, não só de "Elefantes e Leões", que nos velhos tempos desciam aos povoados, ás cidades (até à LAGOA DE KINAXIXE, então nos arredores de LUANDA). sendo conveniente caçá-los.

12 ) - Os outros "caçadores", amigos ou familiares dos "VINHAS", dos "MELOS" e doutros ilustres "continentais", eram abastados turistas, fazendo esquecer os esfarrapados "pumbeiros" do sertão ou os caçadores furtivos de marfim, associados aos grandes chefes locais !

13) - O imenso título "MOÇAMBIQUE" aplicado por cima duma enorme foto de alguns veraneantes na ILHA DE LUANDA  (pág. 48 da citada Revista), está mesmo... "a matar" ! 

Diremos então que... ANTES NÃO ERA ASSIM"...!

14) - CONCLUINDO : - RITA GARCIA... "A VIDA EM ÁFRICA... (NÃO) ERA ASSIM"... como descreve! Vamos falar verdade! Seja humilde, peça desculpas aos muitos milhares de PORTUGUESES ULTRAMARINOS que ofendeu !...


P.S. - (artigo será transcrito na minha "secção gmail, estando ao dispor no meu blogue http://angola-brasil.blogspot.com   COIMBRA, 31/10/10 - Roberto Correia -- (sourreia@gmail.com)


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Também sobre o artigo e a capa da Revista "Sábado", n. 339, de 28/10 a 3 de Novembro de 2010, segue outra tomada de posição:
 

"Chega-me a revista portuguesa Sábado (nº 339, 28.10.2010) com uma reportagem de Rita Garcia mais ou menos intitulada “A vida em África era assim” (estas ligações são muito perecíveis, mas por enquanto funcionará).  A capa da revista (de expressão nacional) é-lhe dedicada e a coluna do director (“Bastidores” de Miguel Pinheiro) também, tornando-a matéria central desta edição semanal. O tom ordinário da revista nota-se logo na forma como é apresentada a reportagem: tem quatro títulos, um na capa ["Os anos dourados dos portugueses em África"], um outro no índice ["A vida em África antes da independência"], outro na coluna do director Miguel Pinheiro ["Memórias de África"] e outro ainda na reportagem propriamente dita [a paginação dificulta a sua consideração mas eu arrisco "A vida em África ... era assim"]. Agora venham-me dizer que são “opções” … então e como se chama aquilo? Mas se isso é o tom da revista mais pungente ainda é a radical mediocridade preguiçosa do texto: a enésima abordagem ao rame-rame da cerveja Cuca, as festas liberais, o camarão que vinha oferecido com a imperial, as caçadas, o criado doméstico. Tudo isto é o tudo no qual “Todos os portugueses que conversaram com a repórter da Sábado coincidiram nas recordações daqueles tempos.“, afirma o orgulhoso director. Uma mera reportagem de revista não é um ensaio histórico mas não se restringe obrigatoriamente a tamanha mediocridade (e a um “mundozinho” informante).
Paupérrimo trabalho."

By JPT:  http://ma-schamba.com/937277.html

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Outra tomada de posição relacionada com o artigo e a capa da Revista "Sábado", n.339, de 28/10 a 3 de Novembro de 2010:

 

"Tenho lido com alguma frequência que Angola era uma terra cheia de oportunidades, o que realmente é verdade, não deixa contudo de ser puro engano dizer-se que bastava alguém ser bom trabalhador para enriquecer.

Li recentemente um livro cujo autor diz ter vivido alguns anos em Angola e espanta-me que também ele ajude a passar esta ideia enganadora. Embora seja um romance e por isso à partida classificado de pura ficção, não deixa contudo de cair neste erro. Lê-se ali que um casal chegado a Luanda, em pouco tempo já tinha negócios espalhados por toda a cidade e logo a seguir pelas principais cidades de Angola, isto sem falar da compra de uma "casa" na Vila Alice.

Não espantava se esse casal fosse endinheirado e procurasse Angola para investir, o que não é o caso. Por vezes parece que existem duas Angolas diferentes, aquela que eu e a maioria conhecemos e uma outra, onde se chegava e se encontrava prontamente uma "àrvore das patacas" e se enriquecia duma hora para a outra. Eu nasci em Angola e embora houvesse diferenças de classes como na maioria dos países, a verdade é que era necessário muito trabalho para se viver com algum desafogo e a maioria pode atestar que também não dava para se fazerem muitas "avarias".

Assim, das duas uma, ou eu e muitos outros fomos pouco inteligentes e nunca soubemos ver os "grandes negócios", ou simplesmente nunca encontramos a tal " árvore das patacas".

É bom que se diga a verdade, era uma linda terra, um povo hospitaleiro e humilde, mas quem começasse do nada como o meu pai e muitos outros que ali chegaram na década de 50, mesmo com muito trabalho, nunca chegaram a ter essa tal vida faustosa que se encontram ilustradas nalguns romances.
Lá como cá, se houvesse respeito pelo "próximo", creio que as oportunidades eram iguais!"


Facra Rone in Cubatangola                                                                                
                                                                 
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Depois de ter publicado aqui algumas tomadas de posição sobre esse artigo e capa da Revista "Sábado", n. 339, de 28/10 a 3 de Novembro de 2010, subordinado ao título "OS ANOS DOURADOS DOS PORTUGUESES EM ÁFRICA", "MEMÓRIAS DE COMO ERA O DIA A DIA DOS PORTUGUESES"  ,"A VIDA EM ÁFRICA...ERA ASSIM"...
resolvi voltar aqui para acrescentar algo mais:

Costuma-se dizer "Quem não se sente não é filho de boa gente!".  E o problema é que à boa gente quando sente, logo vem outra gente replicar em tom de crítica: "Os retornados ainda não se libertaram de ressentimentos!..." Mas o que querem então? Que nos acobardemos no silêncio, quais párias expurgando os pecados da Pátria?

Não entre por aí  Rita Garcia. Não se trata de ressentimentos. Trata-se, sim, da vontade de ver assunto tão sério como este, tratado com seriedade. E não é sério abordá-lo assim, começando por ilustrá-lo com uma capa  representativa de uma ínfima parcela da população branca que vivia em Angola, como se a sua vida ali fosse uma "Dolce Vita", um "Farniente". 

Rita Garcia foi mais longe que Jesus Cristo quando fez o milagre dos pães. Conseguiu através de um conjunto de palavras transformar uma realidade que não abrangia mais que uma facção mínima da população branca de Angola, em uma outra realidade digna de tal ilustração. Ou seja, através de um trabalhinho feito a correr, num meio pequenino de informantes, reduziu a "vida em África" a  uma meia-dúzia de estereótipos já cansados de usados, que mais fazem lembrar os atribulados tempos do PREC!

Mas há mais. Os truques são sempre os mesmos. No outro dia entrei numa livraria e vi um livro que me chamou a atenção. Porquê?  Pela capa! Era mais um livro especulativo sobre a vida dos portugueses em África. Junto a um descapotável, um casal beneficiava de uma sombra amena enquanto um rapazinho africano, ao lado, muito direitinho e com ar respeitador, de plantão, segurava um guarda sol.

Conforme John F. Kennedy: "O grande inimigo da verdade, muitas vezes não é a mentira - deliberada, compulsiva e desonesta, mas o mito persistente, persuasivo e irrealista. Acreditar em mitos dá o conforto da opinião sem o desconforto do pensamento." E todos sabemos, o quanto uma não verdade centenas de vezes  repetida, acaba por tomar o lugar de uma verdade.

Informar exige um código de honra, exige ética, exige acima de tudo estar por dentro das situações. Tomar a parte pelo  todo, ou o todo pela parte, se não é  ignorância, é intenção!

Na reportagem «Os anos dourados da vida do portugueses em terras de África», não passa despercebido o tom jocoso utilizado, o palavreado provocador e leviano dirigido a pessoas sérias, honestas, cuja vida era na sua maioria de trabalho duro e de sacrifícios, e não de "farras", regabofes, festivais, etc. Gente que nunca enriqueceu (pudessem vir a público as suas contas bancárias, seriam reveladoras),  gente que trabalhou duro,  que sofreu privações, que ajudou a erguer cidades,  que acabaram sendo traídas e nunca recompensadas!  Gentes que honraram Portugal, e que um dia tiveran que que partir de mãos vazias e coração desfeito, e pior ainda, transformadas em "bodes expiatórios" de todos os males, talvez para disfarçar seculares incompetências.

Porquê esta sede de escrever sobre aquilo que praticamente se desconhece, ou se conhece muito pouco? Porquê esta vontade de fazer passar por realidade aquilo que não passa de pura ficção. Não se sabe, inventa-se! O que leva as pessoas  a um tipo de abordagem como esta? Objectivos puramente materiais? Ganhar uns cobres à nossa custa?  Especulando, vende-se mais! É isso?

Os nossos tempos pecam pelo radicalismo dos discursos, pela análise especulativa das situações, pela ambição de brilhar a todo o custo, pela avidez do ganho, pela falta de empatia , essa grande qualidade tão necessária, que nos permite vestir a pele do outro, compreender suas ideias,  compartilhar os seus sentimentos e reacções. Como se desiludiriam os que assim escrevem, se estivessem devidamente documentados sobre a realidade da vida das pessoas em Angola,  dessa Angola imensa e profunda, e não reduzissem a sua perspectiva à vida de um determinado estrato social, bastante restrito, reduzido à capital, ou pouco mais ou menos. Fala-se de Angola como se todos fossem burgueses e pequeno-burgueses. O desconhecimento é tal que sequer se dão conta de quão redutora é a  sua perspectiva.   E como seria fácil fazer cair por terra todas as idealizações... Convido Rita Garcia a pegar seriamente neste assunto. Quero acreditar que se vier a fazê-lo, irá um dia compreender o verdadeiro sentido desta mensagem!

Gostaria de acrescentar que sou alguém nascida em Angola,  filha de pais nascidos em Angola no inicio do século XX, neta e bisneta de avós e bisavós, simples emigrantes que um dia, em finais do século XIX,  resolveram partir, incentivados por campanhas de sensibilização,  rumo ao sul de Angola, em busca de uma vida melhor que a mãe Pátria lhes negava.  Alguém que pot isso mesmo nunca se identificou com o rótulo de "retornado", mas que também nunca teve em relação a tal rótulo algum ressentimento. Era-lhe indiferente!     E era-lhe indiferente porque uma verdade é incontestável, quem algum dia viveu naquelas paragens, pobre ou rico, passa forçosamente a ver a vida com outros olhos. Os seus horizontes jamais serão comportáveis em espaços exíguos, a sua mente estará mais aberta a grandes dimensões...

Para quem estiver interessado a esclarecer-se sobre a colonização/descolonização, recomenda-se esta série de textos de 1 a 9 a iniciar aqui: http://psitasideo.blogspot.pt/2009/06/os-ossos-da-colonizacao-1.html

E ainda esta série de artigos:
 http://psitasideo.blogspot.pt/2009/02/os-esqueletos-nos-armarios.html



Ana Sofia Fonseca – Entrevista a propósito de “Angola, Terra Prometida” 20/05/2009 ·




A jornalista Ana Sofia Fonseca, autora de “Angola, Terra Prometida”, uma edição da Esfera dos Livros, deu uma entrevista ao blog Porta-Livros (por e-mail) onde falou da sua obra, um retrato vívido dos anos dourados dos portugueses em Angola. Trata-se de um livro, como explica, dirigido tanto a quem lá esteve nesses anos dourados como a quem nunca lá foi mas tem interesse em conhecer (e compreender) o fenómeno. Um retrato isento, pois, como explica Ana Sofia Fonseca, “a minha geração é a primeira a não ter compromissos com essa época, a poder olhá-la mais facilmente sem complexos nem tabus”. Contudo, não esquece que aqui é abordada apenas “uma parte da realidade – a vida dos portugueses”.

“Angola, Terra Prometida”, tal como o seu anterior livro-reportagem, “Barca Velha”, está escrito quase como se fosse um romance, não se limitando à pura exposição de factos. Ao optar por contar histórias pessoais pretendeu mostrar uma “história” mais emotiva e menos factual?

Não. As histórias fazem-se de gente. É através das histórias das pessoas que abordo os factos da época em questão. É uma forma de narrar habitual no jornalismo, sobretudo no que se refere a grandes reportagens. Acredito que uma história bem contada é aquela que nos leva ao tempo e ao espaço a que se refere. Para isso, é preciso dar as cores, os cheiros, os sons. As pessoas. Com as suas vivências, modos de pensar e de sentir.


A quem se dirige este livro? A quem esteve em Angola e quer recordar ou a quem não esteve e pretende saber melhor o que se passou?

Por razões diferentes, este livro dirige-se aos dois públicos que refere. Para quem esteve em África, é uma viagem à Angola que tão bem conheceu. Às águas quentes do Mussulo, ao capim, ao cinema. Aos sons da rádio, ao prazer de uma Cuca gelada. Para quem não viveu, é uma forma de descobrir o dia-a-dia de então. Desse tempo de ditadura e de colonialismo, em que Lisboa era metrópole e Angola apenas província ultramarina. Pelo menos, assim espero.


Angola está na moda ou volta a ser falada porque agora há a possibilidade real de lá regressar e as pessoas têm maior abertura de espírito para voltar a falar do passado?

Angola está na moda por diversas razões. Finda a guerra e com o desenvolvimento económico, voltou a atrair muitos portugueses – uns que já lá haviam vivido e outros que nunca a tinham sequer pisado. Outro dos motivos prende-se com o facto de muitas das pessoas que lá viveram acharem que está na altura de contar as suas memórias. Depois, há ainda os que acreditam que ainda existem muitas e boas histórias sobre esse passado próximo por contar. Eu incluo-me neste último grupo. A minha geração é a primeira a não ter compromissos com essa época, a poder olhá-la mais facilmente sem complexos nem tabus.

O fascínio por Angola não será potenciado pelo facto de as pessoas terem de lá saído no auge, de terem saído de lá quando a vida, em geral, lhes corria bem? Ou seja, há possibilidade de o cenário não ter sido assim tão cor-de-rosa e que seja antes indevidamente “pintado” dessa cor?

Como no naufrágio do Titanic, poucos acreditavam que o barco estava condenado a ir ao fundo. As pessoas vieram de lá num momento de grande desenvolvimento económico, de euforia – tudo acabou de um momento para o outro. “Cor-de-rosa” é expressão que se pode atribuir à vida de muitos, mas não à esmagadora maioria de negros e mestiços. Qualquer sociedade colonial baseia-se no domínio de uma cultura sobre outra – a portuguesa não foi excepção. Além disso, a memória tende a ser piedosa, a dourar a realidade. Por isso mesmo, além das muitas entrevistas, realizei pesquisa em arquivos públicos e em bastantes jornais e revistas de época.

Esta faceta dourada de Angola era apenas isso mesmo, uma faceta. Não estará a ser esquecido o outro lado, o lado daqueles que viviam lá em grandes dificuldades, muitas vezes explorados pelos colonos portugueses?

Este livro fala sobretudo de uma parte da realidade – a vida dos portugueses. No entanto, nunca esquece que a grande parte da população estava fora desta redoma dourada. Aliás, algumas histórias mostram-no. Como já disse, estamos a falar de vivências num período colonialista. A vida que os portugueses tinham deve-se, em parte, à subjugação do resto da população. Penso que o livro não descura esse aspecto.

Não haveria muita gente a viver numa espécie de “bolha”, isolada da realidade do país?

Claro que sim! E mesmo cá, então metrópole, também. Vivia-se em ditadura, havia repressão. Política não era assunto. É preciso olhar para aquela época sem a descontextualizar. Até certa altura, o mundo fazia-se de potências colonizadoras e de colónias. Portugal tardou a aceitar a independência, deixou-se consumir numa guerra perdida à partida. O mundo mudou e Portugal recusou ver que o colonialismo era inaceitável.

A onda de emigração de portugueses que hoje em dia se está a verificar rumo a Angola pode ser comparada com o que sucedia nos anos 50 e seguintes? Acha que é possível recuperar aquele espírito da época, mesmo tendo em conta que os tempos e a realidade mudaram?

Tudo tem o seu tempo e o seu contexto. Agora, Angola é um país com o seu próprio caminho. Parece-me difícil tecer comparações, tratam-se de mundos e de tempos completamente diferentes.

Foi difícil encontrar pessoas dispostas a partilhar as suas histórias de vida, as suas fotografias, os seus documentos, as suas recordações?

Encontrar pessoas com memórias de Angola é fácil, mais complicada é pô-las a falar sem barreiras. Se tivermos em conta que de lá vieram cerca de meio milhão de pessoas, logo se percebe que histórias não faltam.

Não teve a tentação de passar esta “história” para um romance?

Gosto de escrever histórias com personagens de carne e osso. Este livro está cheio de gente, de personagens de um mundo que acabou. Acho que é um dos casos em que a imaginação nada acrescentaria à realidade.

Que projectos tem agora em mãos? Há a possibilidade de regressar a este tema?

Sou jornalista, o meu trabalho é contar boas histórias – sejam elas de onde e de quando forem. Sinto que posso trabalhar mais 10 anos neste tema, mas há tantos outros assuntos… O bom do futuro é que é sempre uma página em branco.

ORIGEM



   

A vida em Angola contada pela minha avó







Os meus tios e outras crianças de Angola.






Generosa Valente da Silva Almeida, a minha avó materna, nasceu, em 1941, em Vila Nova de Gaia. A minha avó foi para Angola, em 1960, com 19 anos de idade, onde conheceu o meu avô Manuel Almeida. Constituíram família e desta união nasceram três filhos, um deles é a minha mãe. A minha avó conta-nos que a vida em Angola era vivida com muitas dificuldades, mas em paz. Os meus avós viviam no interior de Angola, porque o meu avô era maquinista dos caminhos-de-ferro. Por vezes, os comboios paravam por falta de trabalho e o meu avô ficava muito tempo sem trabalhar. A minha avó era doméstica tratava da casa e dos filhos. Apesar de terem pouco dinheiro, davam sempre o melhor que podiam aos seus filhos.

O meu avô, com a farda de maquinista dos caminhos-de-ferro.


Quando se declarou a independência em Angola, a minha mãe era muito pequena. A minha avó veio para Portugal com os filhos, mas o meu avô ficou lá mais 9 meses, debaixo de guerra. Quando o meu avô voltou para perto da família, ninguém pensava que fosse mesmo verdade. Em Portugal, os retornados viviam com muita dificuldade, eram discriminados. O meu avô começou a trabalhar nas fazendas, muitas vezes queriam dar de comer aos seus filhos e não tinham, foi uma batalha muito dura, que todos tiveram de vencer. Quando os meus tios e a minha mãe eram um pouco mais velhos, entre os 12 e 14 anos de idade, tiveram que ir trabalhar para a vindima, para a apanha da azeitona e para o lagar.Ainda hoje a minha avó conta que, passados tantos anos, as pessoas que vieram de Angola para Portugal ainda são olhadas de lado pelas pessoas que naquela altura tinham algumas posses.Os meus avós já cá estão há 34 anos. Se o meu avô fosse vivo, fazia 80 anos, no 25 de Abril.
A minha avó e os meus tios, quando chegaram a Portugal

Mariana Pirona

sexta-feira, 15 de outubro de 2010

A Fuga do Huambo


Luís Alberto Fernandes Achega
[30-11-2008] [17182 caracteres]

A queda do muro de Berlim, a transformação que houve no bloco soviético pressagiou uma nova era de esperança que se tem dissipado ano após ano.

O Mundo respirou uma paz que não seria duradoira. Aos nossos dias chegou idade do terrorismo, do fundamentalismo, do tribalismo, da globalização e do capitalismo selvagem em que tudo se justifica pelo dinheiro.

Chegaram novas guerras e, de vez em quando, apercebemo-nos, através da televisão de ondas de refugiados que fogem da guerra. Faço parte duma geração que esteve na chamada guerra colonial. Fui combatente em Angola entre 1967 e 1969. Mais tarde, conheci e vivi, também em Angola, a guerra entre os movimentos de libertação, que provocou uma fuga desordenada duma grande parte da população Angolana.

Há muito que tenho na memória uma época de terror, anotei e guardei recordações para que fique um documento de parte da minha história e das pessoas que me acompanharam.

A revolução de 25 de Abril de 1974, trouxe para a cena política de Angola três movimentos, que até então, combatiam contra o exército Português na clandestinidade: - MPLA, FNLA e UNITA.

Após a revolução, estes três movimentos, com o patrocínio do governo Português, em Alvor, no Algarve, acordaram entre si respeitarem os bens dos Portugueses. Também acordaram apresentar ao povo Angolano as suas ideias, a fim de serem sufragadas em voto secreto. “ Acordo de Alvor a 15 de janeiro de 1975 “.

Como todos sabem nada disso aconteceu. Angola entrou numa longa guerra civil que se prolongou até à morte de Jonas Savimbi em Fevereiro de 2002. Mesmo antes da revolução de Abril, os três movimentos, sempre lutaram uns contra outros, no entanto, a partir de finais de 1974 envolveram-se numa luta sangrenta, com algumas tréguas precárias.

Como consequência dessa guerra, gerou-se uma grande insegurança na população civil, que deu origem à fuga desordenada de grande parte da população. Os combates entre eles, começaram no norte de Angola e em Luanda, mais tarde estenderam-se por todo o território.

Chegavam então ondas de refugiados a Luanda e a Nova Lisboa. Estiveram de passagem na nossa casa o Francisco Meneses, já falecido e o seu genro Rézio com o Pai, também falecido. Eram refugiados do norte de Angola, de Malange.

Através de pontes aéreas dos dois aeroportos internacionais de Luanda e de Nova Lisboa, os refugiados foram transferidos para Portugal. Outros foram por terra até ao Sudoeste Africano e depois África do Sul. Os que estavam ligados à pesca e aos transportes marítimos fugiram de barco, uns também para à África do Sul, outros até ao Brasil.

Muitos morreram ao tentar a fuga, dentro e fora do território de Angola. Assim, de Janeiro de 1975 até Outubro do mesmo ano, pouco tempo antes da independência, Angola foi abandonada por muitos brancos, mestiços, e negros. Ao referir aqui, negros, brancos e mestiços, faço-o sem qualquer intenção de racismo. Não uso a palavra africano, porque a mesma é sempre, ou quase sempre, indicada para referir gente de cor.

Jorge Bem, conhecido cantor Brasileiro, mestiço, diz numa sua canção que nasceu no Brasil por acidente geográfico. Jorge Bem é mestiço mas ninguém diz que o Brasil não é terra de negros. Sem querer fazer história, sabe-se que os autóctones do Brasil são os chamados Índios. Parece-me que o nome de Índios, se deve ao facto de Pedro Álvares Cabral ter pensado que tinha chegado à Índia, quando tinha aportado a Porto Seguro, no Estado da Bahia, no ano de 1498. Ao contrário das Américas, do continente Australiano, da Nova Zelândia, nunca foi ponto assente que os brancos também fazem parte de África. Angola tinha gente branca de várias gerações. Meu filho, Luís Achega, nasceu em Angola, em Nova Lisboa, hoje Huambo.

Antes de 1974, Angola estava com grande crescimento, vou no entanto fazer um pequeno retrato da cidade de Nova Lisboa, que Norton de Matos quis fazer capital do Império Colonial Português. Alguns leitores deste jornal, conheceram a cidade de Nova Lisboa, que era em 1975 a segunda cidade de Angola. Uma cidade nova e moderna com alguns habitantes mais velhos que a própria cidade. A cidade do Huambo foi fundada em 21 de Setembro de 1912. Era uma cidade de grande extensão com avenidas e ruas largas.

Tinha uma grande zona industrial onde, anualmente, havia uma feira internacional, agrícola e industrial, tinha um jardim zoológico, aeroporto internacional, quatro salas de cinema, sede episcopal, muitas igrejas incluindo a igreja de Nossa Senhora de Fátima, três grupos de futebol, um deles o Ferrovia que estava agregado ao caminho-de-ferro de Benguela. Sem ser porto de mar, passavam por Nova Lisboa muitas mercadorias pela citada linha ferroviária, que fornecia e escoava produtos de Angola, da Zâmbia e de uma parte do Zaire.

Nova Lisboa era e ainda é um local estratégico: - A 600 Km de Luanda, a 300 km do importante porto do Lobito, a 400 quilómetros de Sá da Bandeira hoje, Lubango, era passagem obrigatória para o leste de Angola, era ao tempo, um importantíssimo eixo rodoviário e ferroviário. Certamente que em futuro próximo, a capital do Huambo, voltará a ter a importância que teve no passado. O caminho da paz e da esperança está aberto.

Por causa da guerra, da insegurança e da estagnação económica, no final de Julho de 1975 encerrámos a nossa unidade têxtil. Não havia condições para trabalhar. A comida escasseava e a situação piorava dia após dia. Encostado à nossa unidade industrial, estava um destacamento da Unita e os soldados chegaram a passear com as suas armas no interior da nossa fábrica. Não havia ordem nem Lei que mudava conforme a posição de força dos três movimentos. De vez em quando haviam combates entre eles aos quais chegámos a assistir. Pensámos em abandonar Angola, mas por avião havia muita gente em lista de espera, a opção foi ir de carro até à África do Sul e apanhar avião para Portugal.

Também em finais de Julho de 1975, tinha ido pôr meu filho Luís a Luanda para que viesse para Portugal com uma família amiga. Tinha quatro meses o Luís. Vimos, eu e sua mãe, o avião levantar voo e ficámos sem saber se voltaríamos a ver o nosso filho. Correu tudo bem. Passado pouco mais de um mês estávamos de novo juntos em Portugal.

Escolhemos 15 de Agosto para abandonar Nova Lisboa. Eu, Isabel Sana e o João Martins. Tínhamos dois carros com depósitos cheios de gasolina e ainda alguma de reserva, além de mantimentos para a viagem. Haviam ainda mais quatro ou cinco carros de outros fugitivos. De madrugada começámos a nossa fuga e na saída de Nova Lisboa encontrámos uma barreira de militares da Unita. Perguntaram-nos por documentos e pelo salvo-conduto do partido. Demos dinheiro e vinho e passámos sem problema.

Andámos mais 50 quilómetros até Caala onde nova patrulha nos perguntou pelo mesmo. O militar que nos interpelou estava bêbado, no entanto com duas garrafas de vinho e cinco notas de 20$00 não levantou objecções. Passámos depois por Caconda onde tivemos de parar e pagar a portagem como antes e tudo bem. Caconda era uma bela vila agora abandonada, parecia uma cidade fantasma onde somente se viam cães e gatos abandonados. À medida que avançávamos, íamos atestando os depósitos com as nossas próprias reservas para não sermos roubados do precioso líquido.

Passámos a Caluquembe, Cacula, Hoque e sempre a mesma paisagem: - povoações abandonadas com alguns destroços da guerra. Chegámos a Sá da Bandeira sem qualquer problema nos 400 quilómetros percorridos. Foi bom termos escolhido viajar pela manhã. Ao meio-dia, certamente que a maior parte dos militares estaria com uns copos a mais e poderia ser mais complicado o controle. Através dum nosso amigo conseguimos hotel em Sá-da-Bandeira, onde planeámos a partida para a fronteira da Namíbia.

Eram mais 600 quilómetros e já tínhamos resolvido o problema do combustível para a viagem que se adivinhava perigosa. Ouvíamos falar de massacres para os lados de Pereira de Eça que hoje tem o nome de Ondjiva e estávamos com receio. Planeámos de novo a partida agora com um grupo muito mais numeroso. Talvez trinta viaturas. Mais uma vez, bem cedo, ainda noite, abandonámos Sá-da-Bandeira e confiámos na sorte. Não tínhamos armas, a viagem era perigosa, mais para o sul havia guerra, a aventura para o desconhecido estava bem perto, a angústia que seca a boca começou a tomar conta de nós.

Foi num dia frio de Agosto, que partimos de Sá da Bandeira. O caminho afinal estava livre e foi um ver se te avias até ao Sudoeste Africano, hoje Namíbia. Não houve paragens na PICADA de terra batida, na estrada de pó. Penso termos percorrido grande parte da famosa Picada de Calueque. Ao fim da manhã, já tínhamos passado o Chitado. Atravessarmos a ponte sobre o rio Cunene e chegámos à fronteira onde contactámos com os soldados Sul-Africanos. Fomos revistados e seguimos viagem. Passámos por Ombulantu, Ogongo e chegámos a um campo de refugiados em Oshakati. Penso que Oshakati, era ao tempo, território Ovambo que se situava entre a fronteira da Namíbia norte e a fronteira sul de Angola.

Ao chegarmos ao campo de refugiados, fomos desinfectados, mostrámos as vacinas, passaportes e dissemos que poderíamos prosseguir sem auxílio dado que tínhamos dinheiro para a viagem.

A África do Sul tinha uma logística muito bem organizada para dar apoio às vagas sucessivas de refugiados Angolanos. Hoje, através da informação, os Media dão grande destaque aos refugiados da guerra. Nós, portugueses, quando da descolonização, passamos por situações muito graves. Muita gente morreu, muitas famílias foram separadas, muita gente ficou sem os seus haveres. Em campos de refugiados, nasceram crianças e foram sepultadas pessoas. Ao longo do percurso, entre a Namíbia e Johannesburg, haviam campos de acolhimento para os refugiados de Angola. Por interesses da Revolução de Abril, nada ou pouco foi mostrado em Portugal sobre esses campos de refugiados.

Junto à saída do campo de Oshakati, casualmente contactámos um professor de história Sul-Africano que nos levou para um Hotel. Tirámos o pó que era muito, jantámos uma deliciosa carne de vaca grelhada e dormimos tranquilamente. Pela manhã partimos e passámos por Otjiveto, Operet, e chegamos a Tshumed, pequena cidade mineira, onde perguntámos num mini mercado de Portugueses, por um carro nosso que tinha sido utilizado pelo António Farinha, pelo Victor Carvalho e família. O António Farinha e o Victor Carvalho eram funcionários da nossa empresa em Nova Lisboa.

O Carro era um Datsun 1200 que estava num campo de refugiados em Grootfontein. Os utilizadores já tinham vindo para Portugal de avião. Tinha uma chave da viatura, apresentei-me no campo e deram-me o carro. Partimos de novo, agora com três carros. O João Martins com um BMW 1600, a Isabel com um Fiat 124 Sport Coupé e eu com o Datsun 1200. A jornada era longa e metemo-nos a caminho para Windhoek. Passámos por Otavi e fomos dormir num Hotel em Ochivarango. No outro dia passámos por Sukses, Osona e chegamos a Windhoek onde nos instalámos num Hotel. Windhoek era e ainda é a capital da Namíbia. Queríamos enviar o BMW e o FIAT para Portugal. Fomos a um despachante Português, mas o preço que nos deram para o despacho dos dois carros, era tão elevado que não decidimos logo.

Nesse escritório enviámos um telex para Portugal, para Luís Nascimento Silva. Do lado de Portugal, o triquitar do telex respondeu que andavam há quinze dias a tentar saber notícias de nós. As notícias deixaram a família descansada, mas a jornada ainda tinha muito pela frente. De nova Lisboa até Windhoek tínhamos feito cerca de 1.800Km.

Ao passarmos por uma rua de Windhoek vimos uma pequena empresa de exportação de peles de caraculo que tinha as portas abertas para arejar as bonitas peles estendidas em tabuleiros de madeira. Entrámos, conversámos e perguntámos qual seria a maneira mais económica de despacharmos as viaturas para Portugal. A informação dada com simpatia, sugeriu que fossemos procurar um despachante a Walvis Bay.

Assim com os três carros subimos de novo a Osona onde tomámos a direcção de Karib, Arandis, Swakopmund e Walvis Bay. Atravessámos uma zona contígua ao deserto da Namíbia e não posso deixar de salientar a beleza da vegetação, dos animais que vimos. De vez em quando lá estava a Welvitchia-Mirabilis, planta do deserto da Namíbia, a encher com a sua beleza uma terra vermelha e seca como é a terra Africana.

Lembro-me, sobretudo das pequenas vilas onde, apesar da escassez de água, haviam sempre bonitos jardins, das grandes salinas em Walvis Bay e de muitas gaivotas voando junto ao mar. Walvis Bay está situada a cerca de 500km a norte da fronteira da África do Sul. Walvis Bay, (do Afrikaans Walvisbaai, ou seja, Baía das Baleias), é uma importante cidade portuária da Namíbia.

Descoberta em 1487 por Bartolomeu Dias que a denominou "Golfo de Santa Maria da Conceição". A região não foi reclamada para a coroa portuguesa. Walvis Bay, é um porto de águas profundas e comercialmente muito importante, é também um paraíso onde habitam cerca de 100 mil aves marinhas: - gaivotas, flamingos e saracuras.
Ficámos num hotel em Walvis Bay nesse fim-de-semana, e, na segunda-feira despachámos o BMW e o FIAT para Valência no Sul de Espanha.
Em Outubro de 1975 fomos buscar os dois carros a Espanha, eu e o João Martins (Jota).

Regressámos de novo a Windhoek, agora num só carro cheio de bagagem. Contactámos a Luftanza a fim de arranjarmos voo para Portugal. Tínhamos bilhetes da T.A.P. mas fomos informados que não davam para viajar na Luftanza. Assim, com o pequeno e velho Datsun 1200, resolvemos fazer mais 1971 Km para Johannesburg.

Estávamos já na Zona Temperada do Sul, tínhamos atravessado o trópico de Capricórnio um pouco a sul da fronteira do BOTSWAMA e, embora os dias fossem quentes, as noites eram frias e com temperaturas negativas. Ao tempo havia uma crise energética e as gasolineiras somente vendiam combustível das 07H00 até às 18H00. Eram proibidos depósitos suplementares e assim não podíamos caminhar dia e noite. O carro gastava pouco, mas o caminho era longo. Passámos por Mariental, Asab, Keetmanshoop, Marubis, Grunau, Karasburg, Upington, e, finalmente Johannesburg.

No primeiro dia desta caminhada chegámos à noite, penso que a Karasburg e todos os Hotéis estavam repletos. Ficámos no carro, não havia gasolina e fazia muito frio. A meio da noite entrei no Hotel e serviram-nos café quente. Estivemos lá até às 07H00 altura em que abriram as gasolineiras. Foi muito simpático o funcionário de cor do turno da noite daquele Hotel.

A paisagem da extensa caminhada de cerca de 1971 Km era diversa e havia pouco trânsito. Estávamos na época seca. Lembro-me de muita vedação de arame farpado à beira da estrada e muito gado bovino em regime de pastorícia. Aquele país transpirava riqueza e fartura, era realmente um espanto ver tanta comida à solta.

Ao chegarmos a Johannesburg, hospedámo-nos num Hotel de Portugueses na parte alta da cidade. Aproveitámos para conhecer um pouco da cidade com as ruas numeradas como New York. Por ali estivemos alguns dias até embarcarmos para Portugal na TAP com escala em Luanda. O aeroporto de Luanda estava muito degradado, uma tristeza, mas chegámos a Portugal sem problemas.

De Janeiro de 1975 a fins de Agosto do mesmo ano, analisando tudo a uma grande distância, tivemos todos muita sorte. Penso que Deus e o Anjo da Guarda estiveram sempre connosco. Obrigado. Estou a corrigir este documento na data de 2008-10-30. Nas notícias desta manhã, ouvi sobre mais uma crise humanitária no Congo. Milhares de refugiados fogem da guerra.

Regressei com o João Martins a Angola em 1990. Estivemos em Luanda e no Huambo onde visitámos as casas onde vivemos e a Fábrica que construímos. O que vimos ficará para mais tarde.

Passaram mais de trinta anos. Tudo ou quase tudo ficou na memória. Para um melhor rigor sobre a distância percorrida, pedi auxílio à Universidade da Namíbia que gentilmente me forneceu tudo o que necessitei. Para uma maior precisão consultei os mapas do GOOGLE que reconfirmaram as minhas anotações.

Não quero deixar de prestar uma homenagem à Namíbia que é um País maravilhoso. Tem uma costa Atlântica de mar perigoso com muitos recursos pesqueiros, onde, também tem fama pela negativa a Costa dos Esqueletos, (Skeleton Coast). Tem ainda muitos minerais, sendo a maior riqueza os diamantes, existem alguns parques naturais para a vida Selvagem que, felizmente, hoje vimos através de programas televisivos. Tem uma área de 824.790,00 Km2, quase 10 vezes maior que Portugal. Não obstante a sua dimensão, a capital Windhoek, tem cerca de 161.000 habitantes e a sua população é de cerca de 1.648.270 habitantes.

Muito pouca gente para tão grande espaço. Windhoek era na data uma cidade com muitas características Alemãs. Windhoek, era, e ainda é, a capital administrativa do Sudoeste Africano, hoje Namíbia. É uma cidade do interior a cerca de 300km da costa Atlântica. Situada num bonito vale, foi fundada em 1890 e foi quartel-general do exército Alemão na primeira guerra Mundial.
Luís Alberto F. Achega

domingo, 12 de setembro de 2010

«FUGI DE ANGOLA PELO DESERTO»

Eusébio Gomes | Sá da Bandeira (Angola)

Eusébio Francisco Gomes tornou-se, em 1975, num dos protagonistas daquela que foi uma das mais míticas fugas à guerra civil angolana. Ao todo, demorou mais de um mês para percorrer cerca de mil quilómetros – sempre sob a égide da fome, da sede, do frio e do calor. Viveu na Costa da Caparica e reside hoje em Évora. Mas, embora se sinta mais português do que muitos, garante que voltaria a Angola “nem que fosse para varrer ruas”. Eis a história de uma autêntica odisseia.

Nome: Eusébio da Silva Gomes.
Idade: 52 anos.
Naturalidade: Sá da Bandeira/Lubango.
Profissão: técnico electrotécnico e vigilante.




Eusébio Gomes em Évora, onde reconstituiu a vida, depois da odisseia da fuga à ameaça da guerra civil angolana. (foto: Alexandre M. Silva)

Comer esferovite ou papelão, beber gasóleo ou mesmo urina – durante dias, Eusébio Gomes foi obrigado a tentar de tudo para sobreviver. Convidados a integrar uma caravana de fuga de Angola através do deserto da Namíbia, no Inverno de 1975, Eusébio e um vizinho, de nome Álvaro, avançaram antes do resto da comitiva, na expectativa de serem apanhados por esta ainda antes da foz do rio Cunene, que então separava os territórios angolano e sul-africano (a actual Namíbia era ainda, na altura, uma região da África do Sul). Sem víveres ou ferramentas, a expedição acabou porém por fracassar. Ou quase. Chegados ao Cunene, Eusébio e Álvaro tiveram de esperar três dias à fome, à sede, ao calor e ao frio pelos restantes companheiros de viagem. Só depois foram socorridos pelo exército sul-africano – e só depois ainda viriam a atravessar o rio em direcção à liberdade, travessia que no entanto também não foi completamente destituída de perigos.

“Trabalhava numa firma de electrónica, fazendo electrotécnica básica para traineiras e outras embarcações, quando a situação em Angola rebentou. Embora sendo ‘cabrito’, tinha a tez clara e, por isso, era considerado branco. Podia ter tentado ficar, mas fugir era a melhor solução. E, quando o meu patrão me propôs fugir pela Namíbia, na companhia de outras pessoas, não hesitei.”

“Eu e outro moço, Álvaro, fomos portanto os primeiros a arrancar de Moçâmedes. Íamos num camião Ford 600 D, que desenterrámos à mão durante uma noite inteira. Pretendíamos chegar ao rio Cunene, onde nos encontraríamos com o resto da caravana, mas atolámos a 25 quilómetros do destino. E já então a viagem se tinha tornado numa odisseia. Tinha só 21 anos, mas nunca até hoje voltei a viver uma situação semelhante.”
A primeira parte da aventura é, portanto, vivida a dois. Com o camião atolado. “Foram três dias sem comer e sem dormir, desidratados e cheios de fome. Até o taipal do camião tentámos roer, para além de esferovite e papelão. E, como não havia água, também tentámos beber gasóleo e até urina. Estávamos de tal maneira que tanto éramos capazes de matar como de morrer”, explica Eusébio. Só depois disso o resto da caravana destinada ao deserto da Namíbia começou a aparecer. A conta-gotas – mas sucessivamente, até que a comitiva chegou a uma centena de carros. E é nessa altura que começa a segunda parte da aventura da Eusébio Gomes: a travessia do rio Cunene, um dos maiores cursos de água de África, no limite Norte de um deserto que, sendo talvez o mais pequeno de todo o continente, era também considerado o mais perigoso.

“Foi então que construímos uma jangada em ferro, na intenção de atravessar o rio. Tivemos de passar vários cabos de uma margem para a outra, dentro de tambores, e eu ainda fui obrigado a nadar entre jacarés para passar um desses cabos. Mas conseguimos passar toda a gente e quase todos os carros. Só o último camião, um Mercedes, que era o maior veículo da caravana, se perdeu. Era muito pesado e fez afundar a jangada.”

“Nessa altura, e embora o nosso inglês fosse muito incipiente, começámos a enviar pedidos de socorro, nomeadamente com mensagens SOS e Bread escritas na areia. Primeiro, fomos atendidos por uma avioneta de um civil que estava a sobrevoar a zona com a família, em passeio, mas que nada podia fazer. Só no dia seguinte fomos socorridos por um helicóptero do exército da África do Sul. Primeiro, foram evacuadas todas as mulheres e crianças. Depois, os homens seguiram caminho até Swakopmund, perto de Walvis Bay, onde chegaram com a ajuda de Deus tanto como com a ajuda do diabo. Pessoalmente, perdi quase vinte quilos de peso.”
Muitas foram as caravanas que escaparam à guerra civil angolana através da Namíbia, mas aquela em que Eusébio Gomes participou é ainda hoje considerada uma das mais acidentadas e supliciosas. “Desde que saí de Moçamedes até chegar a Swakopmund, tinha-se passado mais de um mês. Para percorrer cerca de mil quilómetros, mesmo tratando-se de deserto ou de estradas de terra batida fustigadas pela rebentação das ondas do mar, é muito tempo”, diz o funcionário electrotécnico. “Mas valeu a pena. Tinha nove irmãos e, naquela altura, fui o único a conseguir fugir.”
Embarcado de Walvis Bay em direcção a Lisboa num navio da Oceanic Independence, Eusébio viria a passar os primeiros dois anos nas instalações do INATEL na Costa da Caparica, constituídas nomeadamente por ‘bungalows’ e camaratas. Aí, entre milhares de retornados, empregou-se de novo como técnico de electrónica e encontrou a mulher com quem viria a casar – uma prima direita, também ela fugida em circunstâncias mais ou menos épicas de Angola, e que então ele já não via há meses. O pai, fugido um ano depois, viria a juntar-se-lhe na Margem Sul do Tejo. Um ano mais tarde, a família juntou-se toda em Évora, onde veio a reconstituir o curso normal da vida.

“Tenho feito de tudo para voltar a Angola. Voltava nem que fosse para varrer ruas, embora preferisse ir ensinar electrónica. Estou divorciado, os meus filhos são adultos – não tenho muito que me prenda aqui. Mas tenho falado com ‘A’ e ‘B’, e nada.”

“De qualquer forma, mantenho o conceito de ser português. Respeito muito a bandeira portuguesa e levanto-mo quando ouço o hino. Sei que sou um português de segunda, mas às vezes sou muito mais português do que os de primeira”, acrescenta.
Membro da OPVDCA, da Mocidade Portuguesa e dos Escoteiros, Eusébio Gomes chegou porém a viver no mato, sem ver um único cidadão branco durante períodos de mais de três meses. Duas das suas quatro bisavós eram negras, mas conceberam ambas de homens brancos. Um dos bisavós, costuma recordar Eusébio com um certo orgulho, teve 53 filhos vivos. Outro era um dos colonos notáveis de Nova Lisboa, onde se destacava como o principal alfaiate da praça.
Hoje, a vida de Eusébio Gomes é passada tranquilamente em Évora, entre a profissão principal de técnico electrotécnico e, para compor o orçamento, um suplemento nocturno como vigilante num condomínio, em ambos os casos na qualidade de profissional liberal. Adepto do vídeo, Eusébio ocupa quase todos os tempos livres em experiências com imagem, recorrendo à muita aparelhagem que acumulou ao longo dos anos. “Mas o meu melhor momento é quando ando de bicicleta. Não tenho carro, tal como não tenho telefone. Só ando de bicicleta. Faço mais de dez quilómetros por dia”, explica. E está em forma, como é fácil de percebe
r.

Eusébio Gomes (último à direita, em baixo) em Sá da Bandeira, pouco antes da épica fuga através do deserto da Namíbia. (foto: D. R.)

O DESEJO DE CONTAR UMA HISTÓRIA

“Procurei incessantemente pelo contacto de Steven Spielberg, mas mais tarde, quando o arranjei, acabei por não escrever.” Tem sido assim, a vida de Eusébio Gomes: a constante tentativa de responder ao desejo imenso de contar a sua odisseia de 1975. Há sete anos, quando elaborou a série de documentários chamada ‘Século XX’, a estação de televisão SIC entrevistou-o no episódio dedicado às fugas pela Namíbia. Fotos e filmes da época – Eusébio teve então a oportunidade de rever imagens que apenas havia presenciado, sem alguma vez ver registadas em papel ou celulóide. Mais tarde, os mesmos produtores dos referidos documentários, desta vez sob a coordenação de António Barreto, voltaram a contactá-lo na intenção de ouvi-lo para uma série da RTP dedicada aos últimos 50 anos da história de Portugal. Mas não chega. Eusébio insiste que a sua história vale mais. Já chegou, inclusive, a pensar publicá-la na revista ‘Selecções’, do Reader’s Digest. “Foi uma grande aventura. E gostava muito de poder enviar um abraço de solidariedade a todos os que passaram por ela. Muitos ficaram na África do Sul, e nunca mais os vi…”, diz.
(Correio da Manhã, 30 de Julho de 2006)

quinta-feira, 19 de agosto de 2010

“Fugi de Angola na minha traineira”







"Podem dizer o que quiserem. Já ouvi de tudo: que foi heróico, que parecíamos os antigos navegadores – o diabo a quatro. Para mim, é muito simples: eu tinha de fugir de Angola, mas também tinha de salvar a minha enxada, que era o meu barco de pesca. E só havia uma maneira: fazer-me ao mar com ele e vir por aí acima até chegar a Portugal. Foi o que fiz – e, por muito perigoso que tenha sido, era o que faria outra vez. Aquele barco garantiu o sustento da minha família durante mais de vinte anos após o nosso regresso, primeiro na Costa da Caparica e depois em Quarteira. Nele se fizeram homens os meus dois filhos. E, quando tivemos de abatê-lo, há cerca de dez anos, foi como se perdêssemos um membro da família.

Nasci em Quarteira e tornei-me desde logo pescador. A seguir à tropa, já casado e com dois filhos, decidi ir para Angola ter com uns familiares – e pescador continuei. A pesca era perigosa: fazíamos arrasto de camarão, o mar era traiçoeiro e passávamos duas a três horas por dia a puxar as redes sem qualquer defesa. Mas ganhávamos dinheiro e dávamo-nos muito bem com os africanos. Vivíamos na ilha e, embora hoje se tenha uma vida melhor em Portugal, naquela altura vivíamos melhor na ilha de Luanda do que em qualquer outro lugar de Portugal. Tivemos muita pena de ter de vir embora.



Em 1975, já depois do 25 de Abril, a situação complicou-se. Passámos a ser maltratados, havia perseguições. A minha mulher chegou a ir à pesca comigo, para o mar alto, só para não ficar sozinha em casa com as crianças. Não havia volta a dar-lhe: tínhamos de fugir dali. Os meus dois filhos mais novos, incluindo a rapariga nascida entretanto, voltaram logo em Abril com a tia, de avião. Eu, a minha mulher e o meu filho mais velho deveríamos embarcar no navio Uíge, que partia de Luanda no dia 24 de Agosto, carregado de retornados. Os bilhetes já estavam comprados.
Mas, poucos dias antes do embarque, mudei de ideias. Disse à minha mulher: ‘Vou no barco. Ou chegamos lá os dois ou não chega lá nada.’ O ‘Marlene’, como se chamava a embarcação, tinha só 10,4 metros, 85 cavalos de potência – e não tinha cozinha nem casa de banho. Mas eu já não voltava atrás. Fui comprar cartas marítimas à Marinha portuguesa e, depois, fui ter com o comandante do navio Uganda, da Sociedade Geral, que me desenhou os rumos e ainda me escreveu três folhas à máquina, com indicações. Eu leio mal, porque nunca fui à escola, mas o que tinha aprendido na tropa chegava para perceber aquilo. Deixei-lhe os meus dois cães, o Rover e a Boneca, dois pastores alemães. Gostava muito de reencontrar um dia esse comandante.
A minha mulher e o meu filho partiram no dia combinado. Nessa mesma tarde, os tipos do MPLA viram que eu tinha o barco cheio de gasóleo e começaram logo a fazer perguntas. Tive de sair para o mar imediatamente. Levei a bordo um africano que trabalhava há nove anos comigo na pesca, o Gabriel. Era da UNITA e também estava a ser perseguido. Veio até Portugal. Da última vez que o vi, estava a trabalhar numa casa dos Comandos, perto de Faro. Estava muito em baixo. Penso que estava num lar qualquer…



Estive dois ou três dias ao largo de Luanda, altura em que se juntaram a mim mais três homens, um cunhado e dois amigos algarvios, cada um no seu barco – e nenhum destes com mais de 13 metros. No dia 26, arrancámos. Só eu tinha as rotas – e era eu que vinha à frente. No mapa, o capitão do Uganda tinha desenhado um trajecto de 27 dias: onze dias até à Costa do Marfim, a direito, cortando o Golfo da Guiné; seis dias ao largo da costa até Dakar, no Senegal; quatro dias no sentido de Vila Cisneiros, no Sahara Espanhol; dois dias em direcção às Canárias; e, finalmente, quatro dias até ao Algarve.
Demorámos 31 dias, porque tivemos várias chatices e contratempos. Em frente à Serra Leoa, apanhámos um temporal tão grande que nos perdemos todos uns dos outros durante três dias e três noites. Um dos barcos avariou e teve de vir a reboque. Outro ficou sem luz. A partir de certa altura, vínhamos todos atados por cabos, em comboio. As três folhas dactilografadas pelo comandante comercial foram muito importantes: tinham rotas, localização de faróis e baixios perigosos, tempos limite para cada etapa e regiões onde encontraríamos outros pescadores. Havia imensas chamadas de atenção a vermelho, com desenhos dos maiores perigos pelo caminho.
Chegámos a pensar que não conseguíamos. Mas depois parámos no Cabo Branco, para abastecer, e encontrámos o grande navio de pesca Ilha de Santa Luzia. Fomos a bordo comer uma refeição quente, pois estávamos esfomeados. Mandámos telegramas às famílias, que suspiraram de alívio, porque já temiam o pior. E, de repente, o capitão do Santa Luzia condoeu-se de nós e decidiu abortar a sua missão de pesca para escoltar-nos até ao Algarve. Grande homem! A partir daí, estávamos salvos. Acabámos por chegar bem a Portugal. Magros, muito barbudos, mas nenhum doente.



Há dez anos, e beneficiando dos incentivos do Estado, abatemos o ‘Marlene’. Precisávamos de um barco maior, sobretudo por causa dos meus filhos, e mandámos construir um a que também chamámos ‘Marlene’: uma traineira com 14,6 metros, com um motor de 190 cavalos e já com cozinha, casa de banho e televisão. O problema era desmantelar o barco original. Custava-nos muito. E então, por milagre, dois pescadores de Setúbal ofereceram-se para comprá-lo. Um barco abatido com subsídios só podia ser vendido para o estrangeiro, mas era para o estrangeiro que eles o queriam. Precisamente para Angola, de onde o ‘Marlene’ vinha.
E, agora, imagine-se isto: esses dois homens de Setúbal chamavam-se Álvaro e Aurélio, que são exactamente os nomes dos meus dois filhos. Parecia incrível: o ‘Marlene’ voltava para Angola, ainda por cima com dois homens de nomes iguais a dois rapazes que se tinham feito homens nele. Vendemo-lo barato, mas até dado eles o levavam. Foi um alívio encontrá-los. Uma história quase inacreditável.
Hoje, infelizmente, a pesca já não dá nada. Não é rentável. Tenho seis netos e fico muito contente por estarem todos a estudar. O peixe é pouco, tirar uma cédula marítima é o cabo dos trabalhos, não há fábricas – isto não é vida para ninguém. Mas ainda tenho saudades do mar e, apesar de estar reformado, de vez em quando ainda lá dou um salto. Ajudo os meus filhos e, normalmente, fico no armazém a tratar das redes. Mas sempre com saudades.”

* Florindo Bota nasceu em Quarteira, tem 68 anos – e encerrou a bordo de um barco minúsculo a história de um império que nascera a bordo de navios pequeninos.

RECONSTITUIÇÃO ("V de Verdade"). FHM, Dezembro de 2008
In Joel neto.com

sexta-feira, 16 de julho de 2010

Retornados como eu

 
Eu sou uma retornada. Nos anos 70 do século XX, o vocabulário português ganhava uma nova palavra - "retornado".  Comecei a ouvir a palavra em 1975, no ciclo preparatório, “és uma retornada, volta para a tua terra!”. E eu, que obviamente me via como portuguesa, ficava atónita com aquela acusação. Tinha 11 anos e vinha de uma terra que se dizia ser "Portugal Ultramarino".
Testemunhos de retornados:
Um dia, darei também o meu testemunho.
"Mas, note-se que este termo foi "arranjado" pelo próprio governo, com a criação do IARN. E se é verdade que muitos desses portugueses retornaram a Portugal, muitos outros não retornaram! Retornar é voltar a..., regressar a ... e esses portugueses que tinham nascido e crescido nas colónias, acabaram por vir parar a Portugal e não retornar !” (…)
 "A grande maioria dos retornados "deu a volta por cima" e são hoje fonte produtiva de Portugal! Nos últimos tempos, cerca de 200 mil portugueses foram para Angola! Há já quem defenda a teoria de que o futuro de Portugal passa pela emigração para aquele país. Provavelmente, muitos desses portugueses são agora "retornados" naquela terra que ajudam a renascer ao mesmo tempo que ajudam Portugal, por razões óbvias!"
"E assim, muitos "retornados", depois de espoliados, ainda vão ajudar Portugal..."
" Obrigado aos "retornados" pelo que têm feito por este país!..."
PEDRO CABEÇADAS em "FARO OESTE", FARO , 17 de Junho de 2007
 
Quem eram os retornados?
 Mais de meio milhão de pessoas chegou, de repente, a Portugal. Essas pessoas, porém, de uma forma notável,  conseguiram integrar-se na sociedade portuguesa sem conflitos de maior. Haverá casos semelhantes noutros países? Do número de retornados recenseados pelo INE em 1981, 61% eram oriundos de Angola, 34% de Moçambique e apenas 5% das restantes colónias. Quase dois terços desses retornados nasceram em Portugal (63%), embora esta proporção se inverta nas camadas mais jovens, 75% dos menores de 20 anos eram naturais das colónias.
O cais de Lisboa enchia-se de caixotes vindos de África, o aeroporto estava repleto de pessoas que dormiam sobre malas, e começou a aparecer também muita gente nova, gente diferente, gente que vestia roupas coloridas e tinha um ar triste, vindos de Angola, Moçambique, Guiné e Timor... Eram os retornados que depressa se misturaram com as gentes de cá e se distribuíram um pouco por todo o país. Procuravam, na sua maioria, ir para junto das suas famílias e das suas origens. E com eles vinham muitos que pisavam pela primeira vez o solo de Portugal continental.
A Descolonização
O Programa do MFA previa a discussão do problema da Guerra Colonial. Em Julho de 1974, o Presidente da República, General Spínola, reconheceu o direito à independência dos povos africanos.
Iniciaram-se negociações para a descolonização: o governo dos territórios africanos foi entregue aos representantes dos movimentos de independência das colónias, os militares portugueses regressaram a Portugal e milhares de civis voltaram também (retornados).
 
Formaram-se assim cinco novos países africanos independentes.
Timor foi invadido e anexado pela Indonésia em Dezembro de 1975. Durante 24 anos a resistência timorense lutou pela independência que só veio a alcançar em Maio de 2002.
 
Macau voltou a ser território chinês em Dezembro de 1999.
Alguns livros sobre esta temática:
Júlio Magalhães, "OS RETORNADOS - Um amor nunca se esquece"
Trata-se de um livro que me toca particularmente, pois transporta até à actualidade a saga do regresso dos retornados, como é o meu entre tantos outros casos.
António Trabulo, Retornados: o Adeus à África
Este Romance aborda também ele a temática dos retornados. Foi escrito a pensar sobretudo em homens e mulheres que ainda revisitam África nos sonhos.
Sobre o Autor: António Trabulo nasceu em Almendra (Foz Côa) em 1943; fez a instrução primária e secundária em Sá da Bandeira (Angola); estudou Medicina em Coimbra, é Neurocirurgião. Publicou: Mulemba, Contos de África (2003), No Tempo do Caparandanda (2004), O Diário de Salazar (2004), Eu, Camilo (2006), Os Colonos (2007) e A Última Profecia (2007).
Aida Viegas, Abandonar Angola
Publicado em 2002,  é dedicado aos retornados, muitas vezes incompreendidos, gente corajosa que soube reerguer-se das cinzas do infortúnio. Transcrevem-se 9 dos 24 capítulos que compõem esta obra.
Xicoembo
Fontes:
Fontes:
António Barreto, Portugal - Retrato Social, http://tv.rtp.pt/EPG/tv/epg-janela.php?p_id=20216


Tirado DAQUI

OlindaGil

Descolonização de Angola: o testemunho da Dulce