quarta-feira, 4 de abril de 2012

A GRANDE DEBANDADA: RETORNADOS E ADIDOS




Mas, logo após a tomada de posse do Governo de Transição, em 31 de Janeiro
de 1975, as coisas começaram a complicar-se para os funcionários do Quadro
Administrativo.
Os administradores da Ganda, Cubal, Balombo, Chongoroi, Bocoio e Baía Farta
que me tinham dado um apoio leal e que tinham, quase todos uma boa aceitação por
parte das populações negras dos seus territórios, quando começaram a aparecer os
ministros e delegações dos movimentos emancipalistas fazendo exigências
despropositadas e ameaças veladas de prisão e despedimento, começaram a vacilar nas
suas intenções de ficar depois da independência.
E quando o Governo Português inventou o Quadro de Adidos para nele integrar
os funcionários do Q.A das colónias, garantindo-lhes em Portugal emprego e reforma,
aumentaram as hesitações que, depois de ter sido propalado que o “MPLA iria julgar
todos os funcionários do Q.A depois da independência” se transformaram em desejo
ansioso de partir o mais depressa possível.
Além do Q. Adidos o governo português também criou o Instituto de Auxílio
aos Retornados Nacionais (IARN) e como na altura os naturais de Angola brancos,
mestiços e assimilados eram considerados portugueses, este Instituto alargou ou
restringiu a sua acção como muito bem entendeu, dando ou negando auxílio de acordo
com os interesses dos dirigentes.
Em consequência criou-se em Angola um ambiente de tal ordem que até o
branco mais pobre que no interior do país ou na periferia das cidades tinha sempre
vivido e convivido com a comunidade negra, se deixou contaminar pela histeria do
medo sem razões válidas que o justificassem, excepto em Luanda e no Huambo onde as
refregas armadas entre movimentos eram aproveitadas para molestar e até, às vezes,
vitimar elementos brancos e não brancos, perante .a passividade das forças armadas
portugueses que, dizendo-se neutras, deixavam-se influenciar quando se tratava de
combater os “comunistas angolanos” ou seja os amigos, simpatizantes e militantes do
MPLA.
No seio da comunidade branca gerou-se uma histeria de fuga a qualquer preço
que o estabelecimento de pontes aéreas e de carreiras marítimas levou ao paroxismo.
Esta histeria deu origem a uma “música” jamais ouvida nesta terra: a “música” das
marteladas nos caixotes ouvia-se noite e dia, monótona e enervante. Nos caixotes metiase
tudo o que era possível, até as garrafas de gás e os panos de cozinha! No porto do
Lobito, extensas bichas de viaturas esperavam longas horas aguardando embarque.
Esta ânsia de partir, em Benguela, contrastava com a atitude de alguns
portugueses e angolanos que se preocupavam mais em resolver os problemas do
quotidiano do que pensar nos problemas futuros. São prova disso os episódios que vou
contar.
Vindos da Ganda, apresentaram-se no meu gabinete dois casais de portugueses
acompanhados de cinco meninos e de uma senhora ainda nova. As senhoras e meninos
estavam lacrimejantes e os dois homens faziam cara de mártir olhando fixamente para
baixo.
Quando lhes pedi para explicar a razão que os trouxera até mim, falaram as duas
senhoras com ar de queixume dizendo que os maridos tinham sido maltratados pelos
pretos até ao ponto de terem levado uma carga de porrada. Pediam a minha protecção e
a correcção dos atrevidos.
Como eu não percebera a causa da maka e como os dois homens se
conservassem calados, perguntei-lhes como é que explicavam a razão das cargas de
porrada que tinham levado. Então um deles começou; “sabe, eu tinha um camião de
fuba para vender e como o não conseguisse, fiz constar que, se me comprassem toda a
fuba, então cairia a chuva que não vinha há muito tempo. Eles compraram a fuba toda, a
chuva não veio e eles deram-me uma carga de porrada”.
E o senhor? - perguntei ao outro português.
“Eu tinha fuba na loja que nunca mais vendia porque a seca continuava e o povo
estava com falta de lombongo (dinheiro). Para conseguir vendê-la resolvi fazer um
feitiço: arranjei uma panela velha, ossos, pêlos e rabos de boi e uns pauzinhos e fui para
o quintal consultar os cazumbis (almas do outro mundo). Cercado de muito povo, fiz as
minhas consultas com os ritos convenientes e anunciei que os cazumbis mandariam a
chuva dois dias depois de eu ter vendido a fuba toda. A fuba foi vendida, passaram dois
dias, a chuva não veio e eu levei uma grande carga de porrada...ainda tenho aqui
algumas manchas...”.
Eu fiquei perplexo, quase que não continha o riso e tive que recorrer ao Camões
dos varões assinalados que conquistaram mundos ao mundo sem um tostão na algibeira
para poder responder condignamente a estes lusíadas perdidos nas matas da Ganda. e
com ar convicto e um tanto protector garanti-lhes que podiam regressar à Ganda sem
receio algum. E eles regressaram ao som da música dos caixotes.
Um outro exemplo revelador do clima em que se vivia foi o que descrevo
adiante.
Uma manhã, quando saía do palácio para o meu gabinete, encontrei no jardim
em frente deste, cerca de cinco dezenas de mucubais, homens e mulheres, que logo se
acercaram de mim com atitudes decididas mas não agressivas e um deles explicou-me
que queriam apresentar-me uma reclamação. Vinham todos tradicionalmente meio
vestidos, as mulheres exibindo anéis, argolas e cabeleiras que eram pouco vulgares em
pleno centro da cidade.
Disse ao emissário que não podia receber tanta gente e que escolhesse um grupo
de dez para falar comigo.
Depois de estarem todos sentados à volta da mesa do comissariado, verifiquei
que alguns deles estavam de cócoras em cima da cadeira.(Não estranhei nem tive
vontade de rir porque me lembrei de uma velhota portuguesa que eu vira há bem pouco
tempo lá na terra civilizada dos portugas, “sentar-se”, também de cócoras, no assento de
um automóvel)
Percebi que o grupo estava satisfeito mas um tanto constrangido. Explicaram-me
a razão da sua vinda: “lá para as bandas do Dombe Grande, um comerciante tinha-lhes
comprado algumas cabeças de gado para pagar, em parte, com mercadorias. O prazo já
tinha passado e ele não pagava. Pediam a minha intervenção para resolver a maka.
Antes de lhes dar uma resposta consultei os meus funcionários e um deles disseme
que conhecia o assunto e que podia ser facilmente resolvido. Assim pude assegurar
aos reclamantes que o assunto estaria resolvido dentro de um prazo de oito dias e que
podiam regressar às suas terras.
Mas os amigos mucubais, em vez de retirarem, preferiram acampar ali mesmo e
esperar pela solução da maka. Ali ficaram os oito dias, durante os quais todas as manhãs
eu correspondia aos seus cumprimentos com o “V” da vitória que se reflectia nos seus
alvos e largos sorrisos
À medida que se aproximava a data da independência crescia a azáfama dos
caixotes e o número dos transportes, aviões e barcos, para a debandada que tomava cada
vez mais o aspecto de uma fuga desenfreada.
Em Julho e Agosto, aviões da TAP e da Suisse Air, transportavam diariamente
cerca de mil passageiros para Lisboa. Mas o afluxo a Luanda de refugiados vindos das
terras do interior em aviões da Força Aérea e de outros vindos via marítima das
províncias do litoral era de tal ordem que tiveram que ser utilizados transportes cedidos
pelos Estados Unidos da América e pela União Soviética.
No início de Setembro participaram na ponte aérea aviões da França, Alemanha
Federal, RDA, Grã Bretanha e URSS. Chegou a haver 15 voos diários para Lisboa.
Só entre 1 de Agosto a 31 de Outubro calcula-se que foram transportados pela
ponte aérea cerca de 230.000 pessoas das quais cerca de 54.000 foram transportadas por
aviões estrangeiros, com os E.U.A à cabeça.
Esta fuga dos portugueses de Angola começou em Maio e terminou em 9 de
Novembro, dois dias antes da proclamação da independência.
A partir de Maio de 1975 a população branca do Huambo viu-se entre dois
fogos, MPLA e UNITA, esta procurando assanhadamente os comunistas, isto é, todos
os que cheiravam a MPLA. Os homens armados da UNITA entravam nos aviões à
busca de comunistas ante o olhar pasmado das sentinelas portuguesas que não sabiam
ou não queriam intervir face à tácita aceitação dos seus oficiais que colaboravam assim
na caça aos comunistas.
Os dirigentes do EME, Machado e Kapango foram arrancados da aeronave
pronta a arrancar para Luanda, nas referidas condições, isto é, diante da passividade dos
oficiais portugueses que preferiram “lavar as mãos” como Pilatos, em vez de usarem da
sua autoridade.
Naquela altura estavam em Angola cerca de 30 mil militares portugueses,
número mais que suficiente para manter a ordem e a disciplina evitando que as
populações, os habitantes civis, fossem molestados pelos militares dos movimentos
rivais.
Do Magazine n.º 277 de 2 de Julho de 1995, de cuja publicação é responsável o
jornal português “O Público”, extraímos do artigo aí publicado sob o título “Há vinte
anos, de Angola a Lisboa - A maior ponte aérea do História” os elementos que
comprovam a tese que sempre defendi de que “esta fuga massiva de residentes de
Angola, poucos meses antes da proclamação da sua independência, se não foi
preparada, foi pelo menos habilmente aproveitada pelas potências interessadas em fazer
de Angola mais um país africano independente, mas obrigado a obedecer aos seus
protectores para manter essa independência”, ou melhor utilizando uma linguagem
política em vias de ser esquecida, “pelas potências interessadas em substituir o
colonialismo português pelo neocolonialismo”.
Assim, extraímos do referido artigo as seguintes passagens:
“Houve brancos que foram mortos, outros que foram alvo de sevícias, afirma
Vasco Vieira de Almeida (ministro da economia do governo de transição) e contínua:
“não se pode dizer que a guerra era dirigida contra a população branca. Só que, numa
cidade ocupada por homens armados, todos se sentiam alvos potenciais. Mesmo em
casa, tínhamos medo. Havia sempre o perigo de balas perdidas.”
São ainda de Vieira de Almeida, cidadão português, com raízes afectivas e
familiares ligadas a Angola, com grande simpatia por Angola mas sem ligações
partidárias, as seguintes afirmações: “A desmotivação era total no seio das forças
armadas portuguesas. O governo de transição não passava de uma farsa trágica. Os
efectivos das forças armadas portuguesas e os meios de que dispunham eram mais que
suficientes para impedir a escalada da guerra civil” “faltava contudo vontade par tal e
faltavam também orientações inequívocas de Lisboa”... .
Não são de espantar estas afirmações de Vieira de Almeida. São verdadeiras,
reflectem a realidade, o que não sucede com as afirmações que no mesmo artigo são
feitas por grandes responsáveis pela descolonização, que decidiram então muita coisa
mas que não tiveram até agora a honestidade de reconhecerem os erros que cometeram.
Assim, o que era nesse tempo ministro da administração do território depois de
ter transferido a sua fortuna de Moçambique para Lisboa, afirma: “Os civis tinham
deixado de encarar a presença dos 30 mil militares portugueses como uma
protecção...Havia alguma, diz Almeida Santos. “Mas as tropas portuguesas estavam
desmotivadas. Muitos dos militares iam já na terceira, quarta e até quinta comissão de
serviço, o significava que estavam a abeirar-se de uma situação de exaustão. Com o “25
de Abril” gerou-se a convicção de que a guerra acabara, de que já tinham cumprido a
sua missão O atraso nas negociações com os movimentos de libertação levou a que se
continuasse a lutar e a morrer tanto ou mais, nos tempos seguintes ao “25 de Abril”, do
que antes. E era incompreensível para as tropas, chegando mesmo a gerar uma situação
de indisciplina militar”.
Mas vinte anos passados, Almeida Santos, um dos responsáveis pela
descolonização, não tem a certeza das causas que originaram a ponte aérea pois afirma:
“a ponte aérea resultou de uma decisão conjunta do Governo e da Presidência da
República”, mas acrescentou: ”eu diria que o Conselho da Revolução também teve
alguma coisa a ver com isso...”. E para cúmulo ainda acrescentou:” Este era um capítulo
que o governo procurava evitar: escaldava e já havia problemas de sobra a nível
interno!”.
E para prova do desencontro de opiniões dos políticos portugueses, oiçamos Melo
Antunes, uma das cabeças da descolonização: “a perspectiva do governo português não
era estimular o regresso da população branca, e sim, ajudá-la a continuar no território.
Mas era tarde demais...” (porquê, pergunto eu). “Por essa altura, em Julho, a população
branca de Angola só pensava em rotas de fuga, deixara de acreditar nos bons ofícios de
Lisboa; mais de 2.500 veículos partiram, por terra até Marrocos e, em meados de
Agosto, 2 mil portugueses tinham cruzado a fronteira a caminho da África do Sul”.
Face a tantas opiniões desencontradas e da consequente falta de coordenação e
de decisão é fácil compreender porque é que Vieira de Almeida acabou por afirmar:
“Nunca mais vi as pessoas do mesmo modo. Nem este país (Angola) Foi absolutamente
incrível a cobardia colectiva de que então se deu provas”.
Face ao que atrás se disse torna-se fácil compreender porque é que a tal
“comissão de descolonização” de que fiz parte tivesse sido completamente inoperante e
inútil.
Mas no artigo em referência, “A maior ponte da história ”citam-se duas
conclusões “históricas” que parecem querer interpretar para a posteridade o que foi a
descolonização de Angola.
Lê-se no artigo em referência: Hoje, no último volume da colecção de História
coordenada pelo professor José Matoso pode ler-se: A atitude das autoridades
portuguesas acabou por favorecer objectivamente a estratégia do MPLA (...) mesmo o
fenómeno do retorno da população branca através de uma ponte aérea cujo terminal era
Luanda favoreceu essa coexistência”
E ainda no mesmo artigo: ”Numa outra colecção de história dirigida pelo
professor João Medina, Melo Antunes escreve: em Agosto de 1975, face à situação
crítica que se vivia em Luanda, já ameaçada a Norte pelas forças da FNLA, dei
instruções precisas, logo em seguida confirmadas pelo Presidente da República para que
as forças portuguesas defendessem a todo o custo a cidade (...)!!! (os pontos de
admiração são do autor). As decisões foram tomadas com inteira consciência de que,
objectivamente, naquele momento, se fazia o jogo da MPLA.
Ora os factos demonstraram que a atitude portuguesa nunca favoreceu a
estratégia do MPLA mesmo com as “instruções precisas” dadas por Melo Antunes,
simplesmente porque essas instruções não chegaram cá ou não foram cumpridas, nem
tão pouco podiam favorecer a estratégia do MPLA porque grande parte dos oficiais do
exército português era furiosamente anti comunista, assim como alguns comandos a alto
nível...que para cumprir essas ordens, nas vésperas da independência, deitaram ao mar
milhares e milhares de culatras das armas que eles não queriam que caísse nas mãos do
MPLA e que pouco antes das zero horas do dia 11 de Novembro convocara os
jornalistas para fazer a entrega de Angola ao Povo Angolano, ali representado
por...ninguém!
E falta acrescentar nessas duas referências históricas que, às zero horas do dia 11
de Novembro, o Presidente da República Popular de Angola não permitiu que a
bandeira portuguesa fosse queimada pelos exaltados que não aceitavam a maneira
inqualificável de proceder...entregando Angola ao Povo Angolano...sem um
representante daqueles que dizem ter favorecido!
Não restam dúvidas de que alguns dos adeptos do MPLA, com as suas atitudes
extremistas e por vezes racistas, também contribuíram para a fuga dos portugueses,
muitos deles já indecisos face às ameaças de nacionalizações sem compensação.
Mas também não restam dúvidas de que, apesar da propalada ajuda portuguesa,
se não fora a presença, embora tardia, dos cubanos e soviéticos, o MPLA não teria saído
triunfante do caos dos últimos dias do colonialismo e dos primeiros dias da
independência apesar das “decisões do governo português tomadas com plena
consciência de que, objectivamente, naquele momento se fazia o jogo do MPLA”.
Outra opinião que ainda persiste e é afirmada por muitos dos que tudo perderam,
é de que “as forças armadas portuguesas deram um importante e significativo apoio ao
MPLA”. É uma opinião redondamente errada pois a grande maioria dos oficiais e
soldados das FAP eram figadais inimigos do comunismo para eles representado em
Angola pelos, como já disse, militantes, simpatizantes e amigos do MPLA.
Alguns dos acontecimentos a seguir relatados são prova disso.
RETIRADO DE : Sócrates Dáskalos_UM TESTEMUNHO PARA A HISTÓRIA DE ANGOLA.pdf

terça-feira, 3 de abril de 2012

MEMÓRIA(S) MALANJINA(S) : ( António Daniel Magdaleno Cochat)


 

A homenagem a um homem de bem…       as raízes       o pai inquieto       



A homenagem a um homem de bem…

Valladolid, Natal de 1990. Rodeados pelos filhos e netos, o casal Cochat, António e Josefina, celebrava alegremente e em paz aquela quadra. A dada altura, talvez sugestionado pelo frio que se fazia sentir lá fora, um dos netos perguntou ao avô:

- Avô, como foi que nasceste em Angola, numa terra tão longe daqui?

Foi com esta pergunta que o meu tio se decidiu a passar para o papel as muitas memórias da sua vida, para que os filhos e netos pudessem seguir aquele que foi um riquíssimo percurso intensamente vivido em terras angolanas.

Desses primeiro volume de escritos (o segundo estava em preparação), para além dos filhos e netos, fui um dos orgulhosos destinatários porque, entre mim e o meu tio, sempre existiu um profundo afecto. Para mim ele foi um segundo pai e estou certo que, para ele, fui mais um filho.

Foi dessas notas que extraí algumas passagens, nomeadamente as que dizem respeito a Malanje e às suas gentes, terra que adoptou como sua, terra onde nasceram e cresceram os seus filhos, terra que também o perfilhou.

Principio com alguns apontamentos sobre as suas raízes, sobre o seu início de vida e a sua meninice convivendo com a irrequietude dos pais, período que ajuda a perceber o homem em que depois se viria a tornar, passando depois para alguns episódios ocorridos já em terras malanjinas. Os títulos de cada episódio são de minha responsabilidade.

Ficam por transcrever as restantes memórias que vão para além de Malanje. E são imensas, como calcularão.

Esta é uma homenagem a um Homem de bem que, estou certo, será sempre recordado e respeitado pelos malanjinos: António Cochat.


Tomás Lima Coelho


António Daniel Magdaleno Cochat nasceu em Luanda no dia 3 de Janeiro do ano de 1920.
Chegou a Malanje, para ficar, em 19 de Agosto de 1942. Só de lá saiu, obrigado, triste e contrariado, trinta e três anos depois.

Casou em Moçâmedes, no ano de 1947, com Maria Josefina Cabral Pessoa Gavino Dias, nascida em Tomar em 1923, que partira com a família para Angola em 1929.

Do casamento há três filhos: José Daniel, Maria Adelaide e Ricardo, todos naturais de Malanje. Os três deram-lhe netos.

Faleceu em Valladolid, Espanha, no dia 19 de Outubro de 2009.

AS RAÍZES

Descendo de uma família há muito radicada em Angola, desde finais do século XIX: o meu avô paterno, Émile François Pierre Cavallier Cochat, marquês de La Tour d’Auvergne, natural de Bordéus, exerceu a partir de 1891 o cargo de cônsul da França em Luanda, onde viria a falecer em 1904. Está sepultado no cemitério do Alto das Cruzes. Para além de diplomata era pintor de reconhecido mérito: o tecto da antiga Sé de Luanda (Igreja dos Remédios) foi pintado por ele. A minha avó paterna, Elisa Garcia Jimenez, espanhola de Salamanca, viria a falecer em 1912, também em Luanda.

Deste casamento houve oito filhos (os dois mais novos já nascidos em Luanda), entre os quais o meu pai Joseph Victor Alexandre Cochat Garcia, o segundo dos irmãos, natural de Salamanca. Casou em Luanda com Oria Magdaleno Redondo, natural de Valladolid onde veio a falecer em 1982. Deste casamento houve cinco filhos sendo eu o terceiro. Dos restantes aqui fica um breve apontamento: José Ricardo, nascido em Luanda em 1915, faleceu no Lubango aos oito anos de idade, vítima da malária; Julian Ernesto, nascido em Luanda em 1917, foi morto em 1938, na batalha de Teruel, durante a guerra civil de Espanha; Manuel Virgílio, nascido em Luanda em 1921, faleceu com poucos meses de idade; por fim Maria Bernarda, nascida em Caconda em 1928, faleceu no dia 1 de Abril de 1962 num trágico acidente de viação perto de Cacuso, Malanje.

Também os meus avós maternos, Julian Magdaleno Del Barrio e Bernarda Redondo Herrero, chegaram a Angola em finais do século XIX, pois o meu avô Julian fora contratado para trabalhar na construção dos Caminhos de Ferro de Ambaca. Depois de terminada a obra seguiriam para o Lubango onde o meu avô trabalhou nos Caminhos de Ferro de Moçâmedes como chefe das oficinas. Em 1925 retornaram a Valladolid. Julian faleceu em 1946 e Bernarda em 1963. Deste casamento, para além da minha mãe Oria, houve um rapaz, o meu tio Ricardo.


O PAI INQUIETO

A minha vida, desde pequeno, foi sempre muito agitada, devido ao espírito inquieto e inconstante do meu Pai.

Desde que a minha memória me permite recordar, lembro-me de ter estado em Luanda (onde nasci), Cabinda, Lândana, Lobito, Lubango onde o meu Pai trabalhou com o meu tio Emílio no estudo e construção de uma ponte que muitos anos mais tarde ainda existia (…) e que era conhecida como a ponte dos Cochat’s.

Depois fomos para o Congo Francês e Congo Belga. Tenho uma vaga ideia de ter estado em Brazaville em casa do meu primo Júlio, filho do meu tio Júlio Cochat.

Daqui voltámos a Angola, mais propriamente para Benguela, onde os meus pais compraram uma pescaria na Caota. Não recordo o tempo que estivemos naquela pescaria, mas creio não ter sido muito.

Depois fomos para Caconda, uma vila nessa altura pequena, que ficava mais ou menos a meio caminho entre o Huambo e o Lubango. Nesta vila fui pela primeira vez a uma escola e aí estudei até iniciar a terceira classe de instrução primária.

De Caconda fomos viver para o Quipungo, uma povoação mais pequena que a anterior. Enquanto aqui estivemos não fui à escola, por não haver nessa vila. Porém pouco tempo aqui estivemos, trasladando-nos para o Lubango.

No Lubango também ficámos pouco tempo, indo novamente para Luanda, onde voltei a ir à escola, sendo esta da Câmara Municipal. Para se fazer uma ideia do que era Luanda em 1930, eu e os meus amigos sabíamos a quem pertenciam quase todos os automóveis existentes.

Nesta nova fase da nossa vida, por influências dos seus amigos Virgílio Monteiro e Dr. António Videira, o meu Pai arranjou um emprego como gerente da Casa Americana e pouco tempo depois transitou para a Robert Hudson, com o mesmo cargo.

Mas aqui em Luanda também estivemos pouco tempo, pois o meu Pai foi transferido para uma filial da Robert Hudson no Lucala. Também não havia escola, pelo que voltei a não poder estudar. Deste sítio poucas recordações tenho e as que ficaram são pouco agradáveis. Desde pequeno fui sempre muito sentimental e recordo que no Lucala me sentia triste e amargurado, de tal maneira que, quando se punha a funcionar um gramofone que tínhamos, ao ouvir música melodiosa, começava a chorar. Ainda hoje, quando oiço música desse género, bole-me qualquer coisa cá dentro.

Porém, também no Lucala não estivemos muito tempo, tendo-nos deslocado dali para o Lubango, mais uma vez. O meu Pai foi trabalhar, novamente, com o meu tio Emílio nuns levantamentos topográficos. Nesta cidade voltei a ir à escola, a da Dª Irene Portela. A minha Mãe, minha irmã e eu passámos, nessa altura, muitas dificuldades económicas e lembro-me de às vezes nos faltar o dinheiro para comprar pão. Os poucos meses que estivemos no Lubango (talvez meio ano), passei-os quase sempre doente com paludismo e andava muito cansado. Às vezes tinha que me sentar na borda dos passeios a tomar fôlego.

Mas, como já era habitual, deixámos o Lubango indo para Moçâmedes. Então, nesta cidade, já fiquei dez anos seguidos, os quais foram uns anos maravilhosos, embora com bons e maus momentos.

MALANJE, 1942

Um belo dia, ou melhor, uma bela noite, cheio de saudades da família e também da moça de quem estava enamorado (embora ainda sem nos namorarmos), embarquei no paquete “Angola” rumo a Luanda, para aí tomar um comboio que me levaria a Malanje, onde cheguei a 19 de Agosto de 1942.

À minha chegada a essa cidade sofri logo uma grande decepção ao ver o conjunto da urbe e, principalmente, o “estilo” da estação de caminho de ferro que mais parecia um simples e modesto apeadeiro (e que assim se mantém até hoje).

Fui recebido com muita amizade pela minha prima Branca e pelo marido, Augusto Beça. O casal tinha dois filhos, o Tito Eugénio e o Fernando Eugénio, ainda bastante pequenos.

O centro era constituído por bastantes casas e várias ruas, existindo um único bar, o do Barata, em frente ao qual estava o Hotel da Dª Margarida que, com mais dois, formava o complexo hoteleiro. Um era conhecido por “Hotel do 115” e o outro por “Hotel do Velho Serrão”.

Na rua principal do centro existia e funcionava ainda o primitivo hospital, num velho edifício baixo e comprido, coberto a zinco e cujo aspecto era de tudo menos da classificação que tinha.

Como cinema havia uma sala que já tinha sido uma capela, mais tarde utilizada como cavalariça e na altura usada como sala de espectáculos. Porém só se realizavam sessões cinematográficas quando calhava passar por Malanje um vendedor ambulante que se chamava Pratas.

Em Moçâmedes, de onde tinha vindo, todos os domingos à tarde se dançava um pouco e quando perguntei se em Malanje havia bailaricos, responderam-me que só se faziam festas quando vinham do mato os empregados da Cotonang, em Junho e Dezembro.

Existiam meia dúzia de automóveis de turismo, entre os quais o do Governador, o do Director da Cotonang e o do Xavier Rios, que o utilizava como táxi. Havia sim muitas carrinhas e camionetas, por ser muito intenso o transporte de géneros do interior do distrito para a capital, destacando o algodão, à volta do qual se movia quase toda a actividade comercial.

Nos arredores de Malanje existiam algumas povoações comerciais como Cangandala, Cambondo, Quéssua e Quissol, todas elas com meia dúzia de casas e cuja actividade consistia na compra de géneros aos nativos, com excepção do algodão, e venda aos mesmos de tecidos (“panos”, como chamavam), bugigangas várias e vinho.

Junto à linha do caminho de ferro também havia algumas destas povoações como Lombe, Cacuso e Lucala.

NA COTONANG

No dia 20 de Agosto de 1942, logo de manhã, apresentei-me ao serviço na Companhia Geral dos Algodões de Angola (Cotonang), uma empresa que gozava do monopólio da cultura algodoeira em toda a Baixa de Cassanje, ou melhor, em todo o distrito de Malanje. Este distrito, penso eu, é maior ou sensivelmente igual ao território de Portugal continental.

A Direcção da Companhia era composta por um Inspector, o Sr. Gustave Vitor Marin, de nacionalidade belga e por um Director que, por lei, teria que ser um cargo desempenhado por uma pessoa de nacionalidade portuguesa. Na altura estava vago e só uns dois anos depois foi nomeado o Sr. José Maria Pereira de Carvalho. Havia também um Secretário da Direcção, o Sr. Tito Augusto Ferro Beça.

O quadro do pessoal do escritório era composto por um Guarda-Livros, o Sr. Henrique Mena Abrantes, dois escriturários, os Srs. João Ferreira Martins e Adelino Silva e havia ainda um Sr. de nome Alípio dos Santos Mateus que nunca cheguei a saber qual a sua categoria, pois tanto servia de dactilógrafo, como encarregado de armazém, como pretendia ainda dar ordens a todos.

Os restantes empregados eram os chamados “pessoal do mato” e era composto pelos que se encontravam na Estação Experimental do Sunjinje, encarregados do melhoramento e pureza das sementes e outros trabalhos técnicos, e ainda os Agentes Principais e os Agentes de Sector, sendo os primeiros encarregados de fiscalização de vários sectores e os últimos da fiscalização e trabalhos nos próprios sectores. Os sectores eram constituídos, cada um, por uma certa zona onde se cultivava o algodoeiro.

Durante dez dias ia ao escritório trabalhar no que fosse, à espera de ser colocado num Sector, pois o cargo que teria de desempenhar era o de Agente, que era o Chefe de uma zona algodoeira, das várias em que a Companhia tinha dividido a Baixa de Cassanje.

Nunca me hei-de esquecer que, nos primeiros quatro ou cinco dias, me foi designado um trabalho que creio ter sido o mais aborrecido de toda a minha vida profissional. Consistia em contar e colocar vários grupos de cem sementes de algodoeiro, para serem analisadas e classificadas, num estudo de melhoramento das ditas que estava a ser feito por um técnico inglês, o Mr. Smith, contratado pela Cotonang para o efeito. Então, depois do almoço, dava-me tal sono que fazia um esforço enorme para o vencer pois não queria dar a ideia de ser mandrião.

Nos primeiros dias de Setembro recebi ordens para preparar as coisas pois iria ajudar um colega no Sector de Tala Mungongo que nesse ano tinha uma produção muito grande e o homem sozinho não dava conta, dizia ele, e digo isto porque nos vinte dias em que lá estive, como “caloiro” que era, esse colega de nome António Pereira de Carvalho Junior (de quem me fiz muito amigo depois), pôs-me a fazer compras de algodão dizendo-me que tinha de pôr em dia a contabilidade, fazer experiências de rendimento e outros trabalhos que tinha deixado em atraso por falta de tempo. Isto até me assustou um pouco ao pensar no que me iria acontecer quando estivesse também só no meu futuro Sector.

Porém, o Inspector Marin, quando ao fim desses vinte dias viu que as folhas de compra que se mandavam para os escritórios de Malanje iam todas com a minha letra, deu conta da marosca, meteu-se a caminho de Tala Mungongo e nesse mesmo dia levou-me para Malanje.

PARTIDA PARA O MATO

Quando me deram ordem de marcha, forneceram-me uma “cantina” que se compunha de duas malas de madeira, bastante grandes, que levavam um serviço de pratos, talheres, toalhas de mesa, guardanapos, tudo para duas pessoas e todos os acessórios de cozinha. Também uma tenda, uma cama de campanha com o respectivo colchão de algodão (naturalmente!), mosquiteiro e roupa de cama, como lençóis, travesseiro e cobertores.

Saí de Malanje, pelas onze da manhã, numa camioneta conduzida pelo seu dono, de nome José Luís Carvalho, com a ideia de se almoçar em Catala. Esta povoação compunha-se de umas cinco ou seis casas comerciais e numa delas ficámos a comer.

O dono, cujo nome não me recordo, era um homem gordo e grande, muito falador e que suava por todos os poros. O que não me esquece foi que, quando estávamos à mesa, no meio de animada conversa da sua parte, de vez em quando coçava a cabeça com o garfo que tinha na mão e limpava o suor da testa e das fontes com a faca de que se servia para continuar a comer.

Aproveitou ter um novo ouvinte para contar as suas aventuras cinegéticas, muito exageradas e sempre as mesmas, segundo me disseram depois. Contava-se até uma cena engraçada, passada com ele e com um Chefe de Posto: dizia ele que, numa caçada, lhe aparece uma manada de palancas, mete a arma à cara, dá um tiro e cai uma palanca, outro tiro e outra palanca, mais outro… e quando já ia na sexta ou na sétima o Chefe de Posto, já farto e irritado disse-lhe: “- Seu c…, se mata essa, não sei o que lhe faço!”, ao que ele, muito calmamente, respondeu: “- Por acaso essa falhei.” E acabou tudo numa risota geral.

Depois de comidos seguimos viagem, tendo chegado ao nosso destino ao anoitecer.

TALA MUNGONGO

Tala Mungongo era uma povoação pequena, que fica perto da falésia onde se podia descer à Baixa de Cassanje por uma caminho muito sinuoso e difícil. Os nativos puseram-lhe esse nome porque “Tala” significa “olha” e “Mungongo” significa “monte ou montanha”, o que quer dizer “Olha do monte” já que, na realidade, dali se divisa toda a grandiosidade da Baixa.

Fui recebido em casa do meu colega Carvalho e esposa Maria da Graça, com os quais jantei, e destinaram-me a casa de trânsito para dormir.

Como já era de noite não me apercebi do “estilo” da dita casa de trânsito e só dei conta disso no outro dia: era uma casa de pau-a-pique coberta a capim e chão de terra batida. Compunha-se de duas habitações, sendo uma destinada a dormitório e a outra a sala de jantar. Tinha só uma porta de entrada, que dava para a sala de jantar, e um janelo no quarto. A dita porta era apenas um caixilho de madeira revestido com uma chapa de zinco e a pequena janela era tapada com uma espécie de estore feito com pauzinhos finos ligados entre si com matebas. As paredes, tanto exteriores com interiores, não estavam caiadas e eram da cor do barro com que tinham sido revestidas. Assim, ao entrar, tinha de ficar um bocado parado para que os meus olhos se habituassem à escuridão do interior.

Passados uns dias da minha chegada a Tala Mungongo fui informado do meu novo destino: o Sector de Cahombo, distante 130 Km de Malanje.


CAHOMBO

Gastei um par de dias a preparar o necessário, como abastecimento de géneros alimentícios para três meses, visto o transporte para os Sectores não ser muito frequente. Valeu-me a minha prima Branca, já habituada a estas coisas, pois o Beça até havia pouco tempo tinha sido Agente Principal e por tal motivo deslocava-se a vários Sectores. Acompanhou-me aos Armazéns da Beira, que era a melhor mercearia da terra, e aí comprámos uma série de géneros em tão grandes quantidades que já estava a ficar apreensivo com o pagamento. Grande foi o meu espanto quando me disseram o total a pagar: à volta de 800 angolares.

Assim que, acompanhado pelo Beça, a quem a Direcção recomendara a sua deslocação comigo para me orientar nos primeiros dias num trabalho que desconhecia completamente, metemo-nos a caminho de Cahombo pela estrada que passa por Cambaxe, Brito Godins e Cambo Camana onde, a dita estrada, seguia para o Sunjinje. Dali tomámos outra para Cahombo e esta seguia para Marimba e Tembo Aluma, já perto da fronteira com o Congo Belga.

Cahombo, que na língua nativa quer dizer “terra de cabras ou cabritos”, na altura era uma pequena povoação com três casas comerciais e que ficava no cimo de uma pequena encosta que dava para um rio com o nome de Mola. No cimo da outra encosta que ficava em frente estavam as instalações do sector algodoeiro, mais conhecido por “Recinto da Cotonang”.

Nessas três casas comerciais era engraçado estarem representantes de três raças, pois havia um comerciante preto, de nome Manuel do Nascimento Pegado, outro mestiço, o Emílio Armando Fernandes (mais conhecido por Armando de Cahombo) e o terceiro um branco que se chamava qualquer coisa Silva (não me lembro do primeiro nome). O primeiro era um bom homem, o segundo uma excelente pessoa que logo que teve conhecimento da nossa chegada foi cumprimentar-nos e com ele convivi bastante; o último era o pior, muito dado a conflitos com toda a gente e com o qual pouco lidei.

Tanto a fábrica como o armazém, e um outro já construído no meu tempo, e duas novas casas (no tempo do meu sucessor, o Soares Borrego) sendo uma para o Agente e outra para um mecânico, eram de tijolo e cobertas de luzalite e telha.

Passados uns anos, já não estava lá eu, transferiram para Cahombo a sede de circunscrição do Cambo, situada em Marimba, e então foram construídas, além de mais dois ou três estabelecimentos comerciais, várias casas para os funcionários, centro sanitário e até uma pequena capela, sendo também instalada uma central eléctrica que fornecia luz para as casas e ruas.

Logo no dia da chegada tratei de me munir de pessoal serviçal e, tendo sabido da existência de um cozinheiro que tinha prestado serviços a um antigo colega, mandei-o chamar e com agrado aceitou trabalhar para mim. Chamava-se Domingos e além de excelente profissional, pois até doces sabia confeccionar, mostrou sempre dedicação e amizade. Preenchido já o posto principal, contratei um criado para o serviço doméstico, cujo nome era Zua, uma pessoa simples e não muito inteligente, mas também de uma dedicação e honestidade a toda a prova. Ficámos ambos famosos entre os meus colegas: ele pela sua pouca inteligência e eu pela minha paciência. O Zua era do género de eu mandar que trouxesse, por exemplo, um garfo e ele, todo rápido, ia à cantina e trazia uma colher ou qualquer outra coisa; eu ficava com o que ele trazia e explicava o que pretendia. Voltava à cantina e ia trazendo o que calhava, até acertar.


OS ENFERMEIROS DO MATO

Falando em curas e medicamentos não podia deixar de mencionar os “enfermeiros do mato”, pelo muito que contribuíram para a boa saúde de tantos, fossem brancos ou pretos, com o seu trabalho abnegado.

Com a falta de médicos que então havia, pois em muitas regiões o mais perto ficava a centenas de quilómetros, estes enfermeiros tinham de os substituir, tratando os doentes que se lhes apresentavam, em alguns casos fazendo pequenas intervenções cirúrgicas, assistindo a partos, extraindo dentes, enfim, fazendo de tudo. Quantas vidas salvaram, apesar dos poucos recursos de que dispunham.

Havia uns poucos que eram autênticos médicos, pois resolviam casos complicadíssimos graças à sua grande experiência e aperfeiçoamentos científicos que iam colhendo ao longo da sua atribulada vida profissional. Entre tantos estou a lembrar-me do “velho” Magalhães, enfermeiro durante muitos anos no Quela, que tantas vidas livrou das garras da morte.

Conto um caso que se passou com o meu colega e bom amigo Francisco António Pereira, conhecido por “Serapicos” (creio que esta alcunha lhe vem do nome da terra em que nasceu), a quem se declarou uma biliosa em pleno mato, a uns trinta ou quarenta quilómetros do Posto Sanitário e cuja deslocação era desaconselhada nestes casos. Pois este enfermeiro deslocou-se de tipóia ao local onde se encontrava o doente e esteve três ou quatro dias à sua cabeceira até o ver livre do perigo de uma doença quase sempre fatal.

No meu caso particular digo que, quando estive em Cahombo, o enfermeiro mais próximo encontrava-se em Marimba, uma povoação que dista oitenta quilómetros, e um médico só o encontraria em Malanje, a cento e trinta quilómetros em sentido contrário ao do enfermeiro, pelo que estavam separados por duzentos e dez quilómetros. Nos cinco anos que passei no mato só tive de recorrer ao clínico uma vez por causa de umas febres passageiras e ao enfermeiro uma só vez e por estar perto de Marimba, onde havia um, por causa de um furúnculo que me apareceu num tornozelo mas que resultou não o ser: tratava-se de uma pequena larva que se tinha introduzido na pele, proveniente de uns ovos depositados por uma certa espécie de mosca.


CASTIGO E ARREPENDIMENTO

A propósito de castigos confesso que castiguei alguns e enviei bastantes ao Posto para que lá fossem punidos. Fiz sempre os possíveis por ser justo embora reconheça que possa ter falhado alguma vez.

Houve porém um motivo que me levou a modificar este modo de proceder e era preciso depois uma causa muito forte para recorrer ao castigo corporal, preferindo o diálogo e o convencimento.

Foi uma conversa que tive com um mais-velho: Quando chegava ao acampamento e o cansaço não era muito, gostava de ouvir as pessoas idosas porque, por vezes, tirava ensinamentos das suas narrações e histórias que levavam a experiência de muitos anos vividos.

Disse-me então o tal velhote:

- Não sei para que vieram os brancos para a nossa terra. Antes, levávamos uma vida a nosso modo. Não trabalhávamos, quando era preciso caçávamos, pescávamos, comíamos os frutos que as nossas árvores nos davam, bebíamos o nosso marufo, fumávamos o nosso cachimbo e discutíamos as nossas makas sobre as nossas mulheres e o nosso gado. Vieram os brancos, passámos a ter de pagar imposto, construir e reparar estradas, cultivar algodão, comprar roupa, porque não nos deixam entrar nas povoações sem ela e, para tudo isto, temos de trabalhar.

O velhote não dizia isto zangado mas com uma certa tristeza.

Depois da conversa com o sekulo, tomei a decisão de não acrescentar mais um contra ao modo como levavam agora a vida. Passei a evitar os castigos. Mantive porém um, que empregava com êxito, que era não dar a carne dos animais que caçava, sabendo o grande apreço que tinham por ela.

Outro que também mantive foi o da xingadela. Xingar significa não só insultar, mas também zombar ou gozar, o que eles sentiam muito. Porém só ficava aliviado quando, depois de uma série de xingadelas, finalizava sempre com um palavrão.

Ora uma vez estava a xingar um, que escutava tudo muito calmo, e quando cheguei à última palavra “mimosa” sorriu e disse-me:

- Bom, antão até logo, Sr. Corochá (que era como me chamavam).
- Até logo, porquê?
- Bem, como já xingaste a minha mãe… é porque a maka já acabou.


EPISÓDIO MALANJINO

No dia 10 de Março de 1857 publica-se uma Portaria no Boletim Oficial de Angola que cria o Concelho de Malanje.
Em 1957, comemorando o primeiro centenário, realizaram-se vários actos que terminaram com um baile de gala no Palácio do Comércio.

Foram convidadas várias personalidades, tanto públicas como privadas, e a Fina e eu também fomos convidados.

A propósito deste baile contava-se o seguinte episódio: havia em Malanje um comerciante, meio analfabeto, que era muito vaidoso e por isso ninguém gostava dele. Meteu-se-lhe na cabeça que também devia ter sido convidado. Indagou quem fazia parte da Comissão Organizadora dos festejos e soube ser um deles o Sr Augusto Cerveira Baptista, que era o Director da Fazenda. Foi ter com ele e formulou o seu pedido e empenho ao que, muito diplomaticamente, este lhe disse ter muita pena mas o número de pessoas a convidar era muito restrito e já não havia vagas, mas que ficasse descansado porque para o outro centenário não seria esquecido. E assim o dito comerciante agradeceu e foi-se embora todo contente por ter sido convidado para os festejos do segundo centenário!

PESSOAL DA COTONANG, FINAIS DOS ANOS 40




A HISTÓRIA DE UM NASCIMENTO

Um certo dia, a Fina disse-me que estava grávida! Esta gravidez resultou para nós numa agradável e surpreendente surpresa uma vez que, ela com 43 e eu com 46 anos, não tínhamos nos planos a vinda de mais um filho.

A Fina passou a ser acompanhada por uma médica de Malanje (seria, talvez, a Dra. Hortense Cerveira Baptista). Quando lhe pareceu que chegava a hora do parto a médica confirmou-o, frisando no entanto que seria necessária uma cesariana e que não havia condições para isso em Malanje, de uma forma segura.

Malanje, nessa altura, estava ligada a Luanda por avião uma vez por semana, só que o dito avião já tinha passado. Não tivemos outra alternativa senão alugar uma avioneta do Aeroclube de Malanje que nos levaria à capital.

Foi assim que, numa pequena aeronave, só com dois lugares, fomos três: o piloto, Leonel Gomes Pinto, a Fina e eu num pequeno espaço todo encolhido. Foi o início de uma aventura: era a primeira vez que o Leonel fazia um voo tão longo e o aparelho não tinha nem rádio nem os instrumentos de que hoje estão dotados.

O Leonel levava um mapa sobre os joelhos e orientava-se seguindo a linha do caminho-de-ferro que passava debaixo. Às tantas esta desapareceu encoberta por uma densa floresta de árvores frondosas, desorientando por completo o bom do Leonel. Eu, que nessa época tinha um grande sentido de orientação, ao ver a sua dúvida, disse que, se nos dirigíssemos para Oeste, de certeza que iríamos ter ao mar. Assim se fez e com tanta sorte que fomos parar ao Cacuaco, a cerca de cinquenta quilómetros de Luanda, e daí rumámos então para lá.

Chegados à Casa de Saúde uma enfermeira-parteira examinou a parturiente e afirmou que, no seu entender, a criança só nasceria dali a um mês! Estávamos a 6 de Março e, de facto, o parto só aconteceu a 7 de Abril.

Foi assim, algo atribulado, que aconteceu o nascimento do meu filho mais novo, o António Ricardo, perfeito e são, quando corria o ano de 1966.


domingo, 1 de abril de 2012

Espoliados de Angola exigem justiça. A União Europeia e os Espoliados portugueses de Angola

08/02/2012

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UE_Veia_2012a

Carta de Durão Barroso, clarificando a posição da União Europeia sobre as indemnizações devidas pelo Estado Português aos cidadãos que vieram de Angola em 1975/6.
Leia aqui:
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Espoliados de Angola exigem justiça. Portugal abandonou espoliados de Angola


Êxodo dos portugueses abandonando tudo o que tinham devido
à falta de segurança que lhes tornou a vida em Angola impossível.



Portugal abandonou espoliados de Angola
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Presidente da Associação, Manuel Valente, diz que Acordo não foi cumprido O Estado deve milhões de euros aos portugueses que foram obrigados a regressar à Metrópole, fugindo da ex-Província Portuguesa de Angola. Para trás ficaram casas, edifícios e todas as poupanças de uma vida. Mário Soares, Cavaco Silva, José Sócrates, Passos Coelho e Paulo Portas não escapam às críticas. A política portuguesa enrolou, escondeu e ainda tenta silenciar uma das maiores injustiças da História do País.

São quase mil os espoliados portugueses que têm processos em tribunal contra o Estado para tentar reaver parte do que é seu por direito. Estes portugueses, no momento da descolonização, residiam e tinham os seus haveres na antiga Província Portuguesa de Angola. Garantem que,
em 1975, foram "coagidos" a abandonar Angola e a refugiar-se na então Metrópole "por força da situação de guerra civil, de perseguição étnica e de ódio racial existente no território".

Com hora e data marcada, o drama começou em Julho de 1975 e acabou quatro meses depois. Tempo suficiente para evacuar meio milhão de pessoas e dizer o último adeus a Angola: centenas de aviões e milhares de voos. Aos números imprecisos soma-se a história daqueles que nunca
mais regressaram. O Estado já lhes deu razão por diversas vezes. Seguiram-se, ao longo de mais de 30 anos, despachos, promessas e grupos de trabalho. Até hoje, estes homens e mulheres vivem com a angústia de quem deu tudo por um País que, há três décadas, tenta esquecer que um dia deixou que lhes roubassem tudo o que tinham.

A O DIABO Manuel Valente, presidente da Associação dos Espoliados de Angola, explica que Portugal até já fez o levantamento dos bens deixados para trás, mas nem um centavo chegou às mãos daqueles que ajudaram a construir um Império Ultramarino. "Fomos obrigados a deixar tudo para trás. Os nossos bens, os imóveis e móveis, a nossa situação familiar e o estabelecimento das nossas vidas. Os documentos com a relação dos bens deixados em Angola estão nas mãos do Estado português -que ainda não fez nada. Somos o único país colonizador que não ressarciu os seus cidadãos espoliados. Bélgica, Alemanha, Holanda, Grécia, França... todos estes países já resolveram o assunto com os seus nacionais", indigna-se. As culpas, dizem, recaem nas "opções políticas" da época. Às quais Mário Soares não é imune. São "recados" vindos de quem se lembra
desses dias como se tivesse sido ontem. "A ausência de consulta foi, em si mesma, um facto ilícito face às disposições da lei constitucional vigente no momento da prática dos factos", acusam.


O Acordo de Alvor O presidente da Associação de Espoliados de Angola afirma-se estupefacto
com o facto de os acordos de Alvor nunca terem sido cumpridos. "O Acordo não foi cumprido e Portugal não fez nada para que ele fosse cumprido. Por muito menos as Nações Unidas já intervieram em outros países. Foi tudo uma questão política, somente isso. Em Agosto de 1975,
Portugal suspendeu a vigência dos Acordos, deixando cair a já pouca protecção jurídica de que beneficiavam os portugueses residentes em Angola".

"Eu vi elementos do MPLA com armas e veículos portugueses. Eu vi...", sublinha Manuel Valente, batendo com o dedo indicador na mesa para reforçar a sua ideia. De facto, no processo avançado contra o Estado pode ler-se: "O MPLA, com a cooperação de tropas portuguesas (...) praticou
actos de genocídio, (...) assaltou, incendiou e pilhou propriedades de residentes de todas as raças e credos religiosos. O MPLA (...) torturou, manteve em cativeiro, molestou sexualmente e assassinou um número indeterminado de pessoas no território de Angola".


"Ficou lá tudo. Até os nossos depósitos bancários. Na época era proibido e punido com pena de prisão a transferência de valores monetários e de mercadorias valiosas de Angola para a Metrópole. A política, até então,defendia que nós construíssemos lá a nossa vida. O Estado fomentava, antes do 25 de Abril, a deslocação de portugueses para o Ultramar dizendo
que Portugal seria um Estado pluricontinental e multirracial. Angola era o país africano mais desenvolvido, juntamente com a África do Sul. Os portugueses deixaram lá obra feita: pontes, edifícios, os caminhos de ferro... Eles é que depois destruíram tudo", relata Manuel Valente.

Este processo de fuga foi tudo menos pacífico. As pontes aéreas e marítimas para retirar os portugueses de Angola decorreram a grande velocidade, mas sobre enormes críticas. A 11 de Novembro de 1975 Portugal procedeu à transferência de poderes para o MPLA e à declaração
de independência de Angola. Contudo, o Estado português não reconheceu diplomaticamente o Estado de Angola. O problema: "os cidadãos portugueses deixaram de gozar de protecção diplomática ou consular dos seus interesses no território de Angola, país com o qual Portugal não mantinha relações diplomáticas". Portas esteve perto Há muito que os espoliados de Angola lutam junto do poder político. E há muito que se fazem promessas. Em 2002, Paulo Portas, em plena
campanha eleitoral, garantiu à Associação de Espoliados de Angola que iria criar um grupo de trabalho para estudar a solução do problema. Viria a cumprir a promessa em Fevereiro de 2005 - já com a liderança de Pedro Santana Lopes - a poucas semanas da queda do Governo e das eleições
que dariam a vitória a José Sócrates." "O Portas teve milhares de votos à nossa custa. Mas sabíamos que estávamos a ser usados. Ainda lançou o grupo de trabalho, mas foi quando viu que ia sair. Depois veio o Sócrates e nunca mais se avançou", lamenta Manuel Valente.


Em "Diário da República", de 3 de Fevereiro de 2005, o Governo de Santana Lopes emite um despacho em que assume a responsabilidade e a injustiça desta maldita história: "Não obstante terem decorrido cerca de 30 anos sobre a independência dos ex-territórios ultramarinos, os sucessivos governos não conseguiram ainda dar uma resposta suficiente aos problemas e injustiças que afectam um significativo número de portugueses que se viram forçados a regressar a Portugal durante e por causa do processo de descolonização". A assinar este despacho: Bagão Félix, ministro das Finanças; Martins Monteiro, ministro dos Negócios Estrangeiros; e Fernando Negrão, ministro da Segurança Social.

O grupo de trabalho nunca foi constituído e Sócrates, que sucedeu no  cargo de primeiro-ministro, nunca pegou no caso. Apesar de em Janeiro de 2006, o Governo ter respondido à Associação garantindo que o grupo de trabalho continuava a ser uma realidade, sendo o seu objectivo propor
soluções aos portugueses "que se viram afectados nos seus direitos". Hoje, na cadeira do poder está Pedro Passos Coelho - num governo de coligação com Paulo Portas. O mesmo que prometeu um grupo de trabalho para resolver o problema criado pelo País a muitos dos seus cidadãos. No banco dos réus continua o Estado, aproveitando-se da Justiça demorada e onerosa construída ao longo dos últimos anos. ■

Em 1992, o Estado até reconheceu sua responsabilidade pelos danos emergentes do processo de descolonização. Em resolução do Conselho de Ministros, a 16 de Abril daquele ano, o Governo de Cavaco Silva assumiu a sua culpa. Era, pensou-se, o primeiro passo para o fim de um problema
que "se tem arrastado e envolvem a necessidade de maior e melhor atenção por parte do Estado". Designadamente no que respeita aos "interesses dos portugueses cujos bens e direitos foram confiscados, nacionalizados, ocupados ou intervencionados no decurso dos processos
de descolonização", a par da necessária "resolução dos problemas cuja responsabilidade envolvem mais directamente o Estado Português". Dois anos volvidos, criou-se - com uma duração de cinco anos - o Gabinete de Apoio aos Espoliados. O trabalho inicial foi feito: o levantamento e análise das questões basilares conexas com um eventual processo de
indemnização. Mais uma vez, findo esse período de duração, nada havia sido feito e o Gabinete extinguiu-se sem que nenhuma outra estrutura surgir-se para o substituir. Nesse mesmo ano de 1997, já no Governo de António Guterres, aprovou-se um Orçamento de Estado onde se encontrava inscrita a "Regularização de Responsabilidades" que serviria para "regularizar responsabilidades decorrentes de situações do passado, designadamente (...) [a] satisfação de responsabilidades decorrentes do processo de descolonização em 1975 e anos subsequentes". Porém, tal não passou de mais uma manobra governamental e, verdade é, os espoliados nunca viram tal dinheiro.


O DIABO – 07.02.2012
 
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Indemizações: Estado deve milhões de euros aos portugueses que em 1975 foram obrigados a regressar à Metrópole




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Presidente da Associação, Manuel Valente, diz que Acordo não foi cumprido
O Estado deve milhões de euros aos portugueses que foram obrigados a regressar à Metrópole, fugindo da ex-Província Portuguesa de Angola. Para trás ficaram casas, edifícios e todas as poupanças de uma vida. Mário Soares, Cavaco Silva, José Sócrates, Passos Coelho e Paulo Portas não escapam às críticas. A política portuguesa enrolou, escondeu e ainda tenta silenciar uma das maiores injustiças da História do País.
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