quinta-feira, 22 de março de 2012

MEMÓRIAS Malhas que o Império tece



Os meus bisavós maternos (sentados) que emigraram da ilha da Madeira para o Lubango no cargueiro Índia, em 1885. Estão rodeados dos filhos, já todos nascidos em África, incluindo a mais velha, a minha avó, a jovem mulher de vestido escuro. Princípios do séc. XX.

Lembro-me de quando olhava para trás e todo esse passado era a minha infância. Depois, a criança que fui foi diminuindo, diminuindo, como se eu me afastasse num carro e ela ficasse no passeio a dizer-me adeus. A criança ficou para trás, numa pequena cidade do interior de Angola, perdida no grande continente africano. Aos onze anos essa infância foi guilhotinada. Desceu a Serra da Leba e subiu para um barco de carga que a levou a Luanda. Depois, atravessou a ponte aérea.
A ponte aérea. A ponte aérea era uma ponte por onde se podia transitar num único sentido. Uma única vez. Atravessada uma vez e desaparecia em fumo. A ponte começava em Luanda. Terminava em Lisboa. Alcançada Lisboa, olhava-se para trás: a ponte desaparecera para sempre, volátil arco-íris. Olhava-se o céu, já se não via.
Não havia regresso possível. Uma viagem de avião como um cordão umbilical cortado para sempre. A mãe pousou as malas no chão do aeroporto.
Não olhou para trás. Sabia que a ponte já lá não estava. Também não olhou em frente. Estava tudo em branco. Ficou ali. Parada entre a ponte desfeita e o nada. Com as malas largadas no chão. Ficaria ali durante muitos anos.


Eles desembarcaram em Moçâmedes no séc. XIX, atravessaram o deserto a pé e subiram a Leba em carros boer, pelo Bruco, até mais de 1 700 metros de altitude. Vieram por uma estrada, os primeiros brancos a estabelecerem-se no planalto. Depois vieram aqueles que se estabeleceram na margem do Caculuvar, no sítio que é hoje chamado Barracões. Eles trabalharam a terra. Procriaram. Criaram filhos brancos para o Lubango. Recriaram, no regaço da Serra da Chela, a capela que haviam deixado na ilha da Madeira. Depois esqueceram a sua ilha distante. Ganharam uma nova terra. E amaram-na. Os seus filhos amaram-na. Os filhos dos seus filhos amaram-na. Durante cem anos, houve brancos que viveram no Lubango e o amaram.

Lubango. Quando eu era criança chamava-se Sá da Bandeira. Cidade no planalto da Huíla, rodeada de montanhas. Montanhas protectoras. Paralisadoras. Por isso rasgaram uma brecha, a fuga para a liberdade, a estrada da Serra da Leba, em direcção a Moçâmedes, ao deserto e ao mar. Para haver uma saída. Para contornar a superprotecção asfixiante da Serra da Chela. Vivíamos tão protegidos do resto de Angola e do mundo em redor que estávamos sentados num barril de pólvora e sentíamo-nos num paraíso. Quando o barril de pólvora rebentou, tudo foi súbito, devastador, um tiro nas costas. O destino errado como uma corda ao pescoço. Lubango com seu encanto e seu recato, as suas ruas de grandes vivendas com jardins, as suas ruas direitas, os seus Largos largos. Enfeitada com flores, com espatódeas, com canteiros. Limpa e ordeira. Com carros modernos pelas estradas. Com seus passeios espaçosos, quadriculados, onde se caminhava à vontade. Rodeada de paisagens grandiosas, inexploradas, múltiplas e variadas. Num país ainda a desbravar.


O Casino e a Capelinha ao longe, na serra da Chela. Cidade de Sá da Bandeira (Lubango)
A Quinta da Liberdade, a quinta do meu avô, onde todos os meus tios cresceram, era especial, um marco: não ficava na cidade, nem na serra dos muílas. Ficava atrás do hospital. Quando vinham à cidade e havia administrador que os quisesse vestidos à moda dos brancos, e alguns havia que os perseguiam, os gentios era na quinta que se refugiavam. Ali trocavam de roupa para ir a cidade, ou despiam-na para voltar à serra. Era o esconderijo, uma fronteira.
A Quinta da Liberdade, a fazenda do meu avô no Calumbiro, Lubango. Está sentado, rodeado da mulher e de alguns dos filhos, além de dois empregaditos negros.

O meu avô era um republicano laico convicto que várias vezes conheceu a prisão. Nasceu na Beira Baixa, fez a tropa em Macau e também fez de si um homem culto; rumou então a Angola, onde se tornaria num funcionário da Câmara Municipal incorruptível e obsessivamente perfeccionista. O nome que dera à sua quinta era um desafio e um sintoma do seu talento para arranjar sarilhos.



O meu avô aos 20 anos, em Macau. 1904.
Sempre soube de Camões. Eu nunca vivi na Quinta da Liberdade. Vivia na Praça Luís de Camões, no Bairro da Laje. Quando tinha seis ou sete anos, inauguraram uma estátua do Poeta na sua praça. Juntou-se um grupinho de gente e alguém discursou sobre a sua vida e obra. Camões teve ali um reino breve. O seu busto seria destronizado poucos anos depois, tal como o de João de Almeida e demais heróis dos portugueses. Para lá da estátua, do passeio frente a minha casa, todos os dias avistava a Ponta do Lubango na Serra da Chela, com o seu Cristo-Rei de braços abertos.


O Bairro da Lage, com a Ponta da Serra ao longe e o seu Cristo-Rei. Sá da Bandeira, 1969.

Como criança de África, era fanática da brincadeira. Em África brincava-se até muito tarde. Brincava-se a valer quase até aos vinte anos. Adolescentes de quinze, dezasseis, dezassete anos, eram tão fanáticos quanto eu. A Bi era um génio da brincadeira e uma catástrofe escolar. Brincou ferozmente até vir para Portugal, dois anos após a independência. No pior tempo da guerra, entretinha-se a brincar às escondidas e ao "canho" (à apanhada) com jovens guerrilheiros do MPLA, na serra da Senhora do Monte, onde moravam. Guerrilheiros com farda militar e metralhadora G3 na mão. Uma das opulentas vivendas dos brancos do local havia sido transformada em quartel do MPLA e outra num da UNITA. A Bi e as irmãs, desaparecidos os tradicionais amigos brancos, divertiam-se inocentemente a brincar com os guerrilheiros, tão adeptos de infantilidades quanto elas. Aquilo é que eram correrias pela serra abaixo com as G3 saltitando no cotovelo! Um dia, a mãe delas espreitou pela janela e viu a cena toda, Bi e irmãs mais os guerrilheiros e as metralhadoras em pleno jogo da apanhada.
Decidiu que chegara a altura de se irem embora também.
Eu brinquei quase com desespero. Talvez pressentisse que aquele tempo mágico não duraria para sempre. Que me seria retirado cedo demais. Que eu estava programada, como criança de Angola, para brincar até muito tarde. Que talento danado para sermos crianças! Eu e a minha irmã, as minhas amigas matulonas - as três Bis e as três Gordas - e a minha sombra, o pequeno Henrique. Mas também a Sara, os irmãos Tó "Naldo" e João e o kambuta (pequenote) do Ruca, que andava no karaté.
Brincar! Nunca mais nada na vida será tão verdade quanto brincar. Brincar era saltar para o epicentro de um remoinho, uma vertigem onde as horas não existiam ou existiam sucessivas dentro de segundos. Onde o espaço se transmudava em pradarias e desfiladeiros. Onde éramos verdadeiramente nós, quero dizer, verdadeiramente eu, o índio Cavalo Forte. Nunca mais seremos tão verdade, de tal maneira que ainda hoje, no fundo de mim, sou, como não sou mais nada, o índio Cavalo Forte.


Brincar! É por brincarem que as crianças são sagradas, por terem tão fácil em si essa capacidade de se transportarem para um tempo mítico, um in illo tempore exterior aos constrangimentos da vida adulta. E a vida adulta, não é tantas vezes uma procura inglória dessa dimensão outra, do tempo sem tempo irrecuperável das brincadeiras? Que resta aos adultos senão as viagens, certos momentos, certos livros, certos filmes, a música, a escrita, a pintura, para lhes darem uma sensação semelhante, mas muito mais pálida e incerta?
A brincadeira era a única verdade, o resto era a maçada das refeições e de nos vestirmos para a escola. E quando a noite caía, e acendiam-se as luzes públicas para combater sem vitória o seu manto negro, eu ressentia fundamente a crueldade das horas cronológicas. Atingiam-me como punhais ao retirarem-me do tempo mítico. Ter de jantar. Ter de dormir. O que era isso, esse tempo que vinha de fora e só tinha o dom de tudo estragar? Chorava amargamente: "Eu não quero que seja noite!" Mas a minha vontade era impotente perante as rotações siderais. Nas brincadeiras não, nas brincadeiras noite e dia surgiam segundo as minhas próprias rotações. Nas brincadeiras, podíamos construir um mundo todo novo, todo à nossa própria medida. Pequenos deuses da brincadeira.
No dia seguinte, retomávamos a brincadeira exactamente no ponto em que a tínhamos deixado. Ficara à nossa espera, intocada, suspensa, até ao nosso regresso. Desenrolava-se então com uma fluência mágica até o tempo dos adultos - escravos da cronologia -, com as suas refeições e as suas horas de dormir, uma e outra vez, virem arrancar-nos, brutalmente, daquele outro mundo paralelo que só aqueles cujo coração é puro conseguem penetrar.

Quando andava na quarta classe deu-se a revolução do Vinte e Cinco de Abril. Fiz, pois, quase toda a instrução primária no tempo do Marcello Caetano. Nessa época, a Pátria Portuguesa era muito diferente da de hoje. Até aos dez anos a minha Pátria chamava-se Portugal, mas era um Portugal maiúsculo, imenso, espalhado pelo mundo, como se Deus tivesse lançado serpentinas verdes e vermelhas sobre o planeta. Uma grande família universal. Incluía brancos, pretos, indianos, chineses e timorenses. E eu imaginava-os a todos a falar português. Todos orgulhosamente unidos pela lusitana epopeia das Descobertas, a mais grandiosa e significativa das epopeias humanas. Aquela que revelara o planeta aos seus habitantes e os ligara por mar. Os portugueses eram universalmente reconhecidos e aclamados como um povo glorioso e heróico e eu tinha a sorte de fazer parte desse país tão grande quanto a Terra. Havia o velho Portugal metropolitano, aquela lasca de Europa pronta a soltar amarras e navegar. Havia o meu berço, Angola, a jóia da coroa, com seu petróleo e diamantes, catorze vezes maior do que a Metrópole. Na outra face de África estendia-se o grande território moçambicano, ambos os territórios como que empalando em português o velho continente; havia Guiné Bissau e Cabo Verde; São Tomé e Príncipe; o longínquo Timor; Macau, aquele ponto atrevido no mapa da esmagadora China; e, na Índia mágica, três pequenas pedras preciosas chamadas Goa, Diu e Damão. Sim, Goa, Diu e Damão. Goa, Diu e Damão, cuja independência fora conseguida anos antes de eu ter nascido, eram estudadas nos manuais escolares, duas décadas volvidas, como colónias portuguesas, até vésperas do Vinte e Cinco de Abril de setenta e quatro. África, Índia, China, Oceania, e ainda o vasto Brasil a falar português nas Américas - o velho império lusitano, verdadeiramente global, era a minha Pátria. A Pátria dos Heróis do Mar. Sem fronteiras, unindo as raças, lendo "Os Lusíadas". A Pátria cujos filhos descendiam da estirpe de um Egas Moniz, de um Dom Dinis, de uma padeira de Aljubarrota, de um Nuno Álvares Pereira, de um Vasco da Gama, de um Fernão de Magalhães, de um Gago Coutinho, de um Serpa Pinto. A História de Portugal era uma sucessão de heróis e feitos de glória. O Grande Portugal. Girava à volta da Terra. Conquistara os oceanos. Desvendara os segredos dos céus. Girava à volta da Terra. Eu sentia subtis mas inquebráveis fios de ligação com as crianças de Macau, com as crianças de Timor, com as crianças de Goa. Se nos encontrássemos, havíamos de nos reconhecer, falar com orgulho a mesma língua, começar a brincar logo ali. A minha Pátria era imensa, encontrava-se em todo o mundo. A pequena Metrópole europeia, no meio disso tudo, não tinha senão a importância do seu passado. Heróis do Mar. Na escola, cantávamos o hino em cada manhã. Éramos Valentes. Imortais. Esplendorosos. Brumosos e Antigos. E eu principiava o dia cheia dessas convicções.




O meu tio Sereno Lusitano dando consultas a um grupo de muílas. Cerca de 1947.
Mas após o Vinte e Cinco de Abril, de repente, foi como se a Metrópole deixasse de ter qualquer interesse. Logo a seguir ao dia 25, os brancos do Lubango descobriram-se angolanos. Primeiro houve a vaga do Spínola, que parecia um grande herói. Spínola, Spínola, Spínola, e as "passagens à Spínola" na minha quarta classe. Todos os garotos passavam de ano. A era da igualdade chegara: descobriu-se que havia a teoria de que os pretos eram iguais aos brancos e daí inferiu-se que as notas dos cábulas também tinham de ser iguais às dos alunos brilhantes. Mas parece que só esta última teoria foi efectivamente passada à prática. Conheci um garoto preto da minha idade chamado Spínola em homenagem ao general, a quem nunca ninguém dera relevância até então. Por se chamar Spínola tornara-se especial, com um cheirinho a heroicidade. Depois houve a vaga Rosa Coutinho, sem já nada de exaltante. Nunca encontrei nenhum miúdo preto chamado Rosa Coutinho. Era odiado pelos brancos. Mas não pela minha mãe. Rosa Coutinho, muitos anos depois, moraria perto de mim. Quantas vezes tomaríamos em Lisboa o mesmo autocarro 44! Décadas volvidas e o ódio contra ele aceso, sempre aceso. Dentro do autocarro, havia sempre alguém que o reconhecia, pessoas a quem a vida "pregara uma partida" em África: "Olha quem ali vai! Aquele bandido do Rosa Coutinho! Esse é que é o culpado de tudo o que nos aconteceu! Comuna duma figa! Se estivesse aqui o meu marido havia de lhe dizer das boas!" - diziam, ora em voz alta ora num sussurro, conforme o estado geral do nível de cobardia.
Quem realmente importava, no entanto, era o Agostinho Neto e o Savimbi e o Holden Roberto, o MPLA, a UNITA, a FNLA. O que se passava na Metrópole, os seus PCP, PS e MRPP só vagamente chegava aos meus ouvidos e às minhas mãos, sob a forma de colecções de autocolantes de propaganda política que nos enviavam os tios da Metrópole. Na Metrópole tinha havido uma revolução com cravos, na qual um menino pobrezinho de caracóis louros enfiara um cravo na arma de um soldado (apareceu o poster na montra da livraria Lello, na Rua Pinheiro Chagas, e ficou lá imenso tempo), o Marcello e o Tomás fugiram para o Brasil e pronto, a Pátria de Minho a Timor deixou de importar com um simples estalo de dedos. Angola era como se já fosse independente. Só Angola importava. De vez em quando, lembrava-me de Macau e Timor, essas duas eram o meu orgulho maior, o que é que lhes estaria a acontecer? Mas os tempos eram tão excitantes em Angola, quase uma verdadeira aventura, finalmente acontecia alguma coisa de verdadeiramente interessante na minha vida. Até aí eu forjara as minhas aventuras. Mas agora não, agora a História movia-se por si, algo maior, muito maior do que eu se movia, a aventura chegava de fora, era mesmo de verdade. Sentia a História a entrar pela primeira vez na minha vida.



O famoso poster do 25 de Abril
Com uma mente de dez anos descobri que os pretos mais cultos e a maioria dos outros eram do MPLA, os brancos da Unita, os mulatos ninguém sabia de onde eram e os brancos radicais eram da UFA, um movimentozinho defensor dos seus privilégios e poder, que achava a África do Sul do apartheid um modelo a seguir. Não ficou para a História. Era o movimento das senhoras dodós, em Portugal chamadas "tias". Quando faziam manifestações não andavam por seu pé. Eram dodós, não saíam dos popós. E também nada gritavam. Limitavam-se a buzinar. As suas reivindicações deviam ser tão inconfessáveis que eram substituídas pelo som póóó. Popóóó, lá vinham elas nos seus Mercedes, nos seus BMW, das ruas da Baixa, contornavam a Praça Luís de Camões e seguiam para a Senhora do Monte. Os seus popós diziam tudo. Não era preciso mais nada.
Nós tínhamos um Volkswagen verde-folha em terceira mão e defendíamos o MPLA. Mas os pais da Sara, que tinham um Citroen ID, um Toyota Corolla amarelo torrado e um jeep Land-Rover - tudo em primeira mão - também defendiam o MPLA. O regente agrícola tinha uma carrinha Station e também defendia o MPLA. A minha mãe era qualquer coisa como uma traidora na óptica dos brancos, porque apoiava o MPLA. Tinha-se passado para o lado deles, dos pretos. Concordava que Angola devia ser governada por angolanos, fossem pretos ou brancos. Para os outros brancos, o MPLA queria Angola governada por pretos e ponto final. Quem teria razão? Éramos brancos raros. Sentíamo-nos Especiais e Esclarecidos, tão cheios de Razão que não havia espaço para mais nada. Fosse quem fosse que tentasse inculcar-nos qualquer ideia de fora, rebentava altercação e da forte. Era o grande tempo das grandes discussões. Muito se discutia! Discutia-se ferozmente, com muita emoção e pouca calma. Discutia-se inutilmente, mas em doses industriais. As pessoas, de repente, descobriram-se todas especialistas em alta política e de convicções inabaláveis. Era a Grande Época da Política. Política - foi esse o maior palavrão dos meus dez aos treze anos.

Holden Roberto, Jombo Kenyata, Agostinho Neto e Jonas Savimbi
No ano escolar de 1974-75, o programa de História deu uma volta de 180º. Afonso Henriques foi substituído pela Rainha Ginga, o condado portucalense pelo Reino de N'Gola, os lusitanos pelos muílas, os mucubais, os cuanhamas, os mucancalas, os tchokué e quejandos. Ironicamente, na minha turma havia apenas duas miúdas pretas. A maioria das crianças negras nem à Escola Primária chegava. E os professores, claro, eram todos brancos.
Os pretos, de repente, tornaram-se muito interessantes. Obriguei a minha lavadeira a ensinar-me rudimentos de olunyaneka, ao qual eu, na minha branca ignorância, chamava quimbundo. Entrei no quartito dela, coisa que jamais me passara pela cabeça fazer até então e, papel e lápis em riste, ordenei, com os meus modos autocráticos de criança branca:
- Vamos estudar os verbos! "Vestir", por exemplo. Vá, diz-me lá em quimbundo a primeira pessoa do singular do verbo vestir!
A lavadeira teve um sorriso envergonhado. Claro que não percebera patavina da minha algaraviada escolar. Era tal o fosso entre nós.

Duas das nossas empregadas: a Regina e a Margarida.
Criados. Quem era a sua mãe? Quem era o seu pai? Ninguém parecia saber. Até então, ninguém queria saber isso dos pretos. "Elas não sentem como nós.", dizia-se das mães negras que perdiam os filhos. Os pretos nunca eram olhados como filhos amados de alguém. Nem sequer como filhos. Viam-nos convenientemente autónomos, sem raízes ou sentimentos de família. Quando se empregavam criados, quase sempre muito jovens, não se sentia qualquer curiosidade por eles. Como se cada preto fosse igual aos outros. Como se não tivessem passado e o futuro fosse o mesmo beco sem saída do presente. Mas agora não, descobria-se que eles podiam ser objectos de interesse! Por exemplo, tínhamos um criadito que tinha sido monangambé. Monangambé! Como na famosa canção de Rui Mingas! Monangambé, os contratados de São Tomé, na verdade uma forma de escravatura moderna! Fazia parte do nosso novo vocabulário, a palavra Monangambé, e afinal abrigávamos nos nossos próprios anexos um verdadeiro Monangambé! Que chique. Sobre um outro criadito, descobrimos que o pai dele tinha uma quantidade de cabeças de gado. Quer dizer, era o menino fino lá da tribo. O filho de um capitalista muíla. Que excitante.



Capa do single "Monangambé"

Começava a deixar de ter paciência para os discos da Carioca e as suas histórias infantis. Metralhava os ouvidos com os singles da Pandilha, com o "Sugar baby love", "If you need me", "Kung Fu Fighting", "El Bimbo", "Pop Corn", a música do filme do Trinitá. A rádio, que nunca se ligava em minha casa até ao 25 de Abril, passou a ser usada para saber as notícias dos últimos desenvolvimentos políticos. E eu apanhava de quando em vez músicas como "La Decadence" e a música do filme "O último tango em Paris". Na livraria Lello vendia-se o livro d’ "O último tango em Paris". A Bi é que me falava destas coisas. Contara-me o filme, sobretudo os pormenores escabrosos. A Bi tinha quinze anos. Eu tinha dez. Para tentar perceber o interesse e fazer-me curiosa, folheei o livro na Lello. Passei os olhos uns segundos e percebi que não era capaz de sentir a animação que ela sentia com aquilo. Outra bomba era "La grande Bouf". A Bi falou-me, mas sobretudo os adultos, falavam muito da "Grande Bouf", com um ar entre o nojo e o excitado. Percebi que era um filme onde havia uma festa em que os adultos só comiam e defecavam. Havia pessoas, diziam, que ficavam incapazes de comer durante dias após terem visto o filme. Os adultos eram seres muito estranhos. Tudo quanto tinha interesse maçava-os, tudo quanto não tinha ponta por onde se pegasse, subitamente animava-os. Andavam sempre a ralhar com as crianças para não se sujarem, mas havia alguém que gostasse mais de porcarias do que eles? Fingiam-se enojados, mas aquelas tretas enchiam-lhes as medidas. Enchiam-lhes as medidas que eu bem via. Livra, que gente, eu é que não queria ser como eles. Ainda bem que era criança. Isto era na cidade do Lubango, Angola, na época do pós-revolução. Os costumes haviam começado a mudar havia já alguns anos. Havia muitos "liambados", a juventude que fumava liamba, e a Bi contava-me das festas devassas do Lubango. Da troca de casais. Do jogo das almofadas. A juventude, sobretudo branca, entrara no mundo da droga mas, nisso, a História veio pôr um travão. Os aviões breve os levaram para longe e Angola ficou com a sua guerra de longos anos, onde nem os traficantes ousaram penetrar. A guerra travou a voragem da droga em Angola. Eu sentia um entusiasmo todo intelectual pelas drogas e a estética psicadélica dava-me volta ao miolo. O meu vocabulário enriquecera-se com palavras como "alucinogéneo" e "ácido lisérgico". Lera tudo isso num livro de análise sociológica sobre o fenómeno hippie. Aos dez anos, 1974, eu queria ser hippie. Ainda havia hippies retardados nos anos setenta. Queria ser hippie e também queria ser índio.


Os singles dos meus 10 anos.
Além das músicas pop, enveredara ainda pela música de intervenção, o último grito da moda. O "Monangambé" do Rui Mingas era o número um, mas também o "Minha mãe", poema de Agostinho Neto. E havia as canções sobre os heróis da praxe, o mártir guerrilheiro "Valódia", a representante do sexo feminino "Deolinda Rodrigues", e o representante das crianças, "Augusto Ngangula". Agostinho Neto era muito cantado, havia o "Presidente, presidente,/ nós fazemos-te uma prece" e aquela que começava assim: "Tatamukuchi Agostinho Neto,/ camarada iabátu Angolá/ oê, oê, Angolá liberté" - pelo menos era assim que eu percebia. "É o guerrilheiro,/ que passa o tempo lá na mata"... Em todas as viagens pelo Lubango fora no Volkswagen verde-folha, percorríamos incansavelmente o nosso imenso repertório musical político. Não nos coibíamos de alindar o ramalhete com canções das facções inimigas: "Savimbi é maravilhoso/ Savimbi é maravilhoso!/ Ele sabe lidar com o povo bem,/ Savimbi é maravilhoso!/ N’zau Puma é maravilhoso!/ N’zau Puma é maravilhoso…" Era só maravilhas.

Eu e a Sara até nos inscrevemos na OPA, a Organização dos Pioneiros de Angola! Cheguei à sede com o meu habitual arsenal bélico: fisga ao pescoço, canivete no bolso. Estive quase quase a levar a minha zagaia. O camarada guerrilheiro de guarda, abraçando a sua G3, proibiu-me de entrar com tanta arma, confiscou-me a fisga e o canivete e segui para a instrução militar completamente desarmada. Um punhado de miúdos negros rodeou-me. "Trouxeste calções brancos! Vão tornar-se pretos!", disse um deles. E desataram a rir. Só hoje percebo o quanto aquela frase era profética. Dali a pouco apareceu o instrutor. E começou um treino militar a sério. Marchámos à moda do MPLA, batendo resolutamente com os punhos no peito e lançando as pernas para a frente e rastejámos no chão enlameado. O instrutor arvorava uma expressão trocista e eu suspeitava levemente que aquilo tinha a ver com a presença daquelas duas notas dissonantes brancas no meio dos miúdos pretos. De algum modo, tal suspeita incentivava-me a empenhar-me ainda mais nos exercícios. Havia de o fazer engolir a troça. Na vez seguinte, porém, a troça foi mais ruidosa. Começou a chover copiosamente e o instrutor ordenou que repetíssemos as suas palavras: "Quem tem medo da chuva é filho de tuga!" Para ele perceber que eu não me considerava filha de tuga, repeti resolutamente as suas palavras. O instrutor delirou, morto de riso, tal qual como se soubesse que o meu pai era de Santarém, e repetiu uma e outra vez a mesma frase. E eu também repetia, muito séria, muito OPA. A coisa nunca mais parava, até que chegou um negro bem vestido, com óculos, ar de intelectual. Aproximou-se do instrutor e, numa voz desagradada, segredou-lhe: "Que é isso, camarada? Estás a gozar com as crianças brancas? Não queremos esse tipo de atitude no MPLA. Elas inscreveram-se na OPA, devem ser tratadas como as outras. Pára já com essa brincadeira." O instrutor, a custo travando o riso, lá se conteve. Eu continuei a empenhar-me nos exercícios, mas mais desconsolada. No entanto, tudo isto foi bruscamente travado. O tuga soube que eu andava na instrução da OPA e ficou furioso. Que não sabia onde me estava a meter, que era de uma total inconsciência, que era de loucos, que nunca mais havia de lá pôr o pé. Chorei amargamente, mas não tornei a ir. A razão foi apenas porque a atitude do instrutor arrefecera o meu entusiasmo inicial.


Pioneiro do MPLA, com arma de madeira.
Às 4 da manhã acordei com um grito de homem vindo da rua. Começara o tiroteio. Já estávamos à espera dele. Andava a descer de Luanda e algum dia teria de chegar ali. Eu tinha ouvido tiroteios em Luanda, mas longínquos - os piores tinham passado ou estavam por vir. Só um acontecera bem perto, numa avenida espaçosa, com a minha prima Magui. Desatámos a correr por ela fora até o deixarmos de ouvir. Mas no Lubango foi naquela madrugada. A minha casa encheu-se de gente. A família das Bis e a família do Tó "Naldo" e do João, que viviam na Humpata, tinham vindo refugiar-se na Praça Luís de Camões. Asneira. O tiroteio começou precisamente ali. Acampávamos no corredor, receando os tiros que pudessem atravessar as janelas. Na parede exterior da minha casa surgiram dois buracos de bala. Ena pá, o orgulho que aquilo me deu!


A mãe da Sara apareceu na minha casa com um farnel para os guerrilheiros do MPLA. Que, coitados, deviam estar cheios de fome! E de cansaço! Vinha recrutar-nos a nós, crianças, para irmos com ela naquela piedosa romaria. Subimos a Serra no Toyota Corolla amarelo torrado até ao miradouro. Estava lá estacionado um carro blindado. Com um jovem guerrilheiro do MPLA. A mãe da Sara procedeu à sua oferenda de sandes de queijo e fiambre, acompanhadas de sumo de laranja natural. O rapaz recuou. Ela então bebeu um pouco de modo a provar-lhe que não estava envenenado. Uma senhora tão fina preocupada com guerrilheiros! Arregalava os olhos. Encontrámos ainda outro guerrilheiro e repetiu-se a dose. Igualmente atrapalhado, mas com um sorriso trocista, pelo que regressámos aos nossos lares, a mãe da Sara bem feliz por haver alimentado dois guerrilheiros do MPLA para terem mais força para dar tiros aos da UNITA.


Com tiroteio à porta, guerra no país, famílias acampadas no corredor de casa, a minha avó teve uma trombose. A debandada geral começara. Todo o branco se ocupava a encaixotar os seus bens terrenos. "Não lhes hei-de deixar nada!" - ouvia-se a cada dia. Nós deixámos quase tudo aos nossos criados e a maior parte da biblioteca foi doada ao MPLA. Como à minha irmã não podia faltar determinada medicação, a minha mãe resolveu seguir a turba na travessia da ponte aérea.
Pouco antes da partida, avistara de carro uma colega de escola, uma repetente crónica que já tinha 16 anos. Era uma mulata enorme, alta e forte, que gostava de se entreter a aterrorizar os colegas mais miúdos. Naquele dia, vestia uma farda das FAPLA. Estava encostada a uma viatura militar, conversando com os seus novos colegas. Embora tivéssemos acabado de frequentar a mesma escola, percebi que os nossos destinos iriam irremediavelmente divergir.


Pouco tempo faltava para partirmos e eu encarava tudo como uma grande aventura. Mas olhei para a espatódea no passeio frente a minha casa. Quantas vezes eu subira aquela árvore! Agora tinha de dizer-lhe adeus. Trepei uma última vez, sentei-me num dos seus robustos ramos. O conforto peculiar de estar empoleirada numa árvore. Não é um conforto físico, é mais um aconchego, um abrigo verde. Aqui e ali, flores cor de laranja, como labaredas a desafiar a verdura. Pensei na minha partida, pensei que tinha onze anos, que aos onze anos da minha vida iria para Portugal. Que preferia ter dez. Mas que, mesmo assim, era ainda criança. Eu não queria crescer. Ser grande, essa meta tão almejada pela maioria dos miúdos, a mim repugnava-me. Ser grande, para mim, era conviver com a morte. Era ter de ir ao cemitério. Os adultos tinham sempre tantos mortos! A minha mãe não nos deixava entrar no cemitério do Lubango. Ficávamos de fora, a olhar os altos muros, o enorme portão de ferro trabalhado para lá do qual os mortos descansavam. Eu não sentia curiosidade. Preferia ser criança e não ter de ver. Os adultos morriam com doenças estranhas. Nós, as crianças, nós não morríamos. Mas então pensei num miúdo amigo meu que morrera havia pouco, com uma doença lenta e terrível. Houve missa na igreja do meu largo, o Largo de Camões. A minha mãe participou na cerimónia, nós não. Éramos protegidas da morte. Fui tomada então por um súbito pavor. "Mas é raro! Mas é raro!", tentava eu descansar-me. Caía em pavores, da morte, das "almas do outro mundo" sobre as quais tanto falava uma vizinha nossa, dos feitiços, kazumbis dos kimbandas, do incontrolável, das forças maiores do que nós, das forças invisíveis. A presença do invisível sempre me pareceu óbvia.
Apesar dos seus percalços, a infância ainda assim me parecia um refúgio contra a morte. Além da associação entre o estado adulto e a morte, havia ainda o vago desprezo que eu nutria pela gente grande. Já não conseguiam brincar. Poderia haver maior condenação? Só sabiam falar. Andavam sempre a falar. A maior parte deles levava vidas desinteressantes. Nunca lhes acontecia nada. Nunca eram raptados por índios. Ficavam nos cafés a parlapatar como parvos em vez de irem subir às árvores como eu. E eram realmente grandes e desajeitados. Não cabiam em sítio nenhum e perdiam toda a graciosidade. As crianças a correr eram leves e rápidas; os adultos eram sempre pesadões e as mulheres uma desgraça, com as pernas travadas pelas saias, os saltos altos a impedi-las de avançar e as mamas a dar a dar. A queda de um adulto era embaraçosa. O chão estremecia com o estrondo do peso. Eles próprios sentiam um embaraço que se lhes via na cara. Mas as crianças até a cair tinham agilidade e graça. Os adultos, nem sequer dormir sozinhos conseguiam. Em suma, eram uma tribo ridícula.
Ainda assim, os homens tinham certas vantagens. Sabiam correr bem melhor do que as mulheres e alguns, como o pai da Sara, punham as mãos atrás das costas quando caminhavam. Eu achava que aquilo "dava estilo". Alguns homens até eram caçadores, como o Martins. As mulheres não. Pintavam-se muito. Pareciam palhaços tristes. Usavam penteados altos e armados como morros de salalé. Subiam as escadas em bicos de pés, as pernas ânforas gregas enfiadas em saltos muito altos. Tudo nelas falava de artifício e desconforto. Não pareciam muito humanas. Também os apertos de mão dos homens tinham muito mais estilo que as mulheres e os seus beijinhos sociais. Eu gostava de dar apertos de mão. O Mário C., com as famosas sobrancelhas farfalhudas, um dia deu-me um aperto de mão - e comentou que eu tinha "muita força". A mim, que tinha o culto da força. Olhei, fascinada, para ele e ganhei o dia.



Espatódea
A minha vida de princesa africana ia acabar. Ia principiar a minha vida de cigana lusa. Aos onze anos desci de carro as laçadas da Serra da Leba, atravessámos o deserto do Namibe, dormimos uma noite no Colégio das Doroteias. Acordámos cedinho, o tempo fresco de Moçâmedes, a areia do Colégio era como a da praia e havia baloiços e balancés frente ao nosso quarto. Contempleio-os com melancolia, como se pressentisse que a minha infância estava prestes a terminar. Não naturalmente, mas por imperativos históricos, muito maiores do que eu. Adeus balancés. Eu seguia por um barco de carga para Luanda, o meu pai ficaria provisoriamente, regressou ao Lubango, a mãe deu-lhe da amurada um saco. E depois descobrimos que se enganara, entregara-lhe as nossas provisões para a viagem em troca de um saco cheio de cascas de fruta. A minha mãe no seu mais típico. Ficámos sem nada para comer.
O barco estava pejado de futuros "retornados". As pessoas acomodavam-se em qualquer sítio. O barco era só metal, ferrugem desagradável ao tacto, um pouco sujo. Eu nunca andara de barco, excepto a travessia do Tejo no ano anterior, durante a "licença graciosa" da minha mãe. Mas este era muito maior, um barco de carga. Havia uns poucos camarotes, disseram-nos que eram do capitão e demais tripulação. E que havia o porão. Fomos ao porão. Descemos para um buraco por umas escadinhas de ferro e não havia lugar para pormos um pé. O porão era um amontoado de gente. Gente que se barricava na sua bagagem, tentando um mínimo de privacidade para a sua família. Gente com bom aspecto, bem vestida, homens fortes de olhar triste, havia pouco tão alegres nas ruas e nas casas que deixavam para trás. Eram como os homens que eu costumava ver no Lubango, na pastelaria Flórida, no Combinado, na livraria Lello ou na Académica. Agora, sentados no chão, apertados no porão, eram como porcos num curral. Pareciam escravos brancos. Escravos brancos num porão. Ó ironias da História! Tornei a subir a escadinha de ferro apressadamente. A minha grande aventura começara a amargar.
Onde ficar? Onde passar a noite? Percorremos o barco, encontrámos uma secção ao ar livre cheia de longos toros de madeira empilhados uns sobre os outros. As pessoas arranjaram um espaço para nós as três. Subimos para cima dos toros, que depressa nos maçaram as costas com as suas esquinas afiadas. Na outra ponta queixava-se uma senhora que conhecíamos. Era uma das senhoras dodós da UFA. Também vivera na Laje. A sua voz erguia-se num lamento:
- E eu que ontem até fui ao cabeleireiro! Oh, meu Deus! E afinal isto é o barco que nos dão! Um barco de carga! E eu que fui ao cabeleireiro, pensando que, já que nos tiraram tudo, nos dispensavam o "Príncipe Perfeito"! Tiram-nos tudo e ainda por cima nos põem num barco de carga!
Depois falou nos terroristas, referindo-se aos pretos, claro, sobretudo os do MPLA, um bando de ladrões. Ela ultimamente até punha um saquinho com umas poucas moedas perto das portas e janelas a ver se eles se contentariam com aquilo e se iriam embora sem lhe assaltar a casa a sério. Até os terroristas, por serem pretos, eram subestimados. Eu tinha boa opinião dos terroristas. Afinal, desde muito pequenas, a parelha que eu formava com a minha irmã era conhecida como "As Terroristas". Deviam divertir-se à brava, esses tais terroristas, se eram capazes de semear o terror, como nós entre a demais criançada.
Mas the times they were a-changin’. As antigas estruturas desfaziam-se em pó. As senhoras dodós do Lubango eram lançadas em barcos de carga sem qualquer conforto ou cabeleireiro, sós, desprotegidas, rumo ao desconhecido. Rumo ao desconhecido. Num barco de carga rodeado de mar, uma extensão sem fim de água anoitecida, monótona e informe. Incapaz de adormecer com o frio da noite no mar alto, com as luzes, o barulho, o movimento e a impossibilidade de qualquer conforto vindo dos toros de madeira, pus-me a olhar a juventude do barco. Tinham subido para a amurada, feito uma grande fogueira, e tocavam viola com as suas grandes guedelhas e calças à boca de sino. A juventude dos anos setenta. Um contraponto em relação à cena lá de baixo, do porão. Eu cantava para dentro "Another time", haviam-me oferecido o single, só tivera tempo de o ouvir uma vez. Não me queria esquecer da melodia. "Another time". Outro tempo vinha de encontro a nós no vento do mar alto, varria-nos para longe.




O single "Another Time"

Nada para comer. No outro dia, eu e a minha irmã tínhamos fome. Uma senhora conhecida trouxera um frango de churrasco embrulhado em papel pardo. Ofereceu-nos. Devorámos-lhe o frango todo. Um rapazote gordo lia banda desenhada da "Lola" e do recruta Zero. Eu conhecia as tiras da "Lola" e do "recruta Zero" da última página do Diário de Luanda. E o "Archie". Eu adorava o "Archie", mas isso fora uns anos antes. Talvez 1972. Mas agora era 1975 e estávamos num barco de carga a comer frango de churrasco. A senhora ficou sem nada para comer.
Depois chegámos a Luanda. Os futuros "retornados" enchiam o cais e as ruas adjacentes, havia bichas por todo o lado, parecia que Angola inteira se juntara para partir. Sem saber o que fazer, subimos por uma rua ao acaso, ao longo da qual se desenrolava mais uma grossa fila de gente. No meio da multidão, porém, por puro acaso e sorte, avistei o meu tio Francisco e o meu primo Tomás. Procuravam-nos. Explicaram que aquela gente não tinha ninguém em Luanda, estavam a tentar inscrever-se para serem alojados algures até que fossem metidos num avião para Lisboa. Nós, felizmente, tínhamos família em Luanda, podíamos ir logo embora dali. Metemo-nos no carro e breve estávamos no largo da Vila Alice, na casa da tia Lusitana Liberdade. Ali esperaríamos o nosso avião e empreenderíamos a viagem pela ponte aérea e pelas malhas que o império tecia.

Nos arredores de Luanda, na base militar portuguesa, foi onde instalaram os refugiados sem família na cidade. Um primo nosso levou-nos lá. Que triste, lá continuavam eles como porcos num porão, barricados em malas, uns em cima dos outros. Disponibilizavam-lhes apenas duas casas de banho, as bichas eram terríveis. Só esses se mantinham em pé. Davam uma lata de sardinha enlatada por dia às famílias, duas se tinham crianças. Estavam quietos, só no olhar a revolta se traía. Enjaulados. À espera do avião que os depositaria na Metrópole, para muitos território ignoto, onde também não conheciam ninguém. Eu sondava o chão, estava cheio de cápsulas de balas que recolhia com fervor. Era uma criança tonta, que amava armas e balas. G3. kalashnikov, bazooka, morteiro, granada - palavras centrais no meu vocabulário de então. Muitos anos depois, soube que, entre essas cápsulas, havia balas não disparadas e até granadas. E que uma outra criança, por esses dias, recolhendo por ali despojos de guerra como eu, ficou sem um braço quando uma granada lhe rebentou na mão.
Informaram-nos de que certo dia haveria num avião lugar para nós. Um enorme avião russo. Perto do nosso lugar havia um menino pequeno chamado Cristóvão. Um pequeno retornado louro que decerto esqueceria Angola. E ouvia-se o Samba Pati do Carlos Santana, de quem eu desconhecia o nome mas amava o som. Algo diferente vinha de encontro a mim. Sentia isso distintamente.
Mal pusemos pé em Lisboa, de novo a cena se repetiu, o porão no barco, a base militar. Lá estavam eles, mais retornados e mais retornados ocupando o chão por inteiro, acampando no aeroporto, quietos, com o mesmo olhar perplexo. E nós sempre a escapar a isso, tínhamos muita família em Portugal.



Retornados acampados no aeroporto da Portela

Chocou-me, Portugal, chocou-me linguisticamente. O seu vocabulário, a sua gramática. A tia Alba Constança e o tio Júpiter Lusitano haviam alugado uma casa de campo nos arredores de Sintra, pouco tempo antes da Invasão dos Retornados da família. Orgulhosos que estavam, apressaram-se a levar-nos de carro até lá. Eu olhava pela janela a tal Metrópole e não dizia nada. A tal Metrópole, em 1975, parecia-me toda muito pobre. Aquelas povoações de casas mesquinhas, baixinhas, aqueles homens farruscos, de grandes barrigas, mal amanhados e com bigode, à porta das tabernas... Então isto é que era a tal Metrópole? A estradazita manhosa em que, periclitante, o "Dois Cavalos" seguia... que motivo havia para orgulhos? Não percebia. A tal importância da Metrópole parecia ser desmentida a cada passo. Como podia tudo aquilo ter importância? Mais do que as chamadas províncias ultramarinas? Era tudo mentira, estava à vista que era. O sol brilhava sobre casas apodrecidas e vedações atabalhoadas, confeccionadas com paus e plásticos sem ordem ou gosto, a delimitar pequenas hortas verdes de aspecto desleixado. De repente, numa curva, consegui ler uma tabuleta torpe de madeira, meio caída numa dessas vedações. A tinta azul desbotada, haviam escrito numa caligrafia tosca: "Não bazar o entulho". Não vazar o entulho! Que feio! Aquilo não era a minha língua. Não sei por que carga de água, conseguia compreender o sentido, mas aquilo era muito estranho, diria mesmo estrangeiro. Na minha língua dizia-se "Não deitar lixo" numa placa enxuta e com letras de imprensa. Então mas que raio de coisa era esta tal Metrópole, afinal? "Não bazar o entulho"? Aquilo soava-me a muita miséria, a muita ignorância, a demasiada consonância com a paisagem em redor.
Depois, quando chegámos à casa de campo, não era nenhuma casa de campo. Era uma casita no meio de uma aldeia, com cinco assoalhadas, duas em baixo e três em cima, geminada com outra. O campo estava em volta da aldeia, não estava ali. A estrada passava mesmo em frente ao pequeno quintal. Eu imaginara, claro, uma casa de campo na acepção africana, uma mansão opulenta, com piscina, muitas árvores, court de ténis, que sei eu! Uma coisa à escala africana. Até hoje se mantém o meu desfazamento de escala. Chamam quinta ao que eu chamaria pequeno jardim. Exclamam com orgulho: "É grande, não é?" E eu penso: "Isto?" As palavras são as mesmas, o significado difere.
E o tal campo, era só pinhal! Uma estrada a dividir um pinhal. Os pinheiros não são árvores muito excitantes para alguém que as dividia segundo o critério de "serem boas para subir" ou "não serem boas para subir". O chão era terra, pinhas e agulhas de pinheiro, uma monotonia até ao mar.
A aldeia tinha casas brancas e pequenas e velhas de preto na soleira das portas. Pareciam bruxas e nunca me passaria pela cabeça dirigir-lhes palavra, mas a minha irmã era uma comunicadora nata e em breve pôs as velhas de conversa. Pergunta resposta pergunta resposta, a minha irmã num ápice despejou a versão dela da nossa vida toda no largo da aldeia. Eu preferia brincar. Sonhava brincar na tal casa de campo que afinal era aquilo.
Tive outro trauma linguístico pouco tempo depois. Em plena paragem de autocarros do Campo Pequeno. Vi aproximar-se um autocarro verde de dois andares, como o eram nos idos de setenta, e pude ler distintamente o seu letreiro: "Picheleira". Oh, meu Deus! Oh, meu Deus! Picheleira! Picheleira? Seria possível? Não tinha recuperado do choque, quando novo autocarro se aproximou e os meus olhos incrédulos distinguiram: "Galinheiras". Galinheiras? Galinheiras? Ó meu Deus, mas que assustadora terra era aquela cujos autocarros rumavam a tais lugares, às Galinheiras e à Picheleira? Que horríveis não seriam para conseguirem suportar tais nomes? Que país era aquele para onde me haviam trazido? Que profundamente contrário a tudo quanto eu fora. Naquele cair de tarde, olhei os portugueses a meu lado à espera de autocarro. Eram estrangeiros, até na sua língua me eram estrangeiros. Gente assustadora que se ia enterrar em sítios chamados Picheleira, chamados Galinheiras.


Quando entrei para o liceu, tinha colegas cujos pais, nas férias, iam "para a terra". A expressão, usada com muita frequência, causava-me viva estranheza. Se ao menos dissessem "para uma terra chamada..." ou "para a terra deles", eu compreenderia. Mas assim, "para a terra", que raio, o que é que queriam dizer com aquilo? Então não estávamos todos na Terra? Até parecia que os pais deles eram alguns extra-terrestres! Lá em Angola, estavam todos na Terra e na sua terra. Se fossem algures, pois iam para Luanda, ou para Moçâmedes, ou para a Metrópole. Para a terra, só se fosse para debaixo dela. "Ir para a terra" soava a muito mau agouro, mas os pais daquela gente passavam a vida a ir para a terra.
Outra que me matava era a do "lugar". Havia miúdos cujos pais possuíam ou trabalhavam num "lugar". Mas como seria possível não trabalharem num lugar? E diziam: "Vou ao lugar comprar batatas fritas Pala-pála." Durante muito tempo estes "lugares" permaneceram altamente enigmáticos para mim. Demorou bastante até descobrir que se tratava de pequenas mercearias.
Além do que, os portugueses chamavam camionetas aos autocarros ou machimbombos (deformação do inglês machine boom boom); e malas às carteiras e pastas de livros; e frigorífico à geleira; e gelados aos sorvetes; e comer à comida; e hospedeiras de bordo às aeromoças; e "ténis" aos kedds; e pastilha elástica ao chuínga, deformação do termo inglês; e pensos rápidos às curitas; e amendoim à ginguba; e pequeno-almoço ao mata-bicho; e batata-doce ao cará. Usavam palavras esquisitas como charneca e azinhaga e abalar e o dito entulho. E expressões ainda mais esquisitas como "estou deserta para ir à praia" em vez de "estou ansiosa..." e "faz-me espécie" em vez de "faz-me impressão". Nas aldeias, tratavam por "canalha" a miudagem. E os verbos, que desacerto, coisas que arranhavam os ouvidos, há-des, puzi-o, fizi-o. Então estes é que eram os portugueses mais portugueses?
E em Portugal havia peros e peras, pêssegos e alperces e mosquitos e melgas. Em Angola só havia peras, pêssegos e mosquitos. Por outro lado, eu dizia, por exemplo, "sobe nas minhas kakundas" em vez de "sobe para as minhas costas" e "Que kambuta!" em vez de "Que baixinho!", "Estás com tchimpululo!" em vez de "Estás com inveja!". De vez em quando, gramaticava à preto, afirmando que "sonhara no" em vez de "sonhara com o" e pedindo "Jura com Deus!" em vez de "Jura por Deus!". Enfim, metia-me em becos comunicacionais sem saída porque os miúdos de cá não entendiam o que eu estava a dizer.


Em Lisboa, íamos ao IARN que ficava ao lado do Museu de Arte Antiga. Estava sempre cheio de retornados a fazer bichas para receberem subsídios. Retornados exaltados, discutindo política, amaldiçoando os políticos. Descíamos aquela escadaria cruzada que vai dar à 24 de Julho. Um dia fomos ao Cais da Rocha, que se assemelhava então a uma cidadela de caixotes. Vagueando pelas suas ruelas, líamos os endereços inscritos nos caixotes, descobrindo alguns nomes de gente conhecida. E, a meio de uma dessas ruelas - ei-lo! -, um pequeno saco da TAP, sem endereço algum, que continha todas as nossas fotografias de infância. Chegara. Muitos caixotes nunca haveriam de chegar. A Sara e os irmãos ficaram sem qualquer foto de infância. Passados sem registo material.


No dia 11 de Novembro de 1975, claro que eu sabia, havia muitos meses, que nessa data Angola se tornaria um país independente. Mas só mais tarde, seriam dias, um mês, meses mais tarde?, ouvi comentar-se a independência de Angola em casa da tia Alba Constança.
- Nós seguimos aqui a cerimónia da independência, pela televisão. Foi muito bonita. E tenho de confessar que me comovi um bocado quando vi aquela bandeira de Portugal a baixar! Aquela bandeira de Portugal a baixar! Ai, foi muito comovente! Concordamos com a independência - mas aquela bandeira a baixar! São coisas muito fortes!
- A 11 de Novembro! - informei eu, para o caso de eles não se lembrarem. Estava surpreendida por terem dado na televisão a independência de Angola. Não imaginava que fosse o género de coisa que aparecesse na televisão. Eu não entendia nada de televisão. Tive o privilégio de uma infância sem televisão. Em Angola não havia televisão. Em Portugal havia e os miúdos andavam sempre a falar do Vicky, da Heidi, do Marco. Eu detestava tais animações.
- Foi muito comovente! - continuou a tia Alba. - Digam lá o que disserem, foi muito comovente! Ver a bandeira de Portugal a descer e a de Angola a subir!
A bandeira de Angola foi uma desilusão. Aquelas complicações amarelas no centro não se comparavam à eficácia simples da estrela. Adorava aquela bandeira. Estava entre as melhores, quase tão boa como a da Arábia Saudita, a do Nepal e a do Butão. A bandeira do MPLA e o grito da UNITA: Kuatchá África! Kuatchá Angola! Kuatchá UNITA!

11 de Novembro de 1975: independência de Angola.

Mas não me importava muito. Nem não ter visto a cerimónia de independência na televisão me provocou mais do que uma vaga pena. Aquele novo país, com uma bandeira nova e um hino novo já me não dizia muito respeito. E, no entanto, só abandonara Angola havia pouco mais de um mês. Já só contava o Otelo, o Fabião, o Diniz de Almeida, o Vítor Alves. PCP. PS. AD. UDP. Estes nomes e siglas é que ocupavam agora as nossas vozes e o nosso pensamento. Um barbudo de olhos enormes aparece na televisão a arengar e depois atrapalha-se, olha para os lados, diz coisas como o que é que se passa, mas o que é que se passa. 25 de Novembro. Era o Duran Clemente. Avionetas militares cruzam os céus de Lisboa. General Costa Gomes. Eanes. Pinheiro de Azevedo.



Otelo e Vasco Gonçalves

Vagueava pelas ruas de Lisboa, desde a minha escola no Bairro Azul. Com os meus colegas retornados, temporariamente instalados de graça no Hotel Ritz, passava pelo Tribunal, íamos até Campolide, Amoreiras, Artilharia Um, Travessa da Légua da Póvoa. Comprávamos castanhas no inverno. E pevides e tremoços a velhinhas pobres de negro que os vendiam em bancazinhas minúsculas por toda a Lisboa. Com os colegas de Lisboa, o Gigante, o Gadelhas, o Barata, o João Luís, o Sputnik Chuáck, escorregava por um barranco abaixo em perigo de derrocada, descíamos até à Praça de Espanha e íamos visitar o Museu Gulbenkian. Avenida Elias Garcia, Avenida Cinco de Outubro. Pendurávamo-nos nos eléctricos, atirávamo-nos deles em andamento e subíamos a correr as escadas rolantes do Metro que desciam. Uma vida lisboeta. Com o Sputnik Chuáck ia até à Avenida da Liberdade, à Feira do Livro, a comícios e manifestações. Schweppes, Sumol, gelados Olá. O Crispy, o Super-Maxi, o Epá. Chocolate Toffee Crisp. Água de Carvalhelhos. Muito vadeei eu por Lisboa nesse primeiro ano. O meu pai estava em Angola, a minha irmã andava noutra escola, a minha mãe nem sei onde andava. Diz que andava nas bichas do IARN, a tratar de papelada, a recomeçar a vida num novo país, a comer ao almoço um cacho de uvas.




Manifestação
Morávamos em casa alheia. Mandaram-nos embora ao fim de um ano. Enfiámo-nos então na casa de aldeia, a tal casa de aldeia que me haviam mostrado à chegada. Por fim, arranjou-se um apartamento em Alvalade, já eu tinha treze anos. Os meus pais, com quase cinco décadas de vida, recomeçaram do zero. À procura de casa. À procura de emprego. A nossa casa era um acampamento cigano. Bem longe da vivenda da Laje. Colchões no chão. O guarda-fatos, uma corda atada ao longo de uma parede. Pilhas de malas faziam de móveis. Eu e a minha irmã escorregávamos pelo corrimão das escadas abaixo ou equilibrávamo-nos sobre o parapeito da varanda. Os rostos das vizinhas assomavam às janelas. Nunca tinham visto nada assim. Crianças retornadas! Macacos de África! Hard times.

Chacóia


Brincava eu na vivenda da Laje, na garagem penumbrosa, quando senti alguém aproximar-se. Rodei a cabeça na direcção da porta. Vi o vulto negro de um gafanhoto gigante, todo braços e pernas recortado em contraluz. Fui tomada por uma vaga de terror. No segundo seguinte, reconheci a Chacóia, mas já era tarde demais. O pavor deu-me ousadia e atirei-me a ela aos socos e pontapés, gritando-lhe vai-te embora! Tu não podes entrar aqui! Devia ser muito pequena, porque toda a minha violência não sortiu efeito algum. A Chacóia olhava-me a rir, perguntava pela minha avó. Por fim, virou-se, saíu da garagem e deixou-me na porta a vê-la afastar-se de costas.
Eu não gostava daquela mulher.

Era incapaz de entender a razão do clima amistoso que reinava em volta da Chacóia. Parecia um louva-a-Deus, muito alta e magra, com dentes protuberantes. Tinha no riso a malícia do vício, um riso que diz: "Pedem-me para deixar o vício mas desconhecem as alturas sublimes a que ele conduz!". A sobranceria na servidão.
Aparecia enrolada nos seus panos nativos. A minha avó, a minha mãe davam-lhe vestidos, mas a Chacóia não os queria. Porque havia ela de andar ataviada com as roupas dos brancos? Porque pensavam os brancos que as suas roupas eram melhores? Provavelmente preferia os seus panos. Mas sobretudo vendia os vestidos para ter dinheiro para a pinga. A pinga era a sua perdição. Era uma grande bêbeda. Fazia tudo por um copinho.
A Chacóia aparecia enrolada nos seus panos, por vezes com um bebé minúsculo sumido nos ramos nus e longos dos seus braços. Com a indiferença e ausência de esforço com que se transportam panos da louça. Criaturas subnutridas, engelhadas, às portas da morte, que seriam enterradas pouco depois. Era demasiado bêbeda para conseguir criar os filhos que breve desapareciam da face da Terra. Mas, naquele tempo, ninguém tomava isso como assassínio. Quando a minha avó dava um pedaço de pão à bebé, ela arrancava-o e engolia-o ela. "Criança não quer! Criança não gosta! Criança já comeu!"
Algo nela me perturbava, talvez os filhos para a morte, o seu riso ébrio, talvez a vida enigmática, as suas perdas de consciência nas valas à beira dos caminhos, as roupas rasgadas, as tareias que levava.


Duas décadas volvidas, perguntei bruscamente:
- A Chacóia era uma puta, não era?
Com a certeza absoluta da resposta, como se sempre a tivesse conhecido. A minha mãe olhou-me com espanto. Não tanto pela pergunta mas pela palavra prestes a sair-lhe da boca:
- Era! - e, por o enunciar, foi como se o tivesse descoberto naquele preciso momento. A sua amiga de infância, a nossa mais assídua visita gentia, a estimada Chacóia, só naquele momento foi vista de um ângulo até aí obnubilado. Porque não era aquilo que importava na Chacóia. Nunca o fora.
A Chacóia era uma puta bêbeda, mas a amizade que lhe tinham na minha família impedira que vez alguma tivesse ficado reduzida à sua profissão. Nunca ninguém a descrevera assim. Só eu, durante mais de duas dezenas de anos, guardara essa suspeita nebulosamente, recondidamente, sem nunca até então chegar ao estado da formulação verbal. O eco de certos conselhos da minha avó em conversa com ela - "Fica só com um! Só com um, estás a ouvir? Arranja um homem bom!" -, a malícia no riso da Chacóia em resposta, haviam-se inscrito em mim, eram um desses milhares de trilhos que nos compõem. Nunca o seguira até àquele súbito dia e descobri que desembocava numa constatação: a de que a Chacóia era uma puta. Foi o que eu vi ao fundo do trilho, no manuscrito que só então desenrolei.
A partir desse dia, a frase "era uma puta" pôde ser dita, mas pôde ser dita por um acto de profanação. Profanação de uma amizade que vinha de muito longe.


De Chacóia conhecia-se os pais: foi a única filha serôdia de Sekulo (velho) e de Luzia, empregados do meu bisavô. Em criança foi trabalhar como criada para a Quinta da Liberdade. Como era da idade dos meus tios tornou-se mais uma companheira de brincadeiras. Adoptou-os como seus irmãos brancos. Chacóia era meiga e alegre, muito alegre, nada a conseguia aborrecer. Andava sempre a rir. Brincalhona e divertida, ralhete algum conseguia abalar a sua boa índole. Toda a gente gostava dela.
As suas irmãs brancas resolveram ensiná-la a ler. Deram-lhe um nome bem português: Maria Amélia. Mas ler não era com ela. Maria Amélia nunca aprenderia a ler. Ficou para sempre Chacóia.
Quando Chacóia era adolescente, o meu avô ficou gravemente doente durante três anos antes de morrer, de uma doença estranha e sem nome. Quando uma crise o atacava, a pequena Chacóia largava a correr para ir chamar o médico que morava longe. Largava a correr com as suas longas pernas debaixo da maior chuvada, chuvada africana, dez mil cascatas caindo do alto. Outras vezes, Chacóia galgava a inteira noite escura, sem parar um momento, descalça pelo mato. Se já gostava dela, a minha avó passou ainda a gostar mais.
Aos quinze anos da vida de Chacóia, deu-se um acontecimento que iria imprimir um rumo decisivo na sua vida. Durante três dias desapareceu com uma amiga ligeiramente mais velha. Quando regressou, tinha descoberto os homens. Nunca mais os largaria. As desaparições tornaram-se frequentes.


Chacóia em criança: na ponta direita, atrás da árvore (é óbvio que não foi convidada para a fotografia). Em primeiro plano, a minha mãe, uma amiga e uma irmã. 1939.


Quando a minha mãe regressou a Angola, depois de se formar e viver em Portugal, quis a Chacóia como criada. Quis também, diz ela, idealista sem cura, moldá-la num ser pensante. Chacóia: um ser pensante!
Para moldá-la num ser pensante trocou todas as regras. Nunca ninguém dava salário à Chacóia, conhecendo o seu fim mais do que certo: transformação miraculosa em vinho. Mas a minha mãe insistia em fazer dela uma criatura responsável. Pagava-lhe no fim do mês. Enquanto não bebia era uma criada de excepção. Uma criada que garantia que não tornaria a beber. A minha mãe acreditava, claro. Mas era demais para a Chacóia. Mal se apanhava com a féria, ala com ela, desaparecia durante dias com todos os vestidos que a minha mãe lhe dava. Que a Chacóia andava linda, calçando sapatos e tudo! Ataviada nas belas roupas que a tia Tágide Dione e a tia Miosótis Dulce carinhosamente haviam confeccionado para a irmã.
Tia Miosótis erguia aos céus olhos escandalizados:
- Oh! Quando eu vi uma sombra negra com aquela blusa encarnada!... Aquela blusa encarnada! Tu foste dar aquela blusa!
Por esse tempo tinha Chacóia um homem, um homem apaixonado. Todos os dias vinha buscá-la, o homem, ficava à espera no portão do meu quintal. Chacóia não lhe ligava, não queria ir com ele. Fazia-o esperar. Fazia-o esperar muito tempo, para que ele desistisse e fosse embora. Ele, porém, esperava por ela, esperava sempre. Chacóia tão linda, Chacóia com seus vestidos, os vestidos de Chacóia punham-lhe a cabeça à roda:
- Chacóia - boniiita!
Chacóia troçava dele, que ele gostava dela mas ela não. Tinha fraquinho por mulume (homem) branco. Era vista a rondar o quartel, cheio de filhos da Metrópole enviados para a Guerra Colonial. Tropas, camionistas, Chacóia preferia mulume branco.
Quando fomos embora e o meu pai ficou, tomou-a outra vez como criada. "A melhor criada do mundo!", exclamava ele. Toda a gente achava graça a Chacóia.
Toda a gente menos eu.


Quando nos fomos embora, ela veio despedir-se. Chorou, chorou muito, tão triste, tão triste, Chacóia atirou-se ao chão:
- Nunca mais vou ver! Nunca mais vou ver! As minha irmãs branca!
Sabia que ficava só. Eram toda a sua família. Mas essa família pertencia, de algum modo, um modo perverso e longínquo, inscrito na cor da pele, a outro continente, embora tivessem todos nascido no velho solo africano e alimentado-se dele para crescer.
Apenas a tia Estela Marinha regressaria ao Lubango. Tornou-se no amparo de Chacóia, já muito doente, com hemoptises, mas sempre bêbeda, sempre nas valas. A minha mãe escrevia-lhe, a ela, que nunca aprendera a ler e as cartas eram a sua maior alegria. Teve uma morte terrível. Só, à beira da moribunda, a sua irmã branca, a tia Estela Marinha.


A última fotografia de Chacóia, já doente no Hospital. Pedia que "as suas meninas e os seus meninos" - referindo-se aos meus tios e tias em Portugal - lhe enviassem "um casaco cor de vinho".


Kissongo

Kissongo também chorara:
- Ficamo sozinho! Os branco estão nos abandonar!
Kissongo tão triste.
Da idade das mais velhas, Kissongo fora amiga de juventude da tia Lusitana Liberdade. Kissongo era então muito elegante, possuía linda voz, voz de fada negra, muito dada a pedinchar:
- Lusitana, tenho fome! Dá-me pão! Então não puseste nada no pão? Põe conduto no pão! Lusitana, dá-me muxinha p'ra cutunga (linha para coser)! Olha o meu pano, está roto! Dá-me muxinha p'ra cutunga!


Kissongo casou com Lupito.
- Eu não gosto do Lupito, de noite não presta!
- Mas ele é tão bom! - contrapunha a minha avó, contrapunha toda a gente.
- Sim, é bom. De dia é bom, mas de noite não presta!
Lupito, esse, amava Kissongo. Mesmo ela não o querendo, não queria ele outra mulher.
O casamento durou. Sempre os conheci já muito velhinhos e curvados, Kissongo sem sombra da beleza de outrora. Visitavam-nos por vezes, devagarinho e sorrindo, vindos das suas cubatas, magrinhos, só com o seu tchinkuáni dependurado à cintura. Kissongo mais rebiteza, o Lupito muito doce. Para mim eram só dois velhinhos gentios, de que muito gostava. Fazíamos uma festa ao vê-los chegar, mas percebia que havia todo um passado partilhado entre a minha avó e eles, entre a minha mãe e eles. Uma amizade velha e fácil, da qual eu não fizera parte, que pertencia a um tempo outro da cidade do Lubango.


Lupito morava sozinho numa cubata da Quinta da Liberdade. Kissongo vivia na serra. De vez em quando, visitava o marido, fazia-lhe o favor. Lupito vivia sozinho, não queria outra mulher. Um dia entrei na sua cubata. Um pequenino espaço circular, sombrio, um leve cheiro a katinga, com umas cabaças pelo chão térreo que não faziam senão acentuar a nudez geral. Um pequenino espaço circular e todo um mundo de diferença.



Muílas e sua cubata. Anos 60.
Kaindangongo


Kaindangongo tinha três, depois quatro, cinco anos. Era sobrinha de Kissongo. Também vivia na serra. Quando ia à cidade trocar coisas, Kissongo deixava Kaindangongo na Quinta da Liberdade. Tão linda, Kaindangongo. Com trancinhas. De tchinkuáni e colares de missangas. Tão esperta, Kaindangongo. Kissongo dizia era mais esperta do que podiam imaginar. Que Kaindangongo só falava olunyaneka. Descia a serra sempre a falar com as árvores, a falar olunyaneka. Quando a deixavam na Quinta da Liberdade, os miúdos pegavam nela, davam-lhe banho, vestiam-na à moda das crianças brancas. Tão linda, Kaindangongo. Quando eu nasci, Kaindangongo já não existia sobre a Terra. Morreu muito nova. Kaindangongo para sempre criança. Durante mais de seis décadas sempre criança na memória do punhado de brancos que brincou com ela nos anos trinta do século passado. Kaindangongo tão linda a falar com as árvores.

Menina muíla

O Chuva


Tio Júpiter tinha um moleque chamado Chuva. E tinha uma bicicleta sem licença. Quando estava na tropa, o tio Júpiter não comia ração como os recrutas negros. Era-lhe trazida diariamente uma merenda pelo Chuva. Júpiter não o sabia, mas o Chuva costumava ir ao quartel levar-lhe a merenda todo impante montado na bicicleta do patrão. Certo dia, a Polícia apanhou-o sem a licença. E apreendeu-lhe a bicicleta. Por mais que o Chuva protestasse que a bicicleta não lhe pertencia, a Polícia não se demoveu. Bicicleta sem licença tinha de ser apreendida. Quando Júpiter teve folga e voltou à quinta, descobriu que a bicicleta desaparecera. O Chuva meteu os pés pelas mãos. Júpiter vociferou: "Não quero saber de desculpas! Quero a minha bicicleta! Arranjaste o sarilho, agora desenvencilha-te! Paga a bicicleta! Só sei que a quero de volta!"
Chuva desesperou. Tanto que lhe veio uma dessas ideias ditas luminosas, que disparam faíscas no meio da escuridão mais profunda. Dirigiu-se ao posto da Polícia e ordenou:
- O Sô Comandante do quartel manda buscar a sua "biscreta"!
Escutando tal, e para alívio do bom do Chuva, os polícias afligiram-se:
- Eh, pá! Por que é que não disseste logo que o teu patrão era o Comandante do quartel?
Em suma, devolveram-lhe a bicicleta.

Certo dia, o Chuva comprou um par de sapatos ténis brancos, sapatos ténis branquinhos. Passaram a ser toda a sua vaidade.
- Meus sapato branquinho! - exclamava amiúde, com deleite, olhando o alvo par de ténis.
Mal se sujaram um pouco, porém, o Chuva precipitou-se a dar-lhes um valente banho. Previsível - não para o Chuva - resultado, os sapatos encolheram. Deixaram de todo de lhe servir. O tio Júpiter surpreendeu-o precisamente no momento em que fazia uma força danada para os enfiar nos pés.
- Ai, os meu sapato branquinho! - gemia o Chuva.
O tio Júpiter perguntou-lhe:
- Então não vês que não te servem mesmo? O melhor que tens a fazer é cortar a parte da frente, de modo a deixar os dedos de fora! Não tens outro remédio!
- Cortar meus sapato branquinho? - protestou o Chuva, quase em pranto - Não quer! Aiuê, meus sapato branquinho!
Júpiter atirou então, com deleite antecipado:
- A menos que os teus pés encolham!
Chuva ficou então como que petreficado:
- Êh! É, patrão? Meus pé pode encolher mêmo?
Tio Júpiter nada respondeu e afastou-se.
À noite, o Chuva desencantou uma liga e, com toda a determinação da esperança, enfaixou os pés. Bem apertadinhos para poderem caber nos sapatos ténis. Nessa noite, sofrendo de dores terríveis, não conseguiu dormir. Mas tamanha causa merecia tal sacrifício.
No dia seguinte, os sapatos ténis, branquinhos, elegantes, pareciam irremediavelmente mais longe dos pobres pés inchadíssimos daquela alma devassada.



Tio Sereno Lusitano, tio Júpiter Lusitano e tio Léon Lusitano. Lubango, anos 50.

O Pintaças

No tempo em que Kaindangongo falava com as árvores, contam os meus tios que lá no Lubango havia o Pintaças. O Pintaças gostava de se embebedar com os seus compinchas no Carnaval - e fora dele - e causava distúrbios na ordem pública. Num desses carnavais, um polícia abordou-o:
- Queira acompanhar-me!
E Pintaças, que dedilhava uma guitarra, perguntou:
- Em que tom?


Um dia, foi ao matadouro e trouxe de lá uma braçada de chifres. Com o seu peculiar carregamento, começou a andar pela cidade de casa em casa, gritando:
- Quem quer chifres?
Ninguém respondia. Ninguém queria chifres. E ele então volvia com voz ainda mais sonora:
- Olha, estes já têm!
A Polícia acabou por o prender. Naqueles tempos, a Polícia tinha pouco que fazer. No dia seguinte, digerida a bebedeira, ao sair da cela, os chifres foram deixados para trás. Um polícia de guarda disse-lhe:
- Leve os chifres.
Resposta do Pintaças:
- Olhe, eu não os quero. Fique o senhor polícia com eles!


Na Estação Zoológica, Pintaças pintou um mural com uma cena da selva, completa com um enorme leão preso a uma árvore por uma corrente de ferro. O director da Estação indignou-se:
- Então você faz-me o leão preso com uma corrente? Que jeito tem isso?
No dia seguinte, do mural desaparecera o leão.
O director voltou à carga:
- Então que é do leão, homem?
Resposta do Pintaças:
- Você não queria a corrente, não era? Então, de que é que estava à espera? O leão fugiu!
Isto que se passou no Lubango, no Planalto da Huíla, no interior de África, é em tudo semelhante ao que se passa nas histórias dos pintores chineses que penetravam nas suas montanhas de tinta e cujos dragões largavam a voar do papel onde haviam sido pincelados.


Fotografias: de desconhecidos, da net e de vários membros da minha família.

2002
 http://demandadodragao.blogspot.pt/2006/03/memrias-malhas-que-o-imprio-tece.html

Odisseia dos retornados de Africa: a integração de funcionários do Estado português retornados das colónias e outros aspectos relacionados com o retorno...


A Odisseia dos espoliados

Chegamos à Beira Alta em 18 de Outubro de 1975, sempre a cair uma chuva miudinha e a preparar-se um Inverno rigoroso. Nunca tive tanto frio na minha vida. Ficamos na casa dos meus sogros que tinham vindo mais cedo para Portugal. O meu sogro era reformado dos CFB.

Eu, com 29 anos de idade, com mulher e filha, tinha de começar tudo do ponto zero, pois tudo o que tínhamos ficou em Angola. Ainda consegui embarcar, por um intermédio de um amigo camionista que transportou os caixotes e o meu carro para o Lobito, os meus livros e alguma loiça e roupa em três malas de porão. O carro ficou por lá. Os caixotes chegaram bem. Fui despachá-los na gare ferroviária de Alcântara para a Beira Alta. Por precaução envolvi as malas de porão com cintas metálicas. Mas isso despertou a cobiça dos portugueses que detestavam os retornados. As malas chegaram ao destino todas rebentadas, sem as cintas e as tampas fora dos gonzos e os pratos e copos todos partidos. Quer dizer: as malas aguentaram perfeitamente o embarque no Lobito e viagem de barco e descarga em Lisboa, em péssimas condições, como devem saber. Ali, no porto de Lisboa, largavam os caixotes dos retornados muito antes de chegarem ao solo para se estilhaçarem com o embate no solo. Pois, os meus chegaram bem. Assisti à carga das malas na carruagem do comboio e se chegaram todas rebentadas à Guarda é porque alguém as arrombou pelo caminho e como não havia nada de valor partiram tudo.

Ia periodicamente a Lisboa, ao IARN, mandavam-me para o QGA e ia ao QGA que me mandavam para o IARN. Valeu-me uma assistente social (do IARN) que compreendeu a situação e me foi assegurando o subsídio que davam aos retornados trimestralmente, porque se desse de frente com outro qualquer funcionário do IARN já não tinha a mesma sorte. Mandavam-me para o Adidos. Era o Portugal daquele tempo. Mantinha também os contactos com os colegas e técnicos superiores da Chianga que já estavam colocados, na maioria, na Estação Agronómica de Oeiras e procuravam montar mais algumas estruturas de apoio, contando com os profissionais desocupados. Portanto a minha situação mantinha-se suspensa.

Enquanto esperava que o governo decidisse que os funcionários assalariados ingressassem no QGA (e acabassem com aquela situação equívoca em que andávamos dos IARN para o QGA e vice-versa, sem ninguém querer responsabilizar-se pela distribuição da ajuda a que tínhamos direito, como todos os retornados e muitos não retornados que passaram por retornados para receberem essa ajuda) completei um ensaio filosófico que escrevi em Nova Lisboa, cuja edição achei demasiado incompleta, e acabei o Curso de Psicologia. Fui a Lisboa fazer o exame final e o seminário (aulas práticas em dois dias) para receber o respectivo Diploma e, consequentemente, poder optar por outra via profissional se necessário. Ainda fui Delegado do Centro Médico de Psicologia e Orientação Profissional de Lisboa, mas naquele tempo a Psicologia não rendia o suficiente, nem o país estava habituado a recorrer a exames psicotécnicos e de orientação profissional.

Fiz alguns exames de Orientação Profissional a particulares, para praticar (género estágio assistido) sempre com o apoio e interpretação final do Centro Médico, até ser lançado por conta própria, mas essa actividade não era nada rentável neste país tão atrasado na altura. Também entrei em contacto com a prática da agricultura, pois de Novembro de 1975 a Setembro de 1976 não me furtei a ajudar na lida do campo, desde a apanha da azeitona, seu retalho para consumo interno e acompanhamento no lagar ao fazer o azeite até à vindima e feitura do primeiro vinho e aguardente com a minha ajuda directa. O corte da lenha para a lareira ficou inteiramente por minha conta. Fiquei exímio no machado, cunha e marreta, pois não dispunha de serras eléctricas ou motorizadas. Era tudo à "unha". Além disso, como o meu sogro era o Presidente da Junta de Freguesia, ajudei-o no expediente. Como tinha máquina de escrever, todos os documentos passaram a ser dactilografados e com um aspecto mais "burocrático" e funcional.

Ruca


Todos nós fomos prejudicados e tivemos de recorrer a vários artifícios para podermos singrar na vida, e o principal foi esconder a nossa condição de retornados e mantermo-nos impertubáveis quando falavam "cobras e lagartos" a nosso respeito. O tempo acabaria por lhes abrir os olhos... como abriram, mudando aos poucos o que pensavam dos retornados.

Continuando....

Só ao fim de oito meses, ainda sem terem resolvido a situação dos funcionários assalariados, é que, por intermédio do Sindicato dos Profissionais de Artes Gráficas, onde me inscrevi quando estive em Lisboa, consegui emprego à experiência.

Consegui emprego como Oficial Montador de Offset numa empresa Gráfica de Lisboa, à experiência por uma semana, para exercer as funções do antigo Chefe de Secção que estava agora a trabalhar no Sindicato.

Como era necessário experiência numa profissão qualquer para conseguir emprego, precisava de conseguir, muito rapidamente, a Carteira Profissional de Artes Gráficas, documento necessário para progredir na profissão e conseguir emprego no país. Funcionário público não dava condições para conseguir emprego na actividade particular. Tinha de ter uma profissão concreta. Mediante as provas apresentadas, certificado de habilitações literárias e requisição de uma empresa de Artes Gráficas para exercer funções como Oficial Montador de Offset, foi-me facultada a referida Carteira Profissional.

Ao fim da semana de experiência fiquei com contrato a seis meses. Depois de dois meses ofereceram-me o lugar de Chefe da Secção de Fotolito e Montagem, que eu neguei. O ambiente revolucionário naquele tempo, 1976, não era propício para assumir aquele lugar de grande responsabilidade sem poder nenhum, nem autonomia.

Ao fim de quatro meses fui chamado à administração e informaram-me que ficaria no Quadro definitivo da empresa e ofereceram-me o lugar de Director Técnico, tendo em conta o meu curriculum, que tinha apresentado, as habilitações académicas e a postura que observaram no meu comportamento profissional e social. Naquele tempo, era raro encontrar um profissional de artes gráficas com o antigo 7º ano dos Liceus e um Curso técnico de psicologia. Normalmente eram profissionais que aprenderam observando os operários mais antigos, e só com a antiga quarta classe como habilitações.

O problema, de início, foi encontrar um local para viver. Graças a um familiar da minha mulher, emprestaram-nos uma casa até eu conseguir arranjar habitação. O dono dessa casa, fê-lo por consideração a esse familiar da minha mulher que tinha, e tem, uma alta posição na sociedade portuguesa, mas, talvez por desconfiança e medo que desviássemos alguma coisa, apareciam de improviso e a qualquer hora do dia apenas para dar "uma vista de olhos".

Era difícil conseguir casa (havia casas vagas) e só o consegui porque quem passou a contactar os possíveis senhorios passou a ser a secretária da direcção onde eu prestava serviço e a alugou, em meu nome, com o aval da administração que serviu como fiador.

Mais tarde, o procurador da vivenda (o senhorio é um emigrante), numa conversa connosco, vangloriava-se que tinha feito uma selecção muito rigorosa na escolha dos inquilinos, impedindo, principalmente, o aluguer a "retornados".

Mal sabia ele que eu era um retornado. Mais tarde disse-lho na cara, mas não se desmanchou.

Ruca
(...)

continuando....

Essa Litografia, onde trabalhei, pertencia a uma holding que, além de uma empresa de material industrial pesado geria mais cinco empresas, todas de Artes gráficas, sendo uma especializada em impressão em chapa e quatro em papel, duas no Porto, uma em Setúbal, uma em Santa Iria de Azóia e uma em Lisboa.

Só esta Litografia tinha cerca de 40 operários distribuídos pelas três Secções principais, Fotolito, Impressão e Acabamentos, mais cerca de 20 empregados distribuídos pela portaria, secretaria, armazéns, cozinha e refeitório, limpeza e vendedores. Ficariam todos sob a minha alçada directa, bem como os orçamentos e estabelecimento dos preços dos trabalhos a executar.

A Administração (a da holding, que tinha a sede precisamente na Litografia onde eu prestava serviço) providenciava apenas os recursos que eu solicitasse para a produção.

Como era um cargo executivo e com autonomia suficiente para desenvolver algum trabalho meu, com ideias minhas e coordenação livre de intromissões, aceitei o lugar.

Para terem uma ideia das dificuldades daquele tempo. Aquela empresa, quando foi o 25 de Abril entrou em grandes convulsões e os operários mais politizados, resolveram "correr" com a administração e ficaram a funcionar em colectivo. Resultado: não conseguiram ganhar para os ordenados e afundavam-se cada vez mais, sem ninguém com capacidade para a gerir. Quando "descobriram" que a política não era uma forma de sustento, pois tinham família para sustentar e contas para pagar, acabaram por "aceitar" o regresso dos patrões, pois é mais cómodo chegar ao fim do mês e receber um ordenado sem terem responsabilidades. O problema, agora, eram as dívidas acumuladas. E como seria de prever, a administração não estava nada interessada em sustentar parasitas que tempos atrás os puseram na rua, havendo sempre aquele clima de desconfiança por um lado e de vingança pelo outro, estando eu no meio do "fogo cruzado".

Portanto, a recomendação que recebi logo no primeiro dia na Direcção foi que teríamos de produzir para pagar as despesas fixas e ordenados, porque senão corríamos o risco de ter que fechar as portas. Quanto às dívidas antigas, era problema deles (dentro da holding até calhava bem ter uma empresa deficitária. Os economistas sabem porquê). E assim foi. Enquanto lá estive ganhamos para esse objectivo.

Mas a Comissão de Trabalhadores foi sempre um espinho que não deixava introduzir algumas melhorias nos métodos de trabalho, pois estavam sempre de pé atrás e não havia aquele à vontade e confiança a que estávamos habituados em Angola.

Nem quero contar aqui os problemas, o stress constante, as dores de cabeça e costas, e tudo o mais porque passei com aquele "peso" encima. Nunca, na minha vida julguei encontrar pessoas daquele calibre e tão pouco amigos de trabalhar. Tinha de me impôr pelo conhecimento técnico e prático das coisas, mostrando, sem sombra de dúvidas, que sabia executar o trabalho que lhes estava a exigir. Se assim não fosse, surgiam toda a espécie de motivos e desculpas para a não execução, em tempo, de qualquer encomenda.

Queriam um "emprego" e não "trabalho". Eu era um "retornado", aquele "intruso" que caiu ali de pára-quedas e para mais a "mandar". Encontrei-me no meio do fogo cruzado entre empregados e administração. Por cada ordem de serviço que emitia, tinha a Comissão de Trabalhadores no meu gabinete a protestar, pois não conseguiam compreender que, para terem o salário ao fim do mês, tínhamos de ter o mínimo de disciplina laboral e trabalharmos. Nunca me esqueci que, apesar de deter um lugar de direcção, era um empregado como eles e procurei sempre defender os nossos direitos. Não podíamos estar constantemente em reuniões políticas que a nada levavam. Mas levei o barco a bom porto.

Depois de me despedir, a Administração ainda me propôs continuar com uma avença, indo lá apenas uma hora ao fim do dia para fazer os orçamentos e dar assistência técnica.

Aceitei por um ano apenas, pois surgiram outras oportunidades mais tentadoras e menos setressantes, apesar de tudo.

Soube, depois, que o Director técnico que me substituíu, mais exigente e mais burocrata e amigo de puxar pelos "galões", acabou por ser agredido na secção de impressão.

Há uma grande diferença entre o Chefe e o líder. O Chefe manda fazer, o Líder mostra como se faz.
Ruca

(...) Depois de ingressar novamente na Função Pública, por me terem indeferido o pedido de continuar a trabalhar na actividade privada enquanto aguardava colocação, fui chamado apressadamente para vários serviços. Devido ao Curso de Psicologia, e componente de Psicopedagogia, já no meu Curriculum, ainda fui chamado para um reformatório em Caxias em que um técnico de Artes Gráficas com as minhas habilitações e conhecimentos psicopedagógicos seriam o ideal para o ensino profissional naquele reformatório. Só que queriam trabalho especializado a ser remunerado pela categoria de operário que me "impuseram" no QGA, em que me baixaram cinco letras e, como seria lógico, não aceitei, assim como não aceitei outra colocação no Ministério da Educação que, na altura, estavam a formar equipas de psicologia encabeçadas por licenciados, auxiliados por técnicos de psicologia, como era o meu caso, mas a ser remunerado pela categoria que me atribuíram no QGA e não pelo trabalho que iria executar.

Enquanto não fosse reclassificado para uma carreira adequada às minhas habilitações e valia profissional recusei trabalhar naquelas condições.

Se os funcionários oriundos do ultramar tinham uma dada carreira, porque razão não os mantiveram na mesma categoria de origem (ou equiparada, se não houvesse tal categoria nos quadros do continente) mas atribuíam-lhes sim outra normalmente com letra mais baixa?

A confusão era tanta que muitos baixaram de categoria (e de letra consequentemente), mas continuaram a ganhar pela letra de origem, o que os prejudicou mais tarde quando foram feitas subidas de escalão nas categorias. Como ganhavam pela letra de origem, todos os funcionários de categoria inferior, ao serem beneficiados com a subida de letra, ficaram equiparados a eles, o que na prática só os prejudicou porque deveriam também subir o seu escalão remuneratório e isso não aconteceu. Ficaram pura e simplesmente "congelados" naquela posição até que a categoria que lhes foi atribuída chegou a ter a mesma remuneração da sua letra de origem. Uma autêntica vigarice.

Finalmente fui requisitado para a nova Direcção-Geral de Extensão Rural, que não existia em Portugal, sendo a experiência da Missão de Extensão Rural de Angola aproveitada para incrementar em Portugal a mesma filosofia. E os quadros e profissionais de Angola foram captados para aquele projecto, eu incluído para erguer o parque gráfico, ferramenta indispensável da Direcção de Serviços de Informação Agrária. Como era conhecido e antigo colaborador do recém-nomeado Director-Geral e confiando que seria reclassificado, aceitei o lugar.

Como sucedeu com a maioria dos funcionários "retornados", fui altamente prejudicado na minha carreira, em termos monetários e promoções, em que só ao fim de dez anos fui reclassificado para uma carreira técnica em função das habilitações e cargo exercido. A partir daí a progressão até foi rápida, mas com as mudanças recentes que o Estado português introduziu, numa clara má fé e desrespeito pelos contratos que fez com os seus funcionários, tirando-lhes as regalias que tornaram mais atraente o ingresso de profissionais na função pública, vi-me (com 42 anos de serviço, contando o serviço militar a dobrar) na necessidade de pedir a aposentação numa altura que ainda teria muito para dar, só para não ser mais penalizado do que fui.


Quando larguei a actividade particular, onde gozava de uma boa posição de chefia e possibilidades de singrar em qualquer das empresas daquela holding (que ainda laboram hoje), para ingressar novamente na função pública, indo ganhar menos, era porque as condições que o Estado Português, como entidade empregadora, oferecia para o futuro eram melhores, só que nunca pensei que esse mesmo Estado, ao fim de 25 anos, mudasse unilateralmente por completo essas condições contratadas, sem o mínimo de respeito e consideração.

Quer dizer: O Estado ofereceu determinadas condições de carreira para admitir empregados e quando esses empregados estão à beira da reforma, veio dizer-lhes "agora as condições oferecidas foram suprimidas. Vocês vão-se reformar com muito menos do que lhes prometemos, bem como já não terão as outras regalias e incentivos prometidos".

Estes empregados, estando eu incluído, nada puderam fazer a não ser aceitar passivamente esta imposição de força, porque se passou uma vida de trabalho e não há hipóteses de mudar ou iniciar por outro lado.

O Estado governado por estes novos políticos portugueses mostrou não ser uma pessoa de bem.

Ruca

______________________________________
NOTA – Este fio pretende deixar um documento singelo, agrupando todos os textos de interesse para se ter uma ideia aproximada do que foi o pós 25 de Abril e a verdadeira odisseia dos portugueses em fuga e toda a sua luta para começarem tudo de novo neste país que, no princípio, os recebeu como verdadeiros malfeitores. Todos podem dar a sua comparticipação, sem revelar nomes comprometedores, ou entrar em pormenores demasiadamente íntimos, porque o que interessa é saber o que se passou e não os nomes dos locais exactos, das pessoas ou das entidades envolvidas.

Continua...

ORIGEM

Acordo entre Angola e Portugal, Decreto nº. 3/89, Indemnização dos Bens Zairinizados

Decreto nº. 3/89 de 7 de Janeiro de 1989
01/01/2010
tags: Acordo entre Angola e Portugal, Decreto nº. 3/89, Indemnização dos Bens Zairinizados

Nos Termos da alínea c) do nº.1 do artigo 200º da Constituição, o Governo decreta o seguinte:

Artigo único. É aprovado, para ratificação, o Acordo entre a República Portuguesa e a República do Zaire Relativo à Indemnização dos Bens Zairinizados que pertenciam a Nacionais Portugueses, assinado em Kinshasa, em 5 de Fevereiro de 1988, cujos textos originais em francês e português, ambos fazendo igualmente fé, vão anexos ao presente decreto.

Visto e aprovado em Conselho de Ministros de 17 de Novembro de 1988. - Anibal António Cavaco Silva – Miguel José Ribeiro Cadilhe – João de Deus Rogado Salvador Pinheiro.

Ratificado em 22 de Dezembro de 1988.

Publique-se.

O Presidente da República, Mário Soares.

Referendado em 27 de Dezembro de 1988

O Primeiro-Ministro, Anibal António cavaco Silva.

Porque não um Acordo entre Angola e Portugal?


ORIGEM: in http://espoliado.wordpress.com/

Maria Bethânia - Volta por Cima. Uma homenagem a todos os retornados, enganados, espoliados, roubados...

sexta-feira, 17 de fevereiro de 2012

ANGOLA - Lobito-Recuerdos

terça-feira, 7 de fevereiro de 2012

A singular experiência dos portugueses na Angola colonial


  .


 Livro: O "colono simples" visto por um oficial na reserva
Bernardino Louro é o autor de "O Caçador de Brumas, por essa Vida Acima", o primeiro de uma trilogia em defesa do "colono simples"



  "Quando cheguei a Angola em principios de 1961 foi o deslumbramento: um novo mundo se abriu ante meus olhos. Para além da incerteza da guerra e todos os seus horrores encontrei a terra em plena pujança onde as pessoas eram encantadoras, solidárias e com elevado nível de vida. Bastava chegar para se fazerem amigos; amigos que nos receberam de braços abertos. Em Luanda, já uma belíssima cidade, sentia-se por toda a parte o cheiro do mar, o calor das gentes, a beleza escultural das mulheres angolanas, a vida muito barata e as pessoas muito generosas. Para exemplificar, a gasolina custava menos de três escudos o litro, por 2$50 comprava-se um cacho de bananas, comiam-se bifes e ovos estrelados ao pequeno almoço, a cerveja era baratíssima e nem era preciso dinheiro nos restaurantes e bares: passava-se um "vale" e ninguém ficava a dever.  Quando havia dinheiro pagavam-se as conta a trasadas e a vida seguia igual. Um alferes ganhava mais de seil mil escudos: um ordenadão! Esta regra, mantida entre os colonos durante anos, viria a acabar com a chegada maciça dos batalhões. Porém a minha maior surpresa foi a descoberta, vivida dia e noite, do que era o muceque. Tinhamos de patrulhar os diferentes bairros negros, sem luz e onde só havia água nos chafarizes públicos. Num emaranhado de ruas e cubatas encontramos gente sofrida, pacifica e simples, apavorada ante a onda crescente de racismo, que, como a mancha de óleo, se estendia oela cidade suburbana.. Com o passar do tempo as coisas foram acalmando e os rios de ódio secaram. Nos contactos do dia a dia, nas muitas noites passados juntos, estabeleceu-se a convivência, cresceram as cumplicidades e, naturalmente, formaram-se e desenvolverm-se amizades. Foi então o tempo de conhecer a nova cultura negra, descobrir sabores e compartilhar esperanças, na maior parte bem diferentes da missão militar que me tinha sido atribuida. Dou notícia desses tempos numa pequena crónica - do meu outro livrso "Escritas na Areia" - a que chamarei "D. Chica Cambuta". Anos mais tarde comandei uma companhia nas terras dos Luenas; aí tive o previlégio de conhecer a rainha Tchizanda; já velha, mas lúcida, proporcionou-me ter conhecimento dos hábitos e história do seu povo, barbaramente partido pela Conferância de Berlim, vos territórios de Angola e do então Congo Belga.

(...)


"...Penso que, talvez por tudo isto pertencer à História recente, nunca ninguém contou o que foi o viver das gentes simples, sem políticas, só com trabalho. Tentaram fazer das terras de Angola a sua terra. Muito mais do que serem colonos, esta gente irmanou-se com os que  lá estavam há muitos séculos e tentaram ter uma vida melhor.  Erraram, quando tentaram assumir-se como colonos ao geito belga ou inglês. Esta gente humilde, condenados e aventureiros, muitos a fugir à fome, entrou pelo mato a dentro, perfilhou os filhos, mandou-os estudar na Universidade, arroteou a terra, levantou pontes, ganhou dinheiro, e com o suor e lágrimas humedeceram a terra onde, tantas vezes com as próprias mãos abriram covas para os filhos mortos. Assim se amarraram a essa mesma terra que julgavam fosse sua, pois assim lhes haviam garantido os seus senhores.

Com a ajuda de missionários de várias religiões cristãs, com o apoio dos técnicos que foram chegando, funcionários administrativos e até exilados políticos, rasgaram-se caminhos e estradas, ajudaram-se a construir Igrejas, escolas, hospitais, ergueram aldeias, vilas e cidades e, todos fizeram de Angola a nação próspera e rica que deixaram para as independências. Quando hoje, por vezes esta gente anónima é falada, é só para ser enxovalhada e rotulada de negreiros e exploradores.

Porque sempre foram gente boa, e parte deles foram sangue do meu sangue e amigos do coração, entendi ser importante -pelo menos no meu fraco entender - que alguém contasse, sem preconceitos ou enviusamentos políticos, o que foi de facto a sua história. Foi essa a tarefa a que me propus. Muitos dos factos por mim narrados posso deles dar testemunho; foram presenciados em diferentes locais durante mais de 10 anos de mobilização militar em África.

parte de um texto assinado por Antunes de Sousa
"À sombra da amizade". Conversa com Bernardino Louro
O texto integral poderá ser lido, clicando AQUI


sexta-feira, 3 de fevereiro de 2012

Adeus à cidade do Luso (Luena) no leste de Angola... 1975


GREAT EVASION POPULATION LUENA EAST ANGOLA 1975 por kutemba

1975. Retornados, espoliados do Ultramar: O último ano em Angola

O último ano em Angola

O meu último ano em Angola foi muito conturbado.
Vivia em Luanda no Bº Salazar que era em grande paryte rodeado por quarteis portugueses, mas entre o Bº o o sitio onde trabalhava; Hospital Universitário junto ao Hospital de S. Paulo, passava pelas delegações dos três movimentos de libertação, (MPLA,FNLA e UNITA), que não se entendiam e se guerreavam uns aos outros na ância de tomada do poder.
Havia dias que era um inferno chegar ao Hospital com balas vindas não se sabia de onde, quantas vezes ao chegar havia de tudo pelos corredores mortos, feridos e sangue pelo chão.
O Hospital era quase todos os dias atingido por balas que furavam os vidos, sempre pensei que um vidro atingido por uma bala se partisse todo, mas não ficavam apenas os buracos do tamanho das balas. por duas vezes foi bombardeado tendo morrido um colega que trabalhava no 2º andar.
Eu trabalhava mesmo á entrada e eu e minhas colegas chegamos a andar de cócoras pois havia balas a bater na frontaria do prédio, após o bombardeamento fomos durante uma semana para o Hospital Maria Pia,
após o exercito ter garantido a segurança do Hospital voltamos mas tudi tinha sido saqueado até as fotos de familiares que alguns tinham nas secretárias tinham desaparecido.
Por duas vezes chegou ao hospital o boato de que grupos armados corriam em direcção ao Bº Salazar para tomarem as casas, eu desesperada pois a minha filhinha con um ano ali ficava com uma vizinha
lá pedia autorização e pegava no carro e ía ver da minha menina, graças a Deus das 2 vezez não passou de boato, (Omeu carro chegou a ser atingido por uma bala e pedras).
Foi um mau bocado, Luanda naquela altula era um inferno, todo o dia e toda a noite era passado ao som de tiros e bombardeamentos, o que valia por um lado era a falta de noção de como utilizar o material bélico que lhes foi metido nas mãos nem sei por quem porque quando começaram a chegar a Luanda não tinham armamento quase nenhum e o que tinham estava absoleto, então de noite era um autentico arraial porque eles usavam balas tracejantes e a maior parte disparadas para o alto quando caiam já era por força da gravidade, os bombardeamentos a maior parte não faço ideia de onde caíam, nuna casa perto de min caiu ama granada de morteiro mas foi no quintal não fez qualquer vitima.
as casas mortuárias estavam a abarrotar de corpos de tal maneira que na do Hospital Maria Pia já nem os punham lá dentro estavam vários pelo chão cá fora, era um cheiro insuportável.
Perante esta insegurança no inicio de agosto de 75 resolvi mandar a minha bébé, na altura já com 2 anos, para Portugal com uma irmã do meu marido, mas as saudades daquele pedacinho de gente que era toda a minha vida não me largavam e em fins de setembro, já grávida do meu 2º filho, vim para Portugal num avião da Força Area pois que um cunhado meu ali era militar.
Meu marido ficou veio para assistir ao nascimento do filho mas passadas 2 semanas de cá estar recebemos a noticia de que a nossa casa tinha sido ocupada por um qualquer militar das Faplas e assim resolvemos não voltar para Angola para grande desgosto nosso.



Zézita 

O último ano em Angola

O meu último ano em Angola foi, como seria de esperar, cheio de expectativas. Tinha nove anos, sabia que o nosso destino seria Portugal. Portugal esse que eu imaginava igual às ilustrações que havia nas latas de chocolates da Macintosh, damas antigas, charretes, enfim tudo a que a imaginação de uma criança tem direito.

Para o meu pai, como para todos os adultos que dedicaram uma vida de trabalho e sacrificios a Angola, foi muito difícil decidir-se a partir. Para o pressionarmos, íamos para a varanda da nossa casa à noite, e quando os meus pais já estavam deitados, estouravamos fitas de fulminantes com uma pedrita, na esperança de que ele se assustasse e se decidisse de uma vez por todas a partir.

Por fim deixamos o Chinguar, rumo a Nova Lisboa, juntamente com uma tia materna, o marido e os três filhos, eramos onze no total. Aí vivemos um tempo enquanto aguardavamos pelo nosso voo na ponte aérea. O nosso era o Voo 404. Como é óbvio, as carências já se notavam muito. Lembro-me de irmos à confeitaria Nandinha e comprarmos bolos porque havia dias em que não tinham pão. O pior eram os meus primos que já mais cresciditos, e fumando à sucapa, se viam à nora para arranjar um cigarrito.

Saímos de Nova Lisboa, no dia em que o Savimbi anunciou que, até ao meio-dia desse dia, todos os angolanos que pretendessem deixar Angola teriam de o fazer. Eramos todos à excepção do meu pai que nessa altura tinha ido a Moçamedes despachar o carro, cuja venda, mais tarde nos valeu para recomeçar a nossa vida. Os que eram angolanos fugiram para o aeroporto de Nova Lisboa, onde estivemos fechados durante 11 horas num hangar até que, por fim, encontramos no meio da imensa multidão o meu pai que nos procurava.

Não guardo rancor nem ódios, guardo sim recordações.

Renata 

O último ano em Angola

O meu ultimo ano em Angola, começou muito bem.Em Março fomos de férias a Benguela,e depois pegamos na estrada e fomos por ai fora até Luanda, onde jogamos no Totobola e ganhamos 10.000 escudos.Que festa!Foram umas férias de borla!Mal sabia eu o que me esperava quando voltei de férias.Estava a trabalhar no Governo do Distrito do Cunene, quando no dia 25 de Abril cheguei ao serviço e vi todo um alvoroço! Toda a malta feliz!Como se devem lembrar, só ouviamos as noticias pela rádio.Eu não sabia o que se passava.Perguntei e lá me explicaram que se tinha dado uma revolução em Portugal e que nós (Angola) ia ser independente!
Eu sem saber o que pensar (pois só tinha 0s meus 22 ingénuos anos)e o que aquilo queria dizer... Sentei-me e instalou-se no meu peito uma tristeza que ainda hoje não sei de onde veio, talvez só mesmo o meu sexto sentido.Comecei a chorar no meio daquela alegria toda! Mais tarde todos me deram razão , era realmente para chorarmos não para festejar!
A verdade é que a 22 de Julho lá arrumei as minhas imbambas e rumei em direcção ao Sudoeste Africano como refugiada politica. 
Lisete
Maria Jose Mendes Leitao e Vasconcelos de Carvalho


Repatriados - A geração de ouro dos retornados

CORREIO DA MANHÃ -2004-04-25
MAIS FORTES QUE O DESTINO
A maioria chegou a Portugal com uma certeza: tinham de recomeçar a sua vida do zero. Chamavam-lhes retornados, nome ainda hoje pejorativo. Mas foram eles que acordaram um país dormente, com a alegria trazida de uma África onde começavam a cair tiros de morteiro.

Sempre que ela entrava com uma chávena de chá às tantas da madrugada na sala de reuniões, o fumo de tabaco parecia evaporar-se. O semblante carregado dos ministros que discutiam os destinos da jovem democracia transformava-se num enorme sorriso. “Você parece uma gazela. Ainda vai fazer cair o Governo”, gracejava o primeiro-ministro Mário Soares à exótica moçambicana de 20 anos. Quando passavam por ela nos corredores de São Bento, havia políticos que cantarolavam: ‘Gabrieeela!’. Os longos cabelos, a tez morena e a sua beleza felina faziam de Yolanda uma sósia perfeita de Sónia Braga – a actriz brasileira que brilhava na primeira novela transmitida em Portugal. “Tive sorte. Três anos depois de chegar a Portugal fui trabalhar para o I Governo Constitucional, em 1977. Era uma das secretárias de Soares”, conta.
Yolanda veio da Beira, Moçambique, para um tratamento cardíaco. Com os estilhaços da revolução acabou por ficar. “Havia manifestações por ‘dá cá aquela palha’, papéis por todo o lado, cartazes nas paredes e cuspia-se no chão. Passou-se do 8 para o 80 mas as pessoas pareciam felizes.”
Em São Bento, o ritmo não era menos acelerado. “Ficávamos à noite a dormitar nos corredores à espera de sermos acordadas para redigir um decreto-lei à máquina.” Era por isso que andava sempre acompanhada com uma providente escova de dentes. Yolanda acabaria por trocar a turbulência da política pelos flashes da 'passerelle' e hoje é uma empresária de sucesso. Pelo meio, foi considerada uma das mais elegantes mulheres do País. Mas por mais anos que passem, não consegue esquecer a imagem de dezenas de conterrâneos a descer as escadas dos Boeings do aeroporto da Portela, em 1975. “Foram recebidos com o calor de mantas e bebidas, mas a maioria deles sentia uma enorme insegurança porque tinham de recomeçar a sua vida do zero.”
Entre essa massa anónima de pessoas de destino incerto encontrava-se Ribeiro Cristóvão, a sua mulher e os três filhos menores. “Mantive-me em Angola quase até à independência. Acreditava que apesar das alterações radicais haveria lugar para todos. Enganei-me.” No final de 1975, abandona o seu emprego na cervejeira Cuca (que ainda hoje existe) e a sua casa em Nova Lisboa. “Fui obrigado a viajar para Portugal, espoliado de todos os meus haveres”, desabafa em tom inconformado.
O homem do desporto da Rádio Renascença confessa que os primeiros três meses passados em Lisboa foram os mais difíceis da sua vida. E sem o abrigo na casa da sua irmã em Alcochete, a sua história estaria hoje pintada em tons ainda mais negros. “Recordo-me de calcorrear a cidade à procura de emprego, sem sorte nenhuma. Estava desesperado.”
No primeiro Natal na capital, Ribeiro Cristóvão afundou-se numa tristeza profunda. Ali estava ele, rodeado com a sua família mas com a árvore despida de presentes. “Não tinha nada para dar aos meus filhos.” O rótulo de retornado teimava em fechar-lhe portas. “Havia má vontade entre os portugueses da metrópole que tinham medo que lhes roubássemos os empregos. Andei com este ferrete durante anos.” Um dia, porém, o habitual ‘não’ deu lugar a um surpreendente ‘sim’. A Rádio Renascença abria-lhe portas ao admirável mundo novo do jornalismo.
FUGIR DE TIROS DE MORTEIROS
“Os 500 mil retornados, que representavam 5 por cento da população portuguesa, foram o maior fenómeno de repatriamento da Europa do pós-guerra”, conclui o sociólogo Rui Pena Pires, também ele repatriado de Angola. Dos que regressaram, 33 por cento veio de Moçambique e 61 por cento de Angola.
“Grande parte destas pessoas, que emigraram de Portugal para África nos anos 60, tinham qualificações bastante elevadas.” Pena Pires dá um exemplo: enquanto a taxa de analfabetos era de 30 por cento na metrópole, entre os retornados não ultrapassava os 2 por cento.
“Entre 1974 e 1975, as ex-colónias viram-se desprovidas de quadros administrativos e técnicos qualificados, que foram o motor do desenvolvimento desses países. E Portugal tinha de absorver toda esta gente”, defende o docente. Mas o facto do país atravessar uma convulsão social, veio acabar por facilitar a sua integração. “Chegaram a uma sociedade maleável em termos de hierarquias. Tudo estava em aberto. Em 1976, já havia presidentes de Câmara provenientes das ex-colónias, algo que não aconteceu noutros países da Europa.” Segundo o professor do ISCTE, que publicou um trabalho sobre os retornados, o repatriamento de Angola foi mais célere devido ao clima de guerra civil, bastante pior do que em Moçambique.
Dados que conferem com o relato pormenorizado de Emídio Rangel, jornalista nascido em Lubango em 1946 e uma das vozes da Rádio Comercial de Angola. “A probabilidade de sobreviver ao tiroteio de morteiros, canhões e outras armas de grande calibre dos exércitos do MPLA e UNITA, era baixa. Ainda por cima estava desarmado.”
O risco era enorme mas Rangel não tinha outra saída. Em apenas 48 horas conseguiu fugir de Luanda, sem um beliscão. “Só tinha a roupa que vestia.” A 1 de Setembro de 1975 estava numa Lisboa diferente daquela que já conhecia de outras épocas. “A cidade de conspirações de Marcelo Caetano transformara-se na capital de golpes, contra-golpes e intervenções militares.”
Emídio Rangel não perdeu tempo a contemplar o ambiente de efervescência política. Em dois dias, já vendia enciclopédias para poder ganhar a vida. “Eram em inglês, o que não as tornava muito populares”, ironiza. A sua missão em espalhar cultura porta a porta não durou muito tempo. Meses depois, ficava em segundo lugar num concurso público para a RDP – Radiodifusão Portuguesa. A TSF e a SIC seriam as suas próximas estações.
'MALTA, EU VENHO PARA A PORRADA!'
Lídia Jorge aventurou-se por terras de África antes de 1974. A escritora, natural de Boliqueime, decidiu dar aulas no ensino secundário aos jovens de Moçambique em plena guerra civil. O seu faro apurado detectou logo à chegada um grande mal-estar naquela sociedade que parecia viver à beira do abismo. “Havia algo de trágico e de errado. Tinha a sensação de que bastaria atear-se qualquer coisa para haver uma mudança radical.”
Mudança a que já não assistiu porque teve de abandonar o país em Agosto de 1974. “Por mim, podia ter feito a vida em África”, suspira. Em pleno PREC, assistiu a episódios caricatos, como o de professores ensinarem palavrões aos alunos. “Durante o 11 de Março de 1975, uma colega minha do liceu D. João de Castro, vestida de ‘jeans’ e casaco de cabedal, irrompeu entre os estudantes aos berros: ‘Malta, eu venho para a porrada!’”
Lídia Jorge ainda se recorda com nostalgia da anarquia e alegria extraordinárias. “O aumento da liberdade trouxe consigo a libertinagem.” Corria-se para o cinema para ver filmes pornográficos, antes proibidos pela censura, vestia-se de forma desportiva quando a ocasião era de cerimónia. “As casas de pronto-a-vestir tiveram o seu grande período de crise porque era quase regra aparecer-se pouco arranjado.”
Que o diga Augustus, criador de alta-costura, que aterrou em Lisboa em 1976, proveniente de Luanda, onde vivia e tinha uma das suas lojas de roupa. “Nesse período, a moda era considerado algo de fútil.” Viviam-se os tempos dos intelectuais da revolução, que se vestiam todos de igual, fossem homens ou mulheres: camisolas de gola alta, botas alentejanas e as inseparáveis calças de ganga.
Apesar de vigorar a moda unissexo, António Augusto Ferreira, decidiu arriscar e abrir um ‘atelier’ na capital portuguesa. E não se arrependeu. “A vida social em Lisboa era menos agitada: não havia almoçaradas com amigos, idas à praia ou à discoteca, como em Angola.”
Como trouxera três carros da ex-colónia, não tinha espaço para todos na garagem, na sua casa da Lapa. Resultado: diariamente os vidros do seu vistoso Chevrolet Camaro, eram pintados com a palavra ‘fascista’. Só muito mais tarde é que descobriu o autor das palavras de ordem: “Era apenas um rapaz que andava no liceu. Divertia-se com aquilo ”
DO DESEMPREGO PARA O GOVERNO
Quando a autodeterminação das colónias parecia um facto consumado, Manuel Antunes foi um dos 30 mil portugueses que preferiu rumar para sul e não para a metrópole. O director do Serviço de Cirurgia Cardiotorácica dos Hospitais da Universidade de Coimbra vivia em Moçambique desde 1954, altura da primeira vaga de emigrantes. “Na escola primária, o meu colega de carteira era negro. E não sentia qualquer tipo de racismo”, lembra o médico, que se insurge contra as mentiras que se têm dito (e escrito) sobre a dita mentalidade colonial dos portugueses. “Nós é que acabámos por ser prejudicados no processo de descolonização.”
A sua família teve de deixar para trás propriedades, moradias e um negócio próspero de construção civil. Em troca? Uma mão cheia de nada. Até 1988, preferiu ficar em África do Sul, onde praticava medicina e só então veio para Coimbra, onde tem desenvolvido uma intensa actividade científica. “Não sobrou nada. Nem o espírito de entreajuda típico dos que viviam em Moçambique. As pessoas acabaram por se dispersar pelas aldeias onde tinham família. Quem não tinha meios ficava em pensões e hotéis em Lisboa.”
António Cardoso e Cunha, nascido em Leiria em 1934, não tem a mesma opinião do médico coimbrão. “A rede de solidariedade entre os retornados foi flagrante, notória e permanente.” Em Angola, o gestor era já uma pessoa influente – como presidente da Câmara de Comércio e membro da Assembleia Legislativa. E nas vésperas da manifestação da ‘Maioria Silenciosa’ (o 28 de Setembro) chegou mesmo a vir a Lisboa com uma delegação de políticos angolanos para reunir com o general Spínola. Eram os anos quentes da transição. “Durante a minha vida em Angola vim regularmente à capital pelo que acompanhei as evoluções da vida nacional”, declara o ex-comissário da Expo’98.
Em 1977, juntou-se ao grupo de repatriados e fixou-se em Portugal. “Mantive actividade pessoal na medida das oportunidades, limitadas pela conjuntura económica. Contudo não perdi a experiência e as capacidades empresariais que desenvolvi em Angola.” Um ano depois, o actual ‘chairman’ da TAP era já nomeado secretário de Estado do Comércio Externo, depois da crise governamental do executivo de Nobre da Costa: “Exemplo curioso da turbulência da época – passei de desempregado a membro do Governo.” Cardoso e Cunha não foi caso isolado. Outros portugueses das ex-colónias haviam de se destacar nos executivos que se seguiram. No jornalismo, na gestão ou na advocacia, os quentes ventos de África também se fizeram sentir. Homens como Vítor Ramalho, Alexandre Relvas, Jorge Armindo, David Borges ou Victor Sá Machado conseguiram fintar o destino. Talvez um dia sejam conhecidos como a geração de ouro dos repatriados.
ANTÓNIO FEIO - REGRESSO ÀS ORIGENS
“Onde é que eu estava no 25 de Abril? Bem, a tentar embarcar no avião para Lisboa.” António Feio, então com 20 anos, vinha de uma 'tournée' com o grupo de Teatro Experimental de Cascais e estava com os colegas em Lourenço Marques. “Percebemos logo que algo de errado se passava na metrópole.” O actor acabou por ser obrigado a ficar mais um mês na sua terra natal, de onde saíra aos sete anos. Durante a juventude viveu sempre com um pé em Lisboa e outro em Lourenço Marques. “Tinha a noção de duas realidades distintas.” Em África, o estilo de vida dos portugueses era mais descontraído. “É tudo muito grande.” António Feio recorda-se de fazer 1200 quilómetros de carro só para jantar com os amigos, com toda a naturalidade. Na capital alfacinha, tudo era mais cáustico e violento, principalmente durante os anos do PREC. “Foi uma época conturbada para o bem e para o mal.” Depois dessa viagem atribulada em 1974, só voltaria a pisar Lourenço Marques quase vinte anos depois. “Não tive desilusões. Já me tinham pintado um cenário demasiado negro.” Do passado guarda uma fotografia a preto-e-branco com uma irmã de Maria Rueff. “Os pais da Maria tomavam conta de um hotel, onde a minha família viveu durante um certo período.”
Hugo Franco

VIDAS QUE FICARAM LÁ

CORREIO DA MANHÃ - 2004-04-25
25 de Abril – Os espoliados das ex-colónias
Há o campeão de boxe que agora vive num quarto alugado; ou a descendente de princesa hoje confinada às paredes húmidas de um apartamento em Chelas. E há mais, 920 mil histórias de pessoas que perderam tudo, ou quase, depois da revolução.

Wing Wa está sentado num canto esquecido à espera do maior combate da sua vida. Mas o gongo tarda em soar. Aos 74 anos, a morar num quarto alugado na Margem Sul, resta-lhe pouco da glória que o tornou um dos melhores pugilistas portugueses de Moçambique nos anos 40 e 50. A fama do seu gancho de esquerda estendia-se da Beira a Joanesburgo, passando pela então Rodésia, só que a história apanhou-o de surpresa e desferiu-lhe um golpe certeiro. A 10 de Janeiro de 1976, o atleta carpinteiro de origem chinesa aterrou em Lisboa, para nunca mais voltar a África. “Era a minha terra”, recorda. Milhares de pessoas dizem o mesmo de outras tantas vilas e cidades angolanas e moçambicanas que abandonaram nos anos seguintes ao 25 de Abril de 1974. Mas a saudade não foi a única coisa a ficar por lá, a um oceano de distância. Ficaram casas, carros, fábricas. E ficaram vidas. Muitas delas para sempre.
Chama-se Maria Helena de Vasconcelos e Sá, neta de um bisneto de uma princesa de Castela. Estudou Antropologia na faculdade, até ao segundo ano, numa altura em que eram raras as mulheres nas cadeiras do saber. Tem 73 anos. “Fui para África com um ano e fiquei até ter dez ou onze anos. Depois, vim estudar para Portugal e, após a morte do meu pai acabei por regressar”, conta, sentada à beira de uma fotografia do menino que seria seu avô, José Maria Belchior da Cruz de Faria e Sousa de Vasconcelos e Sá.
Como funcionária dos correios esteve em Maputo, em Quelimane e em Nampula. Casou e foi mãe, sempre embalada pela vida e pelos feitos dos antepassados. Como o avô, que ajudou a construir um farol e que derrotou um tubarão moçambicano a golpes de catana. Ou o primo que era comandante da Força Aérea. “Tenho muitas saudades de Moçambique, não me adapto a Portugal. A vida era totalmente diferente.” A mudança começou em 1974. “Depois de Abril, a coisa começou a ficar confusa. Um dia, tive de sair do serviço debaixo de um tiroteio. Eu via as pessoas passarem a escorrer sangue”, recorda, a 30 anos de distância.
Os tremores que a atacaram nessa tarde, não os consegue esquecer. Foram o primeiro sinal. Dois anos depois, numa madrugada fria de Outubro, aterrava em Portugal. Outra vez. “Eu não tinha muita coisa lá. Havia um terreno, bom, que tive de vender muito barato, quase dado.” Como era funcionária pública, foi reintegrada e ao fim de pouco tempo estava de novo a trabalhar. Mas vida voltou a trocar-lhe as voltas. Sem marido, tinha 15 contos para viver e ajudar o filho. “A única forma foi inscrever-me nas casas da câmara. E eles mandaram-me para aqui”, explica Maria Helena de Vasconcelos e Sá, neta de um bisneto de uma princesa de Castela, que hoje vive num andar em Chelas, com dois cafés à porta e as paredes carregadas de humidade.
A GUERRA DOS NÚMEROS
Ao certo, ninguém sabe quantos portugueses abandonaram as ex-províncias do Ultramar, entre 1974 e 1976, rumo a Lisboa. No quinto andar de um prédio junto ao Terreiro do Paço, duas associações de espoliados, a de Angola (AEANG) e a de Moçambique (AEMO), fazem todos os dias as contas aos últimos trinta anos. “Não há uma estatística exacta do número de pessoas que deixaram Moçambique”, admite Eduardo Alves, presidente da AEMO. “Mas o número de espoliados rondará as 85 mil famílias, ou 320 mil pessoas.” Na sala ao lado, Lucas Martins empenha-se na luta dos angolanos. “Penso que foram apresentadas perto de 80 mil relações de bens que ficaram em Angola, a que corresponderão quase 600 mil pessoas.”
Quatro eram a família Mota Almeida. “Nasci em Luanda em 1965”, começa por contar Fátima, a filha mais nova. Até aos dez anos, a sua vida foi igual à de tantas outras crianças. “Como era a vida... O calor, o andar na rua de pé descalço, de cuecas. Ninguém olhava, ninguém ligava. Se aparecia um conhecido, ficava lá em casa uma semana, duas, meses. Ninguém ligava a nada.” Antes de dizer como tudo é diferente, como sente saudades do calor, espreita para a rua pela janela do seu cabeleireiro em Campo de Ourique. “Imagine o que era fazer isso aqui. Chamavam-me logo maluca.”
Não é o melhor adjectivo. Aos dez anos, a vida de Fátima tornou-se diferente da de todas as crianças. “Quando vim para Lisboa, foi a primeira vez que andei de avião. Adorei. O que me impressionou mais quando cheguei foi estar sozinha. A hospedeira é que me entregou. Havia muitas pessoas à espera, com cartazes e nomes. Sabia que ia ter com um tio meu, que não conhecia, chamado Hermínio.” Chegou uma menina, com roupas e bonecas, que foi morar para Corroios.
A seguir veio a irmã. Depois a mãe e o pai quando conseguiram voo em Luanda. Durante quatro anos viveram cada um em sua casa. “As primeiras semanas foram muito dolorosas, chorava todos os dias. Estávamos todos separados porque não tínhamos onde ficar. É normal, não é?”. Para trás ficava a moradia de esquina perto de Luanda, onde nas piores noites de tiroteio se andava de gatas do quarto para a cozinha e de volta. “Às vezes, eu ficava ali sozinha, punha uma almofada no chão e deitava-me a ver os tiros passar...” Foi quando os disparos se tornaram demasiado intensos que a família escolheu voltar. “Eu era pequena, mas acho que a minha irmã e os meus pais sofreram imenso. Eles deixaram lá tudo, abandonaram tudo. Casa, terrenos, a vida toda.”
Aos 39 anos, Fátima faz o que pode para evitar que também a memória desapareça. Não, não é só o caderno onde estão anotadas as datas e que folheia nervosa. Baptizou o filho com o nome do seu pai, Bernardo. Avô e neto nunca se conheceram, Bernardo, o mais velho, morreu nove anos depois de ter chegado a Portugal. “Falo muito de Angola com o meu filho. Conto-lhe como era o avô, como ele ajudou a construir muitas coisas, inclusive a Igreja onde fui baptizada. Quando puder, quero regressar.” O que Fátima também não quer esquecer é o calor, o cheiro da maresia, da terra molhada, das plantas.
TAMBÉM HÁ VITÓRIAS
África entrou na vida de Artur Catarino aos 30 anos. “Fui para lá e comecei do nada. Mas fiz uma obra que ficou, digna de se ver ainda hoje”, garante o administrador da Progelcone, a empresa especializada no fabrico de cones para gelados que emprega 120 pessoas na zona de Cascais e que Artur Catarino criou, quase a partir do nada, depois de regressar a Portugal. “Saí da universidade aos 11 anos. Fiz a quarta classe em Mação, Abrantes, e vim trabalhar para Lisboa. Fiquei quinze anos numa firma de distribuição de queijos e carnes. Em 1965, ofereci-me para ir para Moçambique.”
Cinco anos depois, o negócio prosperava na Matola, perto de Maputo. De tal modo que, quando foi proibida a importação de carne de porco da metrópole, Artur Catarino teve condições para abrir a sua fábrica. A Bomsuíno, que continuou a crescer. A 24 de Abril de 1974 saiu de Maputo com a mulher a caminho da Alemanha, para comprar máquinas. Estava prevista uma paragem em Lisboa. A revolução apanhou-os. “Parte daquelas máquinas, quando chegaram a Moçambique, já eu lá não estava.”
Artur soube que era altura de deixar a África durante uma reunião na fábrica em Outubro de 1975. “Um dia, a Frelimo foi lá e um dos tipos, a dada altura, diz aos trabalhadores: ‘Camaradas, isto que está aqui é vosso. Vocês é que construíram a fábrica, vocês é que trabalham, têm de aprender a administrar’. E foi aí que tomei a decisão.” Uma semana depois, Artur chegou a casa à hora do almoço e disse à mulher: “‘Prepara a mala, porque daqui a bocado vamos embora’. Duas horas depois estávamos a caminho da Suazilândia.”
Aos 68 anos, Artur Catarino continua a fazer um horário das oito às dez da noite. “Comecei a trabalhar muito cedo, fui para Moçambique trabalhar, voltei para Portugal e vim trabalhar.” Há 30 anos perdeu quase tudo. Recompôs-se. “A valores de hoje, tudo o que lá deixei valia mais de um milhão de contos. Mas nunca pensei em receber dali fosse o que fosse. Eles dizem que não mandaram ninguém embora e a verdade é essa. Só que proporcionaram para que eu me viesse embora. A situação estava insustentável.”
QUANTO VALE UM PAÍS?
As duas associações que lutam pelos direitos dos espoliados não arriscam sequer um número quando se trata de saber o valor das indemnizações que, defendem, são devidas a quem veio de África. “Quanto vale um país? Quanto valem os edifícios nas principais cidades de Angola? E os terrenos? E as fábricas?”, pergunta, respondendo, Lucas Martins. A AEANG apoia 1400 pessoas que decidiram fazer as contas e avançar com processos contra o Estado português. Na sala de Moçambique, os processos são menos de vinte. “São modos diferentes de lutar”, explica Eduardo Alves, da AEMO. Mas ao fim de alguns anos de avanços e recuos nos tribunais, as duas associações estão de acordo num ponto fundamental. “A solução para este problema tem de ser tomada a nível político”, resume o presidente da AEMO.
Seja qual for a verba, o mais certo é que se escreva em milhões. “Não podemos exigir, ainda para mais na situação actual em que o erário público está que seja tudo pago”, admite Eduardo Alves. Nos diversos contactos políticos que têm mantido já fizeram as sugestões mais diversas. Pagamentos faseados, pagamentos através de títulos da dívida pública negociáveis em bolsa, pagamentos em forma de pensão. “A coisa está sempre em fase de estudo. Mas nunca avança”, desabafa Lucas Martins. “Neste momento a contagem do tempo de reforma dos espoliados – não os que estavam na função pública mas os particulares –, seria uma espécie de primeiro passo”, diz. Eduardo Alves subscreve.
Um e outro conhecem histórias. A de Rogério Ferreira, por exemplo, que, como conta, começou a vida aos 44 anos. Hoje tem 72 anos e continua a trabalhar e a descontar para a Segurança Social. “Aqueles vinte e dois anos, os melhores da minha vida, não contaram para nada...” Esteve sempre ligado à agricultura e foi para o norte de Angola plantar café.
Colheu muito mais. Uma família, alegrias e tristezas, três dias cercado numa fazenda de arma na mão. Fez trilhos num jipe blindado, chegou a sair de casa com granadas à cintura e de metralhadora pronta a disparar. Em 1961, a fazenda onde estava ficou a sete quilómetros de dezenas de mortos num dia de horror.
“Andamos há trinta anos à espera que resolvam o nosso problema. Sou espoliado, tiraram-me o que era meu. Mas, sinceramente, não estou a ver o país com hipóteses de resolver o problema.” Rogério Ferreira, além do dinheiro, deixou em Angola um prédio no Uíge, quatro moradias no Norte e um apartamento na Avenida do Brasil em Luanda. Mas trouxe algumas coisas, em caixotes de madeira angolana que, mais tarde, serviram para fazer um móvel de sala que ainda hoje está na sua casa em Almada. Voltou a Angola há oito anos, para matar saudades. “Mas nem documentos tenho. Não posso provar que sou dono de nada, excepto do apartamento. Não tratei de nada. Veja lá que vim com um bilhete de ida e volta. E ainda ali está.”
ÚLTIMO 'ROUND'
A hora de Wing Wa tarda em chegar. “Quando vim para Portugal em 1976”, diz, num português hesitante, “fiquei dois anos no instituto para retornados”. A verdade é que não era um retorno, Wing nunca tinha estado em Portugal. “Sou português, mas de Moçambique”. Nesse dia, mal sai do avião, estranha o frio das manhãs de Janeiro, sente saudade do “povo bom”, da “comida boa” e do “calor”. Vai fazer trabalho de carpinteiro até arranjar emprego num hotel em Cascais. Há quatro anos, a vida acertou-lhe o segundo golpe. No estômago. “O hotel fechou e só então percebi que eles não tinham feito descontos para a segurança social.”
A pensão de invalidez e velhice permite-lhe, aos 74 anos, viver com 151 euros por mês. Dorme num quarto alugado na Margem Sul de Lisboa, em casa de um casal cabo-verdiano, que conheceu quando partilhava um quarto de hospital com o filho, cego depois de ter sido atingido a tiros de caçadeira. “Estou lá há dois anos. A senhora não queria que eu pagasse o quarto, mas eu insisti e pago cem euros.” Wing Wa gasta mais 40 euros para garantir uma refeição por dia ao longo do mês num lar. “O meu plano é trabalhar, aprender melhor português e ir para o lar, mas não para morrer”, revela, algo envergonhado, “Só que não há trabalho, não consigo... E preciso.”
As pernas já não mexem como antes, os olhos que antecipavam os golpes do adversário teimam em não ver tão bem. Mas o pior talvez seja mesmo o ouvido direito.
Em 1956, But Small bateu forte naquela zona, talvez demais. Wing caiu três vezes, perdeu, é certo, mas evitou o KO. Passaram 48 anos e a situação é de novo preocupante. Os golpes têm sido violentos, certeiros, mas o pugilista resiste. Wing Wa ergue os punhos, desfere cinco socos em rajada. Não quer voltar a perder. Não desta vez.

in MACUAblog