quarta-feira, 18 de abril de 2012

"Espoliados e Retornados" : histórias de outros tempos...

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Recordo, de Setembro de 2005, no site Bula-Bula, já desaparecido:
Olá Fernando Gil, bom dia,
Espero que o seu exemplo dê frutos e que mais opiniões sejam divulgadas neste espaço.  Polémicas, reclamações, indignações, venham elas. Aqui o limite é apenas o da lei.  Viva a liberdade de expressão e a democracia.
Obrigada por trazer a questão dos espoliados ao Bula-Bula.  Afinal todos passámos pela mesma experiência desagradável de ter que abalar sem malas feitas - embora alguns as tenham feito muito bem, melhor para eles.  Eu não tive hipóteses. Tinha 18 anos, estudava, a minha mãe não trabalhava e o meu pai era funcionário público, portanto eu ainda não tinha tido tempo de constituir património material.
Quero dizer-lhe que neste site não vai haver censura ou restrição de espécie alguma que não seja a do bom gosto dos nossos participantes, portanto é livre de trazer aqui as  questões que entender. Quem quiser que dê a sua opinião.  Como eu vou fazer agora, com gosto.
Tinha 18 anos quando saí de Lourenço Marques.  Não o fiz por gosto, fi-lo porque na altura estava na Universidade e um senhor comissário político acompanhado por outros senhores armados de kalashnikov (não sei se a grafia está correcta, nem quero saber não é palavra constante no meu vocabulário) foi à sala onde eu estava a ter aulas avisar que a partir daí todos os estudantes passariam a ter sessões especiais de "esclarecimento político" e aulas práticas "a sério". 
Não gostei da intervenção e escusam de me chamar racista porque o camarada comissário era branco.  Eu estava fascinada, não com a teoria política dele mas com as unhas dos pés devidamente bordejadas a negro que o individuo exibia.  Esse episódio foi tão marcante na minha jovem experiência política que a partir daí a associação de ideias que faço quando me falam em "esclarecimento político" é logo - pés sujos!  Acho que devia pedir uma indemnização por danos psicológicos!
Na altura comentei com os meus colegas a minha profunda impressão com as unhas dos pés do dito e fui logo contemplada com dois epítetos que me passaram a ser familiares a partir daí: fascista e colonialista.
A partir daí quando oiço as palavras fascista ou colonialista penso sempre em pés limpos e unhas aparadas.  - outro desvio perigoso e trauma que também me devia valer uma boa indemnização.
Em relação aos documentos que trouxe a este fórum, gostei imenso de os ler e se me permite vou comentar algumas ideias que lá encontrei expressas.  Por exemplo, admiro a coragem dos expoliados que formaram a associação.  Na minha modesta opinião já deviam ter apresentado queixa de Portugal ao tribunal dos direitos humanos por crimes contra a humanidade, a forma pela qual o processo de descolonização decorreu, foi uma autêntico crime que custou a vida a muitos dos que lá ficaram, estou a lembrar-me, por exemplo, do povo macua e de todos os que fizeram parte das forças armadas portuguesas, por exemplo. Se o fizerem eu alinho.
Não tenho a ideia romântica de que os Portugueses são uns gajos bestiais que se dedicaram aos Descobrimentos para "darem novos mundos ao mundo".  Na verdade acho que foi o lucro que nos moveu, mas não devíamos ser só nós, os descendentes desses descobridores de há 500 anos a pagar a factura.  Ninguém tem culpa de ter nascido num determinado lugar em vez de noutro.
Quanto ao direito que tinhamos de estar em Moçambique e de lá ter ficado, pois cada um é que sabe.  Eu não fiquei lá, entre outras razões porque quando me matriculei na Universidade para tirar o curso de Ciências Histórico Filosóficas fi-lo no pressuposto de que iria estudar essas ciências.  Quando a tal comissão política me comunicou que a partir daí (ano lectivo de 1974-75) o curriculum do curso iria sofrer profundas alterações e que as aulas práticas passariam a ser ocupadas por tarefas como: aprender a fazer machamba no jardim, pintar as paredes exteriores do edifício da Universidade e ir para o mato fazer campanhas de alfabetização, eu não gostei do novo curso.  Muito menos quando foi determinado que as cadeiras de história e filosofia que tinhamos no curriculo seriam substituídas por outras como:
ideologia da Frelimo, história africana até ao século XVI, cultura das sociedades africanas até ao século XVI, história de Moçambique até século XVI, etc.  Tudo até ao século XVI.  A partir dessa data não valia a pena estudar história porque tudo o que havia nos registos era propaganda fascista e colonialista.  Eu fiquei perplexa.  Desde logo porque nem sabia que o fascismo tinha começado no século XVI e depois porque não tinha mesmo vocação para a "pré-história" e que eu soubesse a história de Moçambique até ao século XVI estava toda por fazer, e sem completar primeiro o curso eu não sabia o que poderia estudar.  Achei que não poder estudar o que eu queria e ter que passar a estudar coisas que ainda estavam por fazer não era bem o que eu pensava ser a liberdade.  Fiz o que pensei ser melhor: fui para um país fascista e colonialista, a África do Sul, onde fui bem recebida.  E por acaso não gostei de viver no regime de apartheid, que achei muito restritivo no que diz respeito a direitos humanos.
Em relação ao artigo de jornal que transcreve, da autoria do senhor Francisco Junqueira, acho que está bem escrito e que tem a sua lógica, só não concordo com a opinião elevadissima que ele tem sobre os méritos dos navegadores e colonizadores portugueses.
Eu diria que não fomos melhores nem piores que os outros, fomos semelhantes.  É verdade que acabámos com a escravatura muito cedo, oficialmente, pelo menos, mas também é verdade que fomos especialistas no tráfico humano.  Claro que não a inventámos, ela já existia em África, só nunca tinha atingido um grau de especialização tão elevado como atingiu com os empreendedores comerciantes portugueses.
Adoro discutir estas ideias.  Acho que tudo o que se possa dizer sobre a matéria é sempre pouco.  Há tantas facetas para analisar nesta problemática. 
Por tudo isso, Fernando Gil, já sabe que é sempre bem vindo a este espaço de discussão livre, enfim, de bula-bula.
Beijo
São
NOTA:
-Quem seria este "branco" de "unhas dos pés bordejadas a negro? Será que ainda as usa assim?
Fernando Gil

A Odisseia dos espoliados




O DIA DA PARTIDA

24 de Setembro de 1974. Consegui mandar para o Lobito o meu carro e alguns caixotes com os nossos parcos haveres de valor sentimental e os meus livros, reunidos na nossa vida de trabalho, para serem embarcados para Portugal. Encarregou-se do transporte um camionista mestiço de Nova Lisboa que não quis ir para Portugal porque não tinha lá ninguém.

O ponto de reunião de alguns gabelenses e meus irmãos que estavam na FIL, era a minha casa, para tomarem banho de água quente. Os meus pais estavam comigo, bem como a minha irmã, a cassula da família.

Três dias antes fora levá-los ao aeroporto para apanharem a ponte aérea. Fiquei com uma carrinha Peugeout de um gabelense que também frequentava a minha casa e levei-os também para o aeroporto.

Era cada vez mais difícil passar pelas barreiras da UNITA que, famintos, mandavam parar toda a gente para "roubar" qualquer coisa, nem que fossem só cigarros. Os meus conhecidos do FNLA que, talvez por eu ser natural do Zaire, me protegiam por solidariedade valeram-me muitas vezes contra aqueles energúmenos da UNITA que eram racistas, diga-se o que se disser. Eles é que semearam o medo nos portugueses, pelas ameaças constantes, invasão das casas e barreiras em todos os locais de Nova Lisboa. As situações, por vezes, eram altamente perigosas. O campo de execuções era no Sacaála.

E o exército português, para agravar ainda mais, é que fomentava a nossa fuga "porque não se responsabilizava com o que nos pudesse acontecer".

A "facção Chipenda" é que prestou assinalável serviço de protecção aos portugueses apesar de ter por lá alguns elementos, de última hora, brancos portugueses, que criaram alguns conflitos com outros portugueses. Eram mais papistas do que o papa. Mas também vieram cá parar

Chegou o dia de embarcarmos. Depois do almoço (Tivemos carne até ao último dia e acabamos com a garrafeira do meu irmão Néné), dirigi-me para o aeroporto com as nossas maletas na traseira da carrinha. Consegui passar sem incidentes, mas no aeroporto os populares atropelavam-se para descarregar a carrinha e quando dei por mim já não sabia das maletas. O que vale é que eles queriam apenas uma gorjeta por transportá-las até o barracão onde estavam amontoados os refugiados à espera de transporte para longe daquele pesadelo. A carrinha ficou abandonada na rua. Alguém ficou com ela.

Colchões espalhados pelo chão, muito sujo, pois ninguém se preocupava em limpar, centenas de pessoas à espera, as casas de banho, noutro edifício ao lado, cheias de dejectos, papel e água a correr pelo chão. Estava tudo entupido e os refugiados é que tinham de as desentupir se quisessem ter um pouco de higiene.

Crianças a chorar, algumas de fome, pois a espera era longa para os que foram antes de serem chamados. Tumultos à porta quando a UNITA queria impedir alguém de embarcar, principalmente negros e algumas mestiças que cobiçavam, sobre o olhar dos nossos militares (que por vezes esboçavam umas arremetidas "moles"contra os guerrilheiros) todos desalinhados, fralda de fora, barba por fazer, sem boina na cabeça.

O que valeu a muita gente foi a acção da FLNA que afastava os da UNITA.

Tratei das formalidades e por azar calhou-me um avião da TAP, os "burocratas". Só podia levar 30 quilos e a mala mais pesada que transportava os meus apontamentos, livros técnicos, manuais, relatórios e provas de âmbito profissional que me iriam ajudar em Portugal, tiveram que ficar à espera de uma vaga noutro avião.

Enquanto que nos outros aviões estrangeiros, mandavam entrar todo o mundo com a bagagem que traziam e mandavam parar a um dado momento, na TAP era tudo lentamente e com burocracia e sem um sorriso ou mostra de simpatia por parte dos profissionais daquela companhia. Vim a saber que os aviões têm um dispositivo que vai pesando a carga e quando chegava ao limite seguro o comandante mandava parar. Simples e rápido.

Sentia-me num mundo irreal. Não me saía da cabeça aquelas filas enormes, onduladas, de gente cabisbaixa, olhar receoso, silenciosa, a caminharem pastoreadas pelos controladores para o bojo do avião. Impressionou-me a visão do meu pai, um homem de 1,85 m, com 120 Kg, uma força da natureza, com os ombros caídos a olhar para trás como que a despedir-se da terra que nunca quis abandonar.

Chegou a minha vez.

Ruca

CONTINUAM AS CRÓNICAS AQUI

Os politicos não estão interessados… Nunca é demais RECORDAR...



“A nossa actual classe política não está interessada em resolver o problema das indemnizações aos espoliados do ex-Ultramar. Todos os que governaram  nos últimos vinte anos, inclusive o Prof.Dr. Aníbal Cavaco Silva. Este até promulgou em tempo recorde o D.L. aprovado no Conselho de Ministros, num fim-de-semana, para salvar o BPN. Tem faltado a todos vontade poítica. Agora desculpam-se com a crise...


DAQUI
 

SALAZAR NÃO FOI CHEFE DE FAMÍLIA

Timorenses compõem com os seus corpos no chão a palavra salazar
Era assim que se fazia em Timor no fim dos anos 30.
Fonte: CD-ROM “Coló­nia Por­tu­guesa de Timor (Álbum Fontoura)”

A maior diatribe ao angélico regime de Salazar, uma das ficções da nossa vida colectiva, li-a ontem no diário lisboeta, “Correio da Manhã” (17 de Outubro 1994) num texto intitulado “O Estado Português é o único responsável pelas indemnizações “ (aos portugueses que foram espoliados de seus bens em terras africanas). Ângelo Soares, um dos milhares de espoliados, traz a sua fotografia a ilustrar o reivindicativo e acusatório texto e por debaixo de sua efígie de homem setentão aquelas palavras, expressão sua, que reputo o tormento à paz de Salazar no tranquilo cemitério de Santa Comba Dão, mesmo juntinho ao jazigo da mulher amada (são cinco palmos mal contados). È o que perturba o idílio além-tumba. Ela , uma Perestrelo Botelheiro, lhe dirá : “Por não teres constituído a família é que se desfez o teu império !” As palavras magoadas de Ângelo Soares soam tristes deste modo desesperado:
 
 “A situação teria sido diferente se, como potência colonizadora assumida, o que não foi o caso, o Estado português nos tivesse prevenido, desde sempre, de que estávamos a colonizar, e que deveríamos acautelar os nossos bens no exterior... “
A culpa foi do Estado e de quem o governava. A culpa foi de quem imprimiu a definição e a propalou até à fadiga. À cabeça, António de Oliveira Salazar. Ao princípio do velho “Estado Novo”, logo nas suas masculinas alvoradas de braços esticados, o mestre de Economia da universidade coimbrã pública, em 1930, o Acto Colonial. Era dar o nome justo às coisas. O Ultramar era constituído por colónias. As palavras não devem ser profanadas. As palavras são as roupagens das realidades e devem obediência a estas. Chamar cão a um gato não transforma o gato em cão. As palavras têm por missão traduzir o mundo e fazê-lo comunicar, não o de esconder mundo e mal informar. Mas o tempo perverteu o inicial realismo de chamar as coisas pelo seu justo nome. Salazar começou a ser poeta e produziu uma tenebrosa metáfora. A certa altura deixou de chamar colónias às colónias (estas ficaram espantadas com a súbita mudança, porquê ?) e passou a tratá-las como vizinhas de cá, parentes muito chegados, num tu cá tu lá que cristalizou na expressão eufemística de “províncias ultramarinas”. O delírio nominativo considerava tão portuguesa a província do Algarve quanto a da Guiné, tão lusitana a do Minho quanto a de Angola ou Moçambique. O mundo é que estava errado. A geografia era um sonho. Angola confinava com o Algarve e a Índia com Trás-os-Montes. Este é que era o mapa cor-de-rosa que o outro fora o vermelho da vergonha. Salazar nunca pisara “tierras calientes “ africanas, asiáticas... nunca sentira na pele as estruturais diferenças. Era tudo Portugal do rio Minho a Timor, sem ter de vencer milhares e milhares de quilómetros e aquelas distâncias bem maiores entre povos diferentes (não se usa a abalada expressão primitivos, pois aqui na Europa não bárbara também o somos). Esse espaço de terras e gentes, fossem quais fossem os quadrantes, reduzia-os Salazar à progenitura de um ventre comum, a parir terra e pessoas tão portugueses em Amarante quanto no Huambo ou Inhambane. Havia um ventre comum. Salazar delirava com esta família universal, todinhos vestidos de igual portugalidade. Ele não fizera família e inventou a cósmica do Ultramar Português, das províncias de Ultramar, em que os angolanos eram minhotos e minhotos os pretos de cá, numa perfeita identidade. A metáfora era já realidade à força de tanto badalo, discurso, proclamação. Querer é querer crer. Salazar quis crer no que imaginara. O Ultramar eram um mero prolongamento de Portugal e tão Portugal quanto esta terrinha à beira Atlântico deitada. Oh tanta poesia! Ângelo Soares é uma voz plural. È um sentimento contra essa falsificação. É a dor de um despertar tardio. Tivesse Salazar chamado colónias ao que colónias eram e não pululariam os convictos de tanto Portugal aqui como lá ! Este Ângelo Soares tem imensa razão, dolorosa razão. Todo o acordar de um sonho é um quebranto de ânimo, um difícil retornar à realidade. Eu lembro o caso de uma amiga minha, de Pinhel, filha de um colega de meu pai, o fino, culto e saudoso Dr. Alexandre Nápoles de Mettelo Seixas. Dois meses antes do 25 de Abril de 1974 ela vendera propriedades em Portugal para adquirir um apartamento num prédio de Lourenço Marques (Maputo). Era das que dizia: “Aqui é Portugal, isto não é uma colónia, isto é uma província e entre Pinhel e Lourenço Marques não existem diferenças”.

A sua confiança era ilimitada e fruto directo da metáfora salazarista (não há colónias, há províncias). Dois meses depois ela chorava. Acabara de despertar o som dos acordos de Lusaka. Uma mentira criara todo este optimismo. Como Ângelo Soares tem razão histórica! Como é verdade o que ele diz, como se um grito de milhentas pessoas anunciasse esta verdade, o dardo contra Salazar: “A situação teria sido diferente se, como potência colonizadora assumida, o que não foi o caso, o Estado português nos tivesse prevenido, desde sempre, de que estávamos a colonizar, e que deveríamos acautelar os nossos bens no exterior...” A tal metáfora não passava de um conto do vigário em grande. Todo o conto de vigário especula com a espontânea ingenuidade dos que se deixam embalar com historietas, miragens, distorções.

O mal de tudo, a razão primeira e explicativa do fenómeno, radica em que Salazar criou a poética e fatal metáfora por não ter constituído família, por não Ter sido pai de filhos para sustentar, criar e pôr na vida como independentes (a ordem natural, gerar para os filhos serem outros pais).

Gosto de demonstrar o que digo. Há um génio da Península, mal conhecido em Portugal. Nasceu em Granada, em 1865, e suicidou-se em Riga, Letónia, onde era cônsul, no ano de 1898. O seu génio auscultava o futuro porque conhecia bem o passado e não era homem preso ao “momento”. Chamou-se esse poderoso escritor e pensador, Ángel Ganivet. Que pena o seu “Idearium espanhol” (1897) não ter caído nos olhos dos leitores de Salazar! À razão de não ter casado juntou-se a razão de não Ter lido este santo suicida, de alma extraordinária. As duas razões geraram a Salazar a impune metáfora de “províncias ultramarinas”. Pois não sentiu uma coisa primária: tudo no planeta é família, são famílias, há pais e filhos e esta ordem de gerações é que cria o comparativismo para a própria acção política.

Ángel Ganivet lavrou esta beleza de verdade e de rigor: 
 
“Há quem julgue que o termo fatal da colonização é a emancipação das colónias. A meu ver, este conceito é teórico. Também os filhos podem emancipar-se, se os códigos estabelecem quando e como se perde o poder paternal; e, todavia, muitos filhos não se emancipam nunca, nem sequer eles pensam na emancipação.

Passam de um estado civil a outro diferente, sem notar a diferença, e a ninguém se lhe ocorre esperar que chegue o dia marcado pela lei para dizer ao seu pai: “A partir de hoje cessou o exercício de suas funções que até aqui tem vindo a desempenhar.” Apenas em casos extremos se regem os homens pelo texto das leis e apenas em casos extremos lutam as colónias por conquistar a sua independência. Se mercê de uma política hábil, e mais que hábil, desinteressada, se mantém a devida unidade de ideias e sentimentos entre a metrópole e as suas colónias, se pode aplicar sem perigo e regime autonómico, que conduzirá, não à emancipação, mas à confederação das colónias autónomas com a sua metrópole; e desta forma, a autonomia não será um primeiro passo para a emancipação, será o começo de uma união mais íntima, conseguida mediante o sacrifício disso que eu chamo a dominação materialista. Mas delicadezas políticas nem sempre são práticas, porque requerem o concurso de homens especialmente educados para tão difíceis trabalhos, e nem todas as nações possuem homens desta classe. Se se implanta um regime autonómico e se se continua a fazer uso de velhos procedimentos governativos, o fracasso é seguro, e antes de chegar a ele é preferível, ou o domínio franco e firmemente sustentado, ou a emancipação franca e legalmente outorgada.

Nem todas as nações possuem homens desta classe! Como Ángel Ganivet foi bruxo! Como sentiu a humanidade uma família mas com deveres de família, não com a simulação de parecer famílial. Como ainda poderia haver Portugal por Africas e Índias e Oceanias e Ásias se visão não fosse a poética e falsa mas a realista de se chamar às coisas os seus próprios nomes! Como é este crítico Ângelo Soares o maior historiador do nosso passado recente já que os outros não sabem ver e se regem por outras abstracções! Como ele deixa Salazar desamparado na sua cova! Como finalmente vamos ter paz por se compreender as razões!
Ángel Ganivet atirou-se às águas geladas do Dwina. Nós recobramos vida com os seus conceitos formados do próprio sangue da vida, algo que tantos e tantos “políticos” desprezam...

Lá no cemitério de Santa Comba a namorada também se sente compungida. Outro galo teria cantado a Portugal se tivessem casado, se tivessem filhos...


Por: JOAQUIM de MONTEZUMA de CARVALHO
(In Jornal Correio da Manhã 04/12/1994)

POEMA: SAUDADES DE ANGOLA

         
 
Angola
RECORDAR ANGOLA É VIVER DUAS VEZES.....




Recordo Angola de outros tempos
Onde passei a minha mocidade
E a sua encantadora beleza
Comigo ficará até á eternidade.


Recordo a sua fauna exuberante,
As matas e as aldeias do interior.
Também recordo o povo angolano
A quem sempre dei muito valor.

Recordo bem as três cidades
Onde vivi períodos da minha vida
E apesar de distantes no tempo,
Nenhuma foi por mim esquecida.

Luanda, debruçada sobre o mar,
Onde as palmeiras da marginal
Dançavam misteriosamente
Ao sabor da brisa tropical.

Aquele maravilhoso pôr do sol
Visto do morro da antiga fortaleza
Tinha uma tonalidade exclusiva
Como exclusiva era a sua beleza.

Os fins de semana no Mussulo
Onde as praias eram um paraíso
E a beleza selvagem desta ilha
Fazia qualquer um perder o juízo.

Foi nesta bela Luanda que conheci
A mulher por quem me apaixonei
E na Igreja da Sagrada Família,
Num dia de Abril, com ela me casei.

Recordo a cidade de Moçâmedes
Que do Namibe era a princesa
E nem os ventos áridos do deserto
Conseguiram destruir a sua beleza.

Banhada pelo Oceano Atlântico
Era por mérito terra de pescadores
E as águas tentadoras da Praia Amélia
Eram o paraíso dos mergulhadores.

A “Welwitshia Mirabilis”
Que bem recordo, era por certo
Uma planta única no Mundo
Existindo apenas no seu deserto.

Também recordo Sá da Bandeira
Que da Huíla era a capital.
Edificada lá no alto da Chela
Desfrutava de um clima especial.

Dos meus tempos de estudante
Ficou dela uma boa recordação
Pois nesta cidade frequentei
O Liceu Nacional Diogo Cão.

Com muitas praxes académicas
Foi o berço de idealistas
Ajudando a preparar o futuro
A engenheiros e economistas.

Um dia, já muito distante no tempo,
Por razões alheias à própria razão,
Deixei Angola da minha mocidade
Mas ainda a recordo com emoção.

publicado por Tony de Aguiar
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terça-feira, 17 de abril de 2012

RTP vai contar a história dos retornados em nova série de ficção


"Depois do Adeus" vai contar a história dos retornados de Angola no verão de 1975. As gravações da nova série de ficção da RTP começam amanhã e vão prolongar-se pelos próximos dois meses. A estreia está prevista para Setembro.

 

CLICAR AQUI

domingo, 15 de abril de 2012

A integração dos “retornados” no interior de Portugal: o caso do distrito da Guarda

A integração dos “retornados” no interior de Portugal: o caso do distrito da Guarda
OLIVEIRA, Nelson Clemente Santos Dias
Mestre em Sociologia
ESE Instituto Politécnico da Guarda
nelsonoliveira@ipg.pt

Resumo
Em 1975, com o epílogo do Império Colonial, chegaram a Portugal cerca de meio milhão de indivíduos
que ficaram conhecidos como “retornados” do ultramar. O posterior processo de integração que se pode contextualizar em fenómenos populacionais semelhantes, decorrentes das descolonizações
protagonizadas pelas outras potências coloniais europeias, no nosso país, teve a particularidade de ter sido ultrapassado com maior rapidez. Uma das explicações para a agilidade com que estes indivíduos foram assimilados pelo tecido socioeconómico reside, precisamente, na distribuição deste numeroso contingente de pessoas por todo o território nacional. Justificação que, à primeira vista, parece paradoxal. Isto porque as regiões do interior do país, neste período, acumulavam factores repulsivos. Assumindo que para o interior terão rumado, essencialmente, aqueles que aí tinham raízes, neste trabalho pretende-se reflectir as incidências do processo de integração destas pessoas no distrito da Guarda, partindo da justificação e sentido que (três décadas depois) deram às suas acções.

Para lêr o TEXTO INTEGRAL, clicar AQUI

Recordações dos velhos tempos : a prof. Edviges, e seus alunos na Escola da Calenga em Angola, 1946

Calenga, 1946 - Homenagem dos alunos da Calenga à Professora Edviges

Recordações dos velhos tempos

In Mazungue

Encontrámos esta foto datada de 1946  neste forum e tomámos a liberdade de a tranportar para aqui, pelo significado  especial que possa ter para algum dos visitantes deste blog. Trata-se  como refere a pessoa que a publicou, de uma homenagem à professora Edviges ( no circlo amarelo, era esposa de Alexandre dos Santos) que aqui vemos rodeada de seus alunos na Calenga,  antes de se fixar em Nova Lisboa.  D. Edviges completara em 2009, data em que esta foto foi pubicada in Mazungue, 100 anos da sua exietência, uma existência lúcida e plena força de vontade. Fica a notícia e a foto a quem , retornado da Calenga ou do Huambo, a queira aproveitar

sexta-feira, 6 de abril de 2012

Peema a Angola

À página «cento e vinte e sete» de Gedeão


A ti,
que eu não conheço e amo
com a intensidade das marés
em dia de calema na restinga do Lobito

A ti,
que eu não conheço e amo
com as cores das queimadas
que iluminam os planaltos do Huambo e do Bié
A ti,
que eu não conheço e amo
com o cheiro a mangas e maresia do Mussulo
A ti,
que eu não conheço e amo
no café torrado do Kwanza Sul e Kwanza Norte

A ti,
que eu não conheço e amo
com a doçura de itebe e saka-foya de Cabinda

A ti,
que eu não conheço e amo
e ainda degusto no veado e na pacaça da Quiçama

A ti, meu amor
eu ofereço toda a sinestesia
desta terra onde nasci
e onde espero um dia conhecer-te.


Anny Pereira
VIDEO LUANDA ANTIGA  AQUI 
Flamingo Lodge NAMIBE video  AQUI

quarta-feira, 4 de abril de 2012

A GRANDE DEBANDADA: RETORNADOS E ADIDOS




Mas, logo após a tomada de posse do Governo de Transição, em 31 de Janeiro
de 1975, as coisas começaram a complicar-se para os funcionários do Quadro
Administrativo.
Os administradores da Ganda, Cubal, Balombo, Chongoroi, Bocoio e Baía Farta
que me tinham dado um apoio leal e que tinham, quase todos uma boa aceitação por
parte das populações negras dos seus territórios, quando começaram a aparecer os
ministros e delegações dos movimentos emancipalistas fazendo exigências
despropositadas e ameaças veladas de prisão e despedimento, começaram a vacilar nas
suas intenções de ficar depois da independência.
E quando o Governo Português inventou o Quadro de Adidos para nele integrar
os funcionários do Q.A das colónias, garantindo-lhes em Portugal emprego e reforma,
aumentaram as hesitações que, depois de ter sido propalado que o “MPLA iria julgar
todos os funcionários do Q.A depois da independência” se transformaram em desejo
ansioso de partir o mais depressa possível.
Além do Q. Adidos o governo português também criou o Instituto de Auxílio
aos Retornados Nacionais (IARN) e como na altura os naturais de Angola brancos,
mestiços e assimilados eram considerados portugueses, este Instituto alargou ou
restringiu a sua acção como muito bem entendeu, dando ou negando auxílio de acordo
com os interesses dos dirigentes.
Em consequência criou-se em Angola um ambiente de tal ordem que até o
branco mais pobre que no interior do país ou na periferia das cidades tinha sempre
vivido e convivido com a comunidade negra, se deixou contaminar pela histeria do
medo sem razões válidas que o justificassem, excepto em Luanda e no Huambo onde as
refregas armadas entre movimentos eram aproveitadas para molestar e até, às vezes,
vitimar elementos brancos e não brancos, perante .a passividade das forças armadas
portugueses que, dizendo-se neutras, deixavam-se influenciar quando se tratava de
combater os “comunistas angolanos” ou seja os amigos, simpatizantes e militantes do
MPLA.
No seio da comunidade branca gerou-se uma histeria de fuga a qualquer preço
que o estabelecimento de pontes aéreas e de carreiras marítimas levou ao paroxismo.
Esta histeria deu origem a uma “música” jamais ouvida nesta terra: a “música” das
marteladas nos caixotes ouvia-se noite e dia, monótona e enervante. Nos caixotes metiase
tudo o que era possível, até as garrafas de gás e os panos de cozinha! No porto do
Lobito, extensas bichas de viaturas esperavam longas horas aguardando embarque.
Esta ânsia de partir, em Benguela, contrastava com a atitude de alguns
portugueses e angolanos que se preocupavam mais em resolver os problemas do
quotidiano do que pensar nos problemas futuros. São prova disso os episódios que vou
contar.
Vindos da Ganda, apresentaram-se no meu gabinete dois casais de portugueses
acompanhados de cinco meninos e de uma senhora ainda nova. As senhoras e meninos
estavam lacrimejantes e os dois homens faziam cara de mártir olhando fixamente para
baixo.
Quando lhes pedi para explicar a razão que os trouxera até mim, falaram as duas
senhoras com ar de queixume dizendo que os maridos tinham sido maltratados pelos
pretos até ao ponto de terem levado uma carga de porrada. Pediam a minha protecção e
a correcção dos atrevidos.
Como eu não percebera a causa da maka e como os dois homens se
conservassem calados, perguntei-lhes como é que explicavam a razão das cargas de
porrada que tinham levado. Então um deles começou; “sabe, eu tinha um camião de
fuba para vender e como o não conseguisse, fiz constar que, se me comprassem toda a
fuba, então cairia a chuva que não vinha há muito tempo. Eles compraram a fuba toda, a
chuva não veio e eles deram-me uma carga de porrada”.
E o senhor? - perguntei ao outro português.
“Eu tinha fuba na loja que nunca mais vendia porque a seca continuava e o povo
estava com falta de lombongo (dinheiro). Para conseguir vendê-la resolvi fazer um
feitiço: arranjei uma panela velha, ossos, pêlos e rabos de boi e uns pauzinhos e fui para
o quintal consultar os cazumbis (almas do outro mundo). Cercado de muito povo, fiz as
minhas consultas com os ritos convenientes e anunciei que os cazumbis mandariam a
chuva dois dias depois de eu ter vendido a fuba toda. A fuba foi vendida, passaram dois
dias, a chuva não veio e eu levei uma grande carga de porrada...ainda tenho aqui
algumas manchas...”.
Eu fiquei perplexo, quase que não continha o riso e tive que recorrer ao Camões
dos varões assinalados que conquistaram mundos ao mundo sem um tostão na algibeira
para poder responder condignamente a estes lusíadas perdidos nas matas da Ganda. e
com ar convicto e um tanto protector garanti-lhes que podiam regressar à Ganda sem
receio algum. E eles regressaram ao som da música dos caixotes.
Um outro exemplo revelador do clima em que se vivia foi o que descrevo
adiante.
Uma manhã, quando saía do palácio para o meu gabinete, encontrei no jardim
em frente deste, cerca de cinco dezenas de mucubais, homens e mulheres, que logo se
acercaram de mim com atitudes decididas mas não agressivas e um deles explicou-me
que queriam apresentar-me uma reclamação. Vinham todos tradicionalmente meio
vestidos, as mulheres exibindo anéis, argolas e cabeleiras que eram pouco vulgares em
pleno centro da cidade.
Disse ao emissário que não podia receber tanta gente e que escolhesse um grupo
de dez para falar comigo.
Depois de estarem todos sentados à volta da mesa do comissariado, verifiquei
que alguns deles estavam de cócoras em cima da cadeira.(Não estranhei nem tive
vontade de rir porque me lembrei de uma velhota portuguesa que eu vira há bem pouco
tempo lá na terra civilizada dos portugas, “sentar-se”, também de cócoras, no assento de
um automóvel)
Percebi que o grupo estava satisfeito mas um tanto constrangido. Explicaram-me
a razão da sua vinda: “lá para as bandas do Dombe Grande, um comerciante tinha-lhes
comprado algumas cabeças de gado para pagar, em parte, com mercadorias. O prazo já
tinha passado e ele não pagava. Pediam a minha intervenção para resolver a maka.
Antes de lhes dar uma resposta consultei os meus funcionários e um deles disseme
que conhecia o assunto e que podia ser facilmente resolvido. Assim pude assegurar
aos reclamantes que o assunto estaria resolvido dentro de um prazo de oito dias e que
podiam regressar às suas terras.
Mas os amigos mucubais, em vez de retirarem, preferiram acampar ali mesmo e
esperar pela solução da maka. Ali ficaram os oito dias, durante os quais todas as manhãs
eu correspondia aos seus cumprimentos com o “V” da vitória que se reflectia nos seus
alvos e largos sorrisos
À medida que se aproximava a data da independência crescia a azáfama dos
caixotes e o número dos transportes, aviões e barcos, para a debandada que tomava cada
vez mais o aspecto de uma fuga desenfreada.
Em Julho e Agosto, aviões da TAP e da Suisse Air, transportavam diariamente
cerca de mil passageiros para Lisboa. Mas o afluxo a Luanda de refugiados vindos das
terras do interior em aviões da Força Aérea e de outros vindos via marítima das
províncias do litoral era de tal ordem que tiveram que ser utilizados transportes cedidos
pelos Estados Unidos da América e pela União Soviética.
No início de Setembro participaram na ponte aérea aviões da França, Alemanha
Federal, RDA, Grã Bretanha e URSS. Chegou a haver 15 voos diários para Lisboa.
Só entre 1 de Agosto a 31 de Outubro calcula-se que foram transportados pela
ponte aérea cerca de 230.000 pessoas das quais cerca de 54.000 foram transportadas por
aviões estrangeiros, com os E.U.A à cabeça.
Esta fuga dos portugueses de Angola começou em Maio e terminou em 9 de
Novembro, dois dias antes da proclamação da independência.
A partir de Maio de 1975 a população branca do Huambo viu-se entre dois
fogos, MPLA e UNITA, esta procurando assanhadamente os comunistas, isto é, todos
os que cheiravam a MPLA. Os homens armados da UNITA entravam nos aviões à
busca de comunistas ante o olhar pasmado das sentinelas portuguesas que não sabiam
ou não queriam intervir face à tácita aceitação dos seus oficiais que colaboravam assim
na caça aos comunistas.
Os dirigentes do EME, Machado e Kapango foram arrancados da aeronave
pronta a arrancar para Luanda, nas referidas condições, isto é, diante da passividade dos
oficiais portugueses que preferiram “lavar as mãos” como Pilatos, em vez de usarem da
sua autoridade.
Naquela altura estavam em Angola cerca de 30 mil militares portugueses,
número mais que suficiente para manter a ordem e a disciplina evitando que as
populações, os habitantes civis, fossem molestados pelos militares dos movimentos
rivais.
Do Magazine n.º 277 de 2 de Julho de 1995, de cuja publicação é responsável o
jornal português “O Público”, extraímos do artigo aí publicado sob o título “Há vinte
anos, de Angola a Lisboa - A maior ponte aérea do História” os elementos que
comprovam a tese que sempre defendi de que “esta fuga massiva de residentes de
Angola, poucos meses antes da proclamação da sua independência, se não foi
preparada, foi pelo menos habilmente aproveitada pelas potências interessadas em fazer
de Angola mais um país africano independente, mas obrigado a obedecer aos seus
protectores para manter essa independência”, ou melhor utilizando uma linguagem
política em vias de ser esquecida, “pelas potências interessadas em substituir o
colonialismo português pelo neocolonialismo”.
Assim, extraímos do referido artigo as seguintes passagens:
“Houve brancos que foram mortos, outros que foram alvo de sevícias, afirma
Vasco Vieira de Almeida (ministro da economia do governo de transição) e contínua:
“não se pode dizer que a guerra era dirigida contra a população branca. Só que, numa
cidade ocupada por homens armados, todos se sentiam alvos potenciais. Mesmo em
casa, tínhamos medo. Havia sempre o perigo de balas perdidas.”
São ainda de Vieira de Almeida, cidadão português, com raízes afectivas e
familiares ligadas a Angola, com grande simpatia por Angola mas sem ligações
partidárias, as seguintes afirmações: “A desmotivação era total no seio das forças
armadas portuguesas. O governo de transição não passava de uma farsa trágica. Os
efectivos das forças armadas portuguesas e os meios de que dispunham eram mais que
suficientes para impedir a escalada da guerra civil” “faltava contudo vontade par tal e
faltavam também orientações inequívocas de Lisboa”... .
Não são de espantar estas afirmações de Vieira de Almeida. São verdadeiras,
reflectem a realidade, o que não sucede com as afirmações que no mesmo artigo são
feitas por grandes responsáveis pela descolonização, que decidiram então muita coisa
mas que não tiveram até agora a honestidade de reconhecerem os erros que cometeram.
Assim, o que era nesse tempo ministro da administração do território depois de
ter transferido a sua fortuna de Moçambique para Lisboa, afirma: “Os civis tinham
deixado de encarar a presença dos 30 mil militares portugueses como uma
protecção...Havia alguma, diz Almeida Santos. “Mas as tropas portuguesas estavam
desmotivadas. Muitos dos militares iam já na terceira, quarta e até quinta comissão de
serviço, o significava que estavam a abeirar-se de uma situação de exaustão. Com o “25
de Abril” gerou-se a convicção de que a guerra acabara, de que já tinham cumprido a
sua missão O atraso nas negociações com os movimentos de libertação levou a que se
continuasse a lutar e a morrer tanto ou mais, nos tempos seguintes ao “25 de Abril”, do
que antes. E era incompreensível para as tropas, chegando mesmo a gerar uma situação
de indisciplina militar”.
Mas vinte anos passados, Almeida Santos, um dos responsáveis pela
descolonização, não tem a certeza das causas que originaram a ponte aérea pois afirma:
“a ponte aérea resultou de uma decisão conjunta do Governo e da Presidência da
República”, mas acrescentou: ”eu diria que o Conselho da Revolução também teve
alguma coisa a ver com isso...”. E para cúmulo ainda acrescentou:” Este era um capítulo
que o governo procurava evitar: escaldava e já havia problemas de sobra a nível
interno!”.
E para prova do desencontro de opiniões dos políticos portugueses, oiçamos Melo
Antunes, uma das cabeças da descolonização: “a perspectiva do governo português não
era estimular o regresso da população branca, e sim, ajudá-la a continuar no território.
Mas era tarde demais...” (porquê, pergunto eu). “Por essa altura, em Julho, a população
branca de Angola só pensava em rotas de fuga, deixara de acreditar nos bons ofícios de
Lisboa; mais de 2.500 veículos partiram, por terra até Marrocos e, em meados de
Agosto, 2 mil portugueses tinham cruzado a fronteira a caminho da África do Sul”.
Face a tantas opiniões desencontradas e da consequente falta de coordenação e
de decisão é fácil compreender porque é que Vieira de Almeida acabou por afirmar:
“Nunca mais vi as pessoas do mesmo modo. Nem este país (Angola) Foi absolutamente
incrível a cobardia colectiva de que então se deu provas”.
Face ao que atrás se disse torna-se fácil compreender porque é que a tal
“comissão de descolonização” de que fiz parte tivesse sido completamente inoperante e
inútil.
Mas no artigo em referência, “A maior ponte da história ”citam-se duas
conclusões “históricas” que parecem querer interpretar para a posteridade o que foi a
descolonização de Angola.
Lê-se no artigo em referência: Hoje, no último volume da colecção de História
coordenada pelo professor José Matoso pode ler-se: A atitude das autoridades
portuguesas acabou por favorecer objectivamente a estratégia do MPLA (...) mesmo o
fenómeno do retorno da população branca através de uma ponte aérea cujo terminal era
Luanda favoreceu essa coexistência”
E ainda no mesmo artigo: ”Numa outra colecção de história dirigida pelo
professor João Medina, Melo Antunes escreve: em Agosto de 1975, face à situação
crítica que se vivia em Luanda, já ameaçada a Norte pelas forças da FNLA, dei
instruções precisas, logo em seguida confirmadas pelo Presidente da República para que
as forças portuguesas defendessem a todo o custo a cidade (...)!!! (os pontos de
admiração são do autor). As decisões foram tomadas com inteira consciência de que,
objectivamente, naquele momento, se fazia o jogo da MPLA.
Ora os factos demonstraram que a atitude portuguesa nunca favoreceu a
estratégia do MPLA mesmo com as “instruções precisas” dadas por Melo Antunes,
simplesmente porque essas instruções não chegaram cá ou não foram cumpridas, nem
tão pouco podiam favorecer a estratégia do MPLA porque grande parte dos oficiais do
exército português era furiosamente anti comunista, assim como alguns comandos a alto
nível...que para cumprir essas ordens, nas vésperas da independência, deitaram ao mar
milhares e milhares de culatras das armas que eles não queriam que caísse nas mãos do
MPLA e que pouco antes das zero horas do dia 11 de Novembro convocara os
jornalistas para fazer a entrega de Angola ao Povo Angolano, ali representado
por...ninguém!
E falta acrescentar nessas duas referências históricas que, às zero horas do dia 11
de Novembro, o Presidente da República Popular de Angola não permitiu que a
bandeira portuguesa fosse queimada pelos exaltados que não aceitavam a maneira
inqualificável de proceder...entregando Angola ao Povo Angolano...sem um
representante daqueles que dizem ter favorecido!
Não restam dúvidas de que alguns dos adeptos do MPLA, com as suas atitudes
extremistas e por vezes racistas, também contribuíram para a fuga dos portugueses,
muitos deles já indecisos face às ameaças de nacionalizações sem compensação.
Mas também não restam dúvidas de que, apesar da propalada ajuda portuguesa,
se não fora a presença, embora tardia, dos cubanos e soviéticos, o MPLA não teria saído
triunfante do caos dos últimos dias do colonialismo e dos primeiros dias da
independência apesar das “decisões do governo português tomadas com plena
consciência de que, objectivamente, naquele momento se fazia o jogo do MPLA”.
Outra opinião que ainda persiste e é afirmada por muitos dos que tudo perderam,
é de que “as forças armadas portuguesas deram um importante e significativo apoio ao
MPLA”. É uma opinião redondamente errada pois a grande maioria dos oficiais e
soldados das FAP eram figadais inimigos do comunismo para eles representado em
Angola pelos, como já disse, militantes, simpatizantes e amigos do MPLA.
Alguns dos acontecimentos a seguir relatados são prova disso.
RETIRADO DE : Sócrates Dáskalos_UM TESTEMUNHO PARA A HISTÓRIA DE ANGOLA.pdf