segunda-feira, 23 de janeiro de 2012

REtornados: desenterrando apontamentos esparsos... Um contributo para a História?

OS LESA-PÁTRIA

Com as nacionalizações em Angola, diluíram-se, para os refugiados, os últimos bens e as derradeiras esperanças. Casas, lojas, indústrias, mobiliário, viaturas, roupas, o MPLA roubam. Uma lei do Governo de Luanda determinou que entrariam na posse do Estado todos os haveres dos que tivessem abandonado o território por um período superior a 45 dias. Muitos pediram salvos-condutos para regressarem. Paradoxalmente o MPLA recusou. Os 45 dias passaram e o Movimento de Agostinho Neto apossou-se de tudo o que lá deixámos.

Em Portugal, fomos hostilizados e vexados. Fomos recebidos como indesejáveis, atirando-se-nos com subsídios de esmola. Abandonaram à sua desdita raparigas e rapazes, menores de 18 anos, sem pais, que vieram sozinhos e aos quais o Governo de Lisboa não concedeu qualquer auxílio pecuniário. Que querem os refugiados? Querem integrar-se na nova Sociedade portuguesa. Querem dispor de postos de trabalho. Querem ser iguais aos que sempre viveram na Metrópole, ter as mesmas opor¬tunidades de sobrevivência. Vítimas de uma situação que não criaram, antes ten¬taram evitar, acusam-nos de marginais, quando entre eles há técnicos capazes que poderiam preencher vagas abertas pêlos que viraram as costas ao "25 de Abril" e ao seu "paradisíaco" processo revolucionário em curso para um socialismo de miséria.
Bateram a todas as portas — que se lhes fecharam. Nas das fábricas, dos escritórios, de qualquer ramo de actividade, as comissões de trabalhadores vedaram-lhes os acessos; na do Ministério da Cooperação, que de cooperação só teve o nome; na do Presidente da República Costa Gomes, um dos grandes culpados da "original" descolonização, que não mexeu um músculo da face esfíngica, sequer para um monossílabo de resposta; nas da Secretaria de Estado dos Retornados, do IARN, do Conselho da Revolução...

Do Conselho da Revolução!...Quanto a mim, um dos maiores males do País, preocupado com vaidades, benefícios e honras, indiferentes às dificuldades do povo. Em reuniões tão prolongadas que mantém, jamais se ocupou dos problemas dos refugiados. Os homens que simbolizam a ideia da "revolução dos cravos", carregam o fardo de uma democracia, proposta como promessa e depois impos¬ta pela opressão e pela violência. Uma democracia de ódios e raivas, de dúvidas e angústias, em que se perseguem e prendem pessoas honestas e se deixam em liberdade os fa¬cínoras, os fanáticos e os corruptos. Uma democracia que não constrói, mas destrói o País, em querelas partidárias, no abandono de uma economia exangue. Uma democracia que alijou territórios imensos, sem ouvir aqueles que os habitavam. Uma democracia que se escuda no povo, para fazer dele a vítima principal. Volvidos mais de dois anos, quais as regalias conquistadas pelos portugueses, salvo a "mirífica" liberdade de ver paralizada a produção, de pagar mais caro os alimentos, o vestuário, a habitação, os transportes, a iluminação, o telefone? Ë a isso que se chama a "política da austeridade"?   

Os garantes do "processo revolucionário" evidencia­ram-se como aduladores da clientela do voto. Melo Antu­nes, ambicioso do Poder, elitista de linha paralela ao PCP; Vítor Crespo, insensível à prisão, às torturas e à morte de tantos portugueses, em Angola, em Moçambique, na Guiné e em Timor; Vitor Alves, cujo perfil se recorta num episó­dio que não resisto a contar. 

Em 1964, o MPLA abrira a frente Leste em Angola e, durante os anos de 1966, 1967 e 1968, levara a guerri­lha aos distritos do Moxico, Quando-Cubango, Lunda e Bié. Depois, por mérito da mudança de estratégia das For­ças Armadas portuguesas, a situação evoluiu. Os guerrilhei­ros, perdendo a iniciativa, remeteram-se a uma defensiva, raramente interrompida por incursões esporádicas.

Acontece que a crise na frente Leste, por parte do MPLA, havia começado em 1968. E bom seria lembrar, "aos que não têm suficiente memória para mentir toda a vida", a verdade, a única, é que, já nos primeiros meses de 1972, os guerrilheiros e Comandos do MPLA estavam to­dos na fronteira, tendo desaparecido da Lunda e do Bié. Só no Moxico se manifestava a sua presença, em acções na sub-região Sul. 

Uma das figuras mais notáveis entre as hostes dos guerrilheiros era o "camarada" Iko Carreira. Conheço-o desde que nasceu. Amigo nas boas e más horas, laços mui­to estreitos me ligaram aos avós, pais e tios. Vi-o, pela últi­ma vez, na missa por alma da Mãe (brutalmente morta por atropelamento, à porta de sua casa), chorando como um menino. 

Iko Carreira tinha a cabeça a prémio. Era um guerri­lheiro corajoso, subtil condutor dos subordinados para as missões arriscadas, possuía, na realidade, os predicados de um chefe. 

Vitor Alves comandava, então, uma companhia no Leste. E, num relatório, informou que a sua unidade abate­ra o "camarada" Iko Carreira. Atribuiram-lhe, por isso, um prémio de cinquenta contos.

Entretanto, Iko Carreira é, hoje, ministro da Defesa do MPLA. Pensaria que, por milagre ou artes de bruxaria, ele tivesse ressuscitado, não soubesse que, na altura da sua "morte", estava em local afastado, em Sikongo, analisando as razões por que um grupo de guerrilheiros se manifestara contra o "camarada" Monimambo.

Espero que Vitor Alves tenha devolvido os cinquenta contos.
Retrocedendo.
Até as esmolas que lhes davam, tiraram aos refugia­dos. Acabaram as senhas de alimentação, e daí, muitíssi­mas pessoas, que viviam em casa de familiares pobres, dor­mindo onde Deus mandava, ficaram sem dinheiro para co­mer.
A corda apertou-se no pescoço de gente já sufocada. Os refugiados, acossados pela fome, estiveram, durante mais de um mês, defronte do palácio de São Bento. Retira­ram-se, apenas, quando o l AR N lhes acenou com um sub­sídio de emergência, transitório: trinta e poucos escudos por dia para alimentos.
Ninguém lhes pode descrever a odisseia. Apontamen­tos esparsos não fazem História.
Os refugiados não precisavam de caridade, mas de compreensão, de justiça e de trabalho. Isso, sim, o deseja­vam e não lhes deram.

O conselheiro Sousa e Castro, um amador em políti­ca, com fumos de escrevinhador em jornais (com pseudóni­mo, naturalmente), deu-me a duvidosa honra de reparar em mim e bolçar umas tantas injúrias a meu respeito. Não me tocou. Quando ele nasceu, já eu andava por África, ajudan­do as populações, ao lado de muitos outros.
Não foi a etnia branca no Ultramar a culpada dos erros cometidos. Os brancos não exploraram, trabalharam. Não escravizaram, ampararam. Não cultivaram o obscuran­tismo, iluminaram os espíritos. Não provocaram enfermida­des, sararam-nas.
Os erros todos os erros partiram do Terreiro do Paço.
           Mas que se lhe há-de fazer? O capitão Sousa e Castro nasceu tarde demais para saber dessas coisas. E agora, conselheiro, não tem tempo para aprender.

Se dispusesse de algumas horas, poderia falar-lhe de um Português, inconformado com a entrega da sua terra aos comunistas: o eng. Mitra. À frente de dez companhei­ros, saiu da África do Sul para Angola, numa arrancada te­merária. Onze lendários combatentes, que, cercados pelas F AP LA, não se renderam. Sete tombaram, crivados de ba­las, insultando os inimigos e saudando a Pátria que, como eles, fora traída. Os restantes prosseguiram para a Gabela, onde foram avisados que deveriam deslocar-se à África do Sul, a fim de regularizar a situação de suas famílias. Acede­ram, com a promessa de que os deixariam voltar à luta. Os sul-africanos, porém, retiveram-nos, numa política de bastidor.
Se o conselheiro Sousa e Castro tivesse tempo, mos­trar-lhe-ia os documentos em meu poder, dos quais repro­duzo alguns que ao gesto magnifico se referem.
Se o capitão Sousa e Castro dispusesse de algumas horas, falar-lhe-ia, por contraste, da atitude do alferes mili­ciano, dos Serviços Mecanográficos, António Ferreira da Silva.
Em "meados de Setembro de 1974, quinhentos ofi­ciais reuniram-se, por convocação dos representantes do MFA em Angola, no palácio do Governo-Geral. Estranha­ram alguns dos presentes, que as Forças Armadas não ti­vessem actuado prontamente contra a ocupação do Rádio Clube de Moçambique por elementos civis. Foi explicado que o grande número de mulheres e crianças no interior do edifício, impedira meios extremos. O alferes António Fer­reira da Silva (que, depois, teve de fugir para Lisboa) indig­nou-se com a moderação, porque "tropas vindas do mato não podiam hesitar em abrir fogo sobre mulheres e crian­ças".
Se o sr. conselheiro tivesse estômago para me ouvir...


ORIGEM DESTE TEXTO AQUI

sexta-feira, 20 de janeiro de 2012

Retornados do Ultramar: Espoliação de bens patrimoniais


JOSÉ ALVES DAS NEVES
1 — Toda a pessoa tem direito à propriedade individual e colectiva.
2 — Ninguém pode, arbitrariamente, ser privado do que é seu.
Art.º 17º.  da Proclamação da DECLARAÇÃO DOS DIREITOS DO HOMEM. Da CONSTITUIÇÃO DA REPÚBLICA PORTUGUESA, respigamos:
Art.º 7.º — Portugal rege-se nas relações internacionais pêlos princípios de independência nacional, do respeito dos direitos do homem...
e a seguir, no
Art.º 8.º — As normas e os princípios do direito internacional geral ou comum fazem parte integrante do direito português.
2 — As normas constantes de convenções internacionais regularmente ratificadas ou aprovadas vigoram na ordem interna após a sua publicação oficial e enquanto vincularem internacionalmente o Estado Português.
3 — As normas emanadas dos órgãos competentes das organizações internacionais de que Portugal seja parte vigoram directamente na ordem interna, desde que tal se encontre expressamente estabelecido nos respectivos tratados constitutivos.
mais adiante, no
Art.º 13.º , podemos ler:
1 — Todos os cidadãos têm a mesma dignidade social e são iguais perante a lei.
2 — Ninguém pode ser privilegiado, beneficiado, prejudicado, privado de qualquer direito ou isento de qualquer dever em razão de ascendência, sexo, raça, língua, território de origem, religião, convicções políticas ou ideológicas, instrução, situação económica ou condição social.
Território de origem, registe-se!...
com o Art.º 17.º  da DECLARAÇÃO DOS DIREITOS DO HOMEM, atrás citado, e dos que se seguiram, da CONSTITUIÇÃO DA REPÚBLICA PORTUGUESA, estávamos tranquilos.
Ia haver justiça. Talvez demorasse, mas fazia-se, concerteza.
Aqui paramos um pouco para reflectir. Se até nos mandaram fazer declarações de bens deixados nos locais de origem!...
Será assim?
Terão os «constituintes» pensado em todos os portugueses?
Vamos procurar a resposta.
Art.º 20.º  da nossa Constituição:
A todos é assegurado o acesso aos tribunais para defesa dos seus direitos não podendo a justiça ser denegada por insuficiência de meios económicos.
E no Art.º 21.º  — o Estado e as demais entidades públicas são civílmente responsáveis, em forma solidária com os titulares dos seus órgãos, funcionários ou agentes, por acções ou omissões praticadas no exercício das suas funções e por causa desse exercício, de que resulte violação dos direitos, liberdades e garantias ou prejuízos para outrem.
Estas citações sugerem-nos citações que retiramos do livro SANEAMENTO NACIONAL, da autoria do ilustre Professor que hoje nos dá a honra de estar connosco, pág. 12:
«Acontece que as centenas de milhares de portugueses que povoaram os territórios africanos, não eram participantes do aparelho do poder que o Movimento expulsou. Eram trabalhadores esforçados. Nem os centros de decisão lhe pertenciam, nem os abusos eram deles.»
...e mais adiante:
«O problema não é pois de consciência, leve ou pesada dos que fogem, é de sinal ideológico dos que
mandam. Trata-se da fraqueza dos homens, brancos, negros e mestiços, diante da força.»
«Não pode aceitar-se que, nestas circunstâncias, se fale em descolonização modelar, e que por
antecipação fique assente que não há responsáveis pelas consequências. As assinaturas postas nos
documentos de Lusaka que datam o início do processo, não foram assinaturas de estilo.
Ningém foi coagido para querer a qualidade de signatário. Alguns se reclamaram depois, perante o
eleitorado, de com essa intervenção terem posto fim à guerra e trazido os soldados para casa. Ora, as
sequelas do processo também faziam, inelutavelmente parte dos serviços alegados pêlos signatários. Não
foi de descolonização que se tratou. Os retornados são as vítimas visíveis.”
Os espoliados, diríamos nós.
Do mesmo modo, incluíriamos aqui o Acordo do Alvor, cujas implicâncias foram idênticas.
Foi o Estado Português que nomeou os signatários daqueles dois documentos que reduziram muitos milhares de portugueses, dos melhores, à nova condição de usufrutuários da magra pensão da segurança social, escondidos e envergonhados, nos recônditos da sua aldeia natal.
Outros milhares, muitos, fizeram um apelo ao resto das suas forças, causticados pêlos calores tórridos e húmidos, pêlos cacimbos adversos, tantas vezes atolados nas picadas encharcadas por chuvas diluvianas que tudo venceram e voltaram à luta.
Estão espalhados pelo país fora, refazendo as suas vidas, chorando o tempo perdido, os bens de que foram espoliados, fartos alguns, modestos os de muitos mais.
E não os deixaram nos territórios que escolheram para residir, constituir família, ver nascer e crescer os filhos, de ânimo leve. E quantos já nasceram nesses territórios, como já haviam nascido seus pais e avós!
Resistiram, sem armas, enquanto puderam.
A maioria esmagadora desses portugueses nem tempo tiveram para emalar as roupas de todos os dias. Criticavam até os que, mais conscientes ou mais medrosos, se antecipavam e traziam os seus haveres domésticos.
Porque os haveres de raiz, prédios, fábricas, maquinaria agrícola ou industrial, as grandes plantações ou as pequenas quintas e as manadas, tudo isso estava irremediavelmente perdido.
As campanhas de intimidação contra o branco cresciam de tom. Uma estação de rádio estrangeira incitava a população negra a pegar em armas contra a população branca, chegando mesmo a marcar o dia 15 de Maio de 1974 para uma operação concertada.
Felizmente essa voz não foi tão forte como pretendia e havia outras vozes mais moderadas que aconselhavam calma e ponderação, mas por falta de peso próprio acabaram por se perder.
E a violência não passou de atentados isolados, mas reais, especialmente na área dos seus promotores, que apavoravam as pessoas.
O MPLA em Angola e a FRELIMO em Moçambique, intensificaram as suas acções e a sua violência de modo a adquirirem posição de maior relevo para as negociações que se seguiriam.
Também em Moçambique se criaram partidos moderados de que se destacaram o de Lázaro Kavandame e o de Joana Simeão, que não tiveram sucesso.
As campanhas contra o branco aumentavam, a insegurança era cada vez maior. Teimosamente, os brancos iam ficando. Com a eclosão das guerras civis foi o caos. E a debanda inevitável.
Pintando assim, com duas pinceladas, o quadro em Angola e Moçambique, imediatamente antes da saída maciça dos brancos daquelas que também eram as suas terras, voltemos à sua condição actual de espoliados.
Tal como na DECLARAÇÃO DOS DIREITOS DO HOMEM, também a nossa CONSTITUIÇÃO consagra: Art.º 62.º  —
1 — A todos é garantido o direito à propriedade privada e à sua transmissão em vida ou por morte, nos termos da Constituição.
2 — A requisição e a expropriação por utilidade pública só podem ser efectuadas com base na lei e, fora dos casos previstos na Constituição, mediante pagamento de justa indemnização.
A Lei n.º  80/77, de 26 de Outubro, não teve outro objectivo senão o de regular o direito à indemnização:
Art.º 1.º  —
1 — Do direito à propriedade privada, reconhecido pela Constituição, decorre que fora dos casos expressamente previstos na Constituição, toda a nacionalização ou expropriação apenas poderá ser efectuada mediante o pagamento de justa indemnização.
mais adiante, no n.º 6, ainda do art.º 1.º  lê-se:
Na atribuição da indemnização nenhuma descriminação poderá fazer-se entre nacionais e estrangeiros, salvo o disposto na lei presente.
e ainda, no art.º 2.º :
A atribuição das indemnizações a que se refere a presente lei processar-se-á em duas fases uma provisória, outra definitiva.
Esta lei, extensa de 42 artigos, não poderá ser transcrita no âmbito deste trabalho, mas podemos desde já dizer que dela emergem duas preocupações:
A primeira poderá ser dissipada se quem de direito nos puder dar uma resposta a estas duas perguntas?
— Quantos nacionais já foram indemnizados?
— Quantos estrangeiros já foram indemnizados?
Em recente visita a um país estrangeiro, um alto governante do nosso país prometeu aos nacionais do reino visitado que os seus súbditos iam ser indemnizados.
E nós?
O mesmo governante diria, à sua chegada e respondendo a perguntas da comunicação social, que os retornados de Angola e Moçambique tinham muito mais razão porque a maioria deles tinha perdido todos os seus bens (os termos podem não ter sido exactamente estes, mas registámos a sua forma de sentir).
E ocorre-nos perguntar agora: quando passamos à prática de actos concretos?
Temos esperanças sólidas porque assentam em princípios de equidade que nada nem ninguém pode alterar.
Nem o art.º 40.º (é esta a segunda preocupação) que mais parece ter sido forjado para desviar as atenções, consegue abalar as nossas convicções e a nossa determinação.
O ESTADO PORTUGUÊS vai, como pessoa de bem, resolver esta situação, já que foi o mesmo ESTADO, através de medidas revolucionárias, que tiveram a sua época, a criá-las.
E o primeiro passo é banir ou alterar o art.º 40.º
Já o pedimos, estamos a renovar, aqui e agora, o pedido feito. Voltaremos a faze-lo.
As indemnizações são vultosas? Foram vultosos os esbulhos de que fomos vítimas.
O ESTADO PORTUGUÊS não tem dinheiro?
Mas o Estado sabe que o dinheiro nas mãos destes cabouqueiros de países novos, construtores de cidades, abridores de estradas, desbravadores de sertões, criadores de manadas, vai reproduzir-se, criar novas riquezas, abrir mais postos de trabalho.
Algum dinheiro, muitos títulos e obrigações com aceitação na bolsa, com prazos a definir pelo próprio Estado, e eles saberão como geri-los.
Os outros países da Europa já o fizeram ou estão a fazê-lo. Os seus espoliados saboreiam o orgulho de não terem sido marginalizados pelos seus governantes.
Por isso estamos mais fortes. A Europa, onde estamos inseridos de pleno direito, não vai envergonhar-se do seu parceiro mais recente.
E quando chegar o «92», os espoliados do antigo ultramar português sentir-se-ão felizes porque contribuíram com o seu trabalho, o seu saber e a sua experiência, para a plena integração de Portugal.
           As leis poderão ser complicadas, mas a justiça é simples e ela habita os corações dos homens e das mulheres portuguesas.

AINDA O TEMA "RETORNADOS"




Quando em 1974/75 Portugal começou a "descolonização exemplar" das antigas colónias ultramarinas, os portugueses aí residentes foram obrigados a optar entre a "morte ou a fuga"! Foi assim que muitos vieram
parar à "sede da Pátria Lusa", e foram apelidados de "retornados"!
Este termo tinha na altura uma forte carga "discriminatória e humilhante"!
Mas, note-se que este termo foi "arranjado" pelo próprio governo, com a criação do IARN! E se é verdade que muitos desses portugueses retornaram a Portugal, muitos outros não retornaram! Retornar é voltar a..., regressar a,...e esses portugueses que tinham nascido e crescido nas colónias, acabaram por vir parar a Portugal e não retornar!Vem isto a propósito de ontem ter ido almoçar às Caldas da Rainha, almoço de antigos alunos e professores do Xai-Xai, cidade moçambicana que conheci no ano passado quando visitei aquele país! A minha presença ficou a dever-se ao facto da minha mulher ter estudado naquela terra!
E uma vez mais constatei que aquela gente é muito especial pela positiva!
Como sabem, fiz o serviço militar em Moçambique! Foram 2 anos de contacto com as gentes locais, num convivío quase diário e integrei-me perfeitamente na sociedade local! Conheci muita gente, sabia como viviam, o que tinham, pelo que lutavam, e admiráva-os! Vi-os começar a chegar a Porugal, a grande maioria absolutamente sem nada!!!
Pensem um pouco! Se agora uma qualquer convulsão nos obrigasse a fugir das nossas casas e a deixar tudo para trás, como seria a nossa reacção? E teríamos "força" para recomeçar tudo de novo?
Os "retornados" sofreram privações de toda a espécie!Foram apelidados de quase tudo, "morreram e foram obrigados a ressucitar" e agora "olham para trás com uma paixão pelas suas terras, usos e costumes, que as palavras não conseguem descrever"!
A grande maioria dos retornados "deu a volta por cima" e são hoje fonte produtiva de Portugal! Nos últimos tempos, cerca de 200 mil portugueses foram para Angola! Há já quem defenda a teoria que o futuro de Portugal passa pela emigração para aquele país! Provávelmente, muitos desses portugueses são agora "retornados" naquela terra que ajudam a renascer, ao mesmo tempo que ajudam Portugal, por razões óbvias!
E assim, muitos "retornados", depois de espoliados, ainda vão ajudar Portugal....
Obrigado aos "retornados" pelo que têm feito por este país! Aos meus Amigos Moçambicanos um grande abraço e que continuem a alimentar de forma tão admirável, as saudades pelas suas terras" Hambanine!
O tema musical é interpretado pela moçambicana Mariza-"Ó gente da minha terra"
posted by Pedro Cabeçadas

O fenómeno da nossa descolonização: Retornados, Deslocados e Espoliados

JOAQUIM PEREIRA SOARES
Neste anfiteatro da famosa Aula Magna da velha Universidade de Lisboa, não será, pensamos, despropos­itado perguntar: Quem são os retornados, os deslocados e os espoliados, de onde vieram, e porque é que vieram?
Antes de se obter qualquer resposta, talvez seja interessante relembrar que Portugal está a comemorar, cheio de orgulho, os feitos dos seus navegadores: Os Descobrimentos.
Portugueses corajosos, destemidos, com grande iniciativa, foram longe nas suas viagens e trouxeram para o Ocidente o conhecimento de novas terras e novas gentes. O seu contacto com civilizações exóticas e riquezas sem conta, contribuiram imenso para o progresso da humanidade.
Pelas descobertas, terras houve que passaram a pertencer à Nação Portuguesa. E como essa posse «de facto» não fosse suficiente, a posse «de jure» confirmou-a. Portugal e Espanha firmaram um tratado, o de Tordesilhas, como é do conhecimento geral e a voz que mais alto se fazia ouvir nessa época recuada, a do Sumo Pontífice, reconheceu a linha de demarcação então traçada.
Daqui se infere que os retornados que estavam vivendo nos territórios do Ultramar, sob a bandeira das quinas, não podiam ter a menor dúvida de que permaneciam em solo pátrio. Seria lícito esperarem que as suas vidas e haveres fossem respeitadas.
Ainda nos recordamos de ver escrito no tradicional empedrado português em frente à Câmara Municipal de Lourenço Marques: Aqui é Portugal.
Admitamos que nem todos quantos embarcaram para o Ultramar iam para lá com espirito de missão — como então se dizia — por altruísmo ou por desgostos de família, mas que tinham os seus interesses na mira. Mas o que ninguém poderá negar é o esforço português em África, em prol do seu desenvolvimento.
E quem é que poderá negar que os portugueses transformaram terras inóspitas em países pujantes como Angola e Moçambique? Será, realmente, possível dizer-se que os portugueses nada haviam feito? Só por ignorância, por desinformação ou por maldade se poderiam proferir tais atoardas.
E nós podemos afirmá-lo categoricamente, porque vimos, assistimos, durante 55 anos que vivemos em Moçambique, ao seu extraordinário desenvolvimento.
Não fugiremos à tentação de contar as palavras que ouvimos da boca de um diplomata alemão. Ele tinha acabado de chegar do seu país e de ocupar o seu posto. Num almoço que ofereceu,  disse: “Enviei ao meu Governo um relatório em que, em dado momento informei: Depois de ter percorrido algumas regiões e de me ter posto a par da situação neste território, concluí que, pelos padrões europeus e americanos, todos os serviços e nomeadamente os ferroviários, não dispunham nem dos equipamentos nem do número mínimo de técnicos qualificados, mas, a verdade, é que tudo funciona». Para nós, tais palavras representavam o reconhecimento, o elogio do engenho e do esforço dos colonos, do povo português.
Quando se poderia esperar que, de tantos esforços, alguns frutos se colhessem, eis que chega a precipitada descolonização, que alguns inconscientemente classificaram de «exemplar», mas que para aqueles que sofreram na carne os seus efeitos, se tratou de um sismo, de um terramoto, considerando o grande número de pessoas que perderam a vida — e continuam a perder — da forma mais horrorosa, os bens destruídos, as famílias dispersas, destroçadas e os prejuízos de toda a ordem.
Não fora a boa índole dos povos dessas terras e as boas relações existentes entre as etnias e ter-se-ia registado uma verdadeira hecatombe, dado que a população se encontrava indefesa.
A descolonização nos termos em que foi feita provocou o regresso em massa dos retornados. Na verdade foram escorraçados e houve quem os considerasse exploradores quando muitos tinham tirado pão à boca para pagarem às Caixas os empréstimos que tinham pedido para a sua casita, que muito poderia contribuir, na sua velhice, para uma vida melhor, ou para desbravar terras para fazer a sua machamba ou montar a sua oficina.
Desembarcaram esses retornados na sua esmagadora maioria sem dinheiro, sem quaisquer meios de vida. E muito têm sofrido e ainda sofrem para sobreviver nesta terra que é a sua pátria.
A população aqui do continente não se apercebeu do que se estava a passar. Estava totalmente desinformada e manipulada. As riquezas que se haviam perdido eram segredo de poucos. Outro tanto não sucedia com as chancelarias das grandes potências e mesmo das médias. Elas sempre pretenderam, durante séculos, afastar Portugal dessas zonas com grandes riquezas por explorar ou pouco exploradas e de enorme valor estratégico. E conseguiram-no, finalmente, com a inépcia de alguns que agora se recriminam reciprocamente.
Por outro lado, esses portugueses que receberam o epíteto de retornados eram, afinal, os descendentes daqueles que tripularam as caravelas, que constituiram os tércios que protegeram os desembarques nas paragens longínquas, que levaram a civilização peninsular, europeia, a todos os cantos do globo. Foram a alavanca da epopeia de que todos nós nos orgulhamos.
Se os colonos, os retornados, em vez de terem seguido para o Ultramar, tivessem emigrado para a França, Alemanha, Luxemburgo, Estados Unidos, Venezuela, África do Sul, Brasil ou Canadá, ou para outros destinos, teriam conservado os seus bens (e as nossas autoridades, por certo, exigiriam que assim fosse). Como se compreende que o mesmo critério não seja seguido para com eles, quando seguiram para o prolongamento de Portugal, como então oficialmente se dizia. Nós não vivemos num estado de direito?
Quanto aos deslocados, limitar-nos-emos a mencionar que consideramos que são aqueles africanos que nunca tendo partido das praias lusitanas, não poderão ser considerados retornados. Eles vieram para Portugal aos milhares, teriam vindo aos milhões, se isso lhes tivesse sido facilitado. Se nos referimos a eles é unicamente para mostrar, como, ao contrário do que chegou a ser propalado, as melhores relações existiam, à data de descolonização, entre todos os grupos raciais.
Ultimamente começou a falar-se em espoliados. O termo usado agora no nosso país, desde há muito que é empregue nos países que procederam a descolonizações, como a França, a Inglaterra, Itália, etc. Nesses países, os espoliados têm vindo a ser indemnizados por diversas formas.
A nossa descolonização já foi feita há mais de uma década — mas de indemnizações pouco se fala nos círculos dirigentes.
Como vivemos num estado de direito, nós apelamos aos nossos governantes para que se debrucem sobre este problema que interessa a tantos portugueses e que tomem as necessárias providências para que justiça seja feita àqueles que tanto trabalharam para o engrandecimento do nosso País.
Não nos alongaremos com mais pormenores, outros, por certo, neste Congresso, tratarão sobre casos específicos, como a devolução dos dinheiros que foram depositados nos Consulados, reformas para as quais foram feitos descontos obrigatoriamente e com grandes sacrifícios cujos pagamentos foram suspensos, prédios nacion­alizados, empresas intervencionadas, etc., etc.
Terminaremos por afirmar que estamos conscientes de que Portugal ainda hoje não é um pequeno país, se entre os seus filhos houver entreajuda, solidariedade. Em dimensão, em número de habitantes, na Europa ele excede o tamanho da maioria. Em recursos também não é assim tão pobre e a sua situação na Europa é privilegiada. Aproveitemos os nossos recursos e não deixemos a nossa gente estiolar por falta de solidariedade.

RETIRADO DAQUI

Descolonização: Debates parlamentares


 

quinta-feira, 19 de janeiro de 2012

Estudo Sociográfico sobre os "Retornados" do Ultrama: "Retornados" identidades de um grupo in-conformado




Relatório de Investigação em Sociologia da Cultura FEUC, Setembro de 1996
Universidade de Coimbra
Por Claudia Sofia Pinto e Susana Faria


Breve introdução histórica

Ainda que o governo de Marcelo Caetano fosse uma garantia à salvaguarda do  status dos colonos, os portugueses de Angola e Moçambique não se encontravam  satisfeitos com ele. Tal devia-se fundamentalmente às contradições de interesses  econômicos entre Portugal e as colônias e que se centravam nas restrições  impostas ao nível do comércio funcionando como fieio à indústria das colônias.
inicialmente, o 25 de Abril de 74 trazia promessas de democracia e liberdade  que iam ao encontro dos sentimentos separatistas em relação à metrópole. Contudo, os colonos insurgirarn-se contra o rumo dos acontecimentos quando o  Governo de Angola foi entregue à maioria africana. De facto, as alternativas de
uma federação entre Portugal e as colônias, bem como a de uma transição lenta e  gradual para a liberdade não resistiram à pressão do MPLA, FNLA e FRELIMO.  Começa então a avolumar-se entre a comunidade dos colonos urn sentimento  antiportuguês, especialmente visível entre os jovens, que assume a forma de  aversão para com todo um povo, o quai acusam de os ter abandonado à sua sorte.  Para com o Governo, a antipatia remonta às suas intromissões na vida da colônia.  Relativamente aos militares, são acusados de ter pouco interesse em acabar com a  guerra colonial dados os privilégios que esta lhes proporcionava. O 25 de Abril  de 74 e o consequente programa de descolonização sô vêm aumentar esta
aversão. Por fim, o colono português descobre um sentimento entre a gente  portuguesa que lhe é pouco favorável e que resulta da imagem do colono como  um :milionário ou explorador de negros indefesos, não olhando com muita  simpatia o seu irmão que regressa do além-mar.  De facto, embora alguns tenham feito escala em África de Sul ou na Rodésia, a  Metrópole foi o destino da grande maioria dos colonos, com excepção de uma  pequena minoria de técnicos qualificados que ali se radicou, beneficiando de  excelentes condições de emprego. O Brasil foi também um grande acolhedor de  portugueses refugiados do ultramar o que e em grande medida explicado pelos  laços de sangue e cultura que uniam os dois países.

TEXTO INTEGRAL AQUI

A integração dos "retornados" no interior de Portugal: o caso do distrito da Guarda

Em 1975, com o epílogo do Império Colonial, chegaram a Portugal cerca de meio milhão de individuos
que ficaram conhecidos como "retornados" do ultramar. O posterior processo de integração que se pode
contextualizar em fenómenos populacionais semelhantes, decorrentes das descolonizações protagonizadas pelas outras potências coloniais europeias, no nosso país, teve a particularidade de ter sido ultrapassado
com maior rapidez. Uma das explicações para a agilidade com que estes individuos foram assimiliados pelo tecido socioeconómico reside, precisamente na distribuição deste numeroso contingente de pessoas por todo o território nacional. Justificação que, à primeira vista parece paradoxal. Isto, porque as regiões do interior do país neste período, acumulavam factores repulsivos. Assumindo que para o interior terão rumado, essencialmente, aqueles que aí tinham raízes, neste trabalho pretende-se reflectir as incidências do processo de integração destas pessoas no distrito da Guarda, partindo da justificação e sentido que (três décadas depois) deram às suas acções.
Continua....

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quarta-feira, 18 de janeiro de 2012

Angola, entre o mito e realidade...




"Tenho lido com alguma frequencia que Angola era uma terra cheia de oportunidades, o que realmente é verdade, não deixa contudo de ser puro engano dizer-se que bastava alguém ser bom trabalhador para enriquecer. Li recentemente um livro cujo autor diz ter vivido alguns anos em Angola e espanta-me que também ele ajude a passar esta idéia enganadora. Embora seja um romance e por isso à partida classificado de pura ficção, não deixa contudo de cair neste erro. Lê-se ali que um casal chegado a Luanda, em pouco tempo já tinha negócios espalhados por toda a cidade e logo a seguir pelas principais cidades de Angola, isto sem falar da compra de uma "casa" na Vila Alice. Não espantava se esse casal fosse endinheirado e procurasse Angola para investir, o que não é o caso. Por vezes parece que existem duas Angolas diferentes, aquela que eu e a maioria conhecemos e uma outra, onde se chegava e se encontrava prontamente uma "àrvore das patacas" e se enriquecia duma hora para a outra. Eu nasci em Angola e embora houvesse diferenças de classes como na maioria dos países, a verdade é que era necessário muito trabalho para se viver com algum desafogo e a maioria pode atestar que também não dava para se fazerem muitas "avarias". Assim, das duas uma, ou eu e muitos outros fomos pouco inteligentes e nunca soubemos ver os "grandes negócios", ou simplesmente nunca encontramos a tal " árvore das paracas". É bom que se diga a verdade, era uma linda terra, um povo hospitaleiro e humilde, mas quem começasse do nada como o meu pai e muitos outros que ali chegaram na década de 50, mesmo com muito trabalho, nunca chegaram a ter essa tal vida faustosa que se encontram ilustradas nalguns romances. Lá como cá, se houvesse respeito pelo "próximo", creio que as oportunidades eram iguais! "




By Facra Rone in Cubatangola

Regresso às origens: Visita ao Namibe

sexta-feira, 13 de janeiro de 2012

Retornados, espoliados do ultramar...

A surpreendente integracao dos retornados
Fala-se de retornados
Os reporters de si mesmos
Terra de condenados
Retornados, a palavra possivel nascei a 35 anos
Retornados, a palavra possivel nascei a 35 anos 2
O drama dos portugueses espoliados de Mocambique: o direito a indemnizacao de Marta Curto

In Xirico

A Fuga do Huambo


Luís Alberto Fernandes Achega
[30-11-2008] [17182 caracteres]

A queda do muro de Berlim, a transformação que houve no bloco soviético pressagiou uma nova era de esperança que se tem dissipado ano após ano.

O Mundo respirou uma paz que não seria duradoira. Aos nossos dias chegou idade do terrorismo, do fundamentalismo, do tribalismo, da globalização e do capitalismo selvagem em que tudo se justifica pelo dinheiro.

Chegaram novas guerras e, de vez em quando, apercebemo-nos, através da televisão de ondas de refugiados que fogem da guerra. Faço parte duma geração que esteve na chamada guerra colonial. Fui combatente em Angola entre 1967 e 1969. Mais tarde, conheci e vivi, também em Angola, a guerra entre os movimentos de libertação, que provocou uma fuga desordenada duma grande parte da população Angolana.

Há muito que tenho na memória uma época de terror, anotei e guardei recordações para que fique um documento de parte da minha história e das pessoas que me acompanharam.

A revolução de 25 de Abril de 1974, trouxe para a cena política de Angola três movimentos, que até então, combatiam contra o exército Português na clandestinidade: - MPLA, FNLA e UNITA.

Após a revolução, estes três movimentos, com o patrocínio do governo Português, em Alvor, no Algarve, acordaram entre si respeitarem os bens dos Portugueses. Também acordaram apresentar ao povo Angolano as suas ideias, a fim de serem sufragadas em voto secreto. “ Acordo de Alvor a 15 de janeiro de 1975 “.

Como todos sabem nada disso aconteceu. Angola entrou numa longa guerra civil que se prolongou até à morte de Jonas Savimbi em Fevereiro de 2002. Mesmo antes da revolução de Abril, os três movimentos, sempre lutaram uns contra outros, no entanto, a partir de finais de 1974 envolveram-se numa luta sangrenta, com algumas tréguas precárias.

Como consequência dessa guerra, gerou-se uma grande insegurança na população civil, que deu origem à fuga desordenada de grande parte da população. Os combates entre eles, começaram no norte de Angola e em Luanda, mais tarde estenderam-se por todo o território.

Chegavam então ondas de refugiados a Luanda e a Nova Lisboa. Estiveram de passagem na nossa casa o Francisco Meneses, já falecido e o seu genro Rézio com o Pai, também falecido. Eram refugiados do norte de Angola, de Malange.

Através de pontes aéreas dos dois aeroportos internacionais de Luanda e de Nova Lisboa, os refugiados foram transferidos para Portugal. Outros foram por terra até ao Sudoeste Africano e depois África do Sul. Os que estavam ligados à pesca e aos transportes marítimos fugiram de barco, uns também para à África do Sul, outros até ao Brasil.

Muitos morreram ao tentar a fuga, dentro e fora do território de Angola. Assim, de Janeiro de 1975 até Outubro do mesmo ano, pouco tempo antes da independência, Angola foi abandonada por muitos brancos, mestiços, e negros. Ao referir aqui, negros, brancos e mestiços, faço-o sem qualquer intenção de racismo. Não uso a palavra africano, porque a mesma é sempre, ou quase sempre, indicada para referir gente de cor.

Jorge Bem, conhecido cantor Brasileiro, mestiço, diz numa sua canção que nasceu no Brasil por acidente geográfico. Jorge Bem é mestiço mas ninguém diz que o Brasil não é terra de negros. Sem querer fazer história, sabe-se que os autóctones do Brasil são os chamados Índios. Parece-me que o nome de Índios, se deve ao facto de Pedro Álvares Cabral ter pensado que tinha chegado à Índia, quando tinha aportado a Porto Seguro, no Estado da Bahia, no ano de 1498. Ao contrário das Américas, do continente Australiano, da Nova Zelândia, nunca foi ponto assente que os brancos também fazem parte de África. Angola tinha gente branca de várias gerações. Meu filho, Luís Achega, nasceu em Angola, em Nova Lisboa, hoje Huambo.

Antes de 1974, Angola estava com grande crescimento, vou no entanto fazer um pequeno retrato da cidade de Nova Lisboa, que Norton de Matos quis fazer capital do Império Colonial Português. Alguns leitores deste jornal, conheceram a cidade de Nova Lisboa, que era em 1975 a segunda cidade de Angola. Uma cidade nova e moderna com alguns habitantes mais velhos que a própria cidade. A cidade do Huambo foi fundada em 21 de Setembro de 1912. Era uma cidade de grande extensão com avenidas e ruas largas.

Tinha uma grande zona industrial onde, anualmente, havia uma feira internacional, agrícola e industrial, tinha um jardim zoológico, aeroporto internacional, quatro salas de cinema, sede episcopal, muitas igrejas incluindo a igreja de Nossa Senhora de Fátima, três grupos de futebol, um deles o Ferrovia que estava agregado ao caminho-de-ferro de Benguela. Sem ser porto de mar, passavam por Nova Lisboa muitas mercadorias pela citada linha ferroviária, que fornecia e escoava produtos de Angola, da Zâmbia e de uma parte do Zaire.

Nova Lisboa era e ainda é um local estratégico: - A 600 Km de Luanda, a 300 km do importante porto do Lobito, a 400 quilómetros de Sá da Bandeira hoje, Lubango, era passagem obrigatória para o leste de Angola, era ao tempo, um importantíssimo eixo rodoviário e ferroviário. Certamente que em futuro próximo, a capital do Huambo, voltará a ter a importância que teve no passado. O caminho da paz e da esperança está aberto.

Por causa da guerra, da insegurança e da estagnação económica, no final de Julho de 1975 encerrámos a nossa unidade têxtil. Não havia condições para trabalhar. A comida escasseava e a situação piorava dia após dia. Encostado à nossa unidade industrial, estava um destacamento da Unita e os soldados chegaram a passear com as suas armas no interior da nossa fábrica. Não havia ordem nem Lei que mudava conforme a posição de força dos três movimentos. De vez em quando haviam combates entre eles aos quais chegámos a assistir. Pensámos em abandonar Angola, mas por avião havia muita gente em lista de espera, a opção foi ir de carro até à África do Sul e apanhar avião para Portugal.

Também em finais de Julho de 1975, tinha ido pôr meu filho Luís a Luanda para que viesse para Portugal com uma família amiga. Tinha quatro meses o Luís. Vimos, eu e sua mãe, o avião levantar voo e ficámos sem saber se voltaríamos a ver o nosso filho. Correu tudo bem. Passado pouco mais de um mês estávamos de novo juntos em Portugal.

Escolhemos 15 de Agosto para abandonar Nova Lisboa. Eu, Isabel Sana e o João Martins. Tínhamos dois carros com depósitos cheios de gasolina e ainda alguma de reserva, além de mantimentos para a viagem. Haviam ainda mais quatro ou cinco carros de outros fugitivos. De madrugada começámos a nossa fuga e na saída de Nova Lisboa encontrámos uma barreira de militares da Unita. Perguntaram-nos por documentos e pelo salvo-conduto do partido. Demos dinheiro e vinho e passámos sem problema.

Andámos mais 50 quilómetros até Caala onde nova patrulha nos perguntou pelo mesmo. O militar que nos interpelou estava bêbado, no entanto com duas garrafas de vinho e cinco notas de 20$00 não levantou objecções. Passámos depois por Caconda onde tivemos de parar e pagar a portagem como antes e tudo bem. Caconda era uma bela vila agora abandonada, parecia uma cidade fantasma onde somente se viam cães e gatos abandonados. À medida que avançávamos, íamos atestando os depósitos com as nossas próprias reservas para não sermos roubados do precioso líquido.

Passámos a Caluquembe, Cacula, Hoque e sempre a mesma paisagem: - povoações abandonadas com alguns destroços da guerra. Chegámos a Sá da Bandeira sem qualquer problema nos 400 quilómetros percorridos. Foi bom termos escolhido viajar pela manhã. Ao meio-dia, certamente que a maior parte dos militares estaria com uns copos a mais e poderia ser mais complicado o controle. Através dum nosso amigo conseguimos hotel em Sá-da-Bandeira, onde planeámos a partida para a fronteira da Namíbia.

Eram mais 600 quilómetros e já tínhamos resolvido o problema do combustível para a viagem que se adivinhava perigosa. Ouvíamos falar de massacres para os lados de Pereira de Eça que hoje tem o nome de Ondjiva e estávamos com receio. Planeámos de novo a partida agora com um grupo muito mais numeroso. Talvez trinta viaturas. Mais uma vez, bem cedo, ainda noite, abandonámos Sá-da-Bandeira e confiámos na sorte. Não tínhamos armas, a viagem era perigosa, mais para o sul havia guerra, a aventura para o desconhecido estava bem perto, a angústia que seca a boca começou a tomar conta de nós.

Foi num dia frio de Agosto, que partimos de Sá da Bandeira. O caminho afinal estava livre e foi um ver se te avias até ao Sudoeste Africano, hoje Namíbia. Não houve paragens na PICADA de terra batida, na estrada de pó. Penso termos percorrido grande parte da famosa Picada de Calueque. Ao fim da manhã, já tínhamos passado o Chitado. Atravessarmos a ponte sobre o rio Cunene e chegámos à fronteira onde contactámos com os soldados Sul-Africanos. Fomos revistados e seguimos viagem. Passámos por Ombulantu, Ogongo e chegámos a um campo de refugiados em Oshakati. Penso que Oshakati, era ao tempo, território Ovambo que se situava entre a fronteira da Namíbia norte e a fronteira sul de Angola.

Ao chegarmos ao campo de refugiados, fomos desinfectados, mostrámos as vacinas, passaportes e dissemos que poderíamos prosseguir sem auxílio dado que tínhamos dinheiro para a viagem.

A África do Sul tinha uma logística muito bem organizada para dar apoio às vagas sucessivas de refugiados Angolanos. Hoje, através da informação, os Media dão grande destaque aos refugiados da guerra. Nós, portugueses, quando da descolonização, passamos por situações muito graves. Muita gente morreu, muitas famílias foram separadas, muita gente ficou sem os seus haveres. Em campos de refugiados, nasceram crianças e foram sepultadas pessoas. Ao longo do percurso, entre a Namíbia e Johannesburg, haviam campos de acolhimento para os refugiados de Angola. Por interesses da Revolução de Abril, nada ou pouco foi mostrado em Portugal sobre esses campos de refugiados.

Junto à saída do campo de Oshakati, casualmente contactámos um professor de história Sul-Africano que nos levou para um Hotel. Tirámos o pó que era muito, jantámos uma deliciosa carne de vaca grelhada e dormimos tranquilamente. Pela manhã partimos e passámos por Otjiveto, Operet, e chegamos a Tshumed, pequena cidade mineira, onde perguntámos num mini mercado de Portugueses, por um carro nosso que tinha sido utilizado pelo António Farinha, pelo Victor Carvalho e família. O António Farinha e o Victor Carvalho eram funcionários da nossa empresa em Nova Lisboa.

O Carro era um Datsun 1200 que estava num campo de refugiados em Grootfontein. Os utilizadores já tinham vindo para Portugal de avião. Tinha uma chave da viatura, apresentei-me no campo e deram-me o carro. Partimos de novo, agora com três carros. O João Martins com um BMW 1600, a Isabel com um Fiat 124 Sport Coupé e eu com o Datsun 1200. A jornada era longa e metemo-nos a caminho para Windhoek. Passámos por Otavi e fomos dormir num Hotel em Ochivarango. No outro dia passámos por Sukses, Osona e chegamos a Windhoek onde nos instalámos num Hotel. Windhoek era e ainda é a capital da Namíbia. Queríamos enviar o BMW e o FIAT para Portugal. Fomos a um despachante Português, mas o preço que nos deram para o despacho dos dois carros, era tão elevado que não decidimos logo.

Nesse escritório enviámos um telex para Portugal, para Luís Nascimento Silva. Do lado de Portugal, o triquitar do telex respondeu que andavam há quinze dias a tentar saber notícias de nós. As notícias deixaram a família descansada, mas a jornada ainda tinha muito pela frente. De nova Lisboa até Windhoek tínhamos feito cerca de 1.800Km.

Ao passarmos por uma rua de Windhoek vimos uma pequena empresa de exportação de peles de caraculo que tinha as portas abertas para arejar as bonitas peles estendidas em tabuleiros de madeira. Entrámos, conversámos e perguntámos qual seria a maneira mais económica de despacharmos as viaturas para Portugal. A informação dada com simpatia, sugeriu que fossemos procurar um despachante a Walvis Bay.

Assim com os três carros subimos de novo a Osona onde tomámos a direcção de Karib, Arandis, Swakopmund e Walvis Bay. Atravessámos uma zona contígua ao deserto da Namíbia e não posso deixar de salientar a beleza da vegetação, dos animais que vimos. De vez em quando lá estava a Welvitchia-Mirabilis, planta do deserto da Namíbia, a encher com a sua beleza uma terra vermelha e seca como é a terra Africana.

Lembro-me, sobretudo das pequenas vilas onde, apesar da escassez de água, haviam sempre bonitos jardins, das grandes salinas em Walvis Bay e de muitas gaivotas voando junto ao mar. Walvis Bay está situada a cerca de 500km a norte da fronteira da África do Sul. Walvis Bay, (do Afrikaans Walvisbaai, ou seja, Baía das Baleias), é uma importante cidade portuária da Namíbia.

Descoberta em 1487 por Bartolomeu Dias que a denominou "Golfo de Santa Maria da Conceição". A região não foi reclamada para a coroa portuguesa. Walvis Bay, é um porto de águas profundas e comercialmente muito importante, é também um paraíso onde habitam cerca de 100 mil aves marinhas: - gaivotas, flamingos e saracuras.
Ficámos num hotel em Walvis Bay nesse fim-de-semana, e, na segunda-feira despachámos o BMW e o FIAT para Valência no Sul de Espanha.
Em Outubro de 1975 fomos buscar os dois carros a Espanha, eu e o João Martins (Jota).

Regressámos de novo a Windhoek, agora num só carro cheio de bagagem. Contactámos a Luftanza a fim de arranjarmos voo para Portugal. Tínhamos bilhetes da T.A.P. mas fomos informados que não davam para viajar na Luftanza. Assim, com o pequeno e velho Datsun 1200, resolvemos fazer mais 1971 Km para Johannesburg.

Estávamos já na Zona Temperada do Sul, tínhamos atravessado o trópico de Capricórnio um pouco a sul da fronteira do BOTSWAMA e, embora os dias fossem quentes, as noites eram frias e com temperaturas negativas. Ao tempo havia uma crise energética e as gasolineiras somente vendiam combustível das 07H00 até às 18H00. Eram proibidos depósitos suplementares e assim não podíamos caminhar dia e noite. O carro gastava pouco, mas o caminho era longo. Passámos por Mariental, Asab, Keetmanshoop, Marubis, Grunau, Karasburg, Upington, e, finalmente Johannesburg.

No primeiro dia desta caminhada chegámos à noite, penso que a Karasburg e todos os Hotéis estavam repletos. Ficámos no carro, não havia gasolina e fazia muito frio. A meio da noite entrei no Hotel e serviram-nos café quente. Estivemos lá até às 07H00 altura em que abriram as gasolineiras. Foi muito simpático o funcionário de cor do turno da noite daquele Hotel.

A paisagem da extensa caminhada de cerca de 1971 Km era diversa e havia pouco trânsito. Estávamos na época seca. Lembro-me de muita vedação de arame farpado à beira da estrada e muito gado bovino em regime de pastorícia. Aquele país transpirava riqueza e fartura, era realmente um espanto ver tanta comida à solta.

Ao chegarmos a Johannesburg, hospedámo-nos num Hotel de Portugueses na parte alta da cidade. Aproveitámos para conhecer um pouco da cidade com as ruas numeradas como New York. Por ali estivemos alguns dias até embarcarmos para Portugal na TAP com escala em Luanda. O aeroporto de Luanda estava muito degradado, uma tristeza, mas chegámos a Portugal sem problemas.

De Janeiro de 1975 a fins de Agosto do mesmo ano, analisando tudo a uma grande distância, tivemos todos muita sorte. Penso que Deus e o Anjo da Guarda estiveram sempre connosco. Obrigado. Estou a corrigir este documento na data de 2008-10-30. Nas notícias desta manhã, ouvi sobre mais uma crise humanitária no Congo. Milhares de refugiados fogem da guerra.

Regressei com o João Martins a Angola em 1990. Estivemos em Luanda e no Huambo onde visitámos as casas onde vivemos e a Fábrica que construímos. O que vimos ficará para mais tarde.

Passaram mais de trinta anos. Tudo ou quase tudo ficou na memória. Para um melhor rigor sobre a distância percorrida, pedi auxílio à Universidade da Namíbia que gentilmente me forneceu tudo o que necessitei. Para uma maior precisão consultei os mapas do GOOGLE que reconfirmaram as minhas anotações.

Não quero deixar de prestar uma homenagem à Namíbia que é um País maravilhoso. Tem uma costa Atlântica de mar perigoso com muitos recursos pesqueiros, onde, também tem fama pela negativa a Costa dos Esqueletos, (Skeleton Coast). Tem ainda muitos minerais, sendo a maior riqueza os diamantes, existem alguns parques naturais para a vida Selvagem que, felizmente, hoje vimos através de programas televisivos. Tem uma área de 824.790,00 Km2, quase 10 vezes maior que Portugal. Não obstante a sua dimensão, a capital Windhoek, tem cerca de 161.000 habitantes e a sua população é de cerca de 1.648.270 habitantes.

Muito pouca gente para tão grande espaço. Windhoek era na data uma cidade com muitas características Alemãs. Windhoek, era, e ainda é, a capital administrativa do Sudoeste Africano, hoje Namíbia. É uma cidade do interior a cerca de 300km da costa Atlântica. Situada num bonito vale, foi fundada em 1890 e foi quartel-general do exército Alemão na primeira guerra Mundial.

Luís Alberto F. Achega
Origem

segunda-feira, 9 de janeiro de 2012

Sabor de Maboque Dulce Braga no Mais você tv Globo


 
 
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Dois meses depois da revolução portuguesa dos cravos (25 de Abril de 1974) uma jovem nascida e criada no coração de Angola, passa como de costume, suas ultimas férias escolares no verão europeu. Foram três meses de prenúncio, do rebuliço que sua vida seria dali em diante. Com o fim das férias e consequente retorno para a ainda colônia angolana, ela se vê vivendo e temendo por seu grande e primeiro amor, pelos seus amigos, pela sua confortável situação sócio econômica, no epicentro do rodamoinho da guerra civil angolana. É um relato verídico, quase um diário, das perdas, das dores, do medo, da angústia, da luta pela sobrevivência, do desespero e de todas as demais mazelas que as guerras invariavelmente injetam em todos os seus participes, ativos ou passivos. Um ano depois de sua chegada ao Brasil, país para onde fugiu a menos de dois meses do dia da independência de Angola (11 de Novembro de 1975), ninguém mais notava ser ela uma estrangeira. A perda do sotaque juntamente com a hibernação de toda a sua infância e adolescência, foi a maneira pragmática que inconscientemente usou para não ser questionada sobre sua origem e não mexer nas feridas que começavam a cicatrizar. Trinta anos depois o personagem por ela adotado para viver no novo país, que tão carinhosamente a recebeu, dá sinais de esgotamento e como uma árvore sem raízes reclama por elas, para que possa continuar ereta. Essa reivindicação do seu âmago, juntamente com um velho pedido de seu marido e seus filhos para que escrevesse sua experiência de vida, desencadearam um processo de resgate das memórias olfativas, gustativas, sonoras, visuais, emocionas... A erupção desse enorme vulcão, provoca uma profunda catarse e finalmente ela dialoga em paz com o seu pedaço por tantos anos amortecido.

 

 

 


RETIRADO DAQUI

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Angola, a nossa querida terra... (Rodrigues de Caluquembe)

Angola, a nossa querida terra...  (Rodrigues de Caluquembe)


terça-feira, 3 de janeiro de 2012

Público - Há um novo livro que os faz falar

Público - Há um novo livro que os faz falar
http://videos.publico.pt/Default.aspx?Id=bd534a00-6ced-4efa-ac55-96c84f69aed9
  
O Retorno, de Dulce Maria Cardoso, podia ser sobre eles. Como a autora, e as personagens do livro, vieram de Angola na ponte aérea de 1975 ou pouco depois. Trinta e seis anos após a independência, que hoje se comemora, ler este livro foi, para alguns, um esforço, para outros, um alívio. José Nunes e Dina Silva, Ilda Mendes, Maria Adelina Amorim, Francisco e Maria Luísa Nóbrega têm vivências diferentes, mas sentimentos comuns. Como Rui, Lurdes, Glória e Mário e as outras personagens que povoam o quarto romance de Dulce Maria Cardoso, sabem o que é largar tudo, deixar a vida em suspenso. E, para eles, sublinham, não foi um retorno, nem sequer um regresso