sexta-feira, 17 de fevereiro de 2012

ANGOLA - Lobito-Recuerdos

terça-feira, 7 de fevereiro de 2012

A singular experiência dos portugueses na Angola colonial


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 Livro: O "colono simples" visto por um oficial na reserva
Bernardino Louro é o autor de "O Caçador de Brumas, por essa Vida Acima", o primeiro de uma trilogia em defesa do "colono simples"



  "Quando cheguei a Angola em principios de 1961 foi o deslumbramento: um novo mundo se abriu ante meus olhos. Para além da incerteza da guerra e todos os seus horrores encontrei a terra em plena pujança onde as pessoas eram encantadoras, solidárias e com elevado nível de vida. Bastava chegar para se fazerem amigos; amigos que nos receberam de braços abertos. Em Luanda, já uma belíssima cidade, sentia-se por toda a parte o cheiro do mar, o calor das gentes, a beleza escultural das mulheres angolanas, a vida muito barata e as pessoas muito generosas. Para exemplificar, a gasolina custava menos de três escudos o litro, por 2$50 comprava-se um cacho de bananas, comiam-se bifes e ovos estrelados ao pequeno almoço, a cerveja era baratíssima e nem era preciso dinheiro nos restaurantes e bares: passava-se um "vale" e ninguém ficava a dever.  Quando havia dinheiro pagavam-se as conta a trasadas e a vida seguia igual. Um alferes ganhava mais de seil mil escudos: um ordenadão! Esta regra, mantida entre os colonos durante anos, viria a acabar com a chegada maciça dos batalhões. Porém a minha maior surpresa foi a descoberta, vivida dia e noite, do que era o muceque. Tinhamos de patrulhar os diferentes bairros negros, sem luz e onde só havia água nos chafarizes públicos. Num emaranhado de ruas e cubatas encontramos gente sofrida, pacifica e simples, apavorada ante a onda crescente de racismo, que, como a mancha de óleo, se estendia oela cidade suburbana.. Com o passar do tempo as coisas foram acalmando e os rios de ódio secaram. Nos contactos do dia a dia, nas muitas noites passados juntos, estabeleceu-se a convivência, cresceram as cumplicidades e, naturalmente, formaram-se e desenvolverm-se amizades. Foi então o tempo de conhecer a nova cultura negra, descobrir sabores e compartilhar esperanças, na maior parte bem diferentes da missão militar que me tinha sido atribuida. Dou notícia desses tempos numa pequena crónica - do meu outro livrso "Escritas na Areia" - a que chamarei "D. Chica Cambuta". Anos mais tarde comandei uma companhia nas terras dos Luenas; aí tive o previlégio de conhecer a rainha Tchizanda; já velha, mas lúcida, proporcionou-me ter conhecimento dos hábitos e história do seu povo, barbaramente partido pela Conferância de Berlim, vos territórios de Angola e do então Congo Belga.

(...)


"...Penso que, talvez por tudo isto pertencer à História recente, nunca ninguém contou o que foi o viver das gentes simples, sem políticas, só com trabalho. Tentaram fazer das terras de Angola a sua terra. Muito mais do que serem colonos, esta gente irmanou-se com os que  lá estavam há muitos séculos e tentaram ter uma vida melhor.  Erraram, quando tentaram assumir-se como colonos ao geito belga ou inglês. Esta gente humilde, condenados e aventureiros, muitos a fugir à fome, entrou pelo mato a dentro, perfilhou os filhos, mandou-os estudar na Universidade, arroteou a terra, levantou pontes, ganhou dinheiro, e com o suor e lágrimas humedeceram a terra onde, tantas vezes com as próprias mãos abriram covas para os filhos mortos. Assim se amarraram a essa mesma terra que julgavam fosse sua, pois assim lhes haviam garantido os seus senhores.

Com a ajuda de missionários de várias religiões cristãs, com o apoio dos técnicos que foram chegando, funcionários administrativos e até exilados políticos, rasgaram-se caminhos e estradas, ajudaram-se a construir Igrejas, escolas, hospitais, ergueram aldeias, vilas e cidades e, todos fizeram de Angola a nação próspera e rica que deixaram para as independências. Quando hoje, por vezes esta gente anónima é falada, é só para ser enxovalhada e rotulada de negreiros e exploradores.

Porque sempre foram gente boa, e parte deles foram sangue do meu sangue e amigos do coração, entendi ser importante -pelo menos no meu fraco entender - que alguém contasse, sem preconceitos ou enviusamentos políticos, o que foi de facto a sua história. Foi essa a tarefa a que me propus. Muitos dos factos por mim narrados posso deles dar testemunho; foram presenciados em diferentes locais durante mais de 10 anos de mobilização militar em África.

parte de um texto assinado por Antunes de Sousa
"À sombra da amizade". Conversa com Bernardino Louro
O texto integral poderá ser lido, clicando AQUI


sexta-feira, 3 de fevereiro de 2012

Adeus à cidade do Luso (Luena) no leste de Angola... 1975


GREAT EVASION POPULATION LUENA EAST ANGOLA 1975 por kutemba

1975. Retornados, espoliados do Ultramar: O último ano em Angola

O último ano em Angola

O meu último ano em Angola foi muito conturbado.
Vivia em Luanda no Bº Salazar que era em grande paryte rodeado por quarteis portugueses, mas entre o Bº o o sitio onde trabalhava; Hospital Universitário junto ao Hospital de S. Paulo, passava pelas delegações dos três movimentos de libertação, (MPLA,FNLA e UNITA), que não se entendiam e se guerreavam uns aos outros na ância de tomada do poder.
Havia dias que era um inferno chegar ao Hospital com balas vindas não se sabia de onde, quantas vezes ao chegar havia de tudo pelos corredores mortos, feridos e sangue pelo chão.
O Hospital era quase todos os dias atingido por balas que furavam os vidos, sempre pensei que um vidro atingido por uma bala se partisse todo, mas não ficavam apenas os buracos do tamanho das balas. por duas vezes foi bombardeado tendo morrido um colega que trabalhava no 2º andar.
Eu trabalhava mesmo á entrada e eu e minhas colegas chegamos a andar de cócoras pois havia balas a bater na frontaria do prédio, após o bombardeamento fomos durante uma semana para o Hospital Maria Pia,
após o exercito ter garantido a segurança do Hospital voltamos mas tudi tinha sido saqueado até as fotos de familiares que alguns tinham nas secretárias tinham desaparecido.
Por duas vezes chegou ao hospital o boato de que grupos armados corriam em direcção ao Bº Salazar para tomarem as casas, eu desesperada pois a minha filhinha con um ano ali ficava com uma vizinha
lá pedia autorização e pegava no carro e ía ver da minha menina, graças a Deus das 2 vezez não passou de boato, (Omeu carro chegou a ser atingido por uma bala e pedras).
Foi um mau bocado, Luanda naquela altula era um inferno, todo o dia e toda a noite era passado ao som de tiros e bombardeamentos, o que valia por um lado era a falta de noção de como utilizar o material bélico que lhes foi metido nas mãos nem sei por quem porque quando começaram a chegar a Luanda não tinham armamento quase nenhum e o que tinham estava absoleto, então de noite era um autentico arraial porque eles usavam balas tracejantes e a maior parte disparadas para o alto quando caiam já era por força da gravidade, os bombardeamentos a maior parte não faço ideia de onde caíam, nuna casa perto de min caiu ama granada de morteiro mas foi no quintal não fez qualquer vitima.
as casas mortuárias estavam a abarrotar de corpos de tal maneira que na do Hospital Maria Pia já nem os punham lá dentro estavam vários pelo chão cá fora, era um cheiro insuportável.
Perante esta insegurança no inicio de agosto de 75 resolvi mandar a minha bébé, na altura já com 2 anos, para Portugal com uma irmã do meu marido, mas as saudades daquele pedacinho de gente que era toda a minha vida não me largavam e em fins de setembro, já grávida do meu 2º filho, vim para Portugal num avião da Força Area pois que um cunhado meu ali era militar.
Meu marido ficou veio para assistir ao nascimento do filho mas passadas 2 semanas de cá estar recebemos a noticia de que a nossa casa tinha sido ocupada por um qualquer militar das Faplas e assim resolvemos não voltar para Angola para grande desgosto nosso.



Zézita 

O último ano em Angola

O meu último ano em Angola foi, como seria de esperar, cheio de expectativas. Tinha nove anos, sabia que o nosso destino seria Portugal. Portugal esse que eu imaginava igual às ilustrações que havia nas latas de chocolates da Macintosh, damas antigas, charretes, enfim tudo a que a imaginação de uma criança tem direito.

Para o meu pai, como para todos os adultos que dedicaram uma vida de trabalho e sacrificios a Angola, foi muito difícil decidir-se a partir. Para o pressionarmos, íamos para a varanda da nossa casa à noite, e quando os meus pais já estavam deitados, estouravamos fitas de fulminantes com uma pedrita, na esperança de que ele se assustasse e se decidisse de uma vez por todas a partir.

Por fim deixamos o Chinguar, rumo a Nova Lisboa, juntamente com uma tia materna, o marido e os três filhos, eramos onze no total. Aí vivemos um tempo enquanto aguardavamos pelo nosso voo na ponte aérea. O nosso era o Voo 404. Como é óbvio, as carências já se notavam muito. Lembro-me de irmos à confeitaria Nandinha e comprarmos bolos porque havia dias em que não tinham pão. O pior eram os meus primos que já mais cresciditos, e fumando à sucapa, se viam à nora para arranjar um cigarrito.

Saímos de Nova Lisboa, no dia em que o Savimbi anunciou que, até ao meio-dia desse dia, todos os angolanos que pretendessem deixar Angola teriam de o fazer. Eramos todos à excepção do meu pai que nessa altura tinha ido a Moçamedes despachar o carro, cuja venda, mais tarde nos valeu para recomeçar a nossa vida. Os que eram angolanos fugiram para o aeroporto de Nova Lisboa, onde estivemos fechados durante 11 horas num hangar até que, por fim, encontramos no meio da imensa multidão o meu pai que nos procurava.

Não guardo rancor nem ódios, guardo sim recordações.

Renata 

O último ano em Angola

O meu ultimo ano em Angola, começou muito bem.Em Março fomos de férias a Benguela,e depois pegamos na estrada e fomos por ai fora até Luanda, onde jogamos no Totobola e ganhamos 10.000 escudos.Que festa!Foram umas férias de borla!Mal sabia eu o que me esperava quando voltei de férias.Estava a trabalhar no Governo do Distrito do Cunene, quando no dia 25 de Abril cheguei ao serviço e vi todo um alvoroço! Toda a malta feliz!Como se devem lembrar, só ouviamos as noticias pela rádio.Eu não sabia o que se passava.Perguntei e lá me explicaram que se tinha dado uma revolução em Portugal e que nós (Angola) ia ser independente!
Eu sem saber o que pensar (pois só tinha 0s meus 22 ingénuos anos)e o que aquilo queria dizer... Sentei-me e instalou-se no meu peito uma tristeza que ainda hoje não sei de onde veio, talvez só mesmo o meu sexto sentido.Comecei a chorar no meio daquela alegria toda! Mais tarde todos me deram razão , era realmente para chorarmos não para festejar!
A verdade é que a 22 de Julho lá arrumei as minhas imbambas e rumei em direcção ao Sudoeste Africano como refugiada politica. 
Lisete
Maria Jose Mendes Leitao e Vasconcelos de Carvalho


Repatriados - A geração de ouro dos retornados

CORREIO DA MANHÃ -2004-04-25
MAIS FORTES QUE O DESTINO
A maioria chegou a Portugal com uma certeza: tinham de recomeçar a sua vida do zero. Chamavam-lhes retornados, nome ainda hoje pejorativo. Mas foram eles que acordaram um país dormente, com a alegria trazida de uma África onde começavam a cair tiros de morteiro.

Sempre que ela entrava com uma chávena de chá às tantas da madrugada na sala de reuniões, o fumo de tabaco parecia evaporar-se. O semblante carregado dos ministros que discutiam os destinos da jovem democracia transformava-se num enorme sorriso. “Você parece uma gazela. Ainda vai fazer cair o Governo”, gracejava o primeiro-ministro Mário Soares à exótica moçambicana de 20 anos. Quando passavam por ela nos corredores de São Bento, havia políticos que cantarolavam: ‘Gabrieeela!’. Os longos cabelos, a tez morena e a sua beleza felina faziam de Yolanda uma sósia perfeita de Sónia Braga – a actriz brasileira que brilhava na primeira novela transmitida em Portugal. “Tive sorte. Três anos depois de chegar a Portugal fui trabalhar para o I Governo Constitucional, em 1977. Era uma das secretárias de Soares”, conta.
Yolanda veio da Beira, Moçambique, para um tratamento cardíaco. Com os estilhaços da revolução acabou por ficar. “Havia manifestações por ‘dá cá aquela palha’, papéis por todo o lado, cartazes nas paredes e cuspia-se no chão. Passou-se do 8 para o 80 mas as pessoas pareciam felizes.”
Em São Bento, o ritmo não era menos acelerado. “Ficávamos à noite a dormitar nos corredores à espera de sermos acordadas para redigir um decreto-lei à máquina.” Era por isso que andava sempre acompanhada com uma providente escova de dentes. Yolanda acabaria por trocar a turbulência da política pelos flashes da 'passerelle' e hoje é uma empresária de sucesso. Pelo meio, foi considerada uma das mais elegantes mulheres do País. Mas por mais anos que passem, não consegue esquecer a imagem de dezenas de conterrâneos a descer as escadas dos Boeings do aeroporto da Portela, em 1975. “Foram recebidos com o calor de mantas e bebidas, mas a maioria deles sentia uma enorme insegurança porque tinham de recomeçar a sua vida do zero.”
Entre essa massa anónima de pessoas de destino incerto encontrava-se Ribeiro Cristóvão, a sua mulher e os três filhos menores. “Mantive-me em Angola quase até à independência. Acreditava que apesar das alterações radicais haveria lugar para todos. Enganei-me.” No final de 1975, abandona o seu emprego na cervejeira Cuca (que ainda hoje existe) e a sua casa em Nova Lisboa. “Fui obrigado a viajar para Portugal, espoliado de todos os meus haveres”, desabafa em tom inconformado.
O homem do desporto da Rádio Renascença confessa que os primeiros três meses passados em Lisboa foram os mais difíceis da sua vida. E sem o abrigo na casa da sua irmã em Alcochete, a sua história estaria hoje pintada em tons ainda mais negros. “Recordo-me de calcorrear a cidade à procura de emprego, sem sorte nenhuma. Estava desesperado.”
No primeiro Natal na capital, Ribeiro Cristóvão afundou-se numa tristeza profunda. Ali estava ele, rodeado com a sua família mas com a árvore despida de presentes. “Não tinha nada para dar aos meus filhos.” O rótulo de retornado teimava em fechar-lhe portas. “Havia má vontade entre os portugueses da metrópole que tinham medo que lhes roubássemos os empregos. Andei com este ferrete durante anos.” Um dia, porém, o habitual ‘não’ deu lugar a um surpreendente ‘sim’. A Rádio Renascença abria-lhe portas ao admirável mundo novo do jornalismo.
FUGIR DE TIROS DE MORTEIROS
“Os 500 mil retornados, que representavam 5 por cento da população portuguesa, foram o maior fenómeno de repatriamento da Europa do pós-guerra”, conclui o sociólogo Rui Pena Pires, também ele repatriado de Angola. Dos que regressaram, 33 por cento veio de Moçambique e 61 por cento de Angola.
“Grande parte destas pessoas, que emigraram de Portugal para África nos anos 60, tinham qualificações bastante elevadas.” Pena Pires dá um exemplo: enquanto a taxa de analfabetos era de 30 por cento na metrópole, entre os retornados não ultrapassava os 2 por cento.
“Entre 1974 e 1975, as ex-colónias viram-se desprovidas de quadros administrativos e técnicos qualificados, que foram o motor do desenvolvimento desses países. E Portugal tinha de absorver toda esta gente”, defende o docente. Mas o facto do país atravessar uma convulsão social, veio acabar por facilitar a sua integração. “Chegaram a uma sociedade maleável em termos de hierarquias. Tudo estava em aberto. Em 1976, já havia presidentes de Câmara provenientes das ex-colónias, algo que não aconteceu noutros países da Europa.” Segundo o professor do ISCTE, que publicou um trabalho sobre os retornados, o repatriamento de Angola foi mais célere devido ao clima de guerra civil, bastante pior do que em Moçambique.
Dados que conferem com o relato pormenorizado de Emídio Rangel, jornalista nascido em Lubango em 1946 e uma das vozes da Rádio Comercial de Angola. “A probabilidade de sobreviver ao tiroteio de morteiros, canhões e outras armas de grande calibre dos exércitos do MPLA e UNITA, era baixa. Ainda por cima estava desarmado.”
O risco era enorme mas Rangel não tinha outra saída. Em apenas 48 horas conseguiu fugir de Luanda, sem um beliscão. “Só tinha a roupa que vestia.” A 1 de Setembro de 1975 estava numa Lisboa diferente daquela que já conhecia de outras épocas. “A cidade de conspirações de Marcelo Caetano transformara-se na capital de golpes, contra-golpes e intervenções militares.”
Emídio Rangel não perdeu tempo a contemplar o ambiente de efervescência política. Em dois dias, já vendia enciclopédias para poder ganhar a vida. “Eram em inglês, o que não as tornava muito populares”, ironiza. A sua missão em espalhar cultura porta a porta não durou muito tempo. Meses depois, ficava em segundo lugar num concurso público para a RDP – Radiodifusão Portuguesa. A TSF e a SIC seriam as suas próximas estações.
'MALTA, EU VENHO PARA A PORRADA!'
Lídia Jorge aventurou-se por terras de África antes de 1974. A escritora, natural de Boliqueime, decidiu dar aulas no ensino secundário aos jovens de Moçambique em plena guerra civil. O seu faro apurado detectou logo à chegada um grande mal-estar naquela sociedade que parecia viver à beira do abismo. “Havia algo de trágico e de errado. Tinha a sensação de que bastaria atear-se qualquer coisa para haver uma mudança radical.”
Mudança a que já não assistiu porque teve de abandonar o país em Agosto de 1974. “Por mim, podia ter feito a vida em África”, suspira. Em pleno PREC, assistiu a episódios caricatos, como o de professores ensinarem palavrões aos alunos. “Durante o 11 de Março de 1975, uma colega minha do liceu D. João de Castro, vestida de ‘jeans’ e casaco de cabedal, irrompeu entre os estudantes aos berros: ‘Malta, eu venho para a porrada!’”
Lídia Jorge ainda se recorda com nostalgia da anarquia e alegria extraordinárias. “O aumento da liberdade trouxe consigo a libertinagem.” Corria-se para o cinema para ver filmes pornográficos, antes proibidos pela censura, vestia-se de forma desportiva quando a ocasião era de cerimónia. “As casas de pronto-a-vestir tiveram o seu grande período de crise porque era quase regra aparecer-se pouco arranjado.”
Que o diga Augustus, criador de alta-costura, que aterrou em Lisboa em 1976, proveniente de Luanda, onde vivia e tinha uma das suas lojas de roupa. “Nesse período, a moda era considerado algo de fútil.” Viviam-se os tempos dos intelectuais da revolução, que se vestiam todos de igual, fossem homens ou mulheres: camisolas de gola alta, botas alentejanas e as inseparáveis calças de ganga.
Apesar de vigorar a moda unissexo, António Augusto Ferreira, decidiu arriscar e abrir um ‘atelier’ na capital portuguesa. E não se arrependeu. “A vida social em Lisboa era menos agitada: não havia almoçaradas com amigos, idas à praia ou à discoteca, como em Angola.”
Como trouxera três carros da ex-colónia, não tinha espaço para todos na garagem, na sua casa da Lapa. Resultado: diariamente os vidros do seu vistoso Chevrolet Camaro, eram pintados com a palavra ‘fascista’. Só muito mais tarde é que descobriu o autor das palavras de ordem: “Era apenas um rapaz que andava no liceu. Divertia-se com aquilo ”
DO DESEMPREGO PARA O GOVERNO
Quando a autodeterminação das colónias parecia um facto consumado, Manuel Antunes foi um dos 30 mil portugueses que preferiu rumar para sul e não para a metrópole. O director do Serviço de Cirurgia Cardiotorácica dos Hospitais da Universidade de Coimbra vivia em Moçambique desde 1954, altura da primeira vaga de emigrantes. “Na escola primária, o meu colega de carteira era negro. E não sentia qualquer tipo de racismo”, lembra o médico, que se insurge contra as mentiras que se têm dito (e escrito) sobre a dita mentalidade colonial dos portugueses. “Nós é que acabámos por ser prejudicados no processo de descolonização.”
A sua família teve de deixar para trás propriedades, moradias e um negócio próspero de construção civil. Em troca? Uma mão cheia de nada. Até 1988, preferiu ficar em África do Sul, onde praticava medicina e só então veio para Coimbra, onde tem desenvolvido uma intensa actividade científica. “Não sobrou nada. Nem o espírito de entreajuda típico dos que viviam em Moçambique. As pessoas acabaram por se dispersar pelas aldeias onde tinham família. Quem não tinha meios ficava em pensões e hotéis em Lisboa.”
António Cardoso e Cunha, nascido em Leiria em 1934, não tem a mesma opinião do médico coimbrão. “A rede de solidariedade entre os retornados foi flagrante, notória e permanente.” Em Angola, o gestor era já uma pessoa influente – como presidente da Câmara de Comércio e membro da Assembleia Legislativa. E nas vésperas da manifestação da ‘Maioria Silenciosa’ (o 28 de Setembro) chegou mesmo a vir a Lisboa com uma delegação de políticos angolanos para reunir com o general Spínola. Eram os anos quentes da transição. “Durante a minha vida em Angola vim regularmente à capital pelo que acompanhei as evoluções da vida nacional”, declara o ex-comissário da Expo’98.
Em 1977, juntou-se ao grupo de repatriados e fixou-se em Portugal. “Mantive actividade pessoal na medida das oportunidades, limitadas pela conjuntura económica. Contudo não perdi a experiência e as capacidades empresariais que desenvolvi em Angola.” Um ano depois, o actual ‘chairman’ da TAP era já nomeado secretário de Estado do Comércio Externo, depois da crise governamental do executivo de Nobre da Costa: “Exemplo curioso da turbulência da época – passei de desempregado a membro do Governo.” Cardoso e Cunha não foi caso isolado. Outros portugueses das ex-colónias haviam de se destacar nos executivos que se seguiram. No jornalismo, na gestão ou na advocacia, os quentes ventos de África também se fizeram sentir. Homens como Vítor Ramalho, Alexandre Relvas, Jorge Armindo, David Borges ou Victor Sá Machado conseguiram fintar o destino. Talvez um dia sejam conhecidos como a geração de ouro dos repatriados.
ANTÓNIO FEIO - REGRESSO ÀS ORIGENS
“Onde é que eu estava no 25 de Abril? Bem, a tentar embarcar no avião para Lisboa.” António Feio, então com 20 anos, vinha de uma 'tournée' com o grupo de Teatro Experimental de Cascais e estava com os colegas em Lourenço Marques. “Percebemos logo que algo de errado se passava na metrópole.” O actor acabou por ser obrigado a ficar mais um mês na sua terra natal, de onde saíra aos sete anos. Durante a juventude viveu sempre com um pé em Lisboa e outro em Lourenço Marques. “Tinha a noção de duas realidades distintas.” Em África, o estilo de vida dos portugueses era mais descontraído. “É tudo muito grande.” António Feio recorda-se de fazer 1200 quilómetros de carro só para jantar com os amigos, com toda a naturalidade. Na capital alfacinha, tudo era mais cáustico e violento, principalmente durante os anos do PREC. “Foi uma época conturbada para o bem e para o mal.” Depois dessa viagem atribulada em 1974, só voltaria a pisar Lourenço Marques quase vinte anos depois. “Não tive desilusões. Já me tinham pintado um cenário demasiado negro.” Do passado guarda uma fotografia a preto-e-branco com uma irmã de Maria Rueff. “Os pais da Maria tomavam conta de um hotel, onde a minha família viveu durante um certo período.”
Hugo Franco

VIDAS QUE FICARAM LÁ

CORREIO DA MANHÃ - 2004-04-25
25 de Abril – Os espoliados das ex-colónias
Há o campeão de boxe que agora vive num quarto alugado; ou a descendente de princesa hoje confinada às paredes húmidas de um apartamento em Chelas. E há mais, 920 mil histórias de pessoas que perderam tudo, ou quase, depois da revolução.

Wing Wa está sentado num canto esquecido à espera do maior combate da sua vida. Mas o gongo tarda em soar. Aos 74 anos, a morar num quarto alugado na Margem Sul, resta-lhe pouco da glória que o tornou um dos melhores pugilistas portugueses de Moçambique nos anos 40 e 50. A fama do seu gancho de esquerda estendia-se da Beira a Joanesburgo, passando pela então Rodésia, só que a história apanhou-o de surpresa e desferiu-lhe um golpe certeiro. A 10 de Janeiro de 1976, o atleta carpinteiro de origem chinesa aterrou em Lisboa, para nunca mais voltar a África. “Era a minha terra”, recorda. Milhares de pessoas dizem o mesmo de outras tantas vilas e cidades angolanas e moçambicanas que abandonaram nos anos seguintes ao 25 de Abril de 1974. Mas a saudade não foi a única coisa a ficar por lá, a um oceano de distância. Ficaram casas, carros, fábricas. E ficaram vidas. Muitas delas para sempre.
Chama-se Maria Helena de Vasconcelos e Sá, neta de um bisneto de uma princesa de Castela. Estudou Antropologia na faculdade, até ao segundo ano, numa altura em que eram raras as mulheres nas cadeiras do saber. Tem 73 anos. “Fui para África com um ano e fiquei até ter dez ou onze anos. Depois, vim estudar para Portugal e, após a morte do meu pai acabei por regressar”, conta, sentada à beira de uma fotografia do menino que seria seu avô, José Maria Belchior da Cruz de Faria e Sousa de Vasconcelos e Sá.
Como funcionária dos correios esteve em Maputo, em Quelimane e em Nampula. Casou e foi mãe, sempre embalada pela vida e pelos feitos dos antepassados. Como o avô, que ajudou a construir um farol e que derrotou um tubarão moçambicano a golpes de catana. Ou o primo que era comandante da Força Aérea. “Tenho muitas saudades de Moçambique, não me adapto a Portugal. A vida era totalmente diferente.” A mudança começou em 1974. “Depois de Abril, a coisa começou a ficar confusa. Um dia, tive de sair do serviço debaixo de um tiroteio. Eu via as pessoas passarem a escorrer sangue”, recorda, a 30 anos de distância.
Os tremores que a atacaram nessa tarde, não os consegue esquecer. Foram o primeiro sinal. Dois anos depois, numa madrugada fria de Outubro, aterrava em Portugal. Outra vez. “Eu não tinha muita coisa lá. Havia um terreno, bom, que tive de vender muito barato, quase dado.” Como era funcionária pública, foi reintegrada e ao fim de pouco tempo estava de novo a trabalhar. Mas vida voltou a trocar-lhe as voltas. Sem marido, tinha 15 contos para viver e ajudar o filho. “A única forma foi inscrever-me nas casas da câmara. E eles mandaram-me para aqui”, explica Maria Helena de Vasconcelos e Sá, neta de um bisneto de uma princesa de Castela, que hoje vive num andar em Chelas, com dois cafés à porta e as paredes carregadas de humidade.
A GUERRA DOS NÚMEROS
Ao certo, ninguém sabe quantos portugueses abandonaram as ex-províncias do Ultramar, entre 1974 e 1976, rumo a Lisboa. No quinto andar de um prédio junto ao Terreiro do Paço, duas associações de espoliados, a de Angola (AEANG) e a de Moçambique (AEMO), fazem todos os dias as contas aos últimos trinta anos. “Não há uma estatística exacta do número de pessoas que deixaram Moçambique”, admite Eduardo Alves, presidente da AEMO. “Mas o número de espoliados rondará as 85 mil famílias, ou 320 mil pessoas.” Na sala ao lado, Lucas Martins empenha-se na luta dos angolanos. “Penso que foram apresentadas perto de 80 mil relações de bens que ficaram em Angola, a que corresponderão quase 600 mil pessoas.”
Quatro eram a família Mota Almeida. “Nasci em Luanda em 1965”, começa por contar Fátima, a filha mais nova. Até aos dez anos, a sua vida foi igual à de tantas outras crianças. “Como era a vida... O calor, o andar na rua de pé descalço, de cuecas. Ninguém olhava, ninguém ligava. Se aparecia um conhecido, ficava lá em casa uma semana, duas, meses. Ninguém ligava a nada.” Antes de dizer como tudo é diferente, como sente saudades do calor, espreita para a rua pela janela do seu cabeleireiro em Campo de Ourique. “Imagine o que era fazer isso aqui. Chamavam-me logo maluca.”
Não é o melhor adjectivo. Aos dez anos, a vida de Fátima tornou-se diferente da de todas as crianças. “Quando vim para Lisboa, foi a primeira vez que andei de avião. Adorei. O que me impressionou mais quando cheguei foi estar sozinha. A hospedeira é que me entregou. Havia muitas pessoas à espera, com cartazes e nomes. Sabia que ia ter com um tio meu, que não conhecia, chamado Hermínio.” Chegou uma menina, com roupas e bonecas, que foi morar para Corroios.
A seguir veio a irmã. Depois a mãe e o pai quando conseguiram voo em Luanda. Durante quatro anos viveram cada um em sua casa. “As primeiras semanas foram muito dolorosas, chorava todos os dias. Estávamos todos separados porque não tínhamos onde ficar. É normal, não é?”. Para trás ficava a moradia de esquina perto de Luanda, onde nas piores noites de tiroteio se andava de gatas do quarto para a cozinha e de volta. “Às vezes, eu ficava ali sozinha, punha uma almofada no chão e deitava-me a ver os tiros passar...” Foi quando os disparos se tornaram demasiado intensos que a família escolheu voltar. “Eu era pequena, mas acho que a minha irmã e os meus pais sofreram imenso. Eles deixaram lá tudo, abandonaram tudo. Casa, terrenos, a vida toda.”
Aos 39 anos, Fátima faz o que pode para evitar que também a memória desapareça. Não, não é só o caderno onde estão anotadas as datas e que folheia nervosa. Baptizou o filho com o nome do seu pai, Bernardo. Avô e neto nunca se conheceram, Bernardo, o mais velho, morreu nove anos depois de ter chegado a Portugal. “Falo muito de Angola com o meu filho. Conto-lhe como era o avô, como ele ajudou a construir muitas coisas, inclusive a Igreja onde fui baptizada. Quando puder, quero regressar.” O que Fátima também não quer esquecer é o calor, o cheiro da maresia, da terra molhada, das plantas.
TAMBÉM HÁ VITÓRIAS
África entrou na vida de Artur Catarino aos 30 anos. “Fui para lá e comecei do nada. Mas fiz uma obra que ficou, digna de se ver ainda hoje”, garante o administrador da Progelcone, a empresa especializada no fabrico de cones para gelados que emprega 120 pessoas na zona de Cascais e que Artur Catarino criou, quase a partir do nada, depois de regressar a Portugal. “Saí da universidade aos 11 anos. Fiz a quarta classe em Mação, Abrantes, e vim trabalhar para Lisboa. Fiquei quinze anos numa firma de distribuição de queijos e carnes. Em 1965, ofereci-me para ir para Moçambique.”
Cinco anos depois, o negócio prosperava na Matola, perto de Maputo. De tal modo que, quando foi proibida a importação de carne de porco da metrópole, Artur Catarino teve condições para abrir a sua fábrica. A Bomsuíno, que continuou a crescer. A 24 de Abril de 1974 saiu de Maputo com a mulher a caminho da Alemanha, para comprar máquinas. Estava prevista uma paragem em Lisboa. A revolução apanhou-os. “Parte daquelas máquinas, quando chegaram a Moçambique, já eu lá não estava.”
Artur soube que era altura de deixar a África durante uma reunião na fábrica em Outubro de 1975. “Um dia, a Frelimo foi lá e um dos tipos, a dada altura, diz aos trabalhadores: ‘Camaradas, isto que está aqui é vosso. Vocês é que construíram a fábrica, vocês é que trabalham, têm de aprender a administrar’. E foi aí que tomei a decisão.” Uma semana depois, Artur chegou a casa à hora do almoço e disse à mulher: “‘Prepara a mala, porque daqui a bocado vamos embora’. Duas horas depois estávamos a caminho da Suazilândia.”
Aos 68 anos, Artur Catarino continua a fazer um horário das oito às dez da noite. “Comecei a trabalhar muito cedo, fui para Moçambique trabalhar, voltei para Portugal e vim trabalhar.” Há 30 anos perdeu quase tudo. Recompôs-se. “A valores de hoje, tudo o que lá deixei valia mais de um milhão de contos. Mas nunca pensei em receber dali fosse o que fosse. Eles dizem que não mandaram ninguém embora e a verdade é essa. Só que proporcionaram para que eu me viesse embora. A situação estava insustentável.”
QUANTO VALE UM PAÍS?
As duas associações que lutam pelos direitos dos espoliados não arriscam sequer um número quando se trata de saber o valor das indemnizações que, defendem, são devidas a quem veio de África. “Quanto vale um país? Quanto valem os edifícios nas principais cidades de Angola? E os terrenos? E as fábricas?”, pergunta, respondendo, Lucas Martins. A AEANG apoia 1400 pessoas que decidiram fazer as contas e avançar com processos contra o Estado português. Na sala de Moçambique, os processos são menos de vinte. “São modos diferentes de lutar”, explica Eduardo Alves, da AEMO. Mas ao fim de alguns anos de avanços e recuos nos tribunais, as duas associações estão de acordo num ponto fundamental. “A solução para este problema tem de ser tomada a nível político”, resume o presidente da AEMO.
Seja qual for a verba, o mais certo é que se escreva em milhões. “Não podemos exigir, ainda para mais na situação actual em que o erário público está que seja tudo pago”, admite Eduardo Alves. Nos diversos contactos políticos que têm mantido já fizeram as sugestões mais diversas. Pagamentos faseados, pagamentos através de títulos da dívida pública negociáveis em bolsa, pagamentos em forma de pensão. “A coisa está sempre em fase de estudo. Mas nunca avança”, desabafa Lucas Martins. “Neste momento a contagem do tempo de reforma dos espoliados – não os que estavam na função pública mas os particulares –, seria uma espécie de primeiro passo”, diz. Eduardo Alves subscreve.
Um e outro conhecem histórias. A de Rogério Ferreira, por exemplo, que, como conta, começou a vida aos 44 anos. Hoje tem 72 anos e continua a trabalhar e a descontar para a Segurança Social. “Aqueles vinte e dois anos, os melhores da minha vida, não contaram para nada...” Esteve sempre ligado à agricultura e foi para o norte de Angola plantar café.
Colheu muito mais. Uma família, alegrias e tristezas, três dias cercado numa fazenda de arma na mão. Fez trilhos num jipe blindado, chegou a sair de casa com granadas à cintura e de metralhadora pronta a disparar. Em 1961, a fazenda onde estava ficou a sete quilómetros de dezenas de mortos num dia de horror.
“Andamos há trinta anos à espera que resolvam o nosso problema. Sou espoliado, tiraram-me o que era meu. Mas, sinceramente, não estou a ver o país com hipóteses de resolver o problema.” Rogério Ferreira, além do dinheiro, deixou em Angola um prédio no Uíge, quatro moradias no Norte e um apartamento na Avenida do Brasil em Luanda. Mas trouxe algumas coisas, em caixotes de madeira angolana que, mais tarde, serviram para fazer um móvel de sala que ainda hoje está na sua casa em Almada. Voltou a Angola há oito anos, para matar saudades. “Mas nem documentos tenho. Não posso provar que sou dono de nada, excepto do apartamento. Não tratei de nada. Veja lá que vim com um bilhete de ida e volta. E ainda ali está.”
ÚLTIMO 'ROUND'
A hora de Wing Wa tarda em chegar. “Quando vim para Portugal em 1976”, diz, num português hesitante, “fiquei dois anos no instituto para retornados”. A verdade é que não era um retorno, Wing nunca tinha estado em Portugal. “Sou português, mas de Moçambique”. Nesse dia, mal sai do avião, estranha o frio das manhãs de Janeiro, sente saudade do “povo bom”, da “comida boa” e do “calor”. Vai fazer trabalho de carpinteiro até arranjar emprego num hotel em Cascais. Há quatro anos, a vida acertou-lhe o segundo golpe. No estômago. “O hotel fechou e só então percebi que eles não tinham feito descontos para a segurança social.”
A pensão de invalidez e velhice permite-lhe, aos 74 anos, viver com 151 euros por mês. Dorme num quarto alugado na Margem Sul de Lisboa, em casa de um casal cabo-verdiano, que conheceu quando partilhava um quarto de hospital com o filho, cego depois de ter sido atingido a tiros de caçadeira. “Estou lá há dois anos. A senhora não queria que eu pagasse o quarto, mas eu insisti e pago cem euros.” Wing Wa gasta mais 40 euros para garantir uma refeição por dia ao longo do mês num lar. “O meu plano é trabalhar, aprender melhor português e ir para o lar, mas não para morrer”, revela, algo envergonhado, “Só que não há trabalho, não consigo... E preciso.”
As pernas já não mexem como antes, os olhos que antecipavam os golpes do adversário teimam em não ver tão bem. Mas o pior talvez seja mesmo o ouvido direito.
Em 1956, But Small bateu forte naquela zona, talvez demais. Wing caiu três vezes, perdeu, é certo, mas evitou o KO. Passaram 48 anos e a situação é de novo preocupante. Os golpes têm sido violentos, certeiros, mas o pugilista resiste. Wing Wa ergue os punhos, desfere cinco socos em rajada. Não quer voltar a perder. Não desta vez.

in MACUAblog

domingo, 29 de janeiro de 2012

A Fuga do Huambo: Luís Alberto Fernandes Achega



 

A queda do muro de Berlim, a transformação que houve no bloco soviético pressagiou uma nova era de esperança que se tem dissipado ano após ano.

O Mundo respirou uma paz que não seria duradoira. Aos nossos dias chegou idade do terrorismo, do fundamentalismo, do tribalismo, da globalização e do capitalismo selvagem em que tudo se justifica pelo dinheiro.

Chegaram novas guerras e, de vez em quando, apercebemo-nos, através da televisão de ondas de refugiados que fogem da guerra. Faço parte duma geração que esteve na chamada guerra colonial. Fui combatente em Angola entre 1967 e 1969. Mais tarde, conheci e vivi, também em Angola, a guerra entre os movimentos de libertação, que provocou uma fuga desordenada duma grande parte da população Angolana.

Há muito que tenho na memória uma época de terror, anotei e guardei recordações para que fique um documento de parte da minha história e das pessoas que me acompanharam.

A revolução de 25 de Abril de 1974, trouxe para a cena política de Angola três movimentos, que até então, combatiam contra o exército Português na clandestinidade: - MPLA, FNLA e UNITA.

Após a revolução, estes três movimentos, com o patrocínio do governo Português, em Alvor, no Algarve, acordaram entre si respeitarem os bens dos Portugueses. Também acordaram apresentar ao povo Angolano as suas ideias, a fim de serem sufragadas em voto secreto. “ Acordo de Alvor a 15 de janeiro de 1975 “.

Como todos sabem nada disso aconteceu. Angola entrou numa longa guerra civil que se prolongou até à morte de Jonas Savimbi em Fevereiro de 2002. Mesmo antes da revolução de Abril, os três movimentos, sempre lutaram uns contra outros, no entanto, a partir de finais de 1974 envolveram-se numa luta sangrenta, com algumas tréguas precárias.

Como consequência dessa guerra, gerou-se uma grande insegurança na população civil, que deu origem à fuga desordenada de grande parte da população. Os combates entre eles, começaram no norte de Angola e em Luanda, mais tarde estenderam-se por todo o território.

Chegavam então ondas de refugiados a Luanda e a Nova Lisboa. Estiveram de passagem na nossa casa o Francisco Meneses, já falecido e o seu genro Rézio com o Pai, também falecido. Eram refugiados do norte de Angola, de Malange.

Através de pontes aéreas dos dois aeroportos internacionais de Luanda e de Nova Lisboa, os refugiados foram transferidos para Portugal. Outros foram por terra até ao Sudoeste Africano e depois África do Sul. Os que estavam ligados à pesca e aos transportes marítimos fugiram de barco, uns também para à África do Sul, outros até ao Brasil.

Muitos morreram ao tentar a fuga, dentro e fora do território de Angola. Assim, de Janeiro de 1975 até Outubro do mesmo ano, pouco tempo antes da independência, Angola foi abandonada por muitos brancos, mestiços, e negros. Ao referir aqui, negros, brancos e mestiços, faço-o sem qualquer intenção de racismo. Não uso a palavra africano, porque a mesma é sempre, ou quase sempre, indicada para referir gente de cor.

Jorge Bem, conhecido cantor Brasileiro, mestiço, diz numa sua canção que nasceu no Brasil por acidente geográfico. Jorge Bem é mestiço mas ninguém diz que o Brasil não é terra de negros. Sem querer fazer história, sabe-se que os autóctones do Brasil são os chamados Índios. Parece-me que o nome de Índios, se deve ao facto de Pedro Álvares Cabral ter pensado que tinha chegado à Índia, quando tinha aportado a Porto Seguro, no Estado da Bahia, no ano de 1498. Ao contrário das Américas, do continente Australiano, da Nova Zelândia, nunca foi ponto assente que os brancos também fazem parte de África. Angola tinha gente branca de várias gerações. Meu filho, Luís Achega, nasceu em Angola, em Nova Lisboa, hoje Huambo.

Antes de 1974, Angola estava com grande crescimento, vou no entanto fazer um pequeno retrato da cidade de Nova Lisboa, que Norton de Matos quis fazer capital do Império Colonial Português. Alguns leitores deste jornal, conheceram a cidade de Nova Lisboa, que era em 1975 a segunda cidade de Angola. Uma cidade nova e moderna com alguns habitantes mais velhos que a própria cidade. A cidade do Huambo foi fundada em 21 de Setembro de 1912. Era uma cidade de grande extensão com avenidas e ruas largas.

Tinha uma grande zona industrial onde, anualmente, havia uma feira internacional, agrícola e industrial, tinha um jardim zoológico, aeroporto internacional, quatro salas de cinema, sede episcopal, muitas igrejas incluindo a igreja de Nossa Senhora de Fátima, três grupos de futebol, um deles o Ferrovia que estava agregado ao caminho-de-ferro de Benguela. Sem ser porto de mar, passavam por Nova Lisboa muitas mercadorias pela citada linha ferroviária, que fornecia e escoava produtos de Angola, da Zâmbia e de uma parte do Zaire.

Nova Lisboa era e ainda é um local estratégico: - A 600 Km de Luanda, a 300 km do importante porto do Lobito, a 400 quilómetros de Sá da Bandeira hoje, Lubango, era passagem obrigatória para o leste de Angola, era ao tempo, um importantíssimo eixo rodoviário e ferroviário. Certamente que em futuro próximo, a capital do Huambo, voltará a ter a importância que teve no passado. O caminho da paz e da esperança está aberto.

Por causa da guerra, da insegurança e da estagnação económica, no final de Julho de 1975 encerrámos a nossa unidade têxtil. Não havia condições para trabalhar. A comida escasseava e a situação piorava dia após dia. Encostado à nossa unidade industrial, estava um destacamento da Unita e os soldados chegaram a passear com as suas armas no interior da nossa fábrica. Não havia ordem nem Lei que mudava conforme a posição de força dos três movimentos. De vez em quando haviam combates entre eles aos quais chegámos a assistir. Pensámos em abandonar Angola, mas por avião havia muita gente em lista de espera, a opção foi ir de carro até à África do Sul e apanhar avião para Portugal.

Também em finais de Julho de 1975, tinha ido pôr meu filho Luís a Luanda para que viesse para Portugal com uma família amiga. Tinha quatro meses o Luís. Vimos, eu e sua mãe, o avião levantar voo e ficámos sem saber se voltaríamos a ver o nosso filho. Correu tudo bem. Passado pouco mais de um mês estávamos de novo juntos em Portugal.

Escolhemos 15 de Agosto para abandonar Nova Lisboa. Eu, Isabel Sana e o João Martins. Tínhamos dois carros com depósitos cheios de gasolina e ainda alguma de reserva, além de mantimentos para a viagem. Haviam ainda mais quatro ou cinco carros de outros fugitivos. De madrugada começámos a nossa fuga e na saída de Nova Lisboa encontrámos uma barreira de militares da Unita. Perguntaram-nos por documentos e pelo salvo-conduto do partido. Demos dinheiro e vinho e passámos sem problema.

Andámos mais 50 quilómetros até Caala onde nova patrulha nos perguntou pelo mesmo. O militar que nos interpelou estava bêbado, no entanto com duas garrafas de vinho e cinco notas de 20$00 não levantou objecções. Passámos depois por Caconda onde tivemos de parar e pagar a portagem como antes e tudo bem. Caconda era uma bela vila agora abandonada, parecia uma cidade fantasma onde somente se viam cães e gatos abandonados. À medida que avançávamos, íamos atestando os depósitos com as nossas próprias reservas para não sermos roubados do precioso líquido.

Passámos a Caluquembe, Cacula, Hoque e sempre a mesma paisagem: - povoações abandonadas com alguns destroços da guerra. Chegámos a Sá da Bandeira sem qualquer problema nos 400 quilómetros percorridos. Foi bom termos escolhido viajar pela manhã. Ao meio-dia, certamente que a maior parte dos militares estaria com uns copos a mais e poderia ser mais complicado o controle. Através dum nosso amigo conseguimos hotel em Sá-da-Bandeira, onde planeámos a partida para a fronteira da Namíbia.

Eram mais 600 quilómetros e já tínhamos resolvido o problema do combustível para a viagem que se adivinhava perigosa. Ouvíamos falar de massacres para os lados de Pereira de Eça que hoje tem o nome de Ondjiva e estávamos com receio. Planeámos de novo a partida agora com um grupo muito mais numeroso. Talvez trinta viaturas. Mais uma vez, bem cedo, ainda noite, abandonámos Sá-da-Bandeira e confiámos na sorte. Não tínhamos armas, a viagem era perigosa, mais para o sul havia guerra, a aventura para o desconhecido estava bem perto, a angústia que seca a boca começou a tomar conta de nós.

Foi num dia frio de Agosto, que partimos de Sá da Bandeira. O caminho afinal estava livre e foi um ver se te avias até ao Sudoeste Africano, hoje Namíbia. Não houve paragens na PICADA de terra batida, na estrada de pó. Penso termos percorrido grande parte da famosa Picada de Calueque. Ao fim da manhã, já tínhamos passado o Chitado. Atravessarmos a ponte sobre o rio Cunene e chegámos à fronteira onde contactámos com os soldados Sul-Africanos. Fomos revistados e seguimos viagem. Passámos por Ombulantu, Ogongo e chegámos a um campo de refugiados em Oshakati. Penso que Oshakati, era ao tempo, território Ovambo que se situava entre a fronteira da Namíbia norte e a fronteira sul de Angola.

Ao chegarmos ao campo de refugiados, fomos desinfectados, mostrámos as vacinas, passaportes e dissemos que poderíamos prosseguir sem auxílio dado que tínhamos dinheiro para a viagem.

A África do Sul tinha uma logística muito bem organizada para dar apoio às vagas sucessivas de refugiados Angolanos. Hoje, através da informação, os Media dão grande destaque aos refugiados da guerra. Nós, portugueses, quando da descolonização, passamos por situações muito graves. Muita gente morreu, muitas famílias foram separadas, muita gente ficou sem os seus haveres. Em campos de refugiados, nasceram crianças e foram sepultadas pessoas. Ao longo do percurso, entre a Namíbia e Johannesburg, haviam campos de acolhimento para os refugiados de Angola. Por interesses da Revolução de Abril, nada ou pouco foi mostrado em Portugal sobre esses campos de refugiados.

Junto à saída do campo de Oshakati, casualmente contactámos um professor de história Sul-Africano que nos levou para um Hotel. Tirámos o pó que era muito, jantámos uma deliciosa carne de vaca grelhada e dormimos tranquilamente. Pela manhã partimos e passámos por Otjiveto, Operet, e chegamos a Tshumed, pequena cidade mineira, onde perguntámos num mini mercado de Portugueses, por um carro nosso que tinha sido utilizado pelo António Farinha, pelo Victor Carvalho e família. O António Farinha e o Victor Carvalho eram funcionários da nossa empresa em Nova Lisboa.

O Carro era um Datsun 1200 que estava num campo de refugiados em Grootfontein. Os utilizadores já tinham vindo para Portugal de avião. Tinha uma chave da viatura, apresentei-me no campo e deram-me o carro. Partimos de novo, agora com três carros. O João Martins com um BMW 1600, a Isabel com um Fiat 124 Sport Coupé e eu com o Datsun 1200. A jornada era longa e metemo-nos a caminho para Windhoek. Passámos por Otavi e fomos dormir num Hotel em Ochivarango. No outro dia passámos por Sukses, Osona e chegamos a Windhoek onde nos instalámos num Hotel. Windhoek era e ainda é a capital da Namíbia. Queríamos enviar o BMW e o FIAT para Portugal. Fomos a um despachante Português, mas o preço que nos deram para o despacho dos dois carros, era tão elevado que não decidimos logo.

Nesse escritório enviámos um telex para Portugal, para Luís Nascimento Silva. Do lado de Portugal, o triquitar do telex respondeu que andavam há quinze dias a tentar saber notícias de nós. As notícias deixaram a família descansada, mas a jornada ainda tinha muito pela frente. De nova Lisboa até Windhoek tínhamos feito cerca de 1.800Km.

Ao passarmos por uma rua de Windhoek vimos uma pequena empresa de exportação de peles de caraculo que tinha as portas abertas para arejar as bonitas peles estendidas em tabuleiros de madeira. Entrámos, conversámos e perguntámos qual seria a maneira mais económica de despacharmos as viaturas para Portugal. A informação dada com simpatia, sugeriu que fossemos procurar um despachante a Walvis Bay.

Assim com os três carros subimos de novo a Osona onde tomámos a direcção de Karib, Arandis, Swakopmund e Walvis Bay. Atravessámos uma zona contígua ao deserto da Namíbia e não posso deixar de salientar a beleza da vegetação, dos animais que vimos. De vez em quando lá estava a Welvitchia-Mirabilis, planta do deserto da Namíbia, a encher com a sua beleza uma terra vermelha e seca como é a terra Africana.

Lembro-me, sobretudo das pequenas vilas onde, apesar da escassez de água, haviam sempre bonitos jardins, das grandes salinas em Walvis Bay e de muitas gaivotas voando junto ao mar. Walvis Bay está situada a cerca de 500km a norte da fronteira da África do Sul. Walvis Bay, (do Afrikaans Walvisbaai, ou seja, Baía das Baleias), é uma importante cidade portuária da Namíbia.

Descoberta em 1487 por Bartolomeu Dias que a denominou "Golfo de Santa Maria da Conceição". A região não foi reclamada para a coroa portuguesa. Walvis Bay, é um porto de águas profundas e comercialmente muito importante, é também um paraíso onde habitam cerca de 100 mil aves marinhas: - gaivotas, flamingos e saracuras.
Ficámos num hotel em Walvis Bay nesse fim-de-semana, e, na segunda-feira despachámos o BMW e o FIAT para Valência no Sul de Espanha.
Em Outubro de 1975 fomos buscar os dois carros a Espanha, eu e o João Martins (Jota).

Regressámos de novo a Windhoek, agora num só carro cheio de bagagem. Contactámos a Luftanza a fim de arranjarmos voo para Portugal. Tínhamos bilhetes da T.A.P. mas fomos informados que não davam para viajar na Luftanza. Assim, com o pequeno e velho Datsun 1200, resolvemos fazer mais 1971 Km para Johannesburg.

Estávamos já na Zona Temperada do Sul, tínhamos atravessado o trópico de Capricórnio um pouco a sul da fronteira do BOTSWAMA e, embora os dias fossem quentes, as noites eram frias e com temperaturas negativas. Ao tempo havia uma crise energética e as gasolineiras somente vendiam combustível das 07H00 até às 18H00. Eram proibidos depósitos suplementares e assim não podíamos caminhar dia e noite. O carro gastava pouco, mas o caminho era longo. Passámos por Mariental, Asab, Keetmanshoop, Marubis, Grunau, Karasburg, Upington, e, finalmente Johannesburg.

No primeiro dia desta caminhada chegámos à noite, penso que a Karasburg e todos os Hotéis estavam repletos. Ficámos no carro, não havia gasolina e fazia muito frio. A meio da noite entrei no Hotel e serviram-nos café quente. Estivemos lá até às 07H00 altura em que abriram as gasolineiras. Foi muito simpático o funcionário de cor do turno da noite daquele Hotel.

A paisagem da extensa caminhada de cerca de 1971 Km era diversa e havia pouco trânsito. Estávamos na época seca. Lembro-me de muita vedação de arame farpado à beira da estrada e muito gado bovino em regime de pastorícia. Aquele país transpirava riqueza e fartura, era realmente um espanto ver tanta comida à solta.

Ao chegarmos a Johannesburg, hospedámo-nos num Hotel de Portugueses na parte alta da cidade. Aproveitámos para conhecer um pouco da cidade com as ruas numeradas como New York. Por ali estivemos alguns dias até embarcarmos para Portugal na TAP com escala em Luanda. O aeroporto de Luanda estava muito degradado, uma tristeza, mas chegámos a Portugal sem problemas.

De Janeiro de 1975 a fins de Agosto do mesmo ano, analisando tudo a uma grande distância, tivemos todos muita sorte. Penso que Deus e o Anjo da Guarda estiveram sempre connosco. Obrigado. Estou a corrigir este documento na data de 2008-10-30. Nas notícias desta manhã, ouvi sobre mais uma crise humanitária no Congo. Milhares de refugiados fogem da guerra.

Regressei com o João Martins a Angola em 1990. Estivemos em Luanda e no Huambo onde visitámos as casas onde vivemos e a Fábrica que construímos. O que vimos ficará para mais tarde.

Passaram mais de trinta anos. Tudo ou quase tudo ficou na memória. Para um melhor rigor sobre a distância percorrida, pedi auxílio à Universidade da Namíbia que gentilmente me forneceu tudo o que necessitei. Para uma maior precisão consultei os mapas do GOOGLE que reconfirmaram as minhas anotações.

Não quero deixar de prestar uma homenagem à Namíbia que é um País maravilhoso. Tem uma costa Atlântica de mar perigoso com muitos recursos pesqueiros, onde, também tem fama pela negativa a Costa dos Esqueletos, (Skeleton Coast). Tem ainda muitos minerais, sendo a maior riqueza os diamantes, existem alguns parques naturais para a vida Selvagem que, felizmente, hoje vimos através de programas televisivos. Tem uma área de 824.790,00 Km2, quase 10 vezes maior que Portugal. Não obstante a sua dimensão, a capital Windhoek, tem cerca de 161.000 habitantes e a sua população é de cerca de 1.648.270 habitantes.

Muito pouca gente para tão grande espaço. Windhoek era na data uma cidade com muitas características Alemãs. Windhoek, era, e ainda é, a capital administrativa do Sudoeste Africano, hoje Namíbia. É uma cidade do interior a cerca de 300km da costa Atlântica. Situada num bonito vale, foi fundada em 1890 e foi quartel-general do exército Alemão na primeira guerra Mundial.

Luís Alberto F. Achega
[30-11-2008] [17182 caracteres]

Fórum (Não moderado)

http://www.minderico.com/minderico/artigo.asp?cod_artigo=180093

Sebastião Silvestre Júnior (Nito), músico natural de Moçâmedes






Sebastião Silvestre Júnior (conhecido pelos baháís com «Nito») nasceu em 24 de Março de 1956 em Moçâmedes, em Angola. Era filho de um português de Castelo Branco e de uma princesa Cuanhama, chamada Petrussa Kashilula.

Durante a sua infância ficou a cargo de uma Instituição, onde um padre lhe ensinou a tocar viola.

Estudou em Sá da Bandeira, onde formou uma banda (os «Kuanza»). Tocavam em Hotéis e Igrejas (que dizem que se enchiam para os ouvir)

Fugindo à guerra civil de Angola veio para Portugal numa época de grande agitação política e social.

Em 1975, conheceu a Fé Baháí em Tróia (Setúbal), e rapidamente a mensagem de Baháulláh se tornou uma prioridade central da sua vida.

A sua voz e o seu talento musical tornaram-no uma figura muito popular entre a Comunidade Baháí de Portugal. A maioria dos Baháí portugueses consideram que ele é o autor das mais bonitas canções baháís em língua portuguesa. Os seus filhos (que hoje vivem em Portugal, Inglaterra, Holanda e Moçambique) herdaram o seu talento artístico.

Diga-se como nota de curiosidade que o Nito tinha Carteira Profissional de Músico, apesar de não saber ler pautas de música.

Em 1998, foi vítima de uma acidente de viação em Moçambique, tendo vindo a falecer num hospital Sul-Africano em 2 de Agosto desse ano.

O seu corpo está hoje sepultado no Maputo.

sábado, 28 de janeiro de 2012

O Portugal no pós 25 de Abril: o funcionalismo, as clientelas e outras coisas mais...

Do forum Mazungue retirei esta passagem que passo a transcrever:

"...Critiquei, no fio sobre a Guerra Colonial de Angola, a actuação dos militares portugueses que, esquecendo a sua missão, tomaram posições políticas criando o caos e desavenças no próprio seio das Forças Armadas.

Em qualquer país DEMOCRÁTICO as Forças Armadas cumprem a sua missão qualquer que seja a cor política de quem esteja no momento a governar, porque o seu compromisso é com a Nação e não com os partidos políticos.

O ideal seria que em Portugal, a exemplo de uma Grã-Bretanha, as Forças Armadas, de Segurança e funcionários públicos, ou seja, o aparelho do Estado, fossem apartidárias (mesmo que cada indivíduo tivesse a sua inclinação política) servindo a Nação, o seu povo, e não os partidos. Os partidos políticos governam e traçam as estratégias a seguir, mas a simples governação administrativa devia estar fora das suas competências, porque o aparelho do Estado está ao serviço do Estado e tem de ser leal a quem estiver no poder. O Governo partidário não deve ter poderes para substituir funcionários e chefias militares conforme a cor partidária de cada um, porque sempre que muda um governo terão de mudar milhares de funcionários, o que só prejudica o funcionamento da máquina do Estado. A prioridade, em vez de ser a competência, passa a ser a disciplina partidária.

É por isso que, no Portugal dos nossos dias, pós-25 de Abril, os funcionários competentes passaram para trás em favor dos funcionários militantes dos partidos e o serviço público foi decaindo, em qualidade, cada vez mais. Os problemas com a colocação dos professores, do fisco, da assistência social, nos Hospitais, e muito outros, começaram quando esses funcionários escolhidos pelos partidos começaram a ocupar o aparelho do Estado e começaram a sair, progressivamente, os funcionários verdadeiramente competentes.

Houve uma altura, até, que todos os funcionários menores e auxiliares passaram automaticamente para carreiras administrativas e operárias, superiores, sem estarem preparados para isso
. E como as promoções eram automáticas (um mal introduzido depois do 25 de Abril) e sem um concurso com provas teóricas e práticas, como era obrigatório antes do 25 de Abril, muita dessa gente, sem preparação, chegou aos lugares cimeiros (1ºs Oficiais, Chefes de Repartição e Operários Principais), o que contribuiu muito para a degradação dos serviços do Estado.

No ensino aconteceu o mesmo. Grande parte dos licenciados de hoje passaram administrativamente no tempo do Vasco Gonçalves e, até com o segundo ano, apenas, de faculdade foram-lhes atribuídos os Cursos completos. Por isso há na nossa praça exemplos de incompetência flagrante e se forem investigar os anos de licenciatura poderão tirar as devidas ilações.
by Ruca
In Mazungue forum





Nota da autora do blog: sublinhei o parágrafo acima porque na minha qualidade de ex- funcionária pública no ultramar  fui vítima de descriminação como tantos outros funcionários que em 1975 tiveram que deixar Angola por força do processo de descolonização. O que nessa altura acontecia é que funcionários com mais habilitações e com categorias mais elevadas, para poderem ingressar nos quadros na Metrópole acabaram por ter que o fazer pela base perdendo as suas categorias de origem  e recuando na carreira administrativa.  Em contrapartida, em diversos Ministérios metropolitanos  foi "um vê se te avias", ingressaram inúmeros novos funcionários na época imediatamente a seguir ao 25 de Abril , sem as habilitações exigidas na lei e, quando do alargamento dos quadros administrativos nas diversas categorias para que os ex-funcionários ultramarinos fossem absorvidos, aqueles tiveram chorudas promoções e deixaram os lugares de base que ocupavam para estes. E o mesmo aconteceu com os ex-bancários ultramarinos que foram integrados perdendo as categorias de origem, e sendo admitidos como iniciados.

A Odisseia dos Retornados: SOLUÇÕES DESESPERADAS

A Odisseia dos Retornados

in: DN on line de 14.08.2005

SOLUÇÕES DESESPERADAS

"O desespero tem espinhos, alguns aguçados, e os seus bicos empurram as pessoas para o abismo. Em 30 de Junho, em Luanda, um grupo de 2500 residentes em Angola anunciou que, não conseguindo obter passagens aéreas ou marítimas para Lisboa, tencionava fazer a viagem até Portugal por via rodoviária, atravessando oito mil quilómetros de países africanos no sentido sul-norte ao longo de 90 dias. A caravana motorizada esteve organizada para ser constituída por 200 camiões e 500 automóveis particulares, sendo os suprimentos destinados a 15 camiões-frigoríficos com capacidade para transportar 30 toneladas de alimentos cada um. Alguns veículos foram transformados em oficinas móveis para fazer face à inclemência do trajecto e um dos organizadores, Guilherme dos Santos, fez contactos formais com a Cruz Vermelha Internacional e com a Comissão das Nações Unidas para os Refugiados para, na medida do possível, ajudarem essa travessia das selvas, savanas e desertos do continente africano.

Acabaram por não avançar para esse louco caminho para a morte. Mais a sul, porém, houve traineiras a largar de Porto Alexandre, cheias de gente, em direcção a Portugal, onde chegaram, com muita sorte, sem males de maior. Outros barcos de pesca artesanais cruzaram o Atlântico para despejarem no Brasil "retornados" que, afinal, não retornaram a Portugal. E quase todos os que puderam escaparam por terra em direcção à África do Sul, e a outros países limítrofes, em alguns casos viajando com máquinas de obras públicas que iam aplainando os acidentes do caminho."

by Ruca in Mazungue

A Odisseia dos Retornados: DESCOLONIZAÇÃO EXEMPLAR ou GAIVOTAS QUE VOAM (RETORNADOS DAS EX-COLÓNIAS)


Já que ninguém parece interessado em começar a contar a sua experiência, vou começar, a par de algumas notícias do Jornal Província de Angola para melhor compreendermos a apatia e ilusão que invadiu a alma dos nossos conterrâneos não lhes permitindo uma reacção concertada e atempada ao que se estava a passar, a editar aqui retalhos do magnifico relato de ADRIANO DE ALMEIDA GOMINHO [narrativa 1975-2005], Jubilado da Aviação Civil em Portugal, Ex-administrador em Timor, Estudante do IV ano de Direito, em Lisboa, na sua obra DESCOLONIZAÇÃO EXEMPLAR ou GAIVOTAS QUE VOAM (RETORNADOS DAS EX-COLÓNIAS).

AS GAIVOTAS JÁ NÃO VOAM

Vagas de refugiados e funcionários chegavam ao aeroporto da Portela e ao cais de Alcântara, em Lisboa. O Quadro Geral de Adidos, já a funcionar na Avenida Duque de Ávila, não dava vazão aos milhares de processos, recebidos diariamente aos balcões ou pelos Correios. Os funcionários de serviço não tinham mãos a medir para aceitar todos os processos de ingresso; as pessoas ficavam na rua em intermináveis bichas, à espera do dia seguinte. O estado exaltado dos espíritos e a debilidade dos corpos geravam frequentes reacções violentas. Foram colocadas no interior das Repartições alguns polícias para a segurança dos funcionários. Os desentendimentos surgiam entre os próprios funcionários do mesmo serviço, pois os colegas oriundos do extinto Ministério do Ultramar consideravam-se “casta superior” e com direito a mando sobre os funcionários recém-integrados nos Adidos. Houve sequestros do pessoal, até à meia-noite, nos locais de trabalho, com os retornados manifestando-se, ruidosamente, na Avenida Duque D’Ávila [e com razão, diga-se], devido à morosidade no atendimento e despacho dos processos, sem o qual não se podia recomeçar a vida. Mesmo após o ingresso no Quadro, a integração dos funcionários das ex-colónias nos Serviços do Estado ou das Autarquias Locais não foi tarefa fácil, pela oposição maldosa movida pelos invejosos e mal-preparados funcionários locais. Conta-se que um funcionário muito categorizado foi destacado para chefiar a Secretaria de uma Câmara Municipal e, logo à chegada, os funcionários residentes esconderam todos os impressos e carimbos existentes na Repartição, dificultando a sua integração. A um outro foi-lhe dada a missão de chefiar o pessoal das limpezas das ruas e jardins de uma cidade qualquer [fora administrador em Timor e estivera preso num campo de concentração na Indonésia], mas acabou por alcançar um lugar do topo da chefia, pelo mérito demonstrado e forma estóica como soube suportar, por muitos anos, as afrontas, os vexames e os insultos dos ditos colegas. Infelizmente já faleceu, na data em que escrevo. Um piloto das linhas aéreas de Angola foi destacado para uma Escola C+S, nos arredores da capital, para distribuir leite às criancinhas, no recreio das dez, em vez de pilotar aviões, a única coisa que sabia fazer bem... A TAP não tinha lugar para retornados...

Um outro funcionário foi destacado para uma Câmara vermelha, nos arredores de Lisboa. Fizeram-lhe a vida tão negra que preferiu abandonar o posto, para servir de motorista numa Empresa de Transportes...

Podia dar mais uma carrada de exemplos, mas para quê?, caro leitor estarrecido...




RUCA in Mazungue

quarta-feira, 25 de janeiro de 2012

OS MIDIA E O RETORNO DE NACIONAIS



OS MIDIA E O RETORNO DE NACIONAIS
Carolina Peixoto
2011
Tese de Doutoramento

PARA LÊR CLICAR AQUI
...........

Nota a propósito:

Eis aqui um exemplo acabado daquilo que é distorcer a informação: 


"Angola: Luta Contra o Colonialismo e o Neo-Colonialismo
5 de Julho de 1974 
(...) "Os colonos brancos, com o apoio das autoridades, organizaram dois exércitos secretos, um no Sul e outro no Norte, com o objectivo de prosseguir a luta contra o movimento anti-colonialista e anti-imperalista do povo angolano. A revolta dos soldados contra a guerra leva os colonos brancos a organizarem-se militarmente e a pensarem em lutar independentemente do exército."

Fonte: Jornal Combate, nº 2, Portugal.
Originais enviados por : Manoel Nascimento.
Transcrição e HTML:
Fernando A. S. Araújo, Abril 2008.
Direitos de Reprodução: A cópia ou distribuição deste documento é livre e indefinidamente garantida nos termos da GNU Free Documentation License.
foto
Analisando a frase generalizante:

"Os colonos brancos com o apoio das autoridades, organizaram dois exércitos secretos, um no Sul e outro no Norte, com o objectivo de prosseguir a luta contra o movimento anti-colonialista e anti-imperalista do povo angolano. "

Só poderei concluir que só por ignorância ou por má se podia generalizar este assunto ao ponto de se tomar a parte pelo todo, pois quando muito o autor poderia escrever: "alguns colonos brancos"....

Tenho a acrescentar que nasci e vivi nessa altura numa cidade do sul de Angola e nem eu nem ninguém alí demos pela existência de um tal exército branco. Vi, sim,  toda a gente ada minha terra trabalhar duro, toda a gente a querer lá continuar  a viver, e mais,  vi muitos brancos a aderiram aos movimentos de libertação, sem preocupações de que o seu líder era um negro!

Também não é possível entender a argumentação do autor quando na frase:
A revolta dos soldados contra a guerra leva os colonos brancos a organizarem-se militarmente e a pensarem em lutar independentemente do exército."


"Revolta dos soldados" ? Em Julho de 1974, poderia explicar melhor? Julguei que a revolta e o laxismo só tivesse acontecido, já em 1975, com o aproximar da independência!

Não creio que o autor estivesse nesta altura a pensar na posterior intervenção do Coronel Gilberto Santos e Castro, esse sim relacionado com círculos da direita portuguesa no exílio, que comandou o célebre Exército de Libertação Português (ELP) e que não passou de um epifenómeno .

Quanto a uma organização militar de colonos, por amor da Verdade, é ver fantasmas onde eles não existiam!


terça-feira, 24 de janeiro de 2012

Fuga de Moçâmedes (Angola) para Welvys Bay e Africa do Sul através do Cunene e da Costa dos Esqueletos













Para além da grande evacuação que se processou por via da ponte aérea entre Luanda e Lisboa, 
montada por Portugal com a ajuda de potências internacionais, foram
várias as saídas de brancos e não só, para fora de Angola, a partir de Moçâmedes, Porto-Alexandre e Sá-da-Bandeira, nesses meses que mediaram  entre Junho a
Novembro de 1975, e se prolongaram mesmo até aos primeiros meses da
independência de Angola, precipitadamente
preparada, e inadiadamente marcada para 11 de Novembro de 1975. Uns partiram em traineiras com destino Luanda e daí para a Metrópole, outros, partiram em traineiras através de Porto Alexandre, Baía dos Tigres, até Walvis Bay (Namíbia), para em seguida rumarem na direcção do Rio de Janeiro e finalmente a
Portugal (durante nove meses). Outros ainda, partiram  em caravanas de automóveis, atravessaram o deserto do Namibe até à foz do
Cunene, atravessaram o rio em jangadas construidas para o efeito,  e prosseguiram para Walvis Bay através da perigosa Costa dos Esqueletos, uma das zonas mais inóspitas
do globo, tendo-se 
perdido  vários carros e embarcações no decurso dessas  viagens.

A população de Moçâmedes, cidade litorânea do sul de Angola, até Junho de 1975 viveu em completa calmaria, mas viu a situação mudar e deteriorar-se  a partir daí, com o agravamento da situação em Luanda, em consequência da expulsão pelo MPLA da UNITA e da FNLA, e o alastramento dos confrontos a todas as cidades de Angola. Foi então e só a partir de então, que o pânico começou a apoderar-se das pessoas, pois excepto uns poucos, mais temerosos de suas vidas e mais preocupados em acautelar seus bens, a maioria da população branca ia se deixando estar, embora se mantivesse expectante e receosa ante o desenrolar dos acontecimentos.




Através dos  videos acima, Rogério Amorim conta-nos como se processou a fuga a partir  de Moçâmedes, Porto Alexandre e Sá da Bandeira,  de um grupo de familias em pânico, incluindo a sua,  que  resolveram partir rumo a
Walys Bay (Namibia), através da foz do Rio Cunene e da já referida Costa dos Esqueletos.  Fizeram-no, integrando  uma
caravana constituida por 61 veículos automóveis  de todo o tipo, carregados com bagagens que não eram mais
 que o pouco que puderam juntar, tendo que atravessar a fronteira numa jangada feita propositadamente para tal fim, e prosseguir a marcha durante 16 dias  sempre junto ao mar, entre o deserto e o mar, aproveitando-se da maré vazia e da areia molhada.



Do livro de Rogério Amorim  "Costa dos
Esqueletos"  seguem algumas
 fotos desta fuga, e da travessia do rio Cunene através de Jangada:




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Clássicos do Ultramar-sem-titulo-1.jpg 






Ver também: FUGA DA CIDADE DO NAMIBE NO SILVER SKY: 10.01.1976





segunda-feira, 23 de janeiro de 2012

Os retornados estão a abrir o baú

Há 35 anos, após 14 anos de guerra colonial, mais de meio milhão de pessoas regressava das colónias portuguesas em África, pondo fim a 500 anos de império ultramarino português. “Nós fomos, nós somos uma pequena nação que desde a hora do nascimento se recusou a sê-lo sem jamais se poder convencer que se transformara em grande nação”, escreveu Eduardo Lourenço, em O Labirinto da Saudade. “Mesmo na hora solar da nossa afirmação histórica, essa grandeza era, concretamente, uma ficção. Nós éramos grandes (…), mas éramos grandes longe, fora de nós, no Oriente de sonho ou num Ocidente impensado ainda.”
Portugal, um país que se tinha imaginado grande, com vastos territórios nos trópicos que eram uma extensão da sua diminuta dimensão europeia, viu-se enfiado numa ponte aérea de vários meses. No final de 1975, com a independência das suas províncias ultramarinas, o país estava novamente confinado a um rectângulo na costa europeia do Atlântico.
Um império encaixotado, a foto de Alfredo Cunha (1974) é simbólica. Caixotes de retornados amontoam-se junto ao Padrão dos Descobrimentos 

Um império encaixotado, a foto de Alfredo Cunha (1974) é simbólica. Caixotes de retornados amontoam-se junto ao Padrão dos DescobrimentosA balada do Ultramar tem sido cantada por vários escritores desde o final da década de 70, mas foi preciso esperar 30 anos para que as feridas abertas por um retorno abrupto começassem a sangrar. A história não mentiu ao dizer que muitos vieram com a roupa que tinham no corpo para um país aonde nunca tinham estado e onde foram rotulados de “retornados”.
Agora, muitos decidiram escrever sobre isso - sobre como era a vida na colónia, sobre o que perderam, sobre o que ficou, sobre como foi “regressar” e viver com o estigma de “retornado” -, buscando a sua identidade nos meandros de uma memória pessoal que era também uma história colectiva e tentando perceber o que é ser português hoje. Nos últimos anos, têm vindo a lume livros sobre a presença portuguesa em África: diários de guerra, ficções e autobiografias, mas também livros escritos por retornados (ou não) evocando a tragédia da ponte aérea ou as consequências do retorno na vida de muitos portugueses.
O quotidiano na colónia
António Mateus partiu para o Lobito com a família aos cinco anos. Aos 25 saía de Angola. Chegou ao Brasil via ponte aérea por Lisboa, “com uma mão na frente e outra atrás, e 180 dólares no bolso”. Aos 61 anos, reformado, a viver em Palma de Maiorca, é autor de “Lobito” (Guerra e Paz, 2009) e “Lubango, Paris, Mavinga” (2010). Porquê escrever? “É uma questão de aritmética: 25 mais 35 são 60. Muita gente saiu de África com cerca de 25 anos, passaram-se 35, e muitos temos 60 anos hoje.”
Tinha estas histórias há anos na cabeça, mas uma vida intensa de trabalho impediu-o de se sentar a escrever - Brasil, Espanha, América Latina, Paris, andou um pouco por todo o lado. Não é um nómada, mas um cidadão do mundo, mistura de “lobitanga” (do Lobito) e “chicoronho” (de Sá da Bandeira, actual Lubango), português mas também maiorquino.
África só está lá nos livros, explica, porque foi aí a sua juventude: “A minha adolescência passei-a lá. As namoradas, o primeiro beijo; foi lá que conheci a minha mulher e que o meu filho nasceu. Isso marca de tal maneira uma pessoa porque são transformações profundas da juventude.”
Muitas destas novas narrativas sobre África são circulares: nos anos 50, dá-se a partida para Angola ou Moçambique, a bordo dos paquetes.
Colonos vindo das Beiras, de Trás-os-Montes, do Alentejo, das enormes “bolsas de miséria do interior”, refere Mateus. Depois, a vida na colónia passa-se, com mais ou menos sobressaltos, até ao regresso forçado em 1975. Neste caso, “Lobito” é excepção (há uma partida, mas não se dá o “retorno”, porque a narrativa não chega a esse tempo histórico).
Nos primeiros capítulos, Mateus fala criticamente do Estado português que se limitava a “meter as pessoas nos navios, onde, amontoadas como animais, seriam levadas a povoar as colónias”. Só a “amizade e solidariedade dos portugueses já desterrados substituíam as obrigações de um Estado omisso”, escreve. Depois, a horrenda viagem de barco, em terceira classe: “O enjoo levava ao vómito constante (…). Numa mesma camarata, dez ou quinze pessoas a vomitar ao mesmo tempo.” A viagem era degradante, “fazendo lembrar as viagens dos escravos nos barcos negreiros”. Remata com ironia: “Os portugueses tinham demonstrado ser grandes especialistas nesse tipo de travessias.”
Em Lobito seguimos os passos do jovem mulato Zé Beto e dos seus dois amigos, Zeca (negro) e Zé Lisboa (branco). A questão da raça está lá, premente (sem a violência de outros textos, é certo), mas Mateus cartografa igualmente outras barreiras, de classe, que marcavam a sociedade estratificada do Lobito, bairro a bairro. Na cidade, diz ao Ípsilon, “havia mais diferença entre ricos e pobres do que entre pretos e brancos. Era uma sociedade de castas”. Continua: “Não quero fazer um paraíso disto: os pretos na classe média eram uma minoria, de facto, mas a violência do racismo está mais na geração anterior à minha, nos mais velhos, um racismo gutural, de uma violência verbal no trato e na humilhação”.
Sofia Fonseca, 32 anos 'Angola, Terra Prometida' - investigação jornalística que documenta, com recurso a muitos testemunhos, a vida quotidiana dos colonos em Angola. De Luanda às outras cidades, das plantações de café e de algodão ao mato e às caçadas, do futebol ao cinema. fotografia de Raquel Esperança 

Sofia Fonseca, 32 anos 'Angola, Terra Prometida' - investigação jornalística que documenta, com recurso a muitos testemunhos, a vida quotidiana dos colonos em Angola. De Luanda às outras cidades, das plantações de café e de algodão ao mato e às caçadas, do futebol ao cinema. fotografia de Raquel EsperançaPara quem esteve no Lobito, as referências locais são familiares: dança-se ao som de merengue, bebem-se Cucas geladas, o ponto de encontro era no Pic-Nic, ia-se à taberna do Peralta, banhos de mar era na ponta da Restinga, e via-se cinema ao ar livre nas noites quentes. Este era o quotidiano dos colonos em África, sobretudo em Angola, como o livro de Ana Sofia Fonseca, Angola, Terra Prometida (Esfera dos Livros, 2009) tão bem mostra. A jornalista, de 32 anos, recolheu depoimentos de mais de 80 pessoas, antigos colonos e não só, para compor um livro que é, em muitos aspectos, um documento exaustivo da vida na colónia.
Durante anos foi ouvindo histórias sobre os “melhores anos” em África. Perguntava-se “como é que se podia falar dos ‘melhores anos’ quando esta foi uma época em que a maioria da população vivia muito mal, e a partir de 1961, de guerra também? Os ‘melhores anos’ são referidos por pessoas que viviam numa ‘redoma dourada’. Tinha interesse em compreender a complexidade desse fenómeno.”
Estas pessoas “trazem Angola presa à alma” e, juntas, “revelam o retrato de um período que ainda é uma noite escura”, escreve Fonseca. É o retrato de um tempo que não existe mais. “Como era a vida das pessoas? Diziam que era maravilhosa, mas como era? Havia mais liberdade ou não? A PIDE era mais ou menos interventiva do que cá? A rádio como funcionava? O que é que as pessoas faziam à noite? Como era a vida das mulheres?”, pergunta. De Luanda às outras cidades, nas fazendas, nas plantações de café e de algodão, no mato, nas caçadas, no entretenimento (futebol, corridas de carros, música, cinema, praia, noite), “Angola, Terra Prometida” mostra até que ponto o dia-a-dia em Angola antecipa um duro contraste com o “retorno” a um Portugal rural, atrasado, pequeno.
Quando escreveu o livro, fez tudo para “não cair em nostalgias, nem tão-pouco em culpas por expiar”. Não há aqui qualquer branqueamento: Fonseca admite que este é um retrato das elites numa sociedade profundamente injusta, cheia de desigualdades. Acredita que é à sua geração que cabe contar estas histórias, “sem saudosismo, sem tabus”.
Para a investigadora Sheila Khan, o livro de Ana Sofia Fonseca faz uma “sociologia das ausências”, tal como Khan o fez no seu livro Imigrantes Africanos Moçambicanos (Colibri, 2009). Ou seja: “Transforma em existente palpável aquilo que é produzido como ausente e mostra que esses silêncios não estão nada calados”, diz. Ao coligir estas histórias num enquadramento social, histórico e cultural, “este é um livro-útero porque cria um espaço de conforto e de sossego suficiente para que as pessoas tenham possibilidade de assimilar, absorver e pensar nestas narrativas de vida”.

O marketing da nostalgia
É provável que o leitor já se tenha deparado com muitos destes livros: capas em tom sépia, postais ilustrados com imagens nostálgicas de uma África que não existe mais. Para a professora Isabel Ferreira Gould, da Universidade de Notre Dame, nos Estados Unidos, estes livros são o resultado de um trabalho de marketing com uma missão concreta: “Criar uma noção de familiaridade, fazer um apelo emocional ao leitor e à sua saudade. As editoras têm claramente um público em vista: pessoas que viveram em África.”
Só que as capas enganam, porque nem todos os livros apresentam a ideia de um império perdido mas idílico, de tempos idos mas felizes. Estes livros estabelecem um contraste importante entre o que é o “colonialismo” e a “colonialidade”, diz Sheila Khan. “O colonialismo é a ideologia, a regra; a colonialidade é esse colonialismo reduzido no seu dia-a-dia, na prática, no seu agenciamento, nas relações entre as pessoas. Tem a ver com a forma como um mesmo fenómeno é sentido, vivido e imposto.” Estes livros, argumenta, traduzem o quotidiano colonial e “os sentimentos que estavam colados a ele, as vivências, a forma como cada um percebia e sentia essa forma de estar num lugar que, não sendo seu, era seu; como cada um se apropriava dele e como é que a sua identidade se transformava a partir deste”.
Nesta literatura está a colónia em toda sua complexidade, mas também a nostalgia: “A nossa relação com a casa, o espaço e o tempo, ansiando por um lugar de pertença. Nostalgia pelo perdido, pelo que África poderia ter sido, e pelo que não tínhamos e queríamos ter tido”, explica Isabel Ferreira Gould.
Antes, a literatura portuguesa contemporânea portuguesa já tinha ido a África, visitando o período da guerra colonial nos livros de Lídia Jorge, António Lobo Antunes, João de Melo; só no final dos anos 90, surgem as primeiras obras sobre a experiência do Império e do colonialismo. Há aqui um salto e não se pode ignorá-lo. Estes livros são importantes: “Não podemos escamotear esta narrativa de nostalgia.” A qualidade literária não está em causa: “É uma narrativa muito próxima do testemunho, e muitos são novos autores a estrear-se.”
No livro que Ferreira Gould vai publicar, Império na Primeira Pessoa: Memória, Família e Colonialismo na Narrativa Portuguesa Contemporânea, estas obras vão figurar porque falam “da relação de pertença e não-pertença sob a perspectiva do colono. Porque há vários colonos. Ele é muito importante enquanto figura literária: é colonialista, é colonizador, mas também é imigrante e as pessoas têm muito pudor em falar nisto.” O colono é um imigrante fruto e veículo de uma ideologia: “O pai de família, o pai português, o racista.”
Este livros, sublinha a investigadora, não devem ser lidos com o preconceito com que o Portugal europeu, continental, sempre tratou os retornados. “Lidamos melhor com a memória do soldado que fez a guerra colonial do que com a do colono. Como pensá-la, como rememorá-la? É legítima a sua memória? Estes romances trazem notícias ao pensar de forma legítima a memória da colónia e do retorno, hoje.”
Por isso, o que se apaga ou se omite é tão importante como o que está escrito. “Sim, muitos apagam, mas também reconstroem. No discurso da memória, as falhas são tão importantes como o que está lá. São testemunhos que rompem com a narrativa histórica porque o narrador pode dizer ‘fui eu, vivi, perdi, estava lá’, mas, por outro lado, essas narrativas são prisioneiras da identidade, o que limita o que podemos dizer sobre o outro”.
Sheila Khan chama-lhe literatura de “retornados” (e sublinha as aspas).
A violência da linguagem
Os livros de Isabela Figueiredo, Cadernos de Memórias Coloniais (Angelus Novus, 2009) e de Ricardo de Saavedra, Os Dias do Fim (edição de 1995 revista e aumentada, Casa das Letras, 2008) rompem com uma certa imagem da colónia, e demonstram a violência do quotidiano e do período de independência com a força crua da linguagem. 
Exemplos: “Uma branca não admitia que gostasse de foder, mesmo que gostasse. E não admitir era uma garantia de seriedade para o marido, para a imaculada sociedade toda.” (Figueiredo, 47 anos) “O jornalista que sou percorreu os trilhos da guerra. Foi treinado para se defender e para matar, se necessário. Empurraram-no contra um inimigo impiedoso.
Cumpriu o que lhe mandaram, na atitude ingénua e cómoda de prestar um serviço à Pátria. O homem que sou é o resultado laboratorial de um equívoco (…). Eis porque, neste poiso africano que antecede a aerogare da Portela de Sacavém, me contorço. Deprimido e soturno, pareço uma galinha pedrês, a sacudir as asas, no terreiro da aldeia de colmo a que ateiam fogo.” (Saavedra, 58 anos)
Isabela Figueiredo, 46 anos 'Caderno de Memórias Coloniais' - visão autobiográfica da autora sobre a sociedade moçambicana, racista, violenta, profundamente injusta, condensada na figura do seu pai. Shamila MussaIsabela Figueiredo, 46 anos 'Caderno de Memórias Coloniais' - visão autobiográfica da autora sobre a sociedade moçambicana, racista, violenta, profundamente injusta, condensada na figura do seu pai. Shamila MussaFigueiredo e Saavedra saíram de Moçambique com a independência e estes livros são os seus diários - autobiográfico, no caso de Isabela; ficcional (?), no caso de Saavedra - da colónia, da violência, do retorno e do exílio. “Tive de cortar com o passado, e cortei mesmo. Não sou saudosista, não quero reconstituir nada, não quero vingança, mas gostaria que os meus netos soubessem que sofremos”, diz Saavedra ao Ípsilon.
O livro de Figueiredo foi uma “pedrada no charco”, diz Sheila Khan. “Isabela é a filha desobediente” que vem romper com o “status quo” da literatura sobre a colónia, e essa ruptura é feita de uma forma muito violenta: “A maneira como ela entra no texto, ninguém quer ouvir aquilo. Tínhamos uma ideia muito pacífica e paradisíaca do colonialismo português em África.” A autora tem recebido mensagens de leitores que se identificam com a sua visão da colónia - racista, violenta, profundamente injusta. “Sinto-me bem porque sinto que não sou só eu, não fui só eu que tive de ouvir aquilo, muitas mais pessoas ouviram as mesmas coisas. Durante muito tempo senti-me muito sozinha relativamente ao que eu sentia sobre a minha realidade africana, sobre as minhas memórias”.
Estes são exemplos do que Isabel Ferreira Gould chama de “narrativas de decantação”, ou seja, “textos escritos na primeira pessoa” sobre memórias “que estão estruturadas entre uma visão crítica do colonialismo e a necessidade de exaltar, para o bem e para o mal, as figuras fundamentais da identidade dos sujeitos da narrativa”. São, em muitos casos, “obras de filhos a rever as suas memórias e as das suas famílias, estabelecendo tensões e conflitos dentro da sua própria geração e com a geração dos seus progenitores”. Mas, ao tentar filtrar o passado, ao decantá-lo, “como o próprio nome indica, também estão a homenagear, louvar, a elogiar: há uma tensão entre quem critica e ao mesmo tempo louva o progenitor”.
Os silêncios guardados no baú ainda por abrir são o resultado de “pactos de amor nas famílias, que não podem ser quebrados”, diz Isabela Figueiredo, que esperou pela morte do seu pai para poder dizer tudo. “Só dentro de alguns anos é que estas histórias poderão vir à tona. Os filhos que viveram esta realidade e que podem contá-la estão presos a esse pacto, comprometidos na teia de afectos.”
Retornado ou refugiado?
“Vim sem nada, só com a roupa que tinha vestida”; “Nós estivemos dois dias no aeroporto de Luanda”; “Nós vivíamos em Nova Lisboa. Quando saímos já havia tiros”; “Nós éramos do Uíje… deixámos lá tudo”; “Eu nem sei do resto da minha família”; “E agora o que vai ser de nós nesta terra?”
É através deste mosaico de vozes que Carlos Vale Ferraz descreve em Fala-me de África (Casa das Letras, 2007) a tragédia do retorno. O romance tornou-se série de televisão, “Regresso a Sizalinda”, agora em estreia na RTP. Não é sobre o retorno em si, diz o autor, “mas uma história de busca de identidade. E também da relação dos portugueses com África”. A questão dos retornados, nota, sempre o tocou: “Não apenas aqueles milhares de pessoas que vieram em 1975, mas a vivência do retorno. A ideia de Portugal de 1975 para cá é a que está reflectida no livro, a de que encerrámos um ciclo”.
Carlos Vale Ferraz, 64 anos 'Fala-me de África' - história da busca de uma identidade que ficou no passado, em Angola, mas também um retrato de um Portugal de “retornados” e da sua integração. fotografia de Raquel EsperançaCarlos Vale Ferraz, 64 anos 'Fala-me de África' - história da busca de uma identidade que ficou no passado, em Angola, mas também um retrato de um Portugal de “retornados” e da sua integração. fotografia de Raquel EsperançaO ciclo fechou-se, mas ainda estamos todos com a cabeça em África. Diz Vale Ferraz: “Num determinado momento, a expansão foi como aquelas crianças que andaram a juntar as carruagens num comboiozinho. Numa determinada fase, fomos perdendo carruagens, primeiro a Ásia, depois o Brasil, depois a Índia, e finalmente perdemos a carruagem de África. De repente, vimo-nos todos dentro da mesma carruagem, e há uma certa sensação de sufoco. É isso que faz as pessoas escrever: não temos para onde fugir.” Perante a impossibilidade de fuga, “agora, vamos ter de pensar em nós, aqui, como nos relacionamos com os outros”.
É por isso que Isabel Ferreira Gould afirma que estes livros são “sobre Portugal, sobre nós e a nossa relação com África, sobre o eu português e como este vê o outro”. África está lá enquanto espaço e cenário, “paisagem, campo de batalha, de encanto e desencanto”.
Carlos Vale Ferraz, 64 anos, não é um retornado. Foi militar e cumpriu comissões em Angola, Moçambique e Guiné. De seis romances, três são sobre África. Escreve sobre o continente porque, explica, “na segunda metade do século XX, é o assunto determinante da história de Portugal”: “Se não escrevemos sobre África, não percebemos nada do que se passou em Portugal, não percebemos nada do que foi o Estado Novo, nem o que foram as transformações a seguir. Escrever sobre África é escrever sobre o nosso tempo. O Lobo Antunes não conseguiria escrever sobre as pessoas suburbanas que vão para os centros comerciais ao domingo se, na sua maioria, não fossem pessoas que vieram de África, quer sejam aquelas que foram combater e depois vieram da província para aqui, quer sejam aquelas que regressaram em 1975.”
Os “retornados” (mais aspas) foram bodes expiatórios do colapso do império, e esta literatura que está a aparecer em Portugal (de, para ou sobre retornados) está a abrir as feridas. “Estas pessoas não são retornados, muitos não retornam a lugar nenhum. São refugiados de guerra”, diz António Mateus. “Retornado” é a palavra “inventada para contornar uma realidade”. Dizerem-se “refugiados”, explica Khan, é a “forma como as pessoas tentam descolar-se da imagem de retornado, de mágoa e de exílio. Dizer que se é um refugiado é dizer que se foi expulso da sua terra, que não se pertence a Portugal e que Portugal não se lhes pertence.” Ricardo de Saavedra foi um refugiado político, “tout court”, exilado na África do Sul. A sua personagem Luís Ribeiro Sales escreve, em Dias do Fim: “Estou no campo de refugiados de Nelspruit. Não se trata de reportagem, não vim como observador. Sou um deles. Sentado numa pedra, escrevo. Tudo o que me resta cabe debaixo do braço.”
Os “de cá”, explica Isabela Figueiredo, “diziam que os retornados andavam a explorar os negros. Eram ataques muito fortes, batia na ferida das pessoas, porque era uma metáfora, mas era verdade; era um eu colectivo que se enquadrava nessa imagem”. “Retornado” soava “assim como quando se diz ‘ó preto’ como ofensa: ‘ó retornado!’ soava mal, porque queria dizer fascista, explorador.” Ela olha para a palavra de outra maneira: “Como se ela quisesse dizer: pessoa que veio de África a seguir à independência.”
Cartografia emocional
Todos estes escritores são “órfãos desse grande progenitor que foi o colonialismo português. Ao não ser capaz de dar a nenhuma destas pessoas o sentido de cordão umbilical, o colonialismo vai tocar na debilidade estrutural do que é ser-se português”, diz Khan.
A literatura do retorno é uma forma especial de luto. Um luto que ainda não foi verdadeiramente feito, porque não se “pode pensar em luto sem se sepultar um corpo, e nós não temos lá nada sepultado porque viemos embora”, e que é descrito em A Balada do Ultramar, de Manuel Acácio (Oficina do Livro, 2009). Jornalista na TSF, Acácio, 46 anos, não é retornado e nunca foi a África. Foi casado com uma portuguesa que se dizia angolana, retornada. Admite que “A Balada do Ultramar” é o seu luto pela morte da mulher (há cinco anos), mas também o luto que milhares de portugueses não fizeram.
As palavras de Khan vão ao encontro do seu romance: “É um silêncio insepulto que nos diz que aparentemente está tudo bem e está tudo resolvido (porque afinal Portugal recebeu de forma pacífica e ‘gloriosa’ estas pessoas). Mas se elas têm necessidade de escrever, é porque alguma coisa não está bem.”
Foi por sentir que alguma coisa não estava bem que Acácio escreveu. Partiu com “muitos preconceitos para este livro”. Tinha medo do que as pessoas iam pensar: “Que sou saudosista e colonialista, que estou a tentar reescrever a história”. É o seu primeiro romance, sobre um homem que está a contar a história do regresso. “Quis pôr-me no papel de quem se sentiu injustiçado, mal recebido. Alguém que sente que é de África e está de certa forma a fazer um ajuste de contas com o seu passado.”
Nove anos à frente do Fórum TSF fizeram-no perceber que a memória pacificada da mulher com Angola não coincidia com a memória de muitos outros retornados. (Ou)viu que “as feridas não estavam nada saradas, estavam todas em carne viva. Havia uma grande revolta silenciada naquelas pessoas. Os fóruns eram uma oportunidade de falarem.” “[A Balada do Ultramar] é o filho desse espanto com que fiquei quando percebi que havia uma enorme revolta de pessoas que tiveram de deixar tudo e depois chegaram cá e foram apontadas, criticadas, estigmatizadas”, continua.
Não ter contas a ajustar com o “seu” passado colonial poderia à partida ser um impedimento, mas acabou por ser uma vantagem: “Não estou preso às recordações da minha família, não estou amarrado a laços”.
Talvez por isso, esse homem velho conta a história das suas vivências em África sem o pudor do afecto. O livro passa esse saudosismo do passado colonial (propositado, diz), mas também toca de forma clara na questão da sexualidade, “na ida às cubatas, no racismo, na violência verbal, no trabalho escravo”.
No fundo, os retornados são isto: “Às vezes penso que devíamos ser como as cobras. Elas aprenderam a largar a pele envelhecida e deixam-na para trás sem qualquer remorso”, escreve Acácio. Mas o remorso, a vergonha, a mágoa ainda estão lá. Esta é “a dor de uma geração”, diz. “Há uma cartografia emotiva que está por fazer.”

Artigo originalmente publicado no jornal Público, no suplemento Ípsilon

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