terça-feira, 22 de novembro de 2011

FANTASMAS DO PASSADO por Victor “Hunter”


Por: Victor “Hunter”

Um dia na minha Beira
Fui para a cama bem cedo
Durante a noite acordei
Com uma sensaçâo de medo.

Nâo era de arrepiar,
Era somente a impressâo,
Que alguem me acompanhava,
Apressou-me o coraçâo.

Vi deslisar umas sombras,
Abri os olhos em par,
Era como umas imagens,
Que me vinham visitar.

Fantasmas...logo pensei,
Aqui é tudo possível,
Vi caras que conheci antes,
Isto sim que era incrível.

Olha o velho Araujo,
Daquele jeep a baixar,
Parecia-me bem disposto
Pela praça a passear.

Levava posto um blazer
No pescoço um cachné,
Falava com o Ramchand
Um importante monhé.

Depois vi um homem passar
Deu-me um salto o coraçâo
Parecia-me conhecido,
Era o Saul Brandâo.

Lembram-se dele certamente
Muito conhecido o senhor,
Era homem de negocios
E dono do Embaixador.

Quem vem lá baixo apressado?
O Salzone, o caçador,
Vai correndo antes que feche
O Pinto & Sotto Mayor.

Naquele Mercedes lá vai,
Levantou a mâo pra mim,
Pude vê-lo muito bem,
Era o Engenheiro Jardim.

Deve ter vindo do Dondo,
Acompanhava-o a esposa,
Vi que o carro seguia,
P’ros lados do Pendray Sousa.

Ele fui o presidente,
Por isso o conhecia
Do nosso aero club,
Onde eu muitas vezes ia.

Foi um grade aventureiro,
E foi homem da elite,
Piloto aviador
Director da Lusalite.

Quando estava bem atento,
Vi um Fiat azul passar,
Era o meu tio Acácio,
Que vinha de trabalhar.

Ao Bar Rex se dirigiu,
E foi lá estacionar,
Porque pelas tardes ia,
Com os amigos jogar.

Continuava admirado
Com todos os que passavam,
Porque eu sabia que eles,
Todos mortos se encontravam.

Mas aqui nâo acabava
Era como se estisse à janela,
Passou o Magalhâes Costa
O dono da Caravela,

Isto só acontece aqui,
Nesta cidade da Beira,
Olha o meu amigo Sthamer,
Do Pertersen & Nogueira

Ia no seu Volkswagen
Por isso eu bem o vi,
Tinha a sua companhia,
Por cima do Café Capri.

Passar em frente aos correios
Vi o Virgilio Garcia,
Indo direito à Safrique,
Deles era caçador-guia.

Lembram-se dos Serras Pires?
Lhes juro que eu nâo minto,
Vi passar p’ro 100 à Hora,
O meu amigo Jacinto.

Que andará fazendo?
Com cuidado o segui,
Vi que andava organizando,
À Gorongosa um Rally.

Rallys, carros e velocidade,
Desfilando pela Beira,
Representando o Entreposto,
O José Manuel Mendes Pereira.

Vi passar um grande carro
Atrás dele uma camionete
Saiu de lá o dentista
E a sua mulher, a Gillette.

Continuava a passar,
A gente que eu conheci,
O dono do Simôes Safaris
Naquele momento eu vi.

Olha o Zé que bem o vejo,
Acenando-me com a mâo,
Vi tambem o velho Coimbra
E o Henrique Leitâo.

Olá amigo, me disseram,
Aqui te viemos a ver,
Fomos todos muito amigos
Muito antes de morrer.

Depois vi o Carlos Cruz,
Que tambem foi caçador,
Ele casou-se com a viuva
Que se chama Leonor.

Sabem quem vi eu passar
Pessoa que me deu pena?
Vi que ia muito contente,
O amigo Luis Mena.

A morte tinha-o levado,
Rápido e numa carreira,
Agora encontrava-se bem,
A passear pela Beira.

Mais tarde vi outra pessoa,
Na mâo levava um cajú,
Era o Armindo Vieira
O famoso Marabú.

Foi caçador professional,
Durante muitos anos,
Nese momento passava
Mesmo em frente à Spanos.

Atrás da Manica Trading
Vi o Arquitecto Ivo,
Caminhava devagar
Parecia que estava vivo.

Com ele e acompanhando-o
Em conversa muito amena,
Ia bastante animado,
Creio que se chamava Sena.

Que estariam planeando?
Alguma coisa digo eu,
Será que querem modificar
A entrada para o Céu?

Com calma mas com firmeza
Pelas avenidas da Beira,
Ia p’ro Aero Club,
O grande Chico Moiteira.

Sempre com um grande sorriso,
Que nele era habitual,
Acompanhava-o o Tony Ladley,
Nâo vi que estivesse mal.

Num Citroen tubarâo
Ia o Roger Sauvage,
Tambem o acompanhava,
A que foi minha manacage.

Ao olhar p’ro Pic-Nic,
Estava o amigo Teixeira,
Aterafado preparando,
Uns ovos com uma alheira.

Estava a ver muita gente
Durante essa semana,
Vi aquele que foi piloto,
Amigo Lomba Viana.

E por falar de pilotos,
Que viviam nesta terra,
Ia para o aeroporto,
O aviador Jorge Guerra.

Dizem que a Senhora Morte,
O tinha contratado,
Para levar as pessoas,
Da vida, pró outro lado.

Tambem vi outra pessoa,
E quase solto um grito,
Era um bom hoteleiro,
Do Estoril, era o Brito.

Na entrada do cinema
Que se chama Nacional,
Encontrei um velho amigo
Era o Luis Portugal.

Oh Luis meu bom amigo
Onde é que tua mâe anda?
Está na agencia agora,
E ainda se chama “Armanda”.

Que coisas que estava a ver,
Isto sim era demais,
Pois no Lar Modeno vi
O Silva e o Sr. Morais.

O Torcato pobrezinho
Quando chegou aquele dia
Quiz vender ao Sào Pedro,
Bilhetes de Lotaria.

Despois vi uma pessoa
Que reconheci Deus meu,
Era o Coen das madeiras,
Que era um grande judeu.

Mesmo em frente ao Chiveve,
Preparando o camarào,
O grego do Johny’s Place,
Açenou-me com a mâo.

Que boa que era a comida,
Naquele famoso lugar,
Agora eram os fantasmas,
Que a estavam a gozar.

Segui para a Ponta Gea
Alguem me estava a chamar
Na Padaria Esperança,
Vi o Carvalho trabalhar.

O que mais me impressionou,
Que quase me dá um chelique,
Ver a Gugas, minha mulher,
Em terras de Moçambique.

Em frente ao campo de golf,
Naquele grande casarâo,
Vi o homem importante
O bispo Dom Sebastiâo.

Primeiro Bispo da Beira,
Nos livros assim se aprende,
A lápide que está no châo diz:
D. Sebastiâo Soares Resende.

Vi uma pessoa importante,
Que num grande carro vinha,
Era um bom advogado
E chamava-se Palhinha.

Gostava muito de caçar,
Ia muitas vezes p’ros tandos,
Para poder distrair-se,
De assuntos e de “milandos”.

Por fim vi um grande homem
Que saiu nâo sei bem donde,
O que foi o meu pisteiro,
Um grande amigo , o FOMBE.

Para mim se dirigiu,
E disse-me num tom lento,
Aqui estou oh meu muana,
Te espero até ao fim do tempo.

Ao ver aquele ser querido,
Nem podia respirar,
Desde que era um menino,
Ele me ensinou a caçar.

Ao ver que ele estava bem,
Que felicidade, que alegria,
Sabia que ele me esperava,
Quando chegasse o meu dia.

Depois de ver tudo isto,
Cheguei à conclusào,
Que os beirenses ao morrer
Para o Paraiso vâo.

E ao perguntar-lhe directo,
Ao Dr. Dias Ferreira,
Victor, ainda nâo notas-te,
Que o Paraiso é a BEIRA?

Quando eu morra um dia,
Lá nos vamos encontrar,
Mandem-me limpar a casa,
Onde eu costumava morar.

Agora sei para onde vou,
Agora estou descansado,
À Beira eu vou parar,
Ainda que morra noutro lado.

Por isso amigos nâo temam,
Quando a Morte os venha buscar,
Já sabem que de certeza,
À Beira vamos parar. 

domingo, 6 de novembro de 2011

EM PRIMEIRA MÃO "Retornados-o Adeus a África" de António Trabulo




Um capítulo

No Planalto, uns partiam e outros não. Muíla tencionava ficar no Lubango. Tinha ali raízes fundas. Os seus bisavôs paternos tinham chegado antes dos colonos madeirenses.
Era um jovem estranho. As mulheres achavam-no bonito, mas ele ainda não casara.
Aos vinte e seis anos, quase foi abatido por engano.
Aproximava-se da cidade quando encontrou uma barragem da U.N.I.T.A. Vinha sozinho no veículo de todo-o-terreno. Não trazia armas e até mostrou o cartão certo ao militar que o interpelou.
Um do grupo alvitrou, em umbundo:
– Tem mercenários com cartão.
O Muíla conhecia bem a língua. Levantou o braço esquerdo. Ia protestar.
Um tipo nervosinho do grupo armado interpretou o gesto como ameaça e quase soltou o seu medo pessoal. O dedo indicador da mão direita cingiu-se-lhe ao gatilho da Kalashnikov.
A sorte aconteceu. Um dos tipos detrás reconheceu-o.
– Conheço este gajo. É da Palanca.
Lá o deixaram.
Nesse dia, o Muíla resolveu mudar-se para Portugal, onde nunca estivera. Deu sociedade na fazenda ao Martinho, mulato que já no tempo do seu pai era o capataz. Assinou um documento em que lhe reconhecia a posse de metade da terra e do gado. Assim, podia ser que a empresa sobrevivesse aos tempos difíceis que se anteviam. Talvez um dia ele pudesse voltar e retomar a vida normal.
Já não havia quase ninguém nos Serviços de Pecuária onde trabalhava durante a semana. A maioria dos colegas abandonara Angola. As repartições públicas estavam a deixar de funcionar.
Conseguiu marcar passagem de avião para Luanda. Voltou ao Chiange e despediu-se do Martinho com um abraço apertado. Durante a viagem de regresso ocorreu-lhe que podia estar a fazer aquele trajecto pela última vez na vida.
Ao entrar na rua onde morava, avistou uma luz acesa em sua casa. Como vivia sozinho, receou que lhe tivessem ocupado a moradia. Eram coisas que aconteciam com frequência crescente. Os militantes dos três Movimentos tomavam conta dos apartamentos abandonados pelos proprietários.
Estacionou o velho Land Rover a uma distância de quarenta metros, pegou na pistola e introduziu uma bala na câmara. Meteu a mão que segurava a arma no bolso direito do casaco largo.
Com a mão esquerda, rodou cuidadosamente a chave na fechadura e abriu a porta de mansinho. Entrou no hall. Viu uma mala fechada encostada ao lado direito, junto ao cabide dos casacos. Da sala, escapava-se um polígono de luz. Avançou alguns passos e espreitou. Lua dormia, estendida no sofá.
Sorriu, retirou o projéctil da câmara, travou a arma e poisou-a na mesa.
Descalçou-se, atravessou a sala, e entrou no seu quarto. Retirou da cómoda umas cuecas e um pijama. Passou à casa de banho, tirou a roupa e meteu-se debaixo do chuveiro, sem fechar a porta.
Lua acordou com o ruído da água a escorrer. Viu o saco de viagem do Muíla e a pistola. Teve um dos seus impulsos, e seguiu-o. Despiu-se e juntou-se ao jovem que se banhava. Abraçaram-se e beijaram-se, sem falar. Fizeram amor logo ali.
Enxutos e vestidos, foram para a cozinha.
– Trouxe pão fresco. Pensei que dava jeito...
– Obrigado. Tenho sempre um bocado de queijo na geleira. Também há cerveja. Já jantaste?
– Comi alguma coisa. Sabes que não sou de muito alimento.
– Eu não posso dizer o mesmo – O Muíla deixou escapar a frase entre dois golos de cerveja. Que fizeste ao teu homem? E como é que entraste aqui?
– A tua criada deu-me a chave.
Fez um sorriso maroto antes de continuar.
– Quando quero, ninguém é capaz de me dizer que não. Quanto ao Gil, deixei-o! Estou farta dele e do Lubango. Além disso, tenho medo. As coisas estão cada vez pior. Soube que te vais embora. Quero ir contigo para Lisboa.
– E lá, que tencionas fazer? Como é que soubeste que eu estou de abalada? Tenho a certeza de que não falei disso a ninguém.
– Compraste um bilhete de avião há duas semanas. Falei com o empregado da agência. O Ricardo é muito simpático. Arranjou-me lugar no mesmo voo. Os bilhetes estão esgotados, mas dá-se sempre um jeito.
– Tomaste uma decisão que vai mudar muitas coisas na tua vida. Pensaste bem?
– Acho que sim.
– E tens a certeza de que não te vais arrepender?
– A certeza, a gente nunca tem, não é?
Muíla pensou no Gil Madeira. Era um tipo culto, decente, com tiques de militar e ideias antiquadas. Considerava-se salazarista. Salazar morrera há oito anos. A sua ideologia tornara-se obsoleta muito antes. Nos últimos tempos, o velho ditador diminuído limitara-se a vegetar. Os seus seguidores tinham criado um fantasma que continuara a influenciar o governo do País, mas o tempo de Oliveira Salazar e a sua percepção do mundo tinham ficado lá muito para trás.
Gil podia tornar-se perigoso. Tinha a mania das armas. Alistara-se na F.U.A. (Frente Unida Angolana) do engenheiro Falcão, do Lobito. A evolução dos acontecimentos e a falência do modelo de independência que sonhara levara-o depois a aderir ao E.L.P., o chamado Exército de Libertação Português. Não falava com o irmão gémeo, que era todo M.P.L.A.
A esta hora andaria a rondar a cidade de jipe, em busca da mulher.
Lua chegou-se à mesa e pegou na pistola abandonada. Acariciou-a como se fosse corpo de homem.
– Às vezes sinto-me tentada a dar cabo de mim.
– Não sejas tonta. O mundo ficava muito mais feio.
Abraçou-a.
Tinham a partida marcada para a manhã seguinte. O marido só daria com eles se se lembrasse de estar no aeroporto à hora da largada. Era coisa que podia acontecer. O melhor era ter a arma bem à mão.
Não se sentia culpado. Nada fizera para atrair Lua para junto de si, mas a mulher era muito, muito bonita e um homem não era de ferro.
Deitaram-se.
Na manhã seguinte, o Muíla telefonou para a tia Alzira. A irmã da sua mãe era solteirona e morava em Setúbal. Nunca se tinham visto. Trocavam postais de vez em quando, e falavam por telefone quando havia alguma coisa importante a dizer. Fora assim que soube que era o herdeiro único dos seus modestos bens. A senhora morava em casa alugada. Até o telefone pertencia à vizinha do lado.
Já a avisara de que tencionava ir para Portugal. Nos primeiros tempos precisava de alguma ajuda.
Escolheu as palavras com algum cuidado antes de dizer que a Lua ia consigo.
– Levo a minha mulher.
– Não sabia que te tinhas casado. Essas coisas comunicam-se!
– Tem razão, tia, mas aqui vivemos tempos difíceis. Às vezes parece que o mundo está a acabar. As regras confundem-se. Peço desculpa. Quando chegarmos, conto tudo.
Arrumara na maleta alguns pertences. Pesavam pouco.
Gil Madeira não imaginou que a mulher tencionava voar para Luanda, e o casal embarcou sem dificuldades.
Formara-se uma fila de pessoas à cata de uma desistência, mas não houve nenhuma. Ao subir a escada do avião, Muíla olhou para trás.
Talvez nunca voltasse àquela terra, que era a sua. Não conhecia outra melhor.
Os que ficaram tinham um ar preocupado. Deixaram-se estar até que a aeronave desapareceu no ar.
Muíla reservara um quarto em Luanda com bastante antecedência. A Lua não gostou das acomodações porque o espelho da instalação sanitária era pequeno. O companheiro ainda telefonou para dois hotéis e uma pensão, mas estava tudo cheio de gente que aguardava lugar nos voos para Lisboa. A mulher resignou-se.
Corria o mês de Setembro de 1975 e a ponte aérea funcionava em pleno.
__________
António Trabulo

Retornados-o Adeus a África
Editorial Cristo Negro
( 2009)
 

dulce maria cardoso – uma entrevista a propósito de «o retorno»

Dulce Maria Cardoso
1975, Luanda. A descolonização instiga ódios e guerras. Os brancos debandam e em poucos meses chegam a Portugal mais de meio milhão de pessoas. O processo revolucionário está no seu auge e os retornados são recebidos com desconfiança e hostilidade. Muitos nao têm para onde ir nem do que viver. Rui tem quinze anos e é um deles. 1975. Lisboa. Durante mais de um ano, Rui e a família vivem num quarto de um hotel de 5 estrelas a abarrotar de retornados — um improvável purgatório sem salvação garantida que se degrada de dia para dia. A adolescência torna-se uma espera assustada pela idade adulta: aprender o desespero e a raiva, reaprender o amor, inventar a esperança. África sempre presente mas cada vez mais longe.
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«O Retorno»

«O Retorno» é o quarto romance de Dulce Maria Cardoso. Galardoada com diversas distinções literárias – entre as quais o Prémio da União Europeia para a Literatura, pelo livro «Os Meus Sentimentos», ou o Prémio Literário Acontece, atribuído a «Campo de Sangue» -, terá sido a descoberta da autora fora de portas a merecer-lhe o convite para uma residência literária que a levou a viver um ano na Alemanha. Foi aí que escreveu o romance que agora a catapultou para o primeiro plano da Imprensa portuguesa, meio em que o seu reconhecimento tem sido gradual. Para além de um romance que, como diz a escritora, a levou a decidir tornar-se escritora, este será também, ou é, de certa forma, um romance que abre uma porta até hoje fechada, a do olhar de uma geração sobre um tempo português de miséria, vergonha e turbação. Nascida em 1964, Dulce encarna a geração dos filhos da guerra, os filhos dos homens que combateram em África por uma terra que diziam ser nossa, do Minho até Timor, os filhos daqueles que tendo começado uma vida em África se viram engolidos pelo rolo compressor da História que os levou a deixar uma terra que tinham como sua, que amavam como sua, que queriam como sua, regressando de mãos vazias a uma metrópole que mais do que os acolher, os recebeu como pôde, mal e vergonhosamente. Como aliás, o país se encarregaria de tratar também aqueles que lutaram por uma ideia de nação ultramarina gasta e condenada ao fracasso que os anos, e as muitas vítimas de um conflito perdido à nascença, se encarregariam de demonstrar. Aqui, porém, é dos retornados que se fala. Pela voz de uma criança, depois adolescente, que aprende a vida passando pela descoberta precoce do medo, da humilhação, da discriminação. Romance a dois tempos, dividido entre um lá e um cá, um antes e depois do regresso, o que aqui nos é dado a perceber é o modo cinzento como então se via o mundo, de um lado, os bons, do outro, os maus; isto é, um mundo visto com a inocência de um olhar daltónico, que mais não sabia distinguir que apenas o branco e o preto. Livro testemunho, é nessa medida um livro empenhado em instituir-se como testemunha de um tempo e de um processo que o tempo não apagou ainda por completo, tão-só porque as memórias e as emoções não se apagam por deliberação, tão-só porque se trata de um tempo, ou de tempos conturbados, que muita gente parece não interessada em escalpelizar – por vergonha? Porque passou, passou? Ou porque exactamente não passou? Dulce Maria Cardoso nasceu em Trás-os-Montes, em 1964. Para além dos romances supracitados editou ainda «O Chão dos Pardais» e o livro de contos «Até Nós». «O Retorno» tem edição, digna e de bom gosto, da Tinta da China. Porque há assuntos a que devemos retornar, a conversa com a escritora.

TEXTO E FOTOS PEDRO TEIXEIRA NEVES

Dulce, que importância assume este livro na tua carreira, que já leva cerca de dez anos, quatro romances e um livro de contos?
Pode dizer-se que este é o livro pelo qual eu decidi tornar-me escritora. Portanto será, é certamente um livro significativo na minha vida. Tanto mais porque de alguma forma eu vivi grande parte do que nele se relata, ou seja, é o livro mais parecido comigo, porque eu vivi estes acontecimentos. Eu acho que todos os livros são autobiográficos, mas neste deu-se o caso de ser mais autobiográfico, porque eu vivi parte dos acontecimentos que relato.
Esse facto, essa envolvência tão directa com os factos, ajudou ou pesou no acto da escrita?
Não sei responder… Foi diferente do que se passou com os outros livros. Creio que isso terá ajudado a aproximar-me mais de uma verdade que queria contar… Mas, responder assim, parece que os outros livros, ou seja, parece que é obrigação do escritor ter de viver tudo, o que não acho que seja o caso. Aliás este livro é narrado por um rapaz, coisa que eu obviamente nunca fui.
És capaz de mensurar quanto de ficção e de real assistem a este livro?
Não sei dizer. Mas o facto de ser narrado por um rapaz afasta logo grande parte de uma hipotética percentagem de realidade… Eu não sou a protagonista do livro…
No fim do livro colocas aquilo que poderá ser uma espécie de pós-epígrafe, que diz qualquer coisa como «las cosas muertas no se deben tocar». Regressar ao passado, mesmo que pela via da escrita, não é de algum modo tocar em coisas mortas?
É, mas isso é uma provocação. Eu acho que se deve tocar nessas coisas, acho que as coisas mortas devem ser tocadas, devem ser faladas. E em relação, por exemplo, à História, com H grande, sem dúvida que um povo estará mais preparado para o seu futuro quanto mais souber do seu passado.
Em que sentido falavas atrás de uma verdade que queiras contar? Que verdade é essa?
A verdade de que eu falava é a minha verdade, ou seja, não era repor a verdade histórica; embora também penso que com a minha verdade eu posso ajudar a repor um bocadinho da verdade histórica, do que foram na realidade esses tempos. Mas trata-se, acima de tudo, da minha verdade.
Não te animou, portanto, qualquer desejo de acerto de contas, até como forma terapêutica tua de lidar com o passado?
Não. Quanto ao exorcismo e a terapia, aquilo que se pode considerar a escrita como terapia, isso não é o meu caso, tanto é que eu demorei imenso a decidir escrever o livro, porque ainda não tinha encontrado uma proposta de reflexão para tratar este assunto. E, portanto, se fosse por uma questão terapêutica, digamos assim, este teria sido naturalmente o meu primeiro livro, o meu primeiro romance, e não foi. Até porque sei que foi um tempo de grande sofrimento e eu acho um pouco indigno tratar o sofrimento sem acrescentar uma proposta de reflexão. É um pouco parecido com aquelas situações em que se abranda para ver o acidente, não é? Só se deve abrandar se for para prestar ajuda, se não, não se deve abrandar, porque é um pouco obsceno, muito obsceno.
Portanto, o dirimir de culpas nunca te interessou?
Não, não se trata de ajustar contas com o passado, não é uma escrita terapêutica. É exactamente uma proposta de reflexão, sobre a perda, sobre como é que se vive uma perda, e percebi que não se vive uma perda por antecipação. Mas isso é válido tanto neste caso, em que se aborda a perda de um país ou de um modo de vida, como para outra perda qualquer, por exemplo, de uma pessoa que amamos. Mas aprendi que nunca se vive por antecipação. Quando a coisa acontece é sempre devastadora.
Sentes, de algum modo, que a culpa se diluiu no rolo da História que envolveu todos e acelerou aqueles tempos conturbados, como amiúde as personagens o dizem?
Eu acho que as culpas não se diluíram, porque a culpa nem com toda a água do mundo se pode diluir. O que acontece é que a Justiça quando é extemporânea passa a ser uma grande injustiça. Já passaram muitos anos e é impossível julgar agora segundo aquelas circunstâncias. Portanto, as circunstâncias mudaram tanto… Mas a culpa está lá e continuará lá. Só que já é inútil falar nela. Só é interessante falar na culpa se houver a possibilidade de um julgamento.
Foi difícil partir para este relato na cabeça de um adolescente à época, e subtraíres-te ao peso, até de um julgamento inconsciente dentro de ti, de todos os anos que entretanto passaram?
No fundo, perguntas-me pelo processo da escrita… Nós não sabemos de onde vem as coisas, não é? Nesse sentido, escrever este livro não foi mais difícil do que outro livro qualquer que eu tenha escrito; o que nós temos é uma parte de decisão sobre o que é que vamos tratar, o que é que pensamos, depois há a parte do mistério criativo, em que as personagens se impõem, em que a história se impõe. Portanto eu acho que estive apenas disponível para a descoberta do que podia acontecer no livro.
E quanto ao lugar da escrita, na Alemanha. Este livro poderia ter sido outro, acaso tivesse sido escrito aqui, perto de onde as coisas aconteceram?
Não sei, é a velha história dos «ses». A Alemanha foi muito interessante. Primeiro, recebi um convite para a residência literária e depois decidi aceitar e quando decidi aceitar decidi escrever o livro lá. Foi muito interessante porque, de algum modo, eu também estava deslocada, pelo que pude outra vez experimentar ter aquela sensação de não pertença. Sendo certo que esta não pertença, vivida na Alemanha, foi sobretudo lúdica. Ou seja, eu quando vim para cá de Angola eu não tinha maneira de voltar a casa, na Alemanha eu tinha um bilhete de avião. Portanto, isto é acima de tudo lúdico, eu não gosto de confundir as coisas.
Mas a escrita foi dolorosa por estares a lidar, a reviver acontecimentos tão marcantes do ponto de vista emocional?
Não mais do que o que eu tenho na cabeça desde que as coisas aconteceram. Esta história, os factos todos que eu conto, tudo o que está no livro foi registado nos anos que em que aconteceram, em 75, 76… Portanto, e na verdade, será doloroso não mais do que viver comigo, não mais do que isso.
Sendo um romance sobre a perda e a identidade, o que é que, ainda assim, passando pelo processo, ganhaste e em que é que te tornaste?
As hipóteses do se, volto a dizer, são sempre perigosas, porque tínhamos de ter não sei quantas vidas para ver se eu tivesse ficado em Luanda o que é que tinha acontecido, se isto não tivesse acontecido o que é que eu seria hoje… Portanto, eu não posso responder com rigor a isso. O que eu acho é o facto de eu ter sido exposta tão cedo a uma guerra civil, à perda do convívio com tudo o que me era familiar, até mesmo com a minha própria família, e depois ter sido exposta à discriminação e essas coisas todas, a situações muito injustas, tudo isso expôs-me muito cedo à maldade e ao sofrimento. E o que terá sido diferente é que eu ganhei outra vida, porque eu acho que se ganha mais possibilidade de análise quando se exposta a situações extremas e, portanto, nesse sentido eu terei sido diferente por ter sido exposta a isso, mas, em concreto, o que mudou em mim isso não posso saber.
A perda, de resto, fui muito além do territorial e do material…
Sim, a perda foi acima de tudo afectiva, porque a perda material pode alguma forma, com alguma ingenuidade pensar que nós podemos recuperar tudo, a casa, o carro… a parte afectiva é que é difícil, tirando as histórias horríveis que aconteceram lá nessa altura e antes disso. Mas a parte afectiva é terrível. Aliás, ao escrever o livro apercebi-me que aquele princípio que nós gostamos tanto de aplicar à parte afectiva do «nada se perde, nada se ganha, tudo se transforma», na parte afectiva é impossível. Perde-se e ganha-se, não se transforma assim tanto. Este livro eu tinha de o escrever, acho que se insere naturalmente no que eu fiz e no que virei a fazer, quer dizer, é mais outro degrau entre os outros romances e os contos.
O Rui sonha com a América. Já o pai, apesar de ter perdido tudo, a sua terra, regressa a Portugal para ficar, sem desejo de voltar a partir. Haverá no desejo do Rui um desejo qualquer de vingança, em resultado de indignação e revolta contra o que a Metrópole fizera aos pais?
Não, não… Em Angola nós éramos muito americanizados, portanto é normal que o Rui tenha esse sonho. De qualquer maneira eu aproveitei esse sonho porque eu acho que Portugal ainda é fruto destas duas vontades, dos que ficam, dos que aceitam ficar, e há uma parte, uma parte mais infantil, uma parte, isto porque temos uma fronteira tão grande com o mar, que quer sempre partir, não é? E isto cria em nós uma espécie de esquizofrenia entre o ficar e o partir e, portanto, é mais neste sentido que está esse constante desejo de sair. E, na verdade, a América era porque era na altura digamos o país mais importante do mundo, o mais sugestivo, mas o Rui queria genuinamente sair, ele punha, aliás, também como hipóteses a Venezuela, o Brasil. Portanto, ele queria sair e há uma parte de nós portugueses, ainda hoje, que querem sair. Nós sempre tivemos este desejo de sair, um desejo que eu não encontro nos outros povos. De certa forma, a ideia que também está no livro é enquanto o mar estiver à nossa frente o futuro pode ser o que nós quisermos.
E qual foi o desafio formal que te impuseste neste livro?
O grande desafio formal deste livro, ao contrário, por exemplo, do que aconteceu com «Os Meus Sentimentos», em que há um único parágrafo e em que não há futuros, não há condicionais, não há nada disso, neste livro o desafio era ser adolescente, era ser um rapaz, era escrever com muito pouco vocabulário, porque ele não conhecia a maior parte das palavras, era recuperar o vocabulário angolano, que eu nunca mais ouvi, que nem está nos dicionários, era um vocabulário dos brancos lá. Portanto, foi um desafio formal diferente, mas cada livro tem um desafio formal.
É interessante que escolheste repartir o mal pelas aldeias, ou seja, não diabolizar ninguém, nem num lado nem no outro, isto por via do Rui, que é algo equidistante e tanto crítica os de «lá» como os de «cá»…
Sim e isso porque eu tento sempre aproximar as minhas personagens da vida. E eu não acho que houve um lado bom e um lado mau, eu acho que nós fomos sendo bons e maus à vez. Não há, nem acredito nesta coisa extremada entre o Bem e o Mal, é sempre esta guerra, esta tensão entre o Bem e o Mal… É a tal frase do São Paulo, muito bonita, que «não fazemos o bem que queremos, mas o mal que não queremos»; é natural em nós! Portanto o Rui, como aliás as outras personagens todas, foram sendo bons e maus à vez, foram sendo vítimas e carrascos à vez, foram sendo agressores e agredidos à vez, mas porque a vida é assim, não houve assim uma coisa programática. O que eu tento sempre é aproximar-me o mais possível da vida, essa é a grande inspiração.
Serias incapaz de voltar a Angola?
Sim, não me interessa muito ter picos emocionais. Canalizo os meus picos emocionais para a escrita e em termos pessoais gosto de uma vida mais apaziguada. De resto, acho que seria complicado voltar a Angola e rever uma série de coisas, até porque há pessoas que já não podem voltar comigo, como por exemplo o meu pai. Mas também porque, acima de tudo, Angola não é hoje, em termos políticos, um país aconselhável. Envergonha-me muito enquanto cidadã portuguesa o que se passa entre Angola e Portugal neste momento e não conseguiria visitar Angola enquanto turista, digamos assim.
Temos sido comprados e calados com o dinheiro sujo…
Isso e as condições em que o povo angolano vive. Imaginemos que Angola é um país muito próspero e rico, que, aliás, é, e pronto, podia investir em Portugal… Naturalmente que sim. O problema é que há um sofrimento enorme associado a esse dinheiro que vem de Angola, é um dinheiro criminoso, um dinheiro vergonhoso. E isso eu não gostaria de testemunhar enquanto turista.
Quase a terminar, achas que esta questão e terminologia dos retornados é hoje assunto enterrado?
Não, não é. Ainda há bem pouco tempo, a ver uma casa que estava interessada em comprar, e que estava em muito mau estado, a senhora disse-me que era assim, que estava naquele estado porque quem ali tinha vivido tinham sido retornados. Outro exemplo: mesmo da parte dos retornados acho que há ainda uma grande vergonha em reconhecer ou dizer que estiveram em quartos de hotel, eu não conheço ninguém que o diga ou assuma. Claro que à medida que as pessoas vão morrendo vão morrendo as memórias, mas que não está resolvido, não creio. Isto é… que se diga que a integração correu bem, porque não houve uma coisa terrível, não houve uma guerra civil, nesse sentido poderá dizer-se que correu bem, mas não foi uma boa coisa, não podemos, como alguns intelectuais, dar o exemplo de Portugal como exemplo de uma integração perfeita.
Em que livro trabalhas agora?
Estou a trabalhar n’«O Amante Americano», que aliás já estava escrito antes deste, ou quase, porque entretanto decidi escrever «O Retorno». Agora voltei a’«O Amante Americano». É um romance sobre as relações entre o velho mundo e o novo, neste caso a Europa e os Estados Unidos, ou Portugal e os Estados Unidos, em concreto. Acima de tudo tem que ver com o que nós também estamos a viver, que é a decadência de uma civilização como a conhecemos. «O Amante Americano» centra-se acima de tudo na decadência da família ocidental.
DAQUI

sábado, 5 de novembro de 2011

Do Jornal de Angola Online: Lubango no coração dos portugueses

Artigos
Muanamosi Matumona | em Lisboa

Lubango no coração dos portugueses

13 de Agosto, 2010
Noto que já lá vão anos em que a cidade de Lisboa continua a mesma, pois, uma vez posto cá, vive-se o ritmo de sempre, cruzamo-nos com as mesmas pessoas e também as conversas acabam de ser as mesmas. Porém, são inegáveis as novidades que a capital portuguesa registou, pois já lá vão os tempos em que a capital lusa era encarada como uma zona satélite de grandes cidades europeias, como Madrid, Paris, Londres, Frankfurt, Roma, etc.
Hoje, mesmo mantendo a sua “espiritualidade”, notam-se sempre nela ares de mudanças, bem configurados em grandes novidades que fazem dela uma cidade do século XXI. A rede metropolitana já foi alargada, a economia vai resistindo face à crise internacional que assola todo o mundo, os turistas vão aparecendo em massa nesta época do ano, o número de africanos vai diminuindo paulatinamente, pois as obras, que constituíam uma grande ajuda para muitos deles ganharem o pão à custa do seu suor, já não aparecem com muita facilidade. Isto demonstra, realmente, que Lisboa cresceu, houve investimentos para melhorar a sua imagem e agora é tempo de apostar noutros desafios, sempre dentro dos cânones da modernidade. Por isso, fala-se, hoje, de um Portugal moderno e global...
Neste prisma, vê-se, hoje, um Portugal mais virado para uma das suas antigas colónias: Angola, que durante o tempo colonial era vista como a “menina bonita” dos conterrâneos de Camões. A independência traçou um destino diferente e a História de Angola teve de ganhar outros contornos, “empurrando” Portugal para o seu devido lugar, pois o povo angolano, com a independência, ganhou respeito e maturidade para caminhar de uma forma mais solta. Enquanto o então império português se via reduzido, e confinado dentro do seu pequeno, mas grande mundo, os portugueses tiveram que cair no real, tomando consciência da nova página da História tanto do seu país como de Angola.
Agora, fala-se da cooperação, do diálogo, do respeito mútuo. Mas fala-se, também, do regresso à Angola querida. Ontem, era uma Angola dividida, cansada, abalada, sofredora, porque vítima de uma guerra cruel que ceifou vidas e destruiu muitas infra-estruturas, forçando o país a atrasar-se na corrida para o progresso e desenvolvimento. Registava-se, na altura, uma grande “fome” e “sede” da paz e da democracia. Hoje, tudo passou e vive-se uma era nova, uma Angola nova, sendo um país apostado a acolher tudo e todos, num momento crítico da História, pois todos os povos e nações gritam como um “diabo” atormentado no fogo do inferno. Tudo por causa da crise económica que está a ameaçar todos os países. Ricos e pobres.
É, justamente, neste contexto que os portugueses estão a manifestar, cada vez mais, o interesse em regressar, ou instalar-se, em Angola para encontrar meios necessários para escapar à crise que está a afectar o seu país. Isto não constitui qualquer novidade, pois portugueses e angolanos bem sabem da realidade que está a marcar, hoje, os dois países. Nesta perspectiva, sempre que visito a terra de Camões, registo sempre versões, episódios, experiências, histórias, emoções bem diferentes... Interpelações não têm faltado, pois as movimentações dos nossos irmãos portugueses para o país de Ngola Kiluanji, Nzinga Mbandi, Nzinga Kuvo, Mandume, Ekuiki, são constantes. E quando isto acontece, a alegria tem sido sempre bem visível no seu rosto. Formidável, esta operação, que faz com que diariamente os voos Lisboa/Luanda/Lisboa estejam sempre cheios.
“Agora é Angola que está a dar...”, “Portugal e os portugueses estão muito cansados”, “Vamos para Angola trabalhar e ganhar muito dinheiro”, “Viva a ‘nossa’ Angola”, “Para frente, angolanos”, “Angolanos e portugueses de mãos dadas”, etc., são as frases que estão a sair, actualmente, da boca dos portugueses quando se preparam para ir explorar ou sondar o terreno. Desta vez, foi na Parede, nos arredores de Lisboa, que encontrei uma senhora portuguesa, com os seus dois filhos, despedindo-se das religiosas que gerem o centro infantil onde estudam os meninos. A senhora foi informar a direcção que os seus filhos não aparecerão na escola quando começar o novo ano lectivo.
Bem animada, a senhora explicou, religiosamente, o motivo desta decisão. Com uma voz serena, disse ela, contemplando o local que já não verá diariamente, como era antes, quando quase todos os dias ia deixar e recolher os seus dois rebentos: “O meu marido já tinha enviado a carta de chamada. Já temos visto e ainda esta semana estaremos em Angola, mais concretamente na cidade do Lubango, onde ele trabalha numa empresa portuguesa, a ganhar muito bem. A nossa vida vai mudar. Lá teremos tudo. Sinto-me feliz graças a este país que em tempos idos era a nossa província. Estou bem feliz, pois a cidade do Lubango está no meu coração e no dos outros conterrâneos que já lá estão e no dos que se preparam para também para ir para lá. A nossa vida vai mudar. Viva Angola!”.
Impressionante esta revelação, que me deixou sem palavra! Sinceramente, limitei-me a ver e a ouvir atentamente a senhora, que não escondia a sua alegria e não se cansava de elogiar os passos que Angola continua a dar rumo ao seu desenvolvimento e, consequentemente, à consolidação da paz. Depois desta visita que efectuei àquela comunidade religiosa, não me canso de meditar sobre a atitude desta senhora. Sem qualquer preconceito, nem tão-pouco espírito de vingança e também sem ressentimentos nem complexos, a única conclusão a que cheguei é esta: os portugueses gostam mesmo de viver em Angola.

Em média, as pessoas que emigravam para Angola e Moçambique eram mais escolarizadas que a média dos portugueses :entrevista a Cláudia Castelo


Cláudia Castelo é doutorada em Ciências Sociais pelo ICS. A sua tese de doutoramento, sobre o colonialismo de povoamento, foi publicada em livro (Passagens para África. O Povoamento de Angola e Moçambique com Naturais da Metrópole, Porto, Afrontamento, 2007). Actualmente, enquanto investigadora auxiliar no IICT, desenvolve um projecto de recolha de histórias de vida de cientistas e técnicos da Junta de Investigações do Ultramar. A entrevista foi concedida ao Observatório da Emigração no dia 26 de Abril.
Observatório da Emigração - Qual o percurso académico e profissional que a levou a estudar a emigração portuguesa para Angola e Moçambique?
Cláudia Castelo (à frente CC) – O meu percurso académico começou com a licenciatura em História. Segui com o mestrado em História dos séculos XIX e XX - mas com incidência no século XX. Depois fiz uma pós-graduação em ciências documentais - para fugir àquele fado das bolsas que não permitiam grande estabilidade em termos profissionais e as ciências documentais, de facto, abriram-me uma via profissional - e entrei como arquivista para a Câmara Municipal de Lisboa. Mas mesmo antes de ter essa saída profissional, comecei a fazer o doutoramento em ciências sociais, no Instituto de Ciências Sociais, sobre esta temática do colonialismo de povoamento e da migração de naturais de Portugal - da metrópole e das ilhas - para Angola e para Moçambique, ao longo do século XX até à descolonização. Porque é que eu escolhi esse tema? Já não sei reconstituir muito bem, mas eu associo ao facto de, quando estudei a recepção do luso-tropicalismo em Portugal na minha tese de mestrado, me ter confrontado com um discurso muito generalizado, na sociedade portuguesa, sobre a especial capacidade da relação dos portugueses com os trópicos. Todo esse discurso era anterior às teorizações do Gilberto Freyre, conseguiu perdurar depois de terem sido publicadas as principais obras dele e, sobretudo, depois de ele cunhar mesmo o conceito de luso-tropicalismo em 1951. E houve um livro do Gerald Bender que também foi muito importante para eu ter escolhido este tema, com o nome "Angola sob o Domínio Português. Mito e Realidade", em que o argumento é que há todo um discurso em torno da especificidade do colonialismo português e da relação de Portugal com os trópicos, que depois não corresponde à realidade. Eu também reparava que começavam a surgir aquilo que hoje já mais ou menos se convencionou chamar "os romances de retornados", ou uma "literatura de retornados", que focava muito a experiência de vida no período do colonialismo tardio, anos 1950-60, e que mostrava que, com a descolonização, eles tinham perdido um determinado nível de vida, uma determinada situação económica e social, mas também o que eles enfatizavam muito: uma relação especial com África. E eu quis ir à procura de quem eram esses portugueses. Porque havia o estudo de Rui Pena Pires sobre os retornados que, de certa forma, também permitiu desmistificar bastante o que foi esse movimento de retorno e integração dos retornados. Como Rui Pena Pires mostra no seu estudo, apesar de inicialmente ter havido alguma tensão na sociedade portuguesa, os retornados também rapidamente se tornaram invisíveis, na medida em que se integraram muito bem e eram pessoas com alguma capacidade de adaptação. E depois dessa integração na sociedade portuguesa - bem sucedida se compararmos com o caso francês dos retornados da Argélia - e de ter sido feito um luto - que eu acho que fizeram - pela perda daquilo que tinha sido o seu paraíso, emergiram muitos depoimentos de retornados que falam da sua experiência de vida em África, na forma de ficção. Pronto, foi mais ou menos neste contexto que eu procurei estudar, não o retorno e a integração na sociedade portuguesa, mas quem tinha ido, sobretudo para Angola e para Moçambique, porque eram - ou pretendia-se que fossem - colónias de povoamento branco.
OEm - A pergunta a seguir prende-se precisamente com isso. Quem eram os portugueses que iam para as colónias?
CC – Aquilo que me apercebi é que a migração para Angola e Moçambique teve um boom relativamente tardio, acontece sobretudo já depois da 2ª Guerra Mundial e com especial incidência nos anos 1950 e 1960, embora o início das guerras coloniais - primeiro em Angola em 1961, na Guiné em 1963 e em Moçambique em 1964 - faça com que posteriormente comece a haver um abrandamento desse fluxo migratório; e isso é mais notório, se não estou em erro, para Moçambique. Por isso, os contingentes não são muito elevados, se compararmos o movimento migratório destas colónias com o movimento migratório com o Brasil e, depois, com a França ou outros países europeus. Eu digo migração [sem "e"] porque, na época, como estávamos a falar de um mesmo espaço imperial, não era considerado um movimento para fora do território nacional - embora geograficamente fosse disperso. E é por uma certa consistência e rigor histórico tendo em conta o contexto da época, não tem, por isso, nenhuma carga ideológica associada. De entre a emigração portuguesa são, de facto, destinos menos apetecíveis, embora nos anos 1950 e nos anos 1960 haja um pico nos movimentos. Eu não me consigo lembrar dos números que estavam envolvidos, eu tenho alguns quadros que os têm para os vários destinos e que permitem, depois, fazer essa comparação. Uma coisa que é curiosa é que qualquer português que quisesse emigrar para Angola ou para Moçambique deixou de precisar de passaporte para esses destinos a partir de 1907. Isso faz com que a ida de portugueses para Angola ou para Moçambique com o intuito de se fixarem de forma permanente, não conste das estatísticas. Isto é muito aborrecido, do ponto de vista de quem quer estudar estes movimentos migratórios, porque não há números já determinados para podermos chegar à estatística e retirar que em 1908 foram não sei quantas pessoas, em 1909 outras tantas... Aquilo que se faz é tentar ver, no movimento de passageiros - primeiro só através de barco, depois através de transporte aéreo - a diferença entre quantas pessoas foram e quantas pessoas voltaram, para termos um número aproximado daqueles que, supostamente, iam para fixar residência. Mas isto também é muito frágil, porque umas pessoas iriam de férias, outras iriam em negócios e mais do que uma vez ao ano; portanto, são números aproximados. Por isso, aquilo que eu apresento é o número de pessoas que entraram em Angola e o número de pessoas que saíram de Angola, ou de Moçambique - há também dados nas estatísticas para o conjunto das colónias, ou para o conjunto do Ultramar, mas são dados aproximados - e depois, o saldo será o que vamos seguir como, hipoteticamente, o número das pessoas que se fixaram. E nós temos, por exemplo em 1943, 1.147 pessoas que, supostamente, se terão fixado no conjunto do Ultramar. O ano em que este número é mais significativo é em 1960: 14.896 pessoas. Por isso, estamos a falar de números muito inferiores aos números que temos para o Brasil ou para os países da Europa. Em termos escolares, quem eram estas pessoas? Aquilo que nos apercebemos é que, em média, as pessoas que emigravam para Angola e Moçambique eram mais escolarizadas que a média dos portugueses. Era um conjunto de pessoas muito diversificado em termos escolares, pois estavam representados analfabetos, pessoas que só sabiam ler, pessoas que já tinham o ensino secundário ou liceal e também pessoas com o ensino superior. Mas apesar desta representação heterogénea, em média eram mais qualificados que a média dos portugueses. E eram mais qualificados que os emigrantes no conjunto para os outros destinos. Em termos de ocupações profissionais na origem, eram sobretudo pessoas ligadas ao sector terciário, embora quando este movimento atinge o seu pico - entre os anos 1950 e 1960 - estejam mais representadas pessoas do sector primário. Depois, no destino, as pessoas iam sobretudo dedicar-se ao comércio, à administração pública, aos serviços. Embora o Estado Novo tenha constituído, tanto em Angola como em Moçambique, colonatos e núcleos de povoamento rural, as pessoas mobilizadas para esses núcleos eram uma ínfima parte, uma minoria; as pessoas concentram-se sobretudo nas cidades. Em Angola concentram-se sobretudo em Luanda, Nova Lisboa, Lobito, Benguela, Sá da Bandeira... E em Moçambique isso é ainda mais notório porque a concentração é sobretudo em duas cidades: Lourenço Marques e Beira.
OEm - E isso, ao longo de todo o período que referiu [1950-1960]?
CC –Ao longo de todo o período. E há a tendência para se acentuar este povoamento eminentemente urbano. Na semana passada, numa conferência ali no ISCTE, esteve cá um historiador francês, René Pélissier, que em 1973 conseguiu autorização para ir visitar os postos militares portugueses na fronteira Leste de Angola e, de facto, naquelas zonas não havia praticamente colono nenhum, eram zonas muito pouco povoadas de portugueses idos daqui. O que houve muito nos anos 1960, consequência da Guerra Colonial, foi um desenvolvimento das cidades e das infra-estruturas de todo o género, sobretudo das comunicações, das estradas e dos portos, para potenciar esse desenvolvimento urbano. Por isso, aquela ideia do português no interior, no sertão, com uma fazenda de proporções pequenas ou médias, associada a um pequeno comércio de permuta com as populações autóctones daquela região, é claro que existia em Angola e em Moçambique, mas envolvia um número muito menor de portugueses. E eu também dou números por aqui [edição da tese] que mostram bem essa concentração urbana. Por todo o território de Moçambique a actividade comercial estava muito nas mãos de comerciantes indianos. E uma coisa que eu não disse, ainda há uma diferença relativamente a Angola: vão mais pessoas trabalhar na Administração Pública e esta estava concentrada na capital da colónia, no caso em Lourenço Marques, e as pessoas são ligeiramente mais qualificadas do que aquelas que vão para Angola. É uma diferença que não é muito notória, embora quando falamos com pessoas que vieram de Angola ou de Moçambique, elas costumam enfatizar que para Moçambique seria uma emigração ainda mais qualificada, ainda que os números não mostrem que a diferença fosse assim tão acentuada.
OEm - Já falou nas qualificações, nas profissões, na inserção à chegada... Foi possível saber as origens geográficas dos emigrantes?
CC –Aquilo que eu reparei é que a maioria dos colonos para Angola, como para Moçambique, era de Lisboa. As outras origens ou naturalidades que aparecem mais representadas são Porto e região Norte, salvo erro. Foram também pessoas da Madeira e dos Açores e, tendo em conta as populações na origem, se calhar essas migrações foram muito numerosas mas, em termos gerais, podemos ver que os maiores contingentes vinham de Lisboa. Temos aqui sempre Lisboa e o Porto, Viseu também é muito representativo, Bragança e Aveiro... Isto vai oscilando, mas aqui é para Moçambique, salvo erro, e Lisboa está sempre à frente. Depois o Porto...
OEm - Angola é diferente?
CC –Em Angola, estão mais equiparados Lisboa e Porto, mas isto depois também é por fases. Há bocado, o que eu estava a querer dizer é que em números absolutos a maioria dos migrantes era natural de Lisboa; depois Porto, Viseu, Guarda, Aveiro, Bragança, Vila Real. As regiões que menos contribuíram foram Alentejo, Setúbal, mas também algumas do Norte, como Viana do Castelo e Braga, também Faro. Mas se levarmos em conta a proporção dos migrantes na sua região de origem, constatava-se que o Norte e o Centro interior eram zonas de onde mais se partia para África, destacando-se em termos relativos o distrito de Bragança, depois a Guarda, depois Vila Real e Viseu.
OEm - O seu estudo é mesmo desde o início do século XX?
CC –Não, porque só consigo obter elementos quantitativos a partir dos anos 1940. Aquela questão de ter deixado de haver o passaporte é muito complicada, porque realmente esta emigração deixa de constar das estatísticas da emigração. E depois, só quando passa a haver informação sobre embarcados para o Ultramar nos anuários estatísticos - embarcados para Angola, embarcados para Moçambique - e desembarcados vindos de lá, é que posso começar a estabelecer esse contingente. E as estatísticas não nos ajudam nada porque são muito pouco homogéneas: para determinados anos ou para determinados períodos vem a naturalidade, mas para outros já não vem. E há uma grande discrepância ao nível das ocupações, porque ao longo deste período, que não é assim tão grande - entre 1940-73 - vão mudando as categorias e é muito difícil estabelecer comparações. É possível ter os contingentes em termos muito gerais, percebendo pelos censos quantas pessoas brancas havia de origem portuguesa, em Angola e em Moçambique, em 1900, e depois em 1920. E vê-se mais ou menos a evolução, embora tenhamos de ter em conta a evolução natural da população. E depois há outras fontes onde vamos buscar alguma informação, mas nada que nos permita estabelecer um quadro relativamente estável.
OEm - E quando diz "brancas" é porque na altura havia estatísticas racializadas, não era?
CC – Sim. Nas estatísticas aparece "branco", "negro", "misto" e em Moçambique aparece "amarelo" para as populações de origem chinesa e indianos. Em Angola praticamente só vinha mesmo na estatística "branco", "negro" e "misto". De entre os brancos, sobretudo em Moçambique, muitos não eram portugueses e isso a estatística também nos mostra. Quando vamos ver o Censo Geral da População em Moçambique, havia, até muito tarde, comunidades estrangeiras relativamente significativas de britânicos, sul-africanos, e em Angola isso já não se nota tanto. Há imensas categorias aqui que se misturam. E para perceber quem eram de facto os portugueses que estavam em Angola e em Moçambique que tinham nascido na metrópole, às vezes não é muito fácil porque se olharmos para o número de brancos não nos diz nada.
OEm - Não sei se conseguiu, pelo seu trabalho, saber as razões pelas quais as pessoas se mudavam para África... Havia projectos que explicavam porque é que as pessoas mudavam, processos mais organizados pelo governo, não era?
CC – Gostaria, se calhar, de ter desenvolvido mais essa parte relativa às motivações. Aquilo que eu consegui apurar é que as motivações são muito diversas, não podemos escolher uma. Mas parece que, e isso o Rui Pena Pires já dizia quando estudou os retornados - e os retornados também tinham ido antes de ter havido retorno, embora muitos fossem os filhos ou os netos -, os factores de atracção estavam muito mais presentes do que os factores de repulsão. Sobretudo depois do fim da 2ª Guerra Mundial, em que há uma alta das cotações dos géneros coloniais, as pessoas iam atraídas pelas possibilidades de ascensão social e de melhoria das suas condições económicas. Também terá sido importante, em alguns segmentos de pessoas que foram, toda a propaganda que o Estado Novo foi produzindo e alimentando sobre o Império Português. Há algumas referências, nomeadamente de pessoas que em Angola foram administradores, que trabalharam na máquina burocrática colonial, de que todas aquelas coisas que aprenderam na escola primária, todas aquelas actividades tais como a Semana das Colónias, as grandes exposições, todas essas acções de propaganda em prol do império, também disseram alguma coisa às pessoas. Porque aquilo que se dizia era que Portugal tinha uma missão civilizadora a cumprir em África. Essas coisas também podem ter tido o seu papel na motivação. Há toda uma literatura, nomeadamente do Henrique Galvão, de exaltação da presença de Portugal em África e, por alguns testemunhos que há, pode ter tido algum papel. Depois há outra coisa que não sei se subliminarmente poderá estar relacionada, que é: a pessoa, independentemente do seu estatuto económico ou social aqui da metrópole, indo para uma sociedade colonial ia sempre situar-se no estrato superior da sociedade. Em termos políticos, e em termos económicos, sociais e simbólicos, os colonos eram sempre os que estavam entre os privilegiados; e depois havia uma quantidade imensa de indígenas. O estatuto do indígena só acaba em 1961 mas, mesmo depois de abolido, os colonizados estariam no patamar inferior da sociedade. E não sei se isto, até de uma forma inconsciente, terá tido o seu peso. Um dos motivos pode ser o espírito de aventura ou o empreendedorismo de algumas pessoas que aqui não tinham forma de o concretizar, de alargar horizontes, e havia muito a imagem de que os horizontes eram mais largos... A comunicação social, mesmo que ainda só a imprensa e a rádio - a RTP começou só nos finais dos anos 1950 - teve um papel muito importante na tal questão da propaganda de passar uma imagem mitificada de África e de chamar muito os portugueses ao dever de ir colonizar. Mas, apesar de toda esta retórica, o Estado português não permitia, até muito tarde, que as pessoas fossem para Angola e Moçambique e fixassem lá residência de qualquer maneira, até muito tarde havia muitas restrições à ida de colonos. Só em 1962 é que a emigração para as colónias se tornou completamente livre. A pessoa decidia que ia e, desde que tivesse dinheiro para pagar a passagem, podia ir. Mas isto, só a partir de 1962.
OEm - Até lá o que é que era preciso?
CC – Até lá, quem quisesse ir, se que não cumprisse determinados requisitos - e os requisitos eram ter estudos superiores, determinados rendimentos ou propriedades/empresas no destino - não podia ir sem pedir autorização ao Ministério. Como é que as pessoas geralmente faziam? As pessoas que não constavam desse quadro muito restrito? Tinham que ter uma carta de chamada de alguém que vivesse nas colónias e a pessoa que estava no destino tinha de se responsabilizar por dar trabalho ou assegurar a subsistência de quem estava a chamar. Isto fazia-se muito em família, ou pessoas das mesmas aldeias, das mesmas terras. E então o Ministério podia autorizar. O Estado queria prevenir, ou queria impedir, que fossem para as colónias colonos pobres que não tivessem emprego no destino e que, de certa forma, passassem uma má imagem do colonizador; como alguém que fosse para as colónias e depois andasse lá a pedir, que não tivesse eira nem beira, que tivesse de ir para o asilo ou que tivesse de ser remetido outra vez para a metrópole - e isso aconteceu também. E isso depois era a expensas do governo colonial, o que também saía caro. Até muito tarde houve a insistência, da parte dos governadores coloniais, para que não se abrisse completamente a emigração para as colónias, para impedir também a chegada de pessoas que não tivessem depois forma de subsistência. Porque pessoas que não tivessem determinadas qualificações escolares, ou formação profissional, acabavam por ir concorrer com os nativos, cuja mão-de-obra era praticamente gratuita. Portanto, e voltando às motivações, estas devem ter sido muito diversas. É claro que nas pessoas que foram para os colonatos rurais, a motivação seria mesmo fugir a condições de vida muito difíceis na metrópole. Eram jornaleiros, pessoas que viviam uma vida muito dura e que tinham ali o sonho de virem a ser proprietários de uma pequeníssima parcela de terra porque o que lhes era concedido eram quatro hectares. Mas a esmagadora maioria dos colonos seria, de facto, movida pela possibilidade de ascensão social e, no destino, realmente havia essa capacidade de atracção, sobretudo com a alta cotação dos géneros coloniais e, depois do início das guerras coloniais, com o acelerado desenvolvimento económico que Angola e Moçambique tiveram. Angola, salvo erro, era o segundo exportador mundial de café e isso permitiu um desenvolvimento muito notório da economia. No final dos anos 50 e dos anos 60, todos aqueles planos de fomento dirigiram muito dinheiro ao desenvolvimento das infra-estruturas e ao desenvolvimento económico e social daqueles territórios e, então, pessoas com altas qualificações, nomeadamente pessoas licenciadas, ou mesmo pessoas com os estudos liceais, médios, jovens que acabaram os seus cursos, viram ali uma possibilidade de emprego e uma situação económica e social bastante favorável.
OEm - Há pouco falou dos colonatos. Foram organizados pelo Estado...
CC – Pelo Estado, sim.
OEm - Durante todo o período, ou mais em datas precisas?
CC – Os colonatos mais paradigmáticos são criados nos anos 1950. Em Angola, o Colonato da Cela e o Colonato do Cunene; em Moçambique, o Colonato do Limpopo. O da Cela é logo no início dos anos 1950 e depois, os outros dois são inaugurados em 1954, por aí. Mas aí é um modelo imposto pelo Estado, associado ao regadio, tanto no caso do Limpopo, como no Cunene, associado a barragens, e depois todo o sistema de regadio. É um modelo imposto pelo Estado, as pessoas são recrutadas pelo Estado e enviadas para ali, geralmente em famílias, famílias numerosas, e aquilo que é imposto é que as pessoas devem cultivar a terra pelos seus próprios braços ou recorrendo à força de trabalho da unidade familiar, sem contratação de mão-de-obra local. Era um pouco "exportar" ou recriar em África as aldeias portuguesas, o modelo metropolitano da freguesia rural. Geralmente nesses colonatos, inicialmente e por opção, não havia abastecimento de água, nem rede eléctrica. As mulheres tinham de ir à fonte buscar água, o trabalho agrícola era feito com recurso a bois, uma visão muito tradicionalista e de um romantismo rural de manter as pessoas numa pobreza... Quer dizer, numa auto-subsistência que não permitia grandes voos. E é interessante constatar que enquanto o Estado Novo não queria e tinha pavor da ideia dos brancos pobres nas cidades, foi o próprio Estado que criou estes colonatos em que o horizonte das pessoas também era assim uma pobreza, uma mediania... Nos campos as pessoas podiam ter aquela vida pobre, nas cidades havia o pavor dos brancos pobres.
OEm - Tenho mais uma ou duas questões. Uma, que não sei se conseguiu apurar, é se as pessoas iam mais sozinhas e depois faziam reunificação familiar, ou se iam logo em família...
CC – Sim, a partir dos anos 1940 é uma migração sobretudo de famílias. Uma coisa que é muito valorizada por parte do Estado é as pessoas irem em família, e também para não haver o perigo da cafrealização, dos homens irem sozinhos e acabarem por se juntar a africanas, havia também esse terror. Havia este terror e havia o discurso que exaltava à capacidade de os portugueses se miscigenarem. Isto é, por vezes, contraditório e vai evoluindo ao longo do tempo, mas quando já estamos na grande exaltação da criação das sociedades multirraciais em África, já não encontramos tanto o discurso que foi o estigma negativo dos mestiços. Mas, de qualquer maneira, ainda coexistem os dois discursos. Então, as pessoas iam sobretudo em família, muito cedo se tornou uma migração em família.
OEm - A outra questão tem a ver com o conceito de colono. Foi sempre utilizada essa designação ou houve alguma mudança para a designação de migrante? A designação consta de documentos oficiais?
CC – O conceito de colono nas estatísticas reporta-se às pessoas que iam para Angola e para Moçambique...
OEm - Ah, está mesmo presente nas estatísticas!
CC – Está. Designa as pessoas que iam com passagem paga pelo Ministério do Ultramar - ou das Colónias inicialmente, em 1951 passou a chamar-se Ultramar - para se fixarem em Angola e em Moçambique, independentemente de irem para zonas rurais ou para zonas urbanas e mesmo aqueles que não iam para nenhum colonato dirigido pelo Estado. É claro que as pessoas, a si próprias, não se viam como colonas. Pelo menos aquilo que eu constato através de conversas informais, e até vendo outro tipo de fontes, é que ninguém diz "eu fui colono em Angola ou em Moçambique". As pessoas não se revêem muito nessa terminologia, ou então associam o colono àquele que ia para os colonatos oficiais. No meu trabalho utilizo a designação colonos para todas as pessoas que se iam fixar em Angola e em Moçambique, independentemente do que iam fazer no destino. Na documentação aparece, às vezes, o conceito de povoador, mas migrante é raro. A designação "colono" era uma designação aceite e utilizada pelo Estado, acho que vem do latim e significa colonizar a terra, trabalhar a terra. E, então, como a maior parte dos colonos em Angola e em Moçambique até viveu em meios urbanos, penso que também será por isso que as pessoas não se reviam muito nesse conceito.
OEm - Por último, se quiser acrescentar alguma coisa...
CC – Não é que tenha a ver directamente com a temática da emigração, mas aqui no Instituto de Investigação Científica Tropical, que é o organismo herdeiro ou sucessor da Junta de Investigações do Ultramar - onde sou investigadora auxiliar contratada ao abrigo do Programa Compromisso com a Ciência - estou a fazer uma recolha de histórias de vida e de memória oral sobre as missões científicas às colónias. Tenho feito uma recolha com investigadores e técnicos que trabalharam na Junta das Investigações do Ultramar e que fizeram trabalho de campo científico nas colónias. Acabaram por ser migrantes temporários, eles próprios, ao longo de períodos mais ou menos longos. Estas missões eram organismos temporários criados para desenvolver investigação científica nas colónias, nas várias áreas do conhecimento. Geralmente, os investigadores estavam aqui na metrópole durante o Inverno, a Primavera e o Outono e, no Verão, durante as férias escolares daqui - porque alguns destes investigadores da Junta de Investigação do Ultramar eram também docentes universitários nas universidades portuguesas - iam às colónias fazer trabalho de campo; por vezes passavam um mês, dois, três, a fazer trabalho de campo em Angola e em Moçambique, na Guiné... Lembrei-me, embora o enfoque do projecto não seja a migração, que eles, enquanto estavam a fazer trabalho de campo em Angola e em Moçambique, às vezes durante três meses seguidos, acabavam por ser migrantes temporários. O nosso enfoque é a investigação científica que foi produzida no âmbito das missões. Paralelamente estamos a construir o arquivo de memória oral que vai estar disponível no site do Arquivo Cientifico Tropical Digital.
OEm - Mas também pode abordar essa questão, estou a perceber... É útil para nós sabermos isso, obrigada.
CC – E aborda a relação que estabeleciam depois com as populações locais, com as autoridades locais, tudo isso...
OEm - Óptimo. Obrigada!
Nota da edição: a investigadora refere, ao longo da entrevista, informação sobre a investigação que fez para a sua tese de doutoramento, já publicada.
ORIGEM

Da mesma autora  «O povoamento de Angola com naturais da Metrópole"clicar AQUI 

sábado, 8 de outubro de 2011

Descolonização e Independência de Angola. 10.01.1976. A fuga da cidade do Namibe (ex- Moçâmedes) no «Silver Sky»


Duas perspectivas do velho navio cargueiro grego «Silver Sky». Na segunda, a foto encontra-se encimada pela foto de Carlos José, um dos refugiados, à época aluno  interno da "Casa dos Rapazes" de Moçâmedes dirigida pelo padre Diniz Lopes
Ao 10 de Janeiro de 1976

Moçâmedes já é Namibe!
Nas ruas, sirenes soam
Nas casas, o pânico instala-se
Na rádio vozes ecoam
Fujam, fujam p'ró cais

Do alto da Chela
Mabecos avançam
Serpentes rastejam
Clamando vingança

São rostos esgaseados
São lobos, são chacais
São olhos ensanguentados
São ferozes animais

Namibe já foi Moçâmedes!
Ardem caixotes no cais!
Moçâmedes já é Namibe
Adeus até nunca mais!

Autor desconhecido

DA CIDADE DE MOÇÂMEDES NOS ÚLTIMOS MESES DA COLONIZAÇÃO
PORTUGUÊSA, À CIDADE DO NAMIBE NOS PRIMEIROS MESES DO PÓS  INDEPENDÊNCIA DE ANGOLA.  A FUGA NO «SILVER SKY» em 10 de Janeiro de 1976

Mário Augusto da Silva Lopes viveu o auge do  processo revolucionário em curso (PREC), desenrolado em 1975,  tanto na Metrópole como em Angola. "Tal como na Metrópole, mas pior que na Metrópole,  também em Angola, com os movimentos de libertação instalados em Luanda, o ambiente revolucionário ia permitindo  toda uma série abusos, ocupações, etc,  mesmo de propriedades ganhas  com o suor do rosto. Os movimentos bombardeavam-se  de delegação para delegação, e a tropa portuguesa assistia passivamente ao  decair da situação, enquanto os o som mais audível por todas as cidades  era o martelar de caixotes."

No final da licença graciosa que se encontrava a gozar  na Metrópole, Mário Lopes ousou com  a família regressar à sua terra natal, Moçâmedes, para ali se radicar definitivamente, onde assistiu às cerimónias da independência de Angola,  suportou privações e perigos de toda a ordem, sempre insistindo em não partir.

 “No dia 10 de Janeiro de 1976 já não dava para suportar mais. A fuga deu-se no «Silver Sky»,  o  navio cargueiro grego, que nesse dia deixou  a cidade do  Namibe (ex- Moçâmedes)   rumo a  Welvys Bay levando consigo mais de 1600 pessoas a bordo  comprimidas  no convés e nos porões,   partilhando a comida, o agasalho e a angústia no porvir, longe de se aperceberem  que aquela viagem marcava o  fim da  presença em terras do Namibe de quantos naquele navio  viajavam, e que de forma abrupta se viram obrigados a abandonar  o seu  torrão-natal.”  A ideia era o afastamento temporário para o alto mar à espera que a situação acalmasse. Foi a salvação possível.
No capítulo  «Diário de bordo», do seu livro  O LADO ESCURO DA LUA, Mário Lopes narra as vicissitudes passadas no bojo daquele navio,  "o drama pungente daquele milhar e meio de pessoas que deixaram  o Namibe com destino a parte nenhuma",   fugidos da guerra, em buscava de segurança num outro local, mas sempre com a esperança de voltarem à sua terra,  tão depressa quanto a horda assassina e a loucura irracional dos homens  abrandasse". Tal não aconteceu.

Passo a transcrever, na íntegra, o relato de Mário Lopes (*)
Clicar AQUI

terça-feira, 6 de setembro de 2011

Descolonização: frases que ficaram...

«Isto é selva e na selva só sobrevive a lei do mais forte e, por isso, não vale a pena estarmos para aqui com fantasias e cada um procurará armar-se o mais possível; até no campo político o sucesso depende muito do factor força».

Do almirante Rosa Coutinho, presidente da Junta Governativa de Angola em 1974 citado pelo general Silva Cardoso no seu livro “Angola Anatomia de uma Tragédia”.






«Acabaram-se os sonhos. Agora só nos restam as pataniscas e as rabanadas».

De um “retornado” ao desembarcar no fervilhante aeroporto de Lisboa, fugido de Angola, no Verão de 1975.

domingo, 14 de agosto de 2011

Conspirações de Silêncio: Portugal e o fim do império colonial

Debret, de Vasco Araujo, 2009. 
Debret, de Vasco Araujo, 2009.


Após períodos de grandes febres – levantamentos, guerras, revoluções, massacres, genocídios – as sociedades acumulam silêncios para que todos os cidadãos prossigam a sua vida em conjunto. É somente depois que as memórias dolorosas retornam à superfície das sociedades. E então, às vezes, conflitos começam [ii].
Com estas palavras, o reputado historiador francês Benjamin Stora abre o prefácio à obra colectiva Les Guerres de Mémoires, la France et son Histoire dirigida por Pascal Blanchard et Isabelle Veyrat-Masson, um livro que procura fornecer uma visão panorâmica sobre os vários conflitos que irrompem na sociedade francesa como resultado do embate público entre diferentes versões sobre o passado nacional. Estes conflitos são não apenas factores de destabilização da integridade da narrativa nacional, pondo em causa o próprio modelo republicano que lhe dá forma, como também captam a atenção para acontecimentos históricos sobre os quais antes recaía uma aparente amnésia colectiva.

Debret, de Vasco Araujo, 2009.
Estes fenómenos não são exclusivos do contexto social e político francês, embora aí se tenham revelado em tempos recentes particularmente expressivos, mas antes são extensíveis a outros colectivos que têm de lidar com acontecimentos violentos ou episódios traumáticos dos seus respectivos passados nacionais. Estes acontecimentos são tanto mais problemáticos quanto a sua capacidade de destabilizar ou desestruturar narrativas estabelecidas e indisputadas sobre a identidade colectiva. Daí que, como refere Stora, um aparente esquecimento possa ser produtivo em períodos de grande conturbação política e social, pois mexer nas feridas do passado nestes momentos poderia abalar irremediavelmente as fundações em que assenta a solidariedade colectiva e, nesse sentido, pôr em causa o projecto nacional. É preciso tempo para lembrar o que não é passível de ser esquecido.
Enquanto isso não acontece, a lembrança contida na fala ou no corpo daqueles que viveram essas “grandes febres” de que fala Stora volve-se em silêncio. Um silêncio que mascara a culpa, o ressentimento, o medo e a vergonha, por baixo de uma superfície anódina e banal que serve de filtro à forma como os colectivos se relacionam com os traumas do passado. Através de um acordo tácito, socialmente estabelecido, capaz inclusivamente de vincular percursos sociais altamente assimétricos, estabelecem-se “conspirações de silêncio”, como as designou Eviatar Zerubavel[iii], mediante as quais se dita o que se pode - e o que não se pode - falar acerca do que é calado. Até que o silêncio é quebrado, e o que todos sabem existir sob a superfície do discurso público não mais pode ser ignorado.
Através do romance, tantas vezes auto-biográfico, da arte, do documentário, ou do humor, o indizível é dito, em tom emocional, parcial, implicado, explosivo. É geralmente nestas condições que o conflito emerge. As versões públicas autorizadas que sancionam o esquecimento destes passados por via da sua integração intencional num esquema de recordação abrangente e trivial, bem como os pactos de silêncio que se mantêm no tecido social, são destabilizados por incómodas e imprevistas erupções da memória que trazem à superfície as ambiguidades dos legados problemáticos. Emanadas a partir da experiência retida ou por via do estabelecimento de um diálogo criativo com o passado, estas erupções não carecem de aval público nem de acuidade para serem legítimas no seio dos debates sobre a memória, pois a sua autenticidade reside na capacidade que têm de instarem a uma revisão do passado à luz das condições contextuais do presente que convidam à sua actualização.
Debret, de Vasco Araujo, 2009.Debret, de Vasco Araujo, 2009.Debret, de Vasco Araujo, 2009.Debret, de Vasco Araujo, 2009.

Em Portugal, pelo facto das formulações da identidade nacional estarem tão fortemente associadas ao império, o seu fim não é recordado de uma forma especialmente efusiva. Nos palcos da memória veiculada pelas instâncias oficiais, na escola, em exposições, em ocasiões de estado, ou pela esfera mediática, em concursos televisivos, na música, e por vezes na literatura, o império mantém-se indisputável fonte orgulho colectivo, concebendo a identidade nacional à luz de um quadro idílico de trocas interculturais e de diálogos civilizacionais estabelecidos por via das extensões imperiais da nação. Salvo em raras excepções, como o caso da série Debret do artista plástico Vasco Araújo, que expõe cruamente as assimétricas relações de poder subjacentes ao projecto imperial mediante a exposição da violência exercida sobre os corpos colonizados, a memória pública associada ao império português, aqui concebido na sua longa duração, é francamente celebratória e apologética.
Talvez por isso, tanto no domínio académico como no de uma esfera mais ampla da designada sociedade civil, tenha sido notória a desatenção aos aspectos mais problemáticos da história do império, nomeadamente os associados ao seu fim, como a guerra colonial e o súbito repatriamento do ultramar de centenas de milhar de portugueses quando são concedidas as independências às colónias portuguesas em África. Também no domínio privado, das sociabilidades mais íntimas, se aprendeu a não perguntar sobre a guerra, ou a recordar África, e o retorno, de acordo com um punhado de lugares-comuns imputrescíveis, criando assim as condições para a transmissão geracional do silêncio. Acresce que, contrariamente ao verificado em outros contextos nacionais marcados por processos de descolonização, em que representantes das populações repatriadas, como os pieds-noirs em França, têm mantido uma voz activa nas guerras da memória, não se verificou em Portugal o desenvolvimento de um movimento associativo suficientemente forte para dar corpo e expressão identitária a um colectivo delimitável pela experiência do repatriamento, capaz de, a partir daí, contribuir para a problematização da memória do império colonial português.
Contudo, a expressividade da população portuguesa implicada no retorno, eventualmente envolvendo mais do que o meio milhão de pessoas identificado por Rui Pena Pires no estudo sociográfico publicado em 1984[iv], é um indicador suficiente para supor que as representações detidas por esta população, embora informadas por vivências específicas bem como por trajectórias sociais particulares, são influentes na forma como o colonialismo português e o seu fim são recordados e esquecidos. Porém, o facto de o repatriamento ter sido rápido e súbito, tendo sucedido maioritariamente em 1975, e de ter ocorrido num momento de agitação social e política, bem como a ideia de que a integração foi relativamente fácil, são factores que contribuem para um alheamento em relação às fracturas deixadas na sociedade portuguesa por este fenómeno em particular, e pelos legados coloniais em geral.
Este alheamento tem, porém, encontrado a sua expressão de protesto no campo da literatura, onde é notória uma obsessão memorialista associada ao fim do império, primeiro com a publicação de autobiografias ficcionadas ou romances autobiográficos focados na guerra colonial e, mais recentemente, na própria experiência colonial, com extensões para a descolonização e subsequente repatriamento. Geralmente relatos retrospectivos escritos na primeira pessoa, intersectando trajectórias individuais com a experiência colectiva do colonialismo português, estas narrativas sempre denunciam, independentemente da sua forma e conteúdo, as tensões geradas pelos legados coloniais, enunciando uma relação visceral com este passado, impressa no corpo, evocada pelos sentidos ou actualizada pelos afectos.
Debret, de Vasco Araujo, 2009.Debret, de Vasco Araujo, 2009.
A este propósito, o livro Caderno de Memórias Coloniais de Isabela Figueiredo é particularmente expressivo. Este livro, que resulta da selecção e composição das publicações que a autora vinha fazendo no seu blogue O Mundo Perfeito, quebra violentamente o pacto de silêncio mantido em torno do colonialismo português em África e do pânico colectivo gerado pelo repatriamento da população colonial. Ao contrário de outros títulos que abordam directamente a experiência do retorno, como é o caso do romance Os Retornados: Um Amor Nunca se Esquece de Júlio Magalhães, Isabela Figueiredo destabiliza os tropos mais comuns da narrativa quotidiana dos retornados. Estes tropos incluem a “vida paradisíaca” que se levava em África, o “tratar bem os nativos”, o sentimento de “traição” e o ressentimento relativamente aos políticos mais associados com os processos de descolonização e de repatriamento, e o trauma do retorno, devido à forma repentina como este sucedeu e às dificuldades de integração na ex-metrópole, geralmente representada como “atrasada” e “escura”. Júlio Magalhães confirma: “Jogar à bola, grandes farras em garagens, a praia, a mini-Honda”[v], assim o diz, se fazia uma juventude em África, onde a “vida corria quase de forma perfeita…”[vi].
O “sonho dourado”[vii] de Júlio Magalhães esfuma-se quando confrontado com o relato virulento de Isabela Figueiredo. Mas tal como Júlio Magalhães, também ela dá conta de um universo onírico, embora bem mais complexo, edipiano, subterrâneo, carnal, a partir do qual procura conferir inteligibilidade tanto à sua experiência íntima como à experiência transpessoal do colonialismo africano e do seu fim depois do 25 de Abril de 1974. A partir da relação com o seu pai, Isabela Figueiredo evoca as emoções conflituais, ambivalentes, associadas ao passado colonial português, num diálogo consigo mesma sobre o poder do medo, da culpa, da humilhação, na fixação dos limites da recordação. Ao transgredir estes limites, Isabela Figueiredo repudia uma paternidade que vai muito além da esfera das suas relações íntimas. Como conclui a determinado momento no decurso da sua narrativa, “Aquele homem branco não é o meu pai.”[viii]
Debret, de Vasco Araujo, 2009.Debret, de Vasco Araujo, 2009.O seu relato não fornece uma representação factual da realidade nem uma ficcionação desta. O facto de os afectos assentarem em temporalidades diferentes daquelas que estruturam a linearidade da memória histórica não diminui o seu valor como testemunho menmónico. Muito do que nos recordamos acerca do passado, mesmo acerca dos passados pessoais, é informado por outras memórias individuais, pelas histórias que lemos, pelas imagens que vemos, memórias diferidas que compõem a densidade do senso-comum acerca do passado. É desta forma interpessoal que se constroem narrativas incontestáveis sobre os acontecimentos pretéritos. O relato emocional de Isabela vem abalar a incontestabilidade da narrativa sobre o império colonial português, incitando uma reconstrução do passado a partir da sua erupção emocional no presente. Sem impor um significado definitivo à experiência recordada, o livro de Isabela antes actualiza o potencial de significado que esta experiência encerra, ao conduzir a passagem do não dito ao dito, do encoberto ao “não escondido”, como designado por Heidegger[ix]. Convida-nos, por isso, a “olhar sem filtro”[x], o espaço nu onde procura a redenção: “Todos os lados possuem uma verdade indesmentível. Nada a fazer. Presos na sua certeza absoluta, nenhum admitirá a mentira que edificou para caminhar sem culpa ou caminhar, apenas. Para conseguir dormir, acordar, comer, trabalhar. Para continuar. Há inocentes-inocentes e inocentes-culpados. Há vítimas-vítimas e vítimas-culpadas. Entre as vítimas há carrascos”[xi].
O livro de Isabela Figueiredo instiga, portanto, a uma ampla reflexão sobre um passado que até agora tem resistido à interpretação. Vai faltando, entretanto, um exame mais sistemático desta memória. Um exame capaz de estabelecer um diálogo entre a força reprodutora das instâncias de poder e a força, ora transformadora ora repressora, das emoções associadas à recordação e ao esquecimento deste passado. Deste diálogo poderá finalmente resultar a tão adiada reconciliação da nação com a sua história colonial.

Artigo publicado originalmente no Le Monde diplomatique, ed. portuguesa, Fevereiro 2011

[ii] Benjamin Stora, “Preface”, Pascal Blanchard et Isabelle Veyrat-Masson (dir.), Les guerres de mémoires, la France et son histoire,Paris, La Découverte, 2008, p.7.
[iii] Eviatar Zerubavel, The Elephant in the Room: Silence and denial in everyday life, Oxford and New York, Oxford University Press, 2006, p.2.
[iv] Rui Pena Pires et al, Os Retornados: Um Estudo Sociográfico, Lisboa, Instituto de Estudos para o Desenvolvimento, 1984.
[v] Júlio Magalhães, Os Retornados: Um Amor Nunca se Esquece, Edição Especial Limitada, Lisboa, Esfera dos Livros, 2008, p. 18.
[vi] Júlio Magalhães, p. 19.
[vii] Júlio Magalhães, p. 15.
[viii] Isabela Figueiredo, Caderno de Memórias Coloniais, 4.ª Edição, Coimbra, Angelus Novus, 2010, p. 53.
[ix] Martin Heidegger, Being and Truth, Bloomington, Indiana University Press, 2010
[x] Isabela Figueiredo, p. 27.
[xi] Isabela Figueiredo, p. 115.

Encruzilhadas históricas: reunir experiência e gerar convicções, entrevista à escritora Aida Gomes 1

 


Aida Gomes nasceu em Lundimbale, no Huambo em1967, onde passou a infância. Mais tarde Portugal e Holanda foram a sua casa, com experiências nas áreas de desenvolvimento em países como Camboja, Moçambique, Suriname, Libéria, Sudão e Guiné-Bissau, onde mora actualmente. É socióloga de formação e tem publicado em revistas e jornais. Lança, hoje, no encontro Correntes d’Escrita, em Portugal (dia 24 de Fevereiro), o seu primeiro livro: Os Pretos de Pousaflores pela Leya. Fala-nos sobre identidade, as ambiguidades das organizações não governamentais e da construção do Estado-nação em Africa e ainda sobre os impasses da Guiné Bissau.

Qual é a tua expectativa em relação a este primeiro livro?

Que comunique algo que seja vida na miríade de maneiras de ver, sentir, provar e pensar o que se lê. Embora tenha escrito Os Pretos de Pousaflores tendo em mente o cenário social de Portugal dos anos setenta, oitenta até ao começo dos anos noventa (exclusão social, contrastes acentuados entre rural-urbano, preto-branco, homem-mulher), a expectativa é de que, na leitura, as seis personagens angolanas e portuguesas se tornem reconhecíveis nas suas fraquezas, lugares-comuns, esperanças e medos. Entre elas há mal-entendidos e dores de parte a parte, como sempre houve e haverá entre seres humanos. Alegrias também. Que tenha conseguido através da literatura, na forma como a linguagem nos permite expressar sentimentos e emoções, criar uma visão sobre como Angola e Portugal se tocaram através de vidas imaginadas.

De que forma o livro bebe da tua história de vida e em que contexto quiseste trabalhar a narrativa?

Aristóteles definia a arte como a exteriorização de uma ideia à semelhança da vida humana; mas a Arte, era a seu ver, mais do que uma cópia da vida ou da natureza. A arte era a tentativa de criar um ideal da natureza e da vida, corrigindo-se-lhe as deficiências. Os Pretos de Pousaflores procura dar voz aos diferentes membros de uma família vinda de Angola entre 1976 e 1978 para uma aldeia fictícia de nome Pousaflores. Um pai solteiro e três filhos. A reacção da irmã, uma portuguesa beata à chegada de “pretos” na aldeia; a perspectiva do irmão, um português “cafrializado”; a perspectiva de uma mulher angolana que perdeu uma filha e os enteados; e finalmente, o olhar de três jovens produtos de encruzilhadas históricas. Mais do que uma história pessoal, Os Pretos de Pousaflores procura ser um retrato social ficcionado de um período que coincide com o fim do regime fascista em Portugal, o processo de descolonização e a vinda para Portugal de milhares de “retornados” das ex-colónias portuguesas. Os primeiros anos depois do 25 de Abril são difíceis do ponto de vista de transição política e socioeconómica. Portugal tinha de reajustar-se e reinventar-se a si mesmo, inclusive a sua relação com África e os africanos; e vice-versa.

Como tratas o “drama” vs sucesso dos retornados?

Do período que o livro retrata existe o mito que os chamados “retornados” foram uma história de sucesso porque trouxeram de África a dinâmica empreendedora, uma visão mais esclarecida, etc. No entanto, esta narrativa de sucesso apenas coincide com um grupo selecto, maioritariamente branco, de classe média, educação superior que tanto podia ser bem sucedida em Portugal, como no Brasil, Angola ou noutro lugar qualquer. Uma parte significativa dos “retornados” não foram histórias de sucesso: havia-os portugueses (brancos) e africanos de origens culturais e raciais miscigenadas. Foram as franjas menos bonitas da sociedade portuguesa. Nas cidades “coloriram” os bairros degradados e nas zonas rurais viveram a melancolia e o esquecimento dos mal-amados, sentimento de uma dor ou talvez um sono d’África, que perdura tal como a memória de D. Sebastião.

Sentes Angola como tua terra? O que é pertencer a algum lado?

Angola é onde está enterrado o meu cordão umbilical. É o riso e o humor quase cáustico de auto-flagelação. No definir da palavra “identidade”, penso que sou parte de uma diáspora angolana. Diáspora é um conceito moderno fascinante porque é paradoxal, pertença sem ser pertença. Um espaço imaginado, o reconhecimento de ser parte de uma comunidade que, distanciada de um solo, reconhece os sabores (Calulu), os sons (tanta música!), o gozar e finalmente as paisagens: os verdes do Huambo a Benguela são a minha paz, não as trocava pela serenidade dos lagos da Suíça. Todos temos um lugar de origem onde a nossa alma descansa. Nem que seja um lugar imaginário. Nos anos noventa queria tanto voltar para Angola e não podia por causa da guerra (lembro-me vividamente daquele sentimento de esperar pela paz, de canções a falar de uma paz que nunca mais vinha.) Finalmente consegui ir trabalhar para Angola entre 2000 e 2003 - durante os últimos anos da guerra. Foi uma experiência muito mais penosa do que trabalhar em países como Sudão, Libéria ou Guiné-Bissau, também eles marcados por conflitos e violência. Há quem diga que a guerra é uma forma de se fazer política, quando outros meios não funcionam. A maior vítima da guerra, diz-se, é a verdade. Tenho sempre consciente o enorme esforço que é construir-se um país de novo; nas casas novos tijolos, nas janelas vidros. Pergunto-me sobre as pessoas, se lhes basta também pintar de novo as paredes das casas. Na Holanda quem viveu a guerra ainda traz as marcas consigo; não consegue deitar comida fora porque passou fome, não consegue apagar de si a vulnerabilidade de ter sobrevivido (mesmo o ódio ao inimigo de então subsiste). Não sei até que ponto o facto de ter crescido fora de Angola, país onde questões políticas trouxeram uma guerra longa, afectou as minhas escolhas profissionais. Guerra, conflito e política foram os assuntos dominantes do meu trabalho.
 
fotografia de Marta Jorge

A experiência profissional aventurosa fez-te conhecer África e encontrares-te nela…

Enveredei por um percurso profissional que me levou a vários países africanos, e não só, todos eles envolvidos em conflitos. Um interesse genuíno em perceber a génese da construção do Estado-nação na sua variante africana, sabendo que os Estados africanos são identidades territoriais “delineadas” com uma régua na Conferência de Berlim e que os povos foram “aglomerados” e catalogados no processo de colonização. Na sua sabedoria, a União Africana (ainda na sua denominação Organização para a Unidade Africana (OUA)), e os líderes dos cinquenta e três Estados membros, decidiram que as fronteiras africanas eram sagradas. No entanto, no pós-independência poucos são os Estados que conseguiram criar entidades políticas e territoriais em que a maioria da população, ou mesmo metade, aufere o que a geração de Amílcar Cabral, Kwame Nkrumah e outros projectaram para África: auto-suficiência em termos económicos e políticos onde a população teria acesso a educação, empregos e estabilidade sócio-política. O mínimo necessário de dignidade humana que lhes foi negado durante séculos de colonização.


Quais são, na tua opinião, as principais adversidades para África?

Os problemas acumulam-se. Hoje, a maioria das populações africanas auferem de uma educação e serviços de saúde medíocres, enquanto que as elites têm ao seu dispor as melhores universidades, centros de saúde e hospitais nas capitais dos países mais avançados. Como contornar o facto de que o Estado africano representa frequentemente interesses de grupo, sejam estes de acordo com linhas étnicas, ou pseudo-políticas? O Estado africano preocupa-se predominantemente em estabelecer e consolidar redes nacionais de grupos e linhagens com ramificações económicas, militares, diplomáticas internas e externas com base numa competição renhida entre si (o conflito, inevitavelmente) para a capitalização de bens, prestígio e influência. As relações entre os grupos são de dependência (nunca de interdependência salutar) ou então, a aniquilação mútua, a sucessão e legitimação do poder é sempre problemática. As relações sociais da sociedade colonial, baseadas numa extrema desigualdade, foram reconfiguradas e fortalecidas, existem novas elites e velhas dinâmicas de desigualdade. Como mudar? Se olharmos para a América latina, independente desde há século e meio, vemos que, após tanto sangue e revoluções, temos, a par de crescimento económico, políticas sociais de desenvolvimento com maior equidade.

O continente africano atingiu recentemente a espantosa cifra de um bilhão de habitantes. Tem capital humano e económico suficiente para que não demore um século e meio a elevar-se e a sair da subserviência e desenvolvimento socioeconómico glutónico.

fotografia de Marta Jorgefotografia de Marta Jorge

fotografia de Marta Jorge
Sentes que as instituições internacionais multi-laterais, com as quais colaboras, têm contribuído realmente para uma melhoria da vida das populações?

A questão do desenvolvimento, em termos de realidade sociopolítica e histórica, tem várias vertentes, desde a geopolítica que determina interesses económicos estratégicos, a aspectos sociopolíticos, nos quais se insere a vertente humanitária ou de direitos humanos. É um mundo de paradigmas, de lutas de hegemonia e funciona tal qual o mundo: cinicamente ou com as melhores das intenções. No contexto profissional, estive ligada à cooperação multi-lateral em questões de paz e segurança mundial. Um emaranhado complexo. Nos anos noventa e mais recentemente, intervenções multi-laterais desastrosas para Estados e populações na Somália, Haiti, Ruanda ou Iraque. Esse era o pano de fundo para “as lições aprendidas” quando fui trabalhar na Libéria em 2004. Era necessário fazer-se melhor. Dag Hammarskjöld (1905-1961), o segundo Secretário Geral das Nações Unidas (de 1953 a 1961) dizia que a ONU não foi criada para criar o paraíso na terra; mas para que o planeta não se tornasse num inferno. Quando a Missão da ONU foi estabelecida em 2004 na Libéria, logo após a fuga de Charles Taylor, não havia praticamente ninguém no interior do país. Parte da população morrera ou tinha procurado refúgio nos países vizinhos, aterrorizados e fustigados por 16 anos de violência extrema. A Missão foi crucial na transição e na reposição da autoridade do Estado e na criação de um ambiente com o mínimo de estabilidade para que a população pudesse retomar as lavras e as escolas e tribunais no interior iniciassem as suas funções para as comunidades. Ao mesmo tempo que o período de transição era utilizado para a criação de mecanismos de controle do uso dos recursos naturais e reformar as estruturas do Estado. Hoje a Libéria é um país com uma governação política credível e legítima, onde foi eleita a primeira mulher como presidente no continente. Organismos internacionais multi-laterais contêm cada uma das vertentes de desenvolvimento e embora tenham vastos meios materiais e humanos ao seu dispor, o seu campo de actuação é frequentemente restringido pela necessidade de negociação de um grande leque de actores políticos estatais. Determinados lobbies podem levar uma causa para a frente ou fragilizá-la. Um campo de visão e de actuação mundial é diferente de uma organização não-governamental com menor capacidade de mobilização de meios materiais e humanos, mas que terá maior autonomia para definir o seu método e campo de actuação para melhorar a vida, por exemplo dos camponeses de aldeias no leste do Níger.

Como deveria funcionar a cooperação, sem se substituir aos deveres e competências dos Estados?

Estou cada vez mais convencida do que a cooperação deveria ser apenas um empurrão e não um soro permanente, que distorce mecanismos internos. Não penso que existam hierarquias ou consensos sobre a melhor forma de actuação na área de desenvolvimento: se a partir de projectos locais de pequena escala ou a partir do apoio ao nível macro na estruturação do Estado de países em vias de desenvolvimento. Pode-se tentar ver a floresta como um todo, ou apenas uma árvore ou um conjunto de árvores. Mas a água da floresta tem de vir do seu próprio solo ou tem de cair do seu céu. Quando os interesses representados por organismos multi-laterais são consensuais e coincidem com os das elites locais em termos de compromisso político para uma melhor governação com vista a melhorar o estado da nação, a actuação de um organismo como a ONU pode ser instrumental no sentido de se atingirem objectivos positivos. Quando as elites locais estão divididas ou não comungam a mesma interpretação sobre o que é uma boa governação ou respeito pelos direitos humanos, a ONU pode ter grandes dificuldades na sua actuação.

Bissau, fotografia de Marta Lança Bissau, fotografia de Marta Lança
Bissau, fotografia de Marta Lança  
Bissau, fotografia de Marta Lança
A experiência de trabalho na Guiné-Bissau ajudou-te a entender a complexidade deste país, certamente. Qual é o ponto da situação do país?

A Guiné-Bissau é um país especial. O Estado entrou em queda livre depois do conflito de 1998-1999. A última década foi de crises cíclicas, as quais resultaram na degradação progressiva do funcionamento do aparelho estatal e das condições de vida das populações, o que também afectou espírito guineense. Muitos daqueles jovens africanos que se metem em pirogas no mar aberto para alcançarem a Europa, ou atravessam o deserto para que libertos do Norte de África alcancem essa miragem de destino melhor (e só ouvimos falar quando os seus corpos aparecem sem vida nas areias das praias norte do Mediterrâneo), muitos deles são guineenses. Na Guiné, tal como em muitos países africanos, os jovens têm poucas perspectivas. Há uma música de José Carlos Schwarz que faz referência aos primeiros anos depois da independência e descreve como as pessoas, por já não saberem qual o melhor caminho a seguir, voam pelas ruas tão leves como penas. Três décadas depois da independência, os jovens ainda continuam a querer voar para mais longe do que as ruas de Bissau. No entanto, começam a surgir sinais positivos; muitos jovens formados na Inglaterra, Estados Unidos, Portugal, etc., estão a regressar. Será necessário integrá-los.

No passado recente, com a agudização dos problemas, houve apelos para que a comunidade internacional não abandonasse o país. A contrapartida era que as autoridades nacionais assumissem o interesse maior da nação em beneficio da estabilidade do país para que a população possa finalmente conhecer algum progresso socioeconómico. Ultimamente, a nível bilateral, Angola tem-se sobressaído no seu apoio à Guiné-Bissau, apostando no desenvolvimento económico e reforma das forças armadas. O meu trabalho num organismo internacional multilateral tem sido mais na área política. No acompanhamento de processos democráticos e análise. O resultado é ambivalente. A herança de 30 anos de descapitalização em termos educacionais, dinâmicas sociopolíticas de implantação da impunidade, o alastramento do tráfico de drogas, a necessidade urgente de reestruturação do papel das forças armadas auguram um processo longo de consolidação do Estado na Guiné. O papel da comunidade internacional é sempre dependente do posicionamento dos vários interesses a nível internacional, regional e local, em que nem sempre se comungam os mesmos objectivos. Na Guiné-Bissau, com uma população relativamente pequena de 1.5 milhão, é possível que os esforços de organizações não-governamentais a nível local tenham um maior efeito em termos de beneficiar directamente as comunidades face às dificuldades do Estado em se afirmar. O mais positivo do meu dia na Guiné-Bissau é a generosidade, humildade e a bênção do sorriso guineense, apesar de tantos avanços e recuos.

O que é ser africano?

A definição de uma identidade pessoal pode ir mais além da imutabilidade estática de raça, origem e nacionalidade. Existe sempre um leque variado de escolhas e é essa a grandiosidade da nossa condição humana. Uma pequena história: “A Eritreia, país situado no Chifre de África foi invadido e colonizado pela Itália, processo durante o qual foi anexado temporariamente à Etiópia. Este país, por sua vez, é o único Estado africano que conseguiu manter a sua independência e, em 1950, a resolução da ONU 390(A), 1950 fixa a união da Eritreia com a Etiópia. Seguiram-se 30 longos e duros anos de uma guerra dura de secessão contra a Etiópia. A Eritreia consegue a sua independência em 1993. No ajuste de contas pós-independência, um soldado eritreu, cuja mãe era etíope e o pai eritreu, foi acusado pelas autoridades de ter uma lealdade duvidosa, porque mista; propensa à traição por afinidade com os etíopes, escapou da pena de morte por um triz, e foi enviado para uma das zonas mais áridas e pedregosas do território eritreu. O soldado lá ia passando os seus dias de desterro à procura de insectos e água nas concavidades das pedras. Perto de uma pedra, encontra um dia uma flor branca e amarela. Tão solitária como ele porque ali não havia vivalma. O soldado ajoelha-se, fascinado, perante a flor e comenta: eu sei o mal que lhes fiz, mas tu flor, que mal lhes fizeste para que te mandassem para aqui?”

Isto a propósito de identidades e das suas amarras, de políticas de lealdade, do acaso que nos faz nascer num sítio ou noutro, do facto de que identidades são pontos de referência com significados fixos, mas os sentidos estão sempre em transição como as emoções questionando “o que fazemos aqui?” Daí também o papel importante da literatura, filmes, teatro no exercício de introspecção de uma entidade de origem africana.por Marta Lança


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