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domingo, 1 de abril de 2012

Indemizações: Estado deve milhões de euros aos portugueses que em 1975 foram obrigados a regressar à Metrópole




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Presidente da Associação, Manuel Valente, diz que Acordo não foi cumprido
O Estado deve milhões de euros aos portugueses que foram obrigados a regressar à Metrópole, fugindo da ex-Província Portuguesa de Angola. Para trás ficaram casas, edifícios e todas as poupanças de uma vida. Mário Soares, Cavaco Silva, José Sócrates, Passos Coelho e Paulo Portas não escapam às críticas. A política portuguesa enrolou, escondeu e ainda tenta silenciar uma das maiores injustiças da História do País.
Veja em
Download DIABO07.02.2012
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terça-feira, 24 de janeiro de 2012

Fuga de Moçâmedes (Angola) para Welvys Bay e Africa do Sul através do Cunene e da Costa dos Esqueletos













Para além da grande evacuação que se processou por via da ponte aérea entre Luanda e Lisboa, 
montada por Portugal com a ajuda de potências internacionais, foram
várias as saídas de brancos e não só, para fora de Angola, a partir de Moçâmedes, Porto-Alexandre e Sá-da-Bandeira, nesses meses que mediaram  entre Junho a
Novembro de 1975, e se prolongaram mesmo até aos primeiros meses da
independência de Angola, precipitadamente
preparada, e inadiadamente marcada para 11 de Novembro de 1975. Uns partiram em traineiras com destino Luanda e daí para a Metrópole, outros, partiram em traineiras através de Porto Alexandre, Baía dos Tigres, até Walvis Bay (Namíbia), para em seguida rumarem na direcção do Rio de Janeiro e finalmente a
Portugal (durante nove meses). Outros ainda, partiram  em caravanas de automóveis, atravessaram o deserto do Namibe até à foz do
Cunene, atravessaram o rio em jangadas construidas para o efeito,  e prosseguiram para Walvis Bay através da perigosa Costa dos Esqueletos, uma das zonas mais inóspitas
do globo, tendo-se 
perdido  vários carros e embarcações no decurso dessas  viagens.

A população de Moçâmedes, cidade litorânea do sul de Angola, até Junho de 1975 viveu em completa calmaria, mas viu a situação mudar e deteriorar-se  a partir daí, com o agravamento da situação em Luanda, em consequência da expulsão pelo MPLA da UNITA e da FNLA, e o alastramento dos confrontos a todas as cidades de Angola. Foi então e só a partir de então, que o pânico começou a apoderar-se das pessoas, pois excepto uns poucos, mais temerosos de suas vidas e mais preocupados em acautelar seus bens, a maioria da população branca ia se deixando estar, embora se mantivesse expectante e receosa ante o desenrolar dos acontecimentos.




Através dos  videos acima, Rogério Amorim conta-nos como se processou a fuga a partir  de Moçâmedes, Porto Alexandre e Sá da Bandeira,  de um grupo de familias em pânico, incluindo a sua,  que  resolveram partir rumo a
Walys Bay (Namibia), através da foz do Rio Cunene e da já referida Costa dos Esqueletos.  Fizeram-no, integrando  uma
caravana constituida por 61 veículos automóveis  de todo o tipo, carregados com bagagens que não eram mais
 que o pouco que puderam juntar, tendo que atravessar a fronteira numa jangada feita propositadamente para tal fim, e prosseguir a marcha durante 16 dias  sempre junto ao mar, entre o deserto e o mar, aproveitando-se da maré vazia e da areia molhada.



Do livro de Rogério Amorim  "Costa dos
Esqueletos"  seguem algumas
 fotos desta fuga, e da travessia do rio Cunene através de Jangada:




 Clássicos do Ultramar-sem-titulo-7.jpg




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Clássicos do Ultramar-sem-titulo-4.jpg




 




 




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Clássicos do Ultramar-sem-titulo-1.jpg 






Ver também: FUGA DA CIDADE DO NAMIBE NO SILVER SKY: 10.01.1976





quinta-feira, 22 de dezembro de 2011

ANGOLA - eramos assim

ANGOLA - As time goes by

ANGOLA -SMILE

ANGOLA - Lobito e nós, naquele tempo

ANGOLA - Adolecentes Lobitangas antes de 1975

ANGOLA - Meu mundo caiu

ANGOLA - momentos solenes

ANGOLA - Amigos

ANGOLA - TERESA E MILA

ANGOLA - Era assim

sexta-feira, 9 de dezembro de 2011

O ESTADO PORTUGUÊS É ÚNICO RESPONSÁVEL PELAS INDEMNIZAÇÕES



 
 
Os portugueses que foram espoliados dos seus bens em terras africanas estão dispostos a não encerrar o seu "dossier" reivindicativo. Embora duas dezenas de anos tenham decorrido sobre o dia em que abandonaram as suas empresas, os empregos, as residências e quanto possuíam nas terras africanas que consideraram suas, não lhes feneceu a esperança de que justiça lhes seja feita. Ângelo Soares, o nosso entrevistado de hoje, é um dos milhares de espoliados do Ultramar. Ao longo dos últimos vinte anos não tem poupado esforços no sentido de que o Estado português assuma as obrigações que contraíu, com quantos contra a sua vontade tiveram que regressar a Portugal sem os seus bens, ao negociar as descolonizações. Isto porque o Estado não acautelou, como outros países fizeram, os bens dos portugueses que viviam em terras que o mesmo Estado considerou, até então, portuguesas.
Ângelo Soares viveu em Angola entre 1944 e 1948, e a partir desse ano em Moçambique, onde permaneceu até 1975, sendo responsável, enquanto ali viveu, por diversas iniciativas industriais que muito contribuíram para o desenvolvimento daquela região de África. Foi, deste modo, um comerciante, um industrial, um proprietário, passando a ser, como muitos outros, mais um espoliado a partir da descolonização moçambicana.
Regressado a Portugal foi o iniciador e organizador, em 1979, do primeiro convívio realizado em Monsanto (Lisboa) dos naturais e ex-residentes em Moçambique, convívio
que teve no ultimo Verão a sua decima sexta edição. Foi igualmente um dos principais impulsionadores da criação da AEMO - Associação dos Espoliados de Moçambique, pertencendo-lhe a iniciativa de, mais tarde, fazer nascer a AEANG - Associação dos Espoliados de Angola.
Todo este seu currículo é mais do que uma suficiente justificação da sua presença nestas páginas, em que o tema é a responsabilidade do Estado português, e só do Estado português, pelas reparações devidas aos portugueses que perderam no ex - Ultramar os seus bens e regalias sociais. Por isso, mais do que uma entrevista, o jornalista recolheu junto de Ângelo Soares o seu depoimento sobre uma situação que afecta muitos milhares de portugueses.
Depoimento que põe a nú toda a ilógica e desumana acção do Estado português, ao adiar, ao longo de duas compridas décadas, a solução que, tarde ou cedo, terá que encarar.
 
 



 
As obrigações do Estado






Perguntamos a Ângelo Soares se as responsabilidades dos graves prejuízos causados aos portugueses que residiam em Moçambique aquando da independência daquele país  africano pertencem apenas ao Estado português, ou também ao governo moçambicano, e a sua resposta foi esta:
Começo por relembrar uma recente intervenção na Assembleia da Republica da  combativa deputada Odete Santos. Em determinada altura, e a propósito de uma petição subscrita por mil e quinhentos espoliados ex-residentes em Moçambique, aquela deputada afirmou que os signatários "realçam que é o Governo português que tem de resolver o assunto e não o Governo de Moçambique". Acrescentou que "em qualquer processo de descolonização, todo o país, que no passado foi uma potência colonizadora e exploradora, deve assumir algumas consequências desse seu passado". E disse ainda que "os cidadãos portugueses, como os cidadãos moçambicanos, acabaram também por ser vitimas dessa colonização absurda, injusta e imoral, que no passado foi levada a cabo por Portugal". A partir da intervenção desta deputada proponho-me acrescentar algo a propósito da responsabilidade do Estado português pelas indemnizações relativas aos bens deixados no Ultramar.
Comecemos pelas vésperas da assinatura do Acordo de Lusaka - prosseguiu Ângelo Soares, recordando o que aconteceu em 1974:
À partida de Lisboa para Lusaka, no dia 4 de Setembro de 1974, o Dr. Mário Soares como ministro dos Negócios Estrangeiros, fez as seguintes declarações: "Parto bastante optimista para as conversações de Lusaka. Durante mais de três meses fizemos um excelente trabalho, no sentido de podermos chegar agora a um acordo com a Frelimo. O brigadeiro Otelo de Carvalho e eu tivemos um primeiro encontro em Lusaka com Samora Machel, depois registaram-se outros contactos a vários níveis. O major Melo Antunes fez duas visitas a Dar-Es-Salam, onde também esteve o ministro Almeida Santos e eu para conversações com o presidente da Frelimo. Tudo isto constitui os pontos fundamentais para um acordo, acordo esse do qual sairá, espero, um governo de transição". E afirmou ainda: "Os acordos de cooperação que estão em estudo são muito vastos, e posso dizer que os interesses de Portugal e dos portugueses, que são legítimos e reconhecidos pela própria Frelimo, serão devidamente acautelados. Partimos, pois, todos com uma perspectiva optimista e com grande confiança".
Falando do que viria na realidade a acontecer em Lusaka, Ângelo Soares relembrou ainda:
O Acordo de Lusaka, limitado a duas páginas do Diário do Governo como todos nós sabemos não regista uma única palavra a defender, depois da independência, os interesses, ou os bens, dos portugueses que estavam em Moçambique. E é interessante analisar a reacção do general Spínola, quando o Dr. Adelino da Palma Carlos então primeiro ministro, foi, acompanhado pelo Dr. Mário Soares e pelo Dr. Almeida Santos, dar-lhe conhecimento dos termos do Acordo de Lusaka. Depois de lhe dizerem "que não tinham sido ouvidos para coisa nenhuma", e que Melo Antunes decidira tudo sozinho com a Frelimo, o general Spínola ficou tão irritado que bradou: "Se eu apanho o Melo Antunes mando-o fuzilar aqui mesmo no palácio de Belém".
Documentando o que afirma, Ângelo Soares acrescentou:
Isto consta a paginas 54 da obra "Conversas com Palma Carlos", da escritora Helena Sanches Osório. Sabemos agora, em 1994, que Melo Antunes foi chamado a Belém por Spínola, e que exibiu documentos demonstrativos, ou que pelo menos como tal foram aceites na altura, de que a situação militar estava em colapso e as tropas em Moçambique ameaçavam depor as armas, o que seria um escândalo para o Exercito português. Em consequências disto, o Acordo de Lusaka foi ratificado pelo general Spínola, e publicado no dia 9 de Setembro.
Os resultados eram fáceis de adivinhar, e o nosso entrevistado recorda-os:
Não será de admirar que a Frelimo defenda a tese de que as propriedades dos portugueses, como todas as estruturas de Moçambique, lhe pertencem, uma vez que não foram acauteladas no Acordo de Lusaka. Pois se as próprias instalações do Banco Nacional Ultramarino lhe foram entregues e até a reserva ouro que, em Lisboa, garantia a circulação fiduciária de Moçambique...
E comenta ainda:
Quando negociou o Acordo de Lusaka com a Frelimo, Melo Antunes parece ter aceite a filosofia, ou a tese frelimista mais radical, de que a divida de Portugal a Moçambique tinha começado com o fornecimento de água ás caravelas de Vasco da Gama. Portanto, tudo aquilo que se encontrava em Moçambique passava a ser pertença do Estado moçambicano. Não é, pois, de admirar que aos espoliados de Moçambique interesse a tese de que foram vitimas da colonização e da descolonização, e deixa no ar a interrogação: Ou será que num recentemente revelado desvio para Moscovo de vários dossiers da Pide iremos encontrar a explicação para o insólito de certas posições descolonizadoras?
 
 



 
Colonização e descolonização






Se houve descolonização, temos que aceitar que houve colonização. Ora houve, ou não houve, colonização? - perguntamos. Respondeu-nos:
Eu defendo que houve colonização, e que os portugueses que estavam em Moçambique foram tão explorados por essa colonização como foram os africanos. Através dos anos, e mesmo dos séculos, o Estado português com os seus diferentes governos, tanto os da Monarquia como os da Republica, incutiram a ideia de que estar em Moçambique era estar em Portugal. Isso aconteceu também com o governo salazarista, pois Salazar chegou a declarar que "os territórios ultramarinos eram a solução lógica para os problemas do excesso de população em Portugal, fixando portugueses da Metrópole nas colónias e produzindo estas as matérias-primas para venda à  Metrópole, em troca de produtos manufacturados". Era a filosofia mais expressa no "slogan" "Portugal do Minho a Timor". Mas com o 25 de Abril reconheceu-se que essa filosofia estava errada e os portugueses que ali residiam sofreram os resultados desse reconhecimento. Portanto, o culpado de tudo isto é o Estado português, através dos seus diferentes governos.
Ângelo Soares referiu-se a seguir ás formas como os portugueses foram colonizados em Moçambique, baseando-se em situações indesmentíveis:
Alem da exigência de licenças de importação, que eram concedidas conforme as directrizes idas de Lisboa, as mercadorias que iam de Portugal para Moçambique tinham uma pauta preferencial na Alfândega. Nós, como consumidores em Moçambique, podíamos ter uma mercadoria em qualquer país do mundo mais barata trinta ou quarenta por cento, mas as pautas de importação eram feitas de maneira que, aumentando os direitos para essas mercadorias, as mercadorias portuguesas pudessem ser vendidas. Isto podia ser na altura muito patriótico, nós podíamos aceitar isto como patriotismo, mas não há dúvida que representava para nós uma exploração, e que era colonialismo. E foi à sombra desta filosofia colonialista que algumas indústrias portuguesas se formaram e que algumas grandes riquezas portuguesas foram conseguidas. O negocio do vinho, em barris de cem litros, é paradigmático...  E a marinha mercante portuguesa, que existia à  custa do Ultramar, e depois de 1974 foi vendida ao desbarato?
Recordo também,  prosseguiu - o caso da Industria têxtil portuguesa, que recebia de Angola e de Moçambique o algodão a um preço baratíssimo e que depois de fabricados os tecidos os exportava para Moçambique a um preço muitas vezes superior. É ainda o caso das oleaginosas de Angola, que só depois dos exportadores cumprirem uma quota para Portugal, a um preço baixíssimo, tinham direito a exportar para o estrangeiro a preços mais compensadores. A propósito posso acrescentar que em 1928 as colónias portuguesas de Africa produziam cerca de oitocentas toneladas de algodão, enquanto as indústrias têxteis portuguesas necessitavam de dezassete mil toneladas. Em meados dos anos cinquenta o numero de africanos que trabalhavam na cultura de algodão tinha subido para meio milhão, e a produção, só em Moçambique, atingia as cento e quarenta mil toneladas. A indústria têxtil portuguesa, que então empregava um terço da força industrial de trabalho, e produzia um quinto  do valor total das exportações, recebia das colónias oitenta e dois por cento das suas matérias primas, sempre a preço abaixo das cotações do mercado internacional.
 
 



 
A Colonização em números






Ângelo Soares falou-nos a seguir de outras facetas da colonização portuguesa, e das vantagens colhidas por Portugal  dessa situação. E fê-lo com números:
Em 1973 Moçambique exportou  554.476 milhares de contos de açúcar. Como todos nós sabemos, o açúcar produzido em Moçambique teve sempre como um dos seus maiores consumidores o mercado português, embora alguma parte dele fosse também para outros países. Os acordos assinados nos últimos anos asseguraram a Portugal não unicamente o fornecimento do açúcar refinado, mas, também do açúcar em bruto para ser refinado neste país, sendo uma das normas a de que dois terços do açúcar bruto deveria de ser refinado em Portugal. A validade deste acordo estendia-se até ao ano de 1982, estando previsto que no período de 1972-1973 Portugal deveria de receber duzentas e quarenta mil toneladas. Do mesmo modo como acontecia com o algodão, o açúcar constituía uma forte fonte de divisas estrangeiras para Portugal. Todas estas situações devem ser estudadas pelos espoliados do ex-ultramar português, de forma a que se defenda o ponto de vista que em princípio exprimi.
Mas outras situações comprovam a colonização portuguesa, e Ângelo Soares enumera-as:
Por acordo de 11 de Setembro de 1928, a Wenela - Witwatersrand Native Labour Association ficou com plenos direitos de recrutar mão de obra em Moçambique, com destino ás minas do Transval. Aquela empresa soube criar uma orgânica que lhe permitiu levar de Moçambique, anualmente, entre sessenta e cinco mil a cem mil trabalhadores, cujo pagamento era parcialmente recebido em ouro, que vinha para o Banco de Portugal a uma cotação sensivelmente inferior à do mercado livre.
Ângelo Soares referiu-se a seguir às dificuldades impostas às transferências bancárias de Moçambique para o exterior, incluindo Portugal dizendo a propósito:
Todos os portugueses residentes em Moçambique estavam sujeitos a um controlo rigoroso e as transferências bancárias só eram autorizadas quando muito bem justificadas e sempre em valores limitados. Todos nós que lá vivemos nos lembramos disto. Mesmo passando por cima da demora entre a emissão de uma transferência bancária para fora de Moçambique, com o consequente desembolso, e o recebimento da contrapartida em Portugal, mostrava-se evidente que tantas dificuldades forçavam-nos a investir em Moçambique, mesmo que tivéssemos algumas dúvidas quanto a respeito do futuro. Mas era esta a politica dos anteriores governos, com a qual pretenderam defender a filosofia do Portugal Ultramarino, à qual todos nós fomos sacrificados.
E acrescenta:
A actividade bancária, o mercado de câmbios e o regime de transferências para o exterior, em 1974, eram regulamentados por cerca de trinta decretos-lei sete decretos, duas portarias e alguns avisos do Banco de Portugal. Uma enorme confusão legislativa que, na aparência, podia dar uma ideia de abertura (decreto-lei 183/70) mas que na prática não facilitava um mínimo de remessas para o exterior... aos não protegidos. Chegou-se ao extremo da publicação, em Maio de 1974, do decreto-lei 181, tornado extensivo ás províncias ultramarinas, que estabelecia a pena de prisão maior de dois a oito anos para aqueles "que promovam, executem, ou facilitem a exportação ou saída, por qualquer forma, para o estrangeiro, de notas, moedas, divisas, ouro, prata", etc. Assim, as economias das então chamadas províncias ultramarinas eram altamente exploradas por Portugal. E com esta exploração muito lucrou Portugal, pelo que foi um país colonizador. Ora, os encargos com a descolonização devem ser a contrapartida destas receitas extraordinárias, que durante anos e anos o país recebeu.
E a concluir esta parte da entrevista, disse ainda:
Foi um governo deste Estado português que nos disse para investirmos em Angola e em Moçambique porque estávamos a investir em território português. E mais tarde, foram os representantes do mesmo Estado português, Melo Antunes, Mário Soares, Almeida Santos e general Spínola, que disseram que o que estava em Moçambique era da Frelimo e que nada tínhamos a receber do Governo de Moçambique. Ora se nada tínhamos a receber do Governo de Moçambique temos a receber do Governo português por todas estas razões.
A situação teria sido diferente se, como potência colonizadora assumida, o que não foi o caso, o Estado português nos tivesse prevenido, desde sempre, de que estávamos a colonizar, e que deveríamos acautelar os nossos bens no exterior.  Assim... sim; quem tal não tivesse feito deixaria agora de ter direito a qualquer indemnização. A verdade é que aconteceu exactamente o contrário, pois não só nos recusaram autorização para fazermos transferências para o exterior daquele território, como por todas as formas fomos incentivados a investir no Ultramar.
 
 


Os contenciosos com Moçambique
Ângelo Soares referiu-se a seguir aos contenciosos existentes entre Portugal e Moçambique que o estado português tentou resolver. Dizendo que não existem muitos documentos sobre o assunto, lembrou que o caso foi abordado no Instituto para a Cooperação Económica, numa entrevista que a Associação dos Espoliados de Moçambique teve com o então embaixador Manuel Lopes da Costa, vice-presidente daquele Instituto, e actual embaixador no Maputo. O embaixador Manuel Lopes da Costa disse então que o Dr. Sá Carneiro, quando foi primeiro ministro, tentou negociar com Samora Machel,  presidente da Frelimo, os chamados “Contenciosos com Moçambique”, e Ângelo Soares conta a propósito: 
Abordamos então esse assunto com o embaixador Manuel Lopes da Costa e ele esclareceu-nos que os contenciosos eram vários, designados por “a”, “b”, “c” e “d” mas que não incluíam os bens e valores deixados pelos portugueses. Recordo-me de ele ter feito essa afirmação e será importante agora que se solicite ao GAE, o Gabinete de Apoio aos Espoliados, todos estes elementos, pois mesmo que se trate somente das chamadas estruturas do Estado, como os caminhos de ferro, os portos, as estradas, os edifícios públicos, etc., a resposta dada então pela Frelimo ao Governo de Sá Carneiro levar-nos-á a melhor compreendermos toda a problemática do Acordo de Lusaka. 
E acrescenta a propósito:
O Dr. Almeida Santos, no prefácio do livro "Soares, Portugal e a Liberdade", escreveu este parágrafo: "Os negociadores políticos limitaram-se a certificar o óbito das soluções militares, a juntar os cacos das ilusões perdidas, a salvar a face de uma grande Pátria com uma grande Historia". Isto quer dizer que o preço da nossa desgraça foi a salvação da pátria portuguesa, mas Almeida Santos diz a seguir mais o seguinte, e agora é preciso que ele nos esclareça: "Quem relê hoje os acordos firmados concluirá que, apesar de tudo, o mal não estava neles". 
Ora isto precisa de uma explicação. O que é que 0 Dr. Almeida Santos quer dizer sobre o Acordo de Lusaka? Qual é a explicação que ele dá, se não há uma única palavra a referir-se aos bens dos portugueses? Pensará ele que o facto de a comunidade internacional defender a filosofia de que todo o individuo tem o direito à sua propriedade, esta teria sido respeitada pela Frelimo?
Afirmando que a posição que assume coloca-se acima de qualquer crítica aos governos de antes e depois 25 de Abril, acrescentou:
 
Vamos ter todos e cada um a capacidade intelectual de avaliar, com isenção política, a nossa posição perante a colonização e a descolonização. Reconheço que estas ideias precisam de ser amadurecidas e aprofundadas. Nós estamos na AEMO para defender as indemnizações pelos bens de que fomos espoliados, e somente esta meta nos deve orientar. Não há da nossa parte a pretensão de esgotar o assunto com estas declarações, pois temos a absoluta consciência da complexidade e melindre da questão suscitada. Aguardamos, esperançados, que outros igualmente dentro da matéria e possuidores de elementos talvez mais completos, resolvam também expor os seus pontos de vista.
A entrevista estava no fim, mas Ângelo Soares disse-nos ainda:
Depois de terem passado por tantos sacrifícios, sofrimentos e privações, e decorridos que foram vinte anos, faço votos para que os espoliados do Ultramar saibam votar nas próximas eleições legislativas, de modo a contribuírem para que o Estado português venha a ter um governo que, sem margem a dúvidas, lhes garanta, logo no período pré-eleitoral, que assumirá a responsabilidade de publicar legislação conducente ao recebimento das justas indemnizações que há anos vêm reivindicando.
 
Inácio de Passos
(in Correio da Manhã – 17/10/1994)

A QUESTÂO DO ULTRAMAR: SALAZAR NÃO FOI CHEFE DE FAMÍLIA




A maior diatribe ao angélico regime de Salazar, uma das ficções da nossa vida colectiva, li-a ontem no diário lisboeta, “Correio da Manhã” (17 de Outubro 1994) num texto intitulado “O Estado Português é o único responsável pelas indemnizações “ (aos portugueses que foram espoliados de seus bens em terras africanas). Ângelo Soares, um dos milhares de espoliados, traz a sua fotografia a ilustrar o reivindicativo e acusatório texto e por debaixo de sua efígie de homem setentão aquelas palavras, expressão sua, que reputo o tormento à paz de Salazar no tranquilo cemitério de Santa Comba Dão, mesmo juntinho ao jazigo da mulher amada (são cinco palmos mal contados). È o que perturba o idílio além-tumba. Ela , uma Perestrelo Botelheiro, lhe dirá : “Por não teres constituído a família é que se desfez o teu império !” As palavras magoadas de Ângelo Soares soam tristes deste modo desesperado: “A situação teria sido diferente se, como potência colonizadora assumida, o que não foi o caso, o Estado português nos tivesse prevenido, desde sempre, de que estávamos a colonizar, e que deveríamos acautelar os nossos bens no exterior... “ A culpa foi do Estado e de quem o governava. A culpa foi de quem imprimiu a definição e a propalou até à fadiga. À cabeça, António de Oliveira Salazar. Ao princípio do velho “Estado Novo”, logo nas suas masculinas alvoradas de braços esticados, o mestre de Economia da universidade coimbrã pública, em 1930, o Acto Colonial. Era dar o nome justo às coisas. O Ultramar era constituído por colónias. As palavras não devem ser profanadas. As palavras são as roupagens das realidades e devem obediência a estas. Chamar cão a um gato não transforma o gato em cão. As palavras têm por missão traduzir o mundo e fazê-lo comunicar, não o de esconder mundo e mal informar. Mas o tempo perverteu o inicial realismo de chamar as coisas pelo seu justo nome. Salazar começou a ser poeta e produziu uma tenebrosa metáfora. A certa altura deixou de chamar colónias às colónias (estas ficaram espantadas com a súbita mudança, porquê ?) e passou a tratá-las como vizinhas de cá, parentes muito chegados, num tu cá tu lá que cristalizou na expressão eufemística de “províncias ultramarinas”. O delírio nominativo considerava tão portuguesa a província do Algarve quanto a da Guiné, tão lusitana a do Minho quanto a de Angola ou Moçambique. O mundo é que estava errado. A geografia era um sonho. Angola confinava com o Algarve e a Índia com Trás-os-Montes. Este é que era o mapa cor-de-rosa que o outro fora o vermelho da vergonha. Salazar nunca pisara “tierras calientes “ africanas, asiáticas... nunca sentira na pele as estruturais diferenças. Era tudo Portugal do rio Minho a Timor, sem ter de vencer milhares e milhares de quilómetros e aquelas distâncias bem maiores entre povos diferentes (não se usa a abalada expressão primitivos, pois aqui na Europa não bárbara também o somos). Esse espaço de terras e gentes, fossem quais fossem os quadrantes, reduzia-os Salazar à progenitura de um ventre comum, a parir terra e pessoas tão portugueses em Amarante quanto no Huambo ou Inhambane. Havia um ventre comum. Salazar delirava com esta família universal, todinhos vestidos de igual portugalidade. Ele não fizera família e inventou a cósmica do Ultramar Português, das províncias de Ultramar, em que os angolanos eram minhotos e minhotos os pretos de cá, numa perfeita identidade. A metáfora era já realidade à força de tanto badalo, discurso, proclamação. Querer é querer crer. Salazar quis crer no que imaginara. O Ultramar eram um mero prolongamento de Portugal e tão Portugal quanto esta terrinha à beira Atlântico deitada. Oh tanta poesia! Ângelo Soares é uma voz plural. È um sentimento contra essa falsificação. É a dor de um despertar tardio. Tivesse Salazar chamado colónias ao que colónias eram e não pululariam os convictos de tanto Portugal aqui como lá ! Este Ângelo Soares tem imensa razão, dolorosa razão. Todo o acordar de um sonho é um quebranto de ânimo, um difícil retornar à realidade. Eu lembro o caso de uma amiga minha, de Pinhel, filha de um colega de meu pai, o fino, culto e saudoso Dr. Alexandre Nápoles de Mettelo Seixas. Dois meses antes do 25 de Abril de 1974 ela vendera propriedades em Portugal para adquirir um apartamento num prédio de Lourenço Marques (Maputo). Era das que dizia: “Aqui é Portugal, isto não é uma colónia, isto é uma província e entre Pinhel e Lourenço Marques não existem diferenças”. 
A sua confiança era ilimitada e fruto directo da metáfora salazarista (não há colónias, há províncias). Dois meses depois ela chorava. Acabara de despertar o som dos acordos de Lusaka. Uma mentira criara todo este optimismo. Como Ângelo Soares tem razão histórica! Como é verdade o que ele diz, como se um grito de milhentas pessoas anunciasse esta verdade, o dardo contra Salazar: “A situação teria sido diferente se, como potência colonizadora assumida, o que não foi o caso, o Estado português nos tivesse prevenido, desde sempre, de que estávamos a colonizar, e que deveríamos acautelar os nossos bens no exterior...” A tal metáfora não passava de um conto do vigário em grande. Todo o conto de vigário especula com a espontânea ingenuidade dos que se deixam embalar com historietas, miragens, distorções. 
O mal de tudo, a razão primeira e explicativa do fenómeno, radica em que Salazar criou a poética e fatal metáfora por não ter constituído família, por não Ter sido pai de filhos para sustentar, criar e pôr na vida como independentes (a ordem natural,  gerar para os filhos serem outros pais). 
Gosto de demonstrar o que digo. Há um génio da Península, mal conhecido em Portugal. Nasceu em Granada, em 1865, e suicidou-se em Riga, Letónia, onde era cônsul, no ano de 1898. O seu génio auscultava o futuro porque conhecia bem o passado e não era homem preso ao “momento”. Chamou-se esse poderoso escritor e pensador, Ángel Ganivet. Que pena o seu “Idearium espanhol” (1897) não ter caído nos olhos dos leitores de Salazar! À razão de não ter casado juntou-se a razão de não Ter lido este santo suicida, de alma extraordinária. As duas razões geraram a Salazar a impune metáfora de “províncias ultramarinas”. Pois não sentiu uma coisa primária: tudo no planeta é família, são famílias, há pais e filhos e esta ordem de gerações é que cria o comparativismo para a própria acção política. 
Ángel Ganivet lavrou esta beleza de verdade e de rigor: “Há quem julgue que o termo fatal da colonização é a emancipação das colónias. A meu ver, este conceito é teórico. Também os filhos podem emancipar-se, se os códigos estabelecem quando e como se perde o poder paternal; e, todavia, muitos filhos não se emancipam nunca, nem sequer eles pensam na emancipação.
Passam de um estado civil a outro diferente, sem notar a diferença, e a ninguém se lhe ocorre esperar que chegue o dia marcado pela lei para dizer ao seu pai: “A partir de hoje cessou o exercício de suas funções que até aqui tem vindo a desempenhar.” Apenas em casos extremos se regem os homens pelo texto das leis e apenas em casos extremos lutam as colónias por conquistar a sua independência.  Se mercê de uma política hábil, e mais que hábil, desinteressada, se mantém a devida unidade de ideias  e sentimentos entre a metrópole e as suas colónias, se pode aplicar sem perigo e regime autonómico, que conduzirá, não à emancipação, mas à confederação das colónias autónomas com a sua metrópole; e desta forma, a autonomia não será um primeiro passo para a emancipação, será o começo de uma união mais íntima, conseguida mediante o sacrifício disso que eu chamo a dominação materialista. Mas delicadezas políticas nem sempre são práticas, porque requerem o concurso de homens especialmente educados para tão difíceis trabalhos, e nem todas as nações possuem homens desta classe. Se se implanta um regime autonómico e se se continua a fazer uso de velhos procedimentos governativos, o fracasso é seguro, e antes de chegar a ele é preferível, ou o domínio franco e firmemente sustentado, ou a emancipação franca e legalmente outorgada.
Nem todas as nações possuem homens desta classe! Como Ángel Ganivet foi bruxo! Como sentiu a humanidade uma família mas com deveres de família, não com a simulação de parecer famílial. Como ainda poderia haver Portugal por Africas e Índias e Oceanias e Ásias se visão não fosse a poética e falsa mas a realista de se chamar às coisas os seus próprios nomes! Como é este crítico Ângelo Soares o maior historiador do nosso passado recente já que os outros não sabem ver e se regem por outras abstracções! Como ele deixa Salazar desamparado na sua cova! Como finalmente vamos ter paz por se compreender as razões!
Ángel Ganivet atirou-se às águas geladas do Dwina. Nós recobramos vida com os seus conceitos formados do próprio sangue da vida, algo que tantos e tantos “políticos” desprezam...
Lá no cemitério de Santa Comba a namorada também se sente compungida. Outro galo teria cantado a Portugal se tivessem casado, se tivessem filhos...
 
Por: JOAQUIM de MONTEZUMA de CARVALHO
(In Jornal Correio da  Manhã 04/12/1994)

quarta-feira, 3 de agosto de 2011

Terra dos Condenados, por Luciano Amaral


De Caetano ao 25 de Abril, e do 25 de Abril ao PREC  às independências.
Os novos países.

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