CUMPRIU-SE O MAR E O IMPÉRIO SE DESFEZ... A História magoa. A independência das colónias forçou meio milhão de portugueses a tomarem parte numa ponte aérea que os desembarcou em Lisboa trazendo a amargura na bagagem e tendo de se adaptar a uma terra que, em muitos casos, não conheciam. Este blog fala de retornados, espoliados, de gente que perdeu as suas casas e os seus bens, e que, sem receber quaisquer indemnizações do Estado português, continuam nos seus sonhos a revisitar África.
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quinta-feira, 22 de dezembro de 2011
quinta-feira, 8 de dezembro de 2011
Retornados de África: Fomos tratados como cães vadios!...

A forma como tudo mudou em Luanda, depois do 25 de Abril, é difícil de descrever, aí que a descrição que se segue seja longa, muito longa.
Em Luanda, estudava numa escola nocturna. Eu e algumas das professoras éramos as únicas brancas, mas isso não impedia que, até então, fossemos todas amigas, como é normal numa sala de aulas. Cerca de um mês depois do 25 de Abril, tudo começou a mudar. Passei a ser marginalizada. Fui várias vezes agredida sem saber por quem, com pauladas e socos nas costas, sempre acompanhadas da frase maldita: "vai-te embora ó branca!". Agressões aleatórias a caminho da escola, por colegas negras, sem qualquer razão que a não a denunciada pelo "vai-te embora ó branca!" aconteceram várias vezes. O ambiente começou a ficar bastante hostil. Em Maio do ano seguinte e como faltava pouco para acabar o ano, que eu não queria perder, ia tentando aguentar a situação. Não contava nada em casa, para que não me impedissem de ir à escola.
Recordo o terror vivido numa das minhas deslocações para o liceu. No autocarro, do trabalho para a escola. O autocarro ia abarrotar de cheiro,claro que só iam pessoas de cor, eu era a única branca. Pouco depois numa paragem ainda na baixa de Luanda, entrou a minha professora de ciências . O autocarro foi seguindo o seu percurso, e esvaziando. Quando não restavam mais do que uns 20 passageiros, velhos e novos, todos negros, mais eu e a professora, começaram as provocações, com gritos de "morte ao branco" e a fazerem obscenidades ao pé de nós. Permanecemos aterradas, como que paralisadas, eu e a professora, sem sequer ousarmos olhar uma para a outra, procurando não dar qualquer pretexto para que algum iniciasse o ataque. Eram inúmeras as histórias de autocarros desviados para os musseques, com violações e assassinatos, pelo que procurámos evitar qualquer comportamento, gesto ou olhar que pudesse servir de pretexto, mas foi tanto o terror porque que passamos nessa viagem, ainda hoje me lembro com pavor desses momentos, vi a violação e morte na minha frente… Acho que só não aconteceu porque, quer eu quer a professora, ficamos paralisadas e parecíamos umas múmias sem vida, sem reacção, invadidas peloo terror. O coração batia mas o cérebro estava paralisado. Foi a primeira vez na minha vida e única em que paralisei de terror tal foi o pavor infligido sobre nós, durante essa viagem. Quando chegamos à paragem perto da escola, nem nos conseguimos levantar, tal era o terror sentido. No entanto eles, que nos tinham identificado pelas batas, encarregaram-se de nos empurrar porta fora, como quem atira com sacos de batatas, e com umas estaladas e uns "anda branca, por hoje tens sorte!". Depois disto, nunca mais andei de autocarro.
Cheguei muitas vezes ao Liceu para deparar com cartazes a preanunciar explosões para as nove da noite. Sozinha, meio perdida no meio da confusão, voltava para trás, pé ante pé, com medo de ser notada pelos muitos grupos de miúdos, com um máximo de 10 anos, que andavam com varapaus na mão, a perseguir tudo o que mexia. Entravam pelas casas adentro, espancavam quem lá encontrava, saqueavam o que lhes apetecia e depois, mais tarde, iam os mais velhos acabar o serviço - o que consistia em matar quem persistia em lá ficar, mesmo depois dos saques. Num dos dias vi um destes grupos, enquanto me afastava da escola, e imaginei de imediato o meu fim ali mesmo, às mãos de uma dezena de crianças. Por milagre de Deus, eles não me viram, pois iam do outro lado da rua e era noite. Vi-os a entrar para uma das casas da rua e eu só ouvi os gritos dos infelizes que lá viviam. Afastei-me o mais depressa que pude, mas sem correr para não atrair as atenções.
Num outro dia assisti a dois ou três negros a tocarem à campainha de um prédio. Quando alguém veio à janela, dispararam as metralhadoras que traziam. Nem parei para olhar, afastei-me o mais depressa que pude. Soube, depois, que tinham abatido o proprietário de uma farmácia.
Andar na rua era, assim, um risco grande. Valiam-nos as muitas árvores existentes à noite e a pouco iluminação. Por outro lado, era pouco crível uma branca andar pela rua de noite, pelo que eu vestia um casaco preto e uma calças castanhas, tirava a bata da escola, que era branca, e assim era mais difícil reparem em mim.
Era frequente ver passar camiões da tropa, com panos pretos a tapar o interior. Dizia-se que levavam pessoas que tinham sido mortas.
Havia milhares de angolanos brancos que não conheciam Portugal, pois já há gerações que as famílias respectivas lá estavam. Dessas morreram famílias completas, para saciar a sede de vingança. Nunca cá ouvi referência alguma a esta situação.
Lembro-me doutra situação que aconteceu estava eu no escritório onde trabalhava, no Largo Diogo Cão, de frente para o porto marítimo. A certa altura apercebi-me de uma grande confusão no local de onde saiam os camiões e deixei-me estar a observar e tentar perceber o que era. Vi um homem branco a ser agredido à paulada, e ser arrastado. Até o ferro da paragem do autocarro foi arrancado para o agredirem. O homem conseguir meter-se por baixo de um carro estacionado. Entretanto vi parar um carro cheio de negros, conseguiram tirá-lo debaixo do carro onde se tinha escondido meteram-no dentro do carro onde viajavam, e arrancaram em alta velocidade. Os meus colegas que trabalhavam na estiva disseram que era o carro da sede do MPLA, para onde o levaram e onde acabou por ser assassinado. Coisas destas eram constantes. Soube depois que tudo tinha começado quando o infeliz ia a tentar sair do porto com o camião e um grupo de estivadores, de rádio ao ombro, não permitia a passagem do camião. O homem teria parado, e pedido para o deixarem passar. Ora, como podia um branco estar a dar ordens!? Só podia estar a pedir para morrer... e foi o que aconteceu.
Quantas vezes não vinha uma rajada de metralhadora do morro que existia atrás do palácio do governador? Muitos morreram assim, sem que nada os protegesse das balas perdidas. Não havia pão, não havia leite, não havia um mínimo para nos alimentarmos, em lugar algum. Tive alturas em que esperava que uma bala me matasse como quem espera a coisa mais normal da vida, nunca pensei ser possível sobreviver, tal era a a sanha dos ataque aos "brancos". Pensei que ia lá morrer, pois além de toda a violência contra nós, também se guerreavam entre eles e, frequentemente, ameaçavam rebentar os depósitos da gasolina e aí Luanda seria uma bola de fogo.
De todos as situações porque passei houve uma que me marcou e me traumatizou mais. Foi na altura em que o bairro onde morávamos "ficou no meio" de um ataque das forças do MPLA contra as forças da FNLA. Passámos a noite toda com crianças de dois e quatro anos debaixo das camas, com um tiroteio sem fim, lá fora. No nosso jardim estavam forças do MPLA, armados até aos dentes, com lança-roquétes (nome que ouvia chamar aquilo), granadas, tudo que era possível. Foram tantos os tiros que atingiram a nossa casa, mas por Deus nenhuma granada a atingiu. Estávamos todos petrificados de medo, quando nos bateram á porta aí a nossa respiração parou... Um primo meu, de rastos, foi à porta e abriu-a. Os do MPLA pediram uma garrafa de óleo pois as armas estavam a encravar e, de caminho, perguntaram se havia liamba. Face à resposta negativa do meu primo sobre a liamba, eles voltaram para as posições de combate.
A manhã chegou sem que ninguém tivesse conseguido pregar olho. Num acto de desespero o meu primo e pai de duas meninas, saiu de casa fora em direcção ao jardim nas traseiras da casa e foi fazer lume com carvão e aí arranjou os biberões para as filhas, que estavam cheias de fome. Nós continuamos nos esconderijos . Um grupo tropas Portuguesas, penso que da marinha, ia a seguir em alta velocidade pela marginal, quando começou um tiroteio muito forte. Tiveram de parar e correram, saltando os muros do nosso jardim, a deitaram-se no chão. Lembro-me que um, ao cair, bateu num vaso em pedra e acho que deve ter partido qualquer coisa pois, depois de ter abrandado o tiroteio, quando se foram embora, tiveram de levar esse camarada em braços. Os covardes esqueceram-se que estavam lá os compatriotas deles. Fugiram que nem ratos.
Num desse intervalos entre tiroteios, o meu tio disse: "Tudo para os carros!". A correr, quase uns por cima dos outros, fugimos do nosso bairro que estava a ser massacrado e fomos para a baixa de Luanda, para a casa de uns parentes. Nunca mais voltei à Praia do Bispo. Saí de casa com a roupa que tinha e o que me valeu foi uma mala de roupa que tinha mandado, já há algum tempo, por um soldado vizinho.

Antes da viagem de volta à metrópole, trocaram-me 5 mil angolares por 5 mil escudos, pois os angolares não valiam nada fora de Angola. Deixei uma ordem de transferência do meu outro dinheiro para aqui, transferência essa que, até hoje, nunca se completou. Passados uns dias pudemos, finalmente, ir para o aeroporto e arranjar lugar num avião. Foi preciso ter recorrido aos conhecimentos que tinha por trabalhar com as companhias de navegação para conseguirmos os bilhetes. Mas nessa altura eram milhares e milhares os que dormiam no chão, no aeroporto, crianças tudo, sem condições, sem alimentação, á espera de poder conseguir regressar! O que eu vi, meu Deus, quanto desespero.
Saímos de Luanda no dia 9 de Agosto de 1976, ás 22h00. Ao sobrevoar Luanda chorei convulsivamente, porque eu adorava aquela terra, tão linda, tão maravilhosa. Senti, nesse momento, que não voltaria lá mais...
Porquê sair assim? Porquê passar por todo este terror para milhares de pessoas que chamavam a Angola a sua terra? Foram muitos dias meses de um terror que não esquecerei, vivido na primeira pessoa.
Obs. Será difícil para todos os senhores do 25 de Abril de 1974, compreender que o tratamento dado aos expoliados das nossas excolónias foi indigno, e comprender que eles (esses senhores) não merecem qualquer respeito por parte dos que foram lá maltrados e aqui rejeitados e aplidados como (os retornados). Os ricos safam-se sempre quem sofre é sempre o povão...Não acreditam!...Quem era lá rico aqui também continuou a ser rico...Os diamantes estavam para eles á mão de semear. O povo sempre o Povo. É quem paga, as cabaladas .O que noveu o 25 de Abril e 1974 foi a sede do Poder
Published by Gracinha
"....Nós que, até então, trabalhávamos, estudávamos, vivíamos uma vida simples, sem sobressaltos, e em paz, vimos tudo alterado num ápice. Um mês, nem tanto passado sobre o dia da revolução e o medo passou a estar sempre presente, para nós, os de pele branca. De todo o tempo que tinha passado em Luanda, desde a minha chegada, já me tinha sido possível ter uma ideia aproximada da vida naquela cidade. Não era muito diferente do que se passava na metrópole, embora me parecesse que se vivia melhor em Luanda. Claro que havia gente pobre, claro que havia gente que vivia mal, mas no geral parecia-me que as coisas lá eram bem melhores que por cá. Haverá quem diga que havia mais negros que brancos a viver mal, o que é verdade, porque em Angola os negros eram em muito maior número. Mas o país era rico e isso permitia que todos vivessem de modo mais ou menos aceitável. A verdade é que eu nunca tinha feito mal a negro algum, nem nunca tinha visto ninguém a fazer mal, também. Trabalhava rodeada de negros e estudava rodeada de negras, e pelo que podia ver, tinham mais ou menos o mesmo nível de vida que eu tinha, vestiam o que eu vestia, comiam o que eu comia, a única diferênça era a cor da pele.
Nunca ninguém cá contou o que passou a quem estava em Angola, depois o 25 de Abril, até à hora de conseguir lugar num avião, ou num barco, para voltar ao nosso querido Portugal. Eu, não tive grandes problemas em arranjar lugar num avião assim como para toda a minha família, eu trabalhava ligada com as companhias de navegação, quer marítima quer via aéria, foi com facilidade que compramos bilhetes, escolhemos a data de 9 de Agosto de 1975 para embarcar, e viemos num voo da Tap um 747 e saimos de lá ás 22 horas com destino a Lisboa . Mas o desfazer de projectos que tinha em mente para o futuro isso foi tudo gorado, para que sofri eu tanto. Mas chegada cá a verdade é que tinha a minha família desesperada á minha espera. Pior foi para aqueles que lá tinham nascido há gerações e gerações, que só por serem brancos tiveram de perder tudo e vir para um país que lhe era estranho e hostil. Foram de lá corridos sobre a pena de serem mortos se não o fizessem. Quando cá chegaram foram maltratados e intitulados de “retornados”, exploradores de pretos. Não houve forma mais cruel de tratar os espoliados, expulsos da sua terra natal por serem brancos, indesejados na metrópole por serem retornados . Quem era rico lá, conseguiu não deixar muita coisa e passar para a África do Sul ou Brasil e outros países vizinhos, mas quem vivia do seu salário, sem posses para fugir, suportou toda a malvadez de vingança que se lá passou . Os senhores do capital trouxeram para cá milhões em ouro e diamantes e cá continuaram com as suas fortunas, mas o povo, como sempre, foi o sofredor. Os senhores do 25 de Abril condenaram um povo que, por opção dos seus antepassados, vivia naquela terra. Não houve condescendência ou tolerância, apenas vingança e mais vingança contra todos os que tinham a pele branca. Continua...
http://avidadesofia.blogspot.com/
quarta-feira, 23 de fevereiro de 2011
Os Retornados do ex-Ultramar na valorização da sociedade portuguesa
Um artigo que encontrei na net
ANTÓNIO PIRES
Uma das ideias feitas que ainda hoje subsiste no nosso País, é a de que os «retornados do Ultramar» constituíam uma legião de indivíduos que vieram agravar de várias formas o já de si deplorável estado da sociedade portuguesa à data da Descolonização.
Sociedade que estava sofrendo o inevitável depauperamento causado pela emigração maciça dos seus braços mais válidos em busca de melhores condições de vida, sangria que começara muito antes das chamadas «guerra colonial» e que esta veio inevitavelmente acentuar.
Disse-se, escreveu-se, e ficou gravado no entendimento comum dos portugueses, que a maioria dos retornados era uma legião de pessoas rudes, na maioria já de idades avançadas, que tinham queimado as suas energias pelas terras de África, pouco produtivas para a tarefa da reconstrução nacional, e sobretudo escassamente preparados do ponto de vista profissional.
A ideia geral que se fazia — e intencionalmente se propalou!... acerca dos retornados do ex-Ultramar, era a de uma maioria de rudes capatazes agrícolas, broncos e violentos, de astutos comerciantes do mato, e de uns tantos «endinheirados» que exploravam negócios altamente chorudos!
Acontece que os sucessivos contingentes que os aviões despejavam diariamente no Aeroporto de Lisboa, nos dois ou três meses que se seguiram ao êxodo maciço dos portugueses de Angola e de Moçambique, bem como as imagens fotográficas ou da Televisão, davam uma aparência de realidade a tão deploráveis e errados juízos.
São hoje suficientemente conhecidas as deploráveis condições em que os retornados de Angola e Moçambique regressaram a Portugal - nove em cada dez, apenas com as roupas que tinham vestidas no momento do embarque, por não terem tido tempo nem possibilidade de voltar aos lares de onde tinham sido expulsos a ferro e fogo para salvar as vidas.
Todavia, serenada a tempestade ou calamidade que se abateu sobre os retornados do Ultramar, acalmadas as inevitáveis paixões políticas e serenados os juízos precipitados — as estatísticas encarregaram-se de rectificar as asneiras insidiosas e intencionais, e de dar ao País um retrato real dos retornados, sob mais diversos aspectos.
Paralelamente, as manipulações da opinião pública foram cessando, e estudiosos atentos e imparciais debruçaram-se sobre a realidade - e os retornados do ex-Ultramar surgem aos olhos da opinião pública e dos seus concidadãos em geral, como aquilo que na realidade são.
Para esboçar esse retrato do retornado socorremo-nos de um valioso e insuspeito estudo realizado por um grupo de universitários, prefaciado por uma brilhante Secretária de Estado de um dos Governos pós 25 de Abril, editado pelo Instituto de Estudos para o Desenvolvimento, para neste momento e neste local, traçarmos um RETRATO DE CORPO INTEIRO dos retornados, e da sua contribuição para a revitalização da sociedade portuguesa.
*
O apuramento realizado pelo Instituto Nacional de Estatística em 1978, citado pelo referido grupo de universitários no estudo que consultámos, referia a existência de 505.078 indivíduos entrados no País e inscritos como «retornados do Ultramar». Em termos percentuais esses 505 mil retornados representavam pouco mais de 5% do total da população nacional.
Este número é discutível e muitas fontes insistem em números mais elevados, entre 700 a 800 mil. Mas trata-se de números oficiais, registados pela estatística oficial, e é em presença deles que temos de raciocinar.
Ora, segundo os números do Instituto Nacional de Estatística, daqueles 505.078 retornados, um pouco mais de metade - exactamente 298.968 - eram nascidos ou oriundos de Portugal, e portanto os restantes 206.110 eram portugueses já nascidos nas então províncias ultramarinas.
Por enquanto trata-se apenas de distinguir entre portugueses oriundos de Portugal que regressavam ao país de origem, e portugueses nascidos noutras terras e aos quais, só por isso, parecia querer negar-se a qualidade de portugueses também...
Porém, o que é realmente importante, e mostra insofismavelmente que os retornados vieram rejuvenescer a sociedade portuguesa, é a observação desses dados estatísticos quando entra na discriminação etária, cultural e profissional dos retornados. Assim, sob tais aspectos, verifica-se que: daqueles 505.078 retornados, 65,5% tinham menos de 40 anos e constituíam portanto uma parcela válida. Mas acima dos 40 e até aos 64 anos a percentagem de retornados era de 29,8% - todos sabem como no Ultramar os homens até aos 60 anos eram uma das parcelas mais válidas das populações, senão em energias físicas pelo menos em saber e experiência acumulada.
Além disso, do total de retornados, 52,74% eram homens e apenas 47,26% mulheres — o que pressupõe uma maioria de braços válidos para o trabalho.
Porém, um dos aspectos mais importantes desta notação estatística, é aquele que refere que a população retornada era em regra profissional e intelectualmente mais bem preparada do que a da metrópole, pois que do recenseamento efectuado, resultava que: 48,4% tinha instrução primária (numa época em que na metrópole havia mais de 20% de analfabetos); e dos restantes 51,6%, descontando apenas 6,5% de não-alfabetizados constituídos quase exclusivamente por crianças com menos de 10 anos de idade, havia 8,5% de possuidores de cursos superiores incluindo médicos, professores universitários, investigadores, advogados, etc., e mais de 30% possuíam cursos médios, secundários e profissionais.
Com a entrada dos retornados, a sociedade portuguesa foi subitamente enriquecida com mais de 5.000 mil engenheiros, arquitectos e técnicos dos mais elevados graus e ramos da engenharia civil e de minas, de industrias transformadoras e outras; cerca de 1.800 biólogos, agrónomos, investigadores dos ramos fisico-químicos e similares; quase 13.000 professores e outros docentes de todos os ramos do ensino, desde o primário ao universitário; 325 navegadores, pilotos e outro pessoal especializado da navegação aérea e marítima; cerca de 16.000 quadros de serviços administrativos e outros, desde estenógrafas a operadores de informática.
No sector da produção, a força do trabalho metropolitana foi enriquecida com mais 13.000 mecânicos especializados; cerca de 7.000 serralheiros civis, montadores de estruturas metálicas, caldeireiros e profissões similares.
A construção civil, cuja maior força de trabalho tinha emigrado para os países da Europa, foi enriquecida com 13.000 pedreiros, carpinteiros e outros profissionais dos mais diversos ramos.
As indústrias transformadoras foram enriquecidas com mais 12.000 operários especializados, desde os ramos têxtil ao da alimentação e bebidas, da mecânica fina ao mobiliário.
O sector dos transportes viu-se repentinamente valorizado com a entrada de mais 13.000 condutores de veículos pesados e de transportes públicos.
No sector agro-pecuário surgiram mais 16.000 capatazes e condutores de trabalhos agrícolas, de maneio e tratamento de gados ou de exploração florestal, em escalas que, em muitos casos, não eram conhecidas neste país.
Mas vieram ainda cerca de dez mil trabalhadores dos ramos de hotelaria, restaurantes e similares, cozinheiros, ecónomos e outros.
Porém, e talvez mais importante ainda que as suas especializações profissionais, os retornados trouxeram à força de trabalho do País a contribuição valiosíssima da disciplina, da produtividade, da assiduidade, que rapidamente os distinguiram (e não raro os tornaram detestados...) num ambiente em que apenas se falava de postos de trabalho... mas não se trabalhava; em que o absentismo ascendeu a taxas inconcebíveis, em que os locais de trabalho se transformaram em centros de organização de manifestações a propósito de tudo e de nada.
Cremos que estes números, extraídos de fontes absolutamente insuspeitas, serão suficientes para desfazer certas ideias que, infelizmente, ainda de tempos a tempos afloram em certos meios e em determinadas ocasiões, acerca dos Retornados do ex-Ultramar.
Na realidade, e a despeito das desgraçadas condições em que se desenrolou o seu regresso à Pátria de origem ou de opção - o fluxo dos retornados constituiu na realidade um indiscutível e precioso factor de valorização da sociedade portuguesa, em praticamente todos os sectores da vida nacional.
Quando dos meus textos sobre a diferença de mentalidades e diferença de instrução entre Luso-Angolanos e Metropolitanos fui desmentido e contestado. Estaria enganado?
Ruca
ANTÓNIO PIRES
Uma das ideias feitas que ainda hoje subsiste no nosso País, é a de que os «retornados do Ultramar» constituíam uma legião de indivíduos que vieram agravar de várias formas o já de si deplorável estado da sociedade portuguesa à data da Descolonização.
Sociedade que estava sofrendo o inevitável depauperamento causado pela emigração maciça dos seus braços mais válidos em busca de melhores condições de vida, sangria que começara muito antes das chamadas «guerra colonial» e que esta veio inevitavelmente acentuar.
Disse-se, escreveu-se, e ficou gravado no entendimento comum dos portugueses, que a maioria dos retornados era uma legião de pessoas rudes, na maioria já de idades avançadas, que tinham queimado as suas energias pelas terras de África, pouco produtivas para a tarefa da reconstrução nacional, e sobretudo escassamente preparados do ponto de vista profissional.
A ideia geral que se fazia — e intencionalmente se propalou!... acerca dos retornados do ex-Ultramar, era a de uma maioria de rudes capatazes agrícolas, broncos e violentos, de astutos comerciantes do mato, e de uns tantos «endinheirados» que exploravam negócios altamente chorudos!
Acontece que os sucessivos contingentes que os aviões despejavam diariamente no Aeroporto de Lisboa, nos dois ou três meses que se seguiram ao êxodo maciço dos portugueses de Angola e de Moçambique, bem como as imagens fotográficas ou da Televisão, davam uma aparência de realidade a tão deploráveis e errados juízos.
São hoje suficientemente conhecidas as deploráveis condições em que os retornados de Angola e Moçambique regressaram a Portugal - nove em cada dez, apenas com as roupas que tinham vestidas no momento do embarque, por não terem tido tempo nem possibilidade de voltar aos lares de onde tinham sido expulsos a ferro e fogo para salvar as vidas.
Todavia, serenada a tempestade ou calamidade que se abateu sobre os retornados do Ultramar, acalmadas as inevitáveis paixões políticas e serenados os juízos precipitados — as estatísticas encarregaram-se de rectificar as asneiras insidiosas e intencionais, e de dar ao País um retrato real dos retornados, sob mais diversos aspectos.
Paralelamente, as manipulações da opinião pública foram cessando, e estudiosos atentos e imparciais debruçaram-se sobre a realidade - e os retornados do ex-Ultramar surgem aos olhos da opinião pública e dos seus concidadãos em geral, como aquilo que na realidade são.
Para esboçar esse retrato do retornado socorremo-nos de um valioso e insuspeito estudo realizado por um grupo de universitários, prefaciado por uma brilhante Secretária de Estado de um dos Governos pós 25 de Abril, editado pelo Instituto de Estudos para o Desenvolvimento, para neste momento e neste local, traçarmos um RETRATO DE CORPO INTEIRO dos retornados, e da sua contribuição para a revitalização da sociedade portuguesa.
*
O apuramento realizado pelo Instituto Nacional de Estatística em 1978, citado pelo referido grupo de universitários no estudo que consultámos, referia a existência de 505.078 indivíduos entrados no País e inscritos como «retornados do Ultramar». Em termos percentuais esses 505 mil retornados representavam pouco mais de 5% do total da população nacional.
Este número é discutível e muitas fontes insistem em números mais elevados, entre 700 a 800 mil. Mas trata-se de números oficiais, registados pela estatística oficial, e é em presença deles que temos de raciocinar.
Ora, segundo os números do Instituto Nacional de Estatística, daqueles 505.078 retornados, um pouco mais de metade - exactamente 298.968 - eram nascidos ou oriundos de Portugal, e portanto os restantes 206.110 eram portugueses já nascidos nas então províncias ultramarinas.
Por enquanto trata-se apenas de distinguir entre portugueses oriundos de Portugal que regressavam ao país de origem, e portugueses nascidos noutras terras e aos quais, só por isso, parecia querer negar-se a qualidade de portugueses também...
Porém, o que é realmente importante, e mostra insofismavelmente que os retornados vieram rejuvenescer a sociedade portuguesa, é a observação desses dados estatísticos quando entra na discriminação etária, cultural e profissional dos retornados. Assim, sob tais aspectos, verifica-se que: daqueles 505.078 retornados, 65,5% tinham menos de 40 anos e constituíam portanto uma parcela válida. Mas acima dos 40 e até aos 64 anos a percentagem de retornados era de 29,8% - todos sabem como no Ultramar os homens até aos 60 anos eram uma das parcelas mais válidas das populações, senão em energias físicas pelo menos em saber e experiência acumulada.
Além disso, do total de retornados, 52,74% eram homens e apenas 47,26% mulheres — o que pressupõe uma maioria de braços válidos para o trabalho.
Porém, um dos aspectos mais importantes desta notação estatística, é aquele que refere que a população retornada era em regra profissional e intelectualmente mais bem preparada do que a da metrópole, pois que do recenseamento efectuado, resultava que: 48,4% tinha instrução primária (numa época em que na metrópole havia mais de 20% de analfabetos); e dos restantes 51,6%, descontando apenas 6,5% de não-alfabetizados constituídos quase exclusivamente por crianças com menos de 10 anos de idade, havia 8,5% de possuidores de cursos superiores incluindo médicos, professores universitários, investigadores, advogados, etc., e mais de 30% possuíam cursos médios, secundários e profissionais.
Com a entrada dos retornados, a sociedade portuguesa foi subitamente enriquecida com mais de 5.000 mil engenheiros, arquitectos e técnicos dos mais elevados graus e ramos da engenharia civil e de minas, de industrias transformadoras e outras; cerca de 1.800 biólogos, agrónomos, investigadores dos ramos fisico-químicos e similares; quase 13.000 professores e outros docentes de todos os ramos do ensino, desde o primário ao universitário; 325 navegadores, pilotos e outro pessoal especializado da navegação aérea e marítima; cerca de 16.000 quadros de serviços administrativos e outros, desde estenógrafas a operadores de informática.
No sector da produção, a força do trabalho metropolitana foi enriquecida com mais 13.000 mecânicos especializados; cerca de 7.000 serralheiros civis, montadores de estruturas metálicas, caldeireiros e profissões similares.
A construção civil, cuja maior força de trabalho tinha emigrado para os países da Europa, foi enriquecida com 13.000 pedreiros, carpinteiros e outros profissionais dos mais diversos ramos.
As indústrias transformadoras foram enriquecidas com mais 12.000 operários especializados, desde os ramos têxtil ao da alimentação e bebidas, da mecânica fina ao mobiliário.
O sector dos transportes viu-se repentinamente valorizado com a entrada de mais 13.000 condutores de veículos pesados e de transportes públicos.
No sector agro-pecuário surgiram mais 16.000 capatazes e condutores de trabalhos agrícolas, de maneio e tratamento de gados ou de exploração florestal, em escalas que, em muitos casos, não eram conhecidas neste país.
Mas vieram ainda cerca de dez mil trabalhadores dos ramos de hotelaria, restaurantes e similares, cozinheiros, ecónomos e outros.
Porém, e talvez mais importante ainda que as suas especializações profissionais, os retornados trouxeram à força de trabalho do País a contribuição valiosíssima da disciplina, da produtividade, da assiduidade, que rapidamente os distinguiram (e não raro os tornaram detestados...) num ambiente em que apenas se falava de postos de trabalho... mas não se trabalhava; em que o absentismo ascendeu a taxas inconcebíveis, em que os locais de trabalho se transformaram em centros de organização de manifestações a propósito de tudo e de nada.
Cremos que estes números, extraídos de fontes absolutamente insuspeitas, serão suficientes para desfazer certas ideias que, infelizmente, ainda de tempos a tempos afloram em certos meios e em determinadas ocasiões, acerca dos Retornados do ex-Ultramar.
Na realidade, e a despeito das desgraçadas condições em que se desenrolou o seu regresso à Pátria de origem ou de opção - o fluxo dos retornados constituiu na realidade um indiscutível e precioso factor de valorização da sociedade portuguesa, em praticamente todos os sectores da vida nacional.
Quando dos meus textos sobre a diferença de mentalidades e diferença de instrução entre Luso-Angolanos e Metropolitanos fui desmentido e contestado. Estaria enganado?
Ruca
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