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sexta-feira, 20 de abril de 2012

«FUGI DE ANGOLA PELO DESERTO»

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Eusébio Francisco Gomes tornou-se, em 1975, num dos protagonistas daquela que foi uma das mais míticas fugas à guerra civil angolana. Ao todo, demorou mais de um mês para percorrer cerca de mil quilómetros – sempre sob a égide da fome, da sede, do frio e do calor. Viveu na Costa da Caparica e reside hoje em Évora. Mas, embora se sinta mais português do que muitos, garante que voltaria a Angola “nem que fosse para varrer ruas”. Eis a história de uma autêntica odisseia.
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«VOLTEI DE ANGOLA NUMA TRAINEIRA»


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No dia em que devia embarcar no navio Uíge, fugido às perseguições aos brancos de Luanda, Florindo Bota mudou de ideias: pegou no seu pequeno barco de pesca e voltou a Portugal pelos próprios meios. Passou 33 dias no mar, dos quais 31 em rota, lutando contra os temporais e a iliteracia. Foi pescador até ao fim – e até quase ao fim trabalhou na mesma traineira que trouxe de África. E, quando se tratou de comprar uma nova embarcação, deu-lhe o mesmo nome: “Marlene” – o nome do barco que lhe dera a liberdade e o sustento.
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domingo, 15 de abril de 2012

A integração dos “retornados” no interior de Portugal: o caso do distrito da Guarda

A integração dos “retornados” no interior de Portugal: o caso do distrito da Guarda
OLIVEIRA, Nelson Clemente Santos Dias
Mestre em Sociologia
ESE Instituto Politécnico da Guarda
nelsonoliveira@ipg.pt

Resumo
Em 1975, com o epílogo do Império Colonial, chegaram a Portugal cerca de meio milhão de indivíduos
que ficaram conhecidos como “retornados” do ultramar. O posterior processo de integração que se pode contextualizar em fenómenos populacionais semelhantes, decorrentes das descolonizações
protagonizadas pelas outras potências coloniais europeias, no nosso país, teve a particularidade de ter sido ultrapassado com maior rapidez. Uma das explicações para a agilidade com que estes indivíduos foram assimilados pelo tecido socioeconómico reside, precisamente, na distribuição deste numeroso contingente de pessoas por todo o território nacional. Justificação que, à primeira vista, parece paradoxal. Isto porque as regiões do interior do país, neste período, acumulavam factores repulsivos. Assumindo que para o interior terão rumado, essencialmente, aqueles que aí tinham raízes, neste trabalho pretende-se reflectir as incidências do processo de integração destas pessoas no distrito da Guarda, partindo da justificação e sentido que (três décadas depois) deram às suas acções.

Para lêr o TEXTO INTEGRAL, clicar AQUI

Recordações dos velhos tempos : a prof. Edviges, e seus alunos na Escola da Calenga em Angola, 1946

Calenga, 1946 - Homenagem dos alunos da Calenga à Professora Edviges

Recordações dos velhos tempos

In Mazungue

Encontrámos esta foto datada de 1946  neste forum e tomámos a liberdade de a tranportar para aqui, pelo significado  especial que possa ter para algum dos visitantes deste blog. Trata-se  como refere a pessoa que a publicou, de uma homenagem à professora Edviges ( no circlo amarelo, era esposa de Alexandre dos Santos) que aqui vemos rodeada de seus alunos na Calenga,  antes de se fixar em Nova Lisboa.  D. Edviges completara em 2009, data em que esta foto foi pubicada in Mazungue, 100 anos da sua exietência, uma existência lúcida e plena força de vontade. Fica a notícia e a foto a quem , retornado da Calenga ou do Huambo, a queira aproveitar

terça-feira, 6 de setembro de 2011

Descolonização: frases que ficaram...

«Isto é selva e na selva só sobrevive a lei do mais forte e, por isso, não vale a pena estarmos para aqui com fantasias e cada um procurará armar-se o mais possível; até no campo político o sucesso depende muito do factor força».

Do almirante Rosa Coutinho, presidente da Junta Governativa de Angola em 1974 citado pelo general Silva Cardoso no seu livro “Angola Anatomia de uma Tragédia”.






«Acabaram-se os sonhos. Agora só nos restam as pataniscas e as rabanadas».

De um “retornado” ao desembarcar no fervilhante aeroporto de Lisboa, fugido de Angola, no Verão de 1975.

domingo, 14 de agosto de 2011

Encruzilhadas históricas: reunir experiência e gerar convicções, entrevista à escritora Aida Gomes 1

 


Aida Gomes nasceu em Lundimbale, no Huambo em1967, onde passou a infância. Mais tarde Portugal e Holanda foram a sua casa, com experiências nas áreas de desenvolvimento em países como Camboja, Moçambique, Suriname, Libéria, Sudão e Guiné-Bissau, onde mora actualmente. É socióloga de formação e tem publicado em revistas e jornais. Lança, hoje, no encontro Correntes d’Escrita, em Portugal (dia 24 de Fevereiro), o seu primeiro livro: Os Pretos de Pousaflores pela Leya. Fala-nos sobre identidade, as ambiguidades das organizações não governamentais e da construção do Estado-nação em Africa e ainda sobre os impasses da Guiné Bissau.

Qual é a tua expectativa em relação a este primeiro livro?

Que comunique algo que seja vida na miríade de maneiras de ver, sentir, provar e pensar o que se lê. Embora tenha escrito Os Pretos de Pousaflores tendo em mente o cenário social de Portugal dos anos setenta, oitenta até ao começo dos anos noventa (exclusão social, contrastes acentuados entre rural-urbano, preto-branco, homem-mulher), a expectativa é de que, na leitura, as seis personagens angolanas e portuguesas se tornem reconhecíveis nas suas fraquezas, lugares-comuns, esperanças e medos. Entre elas há mal-entendidos e dores de parte a parte, como sempre houve e haverá entre seres humanos. Alegrias também. Que tenha conseguido através da literatura, na forma como a linguagem nos permite expressar sentimentos e emoções, criar uma visão sobre como Angola e Portugal se tocaram através de vidas imaginadas.

De que forma o livro bebe da tua história de vida e em que contexto quiseste trabalhar a narrativa?

Aristóteles definia a arte como a exteriorização de uma ideia à semelhança da vida humana; mas a Arte, era a seu ver, mais do que uma cópia da vida ou da natureza. A arte era a tentativa de criar um ideal da natureza e da vida, corrigindo-se-lhe as deficiências. Os Pretos de Pousaflores procura dar voz aos diferentes membros de uma família vinda de Angola entre 1976 e 1978 para uma aldeia fictícia de nome Pousaflores. Um pai solteiro e três filhos. A reacção da irmã, uma portuguesa beata à chegada de “pretos” na aldeia; a perspectiva do irmão, um português “cafrializado”; a perspectiva de uma mulher angolana que perdeu uma filha e os enteados; e finalmente, o olhar de três jovens produtos de encruzilhadas históricas. Mais do que uma história pessoal, Os Pretos de Pousaflores procura ser um retrato social ficcionado de um período que coincide com o fim do regime fascista em Portugal, o processo de descolonização e a vinda para Portugal de milhares de “retornados” das ex-colónias portuguesas. Os primeiros anos depois do 25 de Abril são difíceis do ponto de vista de transição política e socioeconómica. Portugal tinha de reajustar-se e reinventar-se a si mesmo, inclusive a sua relação com África e os africanos; e vice-versa.

Como tratas o “drama” vs sucesso dos retornados?

Do período que o livro retrata existe o mito que os chamados “retornados” foram uma história de sucesso porque trouxeram de África a dinâmica empreendedora, uma visão mais esclarecida, etc. No entanto, esta narrativa de sucesso apenas coincide com um grupo selecto, maioritariamente branco, de classe média, educação superior que tanto podia ser bem sucedida em Portugal, como no Brasil, Angola ou noutro lugar qualquer. Uma parte significativa dos “retornados” não foram histórias de sucesso: havia-os portugueses (brancos) e africanos de origens culturais e raciais miscigenadas. Foram as franjas menos bonitas da sociedade portuguesa. Nas cidades “coloriram” os bairros degradados e nas zonas rurais viveram a melancolia e o esquecimento dos mal-amados, sentimento de uma dor ou talvez um sono d’África, que perdura tal como a memória de D. Sebastião.

Sentes Angola como tua terra? O que é pertencer a algum lado?

Angola é onde está enterrado o meu cordão umbilical. É o riso e o humor quase cáustico de auto-flagelação. No definir da palavra “identidade”, penso que sou parte de uma diáspora angolana. Diáspora é um conceito moderno fascinante porque é paradoxal, pertença sem ser pertença. Um espaço imaginado, o reconhecimento de ser parte de uma comunidade que, distanciada de um solo, reconhece os sabores (Calulu), os sons (tanta música!), o gozar e finalmente as paisagens: os verdes do Huambo a Benguela são a minha paz, não as trocava pela serenidade dos lagos da Suíça. Todos temos um lugar de origem onde a nossa alma descansa. Nem que seja um lugar imaginário. Nos anos noventa queria tanto voltar para Angola e não podia por causa da guerra (lembro-me vividamente daquele sentimento de esperar pela paz, de canções a falar de uma paz que nunca mais vinha.) Finalmente consegui ir trabalhar para Angola entre 2000 e 2003 - durante os últimos anos da guerra. Foi uma experiência muito mais penosa do que trabalhar em países como Sudão, Libéria ou Guiné-Bissau, também eles marcados por conflitos e violência. Há quem diga que a guerra é uma forma de se fazer política, quando outros meios não funcionam. A maior vítima da guerra, diz-se, é a verdade. Tenho sempre consciente o enorme esforço que é construir-se um país de novo; nas casas novos tijolos, nas janelas vidros. Pergunto-me sobre as pessoas, se lhes basta também pintar de novo as paredes das casas. Na Holanda quem viveu a guerra ainda traz as marcas consigo; não consegue deitar comida fora porque passou fome, não consegue apagar de si a vulnerabilidade de ter sobrevivido (mesmo o ódio ao inimigo de então subsiste). Não sei até que ponto o facto de ter crescido fora de Angola, país onde questões políticas trouxeram uma guerra longa, afectou as minhas escolhas profissionais. Guerra, conflito e política foram os assuntos dominantes do meu trabalho.
 
fotografia de Marta Jorge

A experiência profissional aventurosa fez-te conhecer África e encontrares-te nela…

Enveredei por um percurso profissional que me levou a vários países africanos, e não só, todos eles envolvidos em conflitos. Um interesse genuíno em perceber a génese da construção do Estado-nação na sua variante africana, sabendo que os Estados africanos são identidades territoriais “delineadas” com uma régua na Conferência de Berlim e que os povos foram “aglomerados” e catalogados no processo de colonização. Na sua sabedoria, a União Africana (ainda na sua denominação Organização para a Unidade Africana (OUA)), e os líderes dos cinquenta e três Estados membros, decidiram que as fronteiras africanas eram sagradas. No entanto, no pós-independência poucos são os Estados que conseguiram criar entidades políticas e territoriais em que a maioria da população, ou mesmo metade, aufere o que a geração de Amílcar Cabral, Kwame Nkrumah e outros projectaram para África: auto-suficiência em termos económicos e políticos onde a população teria acesso a educação, empregos e estabilidade sócio-política. O mínimo necessário de dignidade humana que lhes foi negado durante séculos de colonização.


Quais são, na tua opinião, as principais adversidades para África?

Os problemas acumulam-se. Hoje, a maioria das populações africanas auferem de uma educação e serviços de saúde medíocres, enquanto que as elites têm ao seu dispor as melhores universidades, centros de saúde e hospitais nas capitais dos países mais avançados. Como contornar o facto de que o Estado africano representa frequentemente interesses de grupo, sejam estes de acordo com linhas étnicas, ou pseudo-políticas? O Estado africano preocupa-se predominantemente em estabelecer e consolidar redes nacionais de grupos e linhagens com ramificações económicas, militares, diplomáticas internas e externas com base numa competição renhida entre si (o conflito, inevitavelmente) para a capitalização de bens, prestígio e influência. As relações entre os grupos são de dependência (nunca de interdependência salutar) ou então, a aniquilação mútua, a sucessão e legitimação do poder é sempre problemática. As relações sociais da sociedade colonial, baseadas numa extrema desigualdade, foram reconfiguradas e fortalecidas, existem novas elites e velhas dinâmicas de desigualdade. Como mudar? Se olharmos para a América latina, independente desde há século e meio, vemos que, após tanto sangue e revoluções, temos, a par de crescimento económico, políticas sociais de desenvolvimento com maior equidade.

O continente africano atingiu recentemente a espantosa cifra de um bilhão de habitantes. Tem capital humano e económico suficiente para que não demore um século e meio a elevar-se e a sair da subserviência e desenvolvimento socioeconómico glutónico.

fotografia de Marta Jorgefotografia de Marta Jorge

fotografia de Marta Jorge
Sentes que as instituições internacionais multi-laterais, com as quais colaboras, têm contribuído realmente para uma melhoria da vida das populações?

A questão do desenvolvimento, em termos de realidade sociopolítica e histórica, tem várias vertentes, desde a geopolítica que determina interesses económicos estratégicos, a aspectos sociopolíticos, nos quais se insere a vertente humanitária ou de direitos humanos. É um mundo de paradigmas, de lutas de hegemonia e funciona tal qual o mundo: cinicamente ou com as melhores das intenções. No contexto profissional, estive ligada à cooperação multi-lateral em questões de paz e segurança mundial. Um emaranhado complexo. Nos anos noventa e mais recentemente, intervenções multi-laterais desastrosas para Estados e populações na Somália, Haiti, Ruanda ou Iraque. Esse era o pano de fundo para “as lições aprendidas” quando fui trabalhar na Libéria em 2004. Era necessário fazer-se melhor. Dag Hammarskjöld (1905-1961), o segundo Secretário Geral das Nações Unidas (de 1953 a 1961) dizia que a ONU não foi criada para criar o paraíso na terra; mas para que o planeta não se tornasse num inferno. Quando a Missão da ONU foi estabelecida em 2004 na Libéria, logo após a fuga de Charles Taylor, não havia praticamente ninguém no interior do país. Parte da população morrera ou tinha procurado refúgio nos países vizinhos, aterrorizados e fustigados por 16 anos de violência extrema. A Missão foi crucial na transição e na reposição da autoridade do Estado e na criação de um ambiente com o mínimo de estabilidade para que a população pudesse retomar as lavras e as escolas e tribunais no interior iniciassem as suas funções para as comunidades. Ao mesmo tempo que o período de transição era utilizado para a criação de mecanismos de controle do uso dos recursos naturais e reformar as estruturas do Estado. Hoje a Libéria é um país com uma governação política credível e legítima, onde foi eleita a primeira mulher como presidente no continente. Organismos internacionais multi-laterais contêm cada uma das vertentes de desenvolvimento e embora tenham vastos meios materiais e humanos ao seu dispor, o seu campo de actuação é frequentemente restringido pela necessidade de negociação de um grande leque de actores políticos estatais. Determinados lobbies podem levar uma causa para a frente ou fragilizá-la. Um campo de visão e de actuação mundial é diferente de uma organização não-governamental com menor capacidade de mobilização de meios materiais e humanos, mas que terá maior autonomia para definir o seu método e campo de actuação para melhorar a vida, por exemplo dos camponeses de aldeias no leste do Níger.

Como deveria funcionar a cooperação, sem se substituir aos deveres e competências dos Estados?

Estou cada vez mais convencida do que a cooperação deveria ser apenas um empurrão e não um soro permanente, que distorce mecanismos internos. Não penso que existam hierarquias ou consensos sobre a melhor forma de actuação na área de desenvolvimento: se a partir de projectos locais de pequena escala ou a partir do apoio ao nível macro na estruturação do Estado de países em vias de desenvolvimento. Pode-se tentar ver a floresta como um todo, ou apenas uma árvore ou um conjunto de árvores. Mas a água da floresta tem de vir do seu próprio solo ou tem de cair do seu céu. Quando os interesses representados por organismos multi-laterais são consensuais e coincidem com os das elites locais em termos de compromisso político para uma melhor governação com vista a melhorar o estado da nação, a actuação de um organismo como a ONU pode ser instrumental no sentido de se atingirem objectivos positivos. Quando as elites locais estão divididas ou não comungam a mesma interpretação sobre o que é uma boa governação ou respeito pelos direitos humanos, a ONU pode ter grandes dificuldades na sua actuação.

Bissau, fotografia de Marta Lança Bissau, fotografia de Marta Lança
Bissau, fotografia de Marta Lança  
Bissau, fotografia de Marta Lança
A experiência de trabalho na Guiné-Bissau ajudou-te a entender a complexidade deste país, certamente. Qual é o ponto da situação do país?

A Guiné-Bissau é um país especial. O Estado entrou em queda livre depois do conflito de 1998-1999. A última década foi de crises cíclicas, as quais resultaram na degradação progressiva do funcionamento do aparelho estatal e das condições de vida das populações, o que também afectou espírito guineense. Muitos daqueles jovens africanos que se metem em pirogas no mar aberto para alcançarem a Europa, ou atravessam o deserto para que libertos do Norte de África alcancem essa miragem de destino melhor (e só ouvimos falar quando os seus corpos aparecem sem vida nas areias das praias norte do Mediterrâneo), muitos deles são guineenses. Na Guiné, tal como em muitos países africanos, os jovens têm poucas perspectivas. Há uma música de José Carlos Schwarz que faz referência aos primeiros anos depois da independência e descreve como as pessoas, por já não saberem qual o melhor caminho a seguir, voam pelas ruas tão leves como penas. Três décadas depois da independência, os jovens ainda continuam a querer voar para mais longe do que as ruas de Bissau. No entanto, começam a surgir sinais positivos; muitos jovens formados na Inglaterra, Estados Unidos, Portugal, etc., estão a regressar. Será necessário integrá-los.

No passado recente, com a agudização dos problemas, houve apelos para que a comunidade internacional não abandonasse o país. A contrapartida era que as autoridades nacionais assumissem o interesse maior da nação em beneficio da estabilidade do país para que a população possa finalmente conhecer algum progresso socioeconómico. Ultimamente, a nível bilateral, Angola tem-se sobressaído no seu apoio à Guiné-Bissau, apostando no desenvolvimento económico e reforma das forças armadas. O meu trabalho num organismo internacional multilateral tem sido mais na área política. No acompanhamento de processos democráticos e análise. O resultado é ambivalente. A herança de 30 anos de descapitalização em termos educacionais, dinâmicas sociopolíticas de implantação da impunidade, o alastramento do tráfico de drogas, a necessidade urgente de reestruturação do papel das forças armadas auguram um processo longo de consolidação do Estado na Guiné. O papel da comunidade internacional é sempre dependente do posicionamento dos vários interesses a nível internacional, regional e local, em que nem sempre se comungam os mesmos objectivos. Na Guiné-Bissau, com uma população relativamente pequena de 1.5 milhão, é possível que os esforços de organizações não-governamentais a nível local tenham um maior efeito em termos de beneficiar directamente as comunidades face às dificuldades do Estado em se afirmar. O mais positivo do meu dia na Guiné-Bissau é a generosidade, humildade e a bênção do sorriso guineense, apesar de tantos avanços e recuos.

O que é ser africano?

A definição de uma identidade pessoal pode ir mais além da imutabilidade estática de raça, origem e nacionalidade. Existe sempre um leque variado de escolhas e é essa a grandiosidade da nossa condição humana. Uma pequena história: “A Eritreia, país situado no Chifre de África foi invadido e colonizado pela Itália, processo durante o qual foi anexado temporariamente à Etiópia. Este país, por sua vez, é o único Estado africano que conseguiu manter a sua independência e, em 1950, a resolução da ONU 390(A), 1950 fixa a união da Eritreia com a Etiópia. Seguiram-se 30 longos e duros anos de uma guerra dura de secessão contra a Etiópia. A Eritreia consegue a sua independência em 1993. No ajuste de contas pós-independência, um soldado eritreu, cuja mãe era etíope e o pai eritreu, foi acusado pelas autoridades de ter uma lealdade duvidosa, porque mista; propensa à traição por afinidade com os etíopes, escapou da pena de morte por um triz, e foi enviado para uma das zonas mais áridas e pedregosas do território eritreu. O soldado lá ia passando os seus dias de desterro à procura de insectos e água nas concavidades das pedras. Perto de uma pedra, encontra um dia uma flor branca e amarela. Tão solitária como ele porque ali não havia vivalma. O soldado ajoelha-se, fascinado, perante a flor e comenta: eu sei o mal que lhes fiz, mas tu flor, que mal lhes fizeste para que te mandassem para aqui?”

Isto a propósito de identidades e das suas amarras, de políticas de lealdade, do acaso que nos faz nascer num sítio ou noutro, do facto de que identidades são pontos de referência com significados fixos, mas os sentidos estão sempre em transição como as emoções questionando “o que fazemos aqui?” Daí também o papel importante da literatura, filmes, teatro no exercício de introspecção de uma entidade de origem africana.por Marta Lança


LER AQUI PRÉ-PUBLICAÇÃO “OS PRETOS DE POUSAFLORES

sábado, 23 de julho de 2011

Repatriados - A geração de ouro dos retornados


MAIS FORTES QUE O DESTINO

A maioria chegou a Portugal com uma certeza: tinham de recomeçar a sua vida do zero. Chamavam-lhes retornados, nome ainda hoje pejorativo. Mas foram eles que acordaram um país dormente, com a alegria trazida de uma África onde começavam a cair tiros de morteiro.

Sempre que ela entrava com uma chávena de chá às tantas da madrugada na sala de reuniões, o fumo de tabaco parecia evaporar-se. O semblante carregado dos ministros que discutiam os destinos da jovem democracia transformava-se num enorme sorriso. “Você parece uma gazela. Ainda vai fazer cair o Governo”, gracejava o primeiro-ministro Mário Soares à exótica moçambicana de 20 anos. Quando passavam por ela nos corredores de São Bento, havia políticos que cantarolavam: ‘Gabrieeela!’. Os longos cabelos, a tez morena e a sua beleza felina faziam de Yolanda uma sósia perfeita de Sónia Braga – a actriz brasileira que brilhava na primeira novela transmitida em Portugal. “Tive sorte. Três anos depois de chegar a Portugal fui trabalhar para o I Governo Constitucional, em 1977. Era uma das secretárias de Soares”, conta.
Yolanda veio da Beira, Moçambique, para um tratamento cardíaco. Com os estilhaços da revolução acabou por ficar. “Havia manifestações por ‘dá cá aquela palha’, papéis por todo o lado, cartazes nas paredes e cuspia-se no chão. Passou-se do 8 para o 80 mas as pessoas pareciam felizes.”
Em São Bento, o ritmo não era menos acelerado. “Ficávamos à noite a dormitar nos corredores à espera de sermos acordadas para redigir um decreto-lei à máquina.” Era por isso que andava sempre acompanhada com uma providente escova de dentes. Yolanda acabaria por trocar a turbulência da política pelos flashes da 'passerelle' e hoje é uma empresária de sucesso. Pelo meio, foi considerada uma das mais elegantes mulheres do País. Mas por mais anos que passem, não consegue esquecer a imagem de dezenas de conterrâneos a descer as escadas dos Boeings do aeroporto da Portela, em 1975. “Foram recebidos com o calor de mantas e bebidas, mas a maioria deles sentia uma enorme insegurança porque tinham de recomeçar a sua vida do zero.”
Entre essa massa anónima de pessoas de destino incerto encontrava-se Ribeiro Cristóvão, a sua mulher e os três filhos menores. “Mantive-me em Angola quase até à independência. Acreditava que apesar das alterações radicais haveria lugar para todos. Enganei-me.” No final de 1975, abandona o seu emprego na cervejeira Cuca (que ainda hoje existe) e a sua casa em Nova Lisboa. “Fui obrigado a viajar para Portugal, espoliado de todos os meus haveres”, desabafa em tom inconformado.
O homem do desporto da Rádio Renascença confessa que os primeiros três meses passados em Lisboa foram os mais difíceis da sua vida. E sem o abrigo na casa da sua irmã em Alcochete, a sua história estaria hoje pintada em tons ainda mais negros. “Recordo-me de calcorrear a cidade à procura de emprego, sem sorte nenhuma. Estava desesperado.”
No primeiro Natal na capital, Ribeiro Cristóvão afundou-se numa tristeza profunda. Ali estava ele, rodeado com a sua família mas com a árvore despida de presentes. “Não tinha nada para dar aos meus filhos.” O rótulo de retornado teimava em fechar-lhe portas. “Havia má vontade entre os portugueses da metrópole que tinham medo que lhes roubássemos os empregos. Andei com este ferrete durante anos.” Um dia, porém, o habitual ‘não’ deu lugar a um surpreendente ‘sim’. A Rádio Renascença abria-lhe portas ao admirável mundo novo do jornalismo.

FUGIR DE TIROS DE MORTEIROS
“Os 500 mil retornados, que representavam 5 por cento da população portuguesa, foram o maior fenómeno de repatriamento da Europa do pós-guerra”, conclui o sociólogo Rui Pena Pires, também ele repatriado de Angola. Dos que regressaram, 33 por cento veio de Moçambique e 61 por cento de Angola.
“Grande parte destas pessoas, que emigraram de Portugal para África nos anos 60, tinham qualificações bastante elevadas.” Pena Pires dá um exemplo: enquanto a taxa de analfabetos era de 30 por cento na metrópole, entre os retornados não ultrapassava os 2 por cento.
“Entre 1974 e 1975, as ex-colónias viram-se desprovidas de quadros administrativos e técnicos qualificados, que foram o motor do desenvolvimento desses países. E Portugal tinha de absorver toda esta gente”, defende o docente. Mas o facto do país atravessar uma convulsão social, veio acabar por facilitar a sua integração. “Chegaram a uma sociedade maleável em termos de hierarquias. Tudo estava em aberto. Em 1976, já havia presidentes de Câmara provenientes das ex-colónias, algo que não aconteceu noutros países da Europa.” Segundo o professor do ISCTE, que publicou um trabalho sobre os retornados, o repatriamento de Angola foi mais célere devido ao clima de guerra civil, bastante pior do que em Moçambique.
Dados que conferem com o relato pormenorizado de Emídio Rangel, jornalista nascido em Lubango em 1946 e uma das vozes da Rádio Comercial de Angola. “A probabilidade de sobreviver ao tiroteio de morteiros, canhões e outras armas de grande calibre dos exércitos do MPLA e UNITA, era baixa. Ainda por cima estava desarmado.”
O risco era enorme mas Rangel não tinha outra saída. Em apenas 48 horas conseguiu fugir de Luanda, sem um beliscão. “Só tinha a roupa que vestia.” A 1 de Setembro de 1975 estava numa Lisboa diferente daquela que já conhecia de outras épocas. “A cidade de conspirações de Marcelo Caetano transformara-se na capital de golpes, contra-golpes e intervenções militares.”
Emídio Rangel não perdeu tempo a contemplar o ambiente de efervescência política. Em dois dias, já vendia enciclopédias para poder ganhar a vida. “Eram em inglês, o que não as tornava muito populares”, ironiza. A sua missão em espalhar cultura porta a porta não durou muito tempo. Meses depois, ficava em segundo lugar num concurso público para a RDP – Radiodifusão Portuguesa. A TSF e a SIC seriam as suas próximas estações.

'MALTA, EU VENHO PARA A PORRADA!'
Lídia Jorge aventurou-se por terras de África antes de 1974. A escritora, natural de Boliqueime, decidiu dar aulas no ensino secundário aos jovens de Moçambique em plena guerra civil. O seu faro apurado detectou logo à chegada um grande mal-estar naquela sociedade que parecia viver à beira do abismo. “Havia algo de trágico e de errado. Tinha a sensação de que bastaria atear-se qualquer coisa para haver uma mudança radical.”
Mudança a que já não assistiu porque teve de abandonar o país em Agosto de 1974. “Por mim, podia ter feito a vida em África”, suspira. Em pleno PREC, assistiu a episódios caricatos, como o de professores ensinarem palavrões aos alunos. “Durante o 11 de Março de 1975, uma colega minha do liceu D. João de Castro, vestida de ‘jeans’ e casaco de cabedal, irrompeu entre os estudantes aos berros: ‘Malta, eu venho para a porrada!’”
Lídia Jorge ainda se recorda com nostalgia da anarquia e alegria extraordinárias. “O aumento da liberdade trouxe consigo a libertinagem.” Corria-se para o cinema para ver filmes pornográficos, antes proibidos pela censura, vestia-se de forma desportiva quando a ocasião era de cerimónia. “As casas de pronto-a-vestir tiveram o seu grande período de crise porque era quase regra aparecer-se pouco arranjado.”
Que o diga Augustus, criador de alta-costura, que aterrou em Lisboa em 1976, proveniente de Luanda, onde vivia e tinha uma das suas lojas de roupa. “Nesse período, a moda era considerado algo de fútil.” Viviam-se os tempos dos intelectuais da revolução, que se vestiam todos de igual, fossem homens ou mulheres: camisolas de gola alta, botas alentejanas e as inseparáveis calças de ganga.
Apesar de vigorar a moda unissexo, António Augusto Ferreira, decidiu arriscar e abrir um ‘atelier’ na capital portuguesa. E não se arrependeu. “A vida social em Lisboa era menos agitada: não havia almoçaradas com amigos, idas à praia ou à discoteca, como em Angola.”
Como trouxera três carros da ex-colónia, não tinha espaço para todos na garagem, na sua casa da Lapa. Resultado: diariamente os vidros do seu vistoso Chevrolet Camaro, eram pintados com a palavra ‘fascista’. Só muito mais tarde é que descobriu o autor das palavras de ordem: “Era apenas um rapaz que andava no liceu. Divertia-se com aquilo ”

DO DESEMPREGO PARA O GOVERNO
Quando a autodeterminação das colónias parecia um facto consumado, Manuel Antunes foi um dos 30 mil portugueses que preferiu rumar para sul e não para a metrópole. O director do Serviço de Cirurgia Cardiotorácica dos Hospitais da Universidade de Coimbra vivia em Moçambique desde 1954, altura da primeira vaga de emigrantes. “Na escola primária, o meu colega de carteira era negro. E não sentia qualquer tipo de racismo”, lembra o médico, que se insurge contra as mentiras que se têm dito (e escrito) sobre a dita mentalidade colonial dos portugueses. “Nós é que acabámos por ser prejudicados no processo de descolonização.”
A sua família teve de deixar para trás propriedades, moradias e um negócio próspero de construção civil. Em troca? Uma mão cheia de nada. Até 1988, preferiu ficar em África do Sul, onde praticava medicina e só então veio para Coimbra, onde tem desenvolvido uma intensa actividade científica. “Não sobrou nada. Nem o espírito de entreajuda típico dos que viviam em Moçambique. As pessoas acabaram por se dispersar pelas aldeias onde tinham família. Quem não tinha meios ficava em pensões e hotéis em Lisboa.”
António Cardoso e Cunha, nascido em Leiria em 1934, não tem a mesma opinião do médico coimbrão. “A rede de solidariedade entre os retornados foi flagrante, notória e permanente.” Em Angola, o gestor era já uma pessoa influente – como presidente da Câmara de Comércio e membro da Assembleia Legislativa. E nas vésperas da manifestação da ‘Maioria Silenciosa’ (o 28 de Setembro) chegou mesmo a vir a Lisboa com uma delegação de políticos angolanos para reunir com o general Spínola. Eram os anos quentes da transição. “Durante a minha vida em Angola vim regularmente à capital pelo que acompanhei as evoluções da vida nacional”, declara o ex-comissário da Expo’98.
Em 1977, juntou-se ao grupo de repatriados e fixou-se em Portugal. “Mantive actividade pessoal na medida das oportunidades, limitadas pela conjuntura económica. Contudo não perdi a experiência e as capacidades empresariais que desenvolvi em Angola.” Um ano depois, o actual ‘chairman’ da TAP era já nomeado secretário de Estado do Comércio Externo, depois da crise governamental do executivo de Nobre da Costa: “Exemplo curioso da turbulência da época – passei de desempregado a membro do Governo.” Cardoso e Cunha não foi caso isolado. Outros portugueses das ex-colónias haviam de se destacar nos executivos que se seguiram. No jornalismo, na gestão ou na advocacia, os quentes ventos de África também se fizeram sentir. Homens como Vítor Ramalho, Alexandre Relvas, Jorge Armindo, David Borges ou Victor Sá Machado conseguiram fintar o destino. Talvez um dia sejam conhecidos como a geração de ouro dos repatriados.

ANTÓNIO FEIO - REGRESSO ÀS ORIGENS
“Onde é que eu estava no 25 de Abril? Bem, a tentar embarcar no avião para Lisboa.” António Feio, então com 20 anos, vinha de uma 'tournée' com o grupo de Teatro Experimental de Cascais e estava com os colegas em Lourenço Marques. “Percebemos logo que algo de errado se passava na metrópole.” O actor acabou por ser obrigado a ficar mais um mês na sua terra natal, de onde saíra aos sete anos. Durante a juventude viveu sempre com um pé em Lisboa e outro em Lourenço Marques. “Tinha a noção de duas realidades distintas.” Em África, o estilo de vida dos portugueses era mais descontraído. “É tudo muito grande.” António Feio recorda-se de fazer 1200 quilómetros de carro só para jantar com os amigos, com toda a naturalidade. Na capital alfacinha, tudo era mais cáustico e violento, principalmente durante os anos do PREC. “Foi uma época conturbada para o bem e para o mal.” Depois dessa viagem atribulada em 1974, só voltaria a pisar Lourenço Marques quase vinte anos depois. “Não tive desilusões. Já me tinham pintado um cenário demasiado negro.” Do passado guarda uma fotografia a preto-e-branco com uma irmã de Maria Rueff. “Os pais da Maria tomavam conta de um hotel, onde a minha família viveu durante um certo período.”
Hugo Franco


CORREIO DA MANHÃ -2004-04-25

quinta-feira, 21 de julho de 2011

Poema: ao Bengo (nome de uma traineira)


Bengo,
nome de uma traineira:
partimos do Lobito,
naquela manhã
de sobressaltos e guerra,
rumaste Luanda,
Las Palmas
e Lagos,
teu local da morte
e de sepultamento.
Salvaste nossas vidas...
É verdade!...
E agora?
Vejo-te
baloiçando,
velho,
alquebrado,
esperando a execução
da sentença de morte!
A tua proa
já não cruza
Lobito e Moçâmedes,
como as brancas gaivotas
que,
por ironia,
ainda voam,
procurando refúgio,
no seio dos teus
desventrados beliches.
Agora,
por capricho dos homens,
aguardas as chamas
que hão-de te devorar,
transformando-te
em cinza,
pó e nada...
É assim o teu.Destino,
de todos nós...
Adeus Bengo,
traineira da minha vida!...

Malaquias,
Algarve, ano 1976
Fonte: Romagem de saudade

quarta-feira, 6 de abril de 2011

REQUIEM NOS CAIS DE LISBOA!

Foto de Alfredo da Cunha

Desde Belém ao Beato,
Descarregados de botes,
Empilham-se ao desbarato
Muitos milhares de caixotes.
Numa larga, extensa linha,
Ocupam lados e centro
Do cais; mas não se adivinha
O que contêm lá dentro.
— O que será? — perguntei
A dois ou três empregados.
Respondeu um: — P`lo que sei,
É tudo dos retornados.
Exclamei: - Senhor! Senhor!
(E comecei aos pinotes)
Tanta coisa de valor
Metida à força em caixotes!
Onde estão, que descaminho
Levaram (sabe-se lá!)
As estátuas de Mouzinho
E de Correia de Sá?
Quantas camas, quanto berço
Transformado num caixão?
E não há quem reze o terço,
Quem murmure uma oração?...
Desceu a noite. No escuro,
Perguntei, sem ver mais nada:
— E qual será o futuro
Dessa gente atraiçoada?...
Sem consultar um oráculo,
Eu contemplei, indignado,
O pavoroso espectáculo
Dum império encaixotado.

Poema de, António Lopes Ribeiro
In «Resistência», nº 128, 15.06.1976, pág. 6.

terça-feira, 5 de abril de 2011

Da angústia da chegada ao sucesso da integração

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por
LUÍS MIGUEL VIANA 14 Agosto 2005
Vivem-se vidas inteiras sem conhecer o desespero. Mas esse sentimento rude, amargo, foi partilhado em 1975 por centenas de milhares de portugueses em Angola sobretudo, em Moçambique, na Guiné (até em Cabo Verde, São Tomé e Príncipe e Timor), cidades inteiras de pessoas felizes, prósperas, esperançosas, com uma absurda confiança no futuro, viram-se de repente sem vida social, sem emprego, sem casa, com o dinheiro congelado nos bancos e um terrível sentimento de perigo em relação às suas vidas e às da sua família.
O desespero tem espinhos, alguns aguçados, e os seus bicos empurram as pessoas para o abismo. Em 30 de Junho, em Luanda, um grupo de 2500 residentes em Angola anunciou que, não conseguindo obter passagens aéreas ou marítimas para Lisboa, tencionava fazer a viagem até Portugal por via rodoviária, atravessando oito mil quilómetros de países africanos no sentido sul-norte ao longo de 90 dias. A caravana motorizada esteve organizada para ser constituída por 200 camiões e 500 automóveis particulares, sendo os suprimentos destinados a 15 camiões-frigoríficos com capacidade para transportar 30 toneladas de alimentos cada um. Alguns veículos foram transformados em oficinas móveis para fazer face à inclemência do trajecto e um dos organizadores, Guilherme dos Santos, fez contactos formais com a Cruz Vermelha Internacional e com a Comissão das Nações Unidas para os Refugiados para, na medida do possível, ajudarem essa travessia das selvas, savanas e desertos do continente africano.
Acabaram por não avançar para esse louco caminho para a morte. Mais a sul, porém, houve trainei- ras a largar de Porto Alexandre, cheias de gente, em direcção a Portugal, onde chegaram, com muita sorte, sem males de maior. Outros barcos de pesca artesanais cruzaram o Atlântico para despejarem no Brasil "retornados" que, afinal, não retornaram a Portugal. E quase todos os que puderam escaparam por terra em direcção à África do Sul, e a outros países limítrofes, em alguns casos viajando com máquinas de obras públicas que iam aplainando os acidentes do caminho.
"O que dominou o primeiro tempo da chegada foi uma grande confusão na cabeça das pessoas", recorda Rui Pena Pires, sociólogo das migrações e, também ele, retornado de África (ver texto ao lado). "Mais do que a revolta, as pessoas tentavam perceber como é que se poderiam instalar em Portugal. A fase da revolta veio depois". Na quantidade tremenda de gente que desaguou em Portugal aconteceu de tudo. Uma pequena minoria tinha acautelado o seu património e preparado o seu regresso a Portugal. Outra minoria - precisamente aquela que mais tinha a perder com a independência das colónias uma vez que perdera os laços com a metrópole - nunca acreditou no pior desfecho, não preparou coisa nenhuma e veio sem nada, absolutamente nada para além da roupa que trouxe no corpo. A larga maioria, essa, conseguiu trazer alguma coisa, pouca, mas suficiente para o espectáculo dos caixotes que inundou o cais e o aeroporto de Lisboa,
Jovens, portugueses. Com a descolonização, em 1975, abre-se em Portugal o ciclo da imigração, não só com o repatriamento de meio milhão de portugueses radicados nas colónias, mas também com o início de uma migração africana que, ao contrário do repatriamento, teve continuidade até aos dias de hoje. Do número de retornados recenseados pelo INE em 1981 61% são oriundos de Angola, 34% de Moçambique e apenas 5% das restantes colónias. Quase dois terços desses retornados nasceram em Portugal (63%), embora esta proporção se inverta nas camadas mais jovens - 75% dos menores de 20 anos eram naturais das colónias.  Cont...

quarta-feira, 23 de fevereiro de 2011

Descolonização de Angola: a Odisseia dos espoliados

O DIA DA PARTIDA

24 de Setembro de 1974. Consegui mandar para o Lobito o meu carro e alguns caixotes com os nossos parcos haveres de valor sentimental e os meus livros, reunidos na nossa vida de trabalho, para serem embarcados para Portugal. Encarregou-se do transporte um camionista mestiço de Nova Lisboa que não quis ir para Portugal porque não tinha lá ninguém.

O ponto de reunião de alguns gabelenses e meus irmãos que estavam na FIL, era a minha casa, para tomarem banho de água quente. Os meus pais estavam comigo, bem como a minha irmã, a cassula da família.

Três dias antes fora levá-los ao aeroporto para apanharem a ponte aérea. Fiquei com uma carrinha Peugeout de um gabelense que também frequentava a minha casa e levei-os também para o aeroporto.

Era cada vez mais difícil passar pelas barreiras da UNITA que, famintos, mandavam parar toda a gente para "roubar" qualquer coisa, nem que fossem só cigarros. Os meus conhecidos do FNLA que, talvez por eu ser natural do Zaire, me protegiam por solidariedade valeram-me muitas vezes contra aqueles energúmenos da UNITA que eram racistas, diga-se o que se disser. Eles é que semearam o medo nos portugueses, pelas ameaças constantes, invasão das casas e barreiras em todos os locais de Nova Lisboa. As situações, por vezes, eram altamente perigosas. O campo de execuções era no Sacaála.

E o exército português, para agravar ainda mais, é que fomentava a nossa fuga "porque não se responsabilizava com o que nos pudesse acontecer".

A "facção Chipenda" é que prestou assinalável serviço de protecção aos portugueses apesar de ter por lá alguns elementos, de última hora, brancos portugueses, que criaram alguns conflitos com outros portugueses. Eram mais papistas do que o papa. Mas também vieram cá parar

Chegou o dia de embarcarmos. Depois do almoço (Tivemos carne até ao último dia e acabamos com a garrafeira do meu irmão Néné), dirigi-me para o aeroporto com as nossas maletas na traseira da carrinha. Consegui passar sem incidentes, mas no aeroporto os populares atropelavam-se para descarregar a carrinha e quando dei por mim já não sabia das maletas. O que vale é que eles queriam apenas uma gorjeta por transportá-las até o barracão onde estavam amontoados os refugiados à espera de transporte para longe daquele pesadelo. A carrinha ficou abandonada na rua. Alguém ficou com ela.

Colchões espalhados pelo chão, muito sujo, pois ninguém se preocupava em limpar, centenas de pessoas à espera, as casas de banho, noutro edifício ao lado, cheias de dejectos, papel e água a correr pelo chão. Estava tudo entupido e os refugiados é que tinham de as desentupir se quisessem ter um pouco de higiene.

Crianças a chorar, algumas de fome, pois a espera era longa para os que foram antes de serem chamados. Tumultos à porta quando a UNITA queria impedir alguém de embarcar, principalmente negros e algumas mestiças que cobiçavam, sobre o olhar dos nossos militares (que por vezes esboçavam umas arremetidas "moles"contra os guerrilheiros) todos desalinhados, fralda de fora, barba por fazer, sem boina na cabeça.

O que valeu a muita gente foi a acção da FLNA que afastava os da UNITA.

Tratei das formalidades e por azar calhou-me um avião da TAP, os "burocratas". Só podia levar 30 quilos e a mala mais pesada que transportava os meus apontamentos, livros técnicos, manuais, relatórios e provas de âmbito profissional que me iriam ajudar em Portugal, tiveram que ficar à espera de uma vaga noutro avião.

Enquanto que nos outros aviões estrangeiros, mandavam entrar todo o mundo com a bagagem que traziam e mandavam parar a um dado momento, na TAP era tudo lentamente e com burocracia e sem um sorriso ou mostra de simpatia por parte dos profissionais daquela companhia. Vim a saber que os aviões têm um dispositivo que vai pesando a carga e quando chegava ao limite seguro o comandante mandava parar. Simples e rápido.

Sentia-me num mundo irreal. Não me saía da cabeça aquelas filas enormes, onduladas, de gente cabisbaixa, olhar receoso, silenciosa, a caminharem pastoreadas pelos controladores para o bojo do avião. Impressionou-me a visão do meu pai, um homem de 1,85 m, com 120 Kg, uma força da natureza, com os ombros caídos a olhar para trás como que a despedir-se da terra que nunca quis abandonar.

Chegou a minha vez.


A CHEGADA A PORTUGAL

25 de Setembro de 1975. Chegamos a Lisboa ao amanhecer. Procurar as malas e carregá-las para um canto. Enquanto a minha mulher e filha ficaram a tomar conta da bagagem fui tratar das formalidades. Entregas de guias, senhas para refeições no aeroporto e câmbio de dinheiro para as nossas primeiras necessidades. Só cinco mil escudos por pessoa, a um câmbio impossível de descrever.

O aeroporto cheio de gente amontoada em grupos familiares, caixas, malas, sacos, mantas, etc, muitos deitados pelo chão com o cheiro característico, abafado, de tanta gente a respirar em espaço fechado.

Ao fim de muitas voltas, sempre sem parar, só pelas 23h00 é que nos meteram numa camioneta coberta com uma lona e bancos de correr de madeira, e nos levaram para a Costa da Caparica, uma pequena pensão, de nome "Colibri", já cheia de retornados e onde não havia lugar para todos. Enquanto esperávamos entabulei uma conversação com a dona da pensão, uma arquitecta muito educada, que simpatizou connosco e por não haver lugares disponíveis dispensou-nos uma moradia particular, dela, perto dali.

A providência veio novamente a nosso favor. Era um apartamento com duas divisões e uma casa de banho só para nós.

Ao levantarmo-nos no dia seguinte de manhã, um dia lindo, sol radioso, espreito para a rua e não noto diferença nenhuma de Angola, ou seja, as ruas com areia da praia e, surpresa, pretos a varrerem a rua e a circularem. Parecia estar em Novo Redondo. Só um pouco depois é que entrei na realidade. Já estava em Portugal.

Até meados de Outubro andei praticamente sempre a caminho do aeroporto, à procura da tal mala que ficou, e por sorte chegou cá noutro avião. A pensão era agradável, boa comida, cozinheira e pessoal de serviço todos negros cabo-verdeanos e o ambiente até nem era mau, não fossem as crianças endiabradas que fizeram alguns estragos na decoração das paredes e corrimões das escadas. As paredes do salão tinham frescos de árvores com a folhagem pelo tecto e conchas decorativas, que foram arrancadas até à altura a que as crianças chegavam. Os corrimões, estilo antigo, com dourados e franjas nos forros de veludo, bem como os tapetes e alcatifas, também não resistiram.

A pensão distribuia senhas de ida e volta, por conta do IARN, de transportes públicos para irmos a Lisboa.

Tornava-se difícil procurar um modo de vida, um emprego, porque o tempo era totalmente gasto nas deslocações e nas filas de espera para tratar do assunto mais simples ou para pedir uma informação.

O pior eram as filas na Junqueira, onde estava o IARN, para tratar dos assuntos referentes à estadia. Entrávamos na fila às seis ou sete da manhã e só conseguíamos ser atendidos lá para o meio da tarde. O que valia eram os vendedores ambulantes que providenciavam umas sandes e uma bebida para aguentarmos aquela canseira.

A situação na função pública estava longe de se resolver, pois eu era assalariado e os assalariados ainda não eram considerados funcionários públicos pelo Quadro Geral de Adidos, apesar de terem aceite a inscrição de todos os assalariados em Angola. Burocracias.

Resolvemos deixar a pensão e sair daquele inferno quase diário para conseguir autorização para ir continuando na pensão, para organizarmos a nossa vida o mais depressa possível.

Portugal recebeu imensas ajudas para os "retornados" e acho que teria sido mais útil dar um subsídio substancial a cada um para iniciarem nova vida, do que manterem aquela burocracia sem controlo em que muitos encheram os bolsos e outros nada receberam. Enquanto os mais espertos enriqueceram com a desgraça de todos, e outros permaneceram indefinidamente nos hotéis e pensões pagos pelo IARN sem iniciativa para organizarem a sua vida, a grande maioria foi à luta e venceu.

Eu resolvi ir à vida.

Chegamos à Beira Alta em 18 de Outubro de 1975, sempre a cair uma chuva miudinha e a preparar-se um Inverno rigoroso. Nunca tive tanto frio na minha vida. Ficamos na casa dos meus sogros que tinham vindo mais cedo para Portugal. O meu sogro era reformado dos CFB.

Eu, com 29 anos de idade, com mulher e filha, tinha de começar tudo do ponto zero, pois tudo o que tínhamos ficou em Angola. Ainda consegui embarcar, por um intermédio de um amigo camionista que transportou os caixotes e o meu carro para o Lobito, os meus livros e alguma loiça e roupa em três malas de porão. O carro ficou por lá. Os caixotes chegaram bem. Fui despachá-los na gare ferroviária de Alcântara para a Beira Alta. Por precaução envolvi as malas de porão com cintas metálicas. Mas isso despertou a cobiça dos portugueses que detestavam os retornados. As malas chegaram ao destino todas rebentadas, sem as cintas e as tampas fora dos gonzos e os pratos e copos todos partidos. Quer dizer: as malas aguentaram perfeitamente o embarque no Lobito e viagem de barco e descarga em Lisboa, em péssimas condições, como devem saber. Ali, no porto de Lisboa, largavam os caixotes dos retornados muito antes de chegarem ao solo para se estilhaçarem com o embate no solo. Pois, os meus chegaram bem. Assisti à carga das malas na carruagem do comboio e se chegaram todas rebentadas à Guarda é porque alguém as arrombou pelo caminho e como não havia nada de valor partiram tudo.

Ia periodicamente a Lisboa, ao IARN, mandavam-me para o QGA e ia ao QGA que me mandavam para o IARN. Valeu-me uma assistente social (do IARN) que compreendeu a situação e me foi assegurando o subsídio que davam aos retornados trimestralmente, porque se desse de frente com outro qualquer funcionário do IARN já não tinha a mesma sorte. Mandavam-me para o Adidos. Era o Portugal daquele tempo. Mantinha também os contactos com os colegas e técnicos superiores da Chianga que já estavam colocados, na maioria, na Estação Agronómica de Oeiras e procuravam montar mais algumas estruturas de apoio, contando com os profissionais desocupados. Portanto a minha situação mantinha-se suspensa.

Enquanto esperava que o governo decidisse que os funcionários assalariados ingressassem no QGA (e acabassem com aquela situação equívoca em que andávamos dos IARN para o QGA e vice-versa, sem ninguém querer responsabilizar-se pela distribuição da ajuda a que tínhamos direito, como todos os retornados e muitos não retornados que passaram por retornados para receberem essa ajuda) completei um ensaio filosófico que escrevi em Nova Lisboa, cuja edição achei demasiado incompleta, e acabei o Curso de Psicologia. Fui a Lisboa fazer o exame final e o seminário (aulas práticas em dois dias) para receber o respectivo Diploma e, consequentemente, poder optar por outra via profissional se necessário. Ainda fui Delegado do Centro Médico de Psicologia e Orientação Profissional de Lisboa, mas naquele tempo a Psicologia não rendia o suficiente, nem o país estava habituado a recorrer a exames psicotécnicos e de orientação profissional.

Fiz alguns exames de Orientação Profissional a particulares, para praticar (género estágio assistido) sempre com o apoio e interpretação final do Centro Médico, até ser lançado por conta própria, mas essa actividade não era nada rentável neste país tão atrasado na altura. Também entrei em contacto com a prática da agricultura, pois de Novembro de 1975 a Setembro de 1976 não me furtei a ajudar na lida do campo, desde a apanha da azeitona, seu retalho para consumo interno e acompanhamento no lagar ao fazer o azeite até à vindima e feitura do primeiro vinho e aguardente com a minha ajuda directa. O corte da lenha para a lareira ficou inteiramente por minha conta. Fiquei exímio no machado, cunha e marreta, pois não dispunha de serras eléctricas ou motorizadas. Era tudo à "unha". Além disso, como o meu sogro era o Presidente da Junta de Freguesia, ajudei-o no expediente. Como tinha máquina de escrever, todos os documentos passaram a ser dactilografados e com um aspecto mais "burocrático" e funcional.

Só ao fim de oito meses, ainda sem terem resolvido a situação dos funcionários assalariados, é que, por intermédio do Sindicato dos Profissionais de Artes Gráficas, onde me inscrevi quando estive em Lisboa, consegui emprego à experiência.

Consegui emprego como Oficial Montador de Offset numa empresa Gráfica de Lisboa, à experiência por uma semana, para exercer as funções do antigo Chefe de Secção que estava agora a trabalhar no Sindicato.

Como era necessário experiência numa profissão qualquer para conseguir emprego, precisava de conseguir, muito rapidamente, a Carteira Profissional de Artes Gráficas, documento necessário para progredir na profissão e conseguir emprego no país. Funcionário público não dava condições para conseguir emprego na actividade particular. Tinha de ter uma profissão concreta. Mediante as provas apresentadas, certificado de habilitações literárias e requisição de uma empresa de Artes Gráficas para exercer funções como Oficial Montador de Offset, foi-me facultada a referida Carteira Profissional.

Ao fim da semana de experiência fiquei com contrato a seis meses. Depois de dois meses ofereceram-me o lugar de Chefe da Secção de Fotolito e Montagem, que eu neguei. O ambiente revolucionário naquele tempo, 1976, não era propício para assumir aquele lugar de grande responsabilidade sem poder nenhum, nem autonomia.

Ao fim de quatro meses fui chamado à administração e informaram-me que ficaria no Quadro definitivo da empresa e ofereceram-me o lugar de Director Técnico, tendo em conta o meu curriculum, que tinha apresentado, as habilitações académicas e a postura que observaram no meu comportamento profissional e social. Naquele tempo, era raro encontrar um profissional de artes gráficas com o antigo 7º ano dos Liceus e um Curso técnico de psicologia. Normalmente eram profissionais que aprenderam observando os operários mais antigos, e só com a antiga quarta classe como habilitações.

O problema, de início, foi encontrar um local para viver. Graças a um familiar da minha mulher, emprestaram-nos uma casa até eu conseguir arranjar habitação. O dono dessa casa, fê-lo por consideração a esse familiar da minha mulher que tinha, e tem, uma alta posição na sociedade portuguesa, mas, talvez por desconfiança e medo que desviássemos alguma coisa, apareciam de improviso e a qualquer hora do dia apenas para dar "uma vista de olhos".

Era difícil conseguir casa (havia casas vagas) e só o consegui porque quem passou a contactar os possíveis senhorios passou a ser a secretária da direcção onde eu prestava serviço e a alugou, em meu nome, com o aval da administração que serviu como fiador.

Mais tarde, o procurador da vivenda (o senhorio é um emigrante), numa conversa connosco, vangloriava-se que tinha feito uma selecção muito rigorosa na escolha dos inquilinos, impedindo, principalmente, o aluguer a "retornados".

Mal sabia ele que eu era um retornado. Mais tarde disse-lho na cara, mas não se desmanchou.

Essa Litografia, onde trabalhei, pertencia a uma holding que, além de uma empresa de material industrial pesado geria mais cinco empresas, todas de Artes gráficas, sendo uma especializada em impressão em chapa e quatro em papel, duas no Porto, uma em Setúbal, uma em Santa Iria de Azóia e uma em Lisboa.

Só esta Litografia tinha cerca de 40 operários distribuídos pelas três Secções principais, Fotolito, Impressão e Acabamentos, mais cerca de 20 empregados distribuídos pela portaria, secretaria, armazéns, cozinha e refeitório, limpeza e vendedores. Ficariam todos sob a minha alçada directa, bem como os orçamentos e estabelecimento dos preços dos trabalhos a executar.

A Administração (a da holding, que tinha a sede precisamente na Litografia onde eu prestava serviço) providenciava apenas os recursos que eu solicitasse para a produção.

Como era um cargo executivo e com autonomia suficiente para desenvolver algum trabalho meu, com ideias minhas e coordenação livre de intromissões, aceitei o lugar.

Para terem uma ideia das dificuldades daquele tempo. Aquela empresa, quando foi o 25 de Abril entrou em grandes convulsões e os operários mais politizados, resolveram "correr" com a administração e ficaram a funcionar em colectivo. Resultado: não conseguiram ganhar para os ordenados e afundavam-se cada vez mais, sem ninguém com capacidade para a gerir. Quando "descobriram" que a política não era uma forma de sustento, pois tinham família para sustentar e contas para pagar, acabaram por "aceitar" o regresso dos patrões, pois é mais cómodo chegar ao fim do mês e receber um ordenado sem terem responsabilidades. O problema, agora, eram as dívidas acumuladas. E como seria de prever, a administração não estava nada interessada em sustentar parasitas que tempos atrás os puseram na rua, havendo sempre aquele clima de desconfiança por um lado e de vingança pelo outro, estando eu no meio do "fogo cruzado".

Portanto, a recomendação que recebi logo no primeiro dia na Direcção foi que teríamos de produzir para pagar as despesas fixas e ordenados, porque senão corríamos o risco de ter que fechar as portas. Quanto às dívidas antigas, era problema deles (dentro da holding até calhava bem ter uma empresa deficitária. Os economistas sabem porquê). E assim foi. Enquanto lá estive ganhamos para esse objectivo.

Mas a Comissão de Trabalhadores foi sempre um espinho que não deixava introduzir algumas melhorias nos métodos de trabalho, pois estavam sempre de pé atrás e não havia aquele à vontade e confiança a que estávamos habituados em Angola.

Nem quero contar aqui os problemas, o stress constante, as dores de cabeça e costas, e tudo o mais porque passei com aquele "peso" encima. Nunca, na minha vida julguei encontrar pessoas daquele calibre e tão pouco amigos de trabalhar. Tinha de me impôr pelo conhecimento técnico e prático das coisas, mostrando, sem sombra de dúvidas, que sabia executar o trabalho que lhes estava a exigir. Se assim não fosse, surgiam toda a espécie de motivos e desculpas para a não execução, em tempo, de qualquer encomenda.

Queriam um "emprego" e não "trabalho". Eu era um "retornado", aquele "intruso" que caiu ali de pára-quedas e para mais a "mandar". Encontrei-me no meio do fogo cruzado entre empregados e administração. Por cada ordem de serviço que emitia, tinha a Comissão de Trabalhadores no meu gabinete a protestar, pois não conseguiam compreender que, para terem o salário ao fim do mês, tínhamos de ter o mínimo de disciplina laboral e trabalharmos. Nunca me esqueci que, apesar de deter um lugar de direcção, era um empregado como eles e procurei sempre defender os nossos direitos. Não podíamos estar constantemente em reuniões políticas que a nada levavam. Mas levei o barco a bom porto.

Depois de me despedir, a Administração ainda me propôs continuar com uma avença, indo lá apenas uma hora ao fim do dia para fazer os orçamentos e dar assistência técnica.

Aceitei por um ano apenas, pois surgiram outras oportunidades mais tentadoras e menos setressantes, apesar de tudo.

Soube, depois, que o Director técnico que me substituíu, mais exigente e mais burocrata e amigo de puxar pelos "galões", acabou por ser agredido na secção de impressão.

Há uma grande diferença entre o Chefe e o líder. O Chefe manda fazer, o Líder mostra como se faz.
Depois de ingressar novamente na Função Pública, por me terem indeferido o pedido de continuar a trabalhar na actividade privada enquanto aguardava colocação, fui chamado apressadamente para vários serviços. Devido ao Curso de Psicologia, e componente de Psicopedagogia, já no meu Curriculum, ainda fui chamado para um reformatório em Caxias em que um técnico de Artes Gráficas com as minhas habilitações e conhecimentos psicopedagógicos seriam o ideal para o ensino profissional naquele reformatório. Só que queriam trabalho especializado a ser remunerado pela categoria de operário que me "impuseram" no QGA, em que me baixaram cinco letras e, como seria lógico, não aceitei, assim como não aceitei outra colocação no Ministério da Educação que, na altura, estavam a formar equipas de psicologia encabeçadas por licenciados, auxiliados por técnicos de psicologia, como era o meu caso, mas a ser remunerado pela categoria que me atribuíram no QGA e não pelo trabalho que iria executar.

Enquanto não fosse reclassificado para uma carreira adequada às minhas habilitações e valia profissional recusei trabalhar naquelas condições.

Se os funcionários oriundos do ultramar tinham uma dada carreira, porque razão não os mantiveram na mesma categoria de origem (ou equiparada, se não houvesse tal categoria nos quadros do continente) mas atribuíam-lhes sim outra normalmente com letra mais baixa?

A confusão era tanta que muitos baixaram de categoria (e de letra consequentemente), mas continuaram a ganhar pela letra de origem, o que os prejudicou mais tarde quando foram feitas subidas de escalão nas categorias. Como ganhavam pela letra de origem, todos os funcionários de categoria inferior, ao serem beneficiados com a subida de letra, ficaram equiparados a eles, o que na prática só os prejudicou porque deveriam também subir o seu escalão remuneratório e isso não aconteceu. Ficaram pura e simplesmente "congelados" naquela posição até que a categoria que lhes foi atribuída chegou a ter a mesma remuneração da sua letra de origem. Uma autêntica vigarice.

Finalmente fui requisitado para a nova Direcção-Geral de Extensão Rural, que não existia em Portugal, sendo a experiência da Missão de Extensão Rural de Angola aproveitada para incrementar em Portugal a mesma filosofia. E os quadros e profissionais de Angola foram captados para aquele projecto, eu incluído para erguer o parque gráfico, ferramenta indispensável da Direcção de Serviços de Informação Agrária. Como era conhecido e antigo colaborador do recém-nomeado Director-Geral e confiando que seria reclassificado, aceitei o lugar.

Como sucedeu com a maioria dos funcionários "retornados", fui altamente prejudicado na minha carreira, em termos monetários e promoções, em que só ao fim de dez anos fui reclassificado para uma carreira técnica em função das habilitações e cargo exercido. A partir daí a progressão até foi rápida, mas com as mudanças recentes que o Estado português introduziu, numa clara má fé e desrespeito pelos contratos que fez com os seus funcionários, tirando-lhes as regalias que tornaram mais atraente o ingresso de profissionais na função pública, vi-me (com 42 anos de serviço, contando o serviço militar a dobrar) na necessidade de pedir a aposentação numa altura que ainda teria muito para dar, só para não ser mais penalizado do que fui.

Quando larguei a actividade particular, onde gozava de uma boa posição de chefia e possibilidades de singrar em qualquer das empresas daquela holding (que ainda laboram hoje), para ingressar novamente na função pública, indo ganhar menos, era porque as condições que o Estado Português, como entidade empregadora, oferecia para o futuro eram melhores, só que nunca pensei que esse mesmo Estado, ao fim de 25 anos, mudasse unilateralmente por completo essas condições contratadas, sem o mínimo de respeito e consideração.

Quer dizer: O Estado ofereceu determinadas condições de carreira para admitir empregados e quando esses empregados estão à beira da reforma, veio dizer-lhes "agora as condições oferecidas foram suprimidas. Vocês vão-se reformar com muito menos do que lhes prometemos, bem como já não terão as outras regalias e incentivos prometidos".

Estes empregados, estando eu incluído, nada puderam fazer a não ser aceitar passivamente esta imposição de força, porque se passou uma vida de trabalho e não há hipóteses de mudar ou iniciar por outro lado.

O Estado governado por estes novos políticos portugueses mostrou não ser uma pessoa de bem.




Ruca

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NOTA – Este fio pretende deixar um documento singelo, agrupando todos os textos de interesse para se ter uma ideia aproximada do que foi o pós 25 de Abril e a verdadeira odisseia dos portugueses em fuga e toda a sua luta para começarem tudo de novo neste país que, no princípio, os recebeu como verdadeiros malfeitores. Todos podem dar a sua comparticipação, sem revelar nomes comprometedores, ou entrar em pormenores demasiadamente íntimos, porque o que interessa é saber o que se passou e não os nomes dos locais exactos, das pessoas ou das entidades envolvidas.

sábado, 27 de novembro de 2010

O último Ano em Luanda de Tiago Rebelo


A minha sobrinha ofereceu-me este livro que tem a chancela da Editorial Presença. Interesso-me por tudo que se relaciona com África e em especial, por Angola, a minha Pátria.
Posso dizer-vos que o estou a "devorar", com um misto de saudade, angústia e ao mesmo tempo uma "raiva" incontrolada que muitas vezes se transforma em lágrimas nos olhos...
Mesmo assim, gostaria de partilhar e aconselhar-vos a leitura deste livro, onde Tiago Rebelo, tão bem, soube transmitir a angústia de todos nós, que nos anos 74/75 fomos abandonados pelo poder político vigente em Portugal...
Aqui vos deixo a sinopse do mesmo:
Em 1974, uma revolução em Lisboa apanha de surpresa centenas de milhares de portugueses que vivem em Angola. A partir desse dia inicia-se a derrocada imparável de uma sociedade inteira que, tal como um navio a afundar-se, está condenada à destruição e à ruína. Em escassos meses, trezentos mil portugueses são obrigados a largar tudo e a fugir, embarcando numa ponte aérea e marítima que marca o maior êxodo da história deste povo. Para trás ficam as suas casas, os carros e até os animais de estimação. Empresas, fábricas, comércio e fazendas são abandonados enquanto Luanda, a capital da jóia da coroa do império português, é abalada por uma guerra civil que alastra ao resto do território angolano. Três movimentos de libertação, cujos exércitos estavam derrotados a 25 de Abril de 1974, estão novamente activos e combatem entre eles pelo poder deixado vazio pelas Forças Armadas portuguesas. É neste cenário de total desorientação social e de insegurança generalizada que Nuno, um aventureiro que há anos atravessa os céus do sertão angolano no seu avião, Regina e o filho de ambos se movem, numa extraordinária luta para sobreviverem à violência diária, às perseguições políticas, às intrigas e traições que fazem de Luanda uma cidade desesperada. Esta é a história de coragem e abnegação de um casal surpreendido, tal como milhares de outros, num processo de degradação que se deve à recusa do Exército em defender os seus próprios compatriotas a favor de um movimento até há pouco inimigo, ao desinteresse dos políticos, à total incapacidade do governo de Lisboa para impor os termos de um acordo assinado no Alvor e constantemente violado em Angola e à intervenção militar das duas potências mundiais envolvidas numa guerra fria que é combatida por intermédio dos exércitos regionais.
Críticas de Imprensa:
«Um romance fácil de ler e em cujo ambiente é fácil entrar.»
Os Meus Livros

«...O Último Ano em Luanda, onde revela não só um perfeito conhecimento da época em que se desenrola a acção, como descreve com muita clareza um dos mais trágicos e mais silenciados processos da recente história portuguesa.»
«Jornalista e escritor, Tiago Rebelo nasceu em Lisboa há 43 anos. Dos dois aos 11, viveu em Angola, experiência que serviu de base ao mais recente livro, "O Último ano em Luanda", já em lugar cimeiro nas tabelas de vendas.»
Jornal Notícias

quarta-feira, 10 de novembro de 2010

A vida em Angola contada pela minha avó







Os meus tios e outras crianças de Angola.






Generosa Valente da Silva Almeida, a minha avó materna, nasceu, em 1941, em Vila Nova de Gaia. A minha avó foi para Angola, em 1960, com 19 anos de idade, onde conheceu o meu avô Manuel Almeida. Constituíram família e desta união nasceram três filhos, um deles é a minha mãe. A minha avó conta-nos que a vida em Angola era vivida com muitas dificuldades, mas em paz. Os meus avós viviam no interior de Angola, porque o meu avô era maquinista dos caminhos-de-ferro. Por vezes, os comboios paravam por falta de trabalho e o meu avô ficava muito tempo sem trabalhar. A minha avó era doméstica tratava da casa e dos filhos. Apesar de terem pouco dinheiro, davam sempre o melhor que podiam aos seus filhos.

O meu avô, com a farda de maquinista dos caminhos-de-ferro.


Quando se declarou a independência em Angola, a minha mãe era muito pequena. A minha avó veio para Portugal com os filhos, mas o meu avô ficou lá mais 9 meses, debaixo de guerra. Quando o meu avô voltou para perto da família, ninguém pensava que fosse mesmo verdade. Em Portugal, os retornados viviam com muita dificuldade, eram discriminados. O meu avô começou a trabalhar nas fazendas, muitas vezes queriam dar de comer aos seus filhos e não tinham, foi uma batalha muito dura, que todos tiveram de vencer. Quando os meus tios e a minha mãe eram um pouco mais velhos, entre os 12 e 14 anos de idade, tiveram que ir trabalhar para a vindima, para a apanha da azeitona e para o lagar.Ainda hoje a minha avó conta que, passados tantos anos, as pessoas que vieram de Angola para Portugal ainda são olhadas de lado pelas pessoas que naquela altura tinham algumas posses.Os meus avós já cá estão há 34 anos. Se o meu avô fosse vivo, fazia 80 anos, no 25 de Abril.
A minha avó e os meus tios, quando chegaram a Portugal

Mariana Pirona