terça-feira, 7 de fevereiro de 2012

A singular experiência dos portugueses na Angola colonial


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 Livro: O "colono simples" visto por um oficial na reserva
Bernardino Louro é o autor de "O Caçador de Brumas, por essa Vida Acima", o primeiro de uma trilogia em defesa do "colono simples"



  "Quando cheguei a Angola em principios de 1961 foi o deslumbramento: um novo mundo se abriu ante meus olhos. Para além da incerteza da guerra e todos os seus horrores encontrei a terra em plena pujança onde as pessoas eram encantadoras, solidárias e com elevado nível de vida. Bastava chegar para se fazerem amigos; amigos que nos receberam de braços abertos. Em Luanda, já uma belíssima cidade, sentia-se por toda a parte o cheiro do mar, o calor das gentes, a beleza escultural das mulheres angolanas, a vida muito barata e as pessoas muito generosas. Para exemplificar, a gasolina custava menos de três escudos o litro, por 2$50 comprava-se um cacho de bananas, comiam-se bifes e ovos estrelados ao pequeno almoço, a cerveja era baratíssima e nem era preciso dinheiro nos restaurantes e bares: passava-se um "vale" e ninguém ficava a dever.  Quando havia dinheiro pagavam-se as conta a trasadas e a vida seguia igual. Um alferes ganhava mais de seil mil escudos: um ordenadão! Esta regra, mantida entre os colonos durante anos, viria a acabar com a chegada maciça dos batalhões. Porém a minha maior surpresa foi a descoberta, vivida dia e noite, do que era o muceque. Tinhamos de patrulhar os diferentes bairros negros, sem luz e onde só havia água nos chafarizes públicos. Num emaranhado de ruas e cubatas encontramos gente sofrida, pacifica e simples, apavorada ante a onda crescente de racismo, que, como a mancha de óleo, se estendia oela cidade suburbana.. Com o passar do tempo as coisas foram acalmando e os rios de ódio secaram. Nos contactos do dia a dia, nas muitas noites passados juntos, estabeleceu-se a convivência, cresceram as cumplicidades e, naturalmente, formaram-se e desenvolverm-se amizades. Foi então o tempo de conhecer a nova cultura negra, descobrir sabores e compartilhar esperanças, na maior parte bem diferentes da missão militar que me tinha sido atribuida. Dou notícia desses tempos numa pequena crónica - do meu outro livrso "Escritas na Areia" - a que chamarei "D. Chica Cambuta". Anos mais tarde comandei uma companhia nas terras dos Luenas; aí tive o previlégio de conhecer a rainha Tchizanda; já velha, mas lúcida, proporcionou-me ter conhecimento dos hábitos e história do seu povo, barbaramente partido pela Conferância de Berlim, vos territórios de Angola e do então Congo Belga.

(...)


"...Penso que, talvez por tudo isto pertencer à História recente, nunca ninguém contou o que foi o viver das gentes simples, sem políticas, só com trabalho. Tentaram fazer das terras de Angola a sua terra. Muito mais do que serem colonos, esta gente irmanou-se com os que  lá estavam há muitos séculos e tentaram ter uma vida melhor.  Erraram, quando tentaram assumir-se como colonos ao geito belga ou inglês. Esta gente humilde, condenados e aventureiros, muitos a fugir à fome, entrou pelo mato a dentro, perfilhou os filhos, mandou-os estudar na Universidade, arroteou a terra, levantou pontes, ganhou dinheiro, e com o suor e lágrimas humedeceram a terra onde, tantas vezes com as próprias mãos abriram covas para os filhos mortos. Assim se amarraram a essa mesma terra que julgavam fosse sua, pois assim lhes haviam garantido os seus senhores.

Com a ajuda de missionários de várias religiões cristãs, com o apoio dos técnicos que foram chegando, funcionários administrativos e até exilados políticos, rasgaram-se caminhos e estradas, ajudaram-se a construir Igrejas, escolas, hospitais, ergueram aldeias, vilas e cidades e, todos fizeram de Angola a nação próspera e rica que deixaram para as independências. Quando hoje, por vezes esta gente anónima é falada, é só para ser enxovalhada e rotulada de negreiros e exploradores.

Porque sempre foram gente boa, e parte deles foram sangue do meu sangue e amigos do coração, entendi ser importante -pelo menos no meu fraco entender - que alguém contasse, sem preconceitos ou enviusamentos políticos, o que foi de facto a sua história. Foi essa a tarefa a que me propus. Muitos dos factos por mim narrados posso deles dar testemunho; foram presenciados em diferentes locais durante mais de 10 anos de mobilização militar em África.

parte de um texto assinado por Antunes de Sousa
"À sombra da amizade". Conversa com Bernardino Louro
O texto integral poderá ser lido, clicando AQUI


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